365 dias para o fim do mundo

“Um outro mundo não é apenas possível, mas ela está a caminho! Num dia calmo, se você ouvir atentamente, conseguirá escutá-la respirando.”
Arundhati Roy

Primeiro veio a Tunísia. Logo depois veio o Egito. Então foi um efeito dominó: Iêmen, Líbia, Síria, Bahrein. Mas a Primavera não foi só árabe. O povo foi às ruas também na Grécia, Espanha, Portugal, Londres, São Paulo, e finalmente ocuparam Nova York, se espalhando daí para o resto do mundo. Apesar das manobras da mídia pra fragmentar os acontecimentos e assim impedir que nossa atenção construa um modelo significativo dos fatos, o ano de 2011 vai ser lembrado como “o ano do basta”, e os motivos são claros pra quem tem os olhos abertos: o fim do mundo está chegando.

O desenvolvimento chega à Amazônia

Como se não bastasse, 2011 vai ser lembrado também como o ano em que a ficção se tornou fato, e o Brasil decidiu protagonizar sua própria versão do filme Avatar. Acho que não é necessário dizer de que lado infeliz o governo e a mídia decidiram jogar. Belo Monte, as alterações no Código Florestal e a prospecção de petróleo em Abrolhos, colocam o Brasil no papel principal como arquiinimigo da natureza neste começo de década. É uma declaração de guerra. Nem o vazamento da Chevron adianta para aqueles que nos governam hoje: o pensamento desenvolvimentista não escuta a linguagem dos ecossistemas pois não se reconhece como parte integrante da teia da vida.

Pra piorar, a Coréia do Norte esquenta a frigideira geopolítica mundial de imprevisto neste fim de ano, e os EUA se preparam para decidir se irão de fato se tornar um estado policial digno do romance 1984 com a 2012 National Defense Authorization Act. E agora? Que fim do mundo é esse? Vamos ser engolidos por catástrofes naturais? Vamos entrar na 3ª Guerra Mundial? Vamos todos perecer em agonia, num enorme suicídio coletivo assistido?

Temos que ser cuidadosos com os significados. Em paralelo à campanha de desinformação da mídia, as idéias apocalípticas estimuladas por blockbusters de Hollywood e igrejas messiânicas também fazem parte de um tendência inconsciente de se banalizar significados profundos. Porque não é possível lucrar com a profundidade, mas a banalização é uma galinha dos ovos de ouro.

 Crise e Transformação

O fim do mundo não é uma profecia exclusiva dos místicos (que, nesta sociedade regida pelo materialismo científico, significa a mesma coisa que loucos). Em 1982, o físico austríaco Fritjof Capra publicou O Ponto de Mutação, livro no qual explicava, a partir de uma interpretação da história do pensamento ocidental através dos conceitos do I-Ching, como estávamos rumando para o fim de uma era, e como o fim do mundo é na verdade uma enorme crise de paradigmas.

No futuro, Capra será lembrado como uma das mais brilhantes e fundamentais mentes do século XX. Mas hoje, em tempos de crise, seus livros são mais facilmente encontrados em sebos, curiosamente perdidos em meio à seção de esotéricos. Por mais esdrúxula que possa soar, esta situação é decorrente do ostracismo acadêmico de um autor que ousou traçar paralelos entre a física do século XX e o misticismo oriental (no famoso O Tao da Fisica). Para a ciência dominante, de vocação newtoniana-cartesiana, falar em misticismo implica automaticamente a perda de credibilidade. No entanto, a física subatômica do século XX não é compatível com o pensamento mecanicista do materialismo científico, uma situação extremamente embaraçosa que o modelo vigente evita debater a qualquer custo.

De qualquer forma, Capra não foi o único ocidental a se encantar com o I-Ching. O escritor alemão Hermann Hesse também foi outro que mergulhou nesta sabedoria. Em seu último romance, O Jogo das Contas de Vidro (1943), os personagem fazem predições com o oráculo ancestral. Em prefácio para a tradução inglesa do “Livro das Mutações”, em 1949, Carl Jung relata como ele mesmo consultou o I-Ching para decidir se escreveria ou não o prefácio, e resumiu a qualidade atemporal do texto chinês ao dizer que “o I-Ching não oferece provas nem resultados; não faz alarde de si nem é de fácil abordagem. Como se fora uma parte da natureza, espera até que o descubramos. Não oferece nem fatos nem poder, mas, para os amantes do autoconhecimento e da sabedoria – se é que existem -, parece ser o livro indicado (…) Aqueles a quem ele não agradar não têm por que usá-lo, e quem se opuser a ele não é obrigado a achá-lo verdadeiro. Deixem-no ir pelo mundo para benefício dos que forem capazes de discernir sua significação”.

Finalmente, em 1975, dois irmãos etnobotânicos pareceram ser estas pessoas capazes de discernir sua significação, tal qual sugerido por Jung. Levando a compreensão do I-Ching a outros patamares, Terence e Dennis Mckenna publicaram The Invisible Landscape:Mind, Hallucinogens, and the I Ching (A Paisagem Invisível: Mente, Alucinógenos e o I-Ching, inédito no Brasil). Uma obra ousada, fascinante e densa (em alguns momentos praticamente impenetrável por quem não é versado em química), o livro dos irmãos Mckenna pode ser lido como uma versão contemporânea e altamente modernizada da psicoterapia jungiana com ênfase na química cerebral a nível molecular, e se manteve na obscuridade por anos até ressurgir recentemente em meio ao revival da ciência psicodélica e à elevação de Terence (falecido em 2000) ao status de profeta dos tempos modernos, ou o “Copérnico da Consciência”.

A Paisagem Invisível foi escrito a partir de uma expedição científica à Amazônia colombiana em busca de dados experimentais que comprovassem uma teoria complexa sobre a consciência que envolvia uma interpretação matemática dos hexagramas do I-Ching, conceitos da física quântica, química molecular e uma especulativa teoria holográfica da mente, acompanhados de uma boa dose de psicodélicos. Ao dissecarem o I-Ching como um antigo código binário digital e introduzi-lo num computador, os McKenna chegaram a um gráfico que, segundo eles, propunha uma descrição matemática rigorosa da estrutura temporal do universo.

 I-Ching

Voltemos ao I-Ching por uns instantes. Diferente de nós ocidentais, os chineses são mais aptos a entender abstrações. Sua escrita consiste em símbolos que sugerem uma idéia ou conceito, ao invés de fonemas, como o nosso alfabeto romano. Com centenas de dialetos diferentes na China, geralmente pessoas que vivem num vilarejo não entendem a língua falada de seus vizinhos rurais. No entando, apesar de o som e a fonética variar, os símbolos da língua escrita são compreendidos por todos. Por quê isto é importante?

O I-Ching envolve 64 símbolos chamados de hexagramas. Cada hexagrama contém seis linhas, que se apresentam partidas (yin) ou inteiras (yang). Tradicionalmente os 64 hexagramas aparecem numa forma aparentemente aleatória conhecida como a sequência King-Wen (existem diversas maneiras sistemáticas de se organizar os hexagramas, mas não é o caso da sequência King-Wen).

A mente ocidental classificaria o I-Ching como adivinhação ou futurismo. Mas ao invés de te dizer com quem você irá se casar, quando você irá morrer ou quais serão os números sorteados da Mega-Sena, o I-Ching prevê os padrões dos eventos que irão governar e moldar seu destino. É uma vinheta abstrata de uma influência universal para um bloco específico de tempo.

Hoje, o I-Ching é uma espécie de jogo de salão que evoluiu de algo mais profundo e mais significativo. A verdadeira base do I-Ching era compreendida milhares de anos atrás e se perdeu durante séculos de ignorância e revolta política.

 Yin e Yang

Como eu mencionei acima, é muito difícil para a mente ocidental compreender abstrações. Na nossa vida cotidiana nós ignoramos coisas que não têm relevância imediata. Por outro lado, nós entendemos algumas abstrações como fato consumado. Bom e mau, luz e escuridão, amor e ódio – estes são os abstratos opostos que teríamos dificuldade em descrever sem usar pares. O bom é a ausência do mal. Escuridão é a ausência de luz. Mesmo na Física temos matéria e anti-matéria, cargas positivas e negativas…

Na filosofia taoísta o conceito de fenômemos opostos é representado pelo Yin e Yang. Ambos estão sempre presentes em tudo, porém a quantidade de influência de cada um varia com o tempo. Yin e Yang surgem da quietude, do vazio (representado por um círculo), e se movimentam ciclicamente, um atrás do outro, até atingirem novamente o vazio. Mais ou menos como uma pedrinha arremessada na superfície de um lago. Seu impacto cria ondas pra cima e depressões pra baixo, e esta alteração entre altos e baixos se irradia pra todos os lados como anéis que se expandem, até que o movimento se dissipe e a quietude se reestabeleça.
Yin e Yang são, então, qualidades sempre opostas e igualitárias. Mais do que isso, sempre que uma das qualidades atinge seu pico ela irá naturalmente se transformar na qualidade oposta: grãos que atingem sua plenitude como plantas no verão (yang pleno) irão produzir sementes, para morrer e retrair no inverno (yin pleno), num ciclo sem fim. Alunos do fundamental em escolas Waldorf sabem bem disto.

É impossível falar de yin e yang sem alguma referência aos opostos, uma vez que yin e yang estão entrelaçados como partes de um todo. A interação entre ambos dá luz às coisas. Yin e yang transformam um ao outro: como a ressaca no mar, cada avanço é complementado por uma retração, e cada subida se transforma em queda. Assim, uma semente irá germinar da terra e crescer para o alto em direção ao céu – um movimento intrinsecamente yang. E então, quando atingir todo o seu potencial, ela irá descer.

As linhas individuais do I-Ching são feitas de Yin (linhas quebradas) e Yang (linhas sólidas). O conceito de mudança e equilíbrio é inerente aos hexagramas.

 A Onda Temporal

À equação encontrada em seus gráficos de computador, após a decodificação dos padrões da sequência King-Wen, os irmãos Mckenna deram o nome de Onda Temporal (Timewave), da qual o irmão caçula Dennis se distanciou com o tempo, deixando a autoria sob a responsabilidade de Terence. Este gráfico produzido por um software é um fractal: uma forma gráfica que pode ser representada por cálculos matemáticos, uma vez que seus padrões visuais se repetem, se observados de longe ou de perto. O gráfico inteiro, representando o começo e o fim do tempo, pode ser visto duplicado quando olhamos para um trecho curto de tempo, conforme demonstrado na figura abaixo:

Mas o que este gráfico representa? McKenna entendeu que seu gráfico final deveria conter a “impressão digital” da mudança contida no próprio tempo. Desta forma, o drama entre o que Terence chama de “novidade” e “hábito” é encenado dentro de um padrão específico e ordenado. As subidas representam a “stasis”, ou a estabilidade habitual, enquanto os vales representam novidade ou mudança (mais especificamente, mudanças de cunho biológicos e socioculturais de significância histórica). Os picos nos gráficos representam o pico de novidade: a partir deste cume, um acontecimento significativo toma curso e provoca uma mudança súbita no desenrolar habitual dos eventos.

 Como este padrão é um fractal, os altos e baixos da Onda Temporal se aplicam igualmente tanto a uma longa época, como o surgimento da vida no nosso planeta, como a um curto período, como a vida de um indivíduo. Se entendemos este conceito “fractal”, fica mais fácil entender porque o I-Ching era usado para prever o resultado de eventos presentes na filosofia chinesa. O indivíduo poderia aprender onde ele estava na Onda Temporal, e então inferir se era mudança ou estabilidade que estavam em jogo na sua vida.

 A Linha do Tempo

Mas como podemos fazer sentido de tudo isso se pensarmos na linha do tempo? De fato, uma vez que o gráfico é visualmente linear, nossa tendência é enxergar a famosa flecha do tempo em tudo. Passado, presente, futuro. Não podemos voltar no tempo que já passou, e tampouco podemos adiantar o futuro. O tempo é algo incompreensível para a mente moderna se apresentado de qualquer outra forma que não seja em progressão linear, seguindo a flecha da evolução.

Assim, o nosso admirável mundo novo é o resultado de uma evolução do primitivo à civilização. Mesmo quando estudamos a história, nosso entendimento de civilizações ancestrais se baseia num pressuposto elementar: por mais avançadas que fossem algumas dessas civilizações, como os (mais notórios) Egípcios, os Incas e os Maias –  e mesmo que sejamos incapazes de reproduzir alguns de seus feitos (como as pirâmides) –  eles ainda viviam num estágio anterior de evolução, com suas superstições, suas visões místicas de fenômenos astronômicos e seus rituais bárbaros de sacrifício.

Mas não é assim que pensavam essas civilizações, o que, em nossa pressuposição evolucionista arrogante, esquecemos de considerar. Na verdade, toda esta idéia a respeito de 2012 ser uma data apocalíptica é uma interpretação linear de uma lógica circular. O calendário Maia, que termina em 21 de Dezembro de 2012, é um mapeamento complexo de um entendimento do funcionamento do tempo em espiral. Desta forma, o que nós chamamos de profecia, pra eles nada mais é que História. Porque cada vez que o tempo passa pela mesma face da circunferência, os eventos tendem a se repetir.

Os físicos teorizam sobre o buraco de minhoca, uma espécie de portal que serviria de “corta-caminho” para pontos mais distantes do universo, e que funcionaria conforme uma espiral, ou um “ralo” cósmico. Para conseguirmos entender melhor esta idéia, podemos pensar numa maçã: é quase uma esfera, porém as extremidades inferior e superior afundam pra dentro como se alguém houvesse enfiado o dedo em duas faces opostas de uma bexiga. Espalhados universo afora, os buracos negros seriam a entrada (e saída) de túneis que passam pelo centro da maçã, pra onde tudo entra por cima, e de onde tudo sai por baixo, num ciclo sem fim. O mesmo princípio se aplica a representações visuais do campo magnético da Terra, ou mesmo do campo eletromagnético do corpo humano: um formato de maçã, ilustrado por uma série de meridianos paralelos.

No caso do calendário Maia, este entendimento também se faz presente na compreensão do tempo, uma visão extremamente sofisticada, diga-se de passagem. Terence e Dennis não sabiam do calendário Maia à época do seu experimento em La Chorrera, que deu origem ao livro citado, mas chegaram à mesma conclusão ao colocar sob escrutínio científico uma complexa especulação filosófica extremamente contemporânea: a possibilidade de se colocar o cérebro em um estado de supercondutividade através de técnicas para a manipulação da órbita dos elétrons, com a finalidade de se poder acessar informações presentes em nosso subconsciente e no inconsciente coletivo, que, segundo suas pesquisas indicavam, são armazenadas no nosso código genético através de um processo muito similar à maneira como se produz e se restaura um holograma.

Roma Cai Nove Vezes Por Hora

Ao passo em que a Onda Temporal se move através do tempo, os fractais se tornam cada vez menores. O que levou eras pra se completar antes, irá levar apenas alguns milhares de anos, e então centenas, dias, minutos, segundos, depois. Quanto mais nos aproximamos do ponto zero da grande Onda Temporal, ondas de novidade e hábito mudam mais rapidamente. Isto pode parecer caótico para o nosso sentido de temporalidade, mas é porque, segundo a teoria da Onda Temporal Zero, o próprio padrão temporal está acelerando.

De fato, o conhecimento que conquistamos nos últimos séculos da civilização supera de longe as conquistas de muitos milhares de anos antes. Isto é bem nítido através do avanço tecnológico. Se levamos alguns milhares de anos na revolução da agricultura, foram só algumas centenas de anos na revolução industrial, e apenas algumas dezenas na revolução tecnológica. Não é tão surpeendente então que a teoria da Onda Temporal fosse ser descoberta, nesta era ultra veloz (onde tudo é em “tempo real”) próxima ao fim do tempo.

Mckenna gostava de brincar com este fenômeno em suas palestras, dizendo que a queda do Império Romano se repetia inúmeras vezes de forma comprimida, segundo este padrão – hábito e novidade –, enquanto ele passava o aspirador de pó em sua sala.

Como no calendário Maia, o tempo histórico funcionaria então numa lógica fractal, mais facilmente ilustrada para nosso entendimento pela espiral que vai se fechando (portanto repetindo o ciclo cada vez mais rápido) até um ponto central, a “Onda Temporal Zero” (Timewave Zero), que representaria o fim da novidade, ou o fim da história. No caso dos Maias, corresponde com o fim do 13º batkun, ou de um período de 5125 anos (um baktun é uma medida que corresponde a aproximadamente 394 anos). Ao fim do 13º baktun, uma mudança significativa na evolução da humanidade e do planeta teria início.

Não é à toa que essas teorias se encaixam com as idéias New Age sobre a Era de Aquário, ou mesmo com as profundas crises que enfrentamos no mundo ocidental hoje, e que insistimos serem apenas passageiras, frutos de “erros pontuais”. Nosso tempo está se comprimindo, nossos paradigmas estão caducando e um novo olhar começa a brotar aos poucos pelo mundo afora. Os eventos deste início de milênio estão apontando para o esgotamento de um modo de vida e de uma visão de mundo. As profecias estavam certas. E não precisamos esperar para comprová-las: elas já estão acontecendo. “A profecia somos nós”, diz o índio lakota no filme 2012 – Tempo de Mudança.

 Experimento

A teoria da Onda do Tempo Zero já é complicada por si só. Como se não bastasse, é uma teoria sobre o tempo, lembrando que até Einstein foi incapaz de definir o que é o tempo, afinal (ou o que foi, ou o que será). Mais complicado ainda é o fato de o autor desta teoria estar morto, e de que a maioria do que ele aprendeu sobre ela  “veio” até ele supostamente através de uma inteligência alienígena, durante estados xamânicos visionários na floresta amazônica.

Mas esta teoria é talvez um dos tópicos mais quentes da internet. Muitos cientistas e físicos de reputação a abraçaram. Ela quebrou as barreiras entre filosofia esotérica e pragmatismo: sua própria descoberta e seu posterior “desmascaramento” são previstos em si mesma. Além disso, a matemática dos fractais é de uma complexidade praticamente ininteligível ao ser humano comum (veja a teoria do conjunto de Mandelbrot, responsável pela criação de fractais computadorizados como na figura abaixo, para ter uma idéia do abismo)

Pra não ficar só na teoria, eu mesmo decidi fazer uma pesquisa temporal com uma versão do software da Timewave Zero disponível para download na internet (baixe de graça AQUI e faça seus próprios experimentos).

A primeira impressão que se tem é que Terence acertou e errou. Acertou porque de fato eventos singulares tiveram curso nos meses em questão, mas errou a precisão da data com uma margem irrisória, se considerarmos o tempo histórico, uma vez que os acontecimentos mais significativos tiveram curso com uma ou duas semanas de distância da data prevista.

Mas eventos unânimes em significância histórica como a crise financeira de 2008, o Wikileaks, as revoltas políticas no Oriente Médio, o Tsunami japonês etc estão lá, com dias ou no máximo 2 semanas de antecedência ou atraso. Por outro lado, picos precisos no gráfico não se referem à grandes acontecimentos, pelo menos não de acordo com nossa visão de mundo atual. Outras sugestões de conotação mais mística ou de importância duvidosa também se mostram presentes à época da minha experimentação: a morte do pensador galático e visionário José Arguelles aconteceu com um dia de defasagem de um pico no gráfico, no dia 22 de Março de 2011, e há um pico no dia 30 de Maio (um ápice de novidade), que foi o day after do casamento do príncipe britânico (24 milhões de telespectadores no mundo todo).

O mesmo princípio norteou uma pesquisa feita em cima da minha vida pessoal. Traçando um gráfico com o tempo de minha vida até agora, é possível interpretar que ele erra e acerta nos grandes picos de mudança a qual fui submetido. E a interpretação acaba “forçando” um ajuste pra cá e pra lá, ou uma reflexão sobre o que de fato foi realmente “novidade”. De qualquer forma, é só um experimento aleatório, uma vez que para criar um gráfico preciso eu teria que saber a data da minha morte (equivalente ao ponto Zero da minha vida). No final das contas, ficamos na mesma. Não dá pra dizer se funciona ou não.

Os fractais são naturais

Mas antes que você se decepcione com a conclusão, há um verdadeiro achado no meio da bagunça: de maneira bizarra, mas não surpreendente (dado o enfoque incomum de sua abordagem), Terence apontou que havia um grande pico de novidade – na verdade o maior até então – na primavera de 1996. Nesta época ele foi procurado por Mathew Watkins, um matemático intrigado com a teoria de Terence, e determinado a colocá-la à prova. A partir deste encontro, Watkins passou sua vida tão influenciado por Terence como dedicado a provar que a teoria não resiste a uma escrutinização cientifica rigorosa, e publicou a Objeção de Watkins com este fim, um texto de detalhismo matemático que escapa à compreensão de leigos. Terence não tentou refutar os questionamentos de Watkins, e inclusive se propôs a colaborar no que fosse necessário para o desenvolvimento de sua antítese. Calmo como um mestre zen, ele apontou apenas para o fato de que este enorme pico de novidade que coincidia com seu encontro com Watkins poderia ser interpretado como a Onda Temporal prevendo sua própria ruína. Em outras palavras, a teoria contém em si a previsão do seu próprio desmascaramento. Watkins, que desenvolveu uma paixão por números primos após o contato com as idéias de Mckenna e até hoje se empenha em mostrar desvios e imperfeições matemáticas que condenariam a viabilidade da Onda Temporal, afirmou recentemente que “é complicado saber como responder a isto!”

De fato – e eu acredito que esta seja a parte mais importante deste mergulho filosófico ao qual me dedico neste texto –, o que se sobressai após uma pesquisa minunciosa que inclui a leitura de artigos científicos, postulados matemáticos, múltiplos testes com o software e livros e mais livros sobre o assunto, é que de fato a teoria de Mckenna contém um verdadeiro haikai para o homem moderno: por mais complexa que ela seja do ponto de vista científico, se sua origem se deu além dos limites da ciência, seria previsível que ela não se adequasse totalmente às normas de um modelo tão “limitado” de explicação do universo. Pra fazer uma analogia, é mais ou menos como o que acontece no filme Homens de Preto, em que o bandido insetctóide se “veste” com um corpo de homem mas sua tentativa de simular uma aparência terrena se torna absurdamente grosseira. A teoria cósmica de Mckenna não poderia se apresentar de outra forma nesta realidade que não fosse ligeriamente deformada pelas limitações de sua própria manifestação linear num computador com processamento em série.

Por outro lado, temos ainda o fato de que, uma vez que a teoria aponta um funcionamento não linear do tempo, as incorreções matemáticas entre os picos no gráfico e os acontecimentos no mundo real também são previsíveis por dedução lógica: uma vez que o tempo está acelerando e se comprimindo, o gráfico que pretende representá-lo de forma linear sempre ficaria pra trás.

Terence

O fato é que, a partir do momento em que você mergulha neste jogo entre “novidade” e “hábito”, é difícil sair dele. E quando você acredita ter se livrado desta especulação e adentrado a “normalidade”, os eventos te pegam de sopetão e te jogam de volta no redemoinho. Se por um lado isto pode soar apenas como uma forma subjetiva de interpretar os fatos, por outro lado acaba funcionando como uma forma de iniciação pessoal, abrindo os sentidos para que possamos enxergar a cadeia de eventos com outros olhos, nos tornando assim mais aptos a enfrentar sequências de eventos imprevísiveis em nossas vidas.

Ademais, todos nós tendemos a deificar figuras históricas e assim ignorar suas falhas. Mas somos todos falhos, como humanos. Figuras como Mckenna, ou outros como G.I. Gurdjieff, Rudolf Steiner, Timothy Leary etc, desafiam a rotulação. Eles eram falhos, no sentido de que tinham todos um pouco de gênios, profetas, loucos e fraudulentos, mas não tinham medo de se mostrar assim. Tampouco tiravam proveito de suas imagens públicas para conquistar “seguidores”. Pelo contrário, eles focaram apenas em comunicar idéias interessantes. A lição subliminar diz respeito ao fato de que nenhum deles ERA as suas idéias. E suas idéias também não eram sobre ELES, mas sobre a NOSSA jornada, como civilização.

Modelos filosóficos que buscam uma síntese final, como o de Mckenna, são comuns. A Noosfera de Chardin, a Dialética Histórica de Hegel e a Singularidade de Kurzweil são outros exemplares. Mas no caso de teorias extremamente incomuns que desafiam a ciência tradicional como as de Terence Mckenna e os outros mencionados no parágrafo anterior, tentar descreditá-los com rigor científico é perder o fio da meada. Não devemos condená-los porque algumas de suas idéias soam bizarras e implausíveis sob o olhar científico-materialista. Pelo contrário, é mais apropriado enxergá-los como brilhantes marqueteiros virais de idéias profundas que vieram a eles através de uma inteligência superior, através daquilo que a ciência moderna não consegue compreender, que está além dos limites do cérebro, incrustrado em cada organismo, em cada elemento, na inteligência da natureza e do próprio Cosmos. Perto destes mundos de perspectivas que nos são oferecidos por estes indivíduos, a ciência moderna parece mais falha, além de antiquada, e as cosmologias ancestrais soam muito mais fascinantes.

Assim, podemos pensar na teoria de Mckenna como um modelo intuitivo de sólidas bases filosóficas, ou mesmo como uma “invenção” genial, porém absolutamente necessária para ajudar a engatilhar um processo de mudança que é iminente e fundamental para a nossa evolução. Mais do que isso: com um olho no ponto zero da Onda Temporal, podemos compreender mais facilmente a fervura dos tempos atuais e pra onde estas revoluções apontam.

As idéias fatalistas se tornam desnecessárias à luz da filosofia de Capra, dos Mckennas, dos Maias e dos místicos que prevêem uma Nova Era. Porque, como diz o trecho do I-Ching que abre O Ponto de Mutação: “Ao término de um período de decadência sobrevêm o ponto de mutação. A luz poderosa que fora banida ressurge. Há movimento, mas este não é gerado pela força… O movimento é natural, surge espontaneamente. Por essa razão, a transformação do antigo torna-se fácil. O velho é descartado, e o novo é introduzido. Ambas as medidas se harmonizam com o tempo, não resultando daí, portanto, nenhum dano.” No final, todas as forças trabalham para a evolução.

rumo a um novo mundo

1 Comentário »

  1. Luciano said

    Excelente artigo, boas citações de outros pensadores, e principalmente o link do timewavezero.

RSS feed for comments on this post · TrackBack URI

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: