À luz da consciência

“Nós que pelo tapas acendemos o fogo do espírito.
Possamos ser caros ao Veda.”

Atharva-Veda, VII, 61, 1

Segundo a tradição do Yoga, o fogo representa a vontade transformadora, representa a alquimia necessária ao ser, representa a purificação da consciência.

A palavra tapas no sânscrito vem de prefixo tap, e quer dizer aquecer-se, tornar-se ardente (1). Segundo menção de BKS. Iyengar significa austeridade e vem do termo próximo ao aquecer, cozinhar.

Esse fogo é a interiorização dos rituais védicos onde os yogues foram responsáveis em direcionar os sacrifícios que antes eram feitos em rituais exógenos (para fora), com o fogo literal, oferencendo cereais, ghee e mel aos deuses na fogueira, no fogo. Passando a partir de então a oferecer, através de práticas de ásanas, pranayamas e meditações a ativar o fogo interno, espiritual e oferecerem como a vela do altar as divindades. O corpo é o templo, e a prática de tapas é a oferenda.

Nisso a prática do yoga é um sacrifício e oferenda. Mas, além disso, é o veículo de transformação, de ativação da consciência.

“O conhecimento está na mente como o fogo está na pedra. É a fricção que o faz brotar.”
Swami Vivekananda (2)

Essa atitude endógena, de interiorização, reflete o que Georg Feuerstein postula como a tecnologia interna: o domínio sobre o ego que tem por fim último a integração. Algo oposto a isso é a exógena atitude de dominação da natureza, que tem como conseqüência a evolução tecnológica que vemos diante dos nossos olhos: fragmentada e nociva à nossa e a outras espécies.

M. Maier, Atalanta Fugiens, Oppenheim, 1618

A partir desse olhar é possível vermos aonde caminham imagens da alquimia medieval, do islamismo e do cristianismo. Como quando na alquimia o fogo, calcinatio, torna-se presente como transformação, purificação, revelando não só o trabalho sobre os metais, mas o fogo como transformação pessoal.
“Atira o Rei (ao lobo cinzento). E quando ele o tiver devorado, faz uma grande fogueira e atira o Lobo dentro dela, para que ele arda, e então o Rei será libertado de novo.” (3)
Aqui o Rei representa o Ouro, que se torna impuro e se purifica pelo fogo. Pode ser também a vaidade, que pela entrega é devorado pelo lobo do desejo, e ao ser submetido ao fogo da vontade, do trabalho sobre si, transforma-se. Evaporando a parte líquida, as emoções egóicas, dando de volta o Rei que agora está purificado e renovado (4). É thelema, é o ouro espiritual, o domínio sobre si, a consciência em última instância.
Como quando no islamismo o arcanjo Gabriel desce dos céus com sua cabeça acesa pela chama e transmite a Maomé o pedido de Deus, vê-se sobre sua cabeça o fogo.

Gravura otomana do século XVI, o profeta Maomé (figura sem face) na Kaaba em Mecca.

Até mesmo na figura de Jesus Cristo, representado sempre com uma luz dourada atrás de sua cabeça, simbolizando o próprio Sol, como menciona a primeira parte do documentário Zeitgeist, e mais além sendo símbolo desse fogo. O mesmo fogo que brota da mão de Shiva Nataraja, que queima o tempo e dissolve Maya.
O mesmo fogo, a chama de quem se transforma, de quem acende e ascende.

Shiva Nataraja por Arumugam Manivelu, de 1999

Dessa forma existe um convite ao deslocamento do eixo externo ao eixo interno, tornando o corpo, nosso próprio templo e nosso metal alquímico, nossas palavras em nossa oração, nossas ações em nossas responsabilidades e nossas conseqüências. E tornando Deus em algo tão próximo quanto uma respiração profunda, tão duradouro quanto a eternidade.

Será que temos tempo de mudar?
E quando se não for agora?

Dado Motta, instrutor de HathaYoga do espaço Vajra, artista plástico e ilustrador

1-MICHAËL, Tara. O Yoga, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1976.
2-Extraído de yoga.pro.br
3-ROOB, Alexander. Alquimia & Misticismo, pág. 173, Taschen, 2006.
4-Link para referência: www.symbolom.com.br

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