Propaganda: a Arma do Negócio

O salvador branco apóia políticas brutais de manhã, financia caridades de tarde e recebe prêmios à noite – Teju Cole, escritor nigeriano

Lembrando da minha predisposição pra plantar consciência, um grande amigo da minha esposa indicou um link no facebook semana passada e comentou “mostra isso pro Marcelo, ele vai pirar!”. Fiquei feliz com a consideração e agradeci com um sorriso de emoticon. Pouco tempo depois, outra amiga do universo da jardinagem de consciência, desta vez uma permacultora, postou um link pro mesmo vídeo. E depois veio outro, e mais outro… e hoje o vídeo é um fenômeno viral sem precedentes no gênero.

Qual não foi o meu choque quando fui conferir do que se tratava este Kony 2012 e ser lembrado, abalado, de que o ser humano tem um lado absolutamente perverso. O filme se propõe a contar a história de um líder de um grupo paramilitar africano, Joseph Kony, e a retratá-lo como um monstro comedor de criancinhas que precisa ser parado imediatamente. A história é contada a partir da vida pessoal do narrador, um americano típico que se envolveu com um garoto negro da Uganda. Este garoto, Jacob, é apresentado como um retrato fiel de uma realidade que inclui dezenas de milhares de jovens ugandenses que estão sendo abduzidos de suas famílias, torturados, mutilados, abusados e treinados para se tornarem máquinas de matar sem um objetivo definido, que não a manutenção de Kony no poder.

Primeiro, me impressiona como o filme conquistou rapidamente o coração de tanta gente no mundo, e não apenas de americanos capazes de se identificar com o estilo “Backstreet Boys crescido” de Jason Russel, o narrador. Mas faz sentido. Do ponto de vista da estratégia de comunicaçao, o filme de meia hora é um “experimento” impecável. Ele lança mão de recursos que fazem pessoas como eu e você nos identificarmos rapidamente com a causa: através de vídeos do youtube, perfil do facebook e fotos do instagram – todos com tratamento absolutamente profissional – o filminho parte da relação amorosa de Russel com seu filho pequeno, Gavin, para nos introduzir esta comovente história, e então propor uma campanha global para fazer Kony famoso através de recuros midiáticos (daí o título em referência às campanhas políticas), para que o mundo acorde para o problema e ajude a prendê-lo a qualquer custo.

No momento em que o garoto Jacob coloca as mãos no rosto e chora, logo após ser confrontado com as lembranças de seu irmão morto cruelmente pelos algozes de Kony e confessar que preferia morrer a viver nessas condições, eu me enchi de raiva e indignação. Mas não por causa de sua história de abuso e sofrimento, ou da maldade de Joseph Kony, que segundo o filme é “o pior criminoso do mundo de acordo com a Corte Criminal Internacional (ICC)” (Kadafi aparece em 24º lugar, e todos são de países africanos). Mas por estarem tentando me manipular de maneira tão ofensiva, e tão profundamente perversa.

O que se passa nas entrelinhas desta “campanha do bem” é de tal maneira ultrajante que me tirou do meu foco por dias. Há um trecho paradigmático do filme em que Russel conta que seu filho Gavin ainda não sabe exatamente o que ele faz da vida, ou do que se trata esta causa, e ele irá explicar ao garoto na frente das câmeras. Então ele coloca o menino sentado atrás de uma grande mesa e, de pé do outro lado, no melhor estilo interrogatório policial, pergunta:

“O que o papai faz pra viver?”
“Você pára os caras maus de fazerem maldade”
“E quem são os caras maus?”
O menino fica confuso.
“As pessoas do Guerra nas Estrelas”
“Do Guerra nas Estrelas?”
“É”
“Esses são os caras maus?”
“São”
Então ele pergunta se pode contar o nome do cara mau e, sob o aceno do menino,  coloca uma foto de Kony na mesa para o garoto examinar.
“Este é o cara mau?”, Gavin pergunta surpreso.
“É! E quem é este?”, ele empurra uma foto de Jacob, lado a lado com a de Kony.
“Jacob!”
“Joseph Kony tem um exército”, prossegue o pai de Gavin, enquanto toca levemente primeiro na foto de Kony e depois na foto de Jacob.
“E o que ele faz é tirar as crianças de seus pais, e então ele lhes dá uma arma, para atirar, e faz com que eles atirem e matem outras pessoas”
Enquanto fala, Russel fica tocando nas duas fotos alternadamente, e o garoto olha de uma pra outra confuso.
“Mas eles não vão fazer isso porque eles são bonzinhos, não é?”
“Eles não querem fazer, mas eles são forçados. O que você acha disso?”
“Triste”, o menino responde, enquanto se debruça sobre as duas fotos completamente perdido.

Entendeu, Gavin?

Minha filha estuda em uma escola Waldorf. Quando ela ingressou no fundamental, percebi aterrorizado a profundidade do grau de comprometimento que a educação tradicional tem com um programa sistematizado de condicionamento mental. Um programa que perdeu o foco no ser humano e só tem olhos pros exames que estas crianças terão de enfrentar quando já tiverem deixado de ser crianças há muito tempo. Nossas crianças são, por livre e espontânea vontade dos pais, educadas em fábricas de automação em série. Descobrir a educação Waldorf nesse momento foi como encontrar um tesouro escondido há muito tempo. Um tesouro de valor inestimável.

A pedagogia Waldorf tem uma visão iluminada sobre os processos de crescimento do ser humano e seu ritmo de desenvolvimento cognitivo. Segundo esta perspectiva, na etapa entre  1 a 7 anos a criança tem uma grande abertura em relação ao mundo. Ela acolhe sem resistência tudo o que lhe advém do ambiente em redor, entregando-se ao mundo com confiança ilimitada. Vive num estado de ingenuidade paradisíaca, num mundo em que o bem e o mal se confundem indistintamente.

Cuidemos de nossas crianças!

Eles estão certos. Se você tem filhos e acompanha de perto seu crescimento, fica muito fácil entender. Assim, podemos compreender que o menino Gavin, que tem por volta de 4 a 6 anos, ainda não tem um intelecto desenvolvido, capaz de processar a distinção racional que seu pai impõe, entre o menino bom e o menino mau. Então, quando é confrontado com as duas fotos, tudo o que ele vê são pessoas. Só que no meio tempo ele está sendo bombardeado por  uma história sobre homens maus, e sobre seu pai estar numa cruzada contra eles.

Acontece que estas pessoas tem uma coisa em comum, fácil de notar pelas fotos, mas que ele, Gavin, não vê em sua família. Eles são negros. Pois é. A mensagem subliminar de Russel para seu filho, e para o espectador, é profundamente racista. Mesmo que ele não tenha saído do ármário por se considerar amigo de Jacob. Mas o racismo está onipresente no filme, e isto não se deve apenas ao fato de o vilão da história ser negro, ou devido ao fato de que as fotos de Jacob e Kony uma ao lado da outra são – sob o olhar infantil – sutis variações de um mesmo arquétipo.

Mas porque o tempo todo, Jacob, o negro “do bem”, é tratado como um coitado. Não apenas por sua história de abuso e violência. Mas ele é retratado como uma espécie de “primata”, um garoto carente de ser civilizado. Há um vídeo pretensamente caseiro de uma visita dos dois um zoológico, ou parque aquático, no qual Jacob se assusta com um golfinho e é acolhido por Russel, que diz rindo, em tom paternalista, “Está tudo bem, eles são bonzinhos, são diferente dos tubarões”. Jacob é o bobo, o menino ignorante que não sabe distinguir um golfinho sorridente de um tubarão com cara de mau.

Esta visão colonizadora se manifesta ao longo de todo o filme, e mesmo assim ele é um sucesso global. Exemplos não faltam. Em outro momento, o narrador pergunta a Jacob o que ele gostaria de ser quando crescer, ao que ele responde meio sem graça, “Eu gostaria de ser um advogado, mas… eu não tenho dinheiro pra pagar as mensalidades da escola… pra que eu possa aprender e me tornar um advogado.” O vídeo enaltece a resposta do garoto com a intenção de tocar nosso coração pela falta de oportunidades que vemos em sua vida, mas o que está por trás é um pensamento arrogante e colonizador que vê as culturas alheias à ocidental como povos primitivos que anseiam em serem salvos e se tornar como nós.

Se você já teve algum contato com outras culturas não ocidentais, sabe que não é possível compará-las com a nossa a partir de premissas que só fazem sentido na mente ocidental. Assim, ir pra escola ou se tornar advogado não é necessariamente uma opção desejável. Isto é o que nós fomos condicionados a pensar como um objetivo digno, na nossa cultura. “Médico, advogado ou engenheiro”…. não são estas as profissões que aprendemos serem dignas de respeito (e às vezes únicas opções) com as gerações anteriores? Logo, sugerir que os garotos negros da Uganda sofrem porque sonham em vão com a faculdade de direito é projetar indiscriminadamente e de maneira desrespeitosa o seu próprio condicionamento mental nos outros.

Aula de geografia americana

Russel se vangloria de sua organização ter financiado a construção de escolas na região. A mesma ladainha que governantes usam para gerar números para campanhas. Construir escolas por si só não é mérito. Que espécie de valores serão ensinados ali? Do que a comunidade necessita de fato? De uma amostra grátis do american way of life, que por sinal nem mais na “América” está aguentando o teste do tempo? E os valores ugandenses, e sua história, suas tradições, sua visão de mundo? Ninguém considera esta questão.

Mas isso não é tudo. Este jogo psicológico cruel que Russel faz com seu filho diante das câmeras é repulsivo. Você já ouviu esse discurso do “cara mau” antes. Da boca de gente como George Bush, Giulliani, Dick Cheney e todos aqueles que alimentam o medo do “Terror” e usam bodes expiatórios como Kony, ou Bin Laden, ou Saddam Husseim, para justificar suas atitudes intervencionistas e seus genocídios em nome de uma campanha “contra o mal” (e a favor do petróleo, claro).

Este jogo de espelhos está baseado numa premissa da sociedade moderna de que o mal está lá fora. Que existe “eles contra nós”. Os americanos são profissionais em fazer uso deste temor psicológico para fins diversos. A mídia aponta dedos pros monstros externos o tempo todo para que não olhemos pra dentro de nós mesmos. Somos tratados, como sociedade, da mesma forma que Russel trata o seu filho: como crianças psicologicamente manipuláveis, como massinha de modelar, através de recursos que exploram o medo na sua forma mais arquetípica.

Agora talvez esteja ficando claro, se você viu o vídeo e se sensibilizou logo de cara. Você já viu dezenas de dramas assim. São métodos eficientes da propaganda que seduzem o espectador pelos instintos mais primitivos. Primeiro, empatia e identificação. Depois, choque, terror, raiva, pena, indignação. E finalmente uma oferta irrecusável para você ajudar a salvar o mundo, acompanhado de kits de produtos customizados para você desembolsar o seu rico dinheirinho e literalmente “vestir a camisa” de uma causa que “vale a pena”.

Felizmente eu não estou sozinho nesta indignação. A organização de Russel tem um passado sombrio e questionamentos diversos sobre a idoneidade de sua campanha estão surgindo. O editor de ambiente do The Guardian, John Vidal, lembra com correção que “por trás do vídeo e do site caprichados, e do discurso tocante sobre ‘mudar o curso da história’, existe uma operação nariz-empinado de olho na grana, comandada por cineastas, contadores, experts em comunicação, lobistas e vendedores profissionais americanos.”

Mas se os críticos estão de olho nos números, poucos são aqueles que estão questinando a campanha por sua devassidão moral. Pra piorar o que já estava ruim, Russel não esconde seu desejo intervencionista de ver tropas americanas na Uganda. Ele comemora de punhos pro ar a conquista suada de uma declaração do presidente Obama consentindo com o envio de um “pequeno contingente de homens do exército para ajudar as forças regionais que estão trabalhando para remover Joseph Kony do campo de batalha”. Chega inclusive a sugerir que “para que Kony seja preso ainda este ano, o exército de Uganda tem que encontrá-lo. Mas para que encontrem-no precisam da tecnologia e do treinamento para localizá-lo dentro de uma vasta floresta. É aí que entram os assessores americanos ”. Mais uma vez, já vimos este filme antes, só que o cenário em questão eram as cavernas no deserto, lembra?

O que o filme não conta é que Kony não está mais na Uganda, e seu exército paramilitar decadente consiste hoje em umas poucas centenas de pessoas. Na melhor das hipóteses, Russel chegou tarde. Na pior, tem coisa por trás desta história.

No documentário italiano O Novo Século Americano, o diretor Maximo Mazzucco lembra que  “a Constituição Americana não permite aos EUA começar uma guerra de agressão, e reserva ao Parlamento declarar guerra a outra nação, no caso que torne-se necessário defender-se. Por este motivo, cada vez que um presidente quis tomar parte numa guerra ou começar uma nova, teve que esperar um incidente militar, criado ou provocado, para justificar de alguma maneira a intervenção armada frente ao Parlamento e à população.”

E assim a história se fez. Em 1898, os EUA travaram uma guerra contra a Espanha pelo domínio de Cuba, que era estratégico para o controle do Golfo do México. O pretexto de guerra veio do afundamento do navio militar USS Maine, que estava ancorado no porto de Havana. Os americanos imediatamente culparam os espanhóis, ainda que eles se declarassem completamente inocentes. As imagens do barco semi-afundado e dos funerais dos marinheiros foram projetadas nos primeiros cinemas de toda a nação, gerando um estado de indignação suficiente para poder lançar uma guerra, que o futuro presidente Roosevelt, então Ministro da Marinha, havia preparado até o mínimo detalhe. Foi somente em 1980, quase um século depois, que os americanos reconheceram que os espanhóis eram de fato inocentes do ataque, mas declararam, para se isentar da culpa, que o Maine havia sido afundado porque alguns explosivos foram colocados muito próximos à caldeira.

Desde então, todas as guerras foram provocadas por “false flags”, como estas “iscas” são chamadas lá fora: em 1915, foi o afundamento do barco Lusitânia por um submarino alemão, que precipitou a I Guerra Mundial. Em 1941 foi o conhecido ataque a Pearl Harbor (II Guerra); em 1964 o Incidente do Golfo de Tonkin (Vietnã); em 1990 a invasão do Kuait (Guerra do Iraque) e em 2001 o 11 de Setembro (Guerra ao Terror). Todos estes “incidentes” ocorreram em circunstâncias nebulosas e há incontáveis relatos, evidências e documentos apontando para o fato de que todos foram premeditados ou provocados de alguma forma.

Dizem que a história acontece primeiro como tragédia e se repete como farsa. Se este Kony 2012 é uma nova modalidade de “false flag”, só o tempo dirá, e não vai demorar. Mas abra o olho. Antes de sair compartilhando Kony 2012 pelos quatro ventos, lembre-se do aviso que o próprio filme traz em sua abertura: “os próximos 27 minutos são um experimento. Mas para que ele funcione, você deve prestar atenção”.

1 Comentário »

  1. Sérgio said

    Baita texto, hein!!
    Esclarecedor!!

RSS feed for comments on this post · TrackBack URI

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: