Deus é pop, mas não estava lá

Muitos já devem ter visto que a capa da revista Época desta semana é um Jesus estilizado, com a chamada “Deus é pop. Uma pesquisa inédita revela que 95% dos jovens brasileiros se dizem religiosos – e eles estão em busca de novas formas de expressar sua fé”. A matéria aborda os jovens modernos que buscam inclusão religiosa. Garotos e garotas de até 20 e tantos anos com tatuagens, piercings, alargadores de orelha e pranchas de surf, que entoam “O evangelismo tá bombando!”. O texto também afirma que, de acordo com o teólogo Rubem Alves, “os jovens de hoje adotam religiões minoritárias por achar que estão vivendo uma grande missão: querem mostrar ao mundo que, apesar da pouca idade, já encontraram sua ‘verdade’. Seria quase um ato de afirmação juvenil”.

Enquanto esta pesquisa revela que 95% dos jovens brasileiros são religiosos, uma pesquisa realizada em 16 países pela MTV Networks em 2007 indica que os jovens entre 14 e 24 anos no Brasil são os que têm o maior número de “amigos virtuais” (pessoas com as quais se relacionam apenas pela Internet): 46, para uma média global de 20. Por outro lado, a Fundação Padre Anchieta apresenta pesquisa que apurou que os jovens brasileiros se preocupam com segurança e trabalho, mas não com a cultura: 36% dos jovens nunca foi a um show de música brasileira; 39% nunca foi ao cinema, e 52% não conhece uma biblioteca.

Mais do que apontar que existe uma relação entre a alienação, afirmação de identidade e religiosidade, queremos colocar em pauta outra questão mais profunda: existe uma pequena pressuposição na interpretação dos dados pela Época que leva toda esta conversa a um campo altamente tendencioso: a confusão entre o significado de espiritualidade e religião.

Podemos e devemos investir em nossas conversas espirituais. Se bem dirigidas, elas funcionam como porta para o auto-conhecimento. Práticas “alternativas” como a yoga, meditação, uso de enteógenos e plantas ritualísticas como a ayahuasca servem como formas de se encontrar equilíbrio e sentido espiritual (ou a tal “verdade” mencionada por Rubem Alves). O escritor americano Sam Harris diz com sabedoria em seu livro “Carta a uma Nação Cristã” (Companhia das Letras) que “é importante perceber que a distinção entre ciência e religião não implica excluir nossas intuições éticas e nossas experiências espirituais da nossa conversa sobre o mundo; implica sermos honestos sobre o que podemos sensatamente concluir a partir delas”.

Porque se há um dado importante que parece ser sempre omitido na discussão sobe religião, é o fato de que as igrejas organizadas são responsáveis por barbáries sem fim desde os primórdios, em nome de pressuposições fantásticas que não tem pé nem cabeça fora do campo da metáfora. Católica, evangélica, muçulmana, judaica, hindu… não importa qual, mas um conjunto de julgamentos humanos tomados como palavras divinas sempre causaram mais violência e sofrimento do que redenção e amor.

Insistimos: nós não acreditamos que devemos “matar Deus” por um mundo frio, inerte e envolto em desencanto, como comumente é interpretado o ateísmo superficial. Mas não podemos entregar um poder tão grande de crescimento e exploração do subconsciente nas mãos de instituições manipuladoras de mitos, que fizeram história com base em ascenção terrena (enriquecimento) e busca e manutenção de poder às custas de muito sangue.

A única forma de nos libertarmos deste emaranhado religioso, que só mantém a confusão e o desentendimento vivos – como revela a matéria da Época para olhares atentos – é procurar outra forma de entender a necessidade da conexão entre a existência individual e uma natureza mais profunda. E esta forma parte de uma volta às raízes, ao entendimento que nossas experiências espirituais são pessoais e de natureza simbólica.

Para tanto, recomendamos os documentários A Inquisição Farmacrática, O Deus que Não Estava Lá e Zeitgeist (parte I) acerca da questão religiosa; e Outros Mundos, Xamãs da Amazônia, Ram Dass – Graça Feroz e CoSM the Movie – Alex grey and The Chapel of Sacred Mirrors, sobre a questão espiritual. Lembrando que os filmes estão disponíveis gratuitamente para serem assistidos online em nosso site, com legendas em português (todos na íntegra exceto o Ram Dass e o Alex Grey, que disponibilizamos trechos selecionados). Aproveite!

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