Gaia

Poucas vezes nos damos conta de quão esquisito é o calendário que usamos e que a maioria do mundo (ainda) usa. Os 365 dias não encaixam direito no movimento dos planetas, e o 29 de fevereiro que existiu esse ano nos lembra esse fato. A cada quatro anos o calendário gregoriano passa por um “ajuste”, e atualmente isso é feito enfiando-se um dia a mais em fevereiro, que geralmente tem só 28 dias. Enquanto os outros alternam entre 30 e 31. Quer dizer… alternam mais ou menos. Julho e Agosto formam uma sequência de dois meses com 31 dias. Isso porque o ego de Cesar Augustus era tão grande quanto o de Júlio César, imperadores romanos. E já que a Júlio César tinha sido dado um mês com 31 dias, a César Augustus também foi concedida a mesma benesse, restando a fevereiro fazer a boa ação de ceder os dias necessários pra que a conta continuasse fechando em 365.

A historinha romana nos lembra que na base de nosso calendário estão disputas sangrentas pelo poder (Julio César foi assassinado) e pouco ou nenhum entusiasmo com os ciclos fundamentais da natureza e do planeta que nos serve não apenas de casa, mas de suporte de vida. Uma mentalidade que ainda perdura, em especial para o 1%, com duras penas para os 100%… É a Terra que nos dá tudo que comemos, a oportunidade de aproveitar energia (e de desperdiçar também) entre inúmeras outras coisas. Mas esse conhecimento, que deveria ser fundamental e ensinado com carinho desde a pré-escola, é marginalizado pela arrogância do homo sapiens que se considera o ponto mais alto da evolução, o ser mais inteligente. Por consequência então segue achando que o tempo deve ser medido em relação a si mesmo e que o planeta deve ser pilhado. Rios devem ser transformados em hidrelétricas, montanhas devem ser explodidas para extração de minério, florestas desmatadas para obtenção de madeira, peixes pescados predatoriamente, tudo em ritmo sempre crescente. Sempre elevando o PIB com o olhar míope que não alcança mais do que um, na melhor das hipóteses dois ciclos políticos, como escancarou a nomeação de um bispo que nunca pescou e não entende nem “acredita” na evolução (como se fosse tópico passivel de crença ou descrença…), como ministro da pesca…

Assim, seguimos todos comemorando datas com feriados de uma origem religiosa fortemente antropocêntrica e patriarcal, no caso a cristã, mesmo que sejamos ateus ou agnósticos, budistas, crentes em Jah ou o que quer que seja. Nos esquecemos de que a passagem do tempo é marcada pelo ciclos naturais, e hoje é uma data propícia pra lembrar disso porque é equinóceo, é fim de verão e começo de outono para uns, fim de inverno e começo de primavera para outros. O planeta mais uma vez re-inicia um ciclo, encerrando outro…

E nesse ano, além de ser bissexto e nos presentear com o dia extra, duas fotos foram publicadas, em 25 de Janeiro e 02 de Fevereiro, que novamente nos remetem à grandiosidade e importância que tem esse planeta, que volta a ser foco das atenções conforme rumamos a um futuro imprevisível com grandes probabilidades de algumas catástrofes acontecerem, dada a nossa desconexão com o mundo natural, com os ciclos da natureza, o movimento dos planetas, o ciclo das estações, os equilíbrios ecológicos e a delicada harmonia da vida. A NASA publicou duas imagens de um mesmo objeto, que se hoje estamos razoavelmente acostumados a ver, outrora nunca havia sido visto, pelo menos não dessa maneira, com a beleza e suavidade de seus 360 graus, em meio a uma infinitude de espaço sem vida que se extende até onde os mais avançados instrumentos científicos chegaram até hoje. Essa grande esfera foi agora fotografada com definição sem precedentes, e nos permite uma vez mais contemplar a beleza do pequeno ponto azul.

A primeira vez que a NASA liberou uma foto do planeta, aliás, foi devido a um insight psicodélico. Numa sociedade obcecada pelo progresso industrial e tecnológico dividida com fervores religiosos antropocêntricos, a idéia de divulgar uma foto do planeta não havia, por incrível que pareça, passado na cabeça de nenhum dos membros dos gigantescos projetos espaciais, distraídos provavelmente pela feroz competição típica da guerra fria… Coube a Stewart Brand, membro da trupe psicodélica conhecida como os Merry Pranksters, ter o insight durante uma sessão de LSD em 1966. Stewart, também criador de um livro épico dos anos 60, o Whole Earth Catalog, percebeu que uma imagem do planeta, visto de fora, inteiro, seria um potente catalizador de uma nova percepção para a humanidade, tão distraída com o progresso industrial e as datas comemorativas de religiões que ha muito esqueceram ou que sequer reconheceram na prática que o mundo é redondo, que gira em torno do sol, que os recursos são finitos e que estamos nessa todos juntos, independente de fronteiras e bandeiras, de crença e de raça. A imagem do planeta foi divulgada somente em 1968 quando astronautas da missão Apollo mandaram a primeira foto colorida de Gaia. No meio tempo, Stewart fez campanha com broches com a pergunta “Por que ainda não vimos uma foto do planeta inteiro?”, que mandva para políticos, membros da ONU, da NASA, da união soviética… Segundo Stewart, a foto “reenquadrou tudo. Pela primeira vez a humanidade se viu de fora. As características do planeta eram um azul e verde vivos – continentes marrons e calotas polares extremamente brilhantes – e uma atmosfera complicada, ativa. Tudo arranjado como uma jóia em meio a imensidões de espaço e vácuo”.

De fato, a imagem do planeta chacoalhou a consciência da humanidade, e pode ser tido com um dos pontos que marcam o nascimento do movimento ecológico, que ganha força e se torna cada vez mais importante, dados os desafios globais que enfrentamos atualmente.

Uma característica comum dos efeitos dos psicodélicos, especialmente quando usados com sabedoria e respeito, junto a um ambiente natural, são insights sobre a maravilha da natureza, a beleza e o mistério em cada pétala, em cada inseto, a complexidade de comportamentos, a interdependência de todos com todos, a percepção simples e súbita, porém profunda e de efeitos duradores, da preciosidade da teia da vida. Não é a toa que os chamam também, entre inúmeros outros nomes, de ecodélicos. Albert Hofmann, pai do LSD, nos diz:

“A humanidade agora enfrenta desafios de enormes proporções; a sobrevivência da nossa espécie e de milhares de formas de vida estão em jogo. Um entendimento sagrado de toda a vida é necessário como base para um comportamento compassivo e para ações criativas que irão servir e sustentar a vida. Espero que no início deste novo milênio, as pessoas usem toda a variedade de práticas espirituais para ajudar a transformar a visão de mundo de nossa fixada cultura materialista. Tal mudança de valores nos levará a uma maior sensação de interconectividade com todas as criaturas de Deus e uma apreciação mais profunda da infinita riqueza e maravilha do cosmos e a igualmente infinita riqueza dos reinos interiores de nosso ser.”

São vários os pioneiros do movimento ecológico que atestaram a importância de seus insights de experiências psicodélicas, e na aproximação da Rio+20 em meio a um governo considerado por muitos o pior para a área ambiental desde a ditadura militar, apreciar de novo a beleza e o poder das imagens de Gaia em alta definição em pleno equinóceo pode, quem sabe, despertar algumas almas para um novo mundo que se levanta.

Ou será que o provérbio Cree será realizado?

“Somente após a última árvore ser cortada.

Somente após o último rio ser envenenado.

Somente após o último peixe ser pescado.

Somente então o homem descobrirá que dinheiro não pode ser comido!!”

1 Comentário »

  1. Despertando o nosso interior.

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