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DMT – A Molécula do Espírito

Com satisfação convidamos a todos para mais uma sessão de cinema no Cineclube Sócio Ambiental. Dessa vez apresentaremos o documentário sobre a N,N-dimetiltriptamina, molécula que todos temos naturalmente em nosso cérebro e pulmões, e que quando ingerida em maiores quantidades e por vias específicas, catapulta seres humanos para outras dimensões.

Um paradoxo entre ciência e espiritualidade, o filme será seguido de um debate. Tudo no melhor espírito de comunidade, com entrada colaborativa: leve doações!

(vídeo com legendas em português ou inglês. Basta dar play e depois clicar no “CC” que vai aparecer, para escolher o idioma)

 

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A caminho da verdadeira sustentabilidade

“Sustainability: Development that meets the needs of the present without compromising the ability of future generations to meet their own needs”

“Sustentabilidade: Desenvolvimento que supre as necessidades do presente sem comprometer a habilidade de gerações futuras de suprir suas próprias necessidades”

ONU, 1987

 

A eleição presidencial no Brasil mostrou que o ambientalismo está forte como nunca. Em uma política nacionalmente polarizada entre dois partidos (PT e PSDB) há anos, em 2010 os quase 20 milhões de votos no Partido Verde, outrora um partido-nanico, marcaram a história ao mostrar que o brasileiro hoje leva muito a sério a questão ambiental e ecológica.

Mas sustentabilidade vai muito além de políticas públicas sobre petróleo, combustíveis limpos e energias renováveis ou até mesmo desmatamento florestal etc etc. Ela ultrapassa os limites do chamado ambientalismo e passa pela casa de cada um de nós, onde cada indíviduo, comunidade, bairro e município pode fazer a diferença. Uma mudança de estilo de vida está em rumo, e atinge desde o que (e quanto) comemos e compramos até qual lâmpada você coloca na sua casa e como vc descarta tudo isso quando lhe parece que não tem mais utilidade.

Nesse sentido diversas alternativas interessantes aparecem por aí, mais ou menos criativas e que demandam empenho variado do indivíduo. A ONG Made In Forest está montando uma base de dados de pontos de coleta seletiva de diversos materiais em todo o país, enquanto a empresa TetraPak fornece o site rota da reciclagem e o governo executa a coleta seletiva solidária. A reciclagem poderia então ser muito simples no dia a dia de cada um se houvesse interação local entre as pessoas de cada edifício, condomínio, cooperativas, ruas, bairros e prefeituras, mas a coisa pode ir se complicando quando esta cadeia é rompida em qualquer um dos pontos. Em São Paulo, por exemplo, apesar de diversas iniciativas locais de reciclagem em condomínios e bairros, a prefeitura parece estar ainda no século passado, não demonstrando qualquer interesse em utilizar recursos financeiros de quase 6 bilhões que foram disponibilizados pelo governo federal para alavancar 10 cooperativas da megalópole (segundo matéria de Lúcia Rodrigues na Caros Amigos). A medida certamente ajudaria a resolver uma questão seríssima para um monstro de cerca de 15 milhões de habitantes que atualmente joga suas 12 mil toneladas diárias de lixo em municípios vizinhos mais pobres (Caieiras e Guarulhos) a um custo mensal de R$ 6,6 milhões (veja aqui !!!).

Nos municípios que recebem este lixo em troca de dinheiro falta a reflexão séria de que tipo de negócio estão praticando, trocando uma recompensa financeira imediatista em troca de um futuro com solo e água contaminados. Em escala planetária, este fenômeno se repete no tráfico internacional de lixo. Se parece absurdo países levarem seu lixo ao exterior de maneira clandestina, é mais ou menos o que faz cada cidadão diariamente, mas de acordo com a legislação: o que eu não quero aqui, jogo em outro lugar, sempre mais pobre que a origem.

Isso revela que a mesma questão se manifesta em várias escalas, e portanto devemos pensar em soluções abrangentes. Mudanças legislativas e políticas podem parecer ser a solução adequada, mas daí vem a pergunta: Por que uma prefeitura não faria ações de coleta seletiva?

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O Ativista Quântico, ou como salvar o planeta

“Qualquer tentativa de se descartar um fenômeno incompreensível ao tratá-lo como alucinação se torna irrelevante quando uma teoria científica coerente pode ser aplicada” – Amit Goswami.

Nossas visões errôneas da realidade levaram à atual crise ambiental, social, econômica e espiritual. O que está em jogo é nada menos do que a nossa sobrevivência neste planeta. Onde foi que nós erramos? Será que a culpa foi de um ou outro fruto podre, de uma ou outra situação que escapuliu do nosso controle, ou será que erramos por princípio, e nossos velhos paradigmas é que são o problema?

Avançando o trabalho de Fritjof Capra em o Tao da Física, o físico indiano Amit Goswami, que está no Brasil para divulgar seu novo livro e DVD O Ativista Quântico, pode ter encontrado a melhor resposta. Goswami propõe que os paradoxos da física quântica, como não-localidade, movimento descontínuo, ação à distância e outras “bizarrices1” presenciadas em experimentos laboratoriais só podem ser resolvidos pela hipótese de que a consciência, e não a matéria, é a realidade fundamental do universo.

Mais conhecido no Brasil por sua participação no bem sucedido filme Quem Somos Nós? (What The Bleep Do We Know?, no original em inglês), Amit Goswami nasceu na Índia e na infância foi introduzido à espiritualidade hindu, a qual ele renegou ao ingressar no universo da ciência materialista (é doutor em física nuclear), onde residiu por mais de 30 anos, como pesquisador e professor titular de fisica teórica da Universidade de Oregon. Até perceber que pressupostos newtonianos, cartesianos e darwinistas não conseguem explicar o mundo tal como prometido desde que a ciência assumiu o papel que outrora coube à religião: encontrar respostas.

Consciousness Does Matter

Em O Universo Autoconsciente:  Como a Consciência Cria o Mundo Material (1993), Goswami resgata o conhecimento ancestral ao qual tinha sido apresentado na sua infância e o concilia de forma espetacular com a ciência, abrindo portas para uma novo pensar científico menos limítrofe e de maior potencial, tão necessário nesses tempos de mudança. “Eu estive buscando em vão uma descrição da consciência através da ciência, e o que eu e outros devemos procurar, pelo contrário, é uma descrição da ciência através da consciência. Nós devemos desenvolver uma ciência compatível com a consciência, esta nossa experiência primária.”

Ao invés de uma separação dualista entre mente e matéria, ou sujeito e objeto, o autor promove uma filosofia a qual ele chama de “idealismo monístico” (“idealismo” de idéias, e “monístico” em oposição a dualístico, que seriam os elementos básicos da realidade). De acordo com esta posição, “a consciência do sujeito numa relação sujeito-objeto é a mesma consciência que é pilar para toda a existência.  Assim sendo, consciência é unificadora. Existe apenas uma consciência subjetiva, e nós somos essa consciência,” ele escreve em O Universo Autoconsciente.

Modestamente, Goswami acaba promovendo um feito sem par na história: concilia Deus com ciência. “A ciência tradicional criou e destruiu um Deus barbudo, que fica sentado num trono separado de nós, e acha que está indo a algum lugar com isso”, ele ironiza no filme O Ativista Quântico. Não é à toa que o físico é visto com preconceito por parte da comunidade científica. Suas teorias são avançadas demais para agradar as (frágeis) certezas absolutas que imperam num suposto mundo sem mistérios, tal qual defendido por agitadores como Richard Dawkins.

O Ativista Quântico pode ser visto como um compêndio de seu trabalho desde a publicação de O Universo Autoconsciente; uma aula sobre as idéias propostas pela física quântica – direcionado às pessoas comuns, e não ao especialista – e sua reconciliação com a espiritualidade.


Trailer de O Ativista Quântico com legendas em português

Mas, afinal, que consciência “divina” é essa? Ao contrário de tudo o que costumamos pensar – que existe um mundo físico independente da nossa consciência sobre ele, e que o nosso cérebro é o grande criador de sentido da existência -, Goswami propõe que o cérebro físico funciona na verdade como um instrumento de medição e gravação, seguindo as regras da física clássica, ao passo que “um componente quântico do cérebro-mente é o veículo para a escolha consciente e a criatividade”.  Em outras palavras, é a atividade da consciência que traz o mundo à existência, ao determinar o “colapso quântico” de onda em partícula. “Consciência é o agente que colapsa a onda de um objeto quântico, que existe em potencial, transformando-a em partícula imanente no mundo da manifestação”, ele escreve. A maioria das grandes inovações criativas, seja nas artes ou nas ciências, são resultado de saltos intuitivos, ou saltos quânticos, em novos contextos.

Assim como objetos quânticos, pensamentos parecem obedecer o princípio de incerteza. Goswami nota que “você nunca pode simultaneamente manter foco no conteúdo de um pensamento e na sua direção –  para onde o pensamento está indo.” Ele propõe que a “substância mental” – o pensamento – foi feita dos mesmos elementos intangíveis que construíram os “macro objetos” do mundo físico, mas “a substância mental é sempre sutil, ela não forma conglomerados brutos.”

O filósofo e ocultista Rudolf Steiner2 também concebeu pensamentos como possuidores de uma substância. Não possuindo a terminologia da física quântica, ele expressou a idéia através de um quadro místico, percebendo “pensamentos como seres vivos e independentes. O que nós entendemos como pensamento no mundo manifesto é como uma sombra de um pensamento vivo que está ativo no mundo dos espíritos.” Este “mundo dos espíritos” poderia ser considerado o domínio transcendente do potencial.

Adentrando o terreno antes restrito ao misticismo, Goswami elabora, em A Física da Alma (2001), uma hipótese científica baseada em seu entendimento da natureza quântica da consciência, para mecanismos de reincarnação, a existência de “corpos sutis” e o sistema de chakras descrito por tantas tradições esotéricas. Nem a doutrina cristã nem o pensamento secular contemporâneos dão suporte à idéia de reincarnação, a qual é um elemento básico em muitas tradições espirituais, incluindo hinduísmo e budismo.

Goswami traça a hipótese de que padrões condicionados de pensamento, sentimento e ação criam o que ele chama de “mônada quântica”, um agregado que retorna vida após vida. Ele define a “mônada quântica” como um estágio intermendiário de individualidade, algo entre o ego e o “eu-quântico”, que seria o equivalente da consiência transcendente. Os padrões distintos de pensamento, sentimento e ação condicionados também podem ser considerados como os “corpos sutis” definidos pelo misticismo. O “corpo mental” representa o padrão individual do pensar, e o “corpo vital” é o padrão individual da energia e do sentimento. A “mônada quântica” individual desenvolve memórias vitais e mentais de contextos passados através de vidas sucessivas.

Casos demonstrados de efeitos quânticos como “ação à distância” e “correspondência não-local” provam que objetos quânticos possuem de fato uma “memória” – apesar de esta memória não ser gravada fisicamente, como numa fotografia ou dvd, mas apenas ativada quando a consciência causa um colapso de onda. “Objetos obedecem leis quânticas – eles se espalham pelas possibilidades seguindo a equação descoberta por Erwin Schrödinger – mas a equação não é codificada nos objetos em si.” Da mesma forma, equações apropriadas governam a dinâmica dos corpos que passaram por um condicionamento de memória quântica, apesar de esta memória não estar gravada neles. Enquanto que a memória clássica é gravada em objetos, a memória quântica é na verdade o análogo do que os ancestrais chamavam de memória Akashica, memória escrita em akasha, vazio – em lugar nenhum.”

Uma vez que colapso quântico só pode ocorrer através do cérebro físico, o ego é uma identidade assumida que a consciência veste com o interesse de ter um ponto de referência. Disciplinas esotéricas e técnicas de meditação nos ensinam a observar nossa subjetividade – o ego e seu contínuo balbuciar de pensamentos e preocupações – do ponto de vista de alguém de fora, como uma “consciência testemunha”. Ao fazer isso, nós pulamos pra fora da nossa perspectiva individualista condicionada, o circuito auto-referencial, e atingimos uma perspectiva transcendental.

O ego desenvolve padrões habituais de pensamento e comportamento em resposta ao condicionamento. Com o passar do tempo, este condicionamento cria uma propensão probabilística em favor de padrões anteriores de resposta. “Uma vez que uma tarefa é aprendida, então para todas as situações que a envolvam, a probabilidade que a memória irá engatilhar uma resposta condicionada se aproxima dos 100%.”

Mas, além de nossos padrões habituais de reação, nós sempre preservamos o potencial para insight espontâneo e ação não condicionada. “Quando nos comportamos no nosso modo condicionado, o ego, e então nossos pensamentos, parecem algorítmicos, contínuos e previsíveis, o que os dá a aparência de objetos no estilo newtoniano. Mas também existe pensamento criativo, uma transição descontínua no pensar, uma mudança de significado do condicionado para algo de valor novo”, escreve Goswami, propondo que “pensamento criativo” é o “produto de um salto quântico no ato de pensar.”

De maneira similar, o físico F. David Peat sugere que “sincronicidades, epifanias e experiências místicas” revelam a mente “operando, por um instante, em sua verdadeira ordem… alcançando além da fonte mente e matéria, pra dentro da própria criatividade.” O aspecto quântico da consciência também rompe a casca do hábito na forma de intuição, o que não é um processo irracional, as “a-racional”, geralmente contendo uma “análise superior ou insight ou conhecimento que a consicência não foi capaz de produzir”, escreveu Carl Jung.

A consciência transcendente, esta “consciência que é pilar para toda a existência”,  ”emprega matéria, assim como nós empregamos um computador, para fazer representações (software), que nós chamamos de vida nas células e conglomerados, ou funções vitais.”

De acordo com o linguista Noam Chomsky, o desenvolvimento da linguagem humana não poderia ter acontecido como um simples passo acima da comunicação animal.  “Parece não haver sustentação na idéia de que a linguagem humana é simplesmente uma instância mais complexa de algo a ser encontrado em algum outro lugar no mundo animal”, ele escreve. “Isso cria um problema para o biólogo, uma vez que, se for verdade, é um exemplo de verdadeira ‘emergência’ – a aparição de um fenômeno qualitativamente diferente em um estágio específico de complexidade de organização.”

Humanos possuem uma capacidade inata ou inerente para o desenvolvimento da linguagem, gramática e sintaxe, inexplicável por qualquer  modelo conhecido. “De fato, os processos pelos quais a mente humana alcançou seu estágio presente de complexidade e sua forma particular de organização inata são um total mistério… É perfeitamente seguro atribuir este desenvolvimento à ‘seleção natural’, contanto que percebamos que não há substância nesta afirmação, que ela não é nada mais do que uma crença em que deva existir uma explicação naturalista para esse fenômeno.”

O repentino surgimento da linguagem como estrutura cognitiva parece embasar a tese de Goswami de “um salto quântico de uma consciência criativa”, operando de um domínio transcendental. Tal perspectiva deixa aberta a possibilidade de futuros “saltos quânticos” de complexidade cognitiva.

Goswami acredita que seu modelo de evolução aponta para uma fase futura do desenvolvimento humano quando seremos capazes de mapear o “intelecto supramental” ou “corpo temático” (“o corpo de temas arquetípicos que determina o movimento dos corpos físico, mental e vital” – o que Jung chamava de “Self” e Platão de “reino das idéias”), assim como os corpos vital e mental, no corpo físico. Isso seria uma mudança de fase sem precedentes no potencial humano.


• Amit Goswami no Brasil
• 2012, O Ano da profecia Maia, de Daniel Pinchbeck (com publicação no Brasil prevista para o fim de 2010)
• Rudolf Steiner. Mais conhecido no Brasil pelas escolas Waldorf, Steiner – doutor em Filosofia e com diplomas de Química, Biologia e Física - foi uma espécie de precursor de Goswami, ao integrar ciência com espiritualidade há quase um século, através da criação da antroposofia.


1Propriedades quânticas:

• Um objeto quântico (como, por exemplo, um elétron) pode estar, no mesmo instante, em mais de um lugar (a propriedade da onda).

• Não podemos dizer que um objeto quântico se manifeste na realidade comum espaço-tempo até que o observemos como uma partícula (o colapso da onda).

• Um objeto quântico deixa de existir aqui e simultaneamente passa a existir ali, e não podemos dizer que ele passou através do espaço interveniente (o salto quântico).

• A manifestação de um objeto quântico, ocasionada por nossa observação, influencia simultaneamente seu objeto gêmeo correlato — pouco importando a distância que os separa (ação quântica à distância).

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Novos Horizontes

Washington Square Park, Nova Iorque. Sábado 09:00 da manhã, 25 de setembro de 2009, estou indo para a Igreja. Nunca fui a missas, e essa não foi a primeira vez. Ainda assim, refleti um pouco sobre o fato enquanto estava no metro. Ao chegar ao local, a Judson Memorial Church, fui surpreendido pelo quadro de avisos na porta: “Melhor lutar pela utopia que consentir em viver no inferno” (Julian Beck). O recado foi fundo e pareceu fazer sentido perfeito com o que estava por vir: Horizons 2009: Perspectivas sobre Psicodélicos. É isso mesmo, um simpósio científico-cultural sobre a psicodelia dentro de uma Igreja, no país líder da catastrófica guerra contra as drogas. Quão utópico pode ser isso?? Abaixo do pensamento de Beck, uma breve síntese numérica: “Mortos no Iraque: 4.345 Soldados Americanos e 101.608 Civis Iraquianos. Feridos: 31.513 Soldados americanos” e mais um não anunciado número de iraquianos. Por fim, fora do quadro de avisos, mais um recado: “A América em que acredito fecharia Guantânamo. JÁ!”.

Judson Memorial Church

Judson Memorial Church

Arrepios. Sequer entrei e já recebi, logo de cara, um monte de despertares da consciência. As páginas do plantandoconsciência flutuavam em minha mente, psicodélicos, ciência, terrorismo, religião, xamanismo… tudo se conectando e fazendo sentido, união, yoga. Durante todo o dia e durante a tarde do domingo seguinte fiquei surpreso, maravilhado e muito feliz com tudo o que vi e aprendi. O renascer da pesquisa científica com psicodélicos, feita de maneira madura, responsável e ética cerca de 50 anos após o início de sua radical e injustificada proibição.

“Melhor lutar pela utopia que consentir em viver no inferno” (Julian Beck)

Pesquisas financiadas por governos, como da Suíça e mesmo o dos EUA. Outras empreitadas de grande sucesso mostraram com clareza que mesmo na falta dessas fontes de financiamento, muito pode ser feito com doações e espírito de coletividade. Durante o fim de semana aprendemos um pouco mais sobre a fascinante história das substâncias psicodélicas com William Richards, PhD, sua relação com estados alterados de consciência, misticismo e religião. Entramos em contato com o estado-da-arte da neurociência moderna com psicodélicos na magistral palestra do suíço Franz Vollenweider, MD, PhD, que realiza diversos estudos de neuroimagem durante a ação da psilocibina, o princípio ativo dos cogumelos mágicos, no cérebro de voluntários sadios. Vollenweider mostrou, entre muitas outras coisas, que a psilocibina pode causar no cérebro e em nossa percepção de estímulos visuais efeitos semelhantes à meditação. Em seguida, o ponto mais emocionante ficou por conta da palestra da psicóloga Alicia Danforth, que trabalhou nos últimos anos junto com Charles Grob, MD, PhD, na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA). O trabalho utilizou doses medianas de psilocibina como tratamento à ansiedade e depressão extrema que vivenciam pacientes de câncer terminal. Mais do que um resultado maravilhoso e fantástico, no qual uma única experiência com psilocibina foi capaz de aliviar o estresse e angústia por vezes insuportáveis que acompanham o tratamento de câncer, a experiência suscitou nos pacientes um olhar mais amoroso para com a vida, permitindo que vivessem seus ultimos dias com muito mais satisfação (sim, alguns dos voluntários faleceram antes mesmo de o estudo terminar), em alguns casos podendo realmente viver, pois o que lhes restava era apenas um medo tremendo da morte que os impedia de apreciar tudo e todos ao seu redor. Alicia dividiu seus pacientes em três grupos: Os que nunca haviam experimentado estados alterados de consciência, os transformadores, que saíram da experiência radicalmente diferentes de como entraram; e os ativistas, que decidiram romper com o anonimato e deram depoimentos sobre suas experiências. Declaração voluntária da paciente Annie, que pudemos assistir em primeira mão em um vídeo de tirar o chapéu: “Recomendo a psilocibina para qualquer paciente nessa situação, é muito melhor e mais eficiente que qualquer tratamento que já experimentei”. Em outro relato, Alicia contou de uma paciente com câncer de garganta que não podia engolir nada além de líquidos. Nem mesmo iogurte ou mingau, coisas pastosas, ela era capaz de engolir. Apenas água, suco e sopas bem ralas. Imagine-se o estado, além do câncer, de inanição e extrema fraqueza. Após a experiência com psilocibina, no dia seguinte, ao café da manhã, a paciente resolveu tentar tomar um iogurte, e subitamente sua garganta abriu, permitindo que um alimento passasse por ali pela primeira vez em meses. Completamente surpreendida e maravilhada, ela então resolveu, aos poucos, comer mais algumas coisas pastosas, e relatou como um dos momentos mais incríveis de sua vida aquele simples ato de se nutrir. Alguns dias depois a garganta voltou a ocluir, e a paciente faleceu pouco depois. Fica no ar a pergunta de se tratamentos crônicos poderiam restaurar a capacidade de alimentação em pacientes em condições similares. De maneira mais abrangente, o estudo não só permite uma nova abordagem ao tratamento de pacientes em situação tão delicada como o câncer terminal, como questiona as bases da medicina moderna, na qual todos os esforços são realizados no sentido de alongar a vida, e não de trazer qualidade, serenidade e paz ao paciente.

Stephen Ross, MD, PhD da Universidade de NY mostrou como os resultados pioneiros de Alicia e Grob permitiram e estimularam a criação de um grupo multidisciplinar na NYU para aumentar e expandir estes resultados iniciais com a psilocibina em pacientes terminais, estudo que já foi aprovado por toda a extensa burocracia e está em fase inicial, com novas doses e novos pacientes.

Valerie Mojeiko, da MAPS (Multidisciplinary Association for Psychedelic Studies) contou sua história pessoal desde sua primeira epifania com MDMA (o ecstasy) aos 16 até sua primeira bad-trip com subsequente surto psicótico e internação hospitalar após uso de ibogaína.

A bad-trip de Valerie

A bad-trip de Valerie

Valerie viveu na pele a inadequada assistência dada por hospitais aos usuários de psicotrópicos, remanescente de tempos de internação, camisa de força e eletrochoque, que me fizeram lembrar do “Canto dos malditos”, livro de Austregésilo Carrano Bueno, que virou o filme “Bicho de sete cabeças”. Após sua vivência pessoal, somada a sua prática profissional, Valerie juntou-se ao MAPS para criar um serviço de redução de danos aos usuários de psicotrópicos em geral. A proposta é de transformar uma potencial viagem errada e traumatizante em oportunidade para crescimento e amadurecimento. Nas palavras dela: “Turning an emergency into an opportunity for growth, healing and understanding”. A abordagem vai ao cerne da experiência psicodélica, que é muito mais do que uma experiência recreativa, como sempre bem souberam xamãs e curandeiros de diversas regiões do planeta. Os pensamentos e sentimentos trazidos a tona pelos psicodélicos nem sempre são agradáveis, mas se encarados de uma perspectiva madura e de aceitação podem servir, em uma única experiência, como anos de psicoterapia.

Para encerrar o sábado, Earth e Fire Erowid, os criadores do magistral site de informações imparciais sobre psicotrópicos, hoje com mais de 1.200 usuários associados (sendo eu um dos mais recentes associados e um dos poucos brasileiros na lista), mostraram de forma dinâmica como o proibicionismo aos psicotrópicos causa o surgimento de aberrações como o Spice, suposto conjunto de ervas vendidos legalmente na Europa e pela internet, mas que sob um olhar mais cauteloso revelou conter agonistas sintéticos da velha cannabis, utilizada por nossa espécie a cerca de 2700 anos. O casal Erowid deixou claro como o proibicionismo acaba sendo burlado, muitas vezes criando misturas e coquetéis desconhecidos e de qualidade duvidosa, aumentando os potenciais riscos do consumo destas substâncias. Neste caso específico, o Spice esconde as substâncias responsáveis por seu efeito, que não aparecem no rótulo, enaganando agências governamentais e potenciais concorrentes no mercado. Foi necessário que comprassem o produto, o que foi difícil pois o produtor especificava aos distribuidores para não vender nos EUA, o que chegou a ser impresso nas embalagens em determinado momento. Ainda assim, Erowid fez o necessário e testou o produto, confirmando que seus efeitos eram incrivelmente similares ao de fumar maconha. Após consumirem, enviaram para a Drug Detection Agency para análise química, mas o resultado deu negativo para todos os compostos canabinóides e de substâncias psicoativas proibidas. Entretanto, o Spice continha na análise química alguns picos referentes a substâncias que não foi possível identificar. Posteriormente, um laboratório na Alemanha fez análise mais detalhada e encontrou o composto JWH-018, um agonista canabinóide sintético. Nos EUA, agentes de segurança internacional relataram que Spice continha HU-210, achado que ainda não foi confirmado por nenhum outro laboratório. Em 2009, trabalho publicado por Auwarter et al no Journal of Mass Spectrometry finalmente identificou o composto encontrado por Erowid 20 meses antes como sendo o CP 47,497. No meio da sopa de letras do composto químico responsável pelos efeitos do Spice, vale resaltar que CP é a sigla de compostos sintetizados pela gigante Pfizer, e dados os mais de 520.000 resultados do google na busca por spice e o crescimento do fabricante, o Psyche Deli, em mais de um milhão de dólares entre 2006 e 2007, levantou-se a questão de qual o possível envolvimento das gigantes farmacêuticas no mercado negro de psicoativos.

No domingo, o ecologista e teológo Andy Letcher procurou argumentar como a simbologia mística, específica no que diz respeito aos cogumelos, causa por vezes o “wishful thinking” criando idéias que podem ser divertidas mas inadequadas. Andy mencionou especificamente a idéia de o papai noel ter surgido das práticas xamânicas na sibéria, como aparece por exemplo no filme “a inquisição farmacrática” (que andy não chegou a mencionar). A meu ver, faltou a ele justificar suas afirmações, uma vez que apenas mostrou outras imagens antigas e pinturas em cavernas nas quais fica duvidoso se imagens de formas pontiagudas e meio trianglares representavam ou não cogumelos de fato. No caso do papai noel, Andy argumentou que não é nada de xamanismo na sibéria, mas apenas o brilhantismo imaginativo de Thomas Nast. Não argumentou porque esta explicação é mais ou menos mirabolante que a dos xamãs e seus amanitas e também não tocou na questão de se a imaginação de Thomas Nast poderia ter sido ou não influenciada por experiências com o Amanita. Resta ler seu livro “Shroom: A cultural history of the magic mushroom and mad thoughts on mushrooms: Discourse and power on psychedelic consciousness” para ver se têm argumentos mais convincentes que possam comprovar se essas idéias são plausíveis ou de fato apenas histórias mirabolantes criadas por amantes dos cogumelos e suas trips (vale ler os comentários sobre o livro no link acima, da amazon, incluindo o de Jan Irvin, de “a inquisição farmacrática”).

Bob Jesse depois apresentou o trabalho realizado pelo Conselho de Práticas Espirituais (CSP), uma abordagem complementar ao uso de psicodélicos. Segundo Bob, o misticismo evocado por experiências psicodélicas deve ser estilmulado respeitando-se a cultura, religião e crenças de cada um. O trabalho do CSP foca na continuidade das práticas espirituais após o despertar induzido por psicodélicos. Sua palestra levantou questionamentos calorosos por parte da platéia, que questionou que experiências místicas e religiosas são pessoais e que não cabe a uma organização, especialmente uma ocidental dirigida por “homens brancos” orientar as pessoas nesta área. Entretanto, me parece crucial a continuidade das experiências de expansão da consciência (ou místicas ou religiosas etc etc) por outros métodos que não o abuso das substâncias psicodélicas. Como magistralmente argumentado por R.C. Zaehner em seu debate com Aldous Huxley, e também de forma brilhante por Ram Dass, substâncias psicodélicas tem a capacidade de nos teletransportar para o cume do Everest, onde podemos experimentar uma visão mais ampla e abrangente do universo, tanto externo quanto em nosso interior. Mas esta experiência é radicalmente diferente de escalar a montanha. Segundo Zaehner, este é o caminho religioso. Segundo Ram Dass, este é o caminho espiritual da meditação e compaixão. Muitos outros existem, como yoga, o quarto caminho etc…

Por fim, Bob Wold apresentou sua história com “cluster headaches” (cefaléia em salvas), uma condição de dor de cabeça extrema, que segundo ele não deveria ser chamada de dor de cabeça porque absolutamente não descreve  o que se passa. Os pacientes com cluster headaches mais parecem pacientes em convulsão. A dor é tão insuportável que muitos pensam em suicídio e alguns de fato o cometem. Atualmente não existe tratamento eficaz. Bob começou a sofrer de clusters 20 anos atrás enquanto brincava com seu filho no quintal. Repentinamente começou a se sentir tonto, e em menos de dez minutos encontrava-se convulsionando e batendo a cabeça no chão, gritando em dor profunda. As dores vêm em ciclos, com vários episódios por ciclo, cada um chegando a durar 30 minutos! Bob teve cerca de dois ciclos por ano, durante 20 anos. Estima-se que teve mais de 18.000 episódios, ficando praticamente incapacitado para viver de maneira digna. Tomou mais de 75 medicamentos prescritos, em mais de 100 combinações diferentes. A lista vai de aspirina até acupuntura, com muito pouco resultado. Sem encontrar saída, Bob estava indeciso entre quatro opções cirúrgicas, algumas de alto risco, e todas sem promessa de resultado definitivo. Foi aí então que Bob encontrou dois médicos que lembraram que Albert Hofmann, o pai do LSD, quando sintetizou o que talvez seja a molécula mais famosa do mundo, procurava tratamentos para hemorragias durante o parto e para dores de cabeça. Devido à ilegalidade do LSD em todo o mundo e sua difícil síntese, os médicos e Bob decidiram tentar a psilocibina, molécula prima do LSD, disponível gratuitamente na natureza em diversas espécies de cogumelos, como o Psilocibe cubensis. O resultado foi tão expressivo e marcante que Bob se viu, pela primeira vez em duas décadas, livre de suas dores. Bob fundou então o Clusterbusters, associação para ajudar pacientes com a mesma condição e estudar os efeitos da psilocibina como tratamento, quais as melhores doses etc. Bob destaca que as alucinações não são um problema, já que a dose necessária pra terminar as dores são abaixo das doses alucinogênicas. Ele hoje cultiva os cogumelos em sua casa e dirige com paixão o Clusterbusters. A associação cresceu e hoje conta com apoio de pesquisadores em instituições formais de pesquisa. O caminho foi árduo, e apesar dos inúmeros comentários preconceituosos de que ninguém levaria isto a sério e nem financiaria pesquisas de laboratório com “cogumelos alucinógenos”, Bob conseguiu doação privada de 50.000 dólares para seguir e expandir seu trabalho, que hoje ajuda dezenas de pacientes na mesma condição.

Ao final do domingo, a sensação era de uma comunidade forte, séria e unida para continuar expandindo este setor de pesquisa médica e científica ignorado por tantos anos. As promessas são inúmeras, desde tratamentos clínicos até questões centrais para a neurociência moderna, como quais os substratos neurais dos estados de consciência, tanto normais quanto alterados. horizons 2009

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Deus é pop, mas não estava lá

Muitos já devem ter visto que a capa da revista Época desta semana é um Jesus estilizado, com a chamada “Deus é pop. Uma pesquisa inédita revela que 95% dos jovens brasileiros se dizem religiosos – e eles estão em busca de novas formas de expressar sua fé”. A matéria aborda os jovens modernos que buscam inclusão religiosa. Garotos e garotas de até 20 e tantos anos com tatuagens, piercings, alargadores de orelha e pranchas de surf, que entoam “O evangelismo tá bombando!”. O texto também afirma que, de acordo com o teólogo Rubem Alves, “os jovens de hoje adotam religiões minoritárias por achar que estão vivendo uma grande missão: querem mostrar ao mundo que, apesar da pouca idade, já encontraram sua ‘verdade’. Seria quase um ato de afirmação juvenil”.

Enquanto esta pesquisa revela que 95% dos jovens brasileiros são religiosos, uma pesquisa realizada em 16 países pela MTV Networks em 2007 indica que os jovens entre 14 e 24 anos no Brasil são os que têm o maior número de “amigos virtuais” (pessoas com as quais se relacionam apenas pela Internet): 46, para uma média global de 20. Por outro lado, a Fundação Padre Anchieta apresenta pesquisa que apurou que os jovens brasileiros se preocupam com segurança e trabalho, mas não com a cultura: 36% dos jovens nunca foi a um show de música brasileira; 39% nunca foi ao cinema, e 52% não conhece uma biblioteca.

Mais do que apontar que existe uma relação entre a alienação, afirmação de identidade e religiosidade, queremos colocar em pauta outra questão mais profunda: existe uma pequena pressuposição na interpretação dos dados pela Época que leva toda esta conversa a um campo altamente tendencioso: a confusão entre o significado de espiritualidade e religião.

Podemos e devemos investir em nossas conversas espirituais. Se bem dirigidas, elas funcionam como porta para o auto-conhecimento. Práticas “alternativas” como a yoga, meditação, uso de enteógenos e plantas ritualísticas como a ayahuasca servem como formas de se encontrar equilíbrio e sentido espiritual (ou a tal “verdade” mencionada por Rubem Alves). O escritor americano Sam Harris diz com sabedoria em seu livro “Carta a uma Nação Cristã” (Companhia das Letras) que “é importante perceber que a distinção entre ciência e religião não implica excluir nossas intuições éticas e nossas experiências espirituais da nossa conversa sobre o mundo; implica sermos honestos sobre o que podemos sensatamente concluir a partir delas”.

Porque se há um dado importante que parece ser sempre omitido na discussão sobe religião, é o fato de que as igrejas organizadas são responsáveis por barbáries sem fim desde os primórdios, em nome de pressuposições fantásticas que não tem pé nem cabeça fora do campo da metáfora. Católica, evangélica, muçulmana, judaica, hindu… não importa qual, mas um conjunto de julgamentos humanos tomados como palavras divinas sempre causaram mais violência e sofrimento do que redenção e amor.

Insistimos: nós não acreditamos que devemos “matar Deus” por um mundo frio, inerte e envolto em desencanto, como comumente é interpretado o ateísmo superficial. Mas não podemos entregar um poder tão grande de crescimento e exploração do subconsciente nas mãos de instituições manipuladoras de mitos, que fizeram história com base em ascenção terrena (enriquecimento) e busca e manutenção de poder às custas de muito sangue.

A única forma de nos libertarmos deste emaranhado religioso, que só mantém a confusão e o desentendimento vivos – como revela a matéria da Época para olhares atentos – é procurar outra forma de entender a necessidade da conexão entre a existência individual e uma natureza mais profunda. E esta forma parte de uma volta às raízes, ao entendimento que nossas experiências espirituais são pessoais e de natureza simbólica.

Para tanto, recomendamos os documentários A Inquisição Farmacrática, O Deus que Não Estava Lá e Zeitgeist (parte I) acerca da questão religiosa; e Outros Mundos, Xamãs da Amazônia, Ram Dass – Graça Feroz e CoSM the Movie – Alex grey and The Chapel of Sacred Mirrors, sobre a questão espiritual. Lembrando que os filmes estão disponíveis gratuitamente para serem assistidos online em nosso site, com legendas em português (todos na íntegra exceto o Ram Dass e o Alex Grey, que disponibilizamos trechos selecionados). Aproveite!

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Bob, o Pregador

Robert Crumb, "Minha Vida" (Ed. Conrad)

Extraído do sensacional livro Minha Vida, de Robert Crumb, publicado no Brasil pela Conrad Editora (clique na imagem para ver em tamanho grande).

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Deus está Nu

VEJA – 25/MAIO/2005

Entrevista: Michel Onfray
“Deus está nu”

O filósofo francês mais lido da atualidade
diz que as três grandes religiões monoteístas
vendem ilusões e devem ser desmascaradas
como o rei da fábula de Andersen

André Fontenelle

Em um tempo em que a religiosidade está em alta, surpreende o livro que se encontra no topo da lista dos mais vendidos na França desde o mês passado, à frente até das biografias de João Paulo II: Tratado de Ateologia. Escrita pelo filósofo mais popular da França na atualidade, Michel Onfray, de 46 anos, a obra é um ataque pesado ao que o autor classifica como “os três grandes monoteísmos”. Segundo Onfray, por trás do discurso pacifista e amoroso, o cristianismo, o islamismo e o judaísmo pregam na verdade a destruição de tudo o que represente liberdade e prazer: “Odeiam o corpo, os desejos, a sexualidade, as mulheres, a inteligência e todos os livros, exceto um”. Essas religiões, afirma o filósofo, exaltam a submissão, a castidade, a fé cega e conformista em nome de um paraíso fictício depois da morte.

Para defender essa argumentação, Onfray valeu-se de uma análise detalhada dos textos sagrados, cujas contradições aponta ao longo de todo o livro, e do legado de outros filósofos, como o alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), que proclamou, em uma célebre expressão, a “morte de Deus”. O filósofo escreve em linguagem acessível, a mesma que emprega ao lecionar na cidade de Caen, no norte da França. Ali criou uma “universidade popular” que atrai milhares de pessoas a palestras diárias e gratuitas sobre filosofia, artes e política. Gravadas pela rádio pública France Culture, as aulas de Onfray são sucesso de audiência. Os fãs o consideram um sucessor de Michel Foucault (1926-1984), o mais influente filósofo francês do século passado. Em seus livros, Onfray propõe o que chama de “projeto hedonista ético”, em que defende o direito do ser humano ao prazer. Uma de suas obras, A Escultura de Si, ganhou em 1993 o Prêmio Médicis, o mais importante da França para jovens autores. Onfray também tem detratores, que o acusam de repetir idéias ultrapassadas. Em dois meses seu Tratadovendeu 150.000 exemplares. De seu escritório em Argentan, Onfray concedeu a seguinte entrevista a VEJA.

Veja – Em sua opinião, só o ateu é verdadeiramente livre?
Onfray – Só o homem ateu pode ser livre, porque Deus é incompatível com a liberdade humana. Deus pressupõe a existência de uma providência divina, o que nega a possibilidade de escolher o próprio destino e inventar a própria existência. Se Deus existe, eu não sou livre; por outro lado, se Deus não existe, posso me libertar. A liberdade nunca é dada. Ela se constrói no dia-a-dia. Ora, o princípio fundamental do Deus do cristianismo, do judaísmo e do Islã é um entrave e um inibidor da autonomia do homem.

Veja – A que o senhor atribui o sucesso de seu livro num momento em que há tanta discussão sobre religiosidade?
Onfray – Acho que muitos franceses esperavam uma declaração claramente atéia. As primeiras páginas de jornais e as capas de revistas sobre o retorno da religiosidade, a polêmica sobre o direito de usar ou não o véu muçulmano na escola leiga, a oposição maniqueísta entre um eixo do bem judeo-cristão e um eixo do mal muçulmano, a obrigação de escolher um lado entre George W. Bush e Osama bin Laden, a religiosidade dos políticos exposta na imprensa, o crescimento do Islã nos subúrbios franceses, tudo isso contribuiu para uma presença monoteísta forte no primeiro plano da mídia. Meu livro provavelmente funciona como um antídoto a esse estado de coisas, pelo menos na França. Ele ainda está sendo traduzido para outros idiomas. 

Veja – Seu livro defende um ateísmo “fundamentado, construído, sólido e militante”. Isso quer dizer que é preciso convencer as pessoas da inexistência de Deus?
Onfray – Isso quer dizer que, quando uma pessoa não se contenta apenas em acreditar estupidamente, mas começa a fazer perguntas sobre os textos sagrados, a doutrina, os ensinamentos da religião, não há como não chegar às conclusões que eu proponho. Trata-se de não deixar a razão, com R maiúsculo, em segundo plano, atrás da fé – e sim dar à razão o    poder e a nobreza que ela merece. Essa é a missão, a tarefa e o trabalho do filósofo, pelo menos de todo filósofo que se dê ao respeito.

Veja – A desconstrução dos três grandes monoteísmos equivale a mostrar que o rei está nu, como na fábula de Hans-Christian Andersen?
Onfray – Sim. É preciso mostrar que o rei está nu, deixar claro que o mecanismo das religiões é o de uma ilusão. É como um brinquedo cujo mistério tentamos decifrar quebrando-o. O encanto e a magia da religião desaparecem quando se vêem as engrenagens, a mecânica e as razões materiais por trás das crenças. 

Veja – O senhor cita constantemente trechos do Corão, da Bíblia e da Torá para apontar contradições. Por que razão, se em muitos casos esses trechos nem são mencionados pelos religiosos na defesa de suas convicções?
Onfray – Os sacerdotes limitam-se a usar apenas um punhado de palavras, textos e referências, sempre postos em evidência porque são aqueles trechos que permitem assegurar melhor o domínio sobre os corpos, os corações e as almas dos fiéis. A mitologia das religiões precisa de simplicidade para se tornar mais eficaz. Elas fazem uma promoção permanente da fé em detrimento da razão, da crença diante da inteligência, da submissão ao clero contra a liberdade do pensamento autônomo, da treva contra a luz.

Veja – Seu livro cita contradições entre a pregação da paz e a da violência. O senhor pode dar os exemplos mais marcantes dessa situação?
Onfray – O famoso sexto mandamento da Torá ensina: “Não matarás”. Linhas abaixo, uma lei autoriza a matar quem fere ou amaldiçoa os pais (Exodo 21:15 e adiante). Nos Evangelhos, lê-se em Mateus (10:34) a seguinte frase de Jesus: “Não vim trazer a paz, e sim a espada”. O mesmo evangelista afirma a todo instante que Jesus traz a doçura, o perdão e a paz. O Corão afirma que “quem matar uma pessoa sem que ela tenha cometido homicídio será considerado como se tivesse assassinado toda a humanidade” (quinta sura, versículo 32). Mas ao mesmo tempo o texto transborda de incitações ao crime contra os infiéis (“Matai-os onde quer que os encontreis”, segunda sura, versículo 191), os judeus (“Que Deus os combata”, nona sura, versículo 30), os ateus (“Deus amaldiçoou os descrentes”, 33ª sura, versículo 64) e os politeístas (“Matai os idólatras, onde quer que os acheis”, nona sura, versículo 5).

Veja – O livro ataca com virulência particular o apóstolo Paulo, descrevendo-o como um histérico. Por quê?
Onfray – Basta ler os Atos dos Apóstolos, nos trechos que descrevem a conversão de Paulo, e conhecer um pouco de psiquiatria, ou ter um manual de psicologia ao alcance da mão, para ver quanto os sintomas da visão que originou sua conversão coincidem com os descritos pelos especialistas em histeria: perda de tônus muscular, queda, cegueira momentânea etc. Ao me referir a Paulo, eu não emprego o termo neurose como um insulto de caráter moral, mas como um diagnóstico que pode ser estabelecido por um psiquiatra.

Veja – Há uma diferença entre ser contra as religiões e não acreditar na existência de Deus?
Onfray – É possível acreditar em Deus e viver sem religião. Mas não conheço religião que viva sem Deus. Trata-se do mesmo combate, verso e reverso da mesma medalha. 

Veja – Mas não são poucos os que sustentam que a necessidade de Deus é inerente ao ser humano. Há quem acredite que essa necessidade é genética.
Onfray – Essa necessidade é cultivada culturalmente. É claro que não existe. Muito menos geneticamente. Essa é uma idéia ridícula. Não há nada no cérebro além daquilo que é posto nele. Já se viu alguma criança – imagem do que pode haver de mais natural – nascer acreditando em algum deus ou em alguma transcendência? Deus e a religião são invenções puramente humanas, assim como a filosofia, a arte ou a metafísica. Essas criações, é bem verdade, respondem a necessidades, como a de esconjurar a angústia da morte, mas podemos reagir de outra forma: por exemplo, com a filosofia.

Veja – Como o senhor explica o fato de muitos cientistas, diante da impossibilidade de explicar a imensa complexidade do universo, se voltarem para a hipótese da criação divina?
Onfray – O recurso a Deus e à transcendência é um sinal de impotência. A razão não pode tudo. Deve ser consciente de suas possibilidades. Quando ela não consegue provar alguma coisa, é preciso reconhecer essas limitações e não fazer concessões à fábula, ao pensamento mitológico ou mágico. A idéia da criação divina é uma espécie de doença infantil do pensamento reflexivo.

Veja – Como filósofo ateu, como o senhor viu a forte comoção popular pela morte do papa?
Onfray – Tamanho fervor deve ser relacionado com o fato de que João Paulo II foi de fato o primeiro “papa catódico”, o primeiro sumo pontífice da era da comunicação de massa. Foi o homem mais filmado do planeta. Logo, era o maior portador da aura que a mídia confere. A maioria das pessoas tem fascínio pelos ícones eleitos pela mídia e acredita mais neles do que na verdade física. Daí a estranha sensação quando a TV prova que por trás daquela imagem divinizada havia alguém bem real, de carne e osso. Isso ficou demonstrado, na morte do papa, pelo uso espetaculoso da exposição do cadáver e pela criação de uma reação histérica entretida e amplificada pela transmissão televisiva.

Veja – O senhor retoma casos recentes e antigos em que o papel da Igreja Católica não foi dos melhores: ataques a Galileu, silêncio diante do holocausto ou do genocídio em Ruanda. Mas é possível encontrar outros tantos exemplos de bons momentos do catolicismo. Isso não mostra que o problema não são as religiões e sim os homens que as interpretam?
Onfray – Não me proponho a escrever uma resposta ao livro O Gênio do Cristianismo (obra de 1802 do escritor francês François-René de Chateaubriand, que refutava os filósofos anti-religiosos de seu tempo). O que quero é mostrar que as religiões, que dizem querer promover a paz, o amor ao próximo, a fraternidade, a amizade entre os povos e as nações, produzem na maior parte do tempo o contrário. Não me parece muito digno de interesse que os monoteísmos possam ter gerado o bem aqui ou acolá. Afinal, é a isso mesmo que eles dizem se propor. Não há motivo para espanto. Em compensação, que se devam a eles tantas barbaridades terrenas, extremamente humanas, me parece muito mais importante como prova da inanidade das doutrinas.

Veja – Críticos católicos alegam que seu livro nada fez senão repetir antigos argumentos contra a religião. Quais são seus argumentos novos?
Onfray – Não se pode fazer muito a respeito, a não ser dizer e redizer o que é verdade há muito tempo. E repetir que os cristãos têm pouca moral para me reprovar por dizer antigas verdades, quando eles mesmos propagandeiam erros ainda mais antigos.

Veja – Não se pode negar que a religião proporciona valores morais e éticos a muitas pessoas que de outra forma não os teriam. Isso, por si, não bastaria para justificar a existência das religiões?
Onfray – Se não houvesse alternativa, certamente. Mas há. A filosofia permite a cada um a apreensão do que é o mundo, do que pode ser a moral, a justiça, a regra do jogo para uma existência feliz entre os homens, sem que seja preciso recorrer a Deus, ao divino, ao sagrado, ao céu, às religiões. É preciso passar da era teológica à era da filosofia de massa. 

Veja – O senhor acha que um dia o mundo será predominantemente ateu?
Onfray – Não. A fraqueza, o medo, a angústia diante da morte, que são as fontes de todas as crenças religiosas, nunca abandonarão os homens. Por outro lado, é preciso que alguns espíritos fortes, para usar uma expressão do século XVII, defendam as idéias justas. A questão é converter novos espíritos fortes. Só isso já seria muita coisa.

Veja – Quando e como o senhor se tornou ateu?
Onfray – Até onde consigo me lembrar, sempre fui ateu, a não ser na infância, quando acreditava na mitologia católica como se acredita em Papai Noel ou nas lendas do folclore. A história contada pelo catolicismo tem tanto valor quanto essas. Está no mesmo nível dos contos da carochinha, em que os animais conversam e os ogros comem criancinhas. Assim que um embrião de razão habitou meu espírito, não me importei mais com esse pensamento mágico – que só serve, justamente, para as crianças.

Veja – Do que se trata, exatamente, a “universidade popular” que o senhor criou?
Onfray – Eu criei essa universidade, com um grupo de amigos, três anos atrás, com o objetivo de proporcionar um saber filosófico exigente ao maior número possível de pessoas, de todas as origens, sem distinção de classe, religião, sexo, idade, formação, poder aquisitivo ou nível intelectual. E, ao mesmo tempo, permitir a construção de si mesmo como pessoa livre, independente e autônoma. Organizamos seminários sobre idéias feministas, política, cinema, arte contemporânea ou psicanálise, entre outros. Também temos uma oficina de filosofia para crianças. No que me diz respeito, ensino uma contra-história da filosofia – atéia, materialista, sensualista, hedonista, anarquista.

Veja – Que tipo de público freqüenta seus cursos?
Onfray – O público é indefinível, verdadeiramente popular: jovens, velhos, homens, mulheres, universitários, gente sem diploma, trabalhadores especializados, como pilotos de Airbus e neurocirurgiões, não qualificados ou desempregados, como os demitidos de uma montadora de automóveis da região.

Veja – A idéia está dando certo?
Onfray – O princípio dela já permitiu que se espalhe por cinco ou seis outras cidades. Há outros projetos de expansão.

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