Archive for agosto, 2009

Sexo, Abundância e Sustentabilidade

por Marnia Robinson, em parceria com Gary Wilson. Publicado originalmente em inglês no site Reality Sandwich. Traduzido por Plantando Consciência.
Se você corrigir sua mente, o resto da sua vida vai entrar nos trilhos. Isto é porque a mente é o aspecto governante da vida humana. Elimine o lodo mental e a obscuridade; mantenha sua mente clara como cristal. Aquiete suas emoções e resida em serenidade.
— Hua Hu Ching (coleção de sabedoria Daoísta)

Está de saco cheio dos índices da Bolsa? Tente o Dao. Tradições esotéricas ensinam que nossos pensamentos moldam nossa experiência da realidade. No mundo de hoje, onde estruturas que antes pareciam sólidas como granito estão se desfazendo como gelo no calor, que habilidade poderia ser mais bem-vinda do que usar pensamentos conscientes para trazer abundância, sanidade e sustentabilidade, só pra variar um pouco?

Na minha experiência, o conceito de criação consciente é válido – com algumas ressalvas. Em primeiro lugar, a escolha mais significativa que eu posso fazer quanto a moldar minha realidade é se eu sigo meus impulsos ou desvio para buscar auto-equilíbrio e clareza de percepção. Em segundo, a maneira como eu administro minha energia sexual tem um papel insuspeito na minha abilidade em manter essa clareza de percepção. Terceiro, apesar de eu poder definitivamente usar meus pensamentos para melhorar minha própria experiência, ainda assim é necessário uma grande massa de pessoas para mudar o curso da nossa realidade coletiva.

Por quê eu não posso ter o que quero?

Se nossos pensamentos se manifestam no plano material, porque não conseguimos obter exatamente o que desejamos? Acredito que a resposta é sutil mas simples. Não são apenas os comandos conscientes que moldam nossa experiência. Poderosos sentimentos viscerais e as expectativas que eles disparam tem um papel ainda maior na constituição da nossa realidade.

Por exemplo, nós não estávamos visualizando em nossas mentes bolhas financeiras globais e colapso econômico. Então como conseguimos chegar a um resultado tão catastrófico? É um reflexo do nosso tumulto interno. A não ser que estejamos nos sentindo balanceados, seguros e inteiros, o que nós atraímos raramente cumpre com nossas expectativas. De fato, quanto mais erráticos, egoístas, ansiosos e impulsivos nos sentimos, mais caóticos são os resultados. Como iremos ver, esses sentimentos intensos também encontram paralelos com mudanças neuroquímicas que ocorrem em partes do cérebro comum a todos os mamíferos.

Pense no Aladim esfregando a lâmpada mágica, exceto que neste caso a lâmpada leva em consideração seu estado de espírito enquanto ele a esfrega. Suponha que ele esteja irritado e mal consigo mesmo. O que ele chama vai automaticamente incorporar esses elementos. Talvez ele clame febrilmente por “Ferrari, Ferrari, Ferrari”, mas a lâmpada materializa um lustroso, rápido e bravo camelo.

Uma vez que nós humanos estamos sempre usando nossas lâmpadas mágicas (conscientemente ou não), nós nos beneficiamos de táticas que nos permitem fazê-lo pelo bem de todos. Sábios já propuseram várias abordagens. Por exemplo, o místico hindu do século XIX Shantideva entendia a causa e efeito dos desejos, e portanto aconselhava altruísmo.

Toda a graça que o mundo contém vem de desejar felicidade aos outros. Toda a miséria que o mundo contém vem de desejar prazer a si mesmo.

Os budistas ensinam sua própria estratégia. Desejos e aversões criam sofrimento, então nós superamos o sofrimento ao mantermos um estado de espírito calmo, estático e atento. Ao examinarmos nossos pensamentos, nós gradualmente os impedimos de galopar em direções impulsivas e serem manifestos como prazeres de curta duração e frustração duradoura.

Outros místicos enfatizam a sabedoria de se alinhar nossas vontades com forças além da nossa visão de curto alcance. Cristãos buscam este fim com a oração “seja feita vossa vontade”. Daoístas memorizam técnicas múltiplas para se alinhar com o Dao (o rio de energia invisível que dá vida a toda criação). Exemplos incluem o feng-shui, o I-Ching (oráculo ancestral), ch’i kung, acupuntura e o cultivo de energia sexual balanceada.

A dádiva secreta do sexo

daoO primeiro livro daoísta que eu li sobre o cultivo de energia sexual tocou um sino na minha cabeça. Claro, havia a ênfase pouco prática de se evitar o orgasmo e se praticar amor de forma relaxada (o quê?), mas ao mesmo tempo, as descrições de copulação sem esforço soavam tão certas. Eu quis aprender mais.

O que eu aprendi não foi o que eu esperava aprender. Depois de muitas feridas e descobertas, eu entendi que os daoístas estavam certos. Sexo é um instrumento poderoso para nos centrar, balancear e alinhar com o fluxo harmônico da vida (no qual nossas vontades são realizadas sem esforço, em harmonia com todo o resto do  mundo).

Meu marido e eu estivemos experimentando com esta forma pacífica de se fazer amor por oito anos do nosso relacionamento. Ambos estão maravilhados com a harmonia entre nós, que é um mundo de distância dos dramas mal-resolvidos de nossos relacionamentos anteriores, e com a inesperada queda em frustração sexual. Nós também experimentamos uma melhoria profunda na saúde e um contínuo e surpreendente fluxo de abundância.

Nós ficamos nos perguntando se somos apenas extraordinariamente sortudos. A vida não é perfeita, claro, mas quando nos mantemos fiéis a esta prática, ela parece tão entusiasmante como descer uma corredeira praticando rafting. Nós lidamos com os obstáculos como praticantes experientes do esporte, rimos um bocado, e nos sentimos bem quanto às nossas conquistas. Nossas necessidades são menores, até imprevistos parecem dar certo no final, e nós também aproveitamos os momentos em que nos deixamos levar pela corrente enquanto relaxamos.

Após um orgasmo inadvertido, no entanto, nós geralmente temos a sensação de que nosso rafting empacou em rochas escondidas, ou que não importa o quanto nós rememos, somos desviados do canal principal para águas paradas, ou até que viramos o bote na correnteza. Eventos rotineiros se parecem mais com calmarias do que com oportunidades para se reenergizar. Brigas surgem, e a haromina entre nós fica um pouco comprometida.

Veja bem, estas impressões diversas nunca parecem ter uma conexão com a nossa vida sexual, mas após anos de experiências, a relação é evidente. Entrar em alinhamento com o Dao parece ser uma função de equilíbrio interno, o oposto do estímulo intenso seguido de um vagaroso retorno ao balanceamento (mais sobre isto em um instante).

Para entendermos nossos resultados, ajuda começar de onde os daoístas começaram. Sexo pode ser usado de duas formas diferentes: para prazer imediato e fertilização ou para criar profundos e permanentes sentimentos de totalidade e serenidade. Um termo para esta segunda abordagem é “cultivo angelical a dois”.

“No que o ato sexual é feito sem esforço, o cultivo angelical (também chamado de “o tai chi do intercurso sexual”) é calmo, relaxado, quieto, natural. Enquanto o ato une órgão sexual com órgão sexual, o cultivo angelical une espírito com espírito, mente com mente, e todas as células do corpo com todas as células do outro corpo. Culminando não na dissolução, mas na integração, é uma oportunidade para um homem e uma mulher se transformarem mutuamente e erguer um ao outro a um reino de êxtase e totalidade.” [i]

Imagine as maravlhas que nós humanos poderíamos criar se a maioria estivesse neste estado de espírito tranquilo e completo? Por outro lado, note como esta descrição difere da maioria das receitas para o tantra sexual (ou até de ensinamentos daoístas modernos). Com algumas excessões [ii], o tantra tende a empregar o sexo como uma droga potente, uma forma de se alcançar um estado alterado intenso antes do orgasmo.

O ciclo escondido da paixão

Apesar de seu prazer glorioso, o orgasmo atiça uma turbulência interna, sem nosso conhecimento. Como explica um texto daoísta de esinamentos ancestrais, sexo ordinário coloca toda ênfase nos órgãos sexuais, e qualquer energia física é acumulada e subitamente descarregada. As energias sutis também são dissipadas e desordenadas. “é um grande salto pra trás” [iii]

Uau! Orgasmo causa problemas? Esta questão me atingiu de forma bizarra quando a ouvi pela primeira vez, especialmente porque eu a li em um livro escrito por homens [iv]. Desde então eu aprendi que novos amantes sempre reagem como eu reagi, porque para eles uma dose temporária de química de lua-de-mel mascara a evidência das mudanças mais sutis e tremulantes que se seguem ao orgasmo. De qualquer forma, pesquisas recentes começam a confirmar que de fato o orgasmo dissipa e desordena nossa energia sutil – porque ele é o pico de um ciclo mais longo [v].

No fundo de uma parte primitiva do cérebro conhecida como circuito de recompensas, o orgasmo se iguala com o poderoso efeito de um neuroquímico chamado dopamina. É o neuroquímico do “eu tenho que ter isto”. Ela leva os mamíferos a fazer coisas que prolongavam a sobrevivência de seus ancestrais, mesmo que essas coisas não sejam dos melhores interesses para eles mesmos hoje. No caso da humanidade, essas coisas incluem a tendência em se saciar com alimentos altamente calóricos, tomar riscos com pouca atenção para as conseqüências a longo prazo e, acima de tudo, gratificar nosso desejo sexual. Em outras palavras, não é função desses impulsos primitivos nos direcionar a uma harmonia duradoura, felicidade, ou elevada consicência espiritual. Não através da abundância  e sustentabilidade. Droga!

Quando a dopamina explode ao longo do ato sexual, nós nos sentimos tão invencíveis quanto os especuladores de fundos de risco ilimitados por regulamentações, visão ou preocupação com os outros. De fato, um cientista holandês reportou que imagens escaneadas dos cérebros de pessoas tendo orgasmos lembram aquelas de pessoas injetando heroína [vi]. De qualquer forma, assim como um barato de droga, esta infusão temporária de neuroquímicos do prazer no clímax não perdura. A dopamina cai após o orgasmo, e outras mudanças neuroquímicas podem fazer os níveis da mesma ricochetearem por dias.

Sem a dopamina em seus níveis ideais durante o período de recuperação, nossos sentimentos e até nossa percepção de mundo podem vacilar. Num experimento recente, cobaias cujo nível de dopamina era artificialmente diminuído tiveram dificuldade em resistir a recompensas imediatas, apesar de conseqüências negativas destas a longo prazo [vii].

Essa montanha-russa neuroquímica (ou “ciclo da paixão”) tipicamente cria turbulência desnecessária por até duas semanas – apesar de a maioria de nós não ligar os pontos com o sexo que a engatilhou. Se tanto, nós sentimos que nós, ou mais provavelmente nossos parceiros, parece irritadiço, muito sensível, defensivo, imperdoável, apático, sem amor, hiperativo, pegajoso ou algo que o valha.

Geralmente nós temos a sensação que algo não está certo. Algo está faltando (dopamina). Talvez estejamos entediados. Nós definitivamente sentimos que nossos desejos não estão sendo realizados. Infelizmente, esses sentimentos podem paradoxalmente aumentar a frustração sexual ao mesmo tempo em que nos deixam menos entusiasmados com a proximidade emocional. Quando a dopamina cai, um amante pode subitamente parecer como pizza fria, nos fazendo especular se escolhemos a pessoa errada. Esta “programação mamífera” nos impele a novos interesses sexuais (que sempre oferecem uma carga alta de dopamina através da antecipação). No entanto, seres de aglomeracão em pares como nós tendem a se sentir como grandes perdedores quando nos afastamos da nossa melhor fonte de sentimentos de totalidade e equilíbrio: o contato afetivo com um parceiro próximo e confiável.

Em qualquer situação, quanto mais baixo descemos (ou seja, quanto mais alto é o barato inicial), mais isto tende a prejudicar nossa concentração e nos deixar agitados. Nós ficamos prontos pra qualquer possibilidade de alívio, que é qualquer coisa que eleve nossa carga de dopamina e nos faça sentir bem de novo.

Pra quê esperar no desconforto até que possamos voltar ao equilíbrio naturalmente? Se apenas nos arriscarmos um pouco, ou procurarmos um barato (ou um parceiro típico de um romance literário), nossa dopamina irá instantaneamente saltar acima dos níveis normais e nos sentiremos como o Superman novamente. É claro que um pico de dopamina também tende a nos fazer auto-focados e determinados em encontrar nossa cura de escolha. Isto pode nos fazer agir de formas que nós nem sequer consideraríamos se estivéssemos em equilíbrio.

Então é para isto que nós inconscientemente nos treinamos quando pulamos da cobertura pro porão e de volta pra cobertura, enquanto perdemos contato com a vida no meio dos dois pontos. Pior ainda, estímulo em excesso acaba nos dessensibilizando. Nós obtemos cada vez menos recompensa pelo nosso investimento. Precisamos buscar mais romance, ou no caso mais extremo, alívio. Seria esta última crise financeira um sinal de que a humanidade atingiu um ponto limite onde as sensações prazerosas dos baratos não mais mascaram os baixos que elas inevitavelmente produzem? Pense em bolhas e em bolhas estourando.

Como veremos em um instante, sexo poderia ajudar a sustentar equilíbrio interno. Ainda assim, o típico ciclo da paixão é um exemplo de como a conexão corpo-mente pode nos colocar num curso errante de altos e baixos  quando os instintos nos guiam sozinhos. O clímax inocentemente muda nossa neuroquímica, nossos sentimentos flutuam, nossas percepções temporariamente ficam embaçadas, e até mesmo nossos valores e prioridades podem titubear – tudo isso sem nossa consciência. O ciclo de paixão embutido no sexo instintivamente procriador pode então fazer emergir não apenas a boa sensação do orgasmo, mas também os extremos emocionais, raiva e comportamentos impulsivos e auto-focados, sobre os quais os sábios nos alertam.

Sexo: problema e solução

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Sábios daoístas ancestrais ensinaram que o sexo é como fogo ou água. Fogo e água, eles notaram, podem ajudar um homem… ou matá-lo. Os daoístas dominaram uma forma de usar o sexo sem oscilações de humor. Eles observaram que o intercurso sexual em si é benéfico para ambos os parceiros, uma ferramenta eficiente para criar sentimentos profundos de totalidade permanente. De fato, pesquisa recente embasa a idéia de que contato afetivo  entre parceiros reduz stress, acelera a recuperação, melhora a imunidade e fortalece vínculos emocionais [viii].

Ao se fazer amor sem gozos neuroquímicos intensos (orgasmo ou o quase-orgasmo), daoístas ancestrais não apenas escaparam dos baixos subsequentes, mas guardaram sentimentos paradisíacos de paz interna profunda. Seus manuais sexuais, como Secrets of the Jade Chamber  (“Segredos da Câmara de Jade”) e The Dangers and Benefits of Intercourse with Women (“Os Perigos e Benefícios do Intercurso com Mulheres”), na verdade se referiam ao fenômeno de homens e mulheres atingindo imortalidade juntos através da conservação de energia sexual.
Perigos e Benefícios diz que este estado é atingido através de uma combinação entre penetração profunda, excitação controlada e visualizações de energia se movendo pelo corpo [ix]. Exposition of Cultivating the True Essence (“Exposição do Cultivo à Essência Verdadeira”) explica que amantes podem apenas tocar este potencial escondido no sexo quando a instável energia sexual masculina: 1) é trazida à tona sem “explodir”, 2) recebe de bom grado a mais estável energia yin, e 3) funde-se a ela [x]

Qualquer que seja seu potencial final, o sexo é um dos mais acessíveis eixos para alternar nosso inconsciencte coletivo de imprudência e escassez para abundância e sustentabilidade. No presente quando fazemos amor nós inconscientemente entramos na montanha-russa de altos e baixos (sutis ou pronunciados). Com alguma prática, nós poderíamos estar usando o sexo para atravessar além da insatisfação auto-gerada que nos leva a nos agarrar a qualquer nova tentação. Com sentimentos estáveis de totalidade e paz interna, fica mais fácil fazer escolhas inspiradas que sirvam aos melhores interesses coletivos.

Aqueles nas futuras gerações que estudarem e praticarem a verdade destes ensinamentos serão abençoados. Eles irão adquirir a sutil luz da sabedoria, a poderosa espada da clareza que corta através de qualquer obstrução, e a pérola mística do entendimento que envolve todo o universo. Eles irão atingir o insight necessário para perceber a verdade integral do Dao. Seguindo esta verdade com sinceridade descarada, eles se tornarão o Dao: inteiros, corajosos, indestrutíveis, inomeáveis.[xi] – Laozi (Lao Tzu), mestre daoísta

[i] Hua Hu Ching, trans. Brian Walker, (HarperSanFrancisco: 1992): Section 69, p. 88.

[ii] Diana Richardson, The Heart of Tantric Sex, (Australia: O Books, 2003).

[iii] Hua Hu Ching: Section 69, p. 88.

[iv] Mantak Chia (and Michael Winn), Taoist Secrets of Love: Cultivating Male Sexual Energy (NY: Aurora Press, 1984).

[v] Marnia Robinson, Cupid’s Poisoned Arrow: From Habit to Harmony in Sexual Relationships (Berkeley: North Atlantic Books, 2009): chapter 5.

[vi] Gert Holstege, et al., “Brain Activation during Human Male Ejaculation,The Journal of Neuroscience, (October, 2003) 23(27): 9185-9193; and “Orgasm Akin to a Shot of Heroin.” Holstege’s comments in the Dutch press in 2003: http://www.reuniting.info/science/orgasm_akin_to_heroin_shot.

[vii] Lieuwe de Haan, et al, “Subjective Experiences During Dopamine Depletion,” Am J Psychiatry (September, 2005) 162:1755.

[viii] Robinson, Cupid’s Poisoned Arrow: chapters 7 and 8.

[ix] Douglas Wile, The Art of the Bedchamber (New York: State University of New York Press, 1992): 45, 48.

[x] Ibid: 8, 50.

[xi] Hua Hu Ching: Section 79, p. 103.

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Stop the Drug War

“O proibicionismo criminalizador voltado contra as drogas tornadas ilícitas somente se sustenta por um verdadeiro entorpecimento da razão.

Somente uma razão entorpecida pode crer que a criminalização das condutas de produtores, distribuidores e consumidores de algumas dentre as inúmeras substâncias psicoativas, artificialmente selecionadas para serem objeto da proibição e assim se tornarem drogas ilícitas, sirva para deter uma busca de meios de alteração do psiquismo, que deita raízes na própria história da humanidade. Somente uma razão entorpecida pode admitir que, em troca de uma ilusória contenção desta busca, o próprio Estado fomente a violência, que só se faz presente nas atividades de produção e distribuição das drogas etiquetadas de ilícitas porque seu mercado é ilegal.

Somente uma razão entorpecida pode autorizar que, sob este mesmo ilusório pretexto, se imponham restrições à liberdade de quem, eventualmente, queira causar um dano à sua própria saúde. Somente uma razão entorpecida pode conciliar com uma expansão do poder punitivo, que, crescentemente, desrespeitando clássicos princípios garantidores, ameaça os próprios fundamentos do Estado de direito democrático.

Já é tempo de recobrar a razão e proclamar, em alto e bom som, a urgente necessidade de promoção de uma radical reforma nas convenções internacionais e das legislações internas sobre esta matéria, para legalizar a produção, a distribuição e o consumo de todas as substâncias psicoativas e matérias-primas para sua produção.”

Esta profunda reflexão da Juíza de direito aposentada do tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, Maria Lúcia Karam, parte de sua espetacular série de livros “Escritos sobre a liberdade” (Lúmen Júris Editora) ecoa nas palavras do americano Ethan Nadelman, PhD em relações internacionais e diretor executivo da organização Drug Policy Alliance, um dos principais expoentes da luta antiproibicionista nos EUA, em recente visita ao Brasil:

“O sistema global que defende a criminalização e o raciocínio penal para lidar com a questão das drogas se tornou um dos maiores desastres do século 20, e promete se tornar ainda maior caso não o transformemos. É o que mostra o exemplo da Lei Seca, que proibiu, entre 1919 e 1933, a venda de álcool nos Estados Unidos. Olhando para trás, todos hoje nos perguntamos: o que eles estavam pensando? Sabemos que álcool pode ser muito perigoso, mas a cultura que emergiu dessa proibição foi muito mais problemática. Não apenas não houve redução do consumo de álcool, mas diversos outros novos (e maiores) problemas surgiram, a exemplo do crime organizado, aumento da corrupção e de problemas de saúde decorrentes de bebida de baixa qualidade. Por que não aprendemos a lição?”

alcohol prohibition
Em comparação, Nadelman citou as alternativas encontradas por países europeus para lidar com o álcool no mesmo período: em vez de proibir, optaram por cobrança de impostos, restrição dos horários dos bares e por fortes campanhas de educação. Os resultados foram muito mais positivos do que os obtidos nos Estados Unidos: “Esse contraste demonstra não só que se pode evitar o poder do crime organizado como também atenuar os danos do uso sem recorrer à saída repressiva”, destacou.

A saída proposta pela Drug Policy Alliance é a legalização das diversas drogas que hoje são ilícitas. Nadelman faz questão de ressaltar que “legalização significa regulamentação, enquanto a proibição representa abdicar da regulação”.  (PlantandoConsciencia faz questão de destacar que defender a legalização não significa defender aumento no consumo, mas sim defender a redução de danos criados pela estratégia proibicionista). A organização defende o estabelecimento de normas para comércio e consumo, impedindo a venda para menores e a publicidade, por exemplo, além de impostos que permitiriam o atendimento médico aos usuários que necessitassem.

O caso da maconha é o “mais simples”, segundo Ethan Nadelman – “nos EUA mais de 100 milhões de pessoas já experimentaram, a começar de nossos três últimos presidentes”. E provoca: “Quando me perguntam ‘e quanto aos jovens?” eu respondo: “hoje é mais fácil comprar maconha do que álcool, exatamente pela ausência de regulamentação” (vale lembrar que nos EUA para se comprar bebidas alcoólicas é exigido documento com data de nascimento, mesmo que vc tenha cabelos brancos). Como exemplo, cita pessoas de sua idade, “na casa dos 50 anos”, que quando decidem comprar maconha, a primeira idéia é perguntar aos filhos.

No caso de outras drogas, como anfetaminas, cocaína e heroína, Nadelman relembra como cocaína e opiáceos eram legais nos Estados Unidos até o início do século 20, sem que houvesse grandes problemas por isso. “E por que foram proibidas? Por que algumas drogas são legais, e o problema do vício é tratado como questão médica, e outras são ilegais, com uso e vício sendo tratados criminalmente, principalmente quando se é pobre e negro?”, questionou.

drug war

A resposta à indagação não é muito difícil de ser encontrada. Ao se analisar o consumidor médio de ópio nos 1870/1880, encontra-se mulheres, brancas, de meia idade. É a partir da chegada de imigrantes chineses, que trabalhavam nas minas e na construção das estradas de ferro, que o ópio passa a ser estigmatizado como agente agressor da moral estadunidense. Processo semelhante de racismo e xenofobia acontece com os negros, estigmatizados como únicos usuários da cocaína. O mesmo acontece posteriormente com a maconha, usada como pretexto para discriminar os mexicanos.

Além da questão racial (entre 1985 e 1995 o número de negros presos por drogas cresceu 707%), há um claro recorte de classe, explícito, por exemplo, no fato da punição para consumo ou venda de crack ser muito maior do que no caso da cocaína na lei dos EUA. Um em cada 150 estadunidenses está preso. Nadelman cita o exemplo do número de mortes por ataque cardíaco decorrente do uso de Viagra ser muito mais alto do que os problemas ocasionados por diversas substâncias ilícitas, e se pergunta o que aconteceria com tal medicamento caso fosse uma “droga de pobres”.

“Precisamos olhar para a totalidade do uso das drogas ilícitas vendo que há diferentes maneiras de utilizá-las, assim como fazemos com o álcool”, disse o professor, ressaltando que a mídia aborda apenas o dependente de drogas como se este fosse o padrão de usuário, como se impossível fosse um uso racional de algum tipo de substância ilícita. Outra vez partindo para os exemplos, Nadelman lembrou como há diversos países que emitem licença para uso de heroína farmacêutica: “o uso reduz sua sensibilidade á dor, mas o principal impacto ao corpo, apontado por médicos, é a constipação”.

Nadelman finalizou apontando que “devemos nos mover na direção do direito fundamental de livre decisão sobre o que colocamos em nossos corpos, nos limites de não causar danos a ninguém. É preferível que a pessoa obtenha a droga de fontes legais, o que seria uma faca no coração do crime organizado e da corrupção”


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Medo da Gripe Suína? Ou medo de ser trouxa…

Ironia:  2000 pessoas contraem a gripe suína e todo mundo já quer usar máscara. 25 milhões de pessoas têm AIDS e ninguém quer usar preservativo…

O que se passa?

No mundo, a cada ano morrem milhões de pessoas vítimas da Malária, que se poderia prevenir com um simples mosquiteiro.

No mundo, por ano morrem 2 milhões de crianças com diarréia, que se poderia evitar com um soro que custa 25 centavos.

Sarampo, pneumonia e enfermidades curáveis com vacinas baratas, provocam a morte de 10 milhões de pessoas a cada ano.

Os noticiários, nada disto falam.

Mas há cerca de 10 anos, quando apareceu a famosa gripe das aves, os noticiários mundiais inundaram-se de notícias… Uma epidemia, a mais perigosa de todas… uma Pandemia! Só se falava da terrífica enfermidade das aves. Não obstante, a gripe das aves apenas causou a morte de 250 pessoas, em 10 anos… 25 mortos por ano.

A gripe comum, mata por ano meio milhão de pessoas no mundo. Meio milhão contra 25.

Um momento, um momento. Então, por que se armou tanto escândalo com a gripe das aves? Porque atrás desses frangos havia um “galo”, um galo de crista grande.

A farmacêutica transnacional Roche, com o seu famoso Tamiflu, vendeu milhões de doses aos países asiáticos.

Ainda que o Tamiflu seja de duvidosa eficácia, o governo britânico comprou 14 milhões de doses para prevenir a sua população. Com a gripe das aves, a Roche e a Relenza, as duas maiores empresas farmacêuticas que vendem os antivirais, obtiveram milhões de dólares de lucro.

Antes com os frangos e agora com os porcos. Sim, agora começou a psicose da gripe suína. E todos os noticiários do mundo só falam disso… Já não se fala da crise econômica nem dos torturados em Guantánamo… só a gripe suína, a gripe dos porcos…

E eu me pergunto: se atrás dos frangos havia um “galo”… atrás dos porcos… não haverá um “leitão”?

A empresa norte-americana Gilead Sciences tem a patente do Tamiflu. O principal acionista desta empresa é nada menos que um personagem sinistro, Donald Rumsfeld, secretário da defesa de George Bush, artífice da guerra contra Iraque…

Os acionistas das farmacêuticas Roche e Relenza estão esfregando as mãos, estão felizes pelas suas vendas novamente milionárias com o duvidoso Tamiflu. A verdadeira pandemia é de lucro, os enormes lucros destes mercenários da saúde.

Não neguemos as necessárias medidas de precaução que estão sendo tomadas pelos países. Mas, se a gripe suína é uma pandemia tão terrível como anunciam os meios de comunicação, se a Organização Mundial de Saúde (conduzida pela chinesa Margaret Chan) se preocupa tanto com esta enfermidade, por que não a declara como um problema de saúde pública mundial e autoriza a fabricação de medicamentos genéricos para combatê-la?

Prescindir das patentes da Roche e Relenza e distribuir medicamentos genéricos gratuitos a todos os países, especialmente os pobres. Essa seria a melhor solução.

Reflita, pesquise. Talvez a vacina que estejamos precisando seja de outra natureza. Os meios de comunicação naturalmente divulgam o que interessa aos patrocinadores.

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