Os Deuses em Pessoa

Em 1972, o escritor de ficção científica Isaac Asimov publicou o que ficou conhecido como o seu livro mais querido, O Despertar dos Deuses (The Gods Themselves no original, que seria melhor traduzido como “Os Próprios Deuses”, ou “Os Deuses em Pessoa”).

O livro narra, com base no estudo das leis da física (ao contrário da ciência inventada da ficção científica comum), a descoberta de uma forma de intercâmbio de matéria entre o nosso universo e um universo paralelo, povoado por seres mais avançados (que seriam os deuses do título). Esta troca produz uma forma de energia limpa e abundante para ambos os lados, olha que beleza, livrando nosso planeta da dependência da energia suja e trazendo o progresso e civilização a níveis mais elevados.

No entanto, a brincadeira mexe com a carga nuclear de ambos os universos, esfriando o já pequeno sol do universo paralelo – sem graves conseqüências -, e esquentando o nosso sol, transformando-o progressivamente numa supernova, que pode explodir e acabar com a vida no nosso lado. Tudo isso sem que a população da Terra se dê conta – apesar dos insistentes alarmes de um dos principais protagonistas da história, um físico marginalizado pela comunidade científica -, porque o povo vive deslumbrado com a nova forma de energia e já não quer abrir mão de tamanho progresso e estilo de vida.

Pressupõe-se na história – uma vez que os bizarros seres do universo paralelo são mais evoluídos que nós – que os “deuses” em questão também perceberiam este risco (e eles o fazem), interrompendo esse intercâmbio em prol da vida, para salvar o nosso universo da extinção. No entanto, os deuses nunca são tão bacanas como a gente quer acreditar. A questão moral não é mais forte do que o interesse destes seres por uma fonte inesgotável de energia para si. É uma analogia com a vida real, claro, e com o abismo entre a consciência individual e os objetivos “maiores” das instituições superiores que nos governam.

Dividido em 3 partes distintas, o livro parte da premissa de que “contra a estupidez, os próprios deuses disputam em vão” (frase do filósofo alemão Friedrich Schiller, 1759–1805). Não é à toa que o autor dedica o livro à humanidade, e “à esperança de que a luta contra a estupidez seja finalmente vitoriosa”.

A segunda parte da história, que relata a vida dos seres paralelos, é a mais complexa e provavelmente genial da obra, pois relata de forma absolutamente singular como três seres promissores, com inteligência e percepção acima da média, acabam se tornando o maior inimigo de seus ideais, a própria instituição contra a qual eles resistiam. As analogias são inúmeras. Mas o que ressalta é o dilema de consciência que acompanha o progresso científico, o cabo de guerra desequilibrado entre conviccões morais e os interesses de nações ou instituições de poder, cujo exemplo mais famoso é Robert Oppenheimer, o “pai da bomba atômica”, que teria dito que “Com uma espécie de crueza de sentidos, a qual nenhuma vulgaridade, humor ou exagero poderia extinguir, os físicos conheceram o pecado, e esse é um conhecimento que eles não poderão perder”.

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