Arquivo para Marcelo Schenberg

Propaganda: a Arma do Negócio

O salvador branco apóia políticas brutais de manhã, financia caridades de tarde e recebe prêmios à noite – Teju Cole, escritor nigeriano

Lembrando da minha predisposição pra plantar consciência, um grande amigo da minha esposa indicou um link no facebook semana passada e comentou “mostra isso pro Marcelo, ele vai pirar!”. Fiquei feliz com a consideração e agradeci com um sorriso de emoticon. Pouco tempo depois, outra amiga do universo da jardinagem de consciência, desta vez uma permacultora, postou um link pro mesmo vídeo. E depois veio outro, e mais outro… e hoje o vídeo é um fenômeno viral sem precedentes no gênero.

Qual não foi o meu choque quando fui conferir do que se tratava este Kony 2012 e ser lembrado, abalado, de que o ser humano tem um lado absolutamente perverso. O filme se propõe a contar a história de um líder de um grupo paramilitar africano, Joseph Kony, e a retratá-lo como um monstro comedor de criancinhas que precisa ser parado imediatamente. A história é contada a partir da vida pessoal do narrador, um americano típico que se envolveu com um garoto negro da Uganda. Este garoto, Jacob, é apresentado como um retrato fiel de uma realidade que inclui dezenas de milhares de jovens ugandenses que estão sendo abduzidos de suas famílias, torturados, mutilados, abusados e treinados para se tornarem máquinas de matar sem um objetivo definido, que não a manutenção de Kony no poder.

Primeiro, me impressiona como o filme conquistou rapidamente o coração de tanta gente no mundo, e não apenas de americanos capazes de se identificar com o estilo “Backstreet Boys crescido” de Jason Russel, o narrador. Mas faz sentido. Do ponto de vista da estratégia de comunicaçao, o filme de meia hora é um “experimento” impecável. Ele lança mão de recursos que fazem pessoas como eu e você nos identificarmos rapidamente com a causa: através de vídeos do youtube, perfil do facebook e fotos do instagram – todos com tratamento absolutamente profissional – o filminho parte da relação amorosa de Russel com seu filho pequeno, Gavin, para nos introduzir esta comovente história, e então propor uma campanha global para fazer Kony famoso através de recuros midiáticos (daí o título em referência às campanhas políticas), para que o mundo acorde para o problema e ajude a prendê-lo a qualquer custo.

No momento em que o garoto Jacob coloca as mãos no rosto e chora, logo após ser confrontado com as lembranças de seu irmão morto cruelmente pelos algozes de Kony e confessar que preferia morrer a viver nessas condições, eu me enchi de raiva e indignação. Mas não por causa de sua história de abuso e sofrimento, ou da maldade de Joseph Kony, que segundo o filme é “o pior criminoso do mundo de acordo com a Corte Criminal Internacional (ICC)” (Kadafi aparece em 24º lugar, e todos são de países africanos). Mas por estarem tentando me manipular de maneira tão ofensiva, e tão profundamente perversa.

O que se passa nas entrelinhas desta “campanha do bem” é de tal maneira ultrajante que me tirou do meu foco por dias. Há um trecho paradigmático do filme em que Russel conta que seu filho Gavin ainda não sabe exatamente o que ele faz da vida, ou do que se trata esta causa, e ele irá explicar ao garoto na frente das câmeras. Então ele coloca o menino sentado atrás de uma grande mesa e, de pé do outro lado, no melhor estilo interrogatório policial, pergunta:

“O que o papai faz pra viver?”
“Você pára os caras maus de fazerem maldade”
“E quem são os caras maus?”
O menino fica confuso.
“As pessoas do Guerra nas Estrelas”
“Do Guerra nas Estrelas?”
“É”
“Esses são os caras maus?”
“São”
Então ele pergunta se pode contar o nome do cara mau e, sob o aceno do menino,  coloca uma foto de Kony na mesa para o garoto examinar.
“Este é o cara mau?”, Gavin pergunta surpreso.
“É! E quem é este?”, ele empurra uma foto de Jacob, lado a lado com a de Kony.
“Jacob!”
“Joseph Kony tem um exército”, prossegue o pai de Gavin, enquanto toca levemente primeiro na foto de Kony e depois na foto de Jacob.
“E o que ele faz é tirar as crianças de seus pais, e então ele lhes dá uma arma, para atirar, e faz com que eles atirem e matem outras pessoas”
Enquanto fala, Russel fica tocando nas duas fotos alternadamente, e o garoto olha de uma pra outra confuso.
“Mas eles não vão fazer isso porque eles são bonzinhos, não é?”
“Eles não querem fazer, mas eles são forçados. O que você acha disso?”
“Triste”, o menino responde, enquanto se debruça sobre as duas fotos completamente perdido.

Entendeu, Gavin?

Minha filha estuda em uma escola Waldorf. Quando ela ingressou no fundamental, percebi aterrorizado a profundidade do grau de comprometimento que a educação tradicional tem com um programa sistematizado de condicionamento mental. Um programa que perdeu o foco no ser humano e só tem olhos pros exames que estas crianças terão de enfrentar quando já tiverem deixado de ser crianças há muito tempo. Nossas crianças são, por livre e espontânea vontade dos pais, educadas em fábricas de automação em série. Descobrir a educação Waldorf nesse momento foi como encontrar um tesouro escondido há muito tempo. Um tesouro de valor inestimável.

A pedagogia Waldorf tem uma visão iluminada sobre os processos de crescimento do ser humano e seu ritmo de desenvolvimento cognitivo. Segundo esta perspectiva, na etapa entre  1 a 7 anos a criança tem uma grande abertura em relação ao mundo. Ela acolhe sem resistência tudo o que lhe advém do ambiente em redor, entregando-se ao mundo com confiança ilimitada. Vive num estado de ingenuidade paradisíaca, num mundo em que o bem e o mal se confundem indistintamente.

Cuidemos de nossas crianças!

Eles estão certos. Se você tem filhos e acompanha de perto seu crescimento, fica muito fácil entender. Assim, podemos compreender que o menino Gavin, que tem por volta de 4 a 6 anos, ainda não tem um intelecto desenvolvido, capaz de processar a distinção racional que seu pai impõe, entre o menino bom e o menino mau. Então, quando é confrontado com as duas fotos, tudo o que ele vê são pessoas. Só que no meio tempo ele está sendo bombardeado por  uma história sobre homens maus, e sobre seu pai estar numa cruzada contra eles.

Acontece que estas pessoas tem uma coisa em comum, fácil de notar pelas fotos, mas que ele, Gavin, não vê em sua família. Eles são negros. Pois é. A mensagem subliminar de Russel para seu filho, e para o espectador, é profundamente racista. Mesmo que ele não tenha saído do ármário por se considerar amigo de Jacob. Mas o racismo está onipresente no filme, e isto não se deve apenas ao fato de o vilão da história ser negro, ou devido ao fato de que as fotos de Jacob e Kony uma ao lado da outra são – sob o olhar infantil – sutis variações de um mesmo arquétipo.

Mas porque o tempo todo, Jacob, o negro “do bem”, é tratado como um coitado. Não apenas por sua história de abuso e violência. Mas ele é retratado como uma espécie de “primata”, um garoto carente de ser civilizado. Há um vídeo pretensamente caseiro de uma visita dos dois um zoológico, ou parque aquático, no qual Jacob se assusta com um golfinho e é acolhido por Russel, que diz rindo, em tom paternalista, “Está tudo bem, eles são bonzinhos, são diferente dos tubarões”. Jacob é o bobo, o menino ignorante que não sabe distinguir um golfinho sorridente de um tubarão com cara de mau.

Esta visão colonizadora se manifesta ao longo de todo o filme, e mesmo assim ele é um sucesso global. Exemplos não faltam. Em outro momento, o narrador pergunta a Jacob o que ele gostaria de ser quando crescer, ao que ele responde meio sem graça, “Eu gostaria de ser um advogado, mas… eu não tenho dinheiro pra pagar as mensalidades da escola… pra que eu possa aprender e me tornar um advogado.” O vídeo enaltece a resposta do garoto com a intenção de tocar nosso coração pela falta de oportunidades que vemos em sua vida, mas o que está por trás é um pensamento arrogante e colonizador que vê as culturas alheias à ocidental como povos primitivos que anseiam em serem salvos e se tornar como nós.

Se você já teve algum contato com outras culturas não ocidentais, sabe que não é possível compará-las com a nossa a partir de premissas que só fazem sentido na mente ocidental. Assim, ir pra escola ou se tornar advogado não é necessariamente uma opção desejável. Isto é o que nós fomos condicionados a pensar como um objetivo digno, na nossa cultura. “Médico, advogado ou engenheiro”…. não são estas as profissões que aprendemos serem dignas de respeito (e às vezes únicas opções) com as gerações anteriores? Logo, sugerir que os garotos negros da Uganda sofrem porque sonham em vão com a faculdade de direito é projetar indiscriminadamente e de maneira desrespeitosa o seu próprio condicionamento mental nos outros.

Aula de geografia americana

Russel se vangloria de sua organização ter financiado a construção de escolas na região. A mesma ladainha que governantes usam para gerar números para campanhas. Construir escolas por si só não é mérito. Que espécie de valores serão ensinados ali? Do que a comunidade necessita de fato? De uma amostra grátis do american way of life, que por sinal nem mais na “América” está aguentando o teste do tempo? E os valores ugandenses, e sua história, suas tradições, sua visão de mundo? Ninguém considera esta questão.

Mas isso não é tudo. Este jogo psicológico cruel que Russel faz com seu filho diante das câmeras é repulsivo. Você já ouviu esse discurso do “cara mau” antes. Da boca de gente como George Bush, Giulliani, Dick Cheney e todos aqueles que alimentam o medo do “Terror” e usam bodes expiatórios como Kony, ou Bin Laden, ou Saddam Husseim, para justificar suas atitudes intervencionistas e seus genocídios em nome de uma campanha “contra o mal” (e a favor do petróleo, claro).

Este jogo de espelhos está baseado numa premissa da sociedade moderna de que o mal está lá fora. Que existe “eles contra nós”. Os americanos são profissionais em fazer uso deste temor psicológico para fins diversos. A mídia aponta dedos pros monstros externos o tempo todo para que não olhemos pra dentro de nós mesmos. Somos tratados, como sociedade, da mesma forma que Russel trata o seu filho: como crianças psicologicamente manipuláveis, como massinha de modelar, através de recursos que exploram o medo na sua forma mais arquetípica.

Agora talvez esteja ficando claro, se você viu o vídeo e se sensibilizou logo de cara. Você já viu dezenas de dramas assim. São métodos eficientes da propaganda que seduzem o espectador pelos instintos mais primitivos. Primeiro, empatia e identificação. Depois, choque, terror, raiva, pena, indignação. E finalmente uma oferta irrecusável para você ajudar a salvar o mundo, acompanhado de kits de produtos customizados para você desembolsar o seu rico dinheirinho e literalmente “vestir a camisa” de uma causa que “vale a pena”.

Felizmente eu não estou sozinho nesta indignação. A organização de Russel tem um passado sombrio e questionamentos diversos sobre a idoneidade de sua campanha estão surgindo. O editor de ambiente do The Guardian, John Vidal, lembra com correção que “por trás do vídeo e do site caprichados, e do discurso tocante sobre ‘mudar o curso da história’, existe uma operação nariz-empinado de olho na grana, comandada por cineastas, contadores, experts em comunicação, lobistas e vendedores profissionais americanos.”

Mas se os críticos estão de olho nos números, poucos são aqueles que estão questinando a campanha por sua devassidão moral. Pra piorar o que já estava ruim, Russel não esconde seu desejo intervencionista de ver tropas americanas na Uganda. Ele comemora de punhos pro ar a conquista suada de uma declaração do presidente Obama consentindo com o envio de um “pequeno contingente de homens do exército para ajudar as forças regionais que estão trabalhando para remover Joseph Kony do campo de batalha”. Chega inclusive a sugerir que “para que Kony seja preso ainda este ano, o exército de Uganda tem que encontrá-lo. Mas para que encontrem-no precisam da tecnologia e do treinamento para localizá-lo dentro de uma vasta floresta. É aí que entram os assessores americanos ”. Mais uma vez, já vimos este filme antes, só que o cenário em questão eram as cavernas no deserto, lembra?

O que o filme não conta é que Kony não está mais na Uganda, e seu exército paramilitar decadente consiste hoje em umas poucas centenas de pessoas. Na melhor das hipóteses, Russel chegou tarde. Na pior, tem coisa por trás desta história.

No documentário italiano O Novo Século Americano, o diretor Maximo Mazzucco lembra que  “a Constituição Americana não permite aos EUA começar uma guerra de agressão, e reserva ao Parlamento declarar guerra a outra nação, no caso que torne-se necessário defender-se. Por este motivo, cada vez que um presidente quis tomar parte numa guerra ou começar uma nova, teve que esperar um incidente militar, criado ou provocado, para justificar de alguma maneira a intervenção armada frente ao Parlamento e à população.”

E assim a história se fez. Em 1898, os EUA travaram uma guerra contra a Espanha pelo domínio de Cuba, que era estratégico para o controle do Golfo do México. O pretexto de guerra veio do afundamento do navio militar USS Maine, que estava ancorado no porto de Havana. Os americanos imediatamente culparam os espanhóis, ainda que eles se declarassem completamente inocentes. As imagens do barco semi-afundado e dos funerais dos marinheiros foram projetadas nos primeiros cinemas de toda a nação, gerando um estado de indignação suficiente para poder lançar uma guerra, que o futuro presidente Roosevelt, então Ministro da Marinha, havia preparado até o mínimo detalhe. Foi somente em 1980, quase um século depois, que os americanos reconheceram que os espanhóis eram de fato inocentes do ataque, mas declararam, para se isentar da culpa, que o Maine havia sido afundado porque alguns explosivos foram colocados muito próximos à caldeira.

Desde então, todas as guerras foram provocadas por “false flags”, como estas “iscas” são chamadas lá fora: em 1915, foi o afundamento do barco Lusitânia por um submarino alemão, que precipitou a I Guerra Mundial. Em 1941 foi o conhecido ataque a Pearl Harbor (II Guerra); em 1964 o Incidente do Golfo de Tonkin (Vietnã); em 1990 a invasão do Kuait (Guerra do Iraque) e em 2001 o 11 de Setembro (Guerra ao Terror). Todos estes “incidentes” ocorreram em circunstâncias nebulosas e há incontáveis relatos, evidências e documentos apontando para o fato de que todos foram premeditados ou provocados de alguma forma.

Dizem que a história acontece primeiro como tragédia e se repete como farsa. Se este Kony 2012 é uma nova modalidade de “false flag”, só o tempo dirá, e não vai demorar. Mas abra o olho. Antes de sair compartilhando Kony 2012 pelos quatro ventos, lembre-se do aviso que o próprio filme traz em sua abertura: “os próximos 27 minutos são um experimento. Mas para que ele funcione, você deve prestar atenção”.

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365 dias para o fim do mundo

“Um outro mundo não é apenas possível, mas ela está a caminho! Num dia calmo, se você ouvir atentamente, conseguirá escutá-la respirando.”
Arundhati Roy

Primeiro veio a Tunísia. Logo depois veio o Egito. Então foi um efeito dominó: Iêmen, Líbia, Síria, Bahrein. Mas a Primavera não foi só árabe. O povo foi às ruas também na Grécia, Espanha, Portugal, Londres, São Paulo, e finalmente ocuparam Nova York, se espalhando daí para o resto do mundo. Apesar das manobras da mídia pra fragmentar os acontecimentos e assim impedir que nossa atenção construa um modelo significativo dos fatos, o ano de 2011 vai ser lembrado como “o ano do basta”, e os motivos são claros pra quem tem os olhos abertos: o fim do mundo está chegando.

O desenvolvimento chega à Amazônia

Como se não bastasse, 2011 vai ser lembrado também como o ano em que a ficção se tornou fato, e o Brasil decidiu protagonizar sua própria versão do filme Avatar. Acho que não é necessário dizer de que lado infeliz o governo e a mídia decidiram jogar. Belo Monte, as alterações no Código Florestal e a prospecção de petróleo em Abrolhos, colocam o Brasil no papel principal como arquiinimigo da natureza neste começo de década. É uma declaração de guerra. Nem o vazamento da Chevron adianta para aqueles que nos governam hoje: o pensamento desenvolvimentista não escuta a linguagem dos ecossistemas pois não se reconhece como parte integrante da teia da vida.

Pra piorar, a Coréia do Norte esquenta a frigideira geopolítica mundial de imprevisto neste fim de ano, e os EUA se preparam para decidir se irão de fato se tornar um estado policial digno do romance 1984 com a 2012 National Defense Authorization Act. E agora? Que fim do mundo é esse? Vamos ser engolidos por catástrofes naturais? Vamos entrar na 3ª Guerra Mundial? Vamos todos perecer em agonia, num enorme suicídio coletivo assistido?

Temos que ser cuidadosos com os significados. Em paralelo à campanha de desinformação da mídia, as idéias apocalípticas estimuladas por blockbusters de Hollywood e igrejas messiânicas também fazem parte de um tendência inconsciente de se banalizar significados profundos. Porque não é possível lucrar com a profundidade, mas a banalização é uma galinha dos ovos de ouro.

 Crise e Transformação

O fim do mundo não é uma profecia exclusiva dos místicos (que, nesta sociedade regida pelo materialismo científico, significa a mesma coisa que loucos). Em 1982, o físico austríaco Fritjof Capra publicou O Ponto de Mutação, livro no qual explicava, a partir de uma interpretação da história do pensamento ocidental através dos conceitos do I-Ching, como estávamos rumando para o fim de uma era, e como o fim do mundo é na verdade uma enorme crise de paradigmas.

No futuro, Capra será lembrado como uma das mais brilhantes e fundamentais mentes do século XX. Mas hoje, em tempos de crise, seus livros são mais facilmente encontrados em sebos, curiosamente perdidos em meio à seção de esotéricos. Por mais esdrúxula que possa soar, esta situação é decorrente do ostracismo acadêmico de um autor que ousou traçar paralelos entre a física do século XX e o misticismo oriental (no famoso O Tao da Fisica). Para a ciência dominante, de vocação newtoniana-cartesiana, falar em misticismo implica automaticamente a perda de credibilidade. No entanto, a física subatômica do século XX não é compatível com o pensamento mecanicista do materialismo científico, uma situação extremamente embaraçosa que o modelo vigente evita debater a qualquer custo.

De qualquer forma, Capra não foi o único ocidental a se encantar com o I-Ching. O escritor alemão Hermann Hesse também foi outro que mergulhou nesta sabedoria. Em seu último romance, O Jogo das Contas de Vidro (1943), os personagem fazem predições com o oráculo ancestral. Em prefácio para a tradução inglesa do “Livro das Mutações”, em 1949, Carl Jung relata como ele mesmo consultou o I-Ching para decidir se escreveria ou não o prefácio, e resumiu a qualidade atemporal do texto chinês ao dizer que “o I-Ching não oferece provas nem resultados; não faz alarde de si nem é de fácil abordagem. Como se fora uma parte da natureza, espera até que o descubramos. Não oferece nem fatos nem poder, mas, para os amantes do autoconhecimento e da sabedoria – se é que existem -, parece ser o livro indicado (…) Aqueles a quem ele não agradar não têm por que usá-lo, e quem se opuser a ele não é obrigado a achá-lo verdadeiro. Deixem-no ir pelo mundo para benefício dos que forem capazes de discernir sua significação”.

Finalmente, em 1975, dois irmãos etnobotânicos pareceram ser estas pessoas capazes de discernir sua significação, tal qual sugerido por Jung. Levando a compreensão do I-Ching a outros patamares, Terence e Dennis Mckenna publicaram The Invisible Landscape:Mind, Hallucinogens, and the I Ching (A Paisagem Invisível: Mente, Alucinógenos e o I-Ching, inédito no Brasil). Uma obra ousada, fascinante e densa (em alguns momentos praticamente impenetrável por quem não é versado em química), o livro dos irmãos Mckenna pode ser lido como uma versão contemporânea e altamente modernizada da psicoterapia jungiana com ênfase na química cerebral a nível molecular, e se manteve na obscuridade por anos até ressurgir recentemente em meio ao revival da ciência psicodélica e à elevação de Terence (falecido em 2000) ao status de profeta dos tempos modernos, ou o “Copérnico da Consciência”.

A Paisagem Invisível foi escrito a partir de uma expedição científica à Amazônia colombiana em busca de dados experimentais que comprovassem uma teoria complexa sobre a consciência que envolvia uma interpretação matemática dos hexagramas do I-Ching, conceitos da física quântica, química molecular e uma especulativa teoria holográfica da mente, acompanhados de uma boa dose de psicodélicos. Ao dissecarem o I-Ching como um antigo código binário digital e introduzi-lo num computador, os McKenna chegaram a um gráfico que, segundo eles, propunha uma descrição matemática rigorosa da estrutura temporal do universo. Leia o resto deste post »

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A psicologia dos contos de fadas

Foi uma semana daquelas.

Sentindo-se encurralado nos negócios e alheio ao que acontece no seu próprio lar, suas últimas noites foram mal dormidas, repletas de insegurança e preocupação. Então, em meio a um sonho estranho, um misto de delírio com pesadelo, que juntava – sobre a cobertura de um prédio – uma festa com um julgamento, uma celebração bizarra de polaridades, onde ex-funcionários seus curtiam ao mesmo tempo em que o botavam no pau, o pai é desperto por duas mãozinhas que o chacoalham fragilmente no escuro das 2 horas da manhã.

- Papai…

- …

- Papaai…

- Hmmm… Oi… filho… hmm que aconteceu?, ele resmunga acendendo o abajur e cerrando os olhos, agredidos pela súbita luminosidade no quarto.

Sabendo que irá esquecer deste sonho estranho em poucos instantes, o pai tenta repassá-lo rapidamente na cabeça, pra tentar tirar algum significado dele. Mas as imagens se misturam com a súbita consciência de que seu filho está ali precisando dele, seu filho que anda tão desamparado, para quem ele não tem conseguido preencher seu papel de protetor, tão ocupado que anda com seus próprios interesses.

- Papai, tá doendo… o menino fala com um biquinho de cortar o coração, interrompendo seus pensamentos.

- Hã? Doendo… o que aconteceu?

- Tá doendo aqui – o garoto levanta a camisa do pijama e aponta, com voz trêmula, a um instante de cair aos prantos, para uma inofensiva marca de nascença no lado esquerdo da barriga, que sempre esteve lá.

- Eu não consigo dormir… porque tá doendo aqui – a frase soa quase como um lamento musical em sua delicadeza infantil.

O pai se ergue e, já ciente do que está acontecendo, senta-se na beirada da cama e segura seu filho com as duas mãos ao redor dos ombros.

- Hmmm… tá dodói meu amor?

- Tá… – o menino começa a choramingar

- O que aconteceu? – Pergunta o pai, como se esperasse inconscientemente que o garoto respondesse aquilo que ele, em sua maturidade, já sabe.

- Um bicho me picou.

- Hã? Bicho? Picou?! – por um momento ele fica alerta com a notícia, mas, olhando para a barriga do menino, logo percebe que é um recurso infantil, a única maneira que o garoto tem de expressar o medo que seu pesadelo despertou.

- Tá doendo!

Ainda atormentado por um obscuro sentimento de culpa que foi desenterrado pelo seu próprio sonho, e ciente dos acontecimentos recentes, ele, como bom homem de negócios, enxerga uma possibilidade de ouro para reconsquistar a confiança do garoto. A idéia passa como um raio, quase insconscientemente, mas a motivação fica. O pai então se inclina para dar um beijo na barriga do filho, que se afasta, empurrando-o com os braços e virando a cabeça pro lado.

-Pára !

- Calma filho, é só o papai, não é o monstro que está aqui agora.

E, enquanto faz um carinho, diz:

- Já vai sarar, papai está cuidando do seu machucado.

Então ele se levanta e completa,

Eu vou pegar este bicho que te picou filho, e vou matar ele pra ele nunca mais machucar você!

O pai calça os chinelos e vai até o quarto do garoto, que permanece onde estava, choramingando ao lado da mãe, que sem se levantar o abraça na cama. O menino ouve então uns barulhos lá no outro quarto, e então escuta a voz abafada do seu pai dizer enfaticamente “Arrá! Te peguei! Seu monstro, você nunca mais vai machucar o meu filho! Toma aqui!”. O menino escuta então o ruído de se abrir e fechar a janela do quarto.

- Pronto!

O pai volta ao quarto do casal e diz pro garoto, cheio de firmeza “Prontinho filhão! Achei o bicho que te picou! Ele era feio e mau, mas era um covarde. Onde já se viu atacar  meninos pequenos! Mas eu sou maior que ele.

O garoto fica olhando o pai ali de pé, entoando seu pronunciamento com a firmeza de uma rocha, e sente um calorzinho acolhedor subir pela sua espinha, um sentimento de justiça e de segurança, de estar protegido por um herói.

- Ele tava se escondendo debaixo da sua cama, veja só! Mas eu peguei o bastardo! Esse monstro já era! Você nunca mais vai ver ele andando por esta casa.

O menino sorri, embora ainda fragilizado pelo efeito do pesadelo, e é acalentado pelos pais por uns instantes, em silêncio.

Então ele se afasta um pouco do pai, dá um suspiro, olha pra cima, bem no seu rosto, e com a face ainda pintada pelas lágrimas diz:

- Papai, você não matou monstro nenhum!

- O quê meu filho?!!

- É mentira!

- Quê isso filhão! Papai pegou ele, acabou com ele, você ouviu tudo!

- E cadê ele?

- Eu o joguei lá fora, pra bem longe filho!

- Eu não vi nada! Por quê você não me mostrou que pegou ele então?

- Filho, ele era muito feio, tava morto! Se eu mostrasse pra você, você ia ficar assustado. Ia ter até pesadelo depois! Papai nao faz essas coisas!

- É mentira!

- Meu querido, por quê o papai mentiria pra você?

- Você mentiu pra mim que o coelinho da Páscoa e o Papai Noel existiam! Você mentiu pra mim que ia na minha apresentação! E você disse que nunca mais ia deixar o João Pedro me bater na escola. Você prometeu que nunca mais ia brigar comigo!

O pai olha para o filho com seriedade e sente um cansaço. Por um momento ele fica com vontade de pedir desculpas, mas logo engole esta vontade, lembra-se que está com sono e repete pra si mesmo que este moleque precisa de um psicólogo. Ou de um remédio. Ou ambos. Então ele simplesmente diz:

- O papai matou o bicho que te machucou filho. Se você não acredita no papai é porque o monstro e os amigos dele ficaram sussurrando idéias erradas no seu ouvido que confundiram a sua cabeça. Agora vamos dormir senão eu vou te botar de castigo.

Por Marcelo Schenberg

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O retorno de Gojira

No início, nada existia.
Apenas escuridão e silêncio.
Só existiam os criadores.
O Coração do Céu e o Coração da Terra.
De repente surgiu a aurora e a claridade se fez.
Apareceu a Terra com suas montanhas e árvores.
Depois, os animais foram criados, todos os tipos de animais.
E eles deveriam venerar os deuses, mas eles eram incapazes de falar.
Foi então que os primeiros seres humanos foram criados.
E eles foram feitos de barro.
Mas essas pessoas não ficaram boas.
Elas não tinham sentimentos, nem capacidade de entender.
E não louvavam os deuses.
Não tinham forças e não podiam se mover.
Então os deuses destruíram essas pessoas com uma enorme tempestade.
Na segunda tentativa, os deuses criaram homens de madeira.
Da madeira entalharam suas faces. Da madeira fizeram seus corpos.
E pareciam com seres humanos.
Eles se reproduziram e povoaram a Terra com seus filhos e filhas.
Mas os seres de madeira seguiam sem rumo.
Eles cortavam as árvores, matavam animais e destruíam o meio ambiente.
Eles não possuíam alma ou compreensão.
Eram destrutivos e não louvavam os deuses.
Então, a morte foi lançada sobre eles.
Choveu o dia todo e a noite toda.
E eles foram exterminados por uma enorme enchente.
Na terceira tentativa, o Coração do Céu criou seres humanos de milho.
Esses seres foram colocados na Terra e eram capazes de compreender e ver tudo que os cercava.
Eram capazes de enxergar longe e ver coisas que estavam escondidas.
Estavam conectados a todo o cosmos e viviam em equilíbrio com o mundo natural.
Mas os deuses perceberam que haviam dado poderes demais aos humanos.
Então, sopraram uma névoa sobre seus olhos.
Com a visão limitada, os seres humanos de milho caminharam sobre a terra e se reproduziram.
Lentamente, eles se distanciaram do mundo natural.
Esqueceram-se de como louvar os deuses e respeitar a Natureza.
O ciclo do tempo, a era dos seres de milho está chegando ao fim.
Haverá uma nova era para os seres humanos na Terra?

“Todas as condições meteorológicas estão levando a radioatividade para o mar, sem implicações para o Japão ou outros países próximos” – Maryam Golnaraghi, coordenadora do programa de redução de riscos em desastres nucleares.

A antiga profecia maia, que abre este texto e também o documentário 2012 Tempo de Mudança (que o Plantando Consciência trouxe  para São Paulo no final do ano passado e que deve entrar em circuito nacional este ano), se encaixa na tragédia japonesa como o sapatinho de cristal no pé de Cinderela. E cabe também como resposta à miopia implícita na frase de Maryam Golnaraghi1,que revela o quão alienado é o senso comum. Olhamos para tudo o que acontece sempre do ponto de vista antropocêntrico, como fossemos de fato o centro do mundo, alienados da grande “teia de aranha” que conecta tudo o que existe, inclusive cada um de nós.

Por isso, quando a natureza se torna este poder primitivo indomável, que já deveríamos ter subjulgado com o nosso inegável progresso científico-tecnológico, nós mergulhamos num poço de incompreensão e angústia. “Como?”, o homem civilizado se pergunta. E de seu ponto de vista dualista e estritamente materialista, que separa a natureza – esta força devastadora – de nós – a civilização -, o homem civilizado fica aliviado de saber que a radiação esteja sendo levada ao mar. Melhor lá com eles do que aqui entre nós.

Os jornais usam títulos como “Natureza em Fúria”, e em seus editoriais concluem derrotados que “por mais bem preparado que esteja um país e por mais bem treinada que esteja sua população, é limitada a capacidade humana para conter os efeitos das catástrofes naturais”2. Ou, “a situação do Japão, que pertence ao grupo das nações mais ricas e mais tecnologicamente avançadas do mundo, fornece um clássico exemplo de como os humanos ainda estão desamparados em face da fúria da natureza”3.

O que esta visão antropocêntrica materialista não quer ver é que o ser humano SEMPRE será desamparado em face da “fúria da natureza”, porque o ser humano PERTENCE à natureza. O ser humano não dominou a natureza e jamais o fará, porque no dia em que isto acontecer estaremos condenados a perecer com ela.

Pra entender o que está acontecendo, ou pra evitar consequências drásticas toda vez que a natureza manifestar sua força, não adianta construirmos computadores mais impressionantes, ou nos protegermos ainda mais. Este viés moderno que joga a civilização contra a natureza é uma ilusão que carregamos desde o início da Idade Moderna, como nos conta o filósofo e reformista Rudolf Steiner, que teria completado 150 anos em Fevereiro último.

A Idade Moderna, que teve início em meados do século XV com o Renascimento, é definida, segundo Steiner, a partir de quando “o economista começou a emergir na civilização moderna como o tipo representativo de governante”4, substituindo o clero, que havia substituído, por sua vez, os “iniciados” do Egito, Babilônia e Ásia antigos. Estes últimos, os povos ancestrais, “sabiam que seu corpo era constituído não apenas de ingredientes que existem aqui na Terra e que são incorporados nos reinos animal, vegetal e mineral. Ele sabia que as forças que ele via nas estrelas acima trabalhavam em sua existência como humano, ele se sentia um membro de todo o cosmos.”5

Steiner, sempre à frente de seu tempo, tinha uma observação perspicaz a nosso respeito. “O pensamento humano de hoje – o presente intelecto – vive num estrato da existência de onde não se é possível alcançar as realidades profundas. Alguém pode então provar alguma coisa estritamente, e também provar seu oposto. É possível hoje se provar o espiritualismo de um lado e o materialismo de outro. Pela racionalização intelectual ou científica de hoje, alguém pode provar qualquer coisa tão bem quanto pode provar seu oposto. E as pessoas podem brigar uns com os outros por pontos de vista igualmente bons, porque seu intelecto está numa camada superior da realidade e não consegue descer para as profundezas da existência.”6

Se estivéssemos todos capacitados a descer às profundezas da existência, entenderíamos a catástrofe japonesa não como uma fatalidade, mas como consequência.

Gojira

A vida imita a arte: Em 1954, nove anos depois de Hiroshima e Nagasaki, Ishirō Honda expressa o trauma generalizado das bombas atômicas ao criar Gojira (depois renomeado no mercado americano para Godzilla), um filhote bastardo dos testes nucleares no Pacífico, que tem a dorsal brilhante, cospe fogo atômico e deixa pegadas radioativas.

O jornalista Clóvis Rossi conta em interessante artigo sobre as conexões “fáusticas” do incidente japonês (fazendo analogia entre o pacto com o demônio que fez o personagem do mito imortalizado por Goethe, e a nossa perigosa barganha para obter o poder do átomo em nossas mãos) que, mesmo após o pânico nuclear, “Michael Levy, pesquisador-sênior do Council para energia e meio-ambiente, dizia ser cedo demais para uma avaliação sobre a eventualidade do retrocesso do que antes se chamava de ‘renascença do nuclear’”7. Claro, há muito dinheiro em jogo na indústria da energia nuclear, assim como há na indústria dos transgênicos, dos pesticidas, da extração de petróleo, da especulação financeira, das armas, do tráfico de drogas etc etc. Pela lógica intrínseca do capitalismo, estes problemas jamais serão resolvidos, pois eles são o próprio alimento para a continuidade alucinada do sistema.

Em contraste com a ciência natural, que é baseada na análise experimental causal, Goethe – uma das maiores influências no pensamento de Steiner – procurava a unidade universal da natureza. No fenômeno original  da natureza ou nos arquétipos dos mundos vegetal e animal, ele descobriu uma seqüência de manifestações de conteúdo espiritual para os quais o homem é capaz de dar expressão deliberada em seu próprio microcosmo.8

Steiner parte de Goethe para construir sua própria cosmogênese. Ele acreditava que o pensamento manifesto em idéias é na verdade a essência do universo. O físico quântico Amit Goswami, um século depois, reverbera as teorias de Stenier ao chamar isto de “causação descendente”, ou seja, em vez de pensar na matéria  como base da existência, a física quântica parte da premissa que a base de tudo é a consciência. Voltando a Steiner, um esforço deliberado de cognição resultaria em constante progresso em direção à “fundação do mundo”.

Assim como nos primeiros escritores românticos, a crítica do criador da antroposofia para a modernidade busca a reconciliação entre ciência, religião e arte – uma nova mitologia cultural, se originando do aprimoramento do processo do pensamento até que ele se torne a experiência intuitiva do Conhecimento Original.9

À época do tsunami asiático de Dezembro de 2004, que atingiu áreas de reserva ecológica, a falta de corpos de animais após o início das buscas espantou as equipes de resgate. Desde então a idéia de que os animais teriam um “sexto sentido” que os teria mandado fugir em tempo começou a circular pela internet. A história está começando a circular de novo, e não vale dizer que é fruto de crendice em bobagens paranormais. Os animais, diferentes de nós, estão conectados de forma integral com a natureza, em completa simbiose com a inteligência oculta de Gaia. Eles sentem com aqueles sentidos primitivos que nós desligamos desde que nos tornamos civilizados.

Assim, desconectados, nós choramos a devastação provocada na humanidade pelas forças da natureza e, incapazes de perceber o pacto faustiano que fizemos com o “demônio atômico”, choramos também pelas atrocidades e fatalidades do passado, como Hiroshima e Nagasaki, Chernobyl. Nós choramos toda vez que vidas humanas são ceifadas. Mas quem chorou pelas 2053 explosões nucleares a título de “teste” detonadas por 7 nações sobre e sob o solo do nosso planeta entre 1945 e 1998 (1032 delas apenas pelos EUA)?


Veja este belíssimo mas assustador mapa temporal das explosões feito pelo artista japonês Isao Hashimoto

Desde 1963 explosões submarinas e atmosféricas foram banidas, então a grande maioria destas explosões foram subterrâneas. Estaria Gaia, nosso planeta mãe, revidando mais de meio século de agressões nucleares em seu tecido subcutâneo? Chamando nossa atenção para o nosso próprio histrionismo? O que o seu corpo faria se você constantemente o cutucasse com uma brasa de cigarro, machucasse sua pele com micro cargas atômicas localizadas por anos? Alguma doença cutânea, matando milhares de células localizadas? Câncer de pele?

As analogias não são meras metáforas. É tarde pra continuarmos nos iludindo. O micro, o macro, tudo funciona como um padrão. A forma espiralada do DNA se repete nas galáxias, tudo segue uma lógica inteligente. Os resultados de nossas ações são inevitáveis nesta realidade entrelaçada, e enquanto nossas ações forem destrutivas, as consequências também o serão. Apenas colhemos o que plantamos. Nós podíamos plantar consciência, mas  plantamos energia atômica no solo por mais de meio século, e agora, sem querer desmerecer os esforços humanitários em prática, não devíamos estar surpresos quando percebemos que chegou a hora da colheita.

1 Folha.com, Ventos levam radioatividade de usina no Japão para o Pacífico, 15/03/2011
2 O Estado de São Paulo, editorial da edição de 16/03/2011
3, 7 Clóvis Rossi (Janela para o Mundo), O Japão, Fausto e o átomo, 14/03/2011
4, 5, 6 The Ahrimanic Deception, Lecture by Rudolf Steiner (Zurich, October 27, 1919).
8, 9 Heiner Ullrich, Rudolf Steiner (1861-1925), originally published in Prospects: the quarterly review of comparative education (Paris, UNESCO: International Bureau of Education), vol.XXIV, no. 3/4, 1994, p. 555-572.

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Fazendo as pazes com Papai Noel

Você já parou pra pensar por que levamos pinheiros pra dentro de casa, os decoramos com bolas coloridas e colocamos presentes ao seu redor no Natal? Qual é, de fato, a origem da simbologia natalina?

Enquanto a maioria de nós entende o Natal como um feriado cristão que simboliza qualidades elevadas de caráter como solidariedade, compaixão, esperança, altruísmo etc; apesar de celebrado no mundo inteiro, o evento causa sentimentos controversos. Para uma parcela mais radical a data representa uma espécie de celebração do consumismo materialista e da ganância, banhado com uma calda de hipocrisia. Por outro lado, alguns entusiastas do Natal acreditam que manter uma criança crente na existência do Papai Noel é de certa forma uma crueldade, uma vez que mais tarde elas descobrirão que foram enganadas pelos seus próprios pais. E se perguntam, justamente, que, “se não queremos que elas mintam, porque mentimos para elas?”.

Temos também uma frente mais recente, oriunda da paranóia policiadora do politicamente correto, que também está em guerra contra o bom velinho, que vem sendo crucificado por “sua massa corpórea estar muito além do que recomendam os médicos” (!!),  ataque respaldado por uma manipulação de estatísticas que conclui que “Há uma correlação entre os países que mais veneram o Papai Noel e altos índices de obesidade infantil” (!!!).

Como tudo no mundo contemporâneo, é claro, o buraco é sempre mais embaixo.

“Então, por quê as pessoas levam pinheiros pra dentro de suas casas no solstício de inverno e colocam pacotes coloridos (vermelho e branco) ao redor de seu tronco, como presentes para demonstrar seu amor pelo próximo e como representações do amor de Deus e da dádiva da vida para seus filhos? É porque, embaixo do tronco do pinheiro é a localização exata onde se pode encontrar a mais sagrada substância, a Amanita Muscaria, na natureza.” – James Arthur, “Mushrooms and Mankind”

A Amanita Muscaria é o cogumelo vermelho de pintinhas brancas que habita nosso inconsciente coletivo e a literatura das fadas e do mundo da magia, e que cresce quase que exclusivamente em redes de micélios que coexistem simbioticamente com os pinheiros nos países nórdicos. Também conhecido como o “fungo voador”, seu igrediente ativo principal é o ‘muscimol,’ bem como traços de DMT, ou a “molécula do espírito”, um enteógeno que, de acordo como Dr. Rick Strassman, PHD e pesquisador especializado na molécula, possui fortes evidências de ser produzido pela glândula Pineal no cérebro humano.

“O próprio nome ‘Christmas’ é uma palavra composta de ‘Christ’ (Cristo, no sentido daquele que é embebido com a substância mágica’ e ‘Mass’ (Missa, o trabalho religioso ou cerimônia de ingestão da eucaristia sacramental, o Corpo de Cristo’). Na tradição católica, esta substância (corpo/soma) foi substituída pela doutrina da ‘transubstanciação’, em cujas cerimônias os padres clamam a habilidade de transformar uma bolachinha redonda (a hóstia) no Corpo de Cristo literal; ou seja, um susbtituto, ou placebo.” - James Arthur, “Mushrooms and Mankind”

Ao passo que a maioria de nós entende o Natal como um feriado cristão, ele tem suas origens em tempos mais remotos, das tradições xamânicas dos povos tribais do norte da Europa pré-cristianismo. Esses cogumelos eram usados pelos povos ancestrais para clarividência e experiências transcendentais. A maioria dos elementos da tradição natalina, como o Papai Noel, as árvores de Natal, as renas voadoras e a troca de presentes são baseadas nas tradições que envolviam a colheita e consumo desses cogumelos sagrados.

Os povos ancestrais da região, incluindo os Lapps da hoje Finlândia, e as tribos Koyak das estepes centrais da Rússia, acreditavam na idéia da “Árvore do Mundo”. A Árvore do Mundo era vista como uma espécie de eixo cósmico, no qual os planos do universo são afixados. As raízes da Árvore do Mundo se esticam pra dentro dos mundos inferiores, seu caule está na “Terra do meio”, da existência cotidiana, e seus galhos alcançam pra cima, em direção aos reinos dos céus. Para os povos ancestrais, esses cogumelos eram literalmente as “frutas da Árvore”.

A Estrela do Norte também era considerada sagrada, uma vez que, ao olho do observador, todas as outras estrelas rotacionavam em torno deste ponto fixo. Eles associavam esta “Estrela Polar” com a Árvore do Mundo e o eixo central do universo. O topo da Árvore do Mundo tocava a Estrela do Norte, e o espírito do xamã escalava a árvore metafórica, passando para o reino dos deuses. Este seria o significado original da estrela no topo da árvore de Natal moderna, e também o motivo pelo qual o “super-xamã” Papai Noel vive no Pólo Norte.

As analogias prosseguem. Um dos efeitos colaterais da ingestão da Amanita é sentido na pele, através de uma “vermelhidão” que pode ser percebida com mais facilidade nas extremidades do rosto. É por isso que o Papai Noel é sempre ilustrado com nariz e bochechas avermelhados. Até seu riso “Ho, ho, ho!” corresponde de certa forma ao riso eufórico daqueles que mergulham na indulgência com o fungo mágico.

Papai Noel também se veste como um coletor. Quando era tempo de sair para fazer a coleta dos cogumelos mágicos, os xamãs ancestrais da Sibéria vestiam-se de forma correlata, com casacos de pele e longas botas.

Os povos da região viviam em tendas feitas de madeira e pele de rena, chamadas “yurts”. A chaminé central dessas tendas era também usada de entrada, uma vez que o enorme volume de neve que se acumula no solo bloqueia uma entrada frontal. Após a colheita, os xamãs voltavam pra casa com seus sacos cheios nas costas. Ao adentrar as tendas dos habitantes destas tribos, eles presenteavam os mesmos com os frutos mágicos de sua colheita. Também não é coincidência que as renas que habitam estas regiões sejam grandes comedoras de cogumelos  Amanita, o “fungo voador”.

Ao compreendermos melhor as origens destas celebrações, nós podemos compreender melhor o mundo contemporâneo, e nosso lugar nele. Papai Noel não é uma mentira, e o verdadeiro espírito do Natal não reside na troca de brinquedos de plástico, mas na celebração de um presente da terra: o enteógeno, a planta ou substância capaz de gerar o “Deus interior” e as experiências reveladoras e visionárias que dele podemos extrair, que no fundo remetem ao grande denominador comum entre todos nós: o amor e a comunhão.

Nós do Plantando Consciência desejamos um Feliz Natal a todos, e um 2011 repleto de visões, frutífero para o despertar!

Saiba mais:

http://www.plantandoconsciencia.org/pharma.htm

Livros (em ingles):

Mushrooms and Mankind, de James Arthur
Soma: Divine Mushroom of Immortality, de Gordon Wasson
Mushrooms, Poisons and Panaceas, de Denis R. Benjamin
- Astrotheology and Shamanism:  Christianity’s Pagan Roots
A Revolutionary Reinterpretation of the Evidence
, de Jan Irvin e Andrew Rutajit
- The Sacred Mushroom and the Cross, de John Marco Allegro

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E agora, doutor?

“Toda verdade passa por três estágios. Primeiro, ela é ridicularizada. Depois, é violentamente refutada. E num terceiro momento, ela é aceita como sendo auto-evidente“ – Arthur Schopenhauer

Educado numa família cuja única fé é na ciência, cresci entendendo que um dos pilares que sustentam a nossa civilização é a medicina moderna. Se o mundo é atormentado por guerras, violência, epidemias, dor e morte… a medicina é o antídoto e o equilíbrio para todo esse sofrimento. No meu olhar de classe média intelectualizada, todo aquele papo sobre “energias” e curas espirituais não passava de um truque psicológico pra faturar em cima de frágil crença do pobre cidadão sem educação. Energia, segundo aprendi em casa, é o que acende as lâmpadas.

Então o tempo foi passando e o caminho que as coisas tomaram não foi exatamente aquele previsto pela milagrosa sociedade capitalista científico-tecnológica, aquela que venceu a barbárie das doenças infecciosas e rituais supersticiosos. O mundo não melhorou, e curiosamente as únicas pílulas que parecem ter deixado as pessoas mais felizes são consideradas “schedule I” (a lista 1 de substâncias proibidas) de acordo com os preceitos do FDA. E não se pode comprar ecstasy na farmácia, nem mesmo com prescrição médica. Então ‘bora pros ansiolíticos e antidepressivos, as drogas da vez da sociedade moderna.

Eu não conheço ninguém que não conheça alguém que toma antidepressivos, estabilizadores de humor, calmantes ou outros da mesma sorte. Curiosamente, as pessoas que eu conheço que incluíram estes medicamentos na sua dieta são os mais bem sucedidos do ponto de vista do capitalismo: a grande maioria está “bem empregada” e conquistou uma posição financeira capaz de promover segurança e conforto. Todos estão comprando apartamentos, tem Wii com Rock Band em casa, e carros de valor cotado acima das três dezenas de milhar, pra ficar no mínimo denominador comum.

Por outro lado, riquezas acumuladas ao longo de uma vida inteira são gastas em um punhado de anos com medicamentos, médicos, enfermeiras e internações hospitalares naqueles que têm que encarar um câncer, parkinson, alzheimer e tantas outras doenças degenerativas que afetam muitos de nossos idosos (e outros nem tão idosos assim).

As pessoas “chegaram lá”, mas não encontraram a felicidade, ou a plenitude. E a medicina moderna não preencheu este vazio. Pelo contrário, Michael Jackson, Brittany Murphy e Heath Ledger têm em comum o fato de terem inaugurado a era das celebridades que morrem por overdose de remédios prescritos. O mundo moderno está em crise de consciência, e consequentemente de saúde. Crise aliás, é o termo se tornou a definição por excelência dos nossos tempos, não é?

E agora, como sair dessa? Olhe em volta. Que alternativas você consegue encontrar? Veja o modelo espiritualizado da física quântica, o olhar simbiótico da permacultura, o debate inevitável acerca da falência da guerra às drogas, a popularização da yoga, a falência moral do sistema monetário… a impressão pra quem pega o bonde andando é que voltamos aos anos 60.

E é mais ou menos isso mesmo. Como colocado no filme de João Amorim, 2012 Tempo de Mudança, existe uma idéia errônea de que os anos 60 “fracassaram”, quando na verdade as mudanças compulsórias de hábitos que estão marcando a nossa época são herança direta daquele período, pioneiro em diversas áreas como a yoga, comida orgânica, feminismo, vanguarda artística, liberação sexual, psicodelia e assim por diante.

Dentre as áreas que hoje resgatam a tradição dos anos 60 e merecem nossa atenção, uma das mais fundamentais é a  medicina. Vamos ser honestos. Os hospitais públicos estão sobrecarregados. Os hospitais privados e laboratórios de exame emergem imponentes na paisagem urbana como templos luxuosos, que oferecem mais mimos e distrações do que cura propriamente, quem já teve um parente internado sabe bem disso.

Fora dos hospitais a realidade não é muito diferente. A grande maioria das consultas médicas são motivadas primeiramente por distúrbios psicossomáticos. Segundo o professor de medicina e psiquiatria da New York Medical College PJ Rosch, 70 a 90% das visitas a consultórios médicos nos EUA são relacionadas ao estresse, que leva os americanos a consumirem 5 bilhões de tranquilizantes todo ano.

Na verdade, as pessoas acreditam no que querem acreditar e não acreditam naquilo que não querem acreditar, independentemente dos fatos e evidências” – Dr. Andrew Weil

O buraco é ainda mais embaixo. Cansados de ver milhões de vidas sendo ceifadas em nome de doenças misteriosas como o câncer e a AIDS, que mesmo após mais de um século de progresso científico-tecnológico e do desenvolvimento da medicina moderna não conseguem ser completamente explicadas ou tratadas, alguns heróis de espírito investigativo começaram a colocar em cheque estes paradigmas antes inquestionáveis. Os documentários A Casa dos Números, sobre a AIDS, e Uma Linda Verdade, sobre o Câncer, partem de perguntas tão óbvias que é como se tivéssemos esquecido de nos perguntar.

Para aqueles que desconfiam de “teorias da conspiração” e gostam de números e fontes confiáveis, basta navegar pelo site da Organização Mundial de Saúde. Enquanto que, em 1995, o relatório anual da OMS apontava a pobreza como principal barreira para o desenvolvimento da saúde no mundo, numa sociedade aparentemente saudável com excessão dos rincões de miséria, em 2008, o mesmo relatório já mudava de tom, apontando que “condições injustas de acesso à saúde, custos empobrecedores e a erosão da confiança no sistema de saúde constituem uma grande ameaça para a estabilidade social”, pedindo um “retorno a uma abordagem mais holística da saúde”.

A questão é simples: desde que a ciência dos comprimidos e da medicina alopática  monopolizou a promessa de cura, a sociedade não se tornou mais saudável. Pelo contrário, estamos na verdade mais doentes do que no passado.

A equação não é difícil de entender. A natureza corporativa da indústria farmacêutica, voraz pelo lucro em larga escala, faz com que ela só tenha olhos para drogas de “alívio imediato” (que tendem apenas a eliminar temporariamente os sintomas, ao invés de combater o problema pela raíz, forçando o uso recorrente) e desta forma inibem quaisquer tentativas de tratamento que não implique no uso dos remédios ou tratamentos alopáticos que a sustetam.

Eis então uma verdadeira pandemia: nomes imponentes como Transtorno Obssessivo Compulsivo, Transtorno Bipolar, Síndrome do Pânico e Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade tiram do paciente a responsabilidade pela sua própria situação, que é entregue aos “milagrosos” coquetéis químicos da medicina moderna, e com isso nomes como Frontal, Prozac, Ritalina, Lexotan, Rivotril entre tantos outros, são hoje tão populares quanto as dos fabricantes de celulares. Estou exagerando? Então confira esta grife esperta que lançou objetos de decoração inspirados nestes novos ícones da cultura pop.

Esta mesma indústria farmacêutica se baseia na confiança oferecida pela ciência para desmoralizar tratamentos alternativos, que geralmente são tachados de ineficazes por não terem validação científica ou até mesmo por serem inacessíveis ao método científico experimental, como a homeopatia, fitoterapia, acupuntura, aromaterapia, ayurveda, reiki e assim por diante.

“Construímos um sistema médico em que o ato de enganar não é apenas tolerado, mas recompensado”, afirmou em entrevista à Folha de São Paulo o médico Carl Elliot, professor de bioética e filosofia na Universidade de Minnesota e autor do livro “White Coat, Black Hat -Adventures on the Dark Side of Medicine” (Jaleco Branco, Chapéu Preto: Aventuras no Lado Negro da Medicina), uma viagem aterrorizante pelas falcatruas e o poder exercido pela indústria farmacêutica, que escapou a todo controle em nome do lucro. “O problema hoje é que temos um sistema de desenvolvimento de drogas orientado para o mercado e não para as coisas que as pessoas doentes precisam”, nos lembra o médico americano.

Mas uma verdade fabricada não consegue se sustentar somente em números por muito tempo. Como demonstrado nos documentários mencionados anteriormente, as mortes dolorosas de pacientes de AIDS pelo uso de tóxicos pesados como o AZT, ou de pacientes de câncer pela quimioterapia (que no fundo é um ataque irrestrito ao organismo, já que mata células indiscriminadamente, e não apenas as cancerígenas), rivalizam com as mortes provocadas pelas próprias doenças sem tratamento algum. Se é que elas são o que nós pensamos que fossem.

E os dados foram lançados. A medicina alternativa ganha espaço em meio a esta crise de controle pela nossa fidelidade. Por um lado, vemos o crescimento do uso medicinal das plantas de poder por xamãs urbanos, ou o debate acerca das propriedades medicinais da maconha ganhar atenção da mídia, por outro, novas práticas medicinais que se propõem a resgatar elementos da cultura oriental e de conhecimentos espirituais começam a penetrar nas classes mais intelectualizadas. O Plantando Consciência está acompanhando esta briga de perto, e aproveitamos para indicar dois workshops que acontecem em Novembro que devem ajudar a fomentar esta reflexão.

O primeiro, Desenvolvimento Humano Multidimensional, que acontece agora no dia 12 de Novembro, com o Dr. Fernando Bignardi, trabalha a saúde através da abordagem quântica do físico Amit Goswami. Bignardi é formado pela Escola Paulista de Medicina (EPM-UNIFESP); pós-graduado em Homeopatia, Psicoterapia, Medicina Comportamental, Biologia, Ecologia e Geriatria/Gerontologia; e é um dos defensores de que o estilo de vida da cultura ocidental contemporânea é o principal fator de doenças crônicas como a depressão, hipertensão arterial e diabetes, propondo que adotemos o modelo quântico de ser humano na questão da cura. Assista à entrevista do Dr. Fernando Bignardi para o Globo Repórter (exibida em 08/10/2010)

O segundo, Workshop de Introdução à Sintergética, nome que pode ser desmembrado em “Síntese das Energias”, acontece nos dias 20 e 21 e apresenta, através da chilena Daniela Blazquez, psicóloga residente na Austrália, uma medicina integralista que propõe uma visão holística baseada nos conhecimentos ancestrais da ayurveda, medicina chinesa, xamanismo e geometria sagrada.

O importante em ambos os casos é abrirmos nossa receptividade ao novo, ao invés de categorizarmos o que desconhecemos com uma etiqueta, motivados pelo preconceito. Olhe para si e para as pessoas ao seu redor e você também irá perceber que não é mais possível viver um mundo dualista, que promove a distinção entre a medicina “de verdade” e as “baboseiras new age”. A sociedade está doente, o planeta está doente, e aqueles modelos que tínhamos como solução estão falhando. Dê uma chance para romper com alguns paradigmas envelhecidos e talvez você descubra que, ao invés de um gigantesco iceberg no qual colidimos sem saber antecipar, como o Titanic, existe uma maravilhosa oportunidade que se abre para um mundo de saúde e de possibilidades infinitas.

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Você está pronto para a permacultura?

Paul Cezanne - Pyramide de crânes

Em 1906, Paul Cézanne, aos 67 anos de uma vida pontuada por fracassos pessoais e profissionais, morreu de pneumonia, sem saber que se tornaria um dos mais influentes artistas do século XIX , ou o “pai da Arte Moderna”. Ao longo de sua vida, suas pinturas pós-impressionistas eram ignoradas pelo público e ridicularizadas pela burguesia francesa. Apenas 3 anos antes de sua morte, o pintor teve que lidar com um artigo desmoralizante sobre seu trabalho, intitulado “O Amor pela Feiúra”, publicado num jornal de grande circulação.

Cézanne pintou a montanha de Sainte-Victoire, no sul da França e visível de sua casa, cerca de sessenta vezes, e dizia que a montanha é que mandava mensagens o chamando para ser pintada. O pintor mergulhou na Sainte-Victoire com tanta voracidade pois notava que o resultado de seu trabalho nunca era uma representação da montanha que ele observava, já que uma ligeira mudança de ângulo, luz, tempo, da vegetação e do próprio olhar do observador sempre a transformavam em outra montanha, diferente daquele que ele havia apreendido.

O artista percebia de maneira intuitiva que aquilo que tomamos como realidade é uma projeção da nossa consciência, ao invés de uma existência fixa em si, e que portanto pode se apresentar de formas distintas. O escritor Daniel Pinchbeck tem uma frase ilustrativa a este respeito: “nós não vemos o mundo como ele é, mas, em grande parte, vemos o mundo como nós somos”.

Assim como grande parte dos artistas visionários que pressentem instintivamente uma mudança em seu tempo e a retratam em termos subjetivos, Cézanne e seu uso de cores intensas, formas geometrizadas e eliminação de contornos distintos influenciou praticamente todos os movimentos de vanguarda que se seguiram à sua morte, mas sua arte só foi compreendida pela sociedade com o passar do tempo. Seu significado, ora visionário, se consolidou, foi absorvido pelo sistema e, hoje, seu estilo tem cara de “velho”.

Outra perspectiva interessante sobre o mesmo fenômeno é a do economista francês Jacques Attali. Em seu livro “Bruits” (em francês) ou “Noise: A Political Economy of Music” (“Ruído, uma Economia Política da Música”, inédito no Brasil), ele argumenta que, quando uma grande mudança social está para acontecer, ela vai se mostrar primeiro na música. De acordo com Attali, você pode identificar facilmente que tipo de música faz esse papel profético, porque as pessoas irão dizer que “isso não é música, é barulho” (qualquer semelhança com a “feiúra” da arte de Cézanne…).

Se a sua avó, que talvez tenha pensado dessa forma à época em que os Beatles chegaram ao topo das paradas, hoje acha as canções do quarteto de Liverpool um tanto charmosas, isto não se deve a um maneirismo qualquer. Essa música não é mais ruído porque o mundo que ela anunciava já chegou.

O que isso demonstra hoje, além do papel visionário da cultura de vanguarda, é o onipresente papel do tempo como professor e “limpador de pára-brisas” ideológico, permitindo clareza de visão. Algo impossível de ser atingido através da racionalização imediatista utilizada por meios de comunicação corporativos, pela arrogância da ciência materialista e por partidos e partidários políticos de qualquer inclinação. Revela também o onipresente preconceito inerente a esta parcela da sociedade, que é sempre pega de surpresa pelas ondas da história.

“Poluição é um recurso não utilizado” – Bill Mollison

A monocultura a que estamos acostumados, paisagem típica Brasil afora, com vastas plantações de cana, milho, café e outros, é um conceito permanente em nossas cabeças. Ela está lá desde que nós nos damos por gente: basta sair da cidade, e entrar em uma rodovia qualquer para deparar com vastos campos forrados de carpetes verdes, ou pastos salpicados de vaquinhas. Essa é a nossa própria definição de “interior”, ou de ambiente “rural”. No entanto, essa monocultura não foi projetada para ser permanente.

Incapaz de olhar as consequências de sua aplicação a longo prazo, o agronegócio se originou da chamada “revolução verde” das décadas de 40 a 60 – a mecanização e o uso de insumos industriais (fertilizantes e agrotóxicos), que permitem uma produção em larga escala – e transformou a paisagem global.

Mas como qualquer monocultura, esta agricultura convencional não é um sistema estável, isto é, não tem resiliência, que é a capacidade de se regenerar ao estado original (como um elástico que, após estendido, volta ao seu formato anterior). E assim, não leva o solo em consideração. Contrária aos princípios pelos quais a natureza opera, a substituição da cobertura vegetal original de uma região – baseada na relação simbiótica entre uma variedade de espécies – por uma cultura única é uma prática danosa ao solo, causando a poluição e esgotamento, e consequente dependência de adubos e insumos químicos para torná-lo novamente produtivo. O efeito colateral é uma produção literalmente envenenada e a desertificação de áreas antes ricas em biodiversidade.

Se isso soa como discurso de militante ecochato, lembre-se da questão da feiúra de Cézanne ou do ruído na música: trata-se na verdade do centro de todas as questões fundamentais para a nossa sociedade contemporânea. A crise ambiental é apenas um dos sintomas de uma grande crise estrutural, que por sua vez é fundamentada no atual sistema financeiro, ele próprio também uma monocultura (para saber mais, veja esclarecedora entrevista com o economista e co-autor do Euro, Bernard Lietaer, que, por sinal, é um dos entrevistados do filme 2012 Tempo de Mudança, que exibimos recentemente em São Paulo).

Com isto em mente, precisamos deixar claro que a tradição intelectual da esquerda brasileira não entende o ambientalismo. Inteiramente focada na substituição de um projeto de poder – dos ricos para a classe trabalhadora – essa esquerda acredita que, para fins de progresso, é necessário expandir os meios produtivos criados pelo sistema capitalista – principalmente aqueles em larga escala, dentre os quais a monocultura e o agronegócio – por entender que a população, ou a distribuição de renda, é mais importante que o meio-ambiente.

Esta mesma perspectiva acusa os ambientalistas de quererem “estacionar a produção”, uma vez que acredita que “igualdade significa produção” e que não há como “produzir sem destruir”. Herança do discurso marxista dos tempos de Guerra Fria e ditadura militar no Brasil, esta retórica é a mesma que tenta se justificar perguntando “e de que outra forma poderíamos alimentar 6 bilhões de pessoas?”

A direita, por outro lado, é tão gananciosa que é como se dissesse “dane-se, vamos cometer atrocidades para alimentar ainda mais nossa ganância”. Está interessada apenas na manutenção do esquema de poder vigente, ou na recuperação de um poder perdido, e não poupa esforços para atingir seu objetivo.

O que não é considerado nesta equação é que grande parte da produção agrícola da monocultura mundial não é destinada ao consumo da população, mas sim a abastecer as demandas incessantes do capitalismo, como a produção de combustível (caso da cana e do milho), ração para a indústria pecuária (soja), produção de madeira e papel (eucalipto), e o especulativo agronegócio exportador, entre outros.

Exemplos mostram que é possível produzir quase todo o contingente de frutas, verduras e legumes necessários para alimentar uma cidade grande dentro da própria cidade, minimizando o impacto ambiental nas áreas rurais, eliminando o custo e o impacto do transporte e usando os microclimas gerados pelas hortas para tratar o ar urbano de maneira natural. Foi o que aconteceu, à força, em Cuba.

O Poder da Comunidade

Com o colapso da União Soviética e o embargo americano nos anos 90, Cuba ficou isolada do mundo capitalista e de sua força motriz, o petróleo. A crise que se seguiu foi dura, e obrigou os cubanos a se virarem criativamente como podiam para viver em uma sociedade com escassez de energia e alimentos. Motivada pela necessidade, a população teve que fazer, na marra, uma transição de uma sociedade industrial para uma sociedade mais sustentável, e começou a utilizar terrenos baldios, estacionamentos e outros espaços urbanos desocupados para produzir verduras e legumes, dando a volta por cima e resolvendo um problema aparentemente insolúvel.

Ao contrário do que se poderia esperar, após o fim do embargo americano as hortas urbanas não foram abandonadas para um regresso à monocultura monopolista. A produção orgânica local é hoje responsável por suprir a demanda de 60% da população cubana, e começa a ser imitada em cidades modernas como Nova York, que está descobrindo os telhados verdes, ou hortas verticais, em cima dos edifícios, espaço antes ocioso. Para saber mais sobre a sobrevivência de Cuba à escassez do petróleo, assista ao  documentário “O Poder da Comunidade”.

Curiosamente, a esquerda brasileira, aparentemente alheia ao exemplo cubano, tão imersa que está em seus próprios dogmas inabaláveis (a herança marxista, um projeto que teve papel fundamental no século XX, mas que hoje se mostra anacrônico), vê com maus olhos defesa do meio-ambiente como projeto político, uma vez que o meio-ambiente é tido como algo separado de nós, algo a ser explorado em prol do benefício da população.

Uma perspectiva mais engenhosa que começa a ganhar terreno hoje (e que ressoa com a visão de Cézanne), em meio à uma crise ambiental cada vez mais avassaladora, é a de que somos parte da natureza, uma forma de inteligência própria que levou milhões de anos para desenvolver seus princípios sustentáveis. E que podemos de fato estar à beira da extinção, como aconteceu com a civilização Maia, que não conseguiu se recuperar do aumento populacional além da capacidade de se produzir alimentos, do desmatamento para o uso da monocultura, e do aumento incessante das guerras.

Em 1978, o ecologista australiano Bill Mollison cunhou o termo permacultura para propor um sistema sustentável baseado no design ecológico e na observação da forma como a natureza opera. Em outras palavras, imitar a natureza é criar uma cultura permanente. Este “planejamento de ocupações humanas sustentáveis”, em definição do próprio Mollison, foca em eficientes sistemas intensivos que operam em pequena escala, mas podem pipocar aos montes em qualquer ambiente, seja num terreno urbano ou no campo.

Ao contrário dos sistemas inconsequentes em larga escala que hoje moldam a paisagem rural, o sistema da permacultura se baseia em recursos biológicos, e não nos combustíveis fósseis (tanto os fertilizantes como os agrotóxicos são derivados do petróleo). E o tema central é que cada componente do sistema está intrinsecamente relacionado entre si (o solo, por exemplo, que é ignorado na monocultura, é tratado como elemento chave na permacultura). Na permacultura, tudo tem pelo menos 2 funções.

O uso sustentável proposto por Mollison foi amplamente inspirado pelo fazendeiro naturalista e filósofo japonês Masanobu Fukuoka (1913–2008), que propunha uma agricultura sem maquinário, fertilizantes ou pesticidas já nos anos 40, seguindo o princípio de “observar a natureza e trabalhar com ela, ao invés de impor nossos desejos sobre ela”. Passadas 6 décadas, é hora de começarmos a escutar aqueles que atropelamos em nome do progresso. Afinal, como dizem os índios Lakota, a profecia somos nós.

Onde procurar cursos de permacultura:

UMAPAZ (São Paulo)
agrofloresta.net
IPEMA (Ubatuba)
Morada da Floresta (São Paulo)
Casa dos Hólons (São Paulo)
Ecocentro IPEC (Goiás)
Ciclo Sustainable (Goiás)
Ipoema (Distrito Federal)

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Tempo de Mudança

Daniel era um niilista. Nascido nos anos 60, filho da geração da contracultura (seu pai era um pintor abstrato e sua mãe uma editora e escritora que fizera parte da Geração Beat), cresceu num universo artístico profundamente ateu e aprendeu com seus pais a rejeitar as religiões de seus antepassados, internalizando uma visão científica de mundo que desconhece a existência do sagrado. Fez então da cultura sua religião, procurando na literatura e na boemia a conciliação do desejo de ser, de uma autenticidade desengonçada, “a uma instância daquilo que o mercado pode suportar”.

Como jornalista, em seus vinte e poucos anos, bebia ao excesso em festas e coquetéis, enquanto escrevia perfis de celebridades e artistas para revistas. Crescendo em Manhattan, segundo ele “um redemoinho de distrações eróticas e culturais”, não conseguia se livrar de uma sensação de que algo faltava na sua vida, algo “tão essencial como desconhecido, e virtualmente inconcebível”.

Aos poucos, sua desilusão com a sociedade contemporânea – suas falsas necessidades de consumo, obssessão pelo medo perpétuo de guerra e terrorismo e o uso da mídia pra gerar consenso forçado – foi criando uma atmosfera que enegreceu sua mente até obscurecer tudo mais. Perdeu interesse pelo seu trabalho, ou por qualquer trabalho. Com seus amigos, mergulhou na “estrada do excesso” de heroína, cocaína e álcool, na obsessão por bandas alternativas como Nirvana e Pavement e numa vida de memórias borradas de comportamentos indesculpáveis. Mas não atingiu qualquer “palácio de sabedoria”, tal qual invocado nos Provérbios do Inferno de William Blake. Pelo contrário, viu alguns de seus companheiros serem levados drasticamente desta vida.

Procurando pela peça perdida no quebra-cabeça que o levou a tal beco sem saída, ele lembrou de um punhado de experiências com psicodélicos que havia se submetido em tempos de faculdade – que percebeu como os únicos momentos de sua vida em que parecia ter penetrado em níveis de consciência que lhe pareciam mais perspicazes e avançados, e até mais educativos que as aulas que ele assistia.

Dentro do universo artístico e literário na Nova York dos anos 90, a atitude em relação aos psicodélicos era de desdém. Uma vez considerados expansores da mente, as “drogas dos hippies” não possuíam a aura perigosa de “chique fora-da-lei” geralmente atribuída à cocaína e heroína, eleitas como as drogas de escolha dos boêmios. Em sua crise, Daniel percebeu então que, ao se entregar a essas substâncias, eles estavam apenas espelhando a cultura decadente da qual tentavam escapar. Ele e seus amigos haviam optado por adentrar estados alterados de maneira destrutiva – uma que emparelhava com seu niilismo inconsciente.

A partir de então Daniel se enveredou por um caminho de descobertas, começando por uma radical viagem à África para participar de cerimônias rituais com uma tribo Bwiti, que faz uso da raiz da iboga para “rachar a cabeça” (break open the head, em inglês), ou “temporariamente libertar a alma do corpo, permitindo a entrada inicial no cosmos espiritual, onde lhe é mostrado o traçado de seu destino”. Ele passou então pela Amazônia, onde tomou ayahuasca com os índios; pelo México, atrás dos cogumelos sagrados e do legado Maia; pela Índia e Nepal, pelo deserto de Nevada, as terras medievais ao redor de Glastonbury, na Inglaterra, e muitos outros pontos de uma jornada iniciática para desenterrar verdades ancestrais ocultas que a nossa sociedade varreu pra baixo do tapete e que agora, num momento em que nosso planeta se encontra enfermo, clamam pela redescoberta.

Essas histórias irresistíveis e transformadoras podem ser conferidas em seus dois livros, Breaking Open the Head (2002, inédito no Brasil) e 2012, The Return of Quetzalcoatl (2006, com lançamento no Brasil previsto para o fim deste ano, com o título 2012 O Ano da Profecia Maia). Ambos são sólidos frutos de pesquisa intercalados com autobiografia (o primeiro tem 336 páginas e o segundo, 416) que misturam relato de jornada pessoal com referências bibliográficas (só em 2012, O Ano da Profecia Maia são mais de 170 obras literárias e científicas referenciadas e parafraseadas). Prolífico escritor, Daniel Pinchbeck consegue atingir em cheio aqueles que sempre procuraram conforto nas frágeis explicações materialistas sobre a vida, e faz com que seus livros funcionem eles mesmos como uma jornada iniciática de expansão da consicência adormecida.

Dentre seus leitores que tiveram a cabeça aberta (“head broken open” em inglês, referência ao título de seu primeiro livro) através da leitura de sua obra – também céticos de formação e desconfiados, por princípio, com a “baboseira New Age” -, estão este que vos escreve e o cineasta brasileiro João Amorim.

João, que, além de cineasta, trabalha com permacultura (fundou a ONG Ciclo Sustentável em Goiás), vivia em Nova York à época, e teve uma grande identificação com a obra de Pinchbeck. Assim como o autor, o brasileiro havia relegado suas experiências iniciáticas do passado a algum canto obscuro do inconsciente após ter adentrado o mundo dos business, produzindo animações em grande escala e sofisticados comerciais de TV. O cineasta percebeu então como fomos escravizados por uma noção errônea de tempo, que justifica um sistema de lógica auto-destrutiva e insustentável, e a necessidade latente de nos realinharmos com a natureza para evoluirmos nossa consciência e construir um mundo melhor.

Com essas idéias em mente, ele procurou Daniel, com quem desenvolveu empatia imediata e, juntos, produziram o documentário com sofisticadas animações 2012, Tempo de Mudança, que acompanha o autor e explora os tempos de crise que vivemos, o potencial para uma evolução da consciência e propostas práticas para solucionar os nossos problemas através do design ecológico.

É com grande prazer que o Plantando Consciência traz para São Paulo a estréia do filme, a partir do dia 1 de Outubro (sexta-feira) na Matilha Cultural, onde fica em cartaz com sessões gratuitas até o dia 09, dentro do evento Setembro Verde. No dia seguinte à estréia, no sábado 02 de Outubro, haverá um debate com o diretor após a exibição, imperdível para todos aqueles interessados em jardinar a consciência. E no dia 15 teremos uma sessão na Cinemateca Cultural.

Em fase de exibição em festivais e circuitos culturais, o filme já chamou a atenção da rede BBC de Londres, entre outros, que produziu a matéria que você pode conferir abaixo (legendada em português pelo Plantando Consciência); e deve entrar no circuito comercial nos Estados Unidos no fim do ano. No Brasil, não há previsão de que o filme entre em cartaz, então aproveite a oportunidade!

Reportagem da BBC sobre o filme. Legendas disponíveis tb em português, no menu logo abaixo do vídeo

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O Ativista Quântico, ou como salvar o planeta

“Qualquer tentativa de se descartar um fenômeno incompreensível ao tratá-lo como alucinação se torna irrelevante quando uma teoria científica coerente pode ser aplicada” – Amit Goswami.

Nossas visões errôneas da realidade levaram à atual crise ambiental, social, econômica e espiritual. O que está em jogo é nada menos do que a nossa sobrevivência neste planeta. Onde foi que nós erramos? Será que a culpa foi de um ou outro fruto podre, de uma ou outra situação que escapuliu do nosso controle, ou será que erramos por princípio, e nossos velhos paradigmas é que são o problema?

Avançando o trabalho de Fritjof Capra em o Tao da Física, o físico indiano Amit Goswami, que está no Brasil para divulgar seu novo livro e DVD O Ativista Quântico, pode ter encontrado a melhor resposta. Goswami propõe que os paradoxos da física quântica, como não-localidade, movimento descontínuo, ação à distância e outras “bizarrices1” presenciadas em experimentos laboratoriais só podem ser resolvidos pela hipótese de que a consciência, e não a matéria, é a realidade fundamental do universo.

Mais conhecido no Brasil por sua participação no bem sucedido filme Quem Somos Nós? (What The Bleep Do We Know?, no original em inglês), Amit Goswami nasceu na Índia e na infância foi introduzido à espiritualidade hindu, a qual ele renegou ao ingressar no universo da ciência materialista (é doutor em física nuclear), onde residiu por mais de 30 anos, como pesquisador e professor titular de fisica teórica da Universidade de Oregon. Até perceber que pressupostos newtonianos, cartesianos e darwinistas não conseguem explicar o mundo tal como prometido desde que a ciência assumiu o papel que outrora coube à religião: encontrar respostas.

Consciousness Does Matter

Em O Universo Autoconsciente:  Como a Consciência Cria o Mundo Material (1993), Goswami resgata o conhecimento ancestral ao qual tinha sido apresentado na sua infância e o concilia de forma espetacular com a ciência, abrindo portas para uma novo pensar científico menos limítrofe e de maior potencial, tão necessário nesses tempos de mudança. “Eu estive buscando em vão uma descrição da consciência através da ciência, e o que eu e outros devemos procurar, pelo contrário, é uma descrição da ciência através da consciência. Nós devemos desenvolver uma ciência compatível com a consciência, esta nossa experiência primária.”

Ao invés de uma separação dualista entre mente e matéria, ou sujeito e objeto, o autor promove uma filosofia a qual ele chama de “idealismo monístico” (“idealismo” de idéias, e “monístico” em oposição a dualístico, que seriam os elementos básicos da realidade). De acordo com esta posição, “a consciência do sujeito numa relação sujeito-objeto é a mesma consciência que é pilar para toda a existência.  Assim sendo, consciência é unificadora. Existe apenas uma consciência subjetiva, e nós somos essa consciência,” ele escreve em O Universo Autoconsciente.

Modestamente, Goswami acaba promovendo um feito sem par na história: concilia Deus com ciência. “A ciência tradicional criou e destruiu um Deus barbudo, que fica sentado num trono separado de nós, e acha que está indo a algum lugar com isso”, ele ironiza no filme O Ativista Quântico. Não é à toa que o físico é visto com preconceito por parte da comunidade científica. Suas teorias são avançadas demais para agradar as (frágeis) certezas absolutas que imperam num suposto mundo sem mistérios, tal qual defendido por agitadores como Richard Dawkins.

O Ativista Quântico pode ser visto como um compêndio de seu trabalho desde a publicação de O Universo Autoconsciente; uma aula sobre as idéias propostas pela física quântica – direcionado às pessoas comuns, e não ao especialista – e sua reconciliação com a espiritualidade.


Trailer de O Ativista Quântico com legendas em português

Mas, afinal, que consciência “divina” é essa? Ao contrário de tudo o que costumamos pensar – que existe um mundo físico independente da nossa consciência sobre ele, e que o nosso cérebro é o grande criador de sentido da existência -, Goswami propõe que o cérebro físico funciona na verdade como um instrumento de medição e gravação, seguindo as regras da física clássica, ao passo que “um componente quântico do cérebro-mente é o veículo para a escolha consciente e a criatividade”.  Em outras palavras, é a atividade da consciência que traz o mundo à existência, ao determinar o “colapso quântico” de onda em partícula. “Consciência é o agente que colapsa a onda de um objeto quântico, que existe em potencial, transformando-a em partícula imanente no mundo da manifestação”, ele escreve. A maioria das grandes inovações criativas, seja nas artes ou nas ciências, são resultado de saltos intuitivos, ou saltos quânticos, em novos contextos.

Assim como objetos quânticos, pensamentos parecem obedecer o princípio de incerteza. Goswami nota que “você nunca pode simultaneamente manter foco no conteúdo de um pensamento e na sua direção –  para onde o pensamento está indo.” Ele propõe que a “substância mental” – o pensamento – foi feita dos mesmos elementos intangíveis que construíram os “macro objetos” do mundo físico, mas “a substância mental é sempre sutil, ela não forma conglomerados brutos.”

O filósofo e ocultista Rudolf Steiner2 também concebeu pensamentos como possuidores de uma substância. Não possuindo a terminologia da física quântica, ele expressou a idéia através de um quadro místico, percebendo “pensamentos como seres vivos e independentes. O que nós entendemos como pensamento no mundo manifesto é como uma sombra de um pensamento vivo que está ativo no mundo dos espíritos.” Este “mundo dos espíritos” poderia ser considerado o domínio transcendente do potencial.

Adentrando o terreno antes restrito ao misticismo, Goswami elabora, em A Física da Alma (2001), uma hipótese científica baseada em seu entendimento da natureza quântica da consciência, para mecanismos de reincarnação, a existência de “corpos sutis” e o sistema de chakras descrito por tantas tradições esotéricas. Nem a doutrina cristã nem o pensamento secular contemporâneos dão suporte à idéia de reincarnação, a qual é um elemento básico em muitas tradições espirituais, incluindo hinduísmo e budismo.

Goswami traça a hipótese de que padrões condicionados de pensamento, sentimento e ação criam o que ele chama de “mônada quântica”, um agregado que retorna vida após vida. Ele define a “mônada quântica” como um estágio intermendiário de individualidade, algo entre o ego e o “eu-quântico”, que seria o equivalente da consiência transcendente. Os padrões distintos de pensamento, sentimento e ação condicionados também podem ser considerados como os “corpos sutis” definidos pelo misticismo. O “corpo mental” representa o padrão individual do pensar, e o “corpo vital” é o padrão individual da energia e do sentimento. A “mônada quântica” individual desenvolve memórias vitais e mentais de contextos passados através de vidas sucessivas.

Casos demonstrados de efeitos quânticos como “ação à distância” e “correspondência não-local” provam que objetos quânticos possuem de fato uma “memória” – apesar de esta memória não ser gravada fisicamente, como numa fotografia ou dvd, mas apenas ativada quando a consciência causa um colapso de onda. “Objetos obedecem leis quânticas – eles se espalham pelas possibilidades seguindo a equação descoberta por Erwin Schrödinger – mas a equação não é codificada nos objetos em si.” Da mesma forma, equações apropriadas governam a dinâmica dos corpos que passaram por um condicionamento de memória quântica, apesar de esta memória não estar gravada neles. Enquanto que a memória clássica é gravada em objetos, a memória quântica é na verdade o análogo do que os ancestrais chamavam de memória Akashica, memória escrita em akasha, vazio – em lugar nenhum.”

Uma vez que colapso quântico só pode ocorrer através do cérebro físico, o ego é uma identidade assumida que a consciência veste com o interesse de ter um ponto de referência. Disciplinas esotéricas e técnicas de meditação nos ensinam a observar nossa subjetividade – o ego e seu contínuo balbuciar de pensamentos e preocupações – do ponto de vista de alguém de fora, como uma “consciência testemunha”. Ao fazer isso, nós pulamos pra fora da nossa perspectiva individualista condicionada, o circuito auto-referencial, e atingimos uma perspectiva transcendental.

O ego desenvolve padrões habituais de pensamento e comportamento em resposta ao condicionamento. Com o passar do tempo, este condicionamento cria uma propensão probabilística em favor de padrões anteriores de resposta. “Uma vez que uma tarefa é aprendida, então para todas as situações que a envolvam, a probabilidade que a memória irá engatilhar uma resposta condicionada se aproxima dos 100%.”

Mas, além de nossos padrões habituais de reação, nós sempre preservamos o potencial para insight espontâneo e ação não condicionada. “Quando nos comportamos no nosso modo condicionado, o ego, e então nossos pensamentos, parecem algorítmicos, contínuos e previsíveis, o que os dá a aparência de objetos no estilo newtoniano. Mas também existe pensamento criativo, uma transição descontínua no pensar, uma mudança de significado do condicionado para algo de valor novo”, escreve Goswami, propondo que “pensamento criativo” é o “produto de um salto quântico no ato de pensar.”

De maneira similar, o físico F. David Peat sugere que “sincronicidades, epifanias e experiências místicas” revelam a mente “operando, por um instante, em sua verdadeira ordem… alcançando além da fonte mente e matéria, pra dentro da própria criatividade.” O aspecto quântico da consciência também rompe a casca do hábito na forma de intuição, o que não é um processo irracional, as “a-racional”, geralmente contendo uma “análise superior ou insight ou conhecimento que a consicência não foi capaz de produzir”, escreveu Carl Jung.

A consciência transcendente, esta “consciência que é pilar para toda a existência”,  ”emprega matéria, assim como nós empregamos um computador, para fazer representações (software), que nós chamamos de vida nas células e conglomerados, ou funções vitais.”

De acordo com o linguista Noam Chomsky, o desenvolvimento da linguagem humana não poderia ter acontecido como um simples passo acima da comunicação animal.  “Parece não haver sustentação na idéia de que a linguagem humana é simplesmente uma instância mais complexa de algo a ser encontrado em algum outro lugar no mundo animal”, ele escreve. “Isso cria um problema para o biólogo, uma vez que, se for verdade, é um exemplo de verdadeira ‘emergência’ – a aparição de um fenômeno qualitativamente diferente em um estágio específico de complexidade de organização.”

Humanos possuem uma capacidade inata ou inerente para o desenvolvimento da linguagem, gramática e sintaxe, inexplicável por qualquer  modelo conhecido. “De fato, os processos pelos quais a mente humana alcançou seu estágio presente de complexidade e sua forma particular de organização inata são um total mistério… É perfeitamente seguro atribuir este desenvolvimento à ‘seleção natural’, contanto que percebamos que não há substância nesta afirmação, que ela não é nada mais do que uma crença em que deva existir uma explicação naturalista para esse fenômeno.”

O repentino surgimento da linguagem como estrutura cognitiva parece embasar a tese de Goswami de “um salto quântico de uma consciência criativa”, operando de um domínio transcendental. Tal perspectiva deixa aberta a possibilidade de futuros “saltos quânticos” de complexidade cognitiva.

Goswami acredita que seu modelo de evolução aponta para uma fase futura do desenvolvimento humano quando seremos capazes de mapear o “intelecto supramental” ou “corpo temático” (“o corpo de temas arquetípicos que determina o movimento dos corpos físico, mental e vital” – o que Jung chamava de “Self” e Platão de “reino das idéias”), assim como os corpos vital e mental, no corpo físico. Isso seria uma mudança de fase sem precedentes no potencial humano.


• Amit Goswami no Brasil
• 2012, O Ano da profecia Maia, de Daniel Pinchbeck (com publicação no Brasil prevista para o fim de 2010)
• Rudolf Steiner. Mais conhecido no Brasil pelas escolas Waldorf, Steiner – doutor em Filosofia e com diplomas de Química, Biologia e Física - foi uma espécie de precursor de Goswami, ao integrar ciência com espiritualidade há quase um século, através da criação da antroposofia.


1Propriedades quânticas:

• Um objeto quântico (como, por exemplo, um elétron) pode estar, no mesmo instante, em mais de um lugar (a propriedade da onda).

• Não podemos dizer que um objeto quântico se manifeste na realidade comum espaço-tempo até que o observemos como uma partícula (o colapso da onda).

• Um objeto quântico deixa de existir aqui e simultaneamente passa a existir ali, e não podemos dizer que ele passou através do espaço interveniente (o salto quântico).

• A manifestação de um objeto quântico, ocasionada por nossa observação, influencia simultaneamente seu objeto gêmeo correlato — pouco importando a distância que os separa (ação quântica à distância).

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Tudo Azul

Manipulado pela mídia? Vá ao cinema

Obs. (05/04/2010): O texto abaixo foi publicado antes do assassinato do cartunista Glauco. No entanto o conteúdo não perde a atualidade. Basta substituir a parte que fala da matéria da Isto É pelas matérias de capa da Veja ou da Época para o caso, ou os programas da TV Record, que a conclusão é a mesma.

Uma foto de um homem de olhos fechados e cabeça para o alto, erguendo uma taça em tom de reverência cerimonial, semelhante à missa católica, com os dizeres em tom sensacionalista “Santo Daime Liberado” estampou a capa da revista Isto É do início do mês. Apesar do enfoque religioso, o fato de a ayahuasca conquistar a mídia soa, a princípio, como uma notícia potencialmente revolucionária! Mas a esperança de um jardineiro de consciência foi pisoteada pela obtusa ignorância do interesse político. Não era preciso nem ler a reportagem em questão pra saber qual o tom da matéria. Bastou acompanhar a chamada da capa: “O governo autoriza o uso do chá alucinógeno em rituais religiosos, mesmo com casos de morte após o seu consumo. A medida abre um novo e perigoso precedente na discussão sobre a legalização das drogas”.

Incluir uma bebida de origem indígena e uso milenar na categoria “droga” é, no mínimo, uma metonímia vulgar . Mesmo assim, vamos pressupor que o leitor desconheça o assunto, que de fato é delicado. A reportagem pouco esclarece do que se trata a ayahuasca, que é comumente confundida – inclusive pela própria reportagem – por “Santo Daime”. Santo Daime é uma religião cristã, que assim como a UDV (União do Vegetal) e outras, difere das religiões cristãs comuns por fazer o uso da bebida enteógena em suas cerimônias. Caso você esteja se perguntando o que quer dizer “enteógena”, eu explico: a palavra vem do grego (en- = dentro/interno, -theo- = deus/divindade, -genos = gerador),  e se traduz em algo como “manifestação interior do divino”.

Comumente tratada como “alucinógeno” (pela Isto É inclusive), um termo pejorativo e que não traduz os efeitos do enteógeno com clareza, a ayahuasca é uma bebida fermentada resultante da mistura de um cipó e um arbusto nativos da Amazônia, utilizada por incontáveis etnias indígenas por milênios em rituais de cura, divinação e comunicação com o mundo espiritual.

Para nós, além do uso religioso abordado pela reportagem, a bebida é tomada cerimonialmente para limpar os corpos físico e energético, abrir a cabeça para realidades ocultas e destravar um potencial outrora intangível. Seu potencial meditativo e medicinal é imensurável. Ao contrário da medicina profissional, que se vê como ciência, busca uma solução única e trata os pacientes como corpos, a medicina dos curandeiros é a arte de se tratar a alma, e procura entender a doença dentro de uma perspectiva holística: como resultado do desequilíbrio de um todo indivisível (físico, psicológico e psíquico), que não pode ser explicada ou tratada pelos componentes distintos separadamente. É aí que entra a ayahuasca, um produto complexo, designado para um tratamento complexo.

As campanhas de terror contra as drogas fazem parte de uma guerra que já foi perdida. Após mais de meio século de repressão sem resultados, já devia estar claro na cabeça de todo cidadão que a descriminalização é a única solução para o problema do tráfico e do crime. Mas, aparentemente, nem a adesão do ex-presidente FHC e sua Comissão Latino Americana sobre Drogas e Democracia conseguiu acordar o corpo editorial da revista para o mundo real. A Isto É (que na internet usa o subtítulo  ”Independente” mas é apenas um dos braços políticos de uma corporação, diga-se de passagem) parece ter permanecido no século vinte, ou pior, nos tempos de ditadura militar, quando o desconhecido era visto como ameaça (e não como oportunidade) e a censura era adepta da filosofia do “atire antes, pergunte depois”.

Anacrônicos, ou manipuladores (ou ambos), jornalistas desta estirpe cometem um crime ao tratarem uma questão de consciência como questão de polícia. Ao invés de iluminarem uma questão social séria, trabalham para ocultar e banalizar a informação. Em contrapartida, o interesse científico, documental¹ e social pela ayahuasca no mundo desenvolvido não para de crescer.

Meanwhile, back in the jungle…

Vítimas de overdose. De drogas prescritas

No que diz respeito aos casos de morte supostamente provocados pela ingestão de ayahuasca, a própria reportagem admite que não foram comprovados. Um rapaz morreu afogado porque não sabia nadar. O outro sofria de uma doença degenerativa do coração. Casos como estes são comumente usados como bodes expiatórios quando se procura incriminar alguma substância. No entanto, todos os anos mais pessoas morrem da ingestão de drogas prescritas do que de drogas ilegais, numa proporção de 5 pra 1 (só nos EUA  são mais de 100 mil mortes e 1,5 milhão de hospitalizações por ano). E casos recentes como o do ator Heath Ledger, Michael Jackson e a atriz Brittany Murphy não entram em reportagens alarmistas, porque este tipo de notícia não interessa ao onipresente conglomerado farmacêutico. Assim como Marilyn Monroe, Jimi Hendrix, Bruce Lee, Keith Moon e Anna Nicole Smith, entre tantos, estas celebridades não morreram de overdose de drogas (no sentido pejorativo), mas morreram de overdose de remédios, disponíveis no balcão da farmácia mais próxima. Então quem é o vilão? Uma dúzia de substâncias listadas pela FDA, ou o desequilíbrio psíquico-físico-psicológico que leva pessoas a buscarem a solução de seus problemas em dosagens extremas de “pílulas da felicidade” ou qualquer outro produto em excesso (álcool, açúcar, gordura, tabaco, processados… faça a sua escolha)?

O que deve ser considerado em relação à ayahuasca é que de fato a bebida tem efeitos fortes sob o corpo (provoca vômitos e diarréias – como formas de se expelir a doença ou problema tratado), e pode provocar efeitos colaterais ao ser misturada com drogas farmacológicas, principalmente antidepressivos, mas também tranquilizantes, antihistamínicos, anfetaminas etc. Além de não ser exatamente o tipo de droga recreativa para um adolescente. A ayahuasca é uma medicina milenar e só deve ser ingerida sob tutela de um xamã, curandeiro ou guia espiritual.

Mas o governo deu um passo adiante. Então estamos avançando no final das contas. Resta a pergunta: quem lê esta revista afinal? Mais do que isso: quem a leva a sério? Talvez alguns milhares de pessoas. Mas é uma porcentagem ridícula se compararmos com a quantidade de pessoas, não apenas no Brasil, mas no mundo todo, que assistiram ou irão assistir ao filme Avatar.

Musa sagrada

Se você ainda não assistiu Avatar, você deve estar em outro planeta. O longa em 3D que levou 14 anos pra ficar pronto é mais do que “entretenimento de primeira”, ou o novo recorde de bilheteria de todos os tempos. É uma revolução na consciência, um manifesto tão anti-tecnológico e anti-civilizatório quanto os livros do anarquista John Zerzan (entrevistados no filme Surplus, disponível no nosso site), tão psicodélico quanto as dissertações de Terence Mckenna, e, sim, glorificando a visão de mundo indígena e xamânica acima de tudo. O que nos traz de volta à ayahuasca, a grande vilã da revista Isto É.

Fico imaginando o jornalista que assinou a reportagem, que obviamente nunca experimentou a bebida, numa sala de cinema Imax, completamente absorvido pela experiência psicodélica que o filme de Cameron proporciona, sem perceber que a “árvore dos espíritos” que conecta o povo Na’vi com Eywa, a sabedoria dos ancestrais – e representa o núcleo de uma floresta que “tem mais conexões que o cérebro humano” (frase da cientista botânica interpretada por Sigourney Weaver, mas que bem poderia ser atribuída a McKenna) -, trata-se de uma analogia com o “cipó dos espíritos” que ele acaba de condenar em público. Outra personagem do reino vegetal no filme, a gigantesca árvore que serve de lar para o povo de pele azul, tem em seu centro oco uma estrutura de raízes que sobe em espiral, como uma escada, em forma de hélice dupla, o formato do DNA e – pasmem – também o formato do cipó mariri, uma das metades que compõe a temida bebida “alucinógena” (ainda sobre o DNA, Francis Crick, Prêmio Nobel e descobridor do “segredo da vida”, era usuário assumido de LSD para “pensar criativamente”. Kary Mullis, Nobel de Química em 1993 por inventar o PCR, o método mais comum de se detectar e trabalhar o DNA, coroou a questão: “Se eu teria inventado o PCR se não tivesse tomado LSD? Duvido.“).

De qualquer forma, como diz o jornalista israelense Ido Hartogsohn num ótimo artigo sobre o filme (em inglês), “os blockbusters e filmes de ficção científica funcionam como uma sombra jungiana de nossa visão racional e materialista da realidade” (Jung alertava que o mundo moderno conta em demasiado com a ciência natural e o positivismo lógico, e que poderia se beneficiar ao integrar espiritualidade e apreciação de domínios inconscientes). Por esta perspectiva, o texto terrorista, repleto de positivismo lógico simplista e pseudo-ciência cartesiana como “atua nos sistemas cerebrais reguladores da produção e absorção, pelos neurônios, de serotonina, dopamina e noradrenalina” (tentando colocar o mundo numa caixinha, ou reduzir as cores a uma lógica em preto e branco) serve apenas como um retrato de que ainda temos um longo caminho a percorrer para evoluir o nível do debate científico na mídia deste país.

trecho de obra do pintor ayahuasqueiro Pablo Amaringo e o mundo bioluminescente de Avatar

Enquanto isso, Cameron conquista o mundo. O diretor disse em entrevista que queria fazer um novo Guerra nas Estrelas. Mas pouca gente captou a mensagem nas entrelinhas. Ele não queria apenas produzir um clássico universal de ficção científica, ou um blockbuster lendário. Era mais do que isso. Era provocar uma revolução de paradigmas pelo inconsciente. A mística que se forma em torno destes filmes não gira apenas em sua eficiência como entretenimento, mas por serem veículos de expressão dos nossos “sombras jungianas”, abusando de referências culturais e arquétipos do mito primordial (“Os mitos estão perto do inconsciente coletivo e por isso são infinitos na sua revelação” – Joseph Campbell), além de interesses contemporâneos, como o movimento ecológico, a guerra pelo petróleo, o poder das grandes corporações etc.

A “força” dos filmes de George Lucas não é muito diferente de Eywa, que não é muito diferente da visão indígena sobre a natureza. E o fato do mestre jedi se chamar Yoda, que lembra Yoga, também não é coincidência. Assim como o fato de os Na’vi terem uma feição humana-felina (os gatos são considerados animais altamente espirituais) e pele azul (já ouviu falar nas crianças índigo?), também não ser à toa. Apesar de supostamente terem sido inspiradas em montanhas da província de Hunan, na China, para quem já foi à cidade sagrada de Machu Picchu e subiu a montanha de madrugada, antes do sol nascer (prática comum entre mochileiros), sabe que a visão grandiosa que se tem lá de cima, com os picos ao redor emergindo por cima das nuvens e da neblina da manhã, lembra muito as montanhas flutuantes de Avatar. Realidade e ficção se misturam.

o cipó Banisteriopsis Caapi e a casa-árvore dos Na'vi, cujo interior se entrelaça em formato de hélice dupla

O pressuposto básico do filme, o de se poder migrar entre realidades distintas, é lugar comum entre adeptos do uso de enteógenos (o túnel luminoso psicodélico que leva o personagem de Jake Sully ao corpo de seu Avatar ilustra esta passagem). Parafraseando uma entrevistada do filme Vine of the Souls, de Richard Meech (ainda em produção), “Uma coisa é intelectualizar algo. Outra completamente diferente é tocá-lo, e experimentar outras energias maiores que são inteligentes”. O coração espiritual da história de Avatar está na relação dos nativos com uma planta/árvore sagrada, que representa Eywa, a entidade mística inteligente, divina, ou “uma rede de energia que flui por todos os seres vivos”. Eywa. Aya. Gaia.

Ayahuasca.

Documentários de interesse sobre o tema:

DMT – The Spirit Molecule, de Mitch Schultz e Rick Strassman, 2010 (em produção),

A Perfect Pill, de Oliver Hockenhull e Mark Archbar (“A Corporação”), 2010 (em produção),

Vine of the Soul, de Richard Meech, 2010 (em produção),

Manifesting the Mind, de Andrew Rutajit, 2009,

A Inquisição farmacrática, de Jan Irvin e Andrew Rutajit, 2007,

Xamãs da Amazônia, de Dean Jefferys, 2002,

Outros Mundos, de Jan Kounen, 2000.

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