Voltando aos Invisíveis

hillman

Neste fim de semana acontece um (imperdível) Tributo a James Hillman na UNICAMP. Eu arrisco a dizer que Hillman deveria, ao lado de Stanislav Grof, ser uma referência universal em psicologia tanto quanto Freud e Jung. Apesar de distintos, ambos nos presentearam com novas e ousadas formas de se tentar compreender o fenômeno da consciência, de tal forma, que garantiram seu ingresso no panteão dos imortais.

Se as idéias de Grof e sua psicologia transpessoal partem de uma base freudiana (quando se fala em matrizes perinatais, por exemplo, estamos extendendo a influência dos processos internos para além da infância e da sexualidade), Hillman e sua psicologia arquetípica partem de Jung (que lida com a influência de fenômenos externos ao indivíduo, como o inconsciente coletivo e os arquétipos universais). Hillman, aliás, dirigiu o Instituto C.G. Jung em Zurique, mas pode-se dizer que ele deixou sua marca indelével para a investigação da consciência ao fundar o que hoje é chamado de psicologia arquetípica. Em seu livro O Código do Ser  (na verdade O Código da Alma – The Soul’s Code –, título adulterado pela tradução brasileira que aparentemente julgou o termo “alma” como impróprio), ele elabora uma teoria completamente oposta às idéias correntes na psicologia, na genética e na mídia, as quais pressupõem um determinismo linear na formação de nossas personalidades.

daimon Ao invés de entender cada indivíduo como o resultado da combinação genética de seus pais e dos fatores sócio-ambientais em que ele está inserido (que ressoa a velha noção aristotélica da tábula rasa: que a consciência é desprovida de qualquer conhecimento inato – tal como uma folha em branco, a ser preenchida), ele apresenta o conceito platônico do daimon. O daimon, ou a teoria do fruto do carvalho (acorn theory) – como ele a reelabora – é também chamado de nosso gênio, talento, vocação, personalidade, imagem, destino, anjo da guarda, caráter etc. Em outras palavras, nosso futuro e nosso potencial já estão inscritos de alguma forma em nós ao nascermos, assim como uma semente contém toda a árvore em potencial.

É um conceito fluido que cabe em inúmeras definições, mas é um conceito revolucionário no entendimento da psique, pois evita reduzir o senso de individualidade ao âmago do “eu” – como faz a psicologia tradicional, ao fragmentar o enigma do indivíduo em fatores e traços de personalidade, em tipos, complexos e temperamentos, tentando localizar o segredo da individualidade nos substratos da matéria cerebral e dos cromossosmos – e não aceita que a vida humana é um acaso estatístico. Mas a teoria de Hillman dá sua grande cartada quando também não entrega nossos destinos “às mãos de Deus”. Como diz Hillman, “a teoria do fruto do carvalho transita com desenvoltura entre esses dois dogmas antagônicos que há séculos ladram um para o outro e que o pensamento ocidental continua mantendo afetuosamente como animais de estimação”.

Todos nós nascemos com uma imagem que nos define. O daimon seria o nosso par invisível, a centelha de consciência, ou a intenção angélica por detrás de nossos atos. A idéia vem de Platão (A República). Resumidamente, ela diz que a alma de cada um de nós recebe um daimon único, antes de nascer, que escolhe uma imagem ou um padrão a ser vivido na Terra. Esse companheiro da alma, o daimon, nos guia aqui. Na chegada, porém, esquecemos tudo o que aconteceu e achamos que chegamos vazios a este mundo. O daimon lembra do que está em sua imagem e pertence a seu padrão, e portanto o seu daimon é portador do seu destino.

Bebendo na fonte da mitologia grega, Hillman enfrenta o materialismo dominante com coragem, compostura e senso de humor, ao abraçar conceitos vistos pelo paradigma materialista como exclusivos do universo infantilizado da religião institucionalizada, como “alma” e “espírito” (uma grande ironia às inversas na mudança do título de seu livro mais famoso para a edição brasileira). Hillman leva este conceitos a um novo patamar, ao inseri-los dentro do universo arquetípico e mitológico, um universo invisível que oferece a quem decide explorá-lo uma “visão além do alcance” do nosso mundo racional.

 Para começar, precisamos deixar claro que atualmente o principal paradigma para se entender uma vida humana, a inter-relação da genética com o ambiente, omite algo essencial – a particularidade que você sente que é você. Ao aceitar a idéia de que sou o efeito de um choque sutil entre a hereditariedade e as forças da sociedade, reduzo-me a um resultado. Quanto mais minha vida for explicada pelo que já ocorreu em meus cromossomos, pelo que meus pais fizeram ou deixaram de fazer e pelos anos remotos da minha infância, tanto mais minha biografia será a história de uma vítima.

Se por um lado, diriam os gregos, a nossa alma chega ao mundo ignorante de sua existência prévia, o daimon, que vem a seu lado, não. Ele sabe qual a nossa missão nessa vida, e fará de tudo para que escutemos seu chamado e realizemos aquilo que é sua necessidade. No entanto, diz Hillman, nós precisamos “baixar” no mundo, e este é um processo difícil, e uma luta entre nossa personalidade e nosso chamado daimônico. O daimon está mais próximo da idéia do espírito, uma entidade transcendental, que pertence mais aos céus do que à Terra. Ele não quer encarnar, mas conclama ao ideal. Já a alma é terrena, precisa se materializar no aqui e agora, viver contradições, incoerências, pisar no chão firme para existir e cumprir sua missão. É de um violento embate entre os dois que resultam as tortuosas biografias de muitas celebridades (muitas das quais morrem cedo), e é da uma comunhão profunda com o daimon que testemunhamos outras grandiosas histórias de vida.

522577_612683128745636_627514899_n Uma vez que cada um nasce com seu daimon – o seu chamado – cada um tem sua história particular, e ela não deve muito a nossos pais (nem geneticamente nem psicologicamente), que na grande parte do tempo são confundidos com nossos mestres. Os pais, diz Hillman, têm a função de nos acolher. Nossos verdadeiros mestres só encontraremos ao longo de nossa jornada. Eles serão aqueles capazes de enxergar nosso daimon, e nos ajudar a realizar sua busca. Um professor de música que reconhece seu talento, um treinador, um amigo que te ajuda num momento difícil, um livro que muda a sua vida… Ao contrário do que possa parecer ao olhar superficial, a teoria de Hillman é libertadora pois coloca a responsabilidade do destino de cada um de volta às mãos de cada um. Não é determinista, pois o daimon não anula o livre arbítrio, ele apenas nos dá a direção, mas nós é que decidimos cada passo dado. Se o daimon representa nossa necessidade, a decisão está na esfera do ego.

Ao afirmar que a Necessidade interfere em todos os momentos decisivos da minha vida, posso justificar qualquer ação. É como se eu pudesse me livrar da responsabilidade – está tudo nas cartas, ou nas estrelas. No entanto, dominadora inflexível que é, essa deusa me faz tremer diante de cada decisão, pois sua irracionalidade aleatória é totalmente imprevisível. Só retrospectivamente posso ter certeza, dizendo que tudo era necessário. Como é curioso, a vida pode ser pré-ordenada, embora sendo não-previsível.

Hillman era uma pessoa tão singular que foi considerado por muitos como um dissidente na psicologia, um rebelde (não à toa ele dizia que “só em nossas teorias psicológicas ocidentais é que o rabo abana o cachorro”). Mas seus conceitos começam a ser iluminados por outro olhar nesses tempos de transição brutal, onde os velhos paradigmas se tornam escancarados e as velhas respostas não mais respondem a nossos anseios, abrindo espaço para o levante recente de religiões modernas que são incapazes de pensar metaforicamente, levam-se a sério demais e colocam a sociedade em risco ao projetarem suas interpretações literais no mundo das relações humanas.

banksy

Por isso, neste fim de semana podemos nos considerar privilegiados, pois graças a uma iniciativa brasileira, a UNICAMP recebe um evento em tributo a Hillman, que contará com inúmeros acadêmicos que tiveram com relação próxima a ele, e inclusive com seu filho Laurence. Entre sexta e domingo, palestras e confraternização relembrarão a fagulha de despertar que este grande homem passou adiante quando faleceu no final de 2011, e que agora está em nossas mãos neste início de 14º baktun.

Nós do Plantando Consciência estaremos no evento por inúmeros motivos. Dentre os quais é o reconhecimento de que a contribuição de James Hillman para a psicologia se estende para além desta disciplina, abarcando toda a questão da saúde e da vida humanas. Como estamos produzindo um documentário sobre a questão da influência da consciência na relação entre saúde e doença (saiba mais aqui), temos uma grande oportunidade de enriquecermos nossa busca. Se você apóia nossa iniciativa, aproveite para doar para o nosso projeto. Até este momento o filme está sendo inteiramente bancado com o mínimo necessário para conduzir as entrevistas, mas com um enorme senso de dever e com a ajuda de muitas pessoas que contribuem para reduzir os custos. Ainda assim, muito mais será necessário para que este documentário possa alcançar o estado de uma árvore sólida e repleta da sabedoria contemporânea e ancestral.

Serviço:

Tributo a James Hillman

15, 16 e 17 de Março de 2013

Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da UNICAMP

Palestrantes, programação e inscrição: http://www.tributoahillman.com.br/

Para saber mais sobre o filme:
http://www.plantandoconsciencia.org/pt/medicina/

Doe qualquer quantia clicando no botão abaixo:
Ajude-nos a cumprir com este objetivo!

1 Comentário »

  1. fpamplona said

    Caraca meu, que texto iluminado! Foi vc quem escreveu Ma? Não conhecia esses conceitos, mas eles fazem muito sentido pra mim. Abraço e força

    Sent from my iPad

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