Archive for dezembro, 2011

365 dias para o fim do mundo

“Um outro mundo não é apenas possível, mas ela está a caminho! Num dia calmo, se você ouvir atentamente, conseguirá escutá-la respirando.”
Arundhati Roy

Primeiro veio a Tunísia. Logo depois veio o Egito. Então foi um efeito dominó: Iêmen, Líbia, Síria, Bahrein. Mas a Primavera não foi só árabe. O povo foi às ruas também na Grécia, Espanha, Portugal, Londres, São Paulo, e finalmente ocuparam Nova York, se espalhando daí para o resto do mundo. Apesar das manobras da mídia pra fragmentar os acontecimentos e assim impedir que nossa atenção construa um modelo significativo dos fatos, o ano de 2011 vai ser lembrado como “o ano do basta”, e os motivos são claros pra quem tem os olhos abertos: o fim do mundo está chegando.

O desenvolvimento chega à Amazônia

Como se não bastasse, 2011 vai ser lembrado também como o ano em que a ficção se tornou fato, e o Brasil decidiu protagonizar sua própria versão do filme Avatar. Acho que não é necessário dizer de que lado infeliz o governo e a mídia decidiram jogar. Belo Monte, as alterações no Código Florestal e a prospecção de petróleo em Abrolhos, colocam o Brasil no papel principal como arquiinimigo da natureza neste começo de década. É uma declaração de guerra. Nem o vazamento da Chevron adianta para aqueles que nos governam hoje: o pensamento desenvolvimentista não escuta a linguagem dos ecossistemas pois não se reconhece como parte integrante da teia da vida.

Pra piorar, a Coréia do Norte esquenta a frigideira geopolítica mundial de imprevisto neste fim de ano, e os EUA se preparam para decidir se irão de fato se tornar um estado policial digno do romance 1984 com a 2012 National Defense Authorization Act. E agora? Que fim do mundo é esse? Vamos ser engolidos por catástrofes naturais? Vamos entrar na 3ª Guerra Mundial? Vamos todos perecer em agonia, num enorme suicídio coletivo assistido?

Temos que ser cuidadosos com os significados. Em paralelo à campanha de desinformação da mídia, as idéias apocalípticas estimuladas por blockbusters de Hollywood e igrejas messiânicas também fazem parte de um tendência inconsciente de se banalizar significados profundos. Porque não é possível lucrar com a profundidade, mas a banalização é uma galinha dos ovos de ouro.

 Crise e Transformação

O fim do mundo não é uma profecia exclusiva dos místicos (que, nesta sociedade regida pelo materialismo científico, significa a mesma coisa que loucos). Em 1982, o físico austríaco Fritjof Capra publicou O Ponto de Mutação, livro no qual explicava, a partir de uma interpretação da história do pensamento ocidental através dos conceitos do I-Ching, como estávamos rumando para o fim de uma era, e como o fim do mundo é na verdade uma enorme crise de paradigmas.

No futuro, Capra será lembrado como uma das mais brilhantes e fundamentais mentes do século XX. Mas hoje, em tempos de crise, seus livros são mais facilmente encontrados em sebos, curiosamente perdidos em meio à seção de esotéricos. Por mais esdrúxula que possa soar, esta situação é decorrente do ostracismo acadêmico de um autor que ousou traçar paralelos entre a física do século XX e o misticismo oriental (no famoso O Tao da Fisica). Para a ciência dominante, de vocação newtoniana-cartesiana, falar em misticismo implica automaticamente a perda de credibilidade. No entanto, a física subatômica do século XX não é compatível com o pensamento mecanicista do materialismo científico, uma situação extremamente embaraçosa que o modelo vigente evita debater a qualquer custo.

De qualquer forma, Capra não foi o único ocidental a se encantar com o I-Ching. O escritor alemão Hermann Hesse também foi outro que mergulhou nesta sabedoria. Em seu último romance, O Jogo das Contas de Vidro (1943), os personagem fazem predições com o oráculo ancestral. Em prefácio para a tradução inglesa do “Livro das Mutações”, em 1949, Carl Jung relata como ele mesmo consultou o I-Ching para decidir se escreveria ou não o prefácio, e resumiu a qualidade atemporal do texto chinês ao dizer que “o I-Ching não oferece provas nem resultados; não faz alarde de si nem é de fácil abordagem. Como se fora uma parte da natureza, espera até que o descubramos. Não oferece nem fatos nem poder, mas, para os amantes do autoconhecimento e da sabedoria – se é que existem -, parece ser o livro indicado (…) Aqueles a quem ele não agradar não têm por que usá-lo, e quem se opuser a ele não é obrigado a achá-lo verdadeiro. Deixem-no ir pelo mundo para benefício dos que forem capazes de discernir sua significação”.

Finalmente, em 1975, dois irmãos etnobotânicos pareceram ser estas pessoas capazes de discernir sua significação, tal qual sugerido por Jung. Levando a compreensão do I-Ching a outros patamares, Terence e Dennis Mckenna publicaram The Invisible Landscape:Mind, Hallucinogens, and the I Ching (A Paisagem Invisível: Mente, Alucinógenos e o I-Ching, inédito no Brasil). Uma obra ousada, fascinante e densa (em alguns momentos praticamente impenetrável por quem não é versado em química), o livro dos irmãos Mckenna pode ser lido como uma versão contemporânea e altamente modernizada da psicoterapia jungiana com ênfase na química cerebral a nível molecular, e se manteve na obscuridade por anos até ressurgir recentemente em meio ao revival da ciência psicodélica e à elevação de Terence (falecido em 2000) ao status de profeta dos tempos modernos, ou o “Copérnico da Consciência”.

A Paisagem Invisível foi escrito a partir de uma expedição científica à Amazônia colombiana em busca de dados experimentais que comprovassem uma teoria complexa sobre a consciência que envolvia uma interpretação matemática dos hexagramas do I-Ching, conceitos da física quântica, química molecular e uma especulativa teoria holográfica da mente, acompanhados de uma boa dose de psicodélicos. Ao dissecarem o I-Ching como um antigo código binário digital e introduzi-lo num computador, os McKenna chegaram a um gráfico que, segundo eles, propunha uma descrição matemática rigorosa da estrutura temporal do universo. Continue lendo »

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