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O Dia da bicicleta

Nos idos de 1920, em Zurique, na Suíça, um jovem trabalhava para conclusão de seus estudos em química. Em uma época de tecnologia muito precária, o estudante usou o suco gastrointestinal da lesma de jardim para conseguir fazer a degradação enzimática da quitina, molécula que compõe a estrutura de cascas, conchas, asas e garras de insetos, crustáceos e outros animais. A estrutura nitrogenada mostrou-se semelhante à da celulose, o material estrutural das plantas. Os resultados, obtidos em apenas três meses, renderam um doutorado com “distinção de mérito”. Em seguida, o recém doutor teve três possibilidades de emprego, e escolheu a compania Sandoz, pois ali poderia trabalhar com produtos naturais, que eram os que lhe fascinavam, enquanto as duas outras ofertas eram de trabalhos com química sintética.

Assim, em 1929 o destacado recém-doutor iniciou sua carreira profissional no laboratório do Prof. Arthur Stoll, fundador e diretor do departamento farmacêutico da Sandoz. O objetivo do departamento era isolar os princípios ativos de plantas medicinais, produzindo assim medicamentos com moléculas estáveis derivadas das presentes nas plantas, que muitas vezes são instáveis e difíceis de se manipular. As plantas escolhidas eram a dedaleira (Digitalis purpurea e outras do mesmo gênero), a cebola do mar (Scilla maritma) e o ergot (ou esporão) do centeio, que tinham pouco uso médico dada a instabilidade dos compostos e da consequente dificuldade de se estabelecer a dosagem. O jovem dedicou-se então a estudar a Scilla por alguns anos. Os princípios ativos já haviam sido isolados anteriormente e poderiam ser usados para tratamento de insuficiência cardíaca. A Sandoz já comercializava uma preparação farmacêutica com este propósito, mas a estrutura das moléculas ainda era desconhecida. O trabalho, que terminou em 1935, elucidou a estrutura destas moléculas, mostrando semelhanças com princípios conhecidos, isolados de glândulas na pele de sapos. Ponto final, linha de pesquisa encerrada.

Foi aí então que nosso protagonista buscou um novo campo de estudo, e pediu ao chefe para continuar suas pesquisas com os alcalóides do ergot, iniciadas no final da I Guerra Mundial, em 1917, e que prontamente levaram ao isolamento da ergotamina em 1918, o primeiro alcalóide do ergot obtido em forma pura.

A Sandoz também já comercializava o produto para tratamento de hemorragias no parto e de dores de cabeça, sob o nome Gynergen. Mas a pesquisa com o ergot tinha parado por aí. Justificando que laboratórios norte-americanos estavam investindo nesta linha, e portanto a Sandoz deveria seguir estudando o ergot para não perder a liderança, o novo empregado conseguiu o que queria, mas recebeu um aviso do Prof. Stoll: “Eu devo lhe alertar das dificuldades que você enfrentará com os alcalóides do ergot. Eles são excessivamente sensíveis, se decompõem facilmente, e são menos estáveis do que qualquer composto que você investigou na área dos glicosídeos cardíacos. Mas você é bem vindo para tentar”. Definia-se neste momento a área principal em que trabalharia por toda sua longa e produtiva vida, com “enorme entusiasmo e alegria criativa de embarcar num campo tão pouco investigado.”

Claviceps purpurea, o ergot do centeio

O ergot é produzido por um fungo, o Claviceps purpurea, que cresce no centeio ou, em menor quantidade, em outros cereais e grãos. Caroços infestados com o fungo têm tom marrom-escuro ou um marrom mais próximo do roxo. O ergot usado medicinalmente é o do centeio (Secale cornutum).

A história do ergot é fascinante por si só. Antigamente temido como veneno, foi depois considerado valioso depósito de remédios. Na idade média, o ergot foi a causa de envenenamentos coletivos e por muito tempo misteriosos que apareciam em duas formas, o ergotismus gangraenosus e o ergotismus convulsivus.

St Anthonys fire

Estes pacientes eram tratados pela ordem de Santo Antônio, que se tornou o padrinho do ergotismo, ou fogo de santo Antônio (St. Anthony’s fire).

As epidemias de envenenamento pelo ergot cederam com a descoberta de que o pão contaminado era a causa, mas epidemias foram registradas no sul da Rússia ainda em 1926-27. O primeiro relato de uso medicinal do ergot é de 1582, para facilitar o parto, mas este uso não é muito seguro para o bebê pois a dificuldade na dosagem causa espasmos fortes do útero. Somente com a determinação da estrutura química dos alcalóides do ergot por laboratórios ingleses e norte-americanos em 1930 que o estudo do ergot ganhou força. Os pesquisadores Jacobs e Craig em Nova Iorque chamaram o núcleo químico presente em todos os alcalóides do ergot de ácido lisérgico. Portanto, o entusiasmado Dr. Abert Hofmann começou a trabalhar com modificações do ácido lisérgico, adicionando diversos radicais, como aminas, através de um processo conhecido como Síntese de Curtius. Combinando o ácido lisérgico com a propanolamina ele obteve um composto idêntico à ergobasina, composto presente naturalmente no ergot, completando então a primeira síntese (produção artificial) de um alcalóide do ergot. Após este sucesso, a pesquisa avançou, rendendo o medicamento Methergine, que se tornou um líder na área da obstetrícia. Em 16 de novembro de 1938, Hofmann produziu a vigésima-quinta substância na série de modificações do ácido lisérgico, com o intuito de obter um composto que funcionasse como estimulante respiratório e circulatório (um analéptico), dada a similaridade estrutural com um analéptico em uso à época, a dietilamida do ácido nicotínico (Coramine). Os testes no departamento farmacológico da Sandoz revelaram efeitos fortes no útero, cerca de 70% dos efeitos da ergobasina que já estava em uso. Também foi notado que os animais de laboratório usados no experimento ficaram inquietos. Mas os efeitos não eram o suficiente para os interesses da Sandoz e os testes com esta molécula foram descontinuados. Nos próximos cinco anos, Hofmann avançou com outros estudos com o ergot, criando o medicamento Hydergine para melhora da circulação periférica e da função cerebral na geriatria, que se tornou o principal produto da Sandoz por muitos anos. É dele também o Dihydergot, medicamento para estabilização da circulação e da pressão sanguínea. Tudo isso trabalhando praticamente sozinho, o que contrasta com as grandes equipes que trabalham nos modernos laboratórios de química atualmente. Os resultados sem dúvida já haviam consolidado sua carreira e comprovado sua competência.

Mas de alguma forma a intuição de Hofmann não o deixava esquecer a vigésima-quinta modificação do ácido lisérgico, o LSD-25 (Lyserg-saure-diathylamid). “Um presentimento peculiar – a sensação de que esta molécula poderia ter propriedades não estabelecidas nas primeiras investigações – me induziram, cinco anos após a primeira síntese, a produzir o LSD-25 de novo”, conta em seu brilhante e fascinante livro “LSD, My Problem Child” (ainda sem tradução para o português). Assim, de maneira não usual, na primavera de 1943, em plena II Guerra Mundial, enquanto a Europa sofria com as catástrofes da violência generalizada e com os campos de concentração do nazismo, Hofmann quebrou o protocolo da empresa, que considerava as moléculas uma vez descartadas como definitivamente fora do programa de pesquisas, e resintetizou o LSD-25. Isso sem que houvesse qualquer dado concreto que o levasse nessa direção. Apenas ouvindo sua voz interior, Hofmann protagonizou uma descoberta serendipituosa fantástica, provavelmente a mais espantosa da história da ciência. Nos passos finais da síntese, durante a purificação e cristalização da dietilamida do ácido lisérgico na forma de um tartrato (um sal), Hofmann foi interrompido por sensações incomuns. Em seu relatório para o Prof. Stoll escreveu:

“Na última sexta-feira, 16 de abril de 1943 fui forçado a interromper meu trabalho no laboratório no meio da tarde, e fui para casa, afetado por uma inquietude exagerada, combinada com uma leve tontura. Em casa deitei e mergulhei numa não-desagradável condição de intoxicação, caracterizada por uma imaginação extremamente estimulada. Em um estado onírico, com olhos fechados (a luz do dia era desagradavelmente brilhante), eu percebia um fluxo ininterrupto de figuras fantásticas, formas extraordinárias com um jogo intenso de cores caleidoscópicas. Após umas duas horas esta condição passou.”

A experiência tinha sido marcante, tanto no seu início súbito quanto no desenrolar extraordinário. O já experiente químico sabia que tinha se intoxicado com o material com que trabalhava, mas daí veio a questão: Como havia tomado contato com o material? Ele sabia da toxicidade dos alcalóides do ergot desde o início de seu trabalho nesta linha, cerca de oito anos antes, e sempre manteve hábitos de trabalho rigorosos. Possivelmente em alguma etapa uma parte do material devia ter entrado em contato com sua pele. Se este fosse de fato o caso, o LSD-25 teria de ser uma substância com potência extraordinária. Para saber, só havia uma maneira: Hofmann decidiu tentar um auto-experimento controlado.

Com extremada cautela, ele pensou na menor quantidade possível para fazer algum efeito psíquico. Decidiu então por tomar 0,25 mg (0,00025 gramas) do tartrato da dietilamida do ácido lisérgico, no dia 19 de abril de 1943, a páscoa judaica. Enquanto na Polônia as tropas nazistas da Waffen SS invadiam os guetos com 2000 soldados fortemente armados, que investiam contra cerca de 1200 judeus que resistiam com coquetéis molotov e algumas pistolas, Hofmann protagonizou o passeio de bicicleta mais famoso da história. Dadas as imposições da guerra, havia restrição ao uso do automóvel, e o auto-experimento com o que seria uma diminuta dose de qualquer outra substância catapultou Hofmann em tal estado mental que ele necessitou ajuda de sua auxiliar para pedalar de volta pra casa logo no início dos fortes efeitos. Pedalando com dificuldade, os sintomas que se pareciam com os da sexta-feira anterior começaram se tornar assustadores. Sua visão ondulava e tudo parecia como refletido em um espelho curvo. Sua sensação era de não conseguir sair do lugar, mas depois a assistente avisou que na verdade eles foram bem rápido.

Chegando em casa, Hofmann mal conseguia falar, e com dificuldade solicitou o médico e pediu que lhe trouxessem leite do vizinho. Apesar dos delírios e da condição alucinante, o pensamento por vezes era claro, e a escolha do leite é porque este pode ser usado como um antídoto inespecífico para envenamento. A tontura e a sensação de desmaiar eram fortes, e ele teve de deitar-se no sofá. O ambiente então se tranformava nas mais terríveis maneiras. Tudo girava e a mobília da sala assumia formas grotescas e ameaçadoras, perpetuamente em movimento. Ao longo da tarde ele bebeu mais de dois litros de leite, trazidos pela vizinha, que ele foi incapaz de reconhecer, pois mais parecia uma bruxa. Em seus relatos, Hofmann enfatiza que mais assustador que as alterações do mundo externo eram as sensações internas, as transformações de seu eu interior: “A sensação era muito real de que um demônio tinha me invadido, tomado conta de meu corpo, minha mente e minha alma. Eu estava tomado pela sensação aterrorizante de ficar louco. Fui transportado para outro lugar, outro mundo, outra época. Meu corpo estava sem sensações, sem vida. Estaria eu morrendo? Seria esta a transição?” Depois relata que por vezes sentia-se fora do próprio corpo, e então podia tomar consciência da proporção de sua tragédia: “Será que minha família compreenderia que eu não havia experimentado de maneira inconsequente e impensada? Pelo contrário, que havia sido com a mais extremada cautela e que tal resultado era totalmente imprevisível? […] Então havia também uma ironia amarga: se agora eu fosse deixar este mundo prematuramente, seria por causa desta dietilamida do ácido lisérgico que eu mesmo trouxe à existência”.

Albert Hofmann segura modelo plástico da estrutura química do LSD

Quando o médico chegou, a condição já estava menos severa, e o único sintoma detectável eram pupilas extremamente dilatadas. A medida do pulso, pressão sanguínea e respiração estavam todas normais. Deitado na cama sendo observado pelo médico, Hofmann concluiu que a possibilidade de morte ou loucura permanente estavam decididamente fora de questão. Aí então pode apreciar as intensas imagens de caleidoscópios coloridos que se projetavam por trás de suas pálpebras, caso fechasse os olhos. “Eternamente se abrindo e fechando, explodindo em espirais e fontes coloridas, em fluxo perpétuo. Cada som gerava uma imagem vívida correspondente, com sua própria forma e cores. Exausto, depois que minha esposa chegou, pude dormir, para acordar na manhã seguinte renovado, com a mente clara, uma sensação de bem estar e de vida renovada dentro de mim. O café da manhã estava delicioso e me deu prazer extraordinário. Depois andei pelo jardim, apreciando o sol após uma chuva de primavera, tudo brilhava e irradiava uma luz fresca. Todos meus sentidos vibravam numa condição de sensibilidade máxima, que persisistiu o dia todo”.

A experiência revelou a extraordinária potência do LSD e seus efeitos psíquicos abrangentes. Não havia conhecimento de substância com tais capacidades para alterar a percepção do mundo, tanto externo quanto interno, para modificar a consciência humana de tal forma. É marcante o quanto se pode aprender do relato da experiência de Hofmann, e chocante o quão pouco de fato se aprendeu, tanto desta experiência singular quanto das milhares que se seguiram. Mais conhecido pelo uso maciço nos anos 60 nos EUA e pela forte proibição que se seguiu, o LSD possui propriedades psíquicas únicas, capazes de revolucionar áreas como a psiquiatria, a psicologia e a neurociência. É extremamente eficiente em abrir as portas da percepção (parafraseando William Blake) e expandir nossa consciência, tanto individual como coletiva. Mas nem tudo são rosas. A experiência ilustra bem também os perigos psíquicos de uma dose relativamente elevada em um sujeito psicologicamente despreparado para a experiência. E já indicava a segurança física da experiência. Apesar do pavor que pode ser experienciado, a dose letal de LSD é extremamente maior que a dose efetiva, e não se conhece relato algum de morte por overdose da substância.

As possibilidades na psiquiatria foram de fato testadas e comprovadas por décadas de uso controlado e supervisionado, mas isso pouca gente hoje em dia sabe. Ainda predominam as mentiras deliberadamente inventadas e ativamente propagandeadas pelo serviço de “inteligência” dos EUA (como de que o LSD altera o DNA, por exemplo), principalmente durante os anos da guerra do Vietnam, quando o LSD se tornou o símbolo da juventude que era contra a guerra e que rompia com os rígidos padrões e costumes culturais da sociedade da primeira metade do século XX, o mais violento da história humana, no qual fascismo, nazismo e stalinismo juntos causaram 111 milhões de mortes em combates diretos, mais um número imenso de vítimas direta ou indiretamente relacionadas. Apesar de suas ramificações culturais, políticas e sociais a partir dos anos 60, que o lançaram à fama mundial, o LSD era, anteriormente, fornecido pela Sandoz sobre o nome de Delysid para especialistas da área de saúde mental. Foi  usado terapêutica e cientificamente por diversos pioneiros, concentrados no campo da psicologia e psiquiatria. Liderados pelo visionário psiquiatra tcheco Stanislav Grof, pesquisadores obtiveram resultados promissores. Entre eles destacaram-se James Fadiman, Myron Stolaroff, Huston Smith, Aldous Huxley, Humphrey Osmond e Gary Fisher, entre outros. Estes pioneiros da pesquisa com LSD se beneficiaram do uso consciente e respeitoso e publicaram resultados de pesquisas e abordagens terapêuticas controladas, obtendo insights incríveis não só sobre psicologia e psiquiatria, mas também sobre religião, literatura, filosofia e estudos da consciência em geral.

Os insigts de experiências com o LSD-25, ou com substâncias similares, como os princípios ativos dos cogumelos mágicos (gênero Psilocybe), também isolados, purificados e identificados por Hofmann anos mais tarde (psilocina e psilocibina), trazem muitas respostas para as questões que afligem a sociedade atualmente. O uso adequado destas substâncias permite ao indivíduo desenvolver e cultivar um modo de consciência ecológico, cooperativo e pacífico incompatível com o modelo competitivo, consumista e violento que predomina na sociedade atual. Os frutos do uso adequado e do estudo científico dos psicodélicos se encontram em coisas tão amplas quanto a filosofia perene, arte, biologia molecular, psicologia transpessoal, ecologia sistêmica, física quântica, medicina integral e a cartografia expandida da psique humana, brilhante e consistentemente explorada, documentada e analisada por Stan Grof.

Alheios a quase tudo isso, a maioria dos cientistas e da sociedade de maneira geral segue em seu modo monotônico de consciência, praticando com pressa e ganância as preces do capitalismo globalizado de consumo materialista. Os problemas agravam-se rapidamente, e a grande massa afogada em toneladas de antidepressivos industriais e centenas de horas de programas de TV se torna cada vez mais rebanho de um sistema sócio-cultural cujo rumo pode ser o suicídio coletivo de nossa espécie e da extinção de tantas outras que dependem daquilo que destruímos. Como bem colocou nos anos 80 o psiconauta Terrence McKenna: “A sociedade moderna é um revólver apontado pra cabeça deste planeta”.

A idéia de que é necessária uma profunda revisão de valores e consequente mudança comportamental para que possamos sair do buraco ganha cada vez mais espaço na sociedade. O que a maioria não sabe é apontar um caminho eficiente que vá nessa direção. Nós, do Plantando Consciência, firmemente defendemos que o uso moderado, informado e supervisionado de psicodélicos, respeitando os já bem estabelecidos preceitos do set and setting, são uma das possíveis estradas a serem tomadas. Associada à pesquisa científica moderna, esta estrada pode nos levar a soluções sem precedentes para a crise atual. Não que qualquer pessoa deva usá-los. Pelo contrário. A ciência já mostrou de forma bem clara que há grupos de risco, e que o uso inconsequente pode ser devastador. Mas a prática milenar do uso destas substâncias por culturas xamânicas de todo o globo (e também de técnicas sem drogas capazes de produzir efeitos similares), comprovam que a indução esporádica de estados holotrópicos de consciência não é uma excessão, mas talvez seja a regra de muitas sociedades humanas ao longo da história. A excessão é justamente a proibição generalizada e desinformada que vigora nos últimos 40 anos, e que mais danos causou do que o próprio uso de drogas, mesmo quando feito da pior maneira possível, que é o que ocorre em um sistema de proibição, desinformação e violência. Nas palavras de Amanda Fielding: “Proibir estados alterados é não só inviável como pouco inteligente do ponto de vista evolutivo. Nós estamos em um período desafortunado, em que estados alterados da mente, exceto os produzidos pelo álcool, não são vistos como parte do desenvolvimento da civilização. Não acredito que essas experiências sejam algo que todos desejam. Mas existe uma minoria na sociedade que é exploradora das praias mais distantes da consciência, e a sociedade toda ganha quando permite e encoraja essas pessoas a trazerem ideias e insights desses estados”.

Hofmann foi muito claro sobre o que aprendeu com o LSD, pergunta que ouvia com frequência. Foi enfático, poético e professoral. Em muitas passagens do livro e em várias entrevistas e textos, seus insights emocionam e não deixam dúvidas do tremendo potencial que estamos perdendo: “De extrema importância para mim é o insight de todas minhas experiências com LSD de que, num nível fundamental, o que tomamos como ‘a realidade’, incluindo a realidade individual de cada pessoa, não é algo fixo, mas algo ambíguo – de que não há uma, mas muitas realidades, cada uma compreendendo uma diferente consciência do ego. Também se pode chegar a essa conclusão por reflexões científicas. […] mas é fundamentalmente diferente chegar a isso pela racionalidade, com a lógica da filosofia ou dar de cara com a questão emocionalmente, através da experiência. […] Qual a diferença essencial entre a realidade do dia a dia e o quadro experienciado durante a inebriação com LSD? O ego e o mundo externo estão separados na condição normal de consciência, na realidade ordinária; a pessoa fica face a face com o mundo externo, ele se torna um objeto. Durante a experiência com LSD os limites entre o eu que vivencia e o mundo externo tendem a desaparecer, dependendo da profundidade da inebriação. […] Uma porção do eu transborda para o mundo externo, para os objetos, que tomam vida, ganham um significado mais profundo. […] Em um caso auspicioso, o novo ego se sente abençoadamente unido com os objetos do mundo externo e consequentemente com outros seres vivos. Esta experiência de profunda unidade com o mundo exterior pode até se intensificar para a sensação de unidade com o universo. Esta experiência de consciência cósmica […] é análoga à iluminação religiosa espontânea, a unio mystica. […] O conceito de realidade que separa o eu do mundo definitivamente determinou o curso evolucionário da intelectualidade européia. O que Gottfried Benn chamou de “a catástrofe esquizóide, a auto-perpetuadora neurose ocidental (western entelechy neurosis, no original)”. A experiência do mundo como matéria, como objeto do qual o homem é separado, produziu as ciências naturais modernas e a tecnologia – criações da mente ocidental que mudaram o mundo. Com a ajuda destas ferramentas os humanos subjugaram o mundo. Sua riqueza foi explorada e depredada, e a conquista sublime da civilização tecnológica, o conforto da vida industrial ocidental, está de frente com a catastrófica destruição do meio ambiente. Até mesmo ao coração da matéria, ao núcleo do átomo e sua partição, este intelecto objetivo progrediu e liberou energias que ameaçam toda a vida no planeta. Um uso equivocado do conhecimento […] não poderia emergir de uma consciência da realidade na qual os homens não são separados do ambiente mas existem como parte da natureza viva e do universo. Todas as tentativas de reparar os danos ambientais com medidas protetoras permanecem sem esperanças, são apenas remendos superficiais, se não houver cura para a “auto-perpetuadora neurose ocidental. A experiência de uma realidade unitiva é impedida em um ambiente tornado morto pelas mãos humanas, como é o caso presente nas grandes cidades e distritos industriais. Nestes lugares a separação entre o eu e o mundo externo se torna especialmente evidente. Sensações de alienação, solidão e ameaça surgem. […] No campo ou na floresta, e no mundo animal abrigado aí, na verdade em cada jardim, há uma realidade perceptível que é infinitamente mais real, antiga, profunda e mais maravilhosa do que qualquer coisa feita por pessoas, e que irá por fim prevalecer, após o inanimado, mecânico e concreto novamente sumirem, após apodrecerem e se desfalecerem em ruínas. Não estamos caminhando na direção de um sentimentalismo entusiasmado pela natureza, um “retorno à natureza” no sentido de Rousseau. Aquele movimento romântico, que buscava o idílico na natureza, também pode ser explicado pela sensação de separação entre humanidade e natureza. O que precisamos hoje é uma fundamental resignificação da unidade de todas as coisas vivas, uma realidade consciente e abrangente que cada vez mais infrequentemente se desenvolve de maneira espontânea, quanto mais a primordial flora e fauna de nossa mãe terra cede lugar ao ambiente tecnológico morto.“

Assim sendo, desejamos que neste 19 de abril pausemos para repensar e melhor nos informar sobre a história e os fatos que cercam os psicodélicos. Para que o preconceito, a desinformação e a mentira abram espaço para  o desenvolvimento da consciência holotrópica. Para que os psicodélicos possam reencontrar seu rumo, e que finalmente a “criança problema” de Hofmann se torne a “criança abençoada”. É hora de regar e cultivar a consciência global de que tanto necessitamos. Para que a chegada da primavera na mente dos homens aconteça o quanto antes, dissipando a “catástrofe esquizóide” que nos assola.

A todos nossos queridos leitores, de ontem, hoje e amanhã, desejamos um feliz dia da bicicleta, em homenagem ao gênio Albert Hofmann (11 jan 1906 – 29 de abril de 2008).

PS Plantando Consciência desaconselha veementemente o uso não supervisionado de qualquer substância psicotrópica, legal ou ilegal. Também desaconselhamos práticas contrárias ao que estabelece a lei de cada país. Se você têm interesse em estados holotrópicos de consciência, procure profissionais certificados trabalhando de acordo com a lei local. Seja responsável e amoroso consigo mesmo, honesto com todos.

#PAZ

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O começo do fim

“Guerras contra as drogas são sempre perdidas” Andrew Weil, MD.

O ativismo a favor da paz com as drogas ganhou força nos últimos dias. Muita força. No Brasil e no Mundo.

O tema é dos mais polêmicos na conjuntura globalizada do mundo atualmente. O orçamento dos aparatos repressivos e o lucro do comércio ilegal de psicoativos é da ordem de bilhões de dólares. A Califórnia irá votar em novembro a possível legalização da maconha com olhos na renda que será gerada com a legitimização do comércio da cannabis sativa para salvar um estado falido. A ciência mostra a passos largos, rápidos e firmes que as chamadas “drogas” podem sim ser classificadas em distintas categorias e que são muito menos danosas do que propagandeado por aí desde os anos 50-60. Juristas e advogados argumentam sobre a ineficácia do poder punitivo e do sistema carcerário em diminuir o consumo. Então por que ainda há tanta resistência mesmo em se falar sobre o assunto, como na dificuldade de se realizar marchas da maconha pelo país? Pela lógica, seria de esperar o contrário…

Em palestra presidencial no congresso “Ciência Psicodélica no século XXI“, ocorrido em Abril na Califórnia, Andrew Weil, médico criador da Medicina Integrativa, argumentou que esta não é uma questão de lógica, mas sim emocional. Segundo ele, que trabalhou com maconha já na década de 60, “as pessoas acreditam no que querem acreditar e não acreditam no que não querem, independentemente dos fatos e evidências.”

Esta linha de raciocínio pode ser evidenciada pela história sobre a maconha medicinal e também sobre a legalização da planta em outros países. No Canadá, por exemplo, foi necessária a existência de um mártir para que a maconha medicinal fosse aceita. O caso conhecido como paciente número zero começou em 1999. Tratava-se de paciente que sofria de severas convulsões e usava a maconha fumada para se tratar, com êxito. O uso da planta o levou à cadeia, e como consequência o paciente voltou a sofrer severas convulsões. Todos os demais tratamentos disponíveis à época foram testados, sem sucesso. Paciente preso que deveria estar internado em hospital. Esta situação insustentável levou o Canadá a redigir a “Medical Marijuana Access Regulation” (Regulação para acesso a maconha medicinal), posteriormente revisada em 2002, 2005 e 2006. De acordo com o documento, é contra a constituição canadense que determinada Lei, qualquer que seja, impeça o acesso de qualquer indivíduo àquilo que garanta sua saúde e sobrevivência. Estava criada ali, com base em um único caso, uma das legislações mais avançadas do mundo sobre a cannabis medicinal.

No mesmo país, o famoso caso de Marc Emery serviu de catalisador para reformas na legislação sobre a cannabis para uso pessoal, independente de condições de saúde. Marc é o criador da revista Cannabis Culture e de diversas lojas no canadá que vendem acessórios para consumo e também sementes de maconha. As sementes eram também vendidas pela internet, e fizeram extremo sucesso nos EUA, o que tornou Marc milionário em pouco tempo. Eis então que a DEA americana literalmente invadiu o canadá e quis prender um canadense com base nas leis de outro país. Um dos maiores e bizarros choques diplomáticos entre os gigantes da américa do norte.

No Brasil

Recentemente o Brasil ganhou o seu mártir na causa da legalização da maconha. Dia 01 de julho, o músico Pedro Caetano, da banda de reggae Ponto de Equilíbrio, foi preso em casa por plantar maconha em seu quintal, após denúncias anônimas. Não só o cidadão foi preso, como é acusado de tráfico de drogas. Como alguém que planta em casa para consumo próprio pode ser acusado de tráfico, quando o que está fazendo é justamente evitar contato com este? Há algo de podre no reino da dinamarca…

O caso de Pedro levou a diversas manifestações no twitter, marcadas por #LiberdadePedrada. E catalisou também a publicação de uma carta pública por cientistas de renome no país, que consideraram a prisão de Pedro um equívoco e se manifestam a favor da legalização da planta, não só para fins medicinais mas também para consumo próprio. Eis a carta, que poderá em breve ser assinada por demais pessoas aqui, na íntegra:

“A planta Cannabis sativa, popularmente conhecida como maconha, é utilizada de forma recreativa, religiosa e medicinal há séculos mas só há poucos anos a ciência começou a explicar seus mecanismos de ação.

Na década de 1990, pesquisadores identificaram receptores capazes de responder ao tetrahidrocanabinol (THC), princípio ativo da maconha, na superfície das células do cérebro. Essa descoberta revelou que substâncias muito semelhantes existem naturalmente em nosso organismo, permitiu avaliar em detalhes seus efeitos terapêuticos e abriu perspectivas para o tratamento da obesidade, esclerose múltipla, doença de Parkinson, ansiedade, depressão, dor crônica, alcoolismo, epilepsia, dependência de nicotina etc. A importância dos canabinóides para a sobrevivência de células-tronco foi descrita recentemente pela equipe de um dos signatários, sugerindo sua utilização também em terapia celular.

Em virtude dos avanços da ciência que descrevem os efeitos da maconha no corpo humano e o entendimento de que a política proibicionista é mais deletéria que o consumo da substância, vários países alteraram, ou estão revendo, suas legislações no sentido de liberar o uso medicinal e recreativo da maconha. Em época de desfecho da Copa do Mundo, é oportuno mencionar que os dois países finalistas, Espanha e Holanda, permitem em seus territórios o consumo e cultivo da maconha para uso próprio.

Ainda que sem realizar uma descriminalização franca do uso e do cultivo, como nestes países, o Brasil, através do artigo 28 da lei 11.343 de 2006, veta a prisão pelo cultivo de maconha para consumo pessoal, e impõe apenas sanções de caráter socializante e educativo.

Infelizmente interpretações variadas sobre esta lei ainda existem. Um exemplo disto está no equívoco da prisão do músico Pedro Caetano, integrante da banda carioca Ponto de Equilíbrio. Pedro está há uma semana numa cela comum acusado de tráfico de drogas. O enquadramento incorreto como traficante impede a obtenção de um habeas corpus para que o músico possa responder ao processo em liberdade. A discussão ampla do tema é necessária e urgente para evitar a prisão daqueles usuários que, ao cultivarem a maconha para uso próprio, optam por não mais alimentar o poderio dos traficantes de drogas.

A Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento (SBNeC) irá contribuir na discussão deste tema ainda desconhecido da população brasileira. Em seu congresso, em setembro próximo, um painel de discussões a respeito da influência da maconha sobre a aprendizagem e memória e também sobre as políticas públicas para os usuários será realizado sob o ponto de vista da neurociência. É preciso rapidamente encontrar um novo ponto de equilíbrio.”

Cecília Hedin-Pereira (UFRJ, diretora da SBNeC)
João Menezes (UFRJ)
Stevens Rehen (UFRJ, diretor da SBNeC)
Sidarta Ribeiro (UFRN, diretor da SBNeC)

No mundo

Enquanto no Brasil a SBNeC se manifesta a favor de um ponto de equilíbrio, no mundo foi lançada a Declaração de Vienna (Vienna Declaration), uma manifestação mundial a favor da lógica e da informação científica como  bússolas da política mundial de drogas, ao contrário dos rumos atualmente decididos ideologicamente e desinformadamente. A Declaração de Vienna pode ser assinadas por todos, e assinaturas já incluem ex-presidentes, ganhadores de prêmio nobel, celebridades mundiais e estes humildes blogueiros que vos escrevem.

PC chama todos a assinarem, divulgarem, espalharem, refletirem e adubarem ambos os documentos.

Saudações cheias de esperanças,

Eduardo e Marcelo

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Maio da Maconha

A maconha está em alta. Segundo notícia do jornal Destak, apreensões recordes da planta levaram o preço do quilograma em São Paulo dos usuais R$200 para R$2000. O jornal afirma ainda que a dificuldade de se encontrar a planta no mercado ilícito está relacionada a uma preferência dos traficantes pelo mais rentável negócio da cocaína e do crack. O que esta notícia não conta (assim como outras usuais sobre o assunto), é quanto custa aos cofres públicos as tais apreensões e pra onde vai a droga “apreendida”. Mistério…

Outra notícia, do portal G1, afirma que Lula e o presidente paraguaio Lugo declararam que devem trabalhar juntos para conter a criminalidade na região, principal rota da maconha entre os dois países. Novamente não dizem quanto dinheiro será gasto em tais medidas, mas podemos imaginar que é bastante. A Califórnia já reconheceu o fato e irá votar em novembro a legalização da planta que já está sendo legalmente vendida em farmácias especializadas. O principal argumento para a liberação é, pasmem, econômico. Os cálculos indicam que o comércio ilegal de drogas no mundo gira bilhões de dólares (não é exagero não, veja aqui e aqui), tendo sido um dos pontos que evitou maiores consequências na crise financeira 08-09. A califórnia pretende portanto economizar sua parcela em forças repressivas e gerar alguns milhões em impostos, tornando um ralo de dinheiro em fonte de renda para a sociedade. Outra idéia que por aqui também se evita debater.

Na contramão das forças repressivas e disputas de mercado à ferro e fogo está a Holanda, como todo mundo sabe, mas também Portugal, o que quase ninguém sabe. Tendo legalizado geral há uma década, o país europeu viu o consumo diminuir, o comércio se regularizar e os problemas por abuso caírem, pois com o fim da proibição abrem-se avenidas educativas sobre o assunto.

A situação em Portugal

Este ano completa 10 anos uma experiência tida como ousada e inconseqüente, mas que resultou na mais eficiente política de drogas que se tem notícias no mundo atual. Ao contrário do que se imagina, no papel, não é a Holanda que possui a política de drogas mais liberal da Europa…

Era 2000 e Portugal estava sofrendo o amargor de ter uma parcela significativa de cidadãos viciados em drogas. Cerca de 150 mil portugueses, praticamente 1,5% da população, estavam com problemas relacionados ao abuso e vício em opiáceos (heroína, morfina), segundo um levantamento de 1990. No início deste milênio o governo português teve uma medida ousada e descriminalizou as drogas  em todo o país. Sim, todas as drogas, não somente as consideradas leves, como a maconha. Portugal descriminalizou geral.

Hoje, 10 anos após esta medida, que fez com que usuários de drogas deixassem de ser criminosos, e a punição deu lugar à informação e oportunidade de tratamento, o resultado global foi a redução do consumo de drogas em todas as faixas etárias.

Alguns números marcantes:

- As mortes anuais por overdose caíram de 400 para 290.

- As infecções por HIV via seringas compartilhadas caíram de 2.000 para 1.400 casos

- Portugal não se tornou um destino turístico de jovens europeus ávidos por se drogarem.

- O consumo de maconha passou de 10 para 1% da população acima dos 15 anos.

Estes são números de um relatório independente publicado pelo Cato Institute (Washington), apresentado em Washington por Gleen Greenwald “Descriminalização da Droga em Portugal: lições para criar políticas justas e bem sucedidas com as drogas” e noticiado na revista TIME.

Portanto, a descriminalização contribuiu para a redução do consumo e para a prevenção dos possíveis problemas de saúde nos indivíduos que perderam o controle sobre o uso das drogas. Como conseqüência, o usuário, que antes se via no submundo, tratado como criminoso, passou a ser um cidadão comum, inclusive com oportunidade de buscar tratamento, se e quando for necessário.

A Situação no Brasil

Falar sobre o assunto, aliás, é questão tão polêmica aqui em terras tupiniquins que até o ano passado não conseguiram realizar a Marcha da Maconha, movimento internacional de manisfestações públicas a favor da legalização, ou ao menos da descriminalização da planta. Eis que neste mês está agendada a Marcha para o próximo dia 23 de maio e os organizadores tomaram a dianteira realizando abaixo assinado a favor do movimento, garantido pela constituição brasileira como direito à liberdade de expressão, solicitando que o mesmo não possa ser impedido de última hora com recursos jurídicos como as liminares utilizadas nos anos anteriores.

Enquanto a polêmica nas ruas segue seu caminho, a maconha vai abrindo avenidas na área da ciência biomédica. E o elo é direto, porque a proibição da planta no mundo é obviamente liderada pelos EUA, país que se diz terra da liberdade, mas que não o é. Os EUA são bem claros quanto aos critérios para uma substância qualquer ser classificada como “Schedule 1”: vicía e não tem potenciais terapêuticos. Eles só não são e nunca foram claros com base em quais pesquisas classificaram a maconha (e muitas outras substâncias) como sendo viciantes e sem potencial médico. A maconha, no caso, tem inúmeros. São tantos que elaborar uma lista é tarefa hercúlea, mas só pra dar uma idéia: enxaquecas, anemia, bulimia, dores crônicas, bronquite, asma, vômitos e até câncer. A Califórnia já reconheceu o fato e vem fazendo bons negócios (sem tiroteios) com seus depósitos legalizados de maconha medicinal. E olha que a planta verde claro e cheirosa que andam fumando por lá quase nada tem a ver com esses tijolos marrom escuro e fedidos que circulam entre o Brasil e o Paraguai. Essa talvez não tenha potenciais terapêuticos mesmo, devido à grande quantidade de toxinas e conservantes que se aplica para poder transportá-la em condições e locais indevidos.

Os movimentos populares parecem estar sintonizados com o avanço da abordagem médico-científica da planta mais famosa do mundo em nosso país. Poucos dias antes da data planejada para o movimento pacífico e constitucional da marcha da maconha (23/05) ocorrerá em São Paulo o simpósio “Por uma agência Brasileira da cannabis medicinal?”, dias 17 e 18/05 na UNIFESP. Organizado pelo Dr. Elisaldo Carlini, Professor de Psicofarmacologia, membro do Painel de especialistas em dependência de drogas e álcool da OMS, ex-membro da Comissão Internacional de Narcóticos e coordenador da Câmara de Assessoramento Técnico Científico da Secretaria Nacional Antidrogas, o simpósio deixa claro que não tratará das questões legais do uso, comércio, distribuição etc; mas sim dos potenciais terapêuticos da planta:

Hoje, a maconha e seus derivados são reconhecidos como medicamentos em pelo menos quatro países. Para lidar com a maconha como medicamento, a ONU recomenda a criação de uma Agência Nacional da Cannabis Medicinal para aprovar e controlar adequadamente seu uso médico.
O Simpósio 
reunirá cientistas do Brasil e do exterior, sociedades científicas e Agências Governamentais para discutir a oportunidade de ser criada a Agência Brasileira da Cannabis Medicinal, que permitiria e controlaria o uso médico da maconha e seus derivados.

Lembrando que a proibição da planta teve em sua origem o argumento de que além de perigosa e viciante não possúi potenciais terapêuticos, o elo entre o simpósio medicinal e as manifestações públicas fica evidente, pois o negócio que de fato reduz com a proibição é a pesquisa médico-científica, e não o consumo. Hoje são 4 décadas de proibição no mundo e se tudo isso não resolveu a questão, jogar mais lenha não vai apagar a fogueira.

A pergunta que fica é: Como seria a fronteira Brasil-Paraguai, onde hoje há mais homicídios do que no Rio e em São Paulo juntos, se a maconha fosse comercializada legalmente e os produtores disputassem o mercado com propaganda, como fazem os produtores de cerveja?

Para saber mais:

Maconha, Cérebro e saúde

Proibições, Riscos, Danos e Enganos – As drogas tornadas ilícitas

Cannabis Policy: Moving Beyond Stalemate

cannabis-med.org

Colaborou: Fabrício Pamplona, Doutor em Psicofarmacologia pela UFSC, Florianópolis

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