Archive for outubro, 2010

Responsabilidade é sustentabilidade

mensagem subliminar

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Mineralorgia

Por Fabrício Pamplona

Não é de se espantar que o mundo inteiro esteja comovido com o resgate dos 33 mineiros em uma mina de cobre no Chile. Em tempos como este, em que tudo vira “reality show” e que as agências de notícia estão ávidas por acontecimentos raros ou estranhos que possam gerar notícias de grande repercussão, a privação extrema a que foram submetidos estes seres humanos foi um prato cheio para literalmente dias de transmissão ininterrupta. Não é exagero afirmar que a mídia realiza uma busca ativa e intensa por catástrofes pelo mundo, sejam naturais ou produzidas pelo homem… vale inclusive pensar até que ponto nossa curiosidade por este tipo de fato acabe por salientar sua importância e, quem sabe, até influenciar a probabilidade de sua ocorrência.

Um exemplo comum do impacto que a curiosidade humana por eventos escatológicos tem em nossas vidas é o do acidente de trânsito, em especial os trágicos, muitas vezes com vítimas, que acaba gerando imensos engarrafamentos, não só pela obstrução da pista onde o acidente ocorreu, mas também na pista ao lado, por conta da fila de curiosos…. Quantos destes curiosos ajudam socorrer as vítimas ou fornecem alguma ajuda de qualquer tipo? Pouquíssimos. A reação destas pessoas é como a de alguém que assiste ao evento distante, como se estivesse passando na televisão. Pois bem, esta é uma via de mão dupla, se podemos assistir impassíveis à “tragédia da vida real” protegidos no interior dos nossos carros, assistindo atentos e comentando o que acontece através de uma lâmina de vidro; na televisão, os eventos vêm até nós, e podemos ficar ainda mais passivos e indiferentes ao sofrimento humano, “fazendo de conta” que aquele sofrimento se transforma em entretenimento. É a pura banalização da violência.

A audiência massiva e a popularidade de programas de TV com relatos cruéis e muitas vezes ao vivo de ações criminosas, de verdadeiras guerras civis entre policiais e bandidos parecem ser a revitalização dos filmes de Western. O problema é que os mocinhos e bandidos são de carne e osso. Entreter-se, obter prazer com o sofrimento alheio tem um nome: sadismo. E este valor, infelizmente, está sendo bombardeado televisivamente ao espectador que chega às 18-19h em casa depois de um dia inteiro de trabalho e liga a TV para “descansar” enquanto janta. Estamos cada vez mais expostos à violência em nosso dia a dia, e curiosamente, a sensação individual, quase consensual de que “o mundo é violento” é alimentada com muito mais freqüência pelos fatos noticiados do que pelos vividos em primeira pessoa. E é curioso como as pessoas não se contentam em assistir aos programas, mas multiplicam esta informação, repassando aos outros, acompanhando os desdobramentos e se engajando em longas discussões…  Ousaria dizer que esta ânsia por acompanhar as tragédias faz com que a pessoa confirme a sua expectativa sobre a desgraça “mundo afora”, mas por outro lado, traz um certo alívio por saber que não foi atingida. Entreter-se com o sofrimento alheio não é exclusividade dos dias atuais, pode-se facilmente relembrar os espetáculos “circenses” das batalhas de gladiadores ou da exposição de aberrações e deformidades humanas, como retratado no clássico “O Homem Elefante”, de David Lynch.

Sinto um triste pesar em perceber que o isolamento dos mineiros chilenos seja mais um episódio desta novela da vida real, que acompanhamos ao vivo de nossas casas, angustiados, mas com um pingo de alívio pela sensação de que a tragédia foi alheia. “Quanto mais longe de mim, melhor”. Este longo episódio de 69 dias e 33 protagonistas, como toda boa narrativa, teve a capacidade de entreter verdadeiras multidões ao longo do globo, foi traduzido para diversas línguas, envolveu e agitou o mundo das celebridades e felizmente teve um final feliz no último dia 13 de outubro, com o resgate indefectível de todos os participantes. Até parece mentira, todos foram resgatados com vida, o governo local realmente se envolveu, recebendo ajuda e tecnologia de diversos cantos do planeta,e o processo todo foi realizado praticamente 2 meses antes do previsto. Em tempos de reality show, aposto que houve até quem suspeitasse que tudo não passava de uma grande armação…

O “elenco” do espetáculo até recebeu certas regalias, como que em compensação pelo sofrimento que passaram: viagem com acompanhante para a Grécia, 10 mil dólares em dinheiro, festas, ingresso para duas partidas de futebol na Europa e até iPods do próprio Steve Jobs. Claro que tudo isso custa muito mais barato para a companhia mineradora do que pagar uma indenização milionária se os 33 mineiros resolvessem processá-la. Acredito que a maior compensação seja mesmo ter saído vivo desta experiência escatológica de ter sido “enterrado vivo”, como num roteiro de filme de terror. Já que o assunto veio à tona, vale a discussão. A platéia bateu palmas e se comoveu com toda a história dos mineiros, que foram salvos no final do filme, com direito ao “beijo da mocinha” e tudo mais.

Mas o que pensa esta mesma platéia sobre os milhares de mineiros que estão NESTE MOMENTO trabalhando em situações degradantes em minas de cobre, chumbo, estanho, ouro, níquel ou qualquer outro metal precioso pelo mundo? Que ânsia é esta por esburacar os morros e subsolos de nosso planeta à procura de materiais que brilham com o reflexo da luz do astro-rei? O que motivou verdadeiras corridas migratórias do ouro? (A nossa Serra Pelada é um excelente exemplo disso). Um indício da importância desta atividade pode ser vislumbrado na recente notícia de que os milionários se refugiaram na aquisição de minérios (neste caso o ouro) para evitar que suas fortunas fossem drenadas pelo fantasma de uma possível crise econômica global. Recentemente esta se tornou uma alternativa acessível mesmo a quem não se deu ao luxo de acumular tanto dinheiro assim no seu cofrinho, ou embaixo do colchão.

Os minérios transmitem a idéia de segurança, por serem considerados historicamente como lastros econômicos, apesar deste conceito ter caído por terra na sociedade atual, em que a quantidade de dinheiro (real ou virtual) é insustentavelmente balizada por índices econômicos flutuantes ao invés de bens físicos. Curioso não é? Os mineiros arriscam a própria segurança biológica, física, real, enfurnados em túneis de centenas de metros abaixo da superfície, para que a segurança monetária, intangível, virtual, dos magnatas esteja garantida. Mais um triste exemplo da inversão de valores da sociedade do capitalismo desenfreado.

A dedicação humana ao extrativismo mineral, a quantidade de recursos e energia envolvidos é descomunal, e freqüentemente se depara com “obstáculos” com os quais parece não se importar, como discutido recentemente no filme Avatar. Seria até legal se as máquinas destruidoras mostradas no Avatar ficassem parte somente da mente criativa de James Cameron, mas os aparelhos usados para perfurar a terra são realmente medonhos. Um exemplo pode ser visto abaixo, mas para quem se interessar, o site de tecnologia Gizmodo traz uma compilação de diversas máquinas mineradoras que parecem verdadeiras armas de destruição retiradas dos filmes futuristas de ficção científica.

A vida imita a ficção na mineralorgia. Acima, foto do filme Avatar, abaixo, a máquina de mineração russa considerada a maior do mundo.

As escavações de uma galeria de minas subterrâneas podem facilmente ocupar o espaço de uma cidade, onde pessoas passam diversos dias de suas vidas atrás dos grandes depósitos minerais. E não há dúvida de que a escassez destes recursos não renováveis fará a humanidade cavar a sua cova cada vez mais funda. É triste pensar que o delicado equilíbrio da mãe-natureza seja perturbado de maneira tão drástica e grosseira, por motivos espúrios e com tanto desperdício de recursos e energia humana. E, como bem exemplificado pelos 69 dias de escuridão dos mineiros chilenos, a custa de tanto sofrimento para o deleite de tão poucos.

“Tenho certeza de que muito do feio, do desarmônico e do deselegante de nossa cultura de consumo, de nosso urbanismo, de nosso estilo de vida é resultado da ignorância, de pouca ciência e de muito desejo de ter e pouca coragem de ser. Os incompetentes que me desculpem, mas beleza é um excelente indicador da eficiência e da inteligência dos processos que vivemos. É por isso que nos fins de semana corremos desesperados atrás da beleza da natureza. Porque lá resgatamos o fluxo harmônico, inteligente e preciso de nossas energias físicas, emocionais e mentais. Esse resgate explica o encantamento e a gratidão do humano com a beleza do mar, do pôr do sol, da flor, do rio, das pedras, dos peixes, da montanha, da neve, do luar. Está tudo aí, generosamente à nossa disposição” (Ricardo Guimarães).

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Você está pronto para a permacultura?

Paul Cezanne - Pyramide de crânes

Em 1906, Paul Cézanne, aos 67 anos de uma vida pontuada por fracassos pessoais e profissionais, morreu de pneumonia, sem saber que se tornaria um dos mais influentes artistas do século XIX , ou o “pai da Arte Moderna”. Ao longo de sua vida, suas pinturas pós-impressionistas eram ignoradas pelo público e ridicularizadas pela burguesia francesa. Apenas 3 anos antes de sua morte, o pintor teve que lidar com um artigo desmoralizante sobre seu trabalho, intitulado “O Amor pela Feiúra”, publicado num jornal de grande circulação.

Cézanne pintou a montanha de Sainte-Victoire, no sul da França e visível de sua casa, cerca de sessenta vezes, e dizia que a montanha é que mandava mensagens o chamando para ser pintada. O pintor mergulhou na Sainte-Victoire com tanta voracidade pois notava que o resultado de seu trabalho nunca era uma representação da montanha que ele observava, já que uma ligeira mudança de ângulo, luz, tempo, da vegetação e do próprio olhar do observador sempre a transformavam em outra montanha, diferente daquele que ele havia apreendido.

O artista percebia de maneira intuitiva que aquilo que tomamos como realidade é uma projeção da nossa consciência, ao invés de uma existência fixa em si, e que portanto pode se apresentar de formas distintas. O escritor Daniel Pinchbeck tem uma frase ilustrativa a este respeito: “nós não vemos o mundo como ele é, mas, em grande parte, vemos o mundo como nós somos”.

Assim como grande parte dos artistas visionários que pressentem instintivamente uma mudança em seu tempo e a retratam em termos subjetivos, Cézanne e seu uso de cores intensas, formas geometrizadas e eliminação de contornos distintos influenciou praticamente todos os movimentos de vanguarda que se seguiram à sua morte, mas sua arte só foi compreendida pela sociedade com o passar do tempo. Seu significado, ora visionário, se consolidou, foi absorvido pelo sistema e, hoje, seu estilo tem cara de “velho”.

Outra perspectiva interessante sobre o mesmo fenômeno é a do economista francês Jacques Attali. Em seu livro “Bruits” (em francês) ou “Noise: A Political Economy of Music” (“Ruído, uma Economia Política da Música”, inédito no Brasil), ele argumenta que, quando uma grande mudança social está para acontecer, ela vai se mostrar primeiro na música. De acordo com Attali, você pode identificar facilmente que tipo de música faz esse papel profético, porque as pessoas irão dizer que “isso não é música, é barulho” (qualquer semelhança com a “feiúra” da arte de Cézanne…).

Se a sua avó, que talvez tenha pensado dessa forma à época em que os Beatles chegaram ao topo das paradas, hoje acha as canções do quarteto de Liverpool um tanto charmosas, isto não se deve a um maneirismo qualquer. Essa música não é mais ruído porque o mundo que ela anunciava já chegou.

O que isso demonstra hoje, além do papel visionário da cultura de vanguarda, é o onipresente papel do tempo como professor e “limpador de pára-brisas” ideológico, permitindo clareza de visão. Algo impossível de ser atingido através da racionalização imediatista utilizada por meios de comunicação corporativos, pela arrogância da ciência materialista e por partidos e partidários políticos de qualquer inclinação. Revela também o onipresente preconceito inerente a esta parcela da sociedade, que é sempre pega de surpresa pelas ondas da história.

“Poluição é um recurso não utilizado” – Bill Mollison

A monocultura a que estamos acostumados, paisagem típica Brasil afora, com vastas plantações de cana, milho, café e outros, é um conceito permanente em nossas cabeças. Ela está lá desde que nós nos damos por gente: basta sair da cidade, e entrar em uma rodovia qualquer para deparar com vastos campos forrados de carpetes verdes, ou pastos salpicados de vaquinhas. Essa é a nossa própria definição de “interior”, ou de ambiente “rural”. No entanto, essa monocultura não foi projetada para ser permanente.

Incapaz de olhar as consequências de sua aplicação a longo prazo, o agronegócio se originou da chamada “revolução verde” das décadas de 40 a 60 – a mecanização e o uso de insumos industriais (fertilizantes e agrotóxicos), que permitem uma produção em larga escala – e transformou a paisagem global.

Mas como qualquer monocultura, esta agricultura convencional não é um sistema estável, isto é, não tem resiliência, que é a capacidade de se regenerar ao estado original (como um elástico que, após estendido, volta ao seu formato anterior). E assim, não leva o solo em consideração. Contrária aos princípios pelos quais a natureza opera, a substituição da cobertura vegetal original de uma região – baseada na relação simbiótica entre uma variedade de espécies – por uma cultura única é uma prática danosa ao solo, causando a poluição e esgotamento, e consequente dependência de adubos e insumos químicos para torná-lo novamente produtivo. O efeito colateral é uma produção literalmente envenenada e a desertificação de áreas antes ricas em biodiversidade.

Se isso soa como discurso de militante ecochato, lembre-se da questão da feiúra de Cézanne ou do ruído na música: trata-se na verdade do centro de todas as questões fundamentais para a nossa sociedade contemporânea. A crise ambiental é apenas um dos sintomas de uma grande crise estrutural, que por sua vez é fundamentada no atual sistema financeiro, ele próprio também uma monocultura (para saber mais, veja esclarecedora entrevista com o economista e co-autor do Euro, Bernard Lietaer, que, por sinal, é um dos entrevistados do filme 2012 Tempo de Mudança, que exibimos recentemente em São Paulo).

Com isto em mente, precisamos deixar claro que a tradição intelectual da esquerda brasileira não entende o ambientalismo. Inteiramente focada na substituição de um projeto de poder – dos ricos para a classe trabalhadora – essa esquerda acredita que, para fins de progresso, é necessário expandir os meios produtivos criados pelo sistema capitalista – principalmente aqueles em larga escala, dentre os quais a monocultura e o agronegócio – por entender que a população, ou a distribuição de renda, é mais importante que o meio-ambiente.

Esta mesma perspectiva acusa os ambientalistas de quererem “estacionar a produção”, uma vez que acredita que “igualdade significa produção” e que não há como “produzir sem destruir”. Herança do discurso marxista dos tempos de Guerra Fria e ditadura militar no Brasil, esta retórica é a mesma que tenta se justificar perguntando “e de que outra forma poderíamos alimentar 6 bilhões de pessoas?”

A direita, por outro lado, é tão gananciosa que é como se dissesse “dane-se, vamos cometer atrocidades para alimentar ainda mais nossa ganância”. Está interessada apenas na manutenção do esquema de poder vigente, ou na recuperação de um poder perdido, e não poupa esforços para atingir seu objetivo.

O que não é considerado nesta equação é que grande parte da produção agrícola da monocultura mundial não é destinada ao consumo da população, mas sim a abastecer as demandas incessantes do capitalismo, como a produção de combustível (caso da cana e do milho), ração para a indústria pecuária (soja), produção de madeira e papel (eucalipto), e o especulativo agronegócio exportador, entre outros.

Exemplos mostram que é possível produzir quase todo o contingente de frutas, verduras e legumes necessários para alimentar uma cidade grande dentro da própria cidade, minimizando o impacto ambiental nas áreas rurais, eliminando o custo e o impacto do transporte e usando os microclimas gerados pelas hortas para tratar o ar urbano de maneira natural. Foi o que aconteceu, à força, em Cuba.

O Poder da Comunidade

Com o colapso da União Soviética e o embargo americano nos anos 90, Cuba ficou isolada do mundo capitalista e de sua força motriz, o petróleo. A crise que se seguiu foi dura, e obrigou os cubanos a se virarem criativamente como podiam para viver em uma sociedade com escassez de energia e alimentos. Motivada pela necessidade, a população teve que fazer, na marra, uma transição de uma sociedade industrial para uma sociedade mais sustentável, e começou a utilizar terrenos baldios, estacionamentos e outros espaços urbanos desocupados para produzir verduras e legumes, dando a volta por cima e resolvendo um problema aparentemente insolúvel.

Ao contrário do que se poderia esperar, após o fim do embargo americano as hortas urbanas não foram abandonadas para um regresso à monocultura monopolista. A produção orgânica local é hoje responsável por suprir a demanda de 60% da população cubana, e começa a ser imitada em cidades modernas como Nova York, que está descobrindo os telhados verdes, ou hortas verticais, em cima dos edifícios, espaço antes ocioso. Para saber mais sobre a sobrevivência de Cuba à escassez do petróleo, assista ao  documentário “O Poder da Comunidade”.

Curiosamente, a esquerda brasileira, aparentemente alheia ao exemplo cubano, tão imersa que está em seus próprios dogmas inabaláveis (a herança marxista, um projeto que teve papel fundamental no século XX, mas que hoje se mostra anacrônico), vê com maus olhos defesa do meio-ambiente como projeto político, uma vez que o meio-ambiente é tido como algo separado de nós, algo a ser explorado em prol do benefício da população.

Uma perspectiva mais engenhosa que começa a ganhar terreno hoje (e que ressoa com a visão de Cézanne), em meio à uma crise ambiental cada vez mais avassaladora, é a de que somos parte da natureza, uma forma de inteligência própria que levou milhões de anos para desenvolver seus princípios sustentáveis. E que podemos de fato estar à beira da extinção, como aconteceu com a civilização Maia, que não conseguiu se recuperar do aumento populacional além da capacidade de se produzir alimentos, do desmatamento para o uso da monocultura, e do aumento incessante das guerras.

Em 1978, o ecologista australiano Bill Mollison cunhou o termo permacultura para propor um sistema sustentável baseado no design ecológico e na observação da forma como a natureza opera. Em outras palavras, imitar a natureza é criar uma cultura permanente. Este “planejamento de ocupações humanas sustentáveis”, em definição do próprio Mollison, foca em eficientes sistemas intensivos que operam em pequena escala, mas podem pipocar aos montes em qualquer ambiente, seja num terreno urbano ou no campo.

Ao contrário dos sistemas inconsequentes em larga escala que hoje moldam a paisagem rural, o sistema da permacultura se baseia em recursos biológicos, e não nos combustíveis fósseis (tanto os fertilizantes como os agrotóxicos são derivados do petróleo). E o tema central é que cada componente do sistema está intrinsecamente relacionado entre si (o solo, por exemplo, que é ignorado na monocultura, é tratado como elemento chave na permacultura). Na permacultura, tudo tem pelo menos 2 funções.

O uso sustentável proposto por Mollison foi amplamente inspirado pelo fazendeiro naturalista e filósofo japonês Masanobu Fukuoka (1913–2008), que propunha uma agricultura sem maquinário, fertilizantes ou pesticidas já nos anos 40, seguindo o princípio de “observar a natureza e trabalhar com ela, ao invés de impor nossos desejos sobre ela”. Passadas 6 décadas, é hora de começarmos a escutar aqueles que atropelamos em nome do progresso. Afinal, como dizem os índios Lakota, a profecia somos nós.

Onde procurar cursos de permacultura:

UMAPAZ (São Paulo)
agrofloresta.net
IPEMA (Ubatuba)
Morada da Floresta (São Paulo)
Casa dos Hólons (São Paulo)
Ecocentro IPEC (Goiás)
Ciclo Sustainable (Goiás)
Ipoema (Distrito Federal)

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ÚLTIMA CHAMADA!

Chance de ouro para conferir na tela grande o belíssimo e essencial documentário que estamos trazendo para São Paulo simultaneamente com o badalado lançamento nos Estados Unidos. Aproveitem a chance porque o filme não está no youtube nem disponível pra download via torrent, e ainda não há previsão de entrar em cartaz no circuito comercial no Brasil. Versão que iremos passar é legendada em português.

Os 25 primeiros RTs de nossa twitada convite receberão um par de ingressos cortesia, a serem retirados no local, pouco antes da sessão. A sala da Cinemateca é uma das mais incríveis de São Paulo, com tela enorme e espaçosas poltronas muito confortáveis. O sistema eletrônico de escurecimento da sala com paredes móveis é um atrativo à parte.

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

O ingresso custa $8,00, com direito à meia de estudante. A cinemateca fica na Vila Clementino, próximo ao Parque do Ibirapuera (veja o mapa abaixo).


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Diversão com cogumelos

A criação da consciência moderna ocidental trouxe consigo uma repressão violenta de nossa herança arcaica. Esta herança incluia a habilidade de explorar reinos mágicos e sagrados através  da ocorrência espontânea de estados de êxtase, de rituais de iniciação ou por meio de compostos visionários encontrados em certas plantas. Por muitos milhares de anos, o conhecimento direto do sagrado era uma parte natural e universal da existência humana, como ainda permanece em culturas tribais. Com a ascensão do Estado moderno e da Igreja, a interação com realidades místicas foi alienada das massas e explicitamente demonizada. A comunhão com o sagrado foi reservada para os padres. Durante a Santa Inquisição, danças sagradas com os espíritos da natureza ou contatos com as almas dos mortos tornaram-se heresias. A punição para estes crimes era severa.

O processo dialético que criou o pensamento possessivo do capitalista e a aparência racional do tecnocrata demandaram a destruição de vestígios de crenças pré-modernas animísticas e comunais, estivessem estas crenças em populações isoladas da Europa ou em populações indígenas do Novo Mundo. Esta destruição era parte do processo que Karl Marx descreveu como a alienação de todos os nossos sentidos físicos e intelectuais em apenas um: o sentido da posse. Claro, o “sentido da posse” não é realmente um sentido – é uma ilusão de realização pessoal que parece se estender para fora do ego.

A modernidade causou uma mudança dramática na maneira como usamos nossos sentidos. Em seu livro Myth and Meaning (Mito e Significado), Lévi-Strauss admitiu seu choque inicial quando descobriu que tribos indígenas eram capazes de ver o planeta Vênus durante o dia, a olho nu – “algo que para mim seria absurdamente impossível e incrível.” Mas ele aprendeu com astrônomos que era de fato possível e encontrou relatos antigos de navegadores ocidentais com a mesma habilidade. “Hoje usamos menos os sentidos e usamos mais de nossa capacidade mental do que no passado”, concluiu. Nós sacrificamos capacidades perceptuais por outras habilidades mentais – nos concentrar numa tela de computador enquanto sentados num cubículo por muitas horas seguidas (algo que aqueles indígenas achariam “absurdamente impossível e incrível”), ou desligar múltiplos níveis de consciência enquanto dirigimos um carro no trânsito pesado. Em outras palavras, somos criados em um sistema que nos ensina a postergar, retardar e eliminar a maioria das informações sensoriais em favor de uma futura recompensa. Nós vivemos em um ciclo de retroalimentação de atraso da recompensa perpétuo. Quase sempre, nem ao menos temos noção do que é que perdemos.

Pessoalmente, eu não tinha consciência do que estava perdendo até que comi cogumelos. Durante estas viagens iniciais eu descobri que estava preso num estado de postergação da expectativa e um compulsório distanciamento de mim mesmo. Eu tinha o hábito neurótico de um intelectual constantemente tentando observar a mim mesmo de algum ponto imaginário e objetivo fora de mim, e esse caminho impossível drenou minha energia e impossibilitou conectar-me com o presente. Cogumelos não me curaram disso – por um longo tempo apenas o álcool podia obliterar a divisão, e levei anos para solucionar o problema – mas os pedaços de cogumelos desidratados me fizeram perceber, pela primeira vez, exatamente o que eu estava fazendo errado.

A consciência moderna está desperta para o materialismo, para o incorpóreo  “sentido de ter”, para a visão mecanicista de mundo e o método científico de observação empírica. Sua antítese é a mente arcaica, viva para o mundo dos sentidos, em contato íntimo com o sagrado como ele é revelado pelo mundo natural, através de sonhos e visões. Para este tipo de consciência, Henry Miller descreveu que “O objetivo da vida não é possuir, mas irradiar”.

Há uma rachadura cultural entre o foco no cérebro, o hardware material no qual a consciência opera, e o estudo da mente, o nexo incorpóreo de tudo que experienciamos. A ciência ocidental estuda obsessivamente os mecanismos “objetivos” do cérebro, as vias de seus neurônios e suas densas florestas de sinapses, sem compreender a natureza da consciência. O xamanismo arcaico é uma tecnologia para explorar a verdade “subjetiva” da mente através de processos visionários, sonhos, mitos e interação com a natureza. De acordo com a psiquiatria atual, doenças mentais têm causas físicas que podem ser tratadas, até certo ponto, com medicamentos adequados. Na perspectiva xamânica, não apenas desordens mentais mas também as físicas têm causas não físicas – espirituais – que devem ser abordadas para uma cura efetiva.

As plantas visionárias são os espíritos guia de culturas ancestrais. Elas são sagradas porque despertam a mente para outros níveis de consciência. São um portal para um universo espiritual, ou multidimensional. No mundo moderno as substâncias derivadas destas plantas continuam a ser demonizadas, ridicularizadas e sobretudo suprimidas. No início dos anos 60, quando um entrevistador reduziu a fascinação de Aldous Huxley com os psicodélicos a uma “diversão com cogumelos”, Huxley respondeu em termos fortes: “O que é melhor, ter diversão com cogumelos ou idiotização com ideologia, ter guerras por causa de palavras, ter as leis de amanhã baseadas nas crenças de ontem?

Este racha cultural permanece uma divisão profunda. Enquanto escrevo isso, drogas psicodélicas foram novamente desmerecidas como “brinquedos da geração hippie” na seção científica do New York Times. Parece que nenhum jornal ou revista, sério ou de grande circulação,  possa publicar um artigo sobre alucinógenos sem ridicularizá-los de alguma forma.* Psicodélicos, catalisadores químicos de mundos interiores supremos, permanecem banidos e mal entendidos porque ocupam um ponto de contradição direta e possível síntese entre o materialismo baseado no cérebro e o xamanismo orientado espiritualmente.

A exploração e estudo não enviesado destas moléculas expansoras da mente – um legado da pesquisa científica e psicológica dos anos 50 interrompido pela forte histeria dos anos 60 – é um caminho para unificar estas abordagens opostas sobre a natureza da realidade.

Talvez seja o único caminho.

Daniel Pinchbeck, “Breaking Open the Head”, capítulo 9 (2002), também autor de “2012 – O Ano da Profecia Maia”, livros inspiradores do documentário “2012 – Tempo de Mudança”, com sessão última nesta sexta-feira, dia 15/10 as 20:00 na Cinemateca Brasileira (Largo Senador Raul Cardoso, 207 – Vila Clementino – São Paulo).

* Entre a publicação do livro e esta tradução muito mudou referente ao que diz este parágrafo, ao menos pra quem segue de perto os avanços da área. Por outro lado, pouco mudou no (in)consciente coletivo da população em geral.

Traduzido e ilustrado por PC.

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O futuro depende delas!

Neste dia das crianças, divulgamos uma série de animações do Instituto Akatu sobre consumismo, sociedade e meio ambiente. Em linguagem acessível e bem humorada, é uma ótima dica para compartilhar com as crianças, os verdadeiros construtores e herdeiros do futuro.

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