Archive for setembro, 2009

Novos Horizontes

Washington Square Park, Nova Iorque. Sábado 09:00 da manhã, 25 de setembro de 2009, estou indo para a Igreja. Nunca fui a missas, e essa não foi a primeira vez. Ainda assim, refleti um pouco sobre o fato enquanto estava no metro. Ao chegar ao local, a Judson Memorial Church, fui surpreendido pelo quadro de avisos na porta: “Melhor lutar pela utopia que consentir em viver no inferno” (Julian Beck). O recado foi fundo e pareceu fazer sentido perfeito com o que estava por vir: Horizons 2009: Perspectivas sobre Psicodélicos. É isso mesmo, um simpósio científico-cultural sobre a psicodelia dentro de uma Igreja, no país líder da catastrófica guerra contra as drogas. Quão utópico pode ser isso?? Abaixo do pensamento de Beck, uma breve síntese numérica: “Mortos no Iraque: 4.345 Soldados Americanos e 101.608 Civis Iraquianos. Feridos: 31.513 Soldados americanos” e mais um não anunciado número de iraquianos. Por fim, fora do quadro de avisos, mais um recado: “A América em que acredito fecharia Guantânamo. JÁ!”.

Judson Memorial Church

Judson Memorial Church

Arrepios. Sequer entrei e já recebi, logo de cara, um monte de despertares da consciência. As páginas do plantandoconsciência flutuavam em minha mente, psicodélicos, ciência, terrorismo, religião, xamanismo… tudo se conectando e fazendo sentido, união, yoga. Durante todo o dia e durante a tarde do domingo seguinte fiquei surpreso, maravilhado e muito feliz com tudo o que vi e aprendi. O renascer da pesquisa científica com psicodélicos, feita de maneira madura, responsável e ética cerca de 50 anos após o início de sua radical e injustificada proibição.

“Melhor lutar pela utopia que consentir em viver no inferno” (Julian Beck)

Pesquisas financiadas por governos, como da Suíça e mesmo o dos EUA. Outras empreitadas de grande sucesso mostraram com clareza que mesmo na falta dessas fontes de financiamento, muito pode ser feito com doações e espírito de coletividade. Durante o fim de semana aprendemos um pouco mais sobre a fascinante história das substâncias psicodélicas com William Richards, PhD, sua relação com estados alterados de consciência, misticismo e religião. Entramos em contato com o estado-da-arte da neurociência moderna com psicodélicos na magistral palestra do suíço Franz Vollenweider, MD, PhD, que realiza diversos estudos de neuroimagem durante a ação da psilocibina, o princípio ativo dos cogumelos mágicos, no cérebro de voluntários sadios. Vollenweider mostrou, entre muitas outras coisas, que a psilocibina pode causar no cérebro e em nossa percepção de estímulos visuais efeitos semelhantes à meditação. Em seguida, o ponto mais emocionante ficou por conta da palestra da psicóloga Alicia Danforth, que trabalhou nos últimos anos junto com Charles Grob, MD, PhD, na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA). O trabalho utilizou doses medianas de psilocibina como tratamento à ansiedade e depressão extrema que vivenciam pacientes de câncer terminal. Mais do que um resultado maravilhoso e fantástico, no qual uma única experiência com psilocibina foi capaz de aliviar o estresse e angústia por vezes insuportáveis que acompanham o tratamento de câncer, a experiência suscitou nos pacientes um olhar mais amoroso para com a vida, permitindo que vivessem seus ultimos dias com muito mais satisfação (sim, alguns dos voluntários faleceram antes mesmo de o estudo terminar), em alguns casos podendo realmente viver, pois o que lhes restava era apenas um medo tremendo da morte que os impedia de apreciar tudo e todos ao seu redor. Alicia dividiu seus pacientes em três grupos: Os que nunca haviam experimentado estados alterados de consciência, os transformadores, que saíram da experiência radicalmente diferentes de como entraram; e os ativistas, que decidiram romper com o anonimato e deram depoimentos sobre suas experiências. Declaração voluntária da paciente Annie, que pudemos assistir em primeira mão em um vídeo de tirar o chapéu: “Recomendo a psilocibina para qualquer paciente nessa situação, é muito melhor e mais eficiente que qualquer tratamento que já experimentei”. Em outro relato, Alicia contou de uma paciente com câncer de garganta que não podia engolir nada além de líquidos. Nem mesmo iogurte ou mingau, coisas pastosas, ela era capaz de engolir. Apenas água, suco e sopas bem ralas. Imagine-se o estado, além do câncer, de inanição e extrema fraqueza. Após a experiência com psilocibina, no dia seguinte, ao café da manhã, a paciente resolveu tentar tomar um iogurte, e subitamente sua garganta abriu, permitindo que um alimento passasse por ali pela primeira vez em meses. Completamente surpreendida e maravilhada, ela então resolveu, aos poucos, comer mais algumas coisas pastosas, e relatou como um dos momentos mais incríveis de sua vida aquele simples ato de se nutrir. Alguns dias depois a garganta voltou a ocluir, e a paciente faleceu pouco depois. Fica no ar a pergunta de se tratamentos crônicos poderiam restaurar a capacidade de alimentação em pacientes em condições similares. De maneira mais abrangente, o estudo não só permite uma nova abordagem ao tratamento de pacientes em situação tão delicada como o câncer terminal, como questiona as bases da medicina moderna, na qual todos os esforços são realizados no sentido de alongar a vida, e não de trazer qualidade, serenidade e paz ao paciente.

Stephen Ross, MD, PhD da Universidade de NY mostrou como os resultados pioneiros de Alicia e Grob permitiram e estimularam a criação de um grupo multidisciplinar na NYU para aumentar e expandir estes resultados iniciais com a psilocibina em pacientes terminais, estudo que já foi aprovado por toda a extensa burocracia e está em fase inicial, com novas doses e novos pacientes.

Valerie Mojeiko, da MAPS (Multidisciplinary Association for Psychedelic Studies) contou sua história pessoal desde sua primeira epifania com MDMA (o ecstasy) aos 16 até sua primeira bad-trip com subsequente surto psicótico e internação hospitalar após uso de ibogaína.

A bad-trip de Valerie

A bad-trip de Valerie

Valerie viveu na pele a inadequada assistência dada por hospitais aos usuários de psicotrópicos, remanescente de tempos de internação, camisa de força e eletrochoque, que me fizeram lembrar do “Canto dos malditos”, livro de Austregésilo Carrano Bueno, que virou o filme “Bicho de sete cabeças”. Após sua vivência pessoal, somada a sua prática profissional, Valerie juntou-se ao MAPS para criar um serviço de redução de danos aos usuários de psicotrópicos em geral. A proposta é de transformar uma potencial viagem errada e traumatizante em oportunidade para crescimento e amadurecimento. Nas palavras dela: “Turning an emergency into an opportunity for growth, healing and understanding”. A abordagem vai ao cerne da experiência psicodélica, que é muito mais do que uma experiência recreativa, como sempre bem souberam xamãs e curandeiros de diversas regiões do planeta. Os pensamentos e sentimentos trazidos a tona pelos psicodélicos nem sempre são agradáveis, mas se encarados de uma perspectiva madura e de aceitação podem servir, em uma única experiência, como anos de psicoterapia.

Para encerrar o sábado, Earth e Fire Erowid, os criadores do magistral site de informações imparciais sobre psicotrópicos, hoje com mais de 1.200 usuários associados (sendo eu um dos mais recentes associados e um dos poucos brasileiros na lista), mostraram de forma dinâmica como o proibicionismo aos psicotrópicos causa o surgimento de aberrações como o Spice, suposto conjunto de ervas vendidos legalmente na Europa e pela internet, mas que sob um olhar mais cauteloso revelou conter agonistas sintéticos da velha cannabis, utilizada por nossa espécie a cerca de 2700 anos. O casal Erowid deixou claro como o proibicionismo acaba sendo burlado, muitas vezes criando misturas e coquetéis desconhecidos e de qualidade duvidosa, aumentando os potenciais riscos do consumo destas substâncias. Neste caso específico, o Spice esconde as substâncias responsáveis por seu efeito, que não aparecem no rótulo, enaganando agências governamentais e potenciais concorrentes no mercado. Foi necessário que comprassem o produto, o que foi difícil pois o produtor especificava aos distribuidores para não vender nos EUA, o que chegou a ser impresso nas embalagens em determinado momento. Ainda assim, Erowid fez o necessário e testou o produto, confirmando que seus efeitos eram incrivelmente similares ao de fumar maconha. Após consumirem, enviaram para a Drug Detection Agency para análise química, mas o resultado deu negativo para todos os compostos canabinóides e de substâncias psicoativas proibidas. Entretanto, o Spice continha na análise química alguns picos referentes a substâncias que não foi possível identificar. Posteriormente, um laboratório na Alemanha fez análise mais detalhada e encontrou o composto JWH-018, um agonista canabinóide sintético. Nos EUA, agentes de segurança internacional relataram que Spice continha HU-210, achado que ainda não foi confirmado por nenhum outro laboratório. Em 2009, trabalho publicado por Auwarter et al no Journal of Mass Spectrometry finalmente identificou o composto encontrado por Erowid 20 meses antes como sendo o CP 47,497. No meio da sopa de letras do composto químico responsável pelos efeitos do Spice, vale resaltar que CP é a sigla de compostos sintetizados pela gigante Pfizer, e dados os mais de 520.000 resultados do google na busca por spice e o crescimento do fabricante, o Psyche Deli, em mais de um milhão de dólares entre 2006 e 2007, levantou-se a questão de qual o possível envolvimento das gigantes farmacêuticas no mercado negro de psicoativos.

No domingo, o ecologista e teológo Andy Letcher procurou argumentar como a simbologia mística, específica no que diz respeito aos cogumelos, causa por vezes o “wishful thinking” criando idéias que podem ser divertidas mas inadequadas. Andy mencionou especificamente a idéia de o papai noel ter surgido das práticas xamânicas na sibéria, como aparece por exemplo no filme “a inquisição farmacrática” (que andy não chegou a mencionar). A meu ver, faltou a ele justificar suas afirmações, uma vez que apenas mostrou outras imagens antigas e pinturas em cavernas nas quais fica duvidoso se imagens de formas pontiagudas e meio trianglares representavam ou não cogumelos de fato. No caso do papai noel, Andy argumentou que não é nada de xamanismo na sibéria, mas apenas o brilhantismo imaginativo de Thomas Nast. Não argumentou porque esta explicação é mais ou menos mirabolante que a dos xamãs e seus amanitas e também não tocou na questão de se a imaginação de Thomas Nast poderia ter sido ou não influenciada por experiências com o Amanita. Resta ler seu livro “Shroom: A cultural history of the magic mushroom and mad thoughts on mushrooms: Discourse and power on psychedelic consciousness” para ver se têm argumentos mais convincentes que possam comprovar se essas idéias são plausíveis ou de fato apenas histórias mirabolantes criadas por amantes dos cogumelos e suas trips (vale ler os comentários sobre o livro no link acima, da amazon, incluindo o de Jan Irvin, de “a inquisição farmacrática”).

Bob Jesse depois apresentou o trabalho realizado pelo Conselho de Práticas Espirituais (CSP), uma abordagem complementar ao uso de psicodélicos. Segundo Bob, o misticismo evocado por experiências psicodélicas deve ser estilmulado respeitando-se a cultura, religião e crenças de cada um. O trabalho do CSP foca na continuidade das práticas espirituais após o despertar induzido por psicodélicos. Sua palestra levantou questionamentos calorosos por parte da platéia, que questionou que experiências místicas e religiosas são pessoais e que não cabe a uma organização, especialmente uma ocidental dirigida por “homens brancos” orientar as pessoas nesta área. Entretanto, me parece crucial a continuidade das experiências de expansão da consciência (ou místicas ou religiosas etc etc) por outros métodos que não o abuso das substâncias psicodélicas. Como magistralmente argumentado por R.C. Zaehner em seu debate com Aldous Huxley, e também de forma brilhante por Ram Dass, substâncias psicodélicas tem a capacidade de nos teletransportar para o cume do Everest, onde podemos experimentar uma visão mais ampla e abrangente do universo, tanto externo quanto em nosso interior. Mas esta experiência é radicalmente diferente de escalar a montanha. Segundo Zaehner, este é o caminho religioso. Segundo Ram Dass, este é o caminho espiritual da meditação e compaixão. Muitos outros existem, como yoga, o quarto caminho etc…

Por fim, Bob Wold apresentou sua história com “cluster headaches” (cefaléia em salvas), uma condição de dor de cabeça extrema, que segundo ele não deveria ser chamada de dor de cabeça porque absolutamente não descreve  o que se passa. Os pacientes com cluster headaches mais parecem pacientes em convulsão. A dor é tão insuportável que muitos pensam em suicídio e alguns de fato o cometem. Atualmente não existe tratamento eficaz. Bob começou a sofrer de clusters 20 anos atrás enquanto brincava com seu filho no quintal. Repentinamente começou a se sentir tonto, e em menos de dez minutos encontrava-se convulsionando e batendo a cabeça no chão, gritando em dor profunda. As dores vêm em ciclos, com vários episódios por ciclo, cada um chegando a durar 30 minutos! Bob teve cerca de dois ciclos por ano, durante 20 anos. Estima-se que teve mais de 18.000 episódios, ficando praticamente incapacitado para viver de maneira digna. Tomou mais de 75 medicamentos prescritos, em mais de 100 combinações diferentes. A lista vai de aspirina até acupuntura, com muito pouco resultado. Sem encontrar saída, Bob estava indeciso entre quatro opções cirúrgicas, algumas de alto risco, e todas sem promessa de resultado definitivo. Foi aí então que Bob encontrou dois médicos que lembraram que Albert Hofmann, o pai do LSD, quando sintetizou o que talvez seja a molécula mais famosa do mundo, procurava tratamentos para hemorragias durante o parto e para dores de cabeça. Devido à ilegalidade do LSD em todo o mundo e sua difícil síntese, os médicos e Bob decidiram tentar a psilocibina, molécula prima do LSD, disponível gratuitamente na natureza em diversas espécies de cogumelos, como o Psilocibe cubensis. O resultado foi tão expressivo e marcante que Bob se viu, pela primeira vez em duas décadas, livre de suas dores. Bob fundou então o Clusterbusters, associação para ajudar pacientes com a mesma condição e estudar os efeitos da psilocibina como tratamento, quais as melhores doses etc. Bob destaca que as alucinações não são um problema, já que a dose necessária pra terminar as dores são abaixo das doses alucinogênicas. Ele hoje cultiva os cogumelos em sua casa e dirige com paixão o Clusterbusters. A associação cresceu e hoje conta com apoio de pesquisadores em instituições formais de pesquisa. O caminho foi árduo, e apesar dos inúmeros comentários preconceituosos de que ninguém levaria isto a sério e nem financiaria pesquisas de laboratório com “cogumelos alucinógenos”, Bob conseguiu doação privada de 50.000 dólares para seguir e expandir seu trabalho, que hoje ajuda dezenas de pacientes na mesma condição.

Ao final do domingo, a sensação era de uma comunidade forte, séria e unida para continuar expandindo este setor de pesquisa médica e científica ignorado por tantos anos. As promessas são inúmeras, desde tratamentos clínicos até questões centrais para a neurociência moderna, como quais os substratos neurais dos estados de consciência, tanto normais quanto alterados. horizons 2009

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NineEleven was as inside job…

[devido a falta de internet, pouco mais de…] 48 horas atrás, de um ônibus em Bruxelas, Bélgica, escutei ecoando pela cidade “NineEleven was an inside job! NineEleven was an inside job!”. Hã? Que?? 9/11?? Susto. Eu nem tinha me dado conta da data fatídica. Mas um grupo de pessoas protestava no centro de Bruxelas, próximo ao QG da União Européia. Mesmo 8 anos depois, os Europeus seguem questionando a versão oficial da história. Cartazes diziam muitas coisas que nao pude entender, escritos em francês, holandês e alemão, mas alguns em inglês diziam “We want the naked truth”. Despertou a consciência adormecida, pra mim e pra outros que estavam no ônibus ruminando seus própios afazeres.

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É totalitária. E todo mundo aprova.

A lei anti-fumo em São Paulo é um sucesso. Ela é uma questão de consciência? Sem dúvida. Mas é um avanço? Só se for avanço de marketing. Porque ela explora e manipula a demanda por consciência, por um propósito puramente político. Belo truque.

Vamos analisar uma curiosa pesquisa publicada pelo Estadão esta semana, que mediu os índices de monóxido de carbono em algumas baladas paulistanas antes e depois da lei anti-fumo.

Smoking-Law--2627A reportagem encontrou, antes da lei, índices de CO nas boates parecidos com o de ruas de tráfego movimentado, como a Avenida Paulista, entre 10 e 14 ppm (parte por milhão). Depois, no mesmo horário de visita, a marca máxima ficou entre 5 e 6 ppm, “índices considerados ideais” segundo pneumologista do Ambulatório do Tabagismo do Instituto do Coração (Incor). “Vamos estudar os efeitos dessa redução de concentração, mas a expectativa é de diminuição de doenças cardíacas”, afirmou a pneumologista, que avalia a qualidade ambiental pré e pós lei antifumo em 840 bares e boates de São Paulo.

O curioso na matéria é a comparação com o fato de que, antes da lei, o ar dentro dos estabelecimentos era parecido com o ar nas ruas de São Paulo. Fico pensando se agora é mais sensato ficarmos todos enclausurados dentro de ambientes fechados para  evitarmos o risco de exposição a agentes causadores de doenças cardíacas.

É claro que a lei anti-fumo carrega a bandeira (unânime) da saúde. Mas abusa e explora o mote, sem o qual fica fácil perceber que ela não passa de um efetivo e apelativo instrumento eleitoral, criada de forma bastante severa pra gerar polêmica e virar notícia. Quando chegarem as eleições presidenciais, passado o fervor da implantação, o Sr. José Serra irá lembrar a todos os eleitores como ele fez por São Paulo, como trabalhou pela saúde da população. Ações governamentais mais efetivas na área de saúde, como educação preventiva, construção e manutenção de hospitais e serviços públicos de qualidade, ou geração de empregos e melhoria da instrução e habilitação na área, não viram notícia e não têm o mesmo impacto social.

Se o governador de São Paulo é tão preocupado com a saúde de todos – e se a expectativa da lei antifumo é a diminuição das doenças cardíacas -, ele poderia pensar em soluções menos intransigentes e mais abrangentes – e aproveitar para dar exemplo ao mundo -, como restringir o uso de automóveis movidos à combustão (afinal, ninguém é “viciado” em combustíveis fósseis, evitando o “efeito colateral” de se isolar uma classe de fumantes que usufruem de um hábito legal, a se sentir discriminada), paralelamente a incentivos fiscais para masked_bikerestimular a fabricação e comercialização de veículos não poluentes (recomendo o documentário “Quem Matou o Carro Elétrico?”, disponível em nosso site, para se aprofundar no tema). Mas esta não seria uma solução eleitoreira, pois demanda longo prazo.

Mas se a questão é ser radical e chamar a atenção, então a próxima solução em prol da saúde pública poderia ser a obrigatoriedade de se usar máscara nas ruas, já que aparentemente agora você só está a salvo dos males da fumaça em ambientes fechados, visto que o ar de São Paulo, que já tinha a mesma concentração venenosa das baladas com fumantes, está ainda pior, já que todos os fumantes da cidade tem que saciar seu vício ao ar livre.

Mas não pára por aí. Quem disse que a fumaça é o único inimigo da saúde pública? Que tal se regulamentássemos a freqüência do consumidor a lanchonetes fast-food como o McDonalds, Giraffa’s e Burger King (conhecendo seu papel na contribuição para uma alimentação equilibrada e saudável, como  ironizado no filme Super Size Me)? Isso sem falar na imoral distribuição-isca de briquedos-brindes pra atrair crianças para estas redes (procedimento de baixo nível amplamente disseminado). Ou talvez controlar a venda de pastel de feira, seguindo as estatísticas sobre os mesmos problemas cardíacos, mas desta vez causados pela obesidade.

britney-bald-adSe parece exagero, é porque entendemos que a diferença em relação à questão do fumo e da alimentação é que o que o seu vizinho come não interfere na sua saúde, enquanto a fumaça que ele assopra te ataca e incomoda. A famosa questão do fumante passivo. Bom, o que o seu vizinho come pode não interferir na sua vida em primeira instância. Mas as propagandas das redes de fast food também atingem seus filhos, o lixo produzido polui o ambiente em que você vive, os problemas decorrentes da obesidade congestionam os hospitais… e assim por diante.

Mais do que isto. O controle sobre alimentos “perigosos” está aos poucos se tornando a próxima bola da vez no que diz respeito à interferência de governos nas vidas das pessoas. Recomedo a leitura imediata desta curta mas interessantíssima resenha da The Economist sobre o livro Velvet Glove, Iron Fist (“Luva de Veludo, Punho de Ferro”), do americano Christopher Snowdon, sobre a história da perseguição ao cigarro, e como termos como “obesidade passiva” e “bebedeira passiva” já estão começando a circular por aí.

Por outro lado, poderíamos pleitear uma lei proibindo a venda indiscriminada de alimentos transgênicos, visto que ainda não tivemos tempo de análise para se obter dados sobre  os efeitos a longo prazo destes ao organismo. Mas esta não ia dar certo, primeiro porque a população desconhece o assunto, e segundo porque os transgênicos são tão onipresentes hoje que em pouco tempo não existirão mais sementes naturais e praticamente tudo o que você compra no supermercado seria proibido (recomendo o documentário “O Mundo Segundo a Monsanto” para aprofundamento nesta questão, também disponível no nosso site).

Pra piorar, há uma polêmica nos meios científicos em relação à quantidade e qualidade das evidências para comprovar a tese do fumante passivo, que se baseia em um estudo feito pelo epidemologista japonês Takeshi Hirayama (não-fumante fanático, como ficou conhecido), publicado pelo British Medical Journal em 1981, que acompanhou dezenas de milhares de mulheres de fumantes ao longo de 14 anos e concluiu que o risco de contração de câncer pelas mulheres de fumantes obssessivos dobrava.

Voltando a Christopher Snowdon e seu livro Velvet Glove, Iron Fist, o autor lista 63 relatórios feitos, desde então, dos quais 52 não conseguiram comprovar a tese do fumante passivo, 8 encontraram evidência positiva e 3 indicaram que as mulheres dos não-fumantes teriam mais câncer do que as dos fumantes (!)

Ou seja, no final das contas, a lei não tem base sólida para se justificar, fora o seu conforto de chegar em casa sem cheiro de cigarro na roupa. Perseguição ao fumante? Preconceito social? Totalitarismo? Vejamos mais a seguir.

A reportagem do Estadão acerta ao inserir comentários de dois pontos de vista sobre a lei. O primeiro é do secretário estadual de saúde, Luiz Roberto Barradas Barata, que obviamente enaltece os méritos da medida, clamando que “a saúde pública saiu fortalecida” e lembrando que “não houve diminuição do número de clientes de bares, restaurantes e outros estabelecimentos”. Esta última informação é enviesada. Esta fonte de informação que vos escreve tem testemunhado o contrário, do lado de quem trabalha no ramo. Em lugares em que o movimento não foi afetado, o caos das filas pra fumar e o tratamento grosseiro muitas vezes dispendido aos fumantes começa a dar cria a uma nova minoria vitimizada por preconceito social.

O outro comentário, desfavorável à lei, é do diretor jurídico da Associação Brasileira de Gastronomia, Hospedagem e Turismo (Abresi), Marcus Vinicius Rosa. Rosa comenta uma questão de primeira importância, independente de você ser a favor ou contra a lei: ela é inconstitucional, pois atropela uma liberdade protegida por leis federais. Rosa também fala sobre o “efeito simbólico” da mesma (“não há um esforço do governo em incentivar programas antitabagistas, nem combater a poluição atmosférica”). O diretor da Abresi lembra então que a supressão de liberdades implantada descamba para o totalitarismo. Opa!

apartheidFaço uma ponte para outro assunto recente e polêmico, desta vez abordado pela revista Veja, em matéria sobre o livro Uma Gota de Sangue, do sociólogo Demétrio Magnoli, que tem gerado balbúrdia e inconformismo (inclusive com o autor sendo chamado de “neoracista” em blogs), por sua postura contra as cotas para negros em universidades (que segundo ele acabam por “impingir aos cidadãos uma marca racial da qual não poderão fugir”). Vale lembrar, antes de tudo, que no Brasil, país da mistura racial por excelência, “existe um racismo difuso, mas não um ódio racial de massas”, como nos Estados Unidos, segundo Magnoli. E que “em todos os lugares em que foi aplicado esse tipo de medida (lei de cotas), formaram-se elites políticas sustentadas sobre bases raciais”. Isto é um fato. Independente da oportunidade aberta para negros de espaço na educação superior, ou independente da sua caracterização ou posição social (negro vs. não negro, fumante vs. não-fumante, gay vs. hetero e assim por diante), “tipos” identificados com um rótulo tendem a concentrar e desenvolver poder político em prol de suas bandeiras, em detrimento a outras causas igualmente polarizadas.

smoking-is-healthier-than-fascismAcho oportuno lembrar que, antes se ser o “pária da civilização”, o tabaco, que já foi “necessidade patriótica” nos Estados Unidos da I Guerra Mundial, é usado há tempos imemoriais para fins relacionados à saúde. O mapacho, espécie de tabaco usado em cerimônias xamânicas no Peru, é considerado uma planta sagrada e sua fumaça tem papel fundamental nos rituais de terapia ancestral. Além disso, a medicina amazônica faz uso do suco de tabaco (sim, suco de tabaco) para ajudar a limpar o organismo em dietas de cura. Assim como o palo santo, que é queimado para purificar ambientes em rituais, ou outros incensos, usados em muitas culturas para afungentar maus espíritos e induzir estados de relaxamento e bem-estar. Todos estes fumígenos foram usados por séculos no auxílio à busca de saúde física e mental sem registro de epidemias de câncer de pulmão nessas sociedades.

Como pode-se perceber, o debate é profundo e o nosso papel aqui é plantar a semente do questionamento. Porque, no final das contas, a celebração incontestável da lei anti-fumo e a polêmica das cotas externam o maior dos preconceitos da sociedade brasileira: o preconceito contra o próprio debate. “Verdades” como as que norteiam a lei anti-fumo são mais fáceis de assimilar, mas também são mais fáceis de nos fazer manipuláveis, como rebanho na mão de interesses e bandeiras políticas. O grande perigo está em saber distinguir o limite difuso entre medidas que são de fato “em prol da saúde” e “em prol da igualdade” de leis de fácil apelo popular que no fundo carregam uma amarga e preocupante tendência ao totalitarismo.

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