Tudo Azul

Manipulado pela mídia? Vá ao cinema

Obs. (05/04/2010): O texto abaixo foi publicado antes do assassinato do cartunista Glauco. No entanto o conteúdo não perde a atualidade. Basta substituir a parte que fala da matéria da Isto É pelas matérias de capa da Veja ou da Época para o caso, ou os programas da TV Record, que a conclusão é a mesma.

Uma foto de um homem de olhos fechados e cabeça para o alto, erguendo uma taça em tom de reverência cerimonial, semelhante à missa católica, com os dizeres em tom sensacionalista “Santo Daime Liberado” estampou a capa da revista Isto É do início do mês. Apesar do enfoque religioso, o fato de a ayahuasca conquistar a mídia soa, a princípio, como uma notícia potencialmente revolucionária! Mas a esperança de um jardineiro de consciência foi pisoteada pela obtusa ignorância do interesse político. Não era preciso nem ler a reportagem em questão pra saber qual o tom da matéria. Bastou acompanhar a chamada da capa: “O governo autoriza o uso do chá alucinógeno em rituais religiosos, mesmo com casos de morte após o seu consumo. A medida abre um novo e perigoso precedente na discussão sobre a legalização das drogas”.

Incluir uma bebida de origem indígena e uso milenar na categoria “droga” é, no mínimo, uma metonímia vulgar . Mesmo assim, vamos pressupor que o leitor desconheça o assunto, que de fato é delicado. A reportagem pouco esclarece do que se trata a ayahuasca, que é comumente confundida – inclusive pela própria reportagem – por “Santo Daime”. Santo Daime é uma religião cristã, que assim como a UDV (União do Vegetal) e outras, difere das religiões cristãs comuns por fazer o uso da bebida enteógena em suas cerimônias. Caso você esteja se perguntando o que quer dizer “enteógena”, eu explico: a palavra vem do grego (en- = dentro/interno, -theo- = deus/divindade, -genos = gerador),  e se traduz em algo como “manifestação interior do divino”.

Comumente tratada como “alucinógeno” (pela Isto É inclusive), um termo pejorativo e que não traduz os efeitos do enteógeno com clareza, a ayahuasca é uma bebida fermentada resultante da mistura de um cipó e um arbusto nativos da Amazônia, utilizada por incontáveis etnias indígenas por milênios em rituais de cura, divinação e comunicação com o mundo espiritual.

Para nós, além do uso religioso abordado pela reportagem, a bebida é tomada cerimonialmente para limpar os corpos físico e energético, abrir a cabeça para realidades ocultas e destravar um potencial outrora intangível. Seu potencial meditativo e medicinal é imensurável. Ao contrário da medicina profissional, que se vê como ciência, busca uma solução única e trata os pacientes como corpos, a medicina dos curandeiros é a arte de se tratar a alma, e procura entender a doença dentro de uma perspectiva holística: como resultado do desequilíbrio de um todo indivisível (físico, psicológico e psíquico), que não pode ser explicada ou tratada pelos componentes distintos separadamente. É aí que entra a ayahuasca, um produto complexo, designado para um tratamento complexo.

As campanhas de terror contra as drogas fazem parte de uma guerra que já foi perdida. Após mais de meio século de repressão sem resultados, já devia estar claro na cabeça de todo cidadão que a descriminalização é a única solução para o problema do tráfico e do crime. Mas, aparentemente, nem a adesão do ex-presidente FHC e sua Comissão Latino Americana sobre Drogas e Democracia conseguiu acordar o corpo editorial da revista para o mundo real. A Isto É (que na internet usa o subtítulo  “Independente” mas é apenas um dos braços políticos de uma corporação, diga-se de passagem) parece ter permanecido no século vinte, ou pior, nos tempos de ditadura militar, quando o desconhecido era visto como ameaça (e não como oportunidade) e a censura era adepta da filosofia do “atire antes, pergunte depois”.

Anacrônicos, ou manipuladores (ou ambos), jornalistas desta estirpe cometem um crime ao tratarem uma questão de consciência como questão de polícia. Ao invés de iluminarem uma questão social séria, trabalham para ocultar e banalizar a informação. Em contrapartida, o interesse científico, documental¹ e social pela ayahuasca no mundo desenvolvido não para de crescer.

Meanwhile, back in the jungle…

Vítimas de overdose. De drogas prescritas

No que diz respeito aos casos de morte supostamente provocados pela ingestão de ayahuasca, a própria reportagem admite que não foram comprovados. Um rapaz morreu afogado porque não sabia nadar. O outro sofria de uma doença degenerativa do coração. Casos como estes são comumente usados como bodes expiatórios quando se procura incriminar alguma substância. No entanto, todos os anos mais pessoas morrem da ingestão de drogas prescritas do que de drogas ilegais, numa proporção de 5 pra 1 (só nos EUA  são mais de 100 mil mortes e 1,5 milhão de hospitalizações por ano). E casos recentes como o do ator Heath Ledger, Michael Jackson e a atriz Brittany Murphy não entram em reportagens alarmistas, porque este tipo de notícia não interessa ao onipresente conglomerado farmacêutico. Assim como Marilyn Monroe, Jimi Hendrix, Bruce Lee, Keith Moon e Anna Nicole Smith, entre tantos, estas celebridades não morreram de overdose de drogas (no sentido pejorativo), mas morreram de overdose de remédios, disponíveis no balcão da farmácia mais próxima. Então quem é o vilão? Uma dúzia de substâncias listadas pela FDA, ou o desequilíbrio psíquico-físico-psicológico que leva pessoas a buscarem a solução de seus problemas em dosagens extremas de “pílulas da felicidade” ou qualquer outro produto em excesso (álcool, açúcar, gordura, tabaco, processados… faça a sua escolha)?

O que deve ser considerado em relação à ayahuasca é que de fato a bebida tem efeitos fortes sob o corpo (provoca vômitos e diarréias – como formas de se expelir a doença ou problema tratado), e pode provocar efeitos colaterais ao ser misturada com drogas farmacológicas, principalmente antidepressivos, mas também tranquilizantes, antihistamínicos, anfetaminas etc. Além de não ser exatamente o tipo de droga recreativa para um adolescente. A ayahuasca é uma medicina milenar e só deve ser ingerida sob tutela de um xamã, curandeiro ou guia espiritual.

Mas o governo deu um passo adiante. Então estamos avançando no final das contas. Resta a pergunta: quem lê esta revista afinal? Mais do que isso: quem a leva a sério? Talvez alguns milhares de pessoas. Mas é uma porcentagem ridícula se compararmos com a quantidade de pessoas, não apenas no Brasil, mas no mundo todo, que assistiram ou irão assistir ao filme Avatar.

Musa sagrada

Se você ainda não assistiu Avatar, você deve estar em outro planeta. O longa em 3D que levou 14 anos pra ficar pronto é mais do que “entretenimento de primeira”, ou o novo recorde de bilheteria de todos os tempos. É uma revolução na consciência, um manifesto tão anti-tecnológico e anti-civilizatório quanto os livros do anarquista John Zerzan (entrevistados no filme Surplus, disponível no nosso site), tão psicodélico quanto as dissertações de Terence Mckenna, e, sim, glorificando a visão de mundo indígena e xamânica acima de tudo. O que nos traz de volta à ayahuasca, a grande vilã da revista Isto É.

Fico imaginando o jornalista que assinou a reportagem, que obviamente nunca experimentou a bebida, numa sala de cinema Imax, completamente absorvido pela experiência psicodélica que o filme de Cameron proporciona, sem perceber que a “árvore dos espíritos” que conecta o povo Na’vi com Eywa, a sabedoria dos ancestrais – e representa o núcleo de uma floresta que “tem mais conexões que o cérebro humano” (frase da cientista botânica interpretada por Sigourney Weaver, mas que bem poderia ser atribuída a McKenna) -, trata-se de uma analogia com o “cipó dos espíritos” que ele acaba de condenar em público. Outra personagem do reino vegetal no filme, a gigantesca árvore que serve de lar para o povo de pele azul, tem em seu centro oco uma estrutura de raízes que sobe em espiral, como uma escada, em forma de hélice dupla, o formato do DNA e – pasmem – também o formato do cipó mariri, uma das metades que compõe a temida bebida “alucinógena” (ainda sobre o DNA, Francis Crick, Prêmio Nobel e descobridor do “segredo da vida”, era usuário assumido de LSD para “pensar criativamente”. Kary Mullis, Nobel de Química em 1993 por inventar o PCR, o método mais comum de se detectar e trabalhar o DNA, coroou a questão: “Se eu teria inventado o PCR se não tivesse tomado LSD? Duvido.“).

De qualquer forma, como diz o jornalista israelense Ido Hartogsohn num ótimo artigo sobre o filme (em inglês), “os blockbusters e filmes de ficção científica funcionam como uma sombra jungiana de nossa visão racional e materialista da realidade” (Jung alertava que o mundo moderno conta em demasiado com a ciência natural e o positivismo lógico, e que poderia se beneficiar ao integrar espiritualidade e apreciação de domínios inconscientes). Por esta perspectiva, o texto terrorista, repleto de positivismo lógico simplista e pseudo-ciência cartesiana como “atua nos sistemas cerebrais reguladores da produção e absorção, pelos neurônios, de serotonina, dopamina e noradrenalina” (tentando colocar o mundo numa caixinha, ou reduzir as cores a uma lógica em preto e branco) serve apenas como um retrato de que ainda temos um longo caminho a percorrer para evoluir o nível do debate científico na mídia deste país.

trecho de obra do pintor ayahuasqueiro Pablo Amaringo e o mundo bioluminescente de Avatar

Enquanto isso, Cameron conquista o mundo. O diretor disse em entrevista que queria fazer um novo Guerra nas Estrelas. Mas pouca gente captou a mensagem nas entrelinhas. Ele não queria apenas produzir um clássico universal de ficção científica, ou um blockbuster lendário. Era mais do que isso. Era provocar uma revolução de paradigmas pelo inconsciente. A mística que se forma em torno destes filmes não gira apenas em sua eficiência como entretenimento, mas por serem veículos de expressão dos nossos “sombras jungianas”, abusando de referências culturais e arquétipos do mito primordial (“Os mitos estão perto do inconsciente coletivo e por isso são infinitos na sua revelação” – Joseph Campbell), além de interesses contemporâneos, como o movimento ecológico, a guerra pelo petróleo, o poder das grandes corporações etc.

A “força” dos filmes de George Lucas não é muito diferente de Eywa, que não é muito diferente da visão indígena sobre a natureza. E o fato do mestre jedi se chamar Yoda, que lembra Yoga, também não é coincidência. Assim como o fato de os Na’vi terem uma feição humana-felina (os gatos são considerados animais altamente espirituais) e pele azul (já ouviu falar nas crianças índigo?), também não ser à toa. Apesar de supostamente terem sido inspiradas em montanhas da província de Hunan, na China, para quem já foi à cidade sagrada de Machu Picchu e subiu a montanha de madrugada, antes do sol nascer (prática comum entre mochileiros), sabe que a visão grandiosa que se tem lá de cima, com os picos ao redor emergindo por cima das nuvens e da neblina da manhã, lembra muito as montanhas flutuantes de Avatar. Realidade e ficção se misturam.

o cipó Banisteriopsis Caapi e a casa-árvore dos Na'vi, cujo interior se entrelaça em formato de hélice dupla

O pressuposto básico do filme, o de se poder migrar entre realidades distintas, é lugar comum entre adeptos do uso de enteógenos (o túnel luminoso psicodélico que leva o personagem de Jake Sully ao corpo de seu Avatar ilustra esta passagem). Parafraseando uma entrevistada do filme Vine of the Souls, de Richard Meech (ainda em produção), “Uma coisa é intelectualizar algo. Outra completamente diferente é tocá-lo, e experimentar outras energias maiores que são inteligentes”. O coração espiritual da história de Avatar está na relação dos nativos com uma planta/árvore sagrada, que representa Eywa, a entidade mística inteligente, divina, ou “uma rede de energia que flui por todos os seres vivos”. Eywa. Aya. Gaia.

Ayahuasca.

Documentários de interesse sobre o tema:

DMT – The Spirit Molecule, de Mitch Schultz e Rick Strassman, 2010 (em produção),

A Perfect Pill, de Oliver Hockenhull e Mark Archbar (“A Corporação”), 2010 (em produção),

Vine of the Soul, de Richard Meech, 2010 (em produção),

Manifesting the Mind, de Andrew Rutajit, 2009,

A Inquisição farmacrática, de Jan Irvin e Andrew Rutajit, 2007,

Xamãs da Amazônia, de Dean Jefferys, 2002,

Outros Mundos, de Jan Kounen, 2000.

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7 Comentários »

  1. Brilhante, simplesmente genial. Vale lembrar que a simbologia de corpos azuis também vem da antiguidade da Índia, onde deidades são assim representadas provavelmente como simbolismo referente aos cogumelos psilocibe que tem coloração azulada em seu caule (ver a inquisição farmacratica, em nosso site).

  2. Fabrício Pamplona said

    Isso.Isso. Isso! Exatamente isso.
    Foi a ssensação que eu tive quando o filme terminou. Fiquei pensando comigo mesmo: “caralho, o James Cameron é muito ousado, botou uma experiência de ayhuasca na tela pra zilhões de pessoas no mundo todo assistirem”. Minha segunda inquietação foi: “será que eles entenderam?”

  3. ana anã said

    alguém que leva a istoé a sério não merece seriedade
    tchay

  4. Gôra said

    Massa!!!

  5. interessante palestra de james cameron (diretor de avatar, exterminador do futuro, aliens) no ted.com: http://www.ted.com/talks/lang/eng/james_cameron_before_avatar_a_curious_boy.html
    em ingles, e por enquanto com legendas apenas em ingles

  6. […] do Oscar que premiou como melhor filme Guerra ao Terror, ao invés do transcedental e visionário Avatar, a inviabilidade da sustentabilidade, devido a ganância incessante de nossa cultura ocidental […]

  7. […] com os quais parece não se importar, como discutido recentemente no filme Avatar. Seria até legal se as máquinas destruidoras mostradas no Avatar ficassem parte somente da mente […]

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