Posts marcados apocalipse

A maior conquista da ciência neste século foi o reconhecimento da nossa ignorância

(clique nas imagens para ver ampliado)

Compre o tubo com os 4 posteres em alta qualidade no couchê A2 (60cm x 40cm) clicando aqui

Comentários (1)

365 dias para o fim do mundo

“Um outro mundo não é apenas possível, mas ela está a caminho! Num dia calmo, se você ouvir atentamente, conseguirá escutá-la respirando.”
Arundhati Roy

Primeiro veio a Tunísia. Logo depois veio o Egito. Então foi um efeito dominó: Iêmen, Líbia, Síria, Bahrein. Mas a Primavera não foi só árabe. O povo foi às ruas também na Grécia, Espanha, Portugal, Londres, São Paulo, e finalmente ocuparam Nova York, se espalhando daí para o resto do mundo. Apesar das manobras da mídia pra fragmentar os acontecimentos e assim impedir que nossa atenção construa um modelo significativo dos fatos, o ano de 2011 vai ser lembrado como “o ano do basta”, e os motivos são claros pra quem tem os olhos abertos: o fim do mundo está chegando.

O desenvolvimento chega à Amazônia

Como se não bastasse, 2011 vai ser lembrado também como o ano em que a ficção se tornou fato, e o Brasil decidiu protagonizar sua própria versão do filme Avatar. Acho que não é necessário dizer de que lado infeliz o governo e a mídia decidiram jogar. Belo Monte, as alterações no Código Florestal e a prospecção de petróleo em Abrolhos, colocam o Brasil no papel principal como arquiinimigo da natureza neste começo de década. É uma declaração de guerra. Nem o vazamento da Chevron adianta para aqueles que nos governam hoje: o pensamento desenvolvimentista não escuta a linguagem dos ecossistemas pois não se reconhece como parte integrante da teia da vida.

Pra piorar, a Coréia do Norte esquenta a frigideira geopolítica mundial de imprevisto neste fim de ano, e os EUA se preparam para decidir se irão de fato se tornar um estado policial digno do romance 1984 com a 2012 National Defense Authorization Act. E agora? Que fim do mundo é esse? Vamos ser engolidos por catástrofes naturais? Vamos entrar na 3ª Guerra Mundial? Vamos todos perecer em agonia, num enorme suicídio coletivo assistido?

Temos que ser cuidadosos com os significados. Em paralelo à campanha de desinformação da mídia, as idéias apocalípticas estimuladas por blockbusters de Hollywood e igrejas messiânicas também fazem parte de um tendência inconsciente de se banalizar significados profundos. Porque não é possível lucrar com a profundidade, mas a banalização é uma galinha dos ovos de ouro.

 Crise e Transformação

O fim do mundo não é uma profecia exclusiva dos místicos (que, nesta sociedade regida pelo materialismo científico, significa a mesma coisa que loucos). Em 1982, o físico austríaco Fritjof Capra publicou O Ponto de Mutação, livro no qual explicava, a partir de uma interpretação da história do pensamento ocidental através dos conceitos do I-Ching, como estávamos rumando para o fim de uma era, e como o fim do mundo é na verdade uma enorme crise de paradigmas.

No futuro, Capra será lembrado como uma das mais brilhantes e fundamentais mentes do século XX. Mas hoje, em tempos de crise, seus livros são mais facilmente encontrados em sebos, curiosamente perdidos em meio à seção de esotéricos. Por mais esdrúxula que possa soar, esta situação é decorrente do ostracismo acadêmico de um autor que ousou traçar paralelos entre a física do século XX e o misticismo oriental (no famoso O Tao da Fisica). Para a ciência dominante, de vocação newtoniana-cartesiana, falar em misticismo implica automaticamente a perda de credibilidade. No entanto, a física subatômica do século XX não é compatível com o pensamento mecanicista do materialismo científico, uma situação extremamente embaraçosa que o modelo vigente evita debater a qualquer custo.

De qualquer forma, Capra não foi o único ocidental a se encantar com o I-Ching. O escritor alemão Hermann Hesse também foi outro que mergulhou nesta sabedoria. Em seu último romance, O Jogo das Contas de Vidro (1943), os personagem fazem predições com o oráculo ancestral. Em prefácio para a tradução inglesa do “Livro das Mutações”, em 1949, Carl Jung relata como ele mesmo consultou o I-Ching para decidir se escreveria ou não o prefácio, e resumiu a qualidade atemporal do texto chinês ao dizer que “o I-Ching não oferece provas nem resultados; não faz alarde de si nem é de fácil abordagem. Como se fora uma parte da natureza, espera até que o descubramos. Não oferece nem fatos nem poder, mas, para os amantes do autoconhecimento e da sabedoria – se é que existem -, parece ser o livro indicado (…) Aqueles a quem ele não agradar não têm por que usá-lo, e quem se opuser a ele não é obrigado a achá-lo verdadeiro. Deixem-no ir pelo mundo para benefício dos que forem capazes de discernir sua significação”.

Finalmente, em 1975, dois irmãos etnobotânicos pareceram ser estas pessoas capazes de discernir sua significação, tal qual sugerido por Jung. Levando a compreensão do I-Ching a outros patamares, Terence e Dennis Mckenna publicaram The Invisible Landscape:Mind, Hallucinogens, and the I Ching (A Paisagem Invisível: Mente, Alucinógenos e o I-Ching, inédito no Brasil). Uma obra ousada, fascinante e densa (em alguns momentos praticamente impenetrável por quem não é versado em química), o livro dos irmãos Mckenna pode ser lido como uma versão contemporânea e altamente modernizada da psicoterapia jungiana com ênfase na química cerebral a nível molecular, e se manteve na obscuridade por anos até ressurgir recentemente em meio ao revival da ciência psicodélica e à elevação de Terence (falecido em 2000) ao status de profeta dos tempos modernos, ou o “Copérnico da Consciência”.

A Paisagem Invisível foi escrito a partir de uma expedição científica à Amazônia colombiana em busca de dados experimentais que comprovassem uma teoria complexa sobre a consciência que envolvia uma interpretação matemática dos hexagramas do I-Ching, conceitos da física quântica, química molecular e uma especulativa teoria holográfica da mente, acompanhados de uma boa dose de psicodélicos. Ao dissecarem o I-Ching como um antigo código binário digital e introduzi-lo num computador, os McKenna chegaram a um gráfico que, segundo eles, propunha uma descrição matemática rigorosa da estrutura temporal do universo. Leia o resto deste post »

Comentários (1)

Convite para o lançamento do livro “2012, O Ano da Profecia Maia”, de Daniel Pinchbeck

Neste fim de semana (11 e 12 de Dezembro) o pessoal da Editora independente Anadarco lança o best-seller de Daniel Pinchbeck em aguardada tradução para o português. O livro de Pinchbeck inspirou o documentário de João Amorim “2012 Tempo de Mudança” que passamos em primeira mão em Outubro (e agora em Dezembro estreamos o documentário Cortina de Fumaça na Matilha Cultural) e virou referência entre um corpo crescente de avatares da nova consciência no mundo de língua inglesa. É mais do que bem vinda a tradução de seu livro para o português: ela é necessária.

Intitulado aqui como “2012, o Ano da Profecia Maia” (seguindo o nome do livro em terras britânicas), o título original americano poderia ser lido como  ”2012 – O Retorno de Quetzalcoatl”, e se refere à divindade mesoamericana, também conhecida como a “Serpente Emplumada” (simbologia que unifica opostos: serpente e pássaro, céu e inferno, luz e escuridão, espírito e matéria), que, diz a profecia, voltará para resgatar a humanidade da destruição. Longe de ser um livro apocalíptico, como podem dar a entender ambos os títulos, o livro de Pinchbeck joga luz sobre essa e outras metáforas que caem tão bem nos tempos contemporâneos, nesta turbulenta passagem de milênio, de era, de paradigmas. De acordo com o estudioso Maia José Argüelles, Quetzalcoatl parecia ser “não apenas um deus, mas múltiplos deuses; não apenas um homem, mas muitos homens, não apenas uma religião, mas . . . uma estrutura mental”.

A milhas de distância da (quase sempre oportunista) literatura apocalíptica, esotérica, de auto-ajuda e afins, que inevitavelmente pende para a prosa excessivamente otimista e tomada por uma fé inabalável, na maioria das vezes irritante (é possível levar a sério alguém que nunca desconfiou, nunca duvidou, nunca questionou? Será humana tamanha perfeição?), o livro de Pinchbeck mergulha a fundo numa busca muito bem fundamentada (o livro contém mais de 170 citações e referências bibliográficas) por erguer as cortinas ideológicas de nossa era e revelar verdades e conhecimentos mais profundos que nos foram obliterados por séculos de doutrina materialista-científica. E ao contrário do tom deslumbrado que permeia a maior parte dos textos esotéricos, a obra de Pinchbeck nos desvenda outros mundos a partir do prisma de um intelectual ateu, cético por princípio, que vê as verdades que lhe foram ensinadas ao longo da vida sendo desmoronadas empiricamente, ao mergulhar no universo dos enteógenos, da busca por si mesmo e de conhecimentos ancestrais esquecidos ou diluídos para consumo.

O staff da Anadarco trata a jornada para trazer este livro para o Brasil como um projeto diferenciado para quem deseja agir diferente do atual estilo de vida. “Mas o que é agir diferente? É sair do estado de conforto, repensar a lógica do consumismo, atuar na preservação do meio ambiente e dar margens a outras interpretações além da racional. Enfim, um convite para enxergar o mundo com outros olhos”, segundo a editora Karin Thrall.

Serviço:

Open House | Open Books | Open Mind ANADARCO
11 de dezembro – das 13h às 21h
12 de dezembro – das 13h às 19h
Rua Oscar Freire, 329 – cj. 71
Drinks e petiscos naturais | lounge music | celebração e networking

Deixe um comentário

Responsabilidade é sustentabilidade

mensagem subliminar

Comentários (1)

Você está pronto para a permacultura?

Paul Cezanne - Pyramide de crânes

Em 1906, Paul Cézanne, aos 67 anos de uma vida pontuada por fracassos pessoais e profissionais, morreu de pneumonia, sem saber que se tornaria um dos mais influentes artistas do século XIX , ou o “pai da Arte Moderna”. Ao longo de sua vida, suas pinturas pós-impressionistas eram ignoradas pelo público e ridicularizadas pela burguesia francesa. Apenas 3 anos antes de sua morte, o pintor teve que lidar com um artigo desmoralizante sobre seu trabalho, intitulado “O Amor pela Feiúra”, publicado num jornal de grande circulação.

Cézanne pintou a montanha de Sainte-Victoire, no sul da França e visível de sua casa, cerca de sessenta vezes, e dizia que a montanha é que mandava mensagens o chamando para ser pintada. O pintor mergulhou na Sainte-Victoire com tanta voracidade pois notava que o resultado de seu trabalho nunca era uma representação da montanha que ele observava, já que uma ligeira mudança de ângulo, luz, tempo, da vegetação e do próprio olhar do observador sempre a transformavam em outra montanha, diferente daquele que ele havia apreendido.

O artista percebia de maneira intuitiva que aquilo que tomamos como realidade é uma projeção da nossa consciência, ao invés de uma existência fixa em si, e que portanto pode se apresentar de formas distintas. O escritor Daniel Pinchbeck tem uma frase ilustrativa a este respeito: “nós não vemos o mundo como ele é, mas, em grande parte, vemos o mundo como nós somos”.

Assim como grande parte dos artistas visionários que pressentem instintivamente uma mudança em seu tempo e a retratam em termos subjetivos, Cézanne e seu uso de cores intensas, formas geometrizadas e eliminação de contornos distintos influenciou praticamente todos os movimentos de vanguarda que se seguiram à sua morte, mas sua arte só foi compreendida pela sociedade com o passar do tempo. Seu significado, ora visionário, se consolidou, foi absorvido pelo sistema e, hoje, seu estilo tem cara de “velho”.

Outra perspectiva interessante sobre o mesmo fenômeno é a do economista francês Jacques Attali. Em seu livro “Bruits” (em francês) ou “Noise: A Political Economy of Music” (“Ruído, uma Economia Política da Música”, inédito no Brasil), ele argumenta que, quando uma grande mudança social está para acontecer, ela vai se mostrar primeiro na música. De acordo com Attali, você pode identificar facilmente que tipo de música faz esse papel profético, porque as pessoas irão dizer que “isso não é música, é barulho” (qualquer semelhança com a “feiúra” da arte de Cézanne…).

Se a sua avó, que talvez tenha pensado dessa forma à época em que os Beatles chegaram ao topo das paradas, hoje acha as canções do quarteto de Liverpool um tanto charmosas, isto não se deve a um maneirismo qualquer. Essa música não é mais ruído porque o mundo que ela anunciava já chegou.

O que isso demonstra hoje, além do papel visionário da cultura de vanguarda, é o onipresente papel do tempo como professor e “limpador de pára-brisas” ideológico, permitindo clareza de visão. Algo impossível de ser atingido através da racionalização imediatista utilizada por meios de comunicação corporativos, pela arrogância da ciência materialista e por partidos e partidários políticos de qualquer inclinação. Revela também o onipresente preconceito inerente a esta parcela da sociedade, que é sempre pega de surpresa pelas ondas da história.

“Poluição é um recurso não utilizado” – Bill Mollison

A monocultura a que estamos acostumados, paisagem típica Brasil afora, com vastas plantações de cana, milho, café e outros, é um conceito permanente em nossas cabeças. Ela está lá desde que nós nos damos por gente: basta sair da cidade, e entrar em uma rodovia qualquer para deparar com vastos campos forrados de carpetes verdes, ou pastos salpicados de vaquinhas. Essa é a nossa própria definição de “interior”, ou de ambiente “rural”. No entanto, essa monocultura não foi projetada para ser permanente.

Incapaz de olhar as consequências de sua aplicação a longo prazo, o agronegócio se originou da chamada “revolução verde” das décadas de 40 a 60 – a mecanização e o uso de insumos industriais (fertilizantes e agrotóxicos), que permitem uma produção em larga escala – e transformou a paisagem global.

Mas como qualquer monocultura, esta agricultura convencional não é um sistema estável, isto é, não tem resiliência, que é a capacidade de se regenerar ao estado original (como um elástico que, após estendido, volta ao seu formato anterior). E assim, não leva o solo em consideração. Contrária aos princípios pelos quais a natureza opera, a substituição da cobertura vegetal original de uma região – baseada na relação simbiótica entre uma variedade de espécies – por uma cultura única é uma prática danosa ao solo, causando a poluição e esgotamento, e consequente dependência de adubos e insumos químicos para torná-lo novamente produtivo. O efeito colateral é uma produção literalmente envenenada e a desertificação de áreas antes ricas em biodiversidade.

Se isso soa como discurso de militante ecochato, lembre-se da questão da feiúra de Cézanne ou do ruído na música: trata-se na verdade do centro de todas as questões fundamentais para a nossa sociedade contemporânea. A crise ambiental é apenas um dos sintomas de uma grande crise estrutural, que por sua vez é fundamentada no atual sistema financeiro, ele próprio também uma monocultura (para saber mais, veja esclarecedora entrevista com o economista e co-autor do Euro, Bernard Lietaer, que, por sinal, é um dos entrevistados do filme 2012 Tempo de Mudança, que exibimos recentemente em São Paulo).

Com isto em mente, precisamos deixar claro que a tradição intelectual da esquerda brasileira não entende o ambientalismo. Inteiramente focada na substituição de um projeto de poder – dos ricos para a classe trabalhadora – essa esquerda acredita que, para fins de progresso, é necessário expandir os meios produtivos criados pelo sistema capitalista – principalmente aqueles em larga escala, dentre os quais a monocultura e o agronegócio – por entender que a população, ou a distribuição de renda, é mais importante que o meio-ambiente.

Esta mesma perspectiva acusa os ambientalistas de quererem “estacionar a produção”, uma vez que acredita que “igualdade significa produção” e que não há como “produzir sem destruir”. Herança do discurso marxista dos tempos de Guerra Fria e ditadura militar no Brasil, esta retórica é a mesma que tenta se justificar perguntando “e de que outra forma poderíamos alimentar 6 bilhões de pessoas?”

A direita, por outro lado, é tão gananciosa que é como se dissesse “dane-se, vamos cometer atrocidades para alimentar ainda mais nossa ganância”. Está interessada apenas na manutenção do esquema de poder vigente, ou na recuperação de um poder perdido, e não poupa esforços para atingir seu objetivo.

O que não é considerado nesta equação é que grande parte da produção agrícola da monocultura mundial não é destinada ao consumo da população, mas sim a abastecer as demandas incessantes do capitalismo, como a produção de combustível (caso da cana e do milho), ração para a indústria pecuária (soja), produção de madeira e papel (eucalipto), e o especulativo agronegócio exportador, entre outros.

Exemplos mostram que é possível produzir quase todo o contingente de frutas, verduras e legumes necessários para alimentar uma cidade grande dentro da própria cidade, minimizando o impacto ambiental nas áreas rurais, eliminando o custo e o impacto do transporte e usando os microclimas gerados pelas hortas para tratar o ar urbano de maneira natural. Foi o que aconteceu, à força, em Cuba.

O Poder da Comunidade

Com o colapso da União Soviética e o embargo americano nos anos 90, Cuba ficou isolada do mundo capitalista e de sua força motriz, o petróleo. A crise que se seguiu foi dura, e obrigou os cubanos a se virarem criativamente como podiam para viver em uma sociedade com escassez de energia e alimentos. Motivada pela necessidade, a população teve que fazer, na marra, uma transição de uma sociedade industrial para uma sociedade mais sustentável, e começou a utilizar terrenos baldios, estacionamentos e outros espaços urbanos desocupados para produzir verduras e legumes, dando a volta por cima e resolvendo um problema aparentemente insolúvel.

Ao contrário do que se poderia esperar, após o fim do embargo americano as hortas urbanas não foram abandonadas para um regresso à monocultura monopolista. A produção orgânica local é hoje responsável por suprir a demanda de 60% da população cubana, e começa a ser imitada em cidades modernas como Nova York, que está descobrindo os telhados verdes, ou hortas verticais, em cima dos edifícios, espaço antes ocioso. Para saber mais sobre a sobrevivência de Cuba à escassez do petróleo, assista ao  documentário “O Poder da Comunidade”.

Curiosamente, a esquerda brasileira, aparentemente alheia ao exemplo cubano, tão imersa que está em seus próprios dogmas inabaláveis (a herança marxista, um projeto que teve papel fundamental no século XX, mas que hoje se mostra anacrônico), vê com maus olhos defesa do meio-ambiente como projeto político, uma vez que o meio-ambiente é tido como algo separado de nós, algo a ser explorado em prol do benefício da população.

Uma perspectiva mais engenhosa que começa a ganhar terreno hoje (e que ressoa com a visão de Cézanne), em meio à uma crise ambiental cada vez mais avassaladora, é a de que somos parte da natureza, uma forma de inteligência própria que levou milhões de anos para desenvolver seus princípios sustentáveis. E que podemos de fato estar à beira da extinção, como aconteceu com a civilização Maia, que não conseguiu se recuperar do aumento populacional além da capacidade de se produzir alimentos, do desmatamento para o uso da monocultura, e do aumento incessante das guerras.

Em 1978, o ecologista australiano Bill Mollison cunhou o termo permacultura para propor um sistema sustentável baseado no design ecológico e na observação da forma como a natureza opera. Em outras palavras, imitar a natureza é criar uma cultura permanente. Este “planejamento de ocupações humanas sustentáveis”, em definição do próprio Mollison, foca em eficientes sistemas intensivos que operam em pequena escala, mas podem pipocar aos montes em qualquer ambiente, seja num terreno urbano ou no campo.

Ao contrário dos sistemas inconsequentes em larga escala que hoje moldam a paisagem rural, o sistema da permacultura se baseia em recursos biológicos, e não nos combustíveis fósseis (tanto os fertilizantes como os agrotóxicos são derivados do petróleo). E o tema central é que cada componente do sistema está intrinsecamente relacionado entre si (o solo, por exemplo, que é ignorado na monocultura, é tratado como elemento chave na permacultura). Na permacultura, tudo tem pelo menos 2 funções.

O uso sustentável proposto por Mollison foi amplamente inspirado pelo fazendeiro naturalista e filósofo japonês Masanobu Fukuoka (1913–2008), que propunha uma agricultura sem maquinário, fertilizantes ou pesticidas já nos anos 40, seguindo o princípio de “observar a natureza e trabalhar com ela, ao invés de impor nossos desejos sobre ela”. Passadas 6 décadas, é hora de começarmos a escutar aqueles que atropelamos em nome do progresso. Afinal, como dizem os índios Lakota, a profecia somos nós.

Onde procurar cursos de permacultura:

UMAPAZ (São Paulo)
agrofloresta.net
IPEMA (Ubatuba)
Morada da Floresta (São Paulo)
Casa dos Hólons (São Paulo)
Ecocentro IPEC (Goiás)
Ciclo Sustainable (Goiás)
Ipoema (Distrito Federal)

Comentários (2)

ÚLTIMA CHAMADA!

Chance de ouro para conferir na tela grande o belíssimo e essencial documentário que estamos trazendo para São Paulo simultaneamente com o badalado lançamento nos Estados Unidos. Aproveitem a chance porque o filme não está no youtube nem disponível pra download via torrent, e ainda não há previsão de entrar em cartaz no circuito comercial no Brasil. Versão que iremos passar é legendada em português.

Os 25 primeiros RTs de nossa twitada convite receberão um par de ingressos cortesia, a serem retirados no local, pouco antes da sessão. A sala da Cinemateca é uma das mais incríveis de São Paulo, com tela enorme e espaçosas poltronas muito confortáveis. O sistema eletrônico de escurecimento da sala com paredes móveis é um atrativo à parte.

O ingresso custa $8,00, com direito à meia de estudante. A cinemateca fica na Vila Clementino, próximo ao Parque do Ibirapuera (veja o mapa abaixo).


Exibir mapa ampliado

Comentários (1)

Tempo de Mudança

Daniel era um niilista. Nascido nos anos 60, filho da geração da contracultura (seu pai era um pintor abstrato e sua mãe uma editora e escritora que fizera parte da Geração Beat), cresceu num universo artístico profundamente ateu e aprendeu com seus pais a rejeitar as religiões de seus antepassados, internalizando uma visão científica de mundo que desconhece a existência do sagrado. Fez então da cultura sua religião, procurando na literatura e na boemia a conciliação do desejo de ser, de uma autenticidade desengonçada, “a uma instância daquilo que o mercado pode suportar”.

Como jornalista, em seus vinte e poucos anos, bebia ao excesso em festas e coquetéis, enquanto escrevia perfis de celebridades e artistas para revistas. Crescendo em Manhattan, segundo ele “um redemoinho de distrações eróticas e culturais”, não conseguia se livrar de uma sensação de que algo faltava na sua vida, algo “tão essencial como desconhecido, e virtualmente inconcebível”.

Aos poucos, sua desilusão com a sociedade contemporânea – suas falsas necessidades de consumo, obssessão pelo medo perpétuo de guerra e terrorismo e o uso da mídia pra gerar consenso forçado – foi criando uma atmosfera que enegreceu sua mente até obscurecer tudo mais. Perdeu interesse pelo seu trabalho, ou por qualquer trabalho. Com seus amigos, mergulhou na “estrada do excesso” de heroína, cocaína e álcool, na obsessão por bandas alternativas como Nirvana e Pavement e numa vida de memórias borradas de comportamentos indesculpáveis. Mas não atingiu qualquer “palácio de sabedoria”, tal qual invocado nos Provérbios do Inferno de William Blake. Pelo contrário, viu alguns de seus companheiros serem levados drasticamente desta vida.

Procurando pela peça perdida no quebra-cabeça que o levou a tal beco sem saída, ele lembrou de um punhado de experiências com psicodélicos que havia se submetido em tempos de faculdade – que percebeu como os únicos momentos de sua vida em que parecia ter penetrado em níveis de consciência que lhe pareciam mais perspicazes e avançados, e até mais educativos que as aulas que ele assistia.

Dentro do universo artístico e literário na Nova York dos anos 90, a atitude em relação aos psicodélicos era de desdém. Uma vez considerados expansores da mente, as “drogas dos hippies” não possuíam a aura perigosa de “chique fora-da-lei” geralmente atribuída à cocaína e heroína, eleitas como as drogas de escolha dos boêmios. Em sua crise, Daniel percebeu então que, ao se entregar a essas substâncias, eles estavam apenas espelhando a cultura decadente da qual tentavam escapar. Ele e seus amigos haviam optado por adentrar estados alterados de maneira destrutiva – uma que emparelhava com seu niilismo inconsciente.

A partir de então Daniel se enveredou por um caminho de descobertas, começando por uma radical viagem à África para participar de cerimônias rituais com uma tribo Bwiti, que faz uso da raiz da iboga para “rachar a cabeça” (break open the head, em inglês), ou “temporariamente libertar a alma do corpo, permitindo a entrada inicial no cosmos espiritual, onde lhe é mostrado o traçado de seu destino”. Ele passou então pela Amazônia, onde tomou ayahuasca com os índios; pelo México, atrás dos cogumelos sagrados e do legado Maia; pela Índia e Nepal, pelo deserto de Nevada, as terras medievais ao redor de Glastonbury, na Inglaterra, e muitos outros pontos de uma jornada iniciática para desenterrar verdades ancestrais ocultas que a nossa sociedade varreu pra baixo do tapete e que agora, num momento em que nosso planeta se encontra enfermo, clamam pela redescoberta.

Essas histórias irresistíveis e transformadoras podem ser conferidas em seus dois livros, Breaking Open the Head (2002, inédito no Brasil) e 2012, The Return of Quetzalcoatl (2006, com lançamento no Brasil previsto para o fim deste ano, com o título 2012 O Ano da Profecia Maia). Ambos são sólidos frutos de pesquisa intercalados com autobiografia (o primeiro tem 336 páginas e o segundo, 416) que misturam relato de jornada pessoal com referências bibliográficas (só em 2012, O Ano da Profecia Maia são mais de 170 obras literárias e científicas referenciadas e parafraseadas). Prolífico escritor, Daniel Pinchbeck consegue atingir em cheio aqueles que sempre procuraram conforto nas frágeis explicações materialistas sobre a vida, e faz com que seus livros funcionem eles mesmos como uma jornada iniciática de expansão da consicência adormecida.

Dentre seus leitores que tiveram a cabeça aberta (“head broken open” em inglês, referência ao título de seu primeiro livro) através da leitura de sua obra – também céticos de formação e desconfiados, por princípio, com a “baboseira New Age” -, estão este que vos escreve e o cineasta brasileiro João Amorim.

João, que, além de cineasta, trabalha com permacultura (fundou a ONG Ciclo Sustentável em Goiás), vivia em Nova York à época, e teve uma grande identificação com a obra de Pinchbeck. Assim como o autor, o brasileiro havia relegado suas experiências iniciáticas do passado a algum canto obscuro do inconsciente após ter adentrado o mundo dos business, produzindo animações em grande escala e sofisticados comerciais de TV. O cineasta percebeu então como fomos escravizados por uma noção errônea de tempo, que justifica um sistema de lógica auto-destrutiva e insustentável, e a necessidade latente de nos realinharmos com a natureza para evoluirmos nossa consciência e construir um mundo melhor.

Com essas idéias em mente, ele procurou Daniel, com quem desenvolveu empatia imediata e, juntos, produziram o documentário com sofisticadas animações 2012, Tempo de Mudança, que acompanha o autor e explora os tempos de crise que vivemos, o potencial para uma evolução da consciência e propostas práticas para solucionar os nossos problemas através do design ecológico.

É com grande prazer que o Plantando Consciência traz para São Paulo a estréia do filme, a partir do dia 1 de Outubro (sexta-feira) na Matilha Cultural, onde fica em cartaz com sessões gratuitas até o dia 09, dentro do evento Setembro Verde. No dia seguinte à estréia, no sábado 02 de Outubro, haverá um debate com o diretor após a exibição, imperdível para todos aqueles interessados em jardinar a consciência. E no dia 15 teremos uma sessão na Cinemateca Cultural.

Em fase de exibição em festivais e circuitos culturais, o filme já chamou a atenção da rede BBC de Londres, entre outros, que produziu a matéria que você pode conferir abaixo (legendada em português pelo Plantando Consciência); e deve entrar no circuito comercial nos Estados Unidos no fim do ano. No Brasil, não há previsão de que o filme entre em cartaz, então aproveite a oportunidade!

Reportagem da BBC sobre o filme. Legendas disponíveis tb em português, no menu logo abaixo do vídeo

Comentários (1)

O Ativista Quântico, ou como salvar o planeta

“Qualquer tentativa de se descartar um fenômeno incompreensível ao tratá-lo como alucinação se torna irrelevante quando uma teoria científica coerente pode ser aplicada” – Amit Goswami.

Nossas visões errôneas da realidade levaram à atual crise ambiental, social, econômica e espiritual. O que está em jogo é nada menos do que a nossa sobrevivência neste planeta. Onde foi que nós erramos? Será que a culpa foi de um ou outro fruto podre, de uma ou outra situação que escapuliu do nosso controle, ou será que erramos por princípio, e nossos velhos paradigmas é que são o problema?

Avançando o trabalho de Fritjof Capra em o Tao da Física, o físico indiano Amit Goswami, que está no Brasil para divulgar seu novo livro e DVD O Ativista Quântico, pode ter encontrado a melhor resposta. Goswami propõe que os paradoxos da física quântica, como não-localidade, movimento descontínuo, ação à distância e outras “bizarrices1” presenciadas em experimentos laboratoriais só podem ser resolvidos pela hipótese de que a consciência, e não a matéria, é a realidade fundamental do universo.

Mais conhecido no Brasil por sua participação no bem sucedido filme Quem Somos Nós? (What The Bleep Do We Know?, no original em inglês), Amit Goswami nasceu na Índia e na infância foi introduzido à espiritualidade hindu, a qual ele renegou ao ingressar no universo da ciência materialista (é doutor em física nuclear), onde residiu por mais de 30 anos, como pesquisador e professor titular de fisica teórica da Universidade de Oregon. Até perceber que pressupostos newtonianos, cartesianos e darwinistas não conseguem explicar o mundo tal como prometido desde que a ciência assumiu o papel que outrora coube à religião: encontrar respostas.

Consciousness Does Matter

Em O Universo Autoconsciente:  Como a Consciência Cria o Mundo Material (1993), Goswami resgata o conhecimento ancestral ao qual tinha sido apresentado na sua infância e o concilia de forma espetacular com a ciência, abrindo portas para uma novo pensar científico menos limítrofe e de maior potencial, tão necessário nesses tempos de mudança. “Eu estive buscando em vão uma descrição da consciência através da ciência, e o que eu e outros devemos procurar, pelo contrário, é uma descrição da ciência através da consciência. Nós devemos desenvolver uma ciência compatível com a consciência, esta nossa experiência primária.”

Ao invés de uma separação dualista entre mente e matéria, ou sujeito e objeto, o autor promove uma filosofia a qual ele chama de “idealismo monístico” (“idealismo” de idéias, e “monístico” em oposição a dualístico, que seriam os elementos básicos da realidade). De acordo com esta posição, “a consciência do sujeito numa relação sujeito-objeto é a mesma consciência que é pilar para toda a existência.  Assim sendo, consciência é unificadora. Existe apenas uma consciência subjetiva, e nós somos essa consciência,” ele escreve em O Universo Autoconsciente.

Modestamente, Goswami acaba promovendo um feito sem par na história: concilia Deus com ciência. “A ciência tradicional criou e destruiu um Deus barbudo, que fica sentado num trono separado de nós, e acha que está indo a algum lugar com isso”, ele ironiza no filme O Ativista Quântico. Não é à toa que o físico é visto com preconceito por parte da comunidade científica. Suas teorias são avançadas demais para agradar as (frágeis) certezas absolutas que imperam num suposto mundo sem mistérios, tal qual defendido por agitadores como Richard Dawkins.

O Ativista Quântico pode ser visto como um compêndio de seu trabalho desde a publicação de O Universo Autoconsciente; uma aula sobre as idéias propostas pela física quântica – direcionado às pessoas comuns, e não ao especialista – e sua reconciliação com a espiritualidade.


Trailer de O Ativista Quântico com legendas em português

Mas, afinal, que consciência “divina” é essa? Ao contrário de tudo o que costumamos pensar – que existe um mundo físico independente da nossa consciência sobre ele, e que o nosso cérebro é o grande criador de sentido da existência -, Goswami propõe que o cérebro físico funciona na verdade como um instrumento de medição e gravação, seguindo as regras da física clássica, ao passo que “um componente quântico do cérebro-mente é o veículo para a escolha consciente e a criatividade”.  Em outras palavras, é a atividade da consciência que traz o mundo à existência, ao determinar o “colapso quântico” de onda em partícula. “Consciência é o agente que colapsa a onda de um objeto quântico, que existe em potencial, transformando-a em partícula imanente no mundo da manifestação”, ele escreve. A maioria das grandes inovações criativas, seja nas artes ou nas ciências, são resultado de saltos intuitivos, ou saltos quânticos, em novos contextos.

Assim como objetos quânticos, pensamentos parecem obedecer o princípio de incerteza. Goswami nota que “você nunca pode simultaneamente manter foco no conteúdo de um pensamento e na sua direção –  para onde o pensamento está indo.” Ele propõe que a “substância mental” – o pensamento – foi feita dos mesmos elementos intangíveis que construíram os “macro objetos” do mundo físico, mas “a substância mental é sempre sutil, ela não forma conglomerados brutos.”

O filósofo e ocultista Rudolf Steiner2 também concebeu pensamentos como possuidores de uma substância. Não possuindo a terminologia da física quântica, ele expressou a idéia através de um quadro místico, percebendo “pensamentos como seres vivos e independentes. O que nós entendemos como pensamento no mundo manifesto é como uma sombra de um pensamento vivo que está ativo no mundo dos espíritos.” Este “mundo dos espíritos” poderia ser considerado o domínio transcendente do potencial.

Adentrando o terreno antes restrito ao misticismo, Goswami elabora, em A Física da Alma (2001), uma hipótese científica baseada em seu entendimento da natureza quântica da consciência, para mecanismos de reincarnação, a existência de “corpos sutis” e o sistema de chakras descrito por tantas tradições esotéricas. Nem a doutrina cristã nem o pensamento secular contemporâneos dão suporte à idéia de reincarnação, a qual é um elemento básico em muitas tradições espirituais, incluindo hinduísmo e budismo.

Goswami traça a hipótese de que padrões condicionados de pensamento, sentimento e ação criam o que ele chama de “mônada quântica”, um agregado que retorna vida após vida. Ele define a “mônada quântica” como um estágio intermendiário de individualidade, algo entre o ego e o “eu-quântico”, que seria o equivalente da consiência transcendente. Os padrões distintos de pensamento, sentimento e ação condicionados também podem ser considerados como os “corpos sutis” definidos pelo misticismo. O “corpo mental” representa o padrão individual do pensar, e o “corpo vital” é o padrão individual da energia e do sentimento. A “mônada quântica” individual desenvolve memórias vitais e mentais de contextos passados através de vidas sucessivas.

Casos demonstrados de efeitos quânticos como “ação à distância” e “correspondência não-local” provam que objetos quânticos possuem de fato uma “memória” – apesar de esta memória não ser gravada fisicamente, como numa fotografia ou dvd, mas apenas ativada quando a consciência causa um colapso de onda. “Objetos obedecem leis quânticas – eles se espalham pelas possibilidades seguindo a equação descoberta por Erwin Schrödinger – mas a equação não é codificada nos objetos em si.” Da mesma forma, equações apropriadas governam a dinâmica dos corpos que passaram por um condicionamento de memória quântica, apesar de esta memória não estar gravada neles. Enquanto que a memória clássica é gravada em objetos, a memória quântica é na verdade o análogo do que os ancestrais chamavam de memória Akashica, memória escrita em akasha, vazio – em lugar nenhum.”

Uma vez que colapso quântico só pode ocorrer através do cérebro físico, o ego é uma identidade assumida que a consciência veste com o interesse de ter um ponto de referência. Disciplinas esotéricas e técnicas de meditação nos ensinam a observar nossa subjetividade – o ego e seu contínuo balbuciar de pensamentos e preocupações – do ponto de vista de alguém de fora, como uma “consciência testemunha”. Ao fazer isso, nós pulamos pra fora da nossa perspectiva individualista condicionada, o circuito auto-referencial, e atingimos uma perspectiva transcendental.

O ego desenvolve padrões habituais de pensamento e comportamento em resposta ao condicionamento. Com o passar do tempo, este condicionamento cria uma propensão probabilística em favor de padrões anteriores de resposta. “Uma vez que uma tarefa é aprendida, então para todas as situações que a envolvam, a probabilidade que a memória irá engatilhar uma resposta condicionada se aproxima dos 100%.”

Mas, além de nossos padrões habituais de reação, nós sempre preservamos o potencial para insight espontâneo e ação não condicionada. “Quando nos comportamos no nosso modo condicionado, o ego, e então nossos pensamentos, parecem algorítmicos, contínuos e previsíveis, o que os dá a aparência de objetos no estilo newtoniano. Mas também existe pensamento criativo, uma transição descontínua no pensar, uma mudança de significado do condicionado para algo de valor novo”, escreve Goswami, propondo que “pensamento criativo” é o “produto de um salto quântico no ato de pensar.”

De maneira similar, o físico F. David Peat sugere que “sincronicidades, epifanias e experiências místicas” revelam a mente “operando, por um instante, em sua verdadeira ordem… alcançando além da fonte mente e matéria, pra dentro da própria criatividade.” O aspecto quântico da consciência também rompe a casca do hábito na forma de intuição, o que não é um processo irracional, as “a-racional”, geralmente contendo uma “análise superior ou insight ou conhecimento que a consicência não foi capaz de produzir”, escreveu Carl Jung.

A consciência transcendente, esta “consciência que é pilar para toda a existência”,  ”emprega matéria, assim como nós empregamos um computador, para fazer representações (software), que nós chamamos de vida nas células e conglomerados, ou funções vitais.”

De acordo com o linguista Noam Chomsky, o desenvolvimento da linguagem humana não poderia ter acontecido como um simples passo acima da comunicação animal.  “Parece não haver sustentação na idéia de que a linguagem humana é simplesmente uma instância mais complexa de algo a ser encontrado em algum outro lugar no mundo animal”, ele escreve. “Isso cria um problema para o biólogo, uma vez que, se for verdade, é um exemplo de verdadeira ‘emergência’ – a aparição de um fenômeno qualitativamente diferente em um estágio específico de complexidade de organização.”

Humanos possuem uma capacidade inata ou inerente para o desenvolvimento da linguagem, gramática e sintaxe, inexplicável por qualquer  modelo conhecido. “De fato, os processos pelos quais a mente humana alcançou seu estágio presente de complexidade e sua forma particular de organização inata são um total mistério… É perfeitamente seguro atribuir este desenvolvimento à ‘seleção natural’, contanto que percebamos que não há substância nesta afirmação, que ela não é nada mais do que uma crença em que deva existir uma explicação naturalista para esse fenômeno.”

O repentino surgimento da linguagem como estrutura cognitiva parece embasar a tese de Goswami de “um salto quântico de uma consciência criativa”, operando de um domínio transcendental. Tal perspectiva deixa aberta a possibilidade de futuros “saltos quânticos” de complexidade cognitiva.

Goswami acredita que seu modelo de evolução aponta para uma fase futura do desenvolvimento humano quando seremos capazes de mapear o “intelecto supramental” ou “corpo temático” (“o corpo de temas arquetípicos que determina o movimento dos corpos físico, mental e vital” – o que Jung chamava de “Self” e Platão de “reino das idéias”), assim como os corpos vital e mental, no corpo físico. Isso seria uma mudança de fase sem precedentes no potencial humano.


• Amit Goswami no Brasil
• 2012, O Ano da profecia Maia, de Daniel Pinchbeck (com publicação no Brasil prevista para o fim de 2010)
• Rudolf Steiner. Mais conhecido no Brasil pelas escolas Waldorf, Steiner – doutor em Filosofia e com diplomas de Química, Biologia e Física - foi uma espécie de precursor de Goswami, ao integrar ciência com espiritualidade há quase um século, através da criação da antroposofia.


1Propriedades quânticas:

• Um objeto quântico (como, por exemplo, um elétron) pode estar, no mesmo instante, em mais de um lugar (a propriedade da onda).

• Não podemos dizer que um objeto quântico se manifeste na realidade comum espaço-tempo até que o observemos como uma partícula (o colapso da onda).

• Um objeto quântico deixa de existir aqui e simultaneamente passa a existir ali, e não podemos dizer que ele passou através do espaço interveniente (o salto quântico).

• A manifestação de um objeto quântico, ocasionada por nossa observação, influencia simultaneamente seu objeto gêmeo correlato — pouco importando a distância que os separa (ação quântica à distância).

Comentários (4)

Para uns, é o juízo final. Para outros, uma grande oportunidade para mudanças.

Onde você vai estar quando os 5.125 anos do longo calendário Maia terminarem no dia 21 de dezembro de 2012? Você estará se escondendo do cataclisma global e da reversão polar magnética em uma caverna subterrânea? Estará entrando em um reino multidimensional do hiperespaço desencadeado pela ativação em massa da glândula pineal? Recolhendo os pedaços de um mundo em ruínas, ou dançando a noite inteira na festa do final dos tempos?

Considerando que ninguém sabe o que vai acontecer em 2012, o fim do calendário Maia funciona como um meme (o “gene da cultura” – termo cunhado pelo biólogo Richard Dawkins em “O Gene Egoísta”, de 1976) tremendamente intrigante sobre o qual podemos projetar nossas esperanças e medos, sonhos e desejos.

Se o calendário Maia não tem como ser exatamente preciso, tanto melhor: as mudanças planetárias já estão em curso. Representadas no nosso consciente coletivo desde o início do milênio através dos célebres ataques às Torres Gêmeas de 2001 (motivados em última instância pela escassez do petróleo, ou seja, uma questão ambiental), o Tsunami de 2004, Katrina em 2005 e o aquecimento global, esta seqüência de eventos provocou uma mudança da nossa postura de “chefes da natureza” para “parte integrante” dela. Some a isto a crise financeira e a cada vez mais latente noção do fracasso de uma ciência cartesiana como solução dos nossos problemas (a ciência falhou em eliminar o espiritual de nossas vidas, e a retomada de substâncias psicodélicas como expansores de consciência – o LSD foi redescoberto pelas universidades e a ayahuasca tem se tornado o centro de movimentos sociais pós-modernos no primeiro mundo – aliados a descobertas recentes no campo da ciência quântica – primeiro a física e agora a biologia, trouxeram de volta uma visão ancestral em que ciência e espiritualidade são duas faces da mesma moeda), e você verá que 2012 (ou o fim do mundo tal qual o conhecemos) já está acontecendo.

Hollywood está oferecendo uma massiva projeção sombria sob a forma de um épico apocalíptico de $250 milhões que leva a estética da aniquilação a um novo grau de perfeição. Mas descontados os efeitos especiais e o entretenimento de shopping, o que este lançamento tem a dizer? Que temos que rir das crenças antigas com um saco de pipoca na mão, e desacreditar nessa simbologia, já que todos sabemos que o planeta não vai acabar de um dia pro outro? Isto é um enfoque um tanto quanto juvenil, cá entre nós. E covarde, pois nos exclui da responsabilidade pelo que está acontecendo no mundo. Ao fazer pouco caso do assunto e tratá-lo como um delírio das massas religiosas e ignorantes, nós estamos dizendo também que o carro que dirigimos, o banho longo que tomamos e o lixo que deixamos de reciclar não estão abusando do planeta. Afinal, é tudo misticismo.

Paradoxalmente ao seu efeito prometido, este blockbuster do fim dos tempos dá abertura para se oferecer uma visão alternativa para o que 2012 pode significar para o nosso planeta. Potencialmente, 2012 pode representar o despertar da consciência na espécie humana, em que assumimos a responsabilidade por nosso papel como agentes da evolução consciente.

Um crescente movimento popular percebe agora que não podemos mais esperar que governos, corporações ou qualquer entidade exterior sejam responsáveis por criar o belo mundo em que desejamos viver. Temos que fazer isso nós mesmos. Esta rede crescente inclui movimentos, festivais e comunidades como Evolver, Burning Man, Bioneers, Transition Towns e outros, que estão desenvolvendo novas redes cooperativas que podem ajudar a curar o nosso planeta, fornecendo soluções sustentáveis para os nossos sistemas político e econômico desastrosamente insustentáveis, que enfraquecem as pessoas, mantendo-nos todos adormecidos (e facilmente seduzidos por blockbusters como o de Roland Emmerich).

Cidades em todo o mundo (mas não no Brasil, onde a mentalidade de curto alcance, ou a arrogância ignorante propagada pela mídia domina) irão acolher conversas sobre 2012 e a evolução da consciência, incluindo “contra-projeções” para o blockbuster da Sony Pictures. Dois filmes que tratam do assunto sem o sensacionalismo narcotizante do filme de Emmerich merecem destaque e ajudam a esclarecer outra abordagem sobe o tema. O primeiro é um documentário da Mangusta Productions intitulado “2012: Time for Change“, dirigido por João Amorim (sim! Um documentarista brasileiro, radicado nos EUA e nominado ao Emmy, mas, pra variar, completamente desconhecido em seu país de origem) e estrelado, entre outros, por Ralph Metzner, David Lynch, Daniel Pinchbeck e -  pasmem! – Gilberto Gil (alô Veja, nada sobre isso?). O outro intitula-se “2012: Science or Superstition?“, e é produzido por Gary Baddeley (presidente da Disinformation Company ), que entrevista pesquisadores, escritores e cientistas do ramo com o mesmo propósito.

Ao longo do mês de Novembro, Estados Unidos, Canadá, Europa e África estarão participando dos debates, discutindo profecias indígenas e transformação global como gente grande.

Texto de Daniel Pinchbeck, remixado por Plantando Consciência

Deixe um comentário