Archive for maio, 2010

Drogas e Darma no século XXI


Duas grandes direções do pensamento e ação estão tomando foco mais preciso. O interesse no Budismo não foi tão grande desde que foi introduzido na China, de onde seguiu crescendo firme por 500 anos; e o uso sério e profundo dos psicodélicos está ressurgindo, talvez mais profundamente que nos anos 60.

O budismo e os psicodélicos compartilham o interesse no mesmo problema: atingir a libertação da mente. A palavra psicodélico foi usada pela primeira vez pelo psiquiatra britânico Humprey Osmond, em carta ao filósofo Aldous Huxley em 1957. Pegando a raiz grega psykhe, ou “mente” e adicionando delos, “tornar visível ou clarear”, psicodélico se tornou “que manifesta a mente”. O processo é completo pela purificação da mente – a essência do caminho do Buda.

Recentemente, Ram Dass e Ralph Metzner lançaram um livro sobre o nascimento da cultura psicodélica. Não há dúvidas que o Budismo, e a visão de mundo que faz a compreensão deste caminho possível, contribuiu de maneira fundamental para as condições de tal nascimento. A maioria dos professores e pesquisadores que se tornou bem conhecida no movimento psicodélico também têm experiência nas práticas e filosofias budistas. Enquanto isso, os psicodélicos se misturam com a história pessoal de quase todos os professores de Budismo na primeira geração da América e Europa, apesar de hoje encontrarmos muitos advertendo contra o caminho que eles mesmos trilharam. Poucos budistas admitem que o uso de psicodélicos é um caminho por si só – alguns argumentam que é uma porta legítima enquanto outros sentem que budismo e psicodélicos não se misturam de maneira alguma.
Assim como o Budismo tem de ser testado com experiência pessoal, assim também é a questão de como, ou se, os psicodélicos podem ser parte da prática do Darma. Os psicodélicos podem ser usados em uma grande variedade de maneiras e para uma quantidade enorme de finalidades. Os resultados dependem enormemente da experiência, intenções, conhecimento, habilidade e maturidade espiritual do praticante. A avaliação crítica e análise, e a liberdade de fazer estas descobertas por si mesmo são parte essencial da fundação do Budismo e é encontrado já no Kalama Sutra, onde o Buda avisava as pessoas para praticarem por si mesmas e não a aceitarem suas palavras sobre os benefícios como verdadeiras. O historiador da religião Huston Smith também avisou: o uso de psicodélicos é sobre estados alterados, Budismo é sobre comportamento alterado, e um não necessariamente leva ao outro.

Alan Watts, um dos primeiros ocidentais a seguirem o caminho budista, considerou o Budismo e os psicodélicos como parte da mesma jornada filosófica individual. Ele não estava interessado no budismo ser estudado e definido de maneira que devesse se evitar misturar o budismo com outros interesses, como a teoria quântica, psicologia Gestalt ou psicodélicos. Qualquer investigação sobre o potencial humano irá explorar as diferentes visões da intersecção do budismo com os psicodélicos.

A realização de que há relações entre objetos separados e opostos é um dos ensinamentos chave que os insights dos psicodélicos trazem com frequência. Talvez a popularização do Zen e dos psicodélicos tenha mudado o inconsciente coletivo de uma visão de mundo dominantemente conceitual e linear para um modo de percepção mais ecológico e holístico. Mesmo que nós continuemos a pensar de maneira linear, a percepção de que este é um modo de consciência relativo está crescendo, de que é uma criação humana, e não um reflexo da “realidade objetiva”. Este jeito de ver o mundo não requer, necessariamente, a experiência com psicodélicos. É, na verdade, uma das premissas centrais do Zen e nos trás próximos de uma perspectiva que pode igualmente ser chamada “dármica” ou “psicodélica”.

Deixando de lado os bem fundados argumentos pró e contra o uso de psicodélicos, há uma resposta budista à longa, entrincheirada, contínua e devastante guerra as drogas: mais compaixão. Leis draconianas encarceram milhões de pessoas que se não fosse por isso seriam perfeitamente não-criminosas em uma espiral sempre descendente de  estratégias contraproducentes cuja fundação é a punição. O resultado é a prisão de uma parcela tão grande da população que praticamente uma em cada quatro pessoas atrás das grades no mundo vive nos EUA. Neste exato momento, as prisões norte-americanas encarceram dezenas de milhares de pessoas – sendo a grande maioria negros – cujo único crime é a posse da planta maconha. Prisões se tornaram escolas de crime avançado, drogas estão a disposição de qualquer um, desde crianças em idade escolar, o crime organizado tem mais verbas e é mais esperto que a polícia e ninguém se sente mais seguro.

A guerra as drogas leva ao cinismo, apatia e, claro, danifica milhares de vidas. Os lucros do comércio ilegal abastecem os cartéis do crime organizado e os fortalecem para corromper policiais, juízes e oficiais de governo. As novas casualidades na fracassada guerra as drogas são nossas liberdades individuais. Uma sociedade que ativamente bane a exploração pessoal com todas as plantas psicodélicas necessitará monitorar seus cidadãos bem de perto. Todas as nossas comunicações, transações e expressões estão sob vigilância cada vez maior, com aumento da burocracia de controle e repressão. Nada disso é conducivo à livre contemplação pacífica de nossas liberdades individuais e de nossas realizações pessoais. Na verdade, esta deixa de ser uma guerra as drogas e se torna uma guerra contra a consciência, guerra contra o livre exercício daquele que é o maior bem dado a um ser humano.

A história da humanidade pode ser vista como uma série de relações com plantas, relações estabelecidas e rompidas. Plantas, drogas, política e religiões se entrelaçaram – desde a influência do açúcar no mercantilismo até a influência do café no moderno escritório, dos britânicos forçando o ópio nos chineses taoístas aos críveis relatórios de que a CIA usou heroína nos guetos para sufocar e calar dissidências e insatisfação. As lições a serem aprendidas podem ser trazidas a consciência, integradas na política social e usadas para criar um mundo mais compassivo, ou podem ser negadas com os resultados já em plena vista.

A capacidade aumentada para extraordinários experimentos cognitivos possibilitada pelos psicodélicos pode ser parte tão importante de ser humano como é nossa espiritualidade ou sexualidade. A questão é quão rápido podemos evoluir para uma cultura madura que seja capaz de lidar com estas questões abertamente. No passado, conhecimento sobre a parte profunda, “oculta” de nossos seres espirituais era considerado questão privada de xamãs, padres ou líderes espirituais que haviam recebido esta incumbência. A experiência religiosa era mediada pela minoria autorizada, e esta é uma tradição que ainda nos acompanha na forma, senão na atitude, de muitas religiões. Entretanto, a democratização dos psicodélicos e do budismo de maneira similar, tem muito a ver com a quebra deste acesso restrito ao divino. No budismo, assim como na psicodelia, o indivíduo toma responsabilidade por suas relações com o a fonte de seu ser e pelo acesso a estados sublimes de mente e espírito.

Publicado originalmente em inglês no blog de Allan Badiner. Traduzido por PC.

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A experiência cósmica de Stanislav Grof

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

Preciosidade bem legendada que encontramos no enteogenos.org

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Pra tirar o pé do lodo

Na costa americana do Golfo do México, o choque causado pelo vazamento de petróleo um mês atrás é agora realidade para milhões de cidadãos, ao passo que se percebe o tamanho do estrago. Estrago causado pela ambição por perigosos combustíveis fósseis e pela perpetuação de uma sociedade monetária que está se tornando datada com sua máxima de “lucros a qualquer custo” (seja o custo humano ou ambiental). Este desastre clama por atenção. É tempo para uma solução viável que lide com este sistema engajado na sua própria destruição.

É com esta introdução infortúnia que devemos acordar do nosso torpor cotidiano e adentrar a conversação internacional para expressarmos a necessidade de mudanças verdadeiras. Este clamor não é fruto de algum tipo de slogan professado por um grupo de interesse, mas o desejo evidente das pessoas por uma transição significativa pra fora deste legado destrutivo, do fardo dos erros passados para uma civilização em amadurecimento. Nós só temos uma Terra, não há botão de reset aqui.

Nós precisamos largar de vez as ideologias estabelecidas que têm impedido o progresso. Acabar com a dualidade política, a estratificação econômica e as falsas divisões é a chave para superar nosso aparente apego histórico à idéia de que o futuro prometido tem que permanecer como um sonho evasivo. Nós precisamos repensar a nossa sociedade e superar estas partes dela que só servem para nos paralisar.

área de expansão do vazamento em 24 de Maio (fonte: NYTimes)

O vazamento de petróleo no Golfo do México tem sido noticiado com pouco destaque pela mídia brasileira – demasiada preocupada em reverter as significativas perdas de vendas e credibilidade nestes tempos de internet –, e é ofuscado por pautas sensacionalistas como “a confissão da bruxa” e outras baboseiras que mantém a mente fora de foco e presa a cabrestos psicológicos.

Este vazamento não precisava ter acontecido. Ele aconteceu porque nós continuamos a usar uma tecnologia obsoleta pelo propósito único e exclusivo de se manter um sistema lucrativo. Um sistema que perpetua vasta desigualdade, destrói frágeis ecossistemas e polui o nosso ar.

Até agora, passado um mês de seu início, não houve muito progresso nas tentativas de estancar o vazamento de mais de 5 mil barris de petróleo por dia (talvez até 10 vezes mais que isso). Enquanto isso a fugacidade dos encantos vendidos pela TV e indústria da moda e entretenimento (“consuma, consuma, consuma!”), o estímulo à posse e ao apego material como forma de “amor” (às vezes “injustiçado”, como na história dos avós do menino Sean), a cultura de medo dos noticiários policiais e transformação de pessoas em vigilantes, desconfiadas umas das outras, através de terrorismo psicológico de cima pra baixo (“o assassino do daime”, “a bruxa da tortura infantil” etc) mantém a todos nós alienados dos problemas realmente significativos que o planeta enfrenta agora, neste instante, enquanto você lê estas palavras.

Antes de soltarmos mais rojões pela descoberta do Pré-Sal e de comemorarmos o futuro glorioso que este poço de ouro negro nos promete, precisamos entender que é tempo para mudanças estruturais, e não promessas vazias. Nenhuma porção de socialismo ou da ideologia do livre-mercado irá nos salvar de nós mesmos. É preciso haver uma revisão fundamental de tudo o que pensamos que sabemos, para que possamos almejar um empreendimento humano verdadeiramente sustentável.

Nossa geração ficou parada assistindo o nosso planeta ser pilhado e destruído, e ainda assim não fizemos nada a respeito. Nossa geração ficou parada assistindo enquanto governos inocentaram os próprios criadores da crise econômica que atravessamos hoje, e ainda assim não fizemos nada a respeito. Nossa geração ficou parada assistindo enquanto vamos sendo despidos de nossos direitos como cidadãos globais, e ainda assim não fizemos nada a respeito. Nossa geração ficou parada assistindo enquanto nos foram passados adiante os problemas criados por incontáveis gerações anteriores, e enquanto nos preparamos para repetir o mesmo com a próxima geração, não fazemos nada a respeito.

Sejamos a primeira geração a lidar com os problemas e a procurar por soluções para os nossos filhos e para os filhos de nossos filhos. Mas não podemos fazer isto sozinhos. Vamos quebrar as barreiras que criamos entre nós. Nós precisamos de todos vocês, até o último fio de cabelo, para dizer basta em uma grande voz. Não como brasileiros ou americanos, cristãos ou muçulmanos, mas como pais, mães, irmãos e irmãs. Vamos destruir as divisórias entre nós e trabalhar para criar um mundo onde possamos contar para as nossas crianças que eles podem fazer o que quer que seus corações desejarem, e sabermos lá no fundo que estamos falando a verdade. Façamos com que nossa geração seja esta geração.

Nós temos as ferramentas, nós temos o conhecimento, nós temos a tecnologia. É tempo de se fazer a transição para um mundo, uma economia e um futuro que nós merecemos, indiferente da localização geográfica ou disposição econômica. Enquanto ficarmos contando com o legado de sistemas definidos numa mentalidade do século 19, tudo o que faremos será andar em círculos, enquanto uma parada de desastres econômicos e ecológicos irá continuar a nos visitar a todo momento. É hora de puxar o plug desta charada porque, como você vai descobrir, existe um caminho melhor.

Nós do Plantando Consciência, alinhados com movimentos de idéias como o ZeitgeistEvolver, associações de pesquisa como a MAPS, o movimento pela descriminalização das drogas e o trabalho em prol do uso controlado e regulmentado de medicina ancestral e do uso de enteógenos como substitutos para os sedutores mas ineficazes remédios caça-níqueis da indústria farmacêutica (porque estes só atacam os sintomas, e não as causas dos problemas), olhamos atentamente para o futuro, para a derrocada pacífica e consciente do capitalismo canibal e cancerígeno que criamos com afinco mas sem consideração, e em prol de uma sociedade mais humana. E buscamos você para que possamos trabalhar juntos naquilo que deve ser feito. Cada homem, cada mulher e criança tem uma voz, mas juntos podemos criar uma voz tão ensurdecedora que ninguém terá escolha senão escutá-la. Mas isso demanda a sua participação. Demanda que você deixe de lado preconceitos e idéias como “é a vida”, “tá todo mundo na merda mesmo” ou “Deus quis assim”, como se esse fosse o único caminho possível. Porque não o é!

Nossa forma de pensar não irá mais nos sustentar aqui. Nós podemos permanecer neste castelo de cartas que construímos e assisti-lo implodir ao nosso redor, ou podemos, através do melhor que a nossa sociedade pode oferecer, começar a construir uma nova e florescente sociedade, mais estável e madura, para que o vazamento no Golfo do México e as companhias petrolíferas não sejam nada mais do que uma vergonhosa nota de rodapé na nossa história.

baseado em um texto do Zeitgeist Movement, remix por Plantando Consciência

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Uma imagem vale por mil palavras

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Maio da Maconha

A maconha está em alta. Segundo notícia do jornal Destak, apreensões recordes da planta levaram o preço do quilograma em São Paulo dos usuais R$200 para R$2000. O jornal afirma ainda que a dificuldade de se encontrar a planta no mercado ilícito está relacionada a uma preferência dos traficantes pelo mais rentável negócio da cocaína e do crack. O que esta notícia não conta (assim como outras usuais sobre o assunto), é quanto custa aos cofres públicos as tais apreensões e pra onde vai a droga “apreendida”. Mistério…

Outra notícia, do portal G1, afirma que Lula e o presidente paraguaio Lugo declararam que devem trabalhar juntos para conter a criminalidade na região, principal rota da maconha entre os dois países. Novamente não dizem quanto dinheiro será gasto em tais medidas, mas podemos imaginar que é bastante. A Califórnia já reconheceu o fato e irá votar em novembro a legalização da planta que já está sendo legalmente vendida em farmácias especializadas. O principal argumento para a liberação é, pasmem, econômico. Os cálculos indicam que o comércio ilegal de drogas no mundo gira bilhões de dólares (não é exagero não, veja aqui e aqui), tendo sido um dos pontos que evitou maiores consequências na crise financeira 08-09. A califórnia pretende portanto economizar sua parcela em forças repressivas e gerar alguns milhões em impostos, tornando um ralo de dinheiro em fonte de renda para a sociedade. Outra idéia que por aqui também se evita debater.

Na contramão das forças repressivas e disputas de mercado à ferro e fogo está a Holanda, como todo mundo sabe, mas também Portugal, o que quase ninguém sabe. Tendo legalizado geral há uma década, o país europeu viu o consumo diminuir, o comércio se regularizar e os problemas por abuso caírem, pois com o fim da proibição abrem-se avenidas educativas sobre o assunto.

A situação em Portugal

Este ano completa 10 anos uma experiência tida como ousada e inconseqüente, mas que resultou na mais eficiente política de drogas que se tem notícias no mundo atual. Ao contrário do que se imagina, no papel, não é a Holanda que possui a política de drogas mais liberal da Europa…

Era 2000 e Portugal estava sofrendo o amargor de ter uma parcela significativa de cidadãos viciados em drogas. Cerca de 150 mil portugueses, praticamente 1,5% da população, estavam com problemas relacionados ao abuso e vício em opiáceos (heroína, morfina), segundo um levantamento de 1990. No início deste milênio o governo português teve uma medida ousada e descriminalizou as drogas  em todo o país. Sim, todas as drogas, não somente as consideradas leves, como a maconha. Portugal descriminalizou geral.

Hoje, 10 anos após esta medida, que fez com que usuários de drogas deixassem de ser criminosos, e a punição deu lugar à informação e oportunidade de tratamento, o resultado global foi a redução do consumo de drogas em todas as faixas etárias.

Alguns números marcantes:

– As mortes anuais por overdose caíram de 400 para 290.

– As infecções por HIV via seringas compartilhadas caíram de 2.000 para 1.400 casos

– Portugal não se tornou um destino turístico de jovens europeus ávidos por se drogarem.

– O consumo de maconha passou de 10 para 1% da população acima dos 15 anos.

Estes são números de um relatório independente publicado pelo Cato Institute (Washington), apresentado em Washington por Gleen Greenwald “Descriminalização da Droga em Portugal: lições para criar políticas justas e bem sucedidas com as drogas” e noticiado na revista TIME.

Portanto, a descriminalização contribuiu para a redução do consumo e para a prevenção dos possíveis problemas de saúde nos indivíduos que perderam o controle sobre o uso das drogas. Como conseqüência, o usuário, que antes se via no submundo, tratado como criminoso, passou a ser um cidadão comum, inclusive com oportunidade de buscar tratamento, se e quando for necessário.

A Situação no Brasil

Falar sobre o assunto, aliás, é questão tão polêmica aqui em terras tupiniquins que até o ano passado não conseguiram realizar a Marcha da Maconha, movimento internacional de manisfestações públicas a favor da legalização, ou ao menos da descriminalização da planta. Eis que neste mês está agendada a Marcha para o próximo dia 23 de maio e os organizadores tomaram a dianteira realizando abaixo assinado a favor do movimento, garantido pela constituição brasileira como direito à liberdade de expressão, solicitando que o mesmo não possa ser impedido de última hora com recursos jurídicos como as liminares utilizadas nos anos anteriores.

Enquanto a polêmica nas ruas segue seu caminho, a maconha vai abrindo avenidas na área da ciência biomédica. E o elo é direto, porque a proibição da planta no mundo é obviamente liderada pelos EUA, país que se diz terra da liberdade, mas que não o é. Os EUA são bem claros quanto aos critérios para uma substância qualquer ser classificada como “Schedule 1”: vicía e não tem potenciais terapêuticos. Eles só não são e nunca foram claros com base em quais pesquisas classificaram a maconha (e muitas outras substâncias) como sendo viciantes e sem potencial médico. A maconha, no caso, tem inúmeros. São tantos que elaborar uma lista é tarefa hercúlea, mas só pra dar uma idéia: enxaquecas, anemia, bulimia, dores crônicas, bronquite, asma, vômitos e até câncer. A Califórnia já reconheceu o fato e vem fazendo bons negócios (sem tiroteios) com seus depósitos legalizados de maconha medicinal. E olha que a planta verde claro e cheirosa que andam fumando por lá quase nada tem a ver com esses tijolos marrom escuro e fedidos que circulam entre o Brasil e o Paraguai. Essa talvez não tenha potenciais terapêuticos mesmo, devido à grande quantidade de toxinas e conservantes que se aplica para poder transportá-la em condições e locais indevidos.

Os movimentos populares parecem estar sintonizados com o avanço da abordagem médico-científica da planta mais famosa do mundo em nosso país. Poucos dias antes da data planejada para o movimento pacífico e constitucional da marcha da maconha (23/05) ocorrerá em São Paulo o simpósio “Por uma agência Brasileira da cannabis medicinal?”, dias 17 e 18/05 na UNIFESP. Organizado pelo Dr. Elisaldo Carlini, Professor de Psicofarmacologia, membro do Painel de especialistas em dependência de drogas e álcool da OMS, ex-membro da Comissão Internacional de Narcóticos e coordenador da Câmara de Assessoramento Técnico Científico da Secretaria Nacional Antidrogas, o simpósio deixa claro que não tratará das questões legais do uso, comércio, distribuição etc; mas sim dos potenciais terapêuticos da planta:

Hoje, a maconha e seus derivados são reconhecidos como medicamentos em pelo menos quatro países. Para lidar com a maconha como medicamento, a ONU recomenda a criação de uma Agência Nacional da Cannabis Medicinal para aprovar e controlar adequadamente seu uso médico.
O Simpósio 
reunirá cientistas do Brasil e do exterior, sociedades científicas e Agências Governamentais para discutir a oportunidade de ser criada a Agência Brasileira da Cannabis Medicinal, que permitiria e controlaria o uso médico da maconha e seus derivados.

Lembrando que a proibição da planta teve em sua origem o argumento de que além de perigosa e viciante não possúi potenciais terapêuticos, o elo entre o simpósio medicinal e as manifestações públicas fica evidente, pois o negócio que de fato reduz com a proibição é a pesquisa médico-científica, e não o consumo. Hoje são 4 décadas de proibição no mundo e se tudo isso não resolveu a questão, jogar mais lenha não vai apagar a fogueira.

A pergunta que fica é: Como seria a fronteira Brasil-Paraguai, onde hoje há mais homicídios do que no Rio e em São Paulo juntos, se a maconha fosse comercializada legalmente e os produtores disputassem o mercado com propaganda, como fazem os produtores de cerveja?

Para saber mais:

Maconha, Cérebro e saúde

Proibições, Riscos, Danos e Enganos – As drogas tornadas ilícitas

Cannabis Policy: Moving Beyond Stalemate

cannabis-med.org

Colaborou: Fabrício Pamplona, Doutor em Psicofarmacologia pela UFSC, Florianópolis

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Natureza em números

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