Mineralorgia

Por Fabrício Pamplona

Não é de se espantar que o mundo inteiro esteja comovido com o resgate dos 33 mineiros em uma mina de cobre no Chile. Em tempos como este, em que tudo vira “reality show” e que as agências de notícia estão ávidas por acontecimentos raros ou estranhos que possam gerar notícias de grande repercussão, a privação extrema a que foram submetidos estes seres humanos foi um prato cheio para literalmente dias de transmissão ininterrupta. Não é exagero afirmar que a mídia realiza uma busca ativa e intensa por catástrofes pelo mundo, sejam naturais ou produzidas pelo homem… vale inclusive pensar até que ponto nossa curiosidade por este tipo de fato acabe por salientar sua importância e, quem sabe, até influenciar a probabilidade de sua ocorrência.

Um exemplo comum do impacto que a curiosidade humana por eventos escatológicos tem em nossas vidas é o do acidente de trânsito, em especial os trágicos, muitas vezes com vítimas, que acaba gerando imensos engarrafamentos, não só pela obstrução da pista onde o acidente ocorreu, mas também na pista ao lado, por conta da fila de curiosos…. Quantos destes curiosos ajudam socorrer as vítimas ou fornecem alguma ajuda de qualquer tipo? Pouquíssimos. A reação destas pessoas é como a de alguém que assiste ao evento distante, como se estivesse passando na televisão. Pois bem, esta é uma via de mão dupla, se podemos assistir impassíveis à “tragédia da vida real” protegidos no interior dos nossos carros, assistindo atentos e comentando o que acontece através de uma lâmina de vidro; na televisão, os eventos vêm até nós, e podemos ficar ainda mais passivos e indiferentes ao sofrimento humano, “fazendo de conta” que aquele sofrimento se transforma em entretenimento. É a pura banalização da violência.

A audiência massiva e a popularidade de programas de TV com relatos cruéis e muitas vezes ao vivo de ações criminosas, de verdadeiras guerras civis entre policiais e bandidos parecem ser a revitalização dos filmes de Western. O problema é que os mocinhos e bandidos são de carne e osso. Entreter-se, obter prazer com o sofrimento alheio tem um nome: sadismo. E este valor, infelizmente, está sendo bombardeado televisivamente ao espectador que chega às 18-19h em casa depois de um dia inteiro de trabalho e liga a TV para “descansar” enquanto janta. Estamos cada vez mais expostos à violência em nosso dia a dia, e curiosamente, a sensação individual, quase consensual de que “o mundo é violento” é alimentada com muito mais freqüência pelos fatos noticiados do que pelos vividos em primeira pessoa. E é curioso como as pessoas não se contentam em assistir aos programas, mas multiplicam esta informação, repassando aos outros, acompanhando os desdobramentos e se engajando em longas discussões…  Ousaria dizer que esta ânsia por acompanhar as tragédias faz com que a pessoa confirme a sua expectativa sobre a desgraça “mundo afora”, mas por outro lado, traz um certo alívio por saber que não foi atingida. Entreter-se com o sofrimento alheio não é exclusividade dos dias atuais, pode-se facilmente relembrar os espetáculos “circenses” das batalhas de gladiadores ou da exposição de aberrações e deformidades humanas, como retratado no clássico “O Homem Elefante”, de David Lynch.

Sinto um triste pesar em perceber que o isolamento dos mineiros chilenos seja mais um episódio desta novela da vida real, que acompanhamos ao vivo de nossas casas, angustiados, mas com um pingo de alívio pela sensação de que a tragédia foi alheia. “Quanto mais longe de mim, melhor”. Este longo episódio de 69 dias e 33 protagonistas, como toda boa narrativa, teve a capacidade de entreter verdadeiras multidões ao longo do globo, foi traduzido para diversas línguas, envolveu e agitou o mundo das celebridades e felizmente teve um final feliz no último dia 13 de outubro, com o resgate indefectível de todos os participantes. Até parece mentira, todos foram resgatados com vida, o governo local realmente se envolveu, recebendo ajuda e tecnologia de diversos cantos do planeta,e o processo todo foi realizado praticamente 2 meses antes do previsto. Em tempos de reality show, aposto que houve até quem suspeitasse que tudo não passava de uma grande armação…

O “elenco” do espetáculo até recebeu certas regalias, como que em compensação pelo sofrimento que passaram: viagem com acompanhante para a Grécia, 10 mil dólares em dinheiro, festas, ingresso para duas partidas de futebol na Europa e até iPods do próprio Steve Jobs. Claro que tudo isso custa muito mais barato para a companhia mineradora do que pagar uma indenização milionária se os 33 mineiros resolvessem processá-la. Acredito que a maior compensação seja mesmo ter saído vivo desta experiência escatológica de ter sido “enterrado vivo”, como num roteiro de filme de terror. Já que o assunto veio à tona, vale a discussão. A platéia bateu palmas e se comoveu com toda a história dos mineiros, que foram salvos no final do filme, com direito ao “beijo da mocinha” e tudo mais.

Mas o que pensa esta mesma platéia sobre os milhares de mineiros que estão NESTE MOMENTO trabalhando em situações degradantes em minas de cobre, chumbo, estanho, ouro, níquel ou qualquer outro metal precioso pelo mundo? Que ânsia é esta por esburacar os morros e subsolos de nosso planeta à procura de materiais que brilham com o reflexo da luz do astro-rei? O que motivou verdadeiras corridas migratórias do ouro? (A nossa Serra Pelada é um excelente exemplo disso). Um indício da importância desta atividade pode ser vislumbrado na recente notícia de que os milionários se refugiaram na aquisição de minérios (neste caso o ouro) para evitar que suas fortunas fossem drenadas pelo fantasma de uma possível crise econômica global. Recentemente esta se tornou uma alternativa acessível mesmo a quem não se deu ao luxo de acumular tanto dinheiro assim no seu cofrinho, ou embaixo do colchão.

Os minérios transmitem a idéia de segurança, por serem considerados historicamente como lastros econômicos, apesar deste conceito ter caído por terra na sociedade atual, em que a quantidade de dinheiro (real ou virtual) é insustentavelmente balizada por índices econômicos flutuantes ao invés de bens físicos. Curioso não é? Os mineiros arriscam a própria segurança biológica, física, real, enfurnados em túneis de centenas de metros abaixo da superfície, para que a segurança monetária, intangível, virtual, dos magnatas esteja garantida. Mais um triste exemplo da inversão de valores da sociedade do capitalismo desenfreado.

A dedicação humana ao extrativismo mineral, a quantidade de recursos e energia envolvidos é descomunal, e freqüentemente se depara com “obstáculos” com os quais parece não se importar, como discutido recentemente no filme Avatar. Seria até legal se as máquinas destruidoras mostradas no Avatar ficassem parte somente da mente criativa de James Cameron, mas os aparelhos usados para perfurar a terra são realmente medonhos. Um exemplo pode ser visto abaixo, mas para quem se interessar, o site de tecnologia Gizmodo traz uma compilação de diversas máquinas mineradoras que parecem verdadeiras armas de destruição retiradas dos filmes futuristas de ficção científica.

A vida imita a ficção na mineralorgia. Acima, foto do filme Avatar, abaixo, a máquina de mineração russa considerada a maior do mundo.

As escavações de uma galeria de minas subterrâneas podem facilmente ocupar o espaço de uma cidade, onde pessoas passam diversos dias de suas vidas atrás dos grandes depósitos minerais. E não há dúvida de que a escassez destes recursos não renováveis fará a humanidade cavar a sua cova cada vez mais funda. É triste pensar que o delicado equilíbrio da mãe-natureza seja perturbado de maneira tão drástica e grosseira, por motivos espúrios e com tanto desperdício de recursos e energia humana. E, como bem exemplificado pelos 69 dias de escuridão dos mineiros chilenos, a custa de tanto sofrimento para o deleite de tão poucos.

“Tenho certeza de que muito do feio, do desarmônico e do deselegante de nossa cultura de consumo, de nosso urbanismo, de nosso estilo de vida é resultado da ignorância, de pouca ciência e de muito desejo de ter e pouca coragem de ser. Os incompetentes que me desculpem, mas beleza é um excelente indicador da eficiência e da inteligência dos processos que vivemos. É por isso que nos fins de semana corremos desesperados atrás da beleza da natureza. Porque lá resgatamos o fluxo harmônico, inteligente e preciso de nossas energias físicas, emocionais e mentais. Esse resgate explica o encantamento e a gratidão do humano com a beleza do mar, do pôr do sol, da flor, do rio, das pedras, dos peixes, da montanha, da neve, do luar. Está tudo aí, generosamente à nossa disposição” (Ricardo Guimarães).

2 Comentários »

  1. Kinha said

    Olá

    Eu sou a Kinha do blog AMIGA DA MODA e também estou concorrendo ao prêmio TopBlog, na categoria VARIEDADES. Vim fazer uma proposta: “UM VOTO POR UM VOTO”. Eu voto em seu blog e vc no meu. Que tal a proposta?
    Gostei do se blog e estou te seguindo. Se gostar do meu, me siga também.
    Vou aguardar a sua visita.

    http://amigadamoda.blogspot.com

    Bjo

  2. […] ser pilhado. Rios devem ser transformados em hidrelétricas, montanhas devem ser explodidas para extração de minério, florestas desmatadas para obtenção de madeira, peixes pescados predatoriamente, tudo em ritmo […]

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