Archive for março, 2012

Ciência, um Delírio

É tempo para a ciência superar o materialismo

A ortodoxia rígida do século XIX tem que ser desafiada para permitir interpretações mais amplas, argumenta o biólogo Rupert Sheldrake

A Guerra das Visões de Mundo

Werner Heisenberg, prêmio Nobel e um dos fundadores da física quântica, observou certa vez que a história pode ser dividida em períodos de acordo com os  quais uma visão dominante sobre a matéria predominou. No seu livro Física e Filosofia (Editora da Universidade de Brasília), publicado no início dos anos 60, ele argumenta que no início do século XX nós entramos em um novo período. Foi nesta época que a física quântica descartou o materialismo que dominava as ciências naturais no século XIX.

Sobre o materialismo, ele escreveu:

“(Este) enquadramento era tão estreito e rígido que era difícil encontrar um lugar nele para muitos dos conceitos de nossa linguagem que sempre pertenceram ao seu próprio substrato, por exemplo, o conceito de mente, de alma humana ou de vida. A mente podia ser introduzida no quadro geral apenas como uma espécie de espelho do mundo material.”

Hoje nós vivemos no século XXI, mas parece que ainda estamos empacados nesta visão estreita e rígida sobre as coisas. Como Rupert Sheldrake relata em seu novo livro, publicado lá fora recentemente, The Science Delusion (Ciência, Um Delírio, em referência a The God Delusion – ou Deus, Um Delírio – de Richard Dawkins): “O sistema de crenças que governa o pensamento científico tradicional é um ato de fé, apoiado numa ideologia do século XIX.”

Esta é uma retórica provocadora. Ciência como um ato de fé? Ciência como um sistema de crenças? Mas senão, como explicar o apego à cosmologia mecanicista e fisicalista, que não vê propósito nas coisas? Como Heisenberg explicou, no mundo da física faz tempo que não se pensa mais em átomos como coisas. Eles existem como potencialidades ou possibilidades, e não objetos ou fatos. Ainda assim, o materialismo persiste.

Heisenberg recomendou mantermos contato com a realidade da maneira como a experimentamos, o que quer dizer deixarmos um espaço aberto para os conceitos de mente e alma. A visão mecanicista irá passar, ele tinha certeza. De certa forma, a carreira científica de Sheldrake tem sido devotada a esta derrocada. Ele começou num posto estabelecido como diretor de estudos em biologia celular na Universidade de Cambridge, apesar de ter desafiado a ortodoxia quando propôs sua teoria dos campos morfogenéticos.

Ela foi elaborada para lidar com, vamos dizer, a enorme complexidade da estrutura das proteínas. Uma abordagem convencional, que poderia ser descrita como “causação ascendente” (de baixo pra cima: a vida seria criada a partir dos menores “blocos de construção” existentes para cima, ou seja, em direção a moléculas mais complexas, até chegar aos animais e plantas), vê as moléculas de proteínas “explorando” todas os padrões possíveis até que possam se assentar num modelo com um gasto mínimo de energia. Esta explicação funciona bem para moléculas simples, como o dióxido de carbono. Entretanto, proteínas são grandes e complicadas. Como Sheldrake nota: “O tempo que levaria para que uma proteína fizesse isso é de aproximadamente 1026 anos, muito mais que a idade do universo.”

Como consequência, alguns cientistas estão propondo explicações holísticas, baseadas na “causação descendente” (de cima pra baixo). A proposição particular de Sheldrake é que tais sistemas auto-organizávies existem em campos de memória e hábito. Eles conteriam a informação necessária para se criar a estrutura.

Sem medo, ele extende a especulação para abarcar uma amplitude de fenômenos que muitas pessoas experimentam. A “telepatia telefônica” seria uma delas: quando você está pensando sobre alguém e esta pessoa te liga na sequência. Ou a sensação de estar sendo observado. A idéia, em termos gerais, é que nossas intenções podem ser comunicadas através de campos mentais que são como campos morfogenéticos (campos que geram as formas complexas que serão manifestadas no mundo físico). Eles nos conectam – apesar de que, no mundo moderno, com suas distrações ideológicas e tecnológicas, nós não somos muito bons em notá-los.

Sheldrake tem que lutar por sua teoria continuamente. Em seu novo livro, ele registra um encontro com Richard Dawkins, quando o eminente ateu estava produzindo sua série de TV de 2007, “Inimigos da Razão”. Sheldrake sugeriu a Dawkins que eles discutissem a evidência factual da telepatia. Dawkins resistiu. “Não tenho tempo. É muito complicado. E o meu programa não é sobre isto”, Sheldrake afirma que Dawkins disse, ao que ele replicou sugerindo que ele (Dawkins) não estava interessado em tomar parte de outro “exercício de desmascaramento a nível de ensino fundamental”. Dawkins afirmou: “Não é um exercício a nível de fundamental; é um exercício de desmascaramento de nível superior.”

Eu admiro Sheldrake por seu extraordinário bom humor, mesmo depois de décadas de abuso que ele teve que suportar. Este estado de espírito permeia todo o The Science Delusion porque, no fundo, é um apelo passional para que a visão de mundo materialista seja, finalmente, desafiada.

Se suas teorias irão sobreviver ao teste do tempo ou não é outra questão. Num artigo publicado no Journal of Consciousness Studies em Novembro último, Fraser Watts examina estas teorias a sério e, de forma abrangente, acha que elas são sugestivas mas incompletas. Por exemplo, Sheldrake concebe os campos mentais através de uma analogia com uma ameba: E da mesma forma que uma ameba extende seus pseudópodes e toca o ambiente ao seu redor, a telepatia e afins seriam o resultado de uma “pseudopódia mental” extendida para o mundo ao nosso redor.

A analogia tem a vantagem de “naturalizar” a percepção extrasensorial. Watts nota. Mas ela também levanta questões. Por exemplo, como seria possível “tocar” mentalmente objetos que não existem, como aconteceria se contemplarmos um centauro? Watts conclui: “Uma descrição adequada da mente deve abordar tanto a descrição em primeira pessoa como em terceira pessoa, ao passo que a idéia de um ‘campo’, junto de outras descrições espaciais que Sheldrake usa, parecem ser exclusivamente descrições típicas da terceira pessoa.” Curiosamente, esta é uma atitude descaradamente século XIX.

Mesmo assim, Sheldrake deve ser receptivo com tanto comprometimento sério com seu trabalho. Ele pode não estar correto nos detalhes. Mas ele está com certeza correto, junto a Heisenberg, ao insistir que a visão materialista de mundo deve ir embora.

Artigo de Mark Vernon, publicado originalmente no The Guardian em 28/01/2012. Traduzido e ilustrado por Marcelo Schenberg para o Plantando Consciência.
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Gaia

Poucas vezes nos damos conta de quão esquisito é o calendário que usamos e que a maioria do mundo (ainda) usa. Os 365 dias não encaixam direito no movimento dos planetas, e o 29 de fevereiro que existiu esse ano nos lembra esse fato. A cada quatro anos o calendário gregoriano passa por um “ajuste”, e atualmente isso é feito enfiando-se um dia a mais em fevereiro, que geralmente tem só 28 dias. Enquanto os outros alternam entre 30 e 31. Quer dizer… alternam mais ou menos. Julho e Agosto formam uma sequência de dois meses com 31 dias. Isso porque o ego de Cesar Augustus era tão grande quanto o de Júlio César, imperadores romanos. E já que a Júlio César tinha sido dado um mês com 31 dias, a César Augustus também foi concedida a mesma benesse, restando a fevereiro fazer a boa ação de ceder os dias necessários pra que a conta continuasse fechando em 365.

A historinha romana nos lembra que na base de nosso calendário estão disputas sangrentas pelo poder (Julio César foi assassinado) e pouco ou nenhum entusiasmo com os ciclos fundamentais da natureza e do planeta que nos serve não apenas de casa, mas de suporte de vida. Uma mentalidade que ainda perdura, em especial para o 1%, com duras penas para os 100%… É a Terra que nos dá tudo que comemos, a oportunidade de aproveitar energia (e de desperdiçar também) entre inúmeras outras coisas. Mas esse conhecimento, que deveria ser fundamental e ensinado com carinho desde a pré-escola, é marginalizado pela arrogância do homo sapiens que se considera o ponto mais alto da evolução, o ser mais inteligente. Por consequência então segue achando que o tempo deve ser medido em relação a si mesmo e que o planeta deve ser pilhado. Rios devem ser transformados em hidrelétricas, montanhas devem ser explodidas para extração de minério, florestas desmatadas para obtenção de madeira, peixes pescados predatoriamente, tudo em ritmo sempre crescente. Sempre elevando o PIB com o olhar míope que não alcança mais do que um, na melhor das hipóteses dois ciclos políticos, como escancarou a nomeação de um bispo que nunca pescou e não entende nem “acredita” na evolução (como se fosse tópico passivel de crença ou descrença…), como ministro da pesca…

Assim, seguimos todos comemorando datas com feriados de uma origem religiosa fortemente antropocêntrica e patriarcal, no caso a cristã, mesmo que sejamos ateus ou agnósticos, budistas, crentes em Jah ou o que quer que seja. Nos esquecemos de que a passagem do tempo é marcada pelo ciclos naturais, e hoje é uma data propícia pra lembrar disso porque é equinóceo, é fim de verão e começo de outono para uns, fim de inverno e começo de primavera para outros. O planeta mais uma vez re-inicia um ciclo, encerrando outro…

E nesse ano, além de ser bissexto e nos presentear com o dia extra, duas fotos foram publicadas, em 25 de Janeiro e 02 de Fevereiro, que novamente nos remetem à grandiosidade e importância que tem esse planeta, que volta a ser foco das atenções conforme rumamos a um futuro imprevisível com grandes probabilidades de algumas catástrofes acontecerem, dada a nossa desconexão com o mundo natural, com os ciclos da natureza, o movimento dos planetas, o ciclo das estações, os equilíbrios ecológicos e a delicada harmonia da vida. A NASA publicou duas imagens de um mesmo objeto, que se hoje estamos razoavelmente acostumados a ver, outrora nunca havia sido visto, pelo menos não dessa maneira, com a beleza e suavidade de seus 360 graus, em meio a uma infinitude de espaço sem vida que se extende até onde os mais avançados instrumentos científicos chegaram até hoje. Essa grande esfera foi agora fotografada com definição sem precedentes, e nos permite uma vez mais contemplar a beleza do pequeno ponto azul.

A primeira vez que a NASA liberou uma foto do planeta, aliás, foi devido a um insight psicodélico. Numa sociedade obcecada pelo progresso industrial e tecnológico dividida com fervores religiosos antropocêntricos, a idéia de divulgar uma foto do planeta não havia, por incrível que pareça, passado na cabeça de nenhum dos membros dos gigantescos projetos espaciais, distraídos provavelmente pela feroz competição típica da guerra fria… Coube a Stewart Brand, membro da trupe psicodélica conhecida como os Merry Pranksters, ter o insight durante uma sessão de LSD em 1966. Stewart, também criador de um livro épico dos anos 60, o Whole Earth Catalog, percebeu que uma imagem do planeta, visto de fora, inteiro, seria um potente catalizador de uma nova percepção para a humanidade, tão distraída com o progresso industrial e as datas comemorativas de religiões que ha muito esqueceram ou que sequer reconheceram na prática que o mundo é redondo, que gira em torno do sol, que os recursos são finitos e que estamos nessa todos juntos, independente de fronteiras e bandeiras, de crença e de raça. A imagem do planeta foi divulgada somente em 1968 quando astronautas da missão Apollo mandaram a primeira foto colorida de Gaia. No meio tempo, Stewart fez campanha com broches com a pergunta “Por que ainda não vimos uma foto do planeta inteiro?”, que mandva para políticos, membros da ONU, da NASA, da união soviética… Segundo Stewart, a foto “reenquadrou tudo. Pela primeira vez a humanidade se viu de fora. As características do planeta eram um azul e verde vivos – continentes marrons e calotas polares extremamente brilhantes – e uma atmosfera complicada, ativa. Tudo arranjado como uma jóia em meio a imensidões de espaço e vácuo”.

De fato, a imagem do planeta chacoalhou a consciência da humanidade, e pode ser tido com um dos pontos que marcam o nascimento do movimento ecológico, que ganha força e se torna cada vez mais importante, dados os desafios globais que enfrentamos atualmente.

Uma característica comum dos efeitos dos psicodélicos, especialmente quando usados com sabedoria e respeito, junto a um ambiente natural, são insights sobre a maravilha da natureza, a beleza e o mistério em cada pétala, em cada inseto, a complexidade de comportamentos, a interdependência de todos com todos, a percepção simples e súbita, porém profunda e de efeitos duradores, da preciosidade da teia da vida. Não é a toa que os chamam também, entre inúmeros outros nomes, de ecodélicos. Albert Hofmann, pai do LSD, nos diz:

“A humanidade agora enfrenta desafios de enormes proporções; a sobrevivência da nossa espécie e de milhares de formas de vida estão em jogo. Um entendimento sagrado de toda a vida é necessário como base para um comportamento compassivo e para ações criativas que irão servir e sustentar a vida. Espero que no início deste novo milênio, as pessoas usem toda a variedade de práticas espirituais para ajudar a transformar a visão de mundo de nossa fixada cultura materialista. Tal mudança de valores nos levará a uma maior sensação de interconectividade com todas as criaturas de Deus e uma apreciação mais profunda da infinita riqueza e maravilha do cosmos e a igualmente infinita riqueza dos reinos interiores de nosso ser.”

São vários os pioneiros do movimento ecológico que atestaram a importância de seus insights de experiências psicodélicas, e na aproximação da Rio+20 em meio a um governo considerado por muitos o pior para a área ambiental desde a ditadura militar, apreciar de novo a beleza e o poder das imagens de Gaia em alta definição em pleno equinóceo pode, quem sabe, despertar algumas almas para um novo mundo que se levanta.

Ou será que o provérbio Cree será realizado?

“Somente após a última árvore ser cortada.

Somente após o último rio ser envenenado.

Somente após o último peixe ser pescado.

Somente então o homem descobrirá que dinheiro não pode ser comido!!”

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Propaganda: a Arma do Negócio

O salvador branco apóia políticas brutais de manhã, financia caridades de tarde e recebe prêmios à noite – Teju Cole, escritor nigeriano

Lembrando da minha predisposição pra plantar consciência, um grande amigo da minha esposa indicou um link no facebook semana passada e comentou “mostra isso pro Marcelo, ele vai pirar!”. Fiquei feliz com a consideração e agradeci com um sorriso de emoticon. Pouco tempo depois, outra amiga do universo da jardinagem de consciência, desta vez uma permacultora, postou um link pro mesmo vídeo. E depois veio outro, e mais outro… e hoje o vídeo é um fenômeno viral sem precedentes no gênero.

Qual não foi o meu choque quando fui conferir do que se tratava este Kony 2012 e ser lembrado, abalado, de que o ser humano tem um lado absolutamente perverso. O filme se propõe a contar a história de um líder de um grupo paramilitar africano, Joseph Kony, e a retratá-lo como um monstro comedor de criancinhas que precisa ser parado imediatamente. A história é contada a partir da vida pessoal do narrador, um americano típico que se envolveu com um garoto negro da Uganda. Este garoto, Jacob, é apresentado como um retrato fiel de uma realidade que inclui dezenas de milhares de jovens ugandenses que estão sendo abduzidos de suas famílias, torturados, mutilados, abusados e treinados para se tornarem máquinas de matar sem um objetivo definido, que não a manutenção de Kony no poder.

Primeiro, me impressiona como o filme conquistou rapidamente o coração de tanta gente no mundo, e não apenas de americanos capazes de se identificar com o estilo “Backstreet Boys crescido” de Jason Russel, o narrador. Mas faz sentido. Do ponto de vista da estratégia de comunicaçao, o filme de meia hora é um “experimento” impecável. Ele lança mão de recursos que fazem pessoas como eu e você nos identificarmos rapidamente com a causa: através de vídeos do youtube, perfil do facebook e fotos do instagram – todos com tratamento absolutamente profissional – o filminho parte da relação amorosa de Russel com seu filho pequeno, Gavin, para nos introduzir esta comovente história, e então propor uma campanha global para fazer Kony famoso através de recuros midiáticos (daí o título em referência às campanhas políticas), para que o mundo acorde para o problema e ajude a prendê-lo a qualquer custo.

No momento em que o garoto Jacob coloca as mãos no rosto e chora, logo após ser confrontado com as lembranças de seu irmão morto cruelmente pelos algozes de Kony e confessar que preferia morrer a viver nessas condições, eu me enchi de raiva e indignação. Mas não por causa de sua história de abuso e sofrimento, ou da maldade de Joseph Kony, que segundo o filme é “o pior criminoso do mundo de acordo com a Corte Criminal Internacional (ICC)” (Kadafi aparece em 24º lugar, e todos são de países africanos). Mas por estarem tentando me manipular de maneira tão ofensiva, e tão profundamente perversa.

O que se passa nas entrelinhas desta “campanha do bem” é de tal maneira ultrajante que me tirou do meu foco por dias. Há um trecho paradigmático do filme em que Russel conta que seu filho Gavin ainda não sabe exatamente o que ele faz da vida, ou do que se trata esta causa, e ele irá explicar ao garoto na frente das câmeras. Então ele coloca o menino sentado atrás de uma grande mesa e, de pé do outro lado, no melhor estilo interrogatório policial, pergunta:

“O que o papai faz pra viver?”
“Você pára os caras maus de fazerem maldade”
“E quem são os caras maus?”
O menino fica confuso.
“As pessoas do Guerra nas Estrelas”
“Do Guerra nas Estrelas?”
“É”
“Esses são os caras maus?”
“São”
Então ele pergunta se pode contar o nome do cara mau e, sob o aceno do menino,  coloca uma foto de Kony na mesa para o garoto examinar.
“Este é o cara mau?”, Gavin pergunta surpreso.
“É! E quem é este?”, ele empurra uma foto de Jacob, lado a lado com a de Kony.
“Jacob!”
“Joseph Kony tem um exército”, prossegue o pai de Gavin, enquanto toca levemente primeiro na foto de Kony e depois na foto de Jacob.
“E o que ele faz é tirar as crianças de seus pais, e então ele lhes dá uma arma, para atirar, e faz com que eles atirem e matem outras pessoas”
Enquanto fala, Russel fica tocando nas duas fotos alternadamente, e o garoto olha de uma pra outra confuso.
“Mas eles não vão fazer isso porque eles são bonzinhos, não é?”
“Eles não querem fazer, mas eles são forçados. O que você acha disso?”
“Triste”, o menino responde, enquanto se debruça sobre as duas fotos completamente perdido.

Entendeu, Gavin?

Minha filha estuda em uma escola Waldorf. Quando ela ingressou no fundamental, percebi aterrorizado a profundidade do grau de comprometimento que a educação tradicional tem com um programa sistematizado de condicionamento mental. Um programa que perdeu o foco no ser humano e só tem olhos pros exames que estas crianças terão de enfrentar quando já tiverem deixado de ser crianças há muito tempo. Nossas crianças são, por livre e espontânea vontade dos pais, educadas em fábricas de automação em série. Descobrir a educação Waldorf nesse momento foi como encontrar um tesouro escondido há muito tempo. Um tesouro de valor inestimável.

A pedagogia Waldorf tem uma visão iluminada sobre os processos de crescimento do ser humano e seu ritmo de desenvolvimento cognitivo. Segundo esta perspectiva, na etapa entre  1 a 7 anos a criança tem uma grande abertura em relação ao mundo. Ela acolhe sem resistência tudo o que lhe advém do ambiente em redor, entregando-se ao mundo com confiança ilimitada. Vive num estado de ingenuidade paradisíaca, num mundo em que o bem e o mal se confundem indistintamente.

Cuidemos de nossas crianças!

Eles estão certos. Se você tem filhos e acompanha de perto seu crescimento, fica muito fácil entender. Assim, podemos compreender que o menino Gavin, que tem por volta de 4 a 6 anos, ainda não tem um intelecto desenvolvido, capaz de processar a distinção racional que seu pai impõe, entre o menino bom e o menino mau. Então, quando é confrontado com as duas fotos, tudo o que ele vê são pessoas. Só que no meio tempo ele está sendo bombardeado por  uma história sobre homens maus, e sobre seu pai estar numa cruzada contra eles.

Acontece que estas pessoas tem uma coisa em comum, fácil de notar pelas fotos, mas que ele, Gavin, não vê em sua família. Eles são negros. Pois é. A mensagem subliminar de Russel para seu filho, e para o espectador, é profundamente racista. Mesmo que ele não tenha saído do ármário por se considerar amigo de Jacob. Mas o racismo está onipresente no filme, e isto não se deve apenas ao fato de o vilão da história ser negro, ou devido ao fato de que as fotos de Jacob e Kony uma ao lado da outra são – sob o olhar infantil – sutis variações de um mesmo arquétipo.

Mas porque o tempo todo, Jacob, o negro “do bem”, é tratado como um coitado. Não apenas por sua história de abuso e violência. Mas ele é retratado como uma espécie de “primata”, um garoto carente de ser civilizado. Há um vídeo pretensamente caseiro de uma visita dos dois um zoológico, ou parque aquático, no qual Jacob se assusta com um golfinho e é acolhido por Russel, que diz rindo, em tom paternalista, “Está tudo bem, eles são bonzinhos, são diferente dos tubarões”. Jacob é o bobo, o menino ignorante que não sabe distinguir um golfinho sorridente de um tubarão com cara de mau.

Esta visão colonizadora se manifesta ao longo de todo o filme, e mesmo assim ele é um sucesso global. Exemplos não faltam. Em outro momento, o narrador pergunta a Jacob o que ele gostaria de ser quando crescer, ao que ele responde meio sem graça, “Eu gostaria de ser um advogado, mas… eu não tenho dinheiro pra pagar as mensalidades da escola… pra que eu possa aprender e me tornar um advogado.” O vídeo enaltece a resposta do garoto com a intenção de tocar nosso coração pela falta de oportunidades que vemos em sua vida, mas o que está por trás é um pensamento arrogante e colonizador que vê as culturas alheias à ocidental como povos primitivos que anseiam em serem salvos e se tornar como nós.

Se você já teve algum contato com outras culturas não ocidentais, sabe que não é possível compará-las com a nossa a partir de premissas que só fazem sentido na mente ocidental. Assim, ir pra escola ou se tornar advogado não é necessariamente uma opção desejável. Isto é o que nós fomos condicionados a pensar como um objetivo digno, na nossa cultura. “Médico, advogado ou engenheiro”…. não são estas as profissões que aprendemos serem dignas de respeito (e às vezes únicas opções) com as gerações anteriores? Logo, sugerir que os garotos negros da Uganda sofrem porque sonham em vão com a faculdade de direito é projetar indiscriminadamente e de maneira desrespeitosa o seu próprio condicionamento mental nos outros.

Aula de geografia americana

Russel se vangloria de sua organização ter financiado a construção de escolas na região. A mesma ladainha que governantes usam para gerar números para campanhas. Construir escolas por si só não é mérito. Que espécie de valores serão ensinados ali? Do que a comunidade necessita de fato? De uma amostra grátis do american way of life, que por sinal nem mais na “América” está aguentando o teste do tempo? E os valores ugandenses, e sua história, suas tradições, sua visão de mundo? Ninguém considera esta questão.

Mas isso não é tudo. Este jogo psicológico cruel que Russel faz com seu filho diante das câmeras é repulsivo. Você já ouviu esse discurso do “cara mau” antes. Da boca de gente como George Bush, Giulliani, Dick Cheney e todos aqueles que alimentam o medo do “Terror” e usam bodes expiatórios como Kony, ou Bin Laden, ou Saddam Husseim, para justificar suas atitudes intervencionistas e seus genocídios em nome de uma campanha “contra o mal” (e a favor do petróleo, claro).

Este jogo de espelhos está baseado numa premissa da sociedade moderna de que o mal está lá fora. Que existe “eles contra nós”. Os americanos são profissionais em fazer uso deste temor psicológico para fins diversos. A mídia aponta dedos pros monstros externos o tempo todo para que não olhemos pra dentro de nós mesmos. Somos tratados, como sociedade, da mesma forma que Russel trata o seu filho: como crianças psicologicamente manipuláveis, como massinha de modelar, através de recursos que exploram o medo na sua forma mais arquetípica.

Agora talvez esteja ficando claro, se você viu o vídeo e se sensibilizou logo de cara. Você já viu dezenas de dramas assim. São métodos eficientes da propaganda que seduzem o espectador pelos instintos mais primitivos. Primeiro, empatia e identificação. Depois, choque, terror, raiva, pena, indignação. E finalmente uma oferta irrecusável para você ajudar a salvar o mundo, acompanhado de kits de produtos customizados para você desembolsar o seu rico dinheirinho e literalmente “vestir a camisa” de uma causa que “vale a pena”.

Felizmente eu não estou sozinho nesta indignação. A organização de Russel tem um passado sombrio e questionamentos diversos sobre a idoneidade de sua campanha estão surgindo. O editor de ambiente do The Guardian, John Vidal, lembra com correção que “por trás do vídeo e do site caprichados, e do discurso tocante sobre ‘mudar o curso da história’, existe uma operação nariz-empinado de olho na grana, comandada por cineastas, contadores, experts em comunicação, lobistas e vendedores profissionais americanos.”

Mas se os críticos estão de olho nos números, poucos são aqueles que estão questinando a campanha por sua devassidão moral. Pra piorar o que já estava ruim, Russel não esconde seu desejo intervencionista de ver tropas americanas na Uganda. Ele comemora de punhos pro ar a conquista suada de uma declaração do presidente Obama consentindo com o envio de um “pequeno contingente de homens do exército para ajudar as forças regionais que estão trabalhando para remover Joseph Kony do campo de batalha”. Chega inclusive a sugerir que “para que Kony seja preso ainda este ano, o exército de Uganda tem que encontrá-lo. Mas para que encontrem-no precisam da tecnologia e do treinamento para localizá-lo dentro de uma vasta floresta. É aí que entram os assessores americanos ”. Mais uma vez, já vimos este filme antes, só que o cenário em questão eram as cavernas no deserto, lembra?

O que o filme não conta é que Kony não está mais na Uganda, e seu exército paramilitar decadente consiste hoje em umas poucas centenas de pessoas. Na melhor das hipóteses, Russel chegou tarde. Na pior, tem coisa por trás desta história.

No documentário italiano O Novo Século Americano, o diretor Maximo Mazzucco lembra que  “a Constituição Americana não permite aos EUA começar uma guerra de agressão, e reserva ao Parlamento declarar guerra a outra nação, no caso que torne-se necessário defender-se. Por este motivo, cada vez que um presidente quis tomar parte numa guerra ou começar uma nova, teve que esperar um incidente militar, criado ou provocado, para justificar de alguma maneira a intervenção armada frente ao Parlamento e à população.”

E assim a história se fez. Em 1898, os EUA travaram uma guerra contra a Espanha pelo domínio de Cuba, que era estratégico para o controle do Golfo do México. O pretexto de guerra veio do afundamento do navio militar USS Maine, que estava ancorado no porto de Havana. Os americanos imediatamente culparam os espanhóis, ainda que eles se declarassem completamente inocentes. As imagens do barco semi-afundado e dos funerais dos marinheiros foram projetadas nos primeiros cinemas de toda a nação, gerando um estado de indignação suficiente para poder lançar uma guerra, que o futuro presidente Roosevelt, então Ministro da Marinha, havia preparado até o mínimo detalhe. Foi somente em 1980, quase um século depois, que os americanos reconheceram que os espanhóis eram de fato inocentes do ataque, mas declararam, para se isentar da culpa, que o Maine havia sido afundado porque alguns explosivos foram colocados muito próximos à caldeira.

Desde então, todas as guerras foram provocadas por “false flags”, como estas “iscas” são chamadas lá fora: em 1915, foi o afundamento do barco Lusitânia por um submarino alemão, que precipitou a I Guerra Mundial. Em 1941 foi o conhecido ataque a Pearl Harbor (II Guerra); em 1964 o Incidente do Golfo de Tonkin (Vietnã); em 1990 a invasão do Kuait (Guerra do Iraque) e em 2001 o 11 de Setembro (Guerra ao Terror). Todos estes “incidentes” ocorreram em circunstâncias nebulosas e há incontáveis relatos, evidências e documentos apontando para o fato de que todos foram premeditados ou provocados de alguma forma.

Dizem que a história acontece primeiro como tragédia e se repete como farsa. Se este Kony 2012 é uma nova modalidade de “false flag”, só o tempo dirá, e não vai demorar. Mas abra o olho. Antes de sair compartilhando Kony 2012 pelos quatro ventos, lembre-se do aviso que o próprio filme traz em sua abertura: “os próximos 27 minutos são um experimento. Mas para que ele funcione, você deve prestar atenção”.

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Nossa visão de mundo deve se refletir em nosso comportamento

Neste vídeo produzido durante sua visita no Brasil, Amit Goswami explica sua proposta de mudança de atitude para mudar o mundo. Goswami é um pensador genial, tido pelo pessoal do Instituto Aleph, que administra suas vindas para o Brasil, como o “Einstein do Século XXI“. E eles possivelmente estão certos.

Ele é o primeiro físico acadêmico a introduzir os princípios revolucionários da física quântica para o nosso mundo do dia a dia, desde que Fritjof Capra iluminou o futuro com O Tao da Física e O Ponto de Mutação. Mas Goswami vai ainda adiante, ao abordar a espiritualidade com um olhar 100% científico, mas totalmente pós-materialista.

Ele irá ministrar um workshop imperdível sobre Ativismo Quântico e Criatividade no dia 05 de Maio em São Paulo. Curta a página do Instituto Aleph aqui para saber mais: http://www.facebook.com/institutoaleph.

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O homem que plantava árvores

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