Archive for Ambiente

Dia mundial do meio ambiente

Como ela não fala a nossa língua, mas a língua dela própria, na própria cadência, compartilhamos hoje este vídeo em homenagem a Gaia

O vídeo é trailer do capítulo 9 da Série VIDA, da BBC

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Desperte o índio que existe em você!

Após décadas de regime ditatorial militarista, o Brasil refez, em 1988, sua Constituição Federal. Um marco democrático e dos direitos humanos, a Constituição brasileira diz, em seu artigo 231, que “são reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens“. Os legisladores acharam por bem determinar um prazo para que essas demarcações fossem realizadas. Esse prazo era de cinco anos.

O Ministério Público Federal fará uma audiência no dia 19 de abril, dia do Índio, sobre a demarcação de terras indígenas. O resultado dessa audiência será entregue em mãos ao ministro da justiça José Eduardo Cardozo, pois é dele a canetada para publicar a portaria declaratória de demarcação de várias terras indígenas. Entre elas, está na pauta o território Tupinambá de Olivença, onde se encontra a Aldeia Tukum. Estar presente nessa audiência é fundamental para os Tupinambás, ajude-os a chegar lá!

Para doar qualquer quantia, você pode preferencialmente depositar diretamente em nossa conta no Banco do Brasil: Agência 6986-8 conta corrente 7459-4

ou, alternativamente, através do Paypal pelo botão abaixo:

Por favor, note que eles tem muita urgência para receber esse dinheiro, o prazo para doações é dia 14 de abril!

Se você quiser saber como andam as doações, mande-nos um email ou siga-nos no Facebook!

Os Tupinambás gostariam de enviar um presente àqueles que fizerem doações. Por favor, mande-nos o seu contato para que possamos postar o seu!

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Com a palavra, o Cacique Ytajibá

Há aproximadamente um mês estive na Aldeia Tukum de Olivença, entre os índios Tupinambás. Além de conhecer suas terras, que ainda hoje tem 75% de seu território revestido de Mata Atlântica virgem, rios de águas transparentes e deliciosamente frescas sob o sol da Bahia, conheci um pouco da sua história. Como a história de muitos povos indígenas no Brasil, a dos Tupinambás inclui massacres, tentativas variadas de aculturação e usurpação de bens e direitos. Hoje, o Cacique Ytajibá da Aldeia Tukum dos Tupinambás veio nos pedir ajuda financeira para ir à Brasília lutar pelos direitos de seu povo.

Para doar qualquer quantia que você puder, você pode preferencialmente depositar diretamente em nossa conta no Banco do Brasil: Agência 6986-8 conta corrente 7459-4

ou, alternativamente, através do Paypal pelo botão abaixo:

Por favor, note que eles tem muita urgência para receber esse dinheiro, o prazo para doações é dia 14 de abril!

Se você quiser saber como andam as doações, mande-nos um email ou siga-nos no Facebook!

Os Tupinambás gostariam de enviar um presente àqueles que fizerem doações. Por favor, mande-nos o seu contato para que possamos postar o seu!

Com a palavra, o Cacique:

O Povo Tupinambá de Olivença (Aldeia Tukum) de Ilhéus sul da Bahia é uma Nação guerreira, que ao longo dos anos resistiram às diversas formas de colonização, e ao decorrer desses últimos cinco séculos vêm revitalizando sua cultura e suas tradições. Descendente linguisticamente do tronco Tupi, é um povo determinado, forte, que mantém sua cultura preservando e valorizando a sua língua, a espiritualidade, os costumes, os mitos e as suas tradições ancestrais.

detalhe desenho da Aldeia Tukum

Ao examinar a conjuntura indigenista brasileira nos últimos anos salta aos olhos a intensificação de campanhas contra os direitos indígenas, protagonizadas especialmente por políticos, empresários, latifundiários e organizações ruralistas.

A primeira agenda oficial da Presidente do Brasil Dilma Rousseff em 2013 começou recebendo alguns dos principais empresários e executivos do país. Dilma optou em começar o ano ouvindo o capital e não o movimento social. Faz sentido. Dilma nunca escondeu que sua prioridade é a economia.

Temas estruturantes do social como saúde, educação, saneamento, moradia, Reforma Agrária, demarcação de terras indígenas, questão ambiental, entre outros, estarão presentes na retórica discursiva-política, mas não necessariamente se traduzirão em políticas efetivas de governo. Esses “temas entrarão na agenda proporcionalmente à capacidade de pressão do movimento social”.

desenho da aldeia

Os Povos indígenas continuam como ‘entraves’ ao modelo de desenvolvimento

Se por um lado a agenda da Reforma Agrária vem aos poucos desaparecendo do horizonte do governo, a questão indígena sequer entrou na agenda da esquerda brasileira no poder. “Retrocedemos muito neste período”. Se antes lutávamos pelo cumprimento dos nossos direitos, hoje lutamos para não perder esses direitos reconhecidos na Constituição. Em média, os governos dos presidentes Lula e Dilma homologaram menos terras, em número e extensão, do que os antecessores José Sarney, Fernando Collor de Melo, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, destaca reportagem do Brasil de Fato. Na avaliação dos defensores dos direitos indígenas, a razão para este retrocesso está na opção de modelo desenvolvimentista para o campo e para as florestas adotadas pelos governos nesta última década. “Pela origem do governo ligado aos movimentos sociais, o movimento indígena criou muita expectativa, mas o mesmo fez uma aliança com os latifundiários e as mineradoras, deixando os nossos interesses de lado”.

Diariamente acompanhamos uma chuva de investida contra os direitos indígenas, sobretudo a invasão de seus territórios, onde o Governo Federal investe cada vez mais em grandes obras impactando a vida dos Povos Indígenas no País.

Tupinambás

A Portaria 303 da Advocacia Geral da União, publicada oportunamente depois da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20) e das pressões da Organização Internacional do Trabalho, aprofunda o estrangulamento dos direitos territoriais indígenas iniciados com a paralisia na tramitação e aprovação do Estatuto dos Povos Indígenas, engavetado há mais de 20 anos na Câmara dos Deputados, e com a edição das Portarias Interministeriais 420 a 424, que estabelecem prazos irrisórios para a FUNAI se posicionar frente aos Estudos de Impactos e licenciamento de obras sobre os territórios indígenas além da aprovação da PEC 215, que passa para o congresso a demarcação dos territórios indígenas.

As indicações para os desafios de 2013: “Há grandes desafios a serem enfrentados pelos povos e suas organizações: entre eles, o de apresentar as demandas, mobilizar-se em torno delas para que efetivamente sejam acolhidas e transformadas em políticas públicas, assegurando sua participação em todas as etapas; e o de pressionar o poder público para que as terras sejam efetivamente demarcadas, protegidas, estando na posse e usufruto assegurados aos povos e comunidades”.

Sem que isso aconteça, “não é possível vislumbrar o efetivo combate às violências, ao descaso, à omissão e à dependência de políticas” paliativas compensatórias. Sem isso, na hora de discutir políticas públicas os povos indígenas serão tratados como ‘entraves’ num modelo de desenvolvimento sem garantias, que privilegia alguns setores e penaliza muitos.

OBJETIVO GERAL DO II ENCONTRO NACIONAL DE LIDERANÇAS INDÌGENAS

  • Realizar o II Encontro Nacional de Lideranças Indígenas, favorecendo uma ampla reflexão e debates entre as principais lideranças indígenas do País a respeito da Política Indigenista atual e os diversos instrumentos jurídicos que vem sendo utilizado para atacar os direitos indígenas já garantidos na Constituição Federal.
Yatjiba e Acaua
Cacique Ytajibá e Nádia Acauã

A partir do quadro apresentado na introdução deste pedido, temos a profunda clareza, que a estratégia dos setores anti-indígenas amplamente organizados por todo País, articulados e amparado principalmente pela Confederação Nacional de Agricultura no Brasil (CNA) no qual vem disponibilizando todo seu aparato político e jurídico é impedir o reconhecimento e demarcação de terras indígenas, e o que mais absurdo ainda, invadir e mercantilizar as terras que já são demarcadas e homologadas.

Diante disso, hoje a grande luta é pela manutenção dos direitos dos Povos indígenas. E neste contexto, lideranças indígenas de todo País, e entidades indigenistas, definiram por realizar o II Encontro Nacional de Lideranças para refletir e debater os diversos instrumentos que estão sendo utilizado para atacar os seus direitos.

O Encontro reunirá representações de Povos indígenas, e lideranças de todo Brasil, tendo como principal objetivo buscar estratégias de enfrentamento aos setores que vem atacando os direitos indígenas. Para isso, faz-se necessário contarmos com o apoio dos aliados para possibilitar o transporte de indígenas a fim de participarem desse importante evento.

Temas: II Encontro Nacional de Lideranças Indígenas

  • Elaboração de estratégias e enfrentamento ao Governo Federal no sentido de fazer garantir a proteção e efetivação dos Direitos Indígenas, conforme a constituição Federal e convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho;
  • A luta contra os diversos mecanismos de negação de direitos dos Povos Indígenas;
  • Análise da política indigenista atual.

QUANDO: Chegada: 15/04/2013.

Encontro:  16/04  a 19/04/2013

O dia 15/04/2013 seria dedicado à chegada das delegações.

ONDE: Centro de Formação Vicente Cañas – Luziânia/GO.

a tristeza do índio

 

OBJETIVOS ESPECÍFICOS DO II ENCONTRO NACIONAL DE LIDERANÇAS

  • Possibilitar reflexão sobre a política indigenista brasileira, permitindo maior compreensão da conjuntura política no País, dos problemas locais, regionais e nacionais.
  • Analisar os graves efeitos das manobras jurídicas e Políticas que vem sendo utilizado pelo grande capital para atacar os direitos dos Povos indígenas.
  • Fortalecer e ampliar a articulação de parcerias e redes de apoio na luta pela demarcação dos territórios indígenas.
  • Garantir o processo de formação permanente das lideranças indígenas, suas comunidades e organizações.

Realizar diversas mobilizações em Brasília – DF nos espaços de definição de assuntos indígenas.

Enfrentamento ao processo de violência e criminalização das lutas e das lideranças.

QUEM ESTARÁ LÁ?

Lideranças de várias nações indígenas estarão presentes no encontro.

QUANTAS PESSOAS?

Esperamos de 150 a 400 líderes presentes no encontro.

QUANTAS PESSOAS DE CADA NAÇÃO?

Nós esperamos que, na média, cada nação compareça com 45 pessoas.

QUANTO DINHEIRO NÓS PRECISAMOS?

Nós precisamos de aproximadamente R$15.000. Só para o transporte, serão gastos R$10.000 (aluguel de ônibus para 42 pessoas de Olivença para Brasília, ida e volta). Os outros R$5.000 serão gastos para alimentar as pessoas durante o encontro (média de R$8,00 por pessoa por refeição). Quanto mais pessoas conseguirmos levar, maior será nosso poder de persuasão! Até agora nós não temos absolutamente nenhuma ajuda para estar no encontro, lutando por nossos direitos. Nós esperamos que, após o que foi explicado aqui, você possa nos ajudar a estar lá.

a fuga de marcelino

E SE NÓS NÃO TIVERMOS TODO O DINHEIRO NECESSÁRIO PARA IR PARA O ENCONTRO?

O ideal é que estejamos no encontro com uma quantidade significativa de pessoas da aldeia, porque dessa forma podemos realmente pressionar o governo. No entanto, caso não tenhamos todo o dinheiro necessário para ir em 42 pessoas, esperamos levar ao menos nossas lideranças. Isso pode acontecer de duas formas:

Com R$9.000,00 podemos ir em 16 pessoas, de van. O aluguel é de aproximadamente R$6.000, o motorista extra R$1.000,00 e, para alimentação R$1.920,00, totalizando R$8.920,00.

Para irmos em quatro pessoas (o Cacique Ramón Ytajibá Souza e outros líderes da comunidade) de ônibus comum, necessitamos de R$1.400,00 para as passagens (cada passagem de ida e volta custa R$350,00) e R$600,00 para alimentação (R$120,00 por dia para as três refeições para os quatro líderes). Como o local que nos hospedaremos é fora de Brasília, a duas horas da capital, gastaremos aproximadamente R$500,00 para ir e voltar do local da reunião (durante o encontro pegamos carona com nossos parentes). Dessa forma, o total necessário seria de R$2.500,00.

No caso de não atingirmos essa meta, deixamos claro que nosso compromisso é com o desenvolvimento de nossa comunidade. Se não houver dinheiro suficiente para nenhum de nós irmos a Brasília, o dinheiro levantado com essa campanha será gasto na escola. A escola é um lugar muito especial para nós, porque esse é o local onde nossas crianças aprendem o nosso jeito de ser e se alfabetizam (e continuam sua educação). Nós temos materiais especial, desenvolvido por professores da nossa comunidade, nos quais nós contemplamos nossos conhecimentos tradicionais sobre a natureza, nossa lígua, nossos mitos, e por aí a fora. Em nossa escola, nós ensinamos nossas crianças como continuar a lutar por seus direitos, que ser indígena é motivo de orgulho e que elas merecem ser respeitadas. Dessa forma, nós acreditamos que, usar o dinheiro com elas, é uma continuação da proposta inicial desse pedido.

águas tupinambas

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With the word, Chief Ytajibá

About a month ago, I was at the Tukum Village in Olivença, among the Tupinambá indians. Besides knowing their lands, that still have 75% of original tropical forest Mata Atlântica, rivers of translucid, fresh waters under the sun in Bahia, I learned about their history. As it is very commom among Brazilian’s indigenous nations, they’ve suffered genocide, attempts to destroy their language and culture, and expropriation of their goods and rights in the last 500 years. Today, Chief Ytajibá from the Tukum Village of the Tupinambás came to us to ask for financial help to go to Brasília and fight for the rights of his people.

To donate any amount you can, we have a Paypal account. All donators interested in receiving updates from this project, please send us an email or follow us in Facebook. The Tupinambás would also like to give gifts to donators. Contact us so we can mail them for you!

Please, note their urgence, the deadline to receive donations is April 14th!

With the word, Chief Ytajibá:

We, the Tupinambá people, from Olivença (Tukum Village), Ilhéus, Bahia, are a warrior nation that has been resisting several forms of colonization for centuries. We have been revitalizing our culture and traditions in the last five centuries. Descending from the Tupi linguist branch, we are determined, strong people, maintaining our culture valuing our language, spirituality, costumes, myths and ancestral traditions.

detalhe desenho da Aldeia Tukum

Examining the indigenous Brazilian conjuncture of recent years, we can see that there is a clear, wide intensification of campaigns against indigenous rights. They are starred by politicians, entrepreneurs, landowners and big farmers.

The official agenda of our president, Dilma Roussef, began this year of 2013 with her meeting some of the main Brazilian entrepreneurs and executives. Dilma opted to begin the year listening to money instead of the social movements. It makes sense. Dilma has never hid that her priority is economy.

Themes relative to structural changes, as health, education, basic sanitation, dwelling, agrarian reform, demarcation of indigenous territories, environment, among others, are present in her speeches, but maybe are not transposed to effective government politics. These themes will be in government agenda proportionally to the capacity of social movements to pressure it.

desenho da aldeia

Indigenous people remain an obstacle to the current development model

If the agrarian reform is disappearing from government horizons, the indigenous issues have never been in the political agenda of the Brazilian left in power. We actually went backwards in this period. If we were accustomed to fight for our rights to be fulfilled, today we are fighting to keep these rights, as stated in our Constitution, in 1988. On average, the governments of Presidents Lula and Dilma homologated less land, in number and size, than their predecessors José Sarney, Fernando Collor de Melo, Itamar Franco and Fernando Henrique Cardoso. Defenders of indigenous rights claim that behind this decay is the option of a development model for the fields and forests in the past decade. According to a Brazil de Fato’s report, “because the origin of the government was in social movements, the indigenous movement had a great expectation, but the government has been allied to landowners and mining companies, leaving aside their interests”.

We’ve been seeing actions against indigenous rights on a daily basis, especially invasions of their territories, where the Federal Government is investing huge amounts of money in constructions that have a great impact on the traditional ways of living of indigenous people.

Tupinambás

Opportunely right after the United Nations Conference on Sustainable Development (Rio +20), the General Union Attorney office (the official way of the executive power ensure that its actions will not be judicially contested) published a normative resolution that strangles indigenous territory rights. This strangulation is a process that now has more than 20 years, which began with the palsy of the approval of The Indigenous People’s Statute by the National Congress. In 2011 five ministerial resolutions (number 420 to 424) gave the National Indigenous Foundation (FUNAI, in Portuguese) ridiculous amounts of time to consult the indigenous people and position itself relative to Environmental Impact Studies and Licenses of works in indigenous territories. These works include but are not limited to the construction of roads, the passage of power nets, dams, oil exploitation and other mineral activities. To make things even worse, there is a proposal of changing our Constitution (PEC 215/2000) to make possible expropriation of indigenous territories that already have their legally boundaries established (made in 2000, but about to be voted in April of 2013) in favor of landowners, so they can raise cattle and grow soy to the international market. In March 2012, the voting (and approval) of this amendment was postponed because of the protests of several indigenous nations from all over the country (among them Xakriabá, Guarani Kaiowá, Terena, Kaigang, Macuxi, Marubo, Kanamari and Mura) that went to Brasilia to make their voices to be listened by the government.

There are many challenges for 2013, according to the Brasil de Fato’s report: “There are great challenges to be faced by the indigenous and their organizations: among them, present their demands, mobilizing themselves around them to make sure that they are received and transformed into public politics, ensuring their participation on every step of the process; and to lobby the government so their land are effectively delimited, protected, possession and usage ensured to their people and community.

If this doesn’t happen, “it’s not possible to visualize any effectiveness in combating violence, omission, and dependence of palliative and compensatory politics”. Without it, when the time to discuss public politics comes, indigenous people will be treated as barriers in this model of development that privilege few and penalize many.

MAIN OBJECTIVE OF THE SECOND NATIONAL INDIGENOUS LEADERSHIP MEETING

In holding the meeting II National Indigenous Leadership Meeting, we intend to feed reflection and debate among the main indigenous leaderships of Brazil about what concerns the current indigenous politics and the several juridical tools that are being utilized to attack indigenous rights already guaranteed by the Federal Constitution.

Yatjiba e Acaua
Cacique Ytajibá e Nádia Acauã

From what we presented until here, we are confident that the strategy of anti-indigenous sections of society (articulated and supported by the Brazilian National Agriculture Confederation, which is providing political and juridical pomp) is to prevent recognition and demarcation of indigenous territories, and most absurd, invade and commodify the lands already demarcated and legally recognized.

Our main fight today is to maintain the Indigenous People’s rights. In this context, indigenous leaderships from all over the country and indigenous entities proposed to hold the II National Indigenous Leadership Meeting to better understand the several ways that are being utilized to attack their rights.

The Meeting will bring together representations of indigenous people and leaderships from every corner of Brazil, and its main objective is to seek strategies to fight back the attacks they are suffering. For that to happen, we’ll have to count with the support of our allies so our people can get to the meeting.

Themes to be held in the II National Indigenous Leadership Meeting

  • Seek strategies to confront the Federal Government so we can guarantee the protection and effectiveness of Indigenous Rights, as predicted by our Federal Constitution and by the 169th Convention of the International Labour Organization;
  • Fight against the several ways indigenous rights have being denied;
  • Analyze the current indigenous politics.

The meeting will be hold in Centro de Formação Vicente Cañas, Luziânia, Goiás (a city located around 40 miles from Brasília, Federal Capital of Brazil) from April 15th to April 19th.

a tristeza do índio

 

SPECIFIC OBJECTIVES OF THE II NATIONAL INDIGENOUS LEADERSHIP MEETING

  • Allow reflections about the Brazilian indigenous politics, understanding the political framework of the country and local, regional and national issues;
  • Detail analyzes of the serious effects of legal and political maneuvers used by the great capital to attack the indigenous people’s rights;
  • Strengthen and enlarge partnerships e support nets in the fight for legal determination of indigenous territories boundaries;
  • Guarantee the indigenous leadership training;
  • Make presence in Brasília, saying out loud what are our positions in every political space designated to indigenous issues;
  • Face the violence and criminalization of fighting that our leaderships are suffering.

WHO’S GOING TO BE THERE?

Leaderships from several Brazilian indigenous nations will be present at the meeting.

HOW MANY:

We expect from 150 to 400 leaderships to be present at the meeting.

HOW MANY, OF EACH NATION?

We intend to have, on average, 45 persons of each nation.

HOW MUCH MONEY DO WE NEED?

We need around US$7,500.00. Only to transportation, we’ll spend US$5,000.00 (to rent a bus for 42 people from Olivença to Brasília, round ticket). The others US$2,500.00 will be spent to feed our people during the meeting (average of US$4.00 for person, for meal). Until now, we don’t have any official help to be there, fighting for our rights.  We hope that, after what explained here, you can help us being there.

a fuga de marcelino

WHAT IF WE DON’T HAVE ALL THE MONEY NECESSAIRE TO GO THERE?

The ideal for us is to have as many people as possible at the meeting, and this number would be 42 people (the number of people that we can take on a single bus). This would really make a difference, because the more people we take, greater the pressure we do. However, we believe that it’s better to be there in a few, that don’t be there at all. For this reason, we present here the amount we need in two other scenarios.

The first is to rent a van and go in 16. For that we would need U$3,500.00 for the van and US$1,000.00 to feed ourselves during the meeting. With this number we still can take a great part of our elders, although not them all as we think it’s really the case.

To take four of us there by bus, (our chief Ramon Ytajibá Souza, and three other leaderships of our village), the cost to get to Brasilia from Ilhéus by bus is US$175.00 (round-trip) per person, or US$700.00 for four people. We need another US$250.00 to get to the place of the meeting, which is 2 hours from Brasilia. With another US$15.00 a day for meals for person, we get to US$250 to feed four people for five days. So, our minimum is US$1,250.00.

Our commitment is with the development of our community. If there is no sufficient money for none of us to go to Brasilia, the money raised with this campaign will be spent in the school. This is a very special place for us, because this is the place where our children learn our ways and get to be literate (and further on). We have a special material, developed by teachers of the community, in which we contemplate our traditional knowledge of nature, our language, our myths, and so on. In our school, we teach our children how to remain fighting for their rights, that being indigenous people is something that they should be proud of, and that they deserve to be respected. In this way, we believe that, using the money received with them is a continuation of the initial goal of it.

águas tupinambas

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A Nova Epidemia

por Charles Eisenstein, traduzido por Marcelo Schenberg

epidemics Você sabia que, neste instante, estamos em meio a uma epidemia que já é pelo menos 100 vezes mais predominante que a temida epidemia de poliomielite dos anos 50? A maioria das pessoas não sabe disto. Esta ignorância ilustra: o caráter de novidade desta doença; as baixas expectativas que temos em relação à saúde humana; e a atomização da comunidade que transformou a doença em uma questão privada.

O mito de ascenção nos faz pensar que a tecnologia já conquistou quase todas as grandes epidemias virais que um dia nos fizeram reféns. Ah, sim, ainda há algumas poucas doenças virais que ainda não sucumbiram, mas no geral nós exterminamos as mais terríveis doenças fatais. E com a pesquisa contínua, as doenças remanescentes como a gripe, a AIDS e mesmo o resfriado comum irão eventualmente sucumbir ao mesmo programa de vacinação que exterminou a polio, a difteria e a varíola.

Na verdade, é bastante discutível se foram as vacinas e antibióticos  que acabaram com as grandes epidemias do século XIX. De acordo com Ivan Illich, “as taxas combinadas de morte por escarlatina, difteria, pertússis e sarampo entre as crianças e jovens de até 15 anos revelam que aproximadamente 90% do declínio total na mortalidade entre 1860 e 1965 ocorreu antes da introdução dos antibióticos e da vacinação estendida” (Medical Nemesis, pág. 16). Talvez a maior parte deste avanço tenha sido devido a melhorias nas condições de higiene e na atenuação natural da virulência infecciosa no organismo ao passo em que ela evolui para um estado de equilíbrio com as espécies hospedeiras.

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Frank Miller explorou a questão da vacinação de forma assustadora em Give Me Liberty, de 1990

Se o desaparecimento generalizado das velhas epidemias é ou não um triunfo da medicina moderna, enfrentamos hoje uma vasta nova forma de epidemia. Não se trata de uma nova epidemia em potencial, nem outra crise de gripe. As doenças infecciosas são epidemias do passado. Não, eu estou falando sobre uma epidemia que já está em andamento, afetando primeiramente jovens. Estou falando da epidemia de doenças autoimunes, ou, num sentido mais amplo, a epidemia de disfunções do sistema imunológico humano.

Em primeiro lugar, dentre as novas doenças autoimunes, está o autismo. Suas causas e efeitos são complexos, e envolvem envenenamento com mercúrio e outros metais pesados, ruptura na ecologia do organismo, falhas no sistema imunológico e um ataque do próprio sistema imunológico contra as estruturas do cérebro. Outrora uma doença rara que afetava 1 em cada 10.000 crianças nos anos 70, a taxa aumentou para 1 em cada 150 nos dias de hoje, sem indícios de diminuição. Isto não é uma disfunção de menor importância. Leia a descrição de um pai.

 Eu me lembro de quando o João oscilava na sala de estar…
quando ele não respondia…
quando ele ficava lá fora apenas a sentir o vento soprando sobre ele…
quando eu engavetei todos os álbuns de fotos  porque eu não conseguia mais olhar para o João primeiro como um bebê e agora como alguém que parecia um refugiado de guerra.

Aqui vai outro depoimento:

Eu me lembro dos três meses, quando minha mãe veio nos visitar. Eu estava dando de mamar ao David e, como sempre, estava interagindo com ele verbalmente e através do contato visual. David conseguia imitar meus gu-gu-da-das e as risadinhas naquela idade. Minha mãe dizia, ‘eu tenho certeza que logo logo esse menino irá começar a falar’. Com um ano o David estava falando e interagindo verbalmente – sentenças de uma ou duas palavras. ‘Qué bola’, ‘Qué bincá.’

Quando David recebeu a tríplice viral aos 18 meses, ele voltou pra casa doente. Letárgico. Quente. Com cólicas. Evitando o contato olho no olho. No dia seguinte ele era uma criança diferente. Um olhar atordoado. Não comia. Parou de fazer atividades. Nós fomos a um consultório pediátrico. Fomos informados que algumas crianças reagem desta forma e que não devíamos nos preocupar.

David não falou mais por quatro anos. Ao invés de jogar bola, sua brincadeira favorita se tornou rodopiar, qualquer coisa: pratos, rodas de bicicleta, ele mesmo. E então ele ficava apenas encarando os objetos a girar. E balançando, por horas, Se a gente tentasse tirar ele do balanço, ele fazia um escândalo. Hoje sabemos que isto se chama estereotipia.”

Aqui vai o relato de um pediatra:

Jogando as crianças no trânsito: A verdade sobre o Autismo Por: Kenneth Stoller, doutor em Medicina e membro da American Academy of Pediatrics, com Anne McElroy Dachel, Terça-feira, 24 de Abril de 2007 “Eu sou pediatra há mais de 20 anos. Eu vi a minha primeira criança com autismo no início dos anos 90 – eu nunca havia visto uma criança autista em todos os meus anos de faculdade. O garoto tinha 4 anos e era possível ver a frustração em seu rosto como se ele quisesse falar, mas nada inteligível saía de sua boca exceto guinchos de ansiedade.

Seguem algumas outras doenças que compõem esta nova epidemia:

diabetesDiabetes de tipo 1, que, de acordo com os livros didáticos tem origem genética, também apresenta um crescimento misterioso nos anos recentes de aproximadamente 3% ao ano.

Lupus, antes classificada como uma doença rara, é o ataque autoimune a inúmeros tecidos corporais e hoje afeta 1,4 milhão de americanos de acordo com estimativas conservadoras, e talvez até mais que isso.

Esclerose múltipla, uma doença autoimune do sistema nervoso central, afeta 400.000 americanos e 2,5 milhões de pessoas no mundo todo. As taxas de prevalência dobraram de 1960 a 1980, e pelo menos um estudo mostra outra duplicação entre 1993 e 2002. A causa? Ninguém sabe, mas como de costume, a “suspeita é um vírus”.

A aparição da Esclerose Múltipla é ligada com alergias a alimentos, outra nova epidemia de nossa era. Quando eu perguntei a um primo pediatra qual foi a maior mudança em termos de saúde infantil que ele testemunhou em 20 anos de prática médica, ele disse que sem dúvida nenhuma é o aumento agudo das alergias e asma. Apesar de não serem doenças autoimunes, alergias são disfunções no sistema imunológico. Quando eu era criança, talvez houvesse uma criança na sala de aula que fosse “alérgica”; hoje você dificilmente ousará dar comida a uma criança sem antes perguntar a seus pais se ela não tem alguma reação alérgica. É prática sistemática perguntar “ele é alérgico a algo?”. Isto não é apenas uma questão de mais conhecimento. Um estudo do National Institute of Health (NIH) nos Estados Unidos descobriu que 54% dos americanos têm teste positivo para pelo menos um alergênico – o dobro de 30 anos atrás. Ao longo do mesmo período, as taxas de asma cresceram 74%, afetando por volta de 10% da população.

medicina-modernaSíndrome da fadiga crônica é outra nova doença com um provável componente autoimune. Antes pouco conhecida, ela afeta hoje 1 em cada 544 pessoas nos Estados Unidos. Ela pode ser uma condição debilitante, geralmente requerendo que os pacientes durmam por 14, 16 ou até mesmo 20 horas por dia. O que causa estes suspeitos ataques autoimunes? Ninguém sabe mas, de novo, suspeita-se de “um enteovirus, retrovirus, ou o virus da herpes”.

Uma condição relacionada conhecida como fibromialgia afeta 1 em cada 74 americanos, ou 3,7 milhões com mais de 18 anos. Caracterizada por uma dor crônica no sistema locomotor, muitas vezes debilitante, fadiga e rigidez, a doença pode ou não ser autoimune em sua origem (opiniões de experts estão divididas). De qualquer forma, é uma categoria de doenças muito recente.

Doenças autoimunes da glândula tireóide constituem outra nova epidemia, afetando 1 em cada 50 americanos.

Até agora, temos sido bem sucedidos em manter uma fachada de normalidade, mesmo com pessoas cada vez mais doentes. Uma forma de se fazer isso é convencer as pessoas de que é normal estar doente. Você só precisa de seu medicamento, e pode seguir sobrevivendo. A verdade – que nós deveríamos estar vibrantemente saudáveis – é uma ameaça ao status quo. Não é pra ser assim. Mas não tenha medo, a verdade irá emergir. Ela já está irrompendo da Terra. Ao passo em que as epidemias aceleram, logo ficará inegável para todos.

Este artigo te intrigou? O Plantando Consciência está trabalhando em um documentário sobre a medicina e saúde, e vamos investigar estas questões, e o que o xamanismo e os ecodélicos podem nos oferecer para enriquecer este debate. Já estivemos na Amazônia filmando os índios kaxinawá e em Alto Paraíso de Goiás entrevistando curandeiros de tradições americanas diversas (nativos de países da América do Norte, Central e Sul). Nossa próxima parada é Oakland, na Califórnia, para entrevistarmos médicos e cientistas que estarão reunidos no Psychedelic Science 2013, e que nos possibilitarão nos aprofundar na questão do ponto de vista da ciência. Mas esta meta só poderá ser atingida com a sua ajuda! Já conseguimos nossos ingressos e a estadia graças a doações e ajuda de simpatizantes. Mas ainda não chegamos lá, e precisamos de mais para conseguirmos viabilizar esta viagem. Ajude-nos fazendo uma doação de qualquer valor!

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Para saber mais sobre o filme:
http://www.plantandoconsciencia.org/pt/medicina/

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Vovó Grilo

Que a gente saiba proteger e cuidar de nossos rios e nossos mares, pois eles são a fonte da vida. Que a água seja uma dádiva acessível a todos os seres nesta Terra.  Que as chuvas fertilizem nossos campos, para que nosso alimento cresça e seja nutritivo.

Que a gente possa curar nossas águas ouvindo as vozes anciãs de nossas avós.

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Bem vindos ao décimo quarto B’aktun

Hoje começa o décimo quarto B’aktun. Mas sem sequer saber o que a última palavra da sentença anterior quer dizer, milhares andam por aí falando em fim do mundo. Alguns tentam se aproveitar da ignorância alheia pra ganhar uns tostões vendendo blablablás esotéricos supostamente astrológicos e coisas do gênero, enquanto outros de fato ganharam milhões de tostões fazendo e vendendo filmes onde o planeta catastroficamente colapsa, fisicamente falando.

Tsunamis, explosões, implosões, guerras, terremotos, maremotos e coisas do tipo, que continuamente e incansavelmente fascinam os fãs de hollywood.

Outros gastam tempo ativamente combatendo os supostos charlatões, tentando mostrar como a ciência ocidental é desenvolvida e o resto é gente primitiva e superstição idiota. Afinal, somos um povo avançado, científico, seguro de si. Sabemos que o mundo não vai acabar, não tem nem o que pensar a respeito. Então é lógico que profecia de fim de mundo é besteira e é melhor você cuidar das suas finanças e não gastar tudo em férias extravagantes.

Mas a maioria apenas ouve falar duma tal de profecia do fim do mundo (mais uma), de uns tais maias. E como o melhor remédio contra a ignorância é o bom humor, tiram da história boas piadas.

Então bota Tim pra tocar numa relax, numa tranquila, numa boa. Chama os amigos e as amigas, pega uma cerveja, prepara um churrasquinho e bora festejar, porque se o mundo ta acabando, por sorte é no verão, numa sexta-feira quase véspera de natal. Não podia ser um final mais feliz, não é mesmo?

Uma mentira corre metade do mundo antes da verdade ter chance de vestir as calças ~ Winston Churchill

Os mayas foram uma das mais avançadas civilizações da América Pré-Colombiana, e durante mais de dois mil anos habitaram as terras que hoje formam parte do México, na península de Yucatán, e também da Guatemala, Honduras e El Salvador. Chegaram aos milhões de habitantes em dezenas, talvez centenas de cidades.

O desaparecimento dessa cultura ao longo do tempo, principalmente entre o ano 1000 e 1500 de nossa contagem atual – o calendário gregoriano – ainda é um mistério não resolvido. Muitos defendem que foi o uso inadequado dos recursos naturais que teria levado ao desaparecimento e colapso dos mayas, mas há entre os estudiosos do assunto até os que contestem a idéia de que tenha havido qualquer colapso.

De qualquer forma, ainda haviam mayas vivos em muitas partes quando da chegada dos Europeus, e o choque que se seguiu foi brutal. Os colonizadores que chegaram na América em 1492 vieram transportados diretamente da Idade Média, onde praticavam caça às bruxas, execuções em praças públicas e viviam sob condições parcas de higiene e desenvolvimento material e tecnológico, apesar do feito incrível de atravessarem o oceano, vivos. Consideraram então os mayas e seus estilos de vida como coisas do demônio. Assim, ativamente promoveram um genocídio digno das páginas negras da história da humanidade, escritas a ferro, fogo, pólvora e sangue. Um trauma psíquico e cultural que não foi exclusivo com relação aos mayas, mas que atingiu todos os milhões de habitantes das Américas, que segundo os estudos recentes eram em maior número do que os habitantes da Europa. Grande parte morreu também devido às doenças trazidas pelos Europeus, pras quais os povos ameríndios tinham pouca, ou nenhuma imunidade. Pra alguns, não fosse esse fato, os Europeus não teriam conseguido colonizar o “novo” continente, mesmo com auxílio da pólvora como superioridade tecnológica de combate.

No que tange o massacre dos mayas, um exemplo famoso é o do Bispo Católico Diego de Landa, que ativamente comandou assassinatos e destruições impressionantes. Em 12 de Julho de 1562, Landa comandou uma cerimônia na qual foram queimados pelo menos 40 códices mayas e mais de 20 mil imagens sagradas. O nível de abuso físico e torturas dos inquisidores comandados por Landa era tão escabroso que até mesmo dentro da Igreja teria havido discórdia e oposição contra ele.

O resultado histórico deste massacre generalizado dos povos nativos da América, de norte a sul, que durou muitas décadas, é que muito do que se fala sobre os mayas (e sobre índio) hoje é especulação. Principalmente porque a imensa maioria dessa cultura foi literalmente dizimada e destruída pela inquisição. Mas também porque o preconceito foi espalhado e se enraizou na cultura eurocêntrica que hoje domina quase todo o continente. Provas deste fato é que continuamos ensinando história do Brasil através do olhar ultra enviesado do colonizador, e não do colonizado; e que “índio” nesse país continua sendo o grande alvo de racismo e exclusão, com práticas inquistórias, escravistas e genocidas ainda em vigor em algumas partes. Na verdade, a maioria dos brasileiros sequer consegue enumerar mais de três ou quatro nomes de tribos indígenas que habitam o país, e sequer se dão conta do fato de que o próprio termo “índio” se origina do equívoco do colonizador, que pensava estar na Índia quando aqui pisou. E há muita criança por aí que acha que índio não existe mais, só em filme…

Do ponto de vista arqueológico e antropológico, a perda de conhecimentos sobre os mayas são incalculáveis. Ainda assim, pelo menos dois séculos de estudos científicos sistemáticos e sérios, com colaborações internacionais, levaram a algumas decobertas fascinantes. Pioneiros no estudo da civilização maya, como por exemplo John Lloyd Stephens, Teobert Maler, Sylvanus G. Morley e Tatiana Proskouriakoff, entre muitos outros, conseguiram decodificar grande parte dos hieroglifos mayas. Mesmo com apenas fragmentos do que sobrou após a destruição promovida pelos povos auto-proclamados de “desenvolvidos”. E também pelo próprio desgaste do tempo, pois os mayas sobreviventes aprenderam rápido que com os recém chegados não havia muita chance de relações humanas decentes, e se esconderam nas florestas e esconderam seus bens e conhecimentos mais preciosos.

Se esconder na floresta… Pode parecer bobo numa primeira lida. Isto porque comumente aprendemos que nas américas viviam “apenas uns poucos” índios. E também porque a maioria de nós não tem qualquer experiência do que de fato é uma floresta, e da dificuldade de transitar por uma. A retirada foi tão intensa e bem feita, e a floresta é tão grande e cerrada, que muitas das centenas de ruínas de construções mayas, hoje sítios arqueológicos, foram descobertas apenas séculos depois de considerada terminada a colonização das Américas, quando os países aqui já eram “independentes”. E possibilidade há para que haja ainda mais para ser encontrado.

Um excelente exemplo de tesouro perdido são as ruínas de Calakmul, uma das maiores e mais bem desenvolvidas cidades mayas que se conhece até hoje. Foi descoberta apenas em 1932, vista de um avião que sobrevoava a região e cujos tripulantes estranharam dois picos muito altos no meio da floresta. Foram necessárias expedições terrestres para que pudessem alcançar o local e descobrir que a floresta havia literalmente engolido duas pirâmides que ultrapassam os 40 metros de altura, e mais algumas dúzias de construções menores e centenas de estelas – lápides de pedra com inscrições hieroglíficas. O nome Calakmul, dado pelos exploradores, em maya significa “montes adjacentes”. Alguns estudos foram conduzidos ainda nos anos 30, mas somente nos anos 80 o sítio voltou a ser estudado sistematicamente, tendo sido aberto a visitas turísticas apenas em 1994, como resultado dos esforços do INAH – o Instituto Nacional de Antropologia e História do México.

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Ali perto há outra, Balamku, bem menor e que foi descoberta e patrimoniada pelo INAH apenas nos anos 90. Sua descoberta aconteceu após uma denúncia anônima de que saques estariam acontecendo em uma ruína da região (reverberando o padrão histórico sobre o que se faz com a cultura maya). Um arqueólogo foi então enviado e se deparou com algumas construções, uma delas contendo algumas esculturas das mais bem preservadas da região, que séculos depois ainda conservava os pigmentos vermelhos e azuis originais, que decoram figuras sagradas pros mayas, como o jaguar.

Durante pelo menos 200 anos, houve então uma redescoberta e ressignificação arqueológica e antropológica dos conhecimentos obtidos pelos mayas, através da leitura de sua própria linguagem, agora parcialmente decodificada. E parte destes estudos revelou que era uma civilização com alguns conhecimentos altamente desenvolvidos, em especial a matemática e a astronomia. Algumas construções mayas encontram-se em posições incrivelmente precisas em relação ao norte, como a Estrutura VIII de Calakmul, que está alinhada com “erro” de apenas 8 graus a leste do norte magnético. Várias técnicas foram desenvolvidas para rastrear e mapear a posição dos astros nos céus ao longo de muitos anos, usando a sombra das construções e alinhamentos entre feixes de luz entre pilares paralelos, por exemplo, para identificar com precisão datas únicas como os Solstícios de inverno e verão.

Assim, de maneira não totalmente compreendida, os mayas calcularam o valor do ciclo sinódico de vênus em 584 dias, assombrosamente preciso. De acordo com a mais alta tecnologia do seculo XXI, o resultado é de 583,92 (erro de 0,08 dias, ou cerca de duas horas, ou 0,01%). Calcularam o ciclo de Marte em 780 dias, espantosamente certeiro, pois hoje calculamos em 779,94 dias (erro de 0,06 dias) e calcularam o lunar em 29,5 dias, sendo o cálculo atual de 29,53059! Eles inventaram ainda uma sofisticada grafia para os números, compostos de pontos e traços, e também o conceito matemático zero, quiçá antes dos árabes, que foram quem ensinaram aos europeus como se faz matemática pra valer.

Estes acertos numéricos não são meras curiosidades, mas são frutos de práticas genuinamente científicas (observação, repetição, inferência, refutação, comprovação etc) e estão relacionados com a construção e com o desenvolvimento da agricultura. Esta foi um dos desenvolvimentos centrais para o apogeu dos mayas, e pode também ter sido crucial em seu declínio, já que alguns estudos indicam que possa ter sido o uso exagerado dos recursos naturais que teriam levado muitas cidades a catástrofes ecológicas e sociais.

O acompanhamento da trajetória dos astros no céu, feito continuamente ao longo de séculos, permitiu aos mayas desenvolverem também calendários fascinantes e estrondosamente precisos. Foi apenas nos idos de 1950, com o descobrimento do Códice de Dresde e com o trabalho de Yuri Knórozov que muito desse nosso conhecimento atual sobre os calendários mayas avançaram, incluindo a identificação de, até agora, pelo menos 800 glifos do alfabeto maya.

Os mayas contavam o tempo em ciclos, e possuíam inúmeros calendários utilizados para finalidades distintas. O mais famoso, também conhecido como roda calendárica, conta larga, ou simplesmente “calendário maia”, é um sofisticado mecanismo que relaciona distintas contagens. Na conta larga, a unidade básica é o dia, ou k’in, que são agrupados em períodos de 20 dias, chamado winal. Um tun corresponde a 18 winals. Há também um k’atun, que conta 20 tunoob’, que é um ano de 360 dias (ao qual se adiciona um período especial de 5 dias, o wayhaab’, formando 365 dias). Tem também o b’aktun, que corresponde a 400 tunoob’s, ou aproximadamente 400 anos (mais precisamente 394,26 anos). Estes ciclos teriam começado em 3114 AC, em uma das cíclicas e sucessivas “criações do mundo”.

Uma imagem do Calendário Maya (a maioria dos resultados de uma busca no google é do calendário Azteca, indicando quanta confusão há sobre o assunto)

É um pouco complicado, mas de certa forma guarda semelhança com nossa contagem, que tem o dia como unidade básica, mas que depois é agrupado em ciclos de 7 (semana), de aproximadamente 30 (mês), de aproximadamente 365 (ano), e depois os séculos e milênios, que dão ênfase aos múltiplos de 10 como tendo algum tipo de significação especial. Mas para os mayas, o especial estava nos ciclos, que possuíam diversos significados, com ênfase nas mudanças periódicas. Assim, os calendários mayas já nasceram focados nas mudanças e na diversidade das possibilidades de contagem do tempo, enquanto o calendário gregoriano nasceu com o nome de Calendário Gregorianum Perpetuum, se prpondo a ser a melhor, mais precisa e definitiva maneira de contagem do tempo, pra sempre.

Dentre os vários calendários mayas, era o Haab’ o utilizado para contar o ano de cerca de 365 dias relacionados ao sol. Outro era o calendário mágico, ou ritual, o Tzolk’in, que determinava padrões da vida cerimonial. O Tzolk’in foi construído combinando 13 coeficientes para cada um dos 20 nomes que existiam, neste calendário, para os dias. O resultado é uma conta de 13 x 20 = 260 dias, que aproxima o período de gestação humana, e na qual não há repetição de um único dia. Para cada um dos 20 dias principais haviam glifos que correspondiam a distintas entidades, divindades, forças da natureza ou animais, aos quais era combinada a conta de 13 números. A roda calendárica combina as 260 permutações do Tzolk’in com as 365 do Haab’. Os mayas sabiam que uma dada combinação do Tzolk’in com o Haab’ só voltaria a se repetir após um ciclo de 52 anos.

Além destes, haviam outros ciclos, como o pouco compreendido ciclo de 819 dias, relacionado aos números primos 7 e 13, que aparece em várias inscrições remanescentes ao massacre da cultura maya, e outros ciclos maiores como o piktun, equivalente a 8000 tunoob’s (ou cerca de 8 mil anos), o kalab’tun que é igual a 160.000 tunoob’s ou 20 piktuns, o k’inchiltun, que equivale a 3 milhões e 200 mil tunoob’s ou 20 kalab’tuns, e o ‘alautun, que correspondia a cerca de 64 milhões de anos.

Portanto, é óbvio que não há fim no calendário maya. Na verdade, os mayas tinham calendários que iam milhões de anos a frente de sua época, e milhões de anos a frente desta época em que estamos.

Mas então, o que as interpretações errôneas e catastróficas tem a nos dizer?

Estas histórias não surgiram dos mayas, mas de nossa própria cultura. Em um primeiro momento, nos revelam nosso etnocentrismo e o preconceito que ronda os conhecimentos adquiridos por outros povos, em outras épocas e lugares. Como não é incomum na antropologia, as interpretações revelam mais sobre o observador do que sobre o observado. As idéias de fim de mundo não são novas neste 21 de dezembro de 2012, e já rondaram também, por exemplo, o ano 2000 e o ano 1000, dada a nossa tendência a atribuir significado aos múltiplos de dez, ou mais especialmente aos milênios (chamado de milenarismo). Quase sempre estas datas são interpretadas como catástrofes físicas, ou então relacionadas ao juizo final Católico, onde Deus finalmente decidiria quais almas seriam salvas e quais não. Entre os não religiosos, é a visão de catástrofe física que parece predominar, e as raízes profundas disto podem estar na filosofia que atualmente vigora em nossa cultura científica: o materialismo.

Fim do mundo no ano 2000

Esta visão propõe que a realidade é o físico, que está fora de nossa mente, pode ser observado, medido e (supostamente) estudado objetivamente. Para o materialismo, os fenômenos mentais são epifenômenos da matéria, a consciência é um acaso que brota da atividade de bilhões de células cerebrais e espiritualidade é bobagem, superstição infantil ou ignorância. O materialismo nasceu na mesma época que a Ciência como hoje a conhecemos, fruto do pensamento e trabalho de gênios como Isaac Newton, René Descartes, Galileo Galilei, entre outros. É daí que vem o outro nome do materialismo científico, também conhecido como paradigma newtoniano-cartesiano, dada a influência intelectual e filosófica exercida por estes dois cientistas.

Assim, após séculos debruçados sobre o mundo material, compreendendo e descrevendo a trajetória dos planetas com fórmulas matemáticas, desvendando a composição química da natureza, a estrutura do átomo e suas subpartículas, a mente científica habituou-se a pensar quase que exclusivamente em termos da matéria. Não é de se surpreender, portanto, que quando se depare com algum mito “primitivo” sobre “fim do mundo”, imediatamente pense em catástrofes físicas e detruição do planeta.

Mas para os mayas, os ciclos do tempo indicavam também momentos propícios para rituais mágicos, religiosos ou místicos, relacionados a várias divindades. Provavelmente corresponde ao que hoje chamamos aspectos arquetípicos da psique, como colocado por pensadores como Jung e Campbell. Durante alguns desses rituais,  como o famoso e onipresente “juego de pelota”, a morte acontecia de fato fisicamente, sendo o perdedor decapitado, como parte do processo ritualístico de veneração das divindades e de um culto à fertilidade. Mas mais frequentemente, os rituais ameríndios estão ligados aos fenômenos espirituais sem a necessidade do sacrifício físico. É possível e provável que para os mayas não fosse totalmente diferente. Evidências de rituais mágico-religiosos e espirituais incluem as estátuas-cogumelo de Kaminaljuyu. Estas estátuas sugerem que cogumelos psicodélicos tenham sido usados e até mesmo considerados divindades pelos maya, bem como o eram por outras culturas e povos da região. Como por exemplo os mazatecas, que até hoje utilizam os “niños santos” em rituais na serra do estado de Oaxaca. Cogumelos do gênero Psilocybe, que contém centenas de espécies psicoativas, crescem em abundância em toda a península de Yucatan e na serra Oaxaqueña. São absolutamente não tóxicos, e propiciam uma experiência mística que pode ser profunda e extremamente transformadora, caso seja feito de maneira adequada, em local apropriado e com um guia experiente, capaz de levar o participante a colher frutos positivos da sua jornada interior. Assim, a morte e o fim que eram professados relacionados a estes tipos de rituais não eram necessariamente relativos a aspectos físicos, mas psíquicos e espirituais.

De qualquer forma, a posição dos astros no céu era relacionada com inúmeros mitos, deuses e demônios. Estas divindades representavam forças psíquicas e arquetípicas, e o acompanhamento dos astros no céu serviria então para mapear mudanças na psique, ou na consciência, de acordo com a carga energética dos deuses envolvidos em cada época e ciclo. Para eles, os ciclos de contagem do tempo indicavam as mudanças nas forças arquetípicas predominantes, e então tinham implicação direta na vida e nas sociedades, tendo sido considerados conhecimentos sagrados, venerados por milênios.

De acordo com esta visão arquetípica da psicologia profunda e da mitologia, o novo b’aktun do calendário maya marcaria então uma fase de mudança na psique da humanidade. Mas assim como a primavera não começa subitamente, as mudanças não acontecerão de imediato, nem acontecerão apenas após a data simbólica, muito menos serão apenas de ordem física. Trataria-se então de um período de transição psicológica e cultural, e um olhar abrangente pra situação planetária atual ilumina a questão e sugere que sim, a tal profecia maya pode ter sentido.

Nunca antes existiu neste planeta uma situação assim. Somos hoje mais de 7 bilhões de humanos, e seremos muito mais em intervalos cada vez menores, pois o crescimento é exponencial. E estamos vivendo como se fôssemos algum tipo de praga que consome tudo e desperdiça quantidades assombrosas, até mesmo daquilo que vai garantir a sobrevivência futura. E sem dar tempo e condições para que os recursos se regenerem. Estamos exagerando no uso da energia fóssil, na mineração e na construção. Estamos erguendo cidades de puro concreto num ritmo nunca antes visto, e partindo pra todos os ecosistemas com ganância de quem ainda quer mais. Esta ganância transparece em nossos sistemas políticos, que vão se esgotando em sua capacidade de gerenciar e representar as vontades e anseios da população em várias partes do planeta. Então as condições sociais se deterioram e as revoltas vão se acumulando e fortalecendo, acontecendo com mais e mais frequência, deixando a todos inseguros e amedrontados. Incluindo os políticos, que se escondem atrás do aparato policial e bélico, e propõem soluções frequentemente fundamentadas na cultura da violência.

banksy, cartão de natal 2012

O medo nos afasta e manifestações de intolerância contra o outro, o diferente, se intensificam e se reproduzem, criando mais fronteiras, mais muros, mais cadeias, mais aparatos de segurança, mais genocídio, ecocídio e etnocídio. Isto diz respeito com toda força ao que acontece com as culturas chamada indígenas, em todo o mundo, que continuam a sofrer com o trauma que se originou em 1492.

Como bem ensinou Jiddhu Krishnamurti, o mundo que fazemos é apenas um reflexo do nosso mundo interior, e não o contrário. Ou seja, não estamos confusos e amedrontados porque o mundo está uma bagunça. O mundo é que está uma bagunça porque nós assim o criamos, porque estamos inseguros e amedrontados.

Assim sendo, a tal profecia maya poderia estar nos dizendo que a hora é propícia para evoluir. Como já colocaram inúmeros místicos, cada qual a sua maneira, crise é um momento de perigo e oportunidade, ao mesmo tempo. A crise pode ser o momento para semearmos a mudança e colhermos crescimento, mas também pode trazer perigo de estagnação e retrocesso. Esse duelo brutal de forças opostas está presente de forma marcante no dia a dia de cada um de nós. Basta olhar em volta, com atenção, e tudo pode ser visto como perigo, ou como oportunidade.

Desse ponto de vista, a profecia maya poderia estar a dizer e calcular que nesta época estaríamos passando por mudanças psíquicas profundas. Mas não apenas nesta época, já que os eventos no tempo eram percebidos, pelos maya, como cíclicos. De fato, sequer há numerosas escrituras maya que digam algo de especialmente relevante sobre esta transição em particular, que chamamos de 2012. Há o monumento VI de Tortuguero, que descreve brevemente o que ocorreria ao final do 13 b’aktun, quando descenderá um conjunto de divindades chamados de B’alu’n Yookte’ K’uh, ou “dos nove pilares” (ou nove suportes). Outra referência específica a esta transição está no grupo de Palenque, e se refere a eventos similares ao da Fecha Era, ou ano zero, sugerindo eventos de grande magnitude. Seja como for, é certeza que trata-se de uma transição de b’aktuns, mas se algo de suprema importância e único vai acontecer, ninguém sabe.

Mas podemos, ao menos, não apenas contextualizar a crise atual pela qual passamos de acordo com a mudança de b’aktun, mas olhar pra trás e resignificar o calendário maya de acordo com outras transições de b’aktun anteriores. Os resultados desse exercício mental são impressionantes. Se um b’aktun tem quase 4 séculos, significa que estamos neste b’aktun desde cerca de 1600 (a conta pelo calendário gregoriano seria 2012 – 394 = 1618, em algum ponto antes de 21 de dezembro, já que o correto é 394,26). A Obra prima de Nicolaus Copernicus foi publicada em 1543 e revelou que a Terra gira em torno do Sol. A obra de Galileo Galilei chacoalhou o mundo católico ao redor de 1615, a obra de Descartes nasceu ao redor de 1640 e as “leis de Newton” foram publicadas por volta de 1680. Assim, foi no início do décimo terceiro e atual b’aktun que aconteceu a grande e conflituosa transição que originou a Ciência, mudou o mundo e nossa maneira de vê-lo. E veio junto o racha traumático que separa, até hoje, a ciência da maioria das religiões.

Ou seja, o b’aktun que está acabando hoje é aquele onde ocorreram os traumas da colonização do mundo por parte das culturas de origem Européia, incluindo a dizimação do povo maya, que pode ter sido prevista pelos próprios mayas. No livro Chilam Balam, de Maní, há uma profecia sobre a chegada dos conquistadores espanhóis, que diz algo próximo de “ocorrerá o itzá e rodará o Tancah“, que descreveria os estrangeiros como “hóspedes barbados que vem do oriente e em suas palavras não dizem verdades”. No décimo terceiro b’aktun aconteceu, portanto, não apenas o genocídio contra os próprios criadores de tal conhecimento, mas também o genocídio de inúmeras culturas e uma perseguição brutal contra tudo e todos que não se conformassem a uma visão específica de mundo.

Mas neste b’aktun a humanidade também mudou completamente de estilo de vida, criou a tecnologia que temos hoje e alterou drasticamente suas relações com o planeta e consigo mesma. Como resultado, também agigantaram-se as discrepâncias entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos, testemunhou-se a escravidão de povos inteiros, o racismo, o nazismo, o fascismo, duas guerras mundiais, bombas atômicas, o terrorismo… Em suma, um b’aktun muito conturbado, conflituoso, paradoxal, antagônico, dual. Caracterizado por muito sofrimento físico, psíquico e espiritual.

Portanto, foi neste b’aktun, o décimo terceiro, que simbolicamente se encerra hoje, que inventamos o materialismo, com todas suas contradições. O materialismo nos deu de presente a bomba e o ipad, a metralhadora e o antibiótico, o GPS que guia o motorista mas também o míssil, nos deu a fábrica, mas nos deixou a poluição. O materialismo nos forneceu uma expectativa de vida sem precedentes, mas também nos trouxe a uma situação de superpopulação sem solução à vista.

Assim sendo, o que está em jogo não é a integridade física do planeta, mas nossa consciência. E não se trata de um jogo rápido. Se um b’aktun correponde a quase 400 anos, para entender do que falavam os mayas seria extremamente simplista e ingênuo buscar respostas em um único dia. Então, não espere que a profecia maya se concretize, ou seja refutada, com base em eventos pontuais, seja a eleição de um presidente aqui ou ali, o fim de uma guerra, o começo de outra, ou alguma descoberta científica chocante. Entretanto, o processo que começa a se desenrolar certamente envolve alguns destes eventos. Como no final do décimo segundo b’aktun foi descobeto que girávamos em torno do sol, no final do décimo terceiro descobriram o Bóson de Higgs…

Se acontecimentos realmente revolucionários aconteceram justamente na última transição de b’aktuns (e pode-se, obviamente, estender este estudo histórico para todas as transições anteriores), pode ser que de fato algo de relevante, bem relevante, esteja por trás dos conhecimentos do calendário maya. Quanto mais se escava informações a respeito dos b’aktuns precedentes, mais incoerente parece a explicação de que seja mera coincidência, totalmente desprovida de significado.

Não seria, portanto, muito alucinante pensar que no novo b’aktun, ganharíamos de presente algo completamente novo e tão transformador quanto foi a invenção da ciência nos idos dos 1600 gregorianos. E que também haverá, como houve à época, enorme resistência.

“O dia em que a ciência começar a estudar fenômenos não-físicos, ela fará mais progresso em uma década do que em todos os séculos de sua existência prévia” Nikola Tesla

Que tal então contemplarmos uma nova ciência, com uma nova visão de mundo? Será que faz sentido interpretarmos esta época inspirados nos maya, como significando uma revolução da consciência? Como o surgimento de uma percepção científica de que há mais entre o Céu e a Terra do que prega e delimita a filosofia materialista?

Algumas ocorrências indicam que sim, que pode ser disto que se trate a profecia maya. Os avanços a solapar o materialismo, a deslocar a matéria como a pedra fundamental da realidade, vieram primeiro com a física quântica. Depois, descobrimos que 90% do universo é composto de algo que não é matéria, que ironicamente nomearam de “matéria escura”. E agora a neurociência, a psicologia e a psiquiatria começam a passar por um processo semelhante ao que passou a física. Uma total ressignificação de conceitos e pressupostos, com mais e mais experimentos mostrando fascinantes resultados sobre a função do cérebro em estados de consciência distintos do comum. Isto inclúi experimentos com meditações, com transes mediúnicos, yoga e também com os psicodélicos, ou enteógenos.

Um bom marco sócio-cultural diretamente relacionado a essa transformação é o início do fim da guerra contra as drogas, marcado pela recente legalização da maconha em dois estados dos EUA. A guerra contra as drogas é nada mais que o alongamento psíquico da inquisição do século XV e XVI para o século XXI gregoriano. Uma inadequada prorrogação da luta e perseguição aos estados de consciência por um b’aktun inteiro! No fundo, não é uma guerra contra substâncias nocivas. É uma guerra contra a consciência. Contra a(s) possibilidade(s) de que a consciência seja algo maior, mais abrangente e misterioso do que a filosofia materialista supõe e é capaz de explicar. É uma guerra cultural contra estados não ordinários de consciência e seus métodos de indução mais confiáveis. Métodos estes que foram centrais para os mayas e para inúmeros outros povos, e que podem estar envolvidos diretamente na própria origem da religião como empreitada humana.

Talvez então a característica filosófica mais marcante do b’aktun que se encerra tenha sido o aprisionamento, tanto da ciência quanto da religião, em apenas um estado de consciência. Paradoxalmente, ao se aprisionarem no mesmo estado, se separaram radicalmente uma da outra. E possivelmente então o que nos aguarda seja a gradual e revolucionária liberação do ser humano para outros reinos, infernais e astrais, da psique. Esta jornada, como bem mostram os resultados pioneiros da psicologia surgida das explorações dos anos 60, incluindo o uso ritual, terapêutico, responsável e científico dos psicodélicos, pode significar o reencontro da ciência com a espiritualidade. Então, a oportunidade de sanar as feridas das guerras e genocídios deste b’aktun estará ao nosso alcance, como já começam a demonstrar pesquisas pioneiras com os psicodélicos.

“Não há conflito entre ciência genuína e religião autêntica. Se há, é porque estamos falando de pseudociência e falsas religiões” Ken Wilber

Principais Referências:

INAH, ruínas e sítios arqueológicos no México, Museo Nacional de Antropologia e o livro “Lo Essencial del Calendario Maya – los señores del tiempo” supervisionado pelo arqueólogo Carlos Pallán Gayol.

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