Retorno aos tempos dourados

Como aceitamos o fato de não consagrar nem mesmo alguns breves momentos por dia à introspecção? Estamos endurecidos, insensíveis, blasés a esse ponto? Ficamos realmente satisfeitos com uma conversinha espirituosa e um pouco de entretenimento banal? Vamos olhar para dentro. Há muito a fazer.

Vale a pena dedicar um momento de cada dia para cultivar o pensamento altruísta e observar o funcionamento da mente. Que não haja dúvida: Essa investigação nos ensinará mil vezes mais, e de maneira muito mais duradoura, do que uma hora dedicada a ler as notícias locais ou os resultados esportivos! Não se trata de ignorar o mundo, mas de fazer bom uso de nosso tempo. De qualquer maneira, não precisamos ter medo de cair no extremo, vivendo como vivemos, nesta era de distrações onipresentes, em que o acesso à informação geral nos leva bem perto do ponto de saturação. Trata-se, sim, de que estamos estagnados no extremo oposto: grau zero de contemplação. Podemos dedicar a ela alguns segundos, quando algum revés emocional ou profissional nos força a “pôr as coisas em perspectiva”. Mas como e por quanto tempo? Com muita frequência, só ficamos esperando que “passe o mau momento”, buscando ansiosamente alguma distração para “mudar as idéias” ou “refrescar a mente”. Mudam os atores e o cenário, mas a peça continua a mesma.

Por que não sentar-se à margem de um lago, no topo de uma montanha, ou em uma sala tranquila, para examinar de quê somos feitos, no mais profundo de nós mesmos? Primeiro, examinar o que mais nos importa na vida, e depois, estabelecer prioridades entre as coisas essenciais e as outras atividades a que forçosamente impomos ao nosso tempo. Podemos também nos beneficiar de certas fases da vida ativa para nos reencontrarmos e voltar o olhar para dentro. Tenzin Palmo, uma monja inglesa que passou muitos anos em retiro, escreveu: “As pessoas dizem que não têm tempo para a meditação. Não é verdade! Você pode meditar quando anda pelo corredor, quando espera que o sinal abra para você no trânsito, trabalhando no computador, quando está em uma fila, no banheiro, penteando o cabelo. É preciso criar o hábito de estar no presente, sem os comentários mentais”

O nosso tempo é contado desde o dia que nascemos, cada segundo, cada passo nos traz mais próximos da morte. O eremita tibetano Patrul Rimpoche lembra-nos poeticamente que:

A medida que sua vida passa como o mergulho do sol poente,

A morte se aproxima, como as sombras da noite se alongam.

Longe de fazer com que fiquemos desesperados, uma percepção lúcida da natureza das coisas, ao contrário, nos inspira a viver plenamente cada dia que passa. A não ser que examinemos a nossa vida, daremos por certo que não temos escolha e que é mais fácil fazer uma coisa depois da outra. Como sempre fizemos e sempre faremos. Mas se não abandonarmos os entretenimentos fúteis e as atividades estéreis do mundo, certamente elas não nos abandonarão, vindo a tomar cada vez mais espaço em nossa vida. Se adiarmos a nossa vida espiritual para amanhã, a nossa negligência se repetirá dia após dia. O tempo voa! A morte se aproxima a cada passo que dou, a cada olhar que tenho para o mundo, a cada tique-taque do relógio. Ela pode nos alcançar a cada instante, e não há nada que possamos fazer a respeito. Se a morte é certa, o momento de sua chegada é imprevisível. Como disse Nagarjuna, dezessete séculos atrás:

Se a vida é assolada por muitos males

E é ainda mais frágil do que uma bolha na água

É um milagre, depois de ter dormido

Inspirar, expirar, e acordar disposto!

No nível prático, se quisermos vivenciar nossa relação com o tempo de maneira harmoniosa, devemos cultivar certo número de qualidades. A atenção plena nos permite que permaneçamos alerta à passagem do tempo, e evita que ele se vá sem que percebamos. A motivação adequada é que dá ao tempo suas cores e o seu valor. A diligência nos permite fazer bom uso dele. A liberdade interior evita que ele seja monopolizado pelas emoções perturbadoras. Cada dia, cada hora, cada segundo é como uma flecha que voa para seu alvo. O tempo certo para começar é agora.

Trecho do livro “Felicidade”, de Matthieu Ricard (Palas Athena), monje budista que teve uma promissora carreira na área da genética celular antes de deixar a França para estudar o Budismo, no Himalaia, há trinta e cinco anos. É autor de vários bestsellers, fotógrafo e participante ativo das atuais pesquisas científicas  sobre os efeitos da meditação no cérebro. Vive e trabalha em projetos humanitários no Tibete e no Nepal.

2 Comentários »

  1. Enteo said

    salve Eduardo. Legal o post. O Mathieu é demais! a propósito, faço tb um blog sobre budismo: http://samsara.blog.br abs!

  2. Fabrício Pamplona said

    Achei uma imagem fantástica, que reflete o qto as pessoas buscam uma vida artificial e mesmo se forçando a buscar experiências maisprofundas e intensas (já viu o modismo súbito de que todo mundo diz que adora “esportes radicais”?), elas evitam entrar em contato real com o mundo que os cerca.
    Tem gente que adora assistir a vida passar na TV…

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