Archive for maio, 2009

Os Deuses em Pessoa

Em 1972, o escritor de ficção científica Isaac Asimov publicou o que ficou conhecido como o seu livro mais querido, O Despertar dos Deuses (The Gods Themselves no original, que seria melhor traduzido como “Os Próprios Deuses”, ou “Os Deuses em Pessoa”).

O livro narra, com base no estudo das leis da física (ao contrário da ciência inventada da ficção científica comum), a descoberta de uma forma de intercâmbio de matéria entre o nosso universo e um universo paralelo, povoado por seres mais avançados (que seriam os deuses do título). Esta troca produz uma forma de energia limpa e abundante para ambos os lados, olha que beleza, livrando nosso planeta da dependência da energia suja e trazendo o progresso e civilização a níveis mais elevados.

No entanto, a brincadeira mexe com a carga nuclear de ambos os universos, esfriando o já pequeno sol do universo paralelo – sem graves conseqüências -, e esquentando o nosso sol, transformando-o progressivamente numa supernova, que pode explodir e acabar com a vida no nosso lado. Tudo isso sem que a população da Terra se dê conta – apesar dos insistentes alarmes de um dos principais protagonistas da história, um físico marginalizado pela comunidade científica -, porque o povo vive deslumbrado com a nova forma de energia e já não quer abrir mão de tamanho progresso e estilo de vida.

Pressupõe-se na história – uma vez que os bizarros seres do universo paralelo são mais evoluídos que nós – que os “deuses” em questão também perceberiam este risco (e eles o fazem), interrompendo esse intercâmbio em prol da vida, para salvar o nosso universo da extinção. No entanto, os deuses nunca são tão bacanas como a gente quer acreditar. A questão moral não é mais forte do que o interesse destes seres por uma fonte inesgotável de energia para si. É uma analogia com a vida real, claro, e com o abismo entre a consciência individual e os objetivos “maiores” das instituições superiores que nos governam.

Dividido em 3 partes distintas, o livro parte da premissa de que “contra a estupidez, os próprios deuses disputam em vão” (frase do filósofo alemão Friedrich Schiller, 1759–1805). Não é à toa que o autor dedica o livro à humanidade, e “à esperança de que a luta contra a estupidez seja finalmente vitoriosa”.

A segunda parte da história, que relata a vida dos seres paralelos, é a mais complexa e provavelmente genial da obra, pois relata de forma absolutamente singular como três seres promissores, com inteligência e percepção acima da média, acabam se tornando o maior inimigo de seus ideais, a própria instituição contra a qual eles resistiam. As analogias são inúmeras. Mas o que ressalta é o dilema de consciência que acompanha o progresso científico, o cabo de guerra desequilibrado entre conviccões morais e os interesses de nações ou instituições de poder, cujo exemplo mais famoso é Robert Oppenheimer, o “pai da bomba atômica”, que teria dito que “Com uma espécie de crueza de sentidos, a qual nenhuma vulgaridade, humor ou exagero poderia extinguir, os físicos conheceram o pecado, e esse é um conhecimento que eles não poderão perder”.

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A Economia da Intenção

Por Daniel Pinchbeck

Enquanto explorava o xamanismo e estados alterados de consciência, eu descobri o poder da intenção. De acordo com o artista Ian Lungold, que palestrou brilhantemente sobre o calendário Maia antes de sua morte repentina alguns anos atrás, os Maias acreditavam que nossa intenção é tão essencial para nossa habilidade de navegar pela realidade quanto a nossa posição no tempo e espaço. Se você não conhece sua intenção, ou se você está trabalhando com as intenções erradas, você está sempre perdido, e só pode ficar mais desregrado.

Esta idéia se torna extraordinariamente clara ao longo de jornadas psicodélicas, quando seu estado mental se intensifica e é projetado caleidoscopicamente por toda a sua volta. Ao passo que o mundo contemporâneo se torna mais e mais psicodélico, nós estamos recebendo lições duras sobre o poder da intenção em larga escala.

Nas últimas décadas, a elite financeira internacional manipulou os mercados de modo a criar obscenas recompensas para si mesmos às custas dos pobres e da classe média ao redor do planeta. Utilizando de derivativos errantes, CDOS habilidosos (Nota do tradutor: Collateralized Debt Obligations, títulos de securitização que têm dívidas como garantia) e outros truques, eles sugaram ainda maiores quantias de mais-valia criada pelos produtores de bens reais e serviços, criando uma economia baseada na dívida que não poderia deixar de desmoronar. Sua cobiça – uma intenção tão obtusa e frágil – agora explodiu em suas faces, aniquilando em câmera lenta o sistema corrupto que foi construído para servi-los. Mais… (leia o texto na íntegra no nosso site)

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Transcendeu

Sri K. Pattabhi Jois, figura central do Ashtanga Vinyasa Yoga, faleceu nesta segunda-feira em Mysore, Índia. O guru apareceu em recente documentário americano sobre o potencial terapêutico e transcendental da yoga (Enlighten Up!, ou “Ilumine-se!”, em tradução livre), que acompanha a jornada de um cético pelo universo da yoga e os desdobramentos conseqüentes. A prática vem conquistando milhares de adeptos no mundo todo por emergir como  uma maneira  eficiente de contrabalancear o excesso de ansiedade, stress, os transtornos psicológicos e problemas de saúde resultantes do ritmo enlouquecido do capitalismo contemporâneo.

Sem Pattabhi Jois, o Ashtanga Yoga seria possivelmente uma prática obscura na Índia e desconhecida no mundo ocidental. Jois iniciou seu aprendizado aos 12 anos de idade com Sri T. Krishnamacharya, e desde então dedicou toda sua vida ao estudo, prática e transmissão do Ashtanga Yoga. Parou de ensinar dois anos atrás (aos 92), devido a problemas de saúde. Seu neto R.Sharath é hoje quem dirige o instituto fundado por Pattabhi em Mysore, Índia (www.kpjayi.org).

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Bob, o Pregador

Robert Crumb, "Minha Vida" (Ed. Conrad)

Extraído do sensacional livro Minha Vida, de Robert Crumb, publicado no Brasil pela Conrad Editora (clique na imagem para ver em tamanho grande).

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PIB PIB PIB…

Não é preciso ser economista pra se entender o Produto Interno Bruto. O PIB é um indicador que mostra a produção bruta de um país, ou seja, a quantidade de bens materiais que aquele país gerou em um dado intervalo de tempo.

O PIB é usado na economia para muitas coisas, e há muito debate sobre ele e sobre os índices alternativos propostos. Também não é preciso ser economista pra perceber que o PIB não revela muita coisa. Só pra citar um exemplo, a desigualdade social não afeta o índice, apesar de afetar em muito as condições de vida em um país.

O economista de Cambridge Partha Dasgupta, por exemplo, é um dos proponentes da economia ecológica, que diz que os indicadores econômicos devem levar em conta os índices ecológicos pra se medir a situação de um pais. A economia ecológica mostra que levar em conta os recursos naturais é importantíssimo, e ignorar sua degradação é um dos fatores que contribuiram para a crise econômica atual. Hipnotizados para crescer sem parar o mais rápido possível, não consideramos outros aspectos importantes, e as vezes até mesmo óbvios…

Mas uma proposta radicalmente diferente vem lá do Tibete, mais especificamente do Butão. Um pequeno país incrustado nos Himalaias, o Butão saiu de uma monarquia e criou o FIBFelicidade Interna Bruta. O índice é, em partes, uma paródia do velho PIB. Mas antes que alguém ache que fica por aí, é melhor se aprofundar. Eles não só propuseram, como estão utilizando o índice. E a coisa é séria. O FIB leva em consideração – com pesos matemáticos diferenciados – 72 itens, incluindo questões econômicas, sociais e até mesmo psicológicas. Tentativas de suicídio, por exemplo, fazem parte do cálculo de felicidade de uma população. Temas como o desenvolvimento sócio-econômico sustentável e igualitário, a preservação e a promoção dos valores culturais, a conservação do meio-ambiente natural e o estabelecimento de uma boa governança também são abordados.

Se por um lado o FIB rompe imensas barreiras, por outro, muito tem que ser estudado a partir da iniciativa butanesa, dado o pequeno tamanho do país e de sua população; para entendermos, por exemplo, como poderíamos transportar esta idéia para um país gigante como o Brasil.

De qualquer maneira, a simples idéia de se avaliar a felicidade de uma nação, e a iniciativa ímpar de realmente botá-la em prática, merece atenção.

http://felicidadeinternabruta.blogspot.com/
http://www.nytimes.com/2009/05/07/world/asia/07bhutan.html?_r=1&em
http://www.nature.com/nature/journal/v456/n1s/full/twas08.44a.html

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Capa do NY Times

O vídeo de animação “A História das Coisas”, disponível no nosso site (20 minutos, online), extrapolou a proeza dos milhões de acessos e ganhou o sistema educacional americano. O New York Times deu a capa da seção de Educação para o filme hoje. Para quem sabe inglês, aqui vai a matéria na íntegra.

A Cautionary Video About America’s ‘Stuff’

By LESLIE KAUFMAN

Published: May 10, 2009

The thick-lined drawings of the Earth, a factory and a house, meant to convey the cycle of human consumption, are straightforward and child-friendly. So are the pictures of dark puffs of factory smoke and an outlined skull and crossbones, representing polluting chemicals floating in the air.

Which is one reason “The Story of Stuff,” a 20-minute video about the effects of human consumption, has become a sleeper hit in classrooms across the nation.

The video is a cheerful but brutal assessment of how much Americans waste, and it has its detractors. But it has been embraced by teachers eager to supplement textbooks that lag behind scientific findings on climate change and pollution. And many children who watch it take it to heart: riding in the car one day with his parents in Tacoma, Wash., Rafael de la Torre Batker, 9, was worried about whether it would be bad for the planet if he got a new set of Legos.

Eros Hoagland for The New York Times

Annie Leonard

“When driving by a big-box store, you could see he was struggling with it,” his father, David Batker, said. But then Rafael said, “It’s O.K. if I have Legos because I’m going to keep them for a very long time,” Mr. Batker recalled.

The video was created by Annie Leonard, a former Greenpeace employee and an independent lecturer who paints a picture of how American habits result in forests being felled, mountaintops being destroyed, water being polluted and people and animals being poisoned. Ms. Leonard, who describes herself as an “unapologetic activist,” is also critical of corporations and the federal government, which she says spends too much on the military.

Ms. Leonard put the video on the Internet in December 2007. Word quickly spread among teachers, who recommended it to one another as a brief, provocative way of drawing students into a dialogue about how buying a cellphone or jeans could contribute to environmental devastation.

A section of the video on toxic chemicals and production.

So far, six million people have viewed the film at its site, storyofstuff.com, and millions more have seen it on YouTube. More than 7,000 schools, churches and others have ordered a DVD version, and hundreds of teachers have written Ms. Leonard to say they have assigned students to view it on the Web.

It has also won support from independent groups that advise teachers on curriculum choices. Facing the Future, a curriculum developer for schools in all 50 states, is drafting lesson plans based on the video. And Ms. Leonard has a contract with Simon & Schuster to write a book based on the video.

The enthusiasm is not universal. In January, a school board in Missoula County, Mont., decided that screening the video treaded on academic freedom after a parent complained that its message was anticapitalist.

But many educators say the video is a boon to teachers as they struggle to address the gap in what textbooks say about the environment and what science has revealed in recent years.

“Frankly, a lot of the textbooks are awful on the subject of the environment,” said Bill Bigelow, the curriculum editor of Rethinking Schools, a quarterly magazine that has promoted “The Story of Stuff” to its subscribers and on its Web site, which reaches about 600,000 educators a month. “The one used out here in Oregon for global studies — it’s required — has only three paragraphs on climate change. So, yes, teachers are looking for alternative resources.”

Environmental education is still a young and variable field, according to Frank Niepold, the climate education coordinator at the National Oceanic and Atmospheric Administration. There are few state or local school mandates on how to teach the subject.

The agency is seeking to change that, but in the interim many teachers are developing their own lesson plans on climate change, taking some elements from established sources like the National Wildlife Federation and others from less conventional ones like “The Story of Stuff.”

Ms. Leonard is self-educated on where waste goes and worked for Greenpeace to prevent richer nations from dumping their trash in poorer ones. She produced the video, with the Free Range Studios company, and with money from numerous nonprofit groups; the largest single giver was the Tides Foundation. She did so, she said, after tiring of traveling often to present her views at philanthropic and environmental conferences. She attributes the response to the video’s simplicity.

“A lot of what’s in the film was already out there,” Ms. Leonard said, “but the style of the animation makes it easy to watch. It is a nice counterbalance to the starkness of the facts.”

The video certainly makes the facts stark and at times very political: “We’ll start with extraction, which is a fancy word for natural resource exploitation, which is a fancy word for trashing the planet,” she says at one point. “What this looks like is we chop down the trees, we blow up mountains to get the metals inside, we use up all the water and we wipe out the animals.”

Mark Lukach, who teaches global studies at Woodside Priory, a Catholic college-preparatory school in Portola Valley, Calif., acknowledged that the film is edgy, but said the 20-minute length gives students time to challenge it in class after viewing it.

Kevin P. Casey for The New York Times

David Batker with his son Rafael de la Torre Batker, 9, who worried it might hurt the environment if he bought a new set of Legos.

Compared to ‘An Inconvenient Truth,’ ” he said, referring to Al Gore’s one-and-a-half-hour documentary on climate change, “it is much shorter and easier to compact into a class segment. You can watch it and then segue into a discussion.”

Mr. Lukach’s students made a response video and posted it on YouTube, asking Ms. Leonard to scare them less and give them ideas on how to make things better. That in turn inspired high school students in Mendocino, Calif., to post an answer to Woodside, with suggested activities.

Dawn Zweig, who teaches environmental studies at the Putney School, a private academy in Vermont, said that the very reason the video appealed to teachers — it shows students how their own behavior is linked to what is happening across the globe — could also raise sensitive issues. She said students, particularly affluent ones, might take the critique personally. “If you offend a student, they turn off the learning button and then you won’t get anywhere,” Ms. Zweig said.

Sometimes teachers observe the opposite: children who become environmental advocates at home after seeing the video. After Jasmine Madavi, 18, saw it last year in Mr. Lukach’s class at Woodside Priory, she began nagging her parents to stop buying bottled water. Her mother resisted, saying that filtered tap water, Jasmine’s suggested alternative, would not taste as good. But Jasmine bought the filter on her own, and the household is now converted.

“You just have to be persistent,” said Ms. Madavi, who is now a community college student. “When you use a water bottle, it just doesn’t disappear. That’s Annie’s message.”

Most parents take such needling with humor. But Mark Zuber, a parent of a child at Big Sky High School in Missoula, had a stronger reaction when a teacher showed the video to his daughter last year. “There was not one positive thing about capitalism in the whole thing,” Mr. Zuber said.

Corporations, for example, are portrayed as a bloated person sporting a top hat and with a dollar sign etched on its front.

He described the video as one-sided. “It was very well done, very effective advocacy, but it was just that,” he said.

Mr. Zuber argued before the Missoula County School Board that the way in which “The Story of Stuff” was presented, without an alternative point of view, violated its standards on bias, and the board agreed in a 4-to-3 vote.

Still, Ms. Leonard is hoping the video will circle the globe. “I’ve heard from teachers in Palestine and Papua New Guinea,” she said. “It is just spreading and spreading.”

Link original: A Cautionary Video About America’s ‘Stuff’

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Já dizia Timothy Leary…

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