Archive for Fabrício Pamplona

O forte e o apache


Copio descaradamente e assumidamente um texto inspirador de autoria do talentoso Luiz Bolognesi, roteirista de filmes de primeira como “O Bicho de Sete Cabeças”. No original estava “E ganhou a máquina de Guerra” publicado aqui

Espero que no futuro possamos tratar tudo isso como uma “curiosidade” de uma cultura bélica atrasada e ignorante, que felizmente passou. Mas com a questão indígena cada vez mais forte, em nosso país e no mundo, nada mais atual. Ou você tem alguma dúvida de que o filme Avatar retrata um paralelo perfeito de Belo Monte e as reservas naturais do Xingu ou do que já aconteceu na descoberta conquista da América
PS – Eu li o original em 2010, e em 2012 ele continua fazendo sentido. Vamos ver até quando.

Ao contrário do que parece à primeira vista, a polarização entre Avatar e Guerra ao Terror não traduz uma disputa entre cinema industrial e cinema independente, nem batalha entre homem e mulher. O que estava em jogo e continua é o confronto entre um filme contra a máquina de guerra e a economia que a alimenta e outro absolutamente a favor, com estratégias subliminares a serviço da velha apologia à cavalaria.

Avatar foi acusado nos Estados Unidos de ser propaganda de esquerda. E é. Por isso é interessante. No filme, repleto de clichês, os vilões são o general, o exército americano e as companhias exploradoras de minério do subsolo. Os heróis são o “povo da floresta”. A certa altura, eles reúnem todos os ”clãs” para enfrentar o invasor americano. Clãs? Invasor americano? Que passa? É difícil entender como a indústria de Hollywood conseguiu produzir um filme tão na contramão dos interesses do país e transformá-lo no filme mais visto na história do cinema. Esse fato derruba qualquer teoria conspiratória, derruba décadas de pensamento de esquerda segundo a qual a indústria de Hollywood está sempre a serviço da ideologia do fast-food e da economia que avança com mísseis, aviões e tanques. Como explicar esse fenômeno tão contraditório?

Brechas, lacunas na história. Ou como diria Foucault, a história é feita de acasos e não de uma continuidade lógica cartesiana. A necessidade do grande lucro, da grande bilheteria mundial produziu uma antítese sem precedentes chamada James Cameron. O homem de Titanic tinha carta branca. Pelas regras da cultura do “ao vencedor, as batatas”, Cameron podia tudo porque era capaz de fazer explodir as bilheterias mundiais.

Mas calma lá, cara pálida, uma incoerência desse tamanho, você acredita que passaria despercebida? O general americano, vilão? As companhias americanas que extraem minério debaixo das florestas tratadas como o império das sombras? Alto lá. Devagar com o andor, mister Cameron.

Aí, alguém chegou correndo com um DVD na mão. Vocês viram esse filme da ex-mulher do Cameron? Não, ninguém viu? Então vejam. É sensacional. Ao contrário de Avatar, nesse DVD aqui o soldado americano é o herói. Aliás, mais que herói, ele é um santo que arrisca sua própria vida para salvar iraquianos inocentes. Jura? Temos esse filme aí? Sim, o pitbull americano é humanizado e glamourizado, mais que isso, ele é santificado.

Então há tempo.

Guerra ao Terror estreou no Festival de Veneza há dois anos. Por acaso eu estava lá como roteirista de Terra Vermelha, do diretor italiano Marco Bechis, e fui testemunha ocular da história. O filme da diretora Kathryn Bigelow foi absolutamente desprezado pelos jornalistas e pelo público. E seguiu assim. Indo direto ao DVD, em muitos países, sem passar pelas salas de cinema. Até ser resgatado pela indústria americana como um trunfo necessário para contestar Avatar e reverenciar a máquina de guerra e o sacrifício de tantos jovens americanos mortos e decepados em campo de batalha.

Trabalhando num projeto para o mesmo diretor italiano, que pretendia fazer um filme sobre os viciados em guerra no Iraque, eu pesquisei o assunto durante alguns meses. Tudo muito parecido com o filme de Bigelow, exceto por um detalhe. O detalhe é que os soldados americanos que se tornam dependentes da adrenalina da guerra tornam-se assassinos compulsórios e não salvadores de vidas. O sintoma dos viciados em guerra é atirar em qualquer coisa que se mexa, tratar a realidade como videogame e lidar com armas e balas de verdade como um brinquedo erótico. Se Guerra ao Terror representasse nas telas essa dimensão da realidade, seria um filme sensacional, mas não teria levado o Oscar, podem apostar.

Guerra ao Terror venceu o Oscar porque, como nos filmes de forte apache, transforma os assassinos que dizimam outras culturas em heróis santificados. A cena extremamente longa e minimalista em que os jovens soldados americanos em situação desprivilegiada combatem no deserto os iraquianos é o que, se não uma cena clássica de caubóis cercados por apaches? Sem nenhuma surpresa para filmes desse gênero, os garotos americanos vencem, matam os iraquianos sem rosto, como os caubóis faziam com os apaches no velho-oeste. A cena do garoto iraquiano morto, com uma bomba colocada dentro do corpo por impiedosos iraquianos, que literalmente matam criancinhas, tem a sutileza de um elefante numa loja de cristais. Propaganda baratíssima da máquina de guerra.

No filme de Cameron, os na”vi azuis podem ser os apaches que derrotam o general e expulsam a cavalaria americana. Mas isso é apenas uma ficção. Na vida real do Oscar, a cavalaria precisa continuar massacrando os apaches.

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PMs abrem caminho para Marcha da Maconha passar pelo Aterro do Flamengo

Uma feliz continuidade ao post Tropa de choque pra quê? mostra que as coisas estão evoluindo

Matéria original no Globo por Carolina LaurianoDo G1 RJ

Índio acende ' cachimbo da paz' durante a Marcha da Maconha, no Rio (Foto: Rodrigo Gorosito/G1)Índio acende ‘ cachimbo da paz’ durante a Marcha da Maconha, no Rio (Foto: Rodrigo Gorosito/G1)

Diferente da passeata de maio, quando uma confusão entre manifestantes e policiais militares deixou alguns feridos, a Marcha da Maconha desta terça-feira (19) teve motocicletas da PM abrindo o caminho para centenas de participantes na Cúpula dos Povos, maior evento paralelo à Rio+20, no Aterro do Flamengo.

A caminhada começou pontualmente às 16h20, saindo da frente do Museu de Arte Moderna (MAM), na Zona Sul do Rio de Janeiro, em direção à Praia do Flamengo. No dia 5 de maio, a marcha foi realiozada na Praia de Ipanema. Manifestantes foram agredidos por cassetetes, balas de borrachae estilhaços de bombas de efeito moral.

Mulher desaprova Marcha da Maconha (Foto: Carolina Lauriano/G1)Alguns desaprovam a Marcha da Maconha, que acontece nesta terça (Foto: Carolina Lauriano/G1)

“Nosso objetivo é dialogar com o público da Cúpula dos Povos e queremos colocar a legalização da maconha na pauta do evento e no documento final da Cúpula”, afirmou Renato Cinco, líder do evento, que antes da marcha dialogou com policiais militares e pediu aos manifestantes para que ninguém usasse maconha durante a caminhada. “Quem fumar corre o grande risco de ser detido”, completou.

O ato contou com cartazes, faixas e gritos de guerra do grupo. Pessoas contrárias à legalização das drogas também se manifestara durante a Marcha da Maconha, mas o clima foi pacífico.

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Uma guerra anunciada – sexta na Cúpula dos Povos Rio+20

Notícia fresquinha sobre um novo documentário, independente, e financiado coletivamente sobre a polêmica usina hidrelétrica de Belo Monte. Ele dá voz aos povos da região e aborda alternativas e mostra a dura realidade do impacto causado pela obra narrado pelas pessoas que estão acompanhando bem de perto a série de manobras políticas, jurídicas e desrespeitos que fazem parte desta história, como já foi relatado neste post do Plantando. Não sou dos mais radicais, e acho até que pensar em usinas hidrelétricas é uma evolução, considerando as  opções antigas baseadas na queima de combustível fóssil. Só não aponta para o futuro, e nos dias de hoje acaba sendo uma opção bem dentro da zona de conforto e que não considera seriamente questões ambientais estratégicas que estão relacionadas. Vim recentemente do TEDxRio+20 onde José Cordeiro, da Singularity University (uma joint-venture entre Google e NASA) falou da possibilidade real de uma matriz energética baseada em energia eólica e solar, e na transmissão wireless de energia elétrica englobando o  planeta inteiro até 2040. É para este futuro que deveríamos apontar, principalmente se o Brasil quer assumir de fato sua posição de liderança internacional.

Enquanto esta realidade não se materializa, ainda falta um tanto de gente acreditando junto, lembremos que toda ação vem de uma tomada de decisão, e que está baseada em valores e crenças. Se continuarmos acreditando que está tudo bem, e que somos imortais, e que o planeta dá um jeito, e vivermos negligenciando o impacto negativo dos valores egoístas da nossa sociedade, a coisa não vai pra frente. Temos que mudar de perspectiva e atualizar nossos valores para uma sociedade que inclua mais, que ouça mais, respeite mais e não tenha vergonha do amor. A si próprio e aos outros ao seu redor, estamos todos conectados.

O filme fala um pouco disso, tendo como fundo a história de Belo Monte, que já vem de longa data (as notícias começam em 1989, com uma “declaração de guerra” kaiapó à Eletronorte. E você pode assistí-la na íntegra aqui . Não é formidável?

E o fato de ter sido financiado coletivamente dá uma ideia clara da importância do tema para a população brasileira. Foram R$140 mil saídos dos bolsos da população. Fenomenal não é? É um grito de “Queremos saber a verdade!”. E ela está dita em Letras Garrafais neste longa. Creio que terá um impacto ainda maior do que o discurso de James Cameron. Vamos assistir, divulgar e compartilhar.

Um ponto importante de argumentação: para Belo Monte produzir a quantidade de energia que a justifique, serão necessárias várias outras barragens, alagando uma area muito superior a que está sendo declarada. E obviamente a primeira usina vai abrir o precedente. O autor e diversos estudiosos e autoridades entrevistadas fazem a previsão de que o argumento da necessidade de novas barragens será trazido à tona somente depois de alguns anos da construção da barragem inicial.

De novo, os valores, quem está decidindo por quem?

Um breve relato do filme segundo o diretor André D’elia:

“A primeira ideia era escrever um roteiro de ficção sobre a Amazônia. Depois de uma expedição pela floresta — e a constatação de que a Amazônia não é tão simples quanto parece —, a ideia passou a ser fazer uma pesquisa filmada. Após três anos, 120 horas de filmagens e R$ 140 mil angariados em uma grande vaquinha pela internet, o projeto finalmente saiu do papel. E em uma data propícia. O documentário “Belo Monte – Uma Guerra Anunciada”, sobre a usina hidrelétrica que está sendo construída no Pará, estreou no último domingo, com exibição no auditório Ibirapuera, em São Paulo, em meio às discussões sobre meio ambiente promovidas pela Rio+20.”

Na próxima sexta, dia 22 de junho o filme será exibido na Cúpula dos Povos, no Aterro do Flamengo como evento da Rio+20. Quem tiver afim… por favor, chega mais!

“No Rio ou em São Paulo, as pessoas acham que conhecem a Amazônia, acham que sabem o que está acontecendo lá, mas não sabem. Muita coisa não está sendo dita. Para entender a questão é fundamental ouvir os povos que vivem lá e saber o que está por trás do projeto” ressalta André.

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Seu Chico quer traineira. E agora?

Meus últimos dez dias passei sem energia elétrica, sem TV, sem internet ou telefone celular. Meu desejo urbano mais profundo se materializou numa latinha de coca-cola. Ou duas, ao longo dos dez dias. Passei a “rapa no tacho” da minha conta bancária e fui fugir um pouco do ser que construí para se encontrar comigo mesmo. Aquela conexão essencial que só se consegue quando estamos entre os iguais, e dormindo sob um céu estrelado. No dia a dia, com tantas distrações, é bem fácil esquecermos do essencial.

Pesquei pra caramba, estava num paraíso da natureza, encontro das águas salgadas e doces, areias e pedras, mata virgem para todos os lados e um céu estrelado sem igual. Tínhamos levado comida suficiente, e um desejo de passarmos um carnaval “light”, mas não careta. Com a intenção de deixar uma pequena pegada ecológica, uso racional dos recursos, focando na felicidade e integração com a natureza. E assim se fez. Exceto, talvez, pela “sede” de pesca que eu tava. Explico, faz pouco tempo iniciei em um esporte altamente desafiador e recompensante, mas que só pode ser  praticado em lugares muito especiais. A pesca submarina só se faz em condições raras: tem que ter água clara, e claro, tem que ter peixe. Unindo o útil ao agradável, eu era responsável por prover a “proteína” da alimentação. Naquele paraíso isolado, fiquei igualzinho a criança com brinquedo novo, não conseguia pensar em mais nada…

Até que um belo dia, tendo expandido a viagem em 3 dias não planejados, me dei conta que o alimento estava literalmente acabando. Enquanto haviam outros turistas na vila, beleza, o cardápio do Bar do Seu Chico era farto: café da manhã, misto quente, pastel, PF, porção de lula batata frita e o escambau. Da noite pro dia, foi tudo apagado e apenas se lia: pastel de queijo.

A não, até ontem eu tinha TUDO, e agora só posso comer pastel de queijo? Se não fosse isso, seria batata com arroz. “Que bosta que é viver a privação”, pensei comigo. (Que privação mais urbanóide, pensei depois). Unindo o útil ao agradável, sem nem pestanejar muito, arregacei a manga e fui pescar. Acontece que também no mar, a fartura dos primeiros dias havia minguado. Entrou uma corrente fria danada, que espantou a maioria dos peixes “bons”. E agora? Muito esforço e pouco retorno, mas atuando bravamente, não deixei ninguém passando fome, ou vivendo só à base de pastel de queijo.

Conversando com seu Chico, o dono do bar, o chefe da vila, o mais antigo pescador da região, achamos um ponto em comum para a prosa de pescador: “não tem mais tanto peixe como antigamente”. O que senti na pele, em uma semana, seu Chico sente ao longo dos anos. Sua pesca tradicional “de cerco” está com os dias contados. Em grande parte por conta dos barcos que pegam o peixe muito antes dele adentrar a baía, não dando tempo para que os grandes cardumes encontrem as redes que estão preparadas esperando.

 

E aí, cansado de esperar pelo peixe que não vem, seu Chico agora quer traineira…  Isso é somente o simbolismo de algo muito ruim que está acontecendo mundo afora. Como os grandes peixes não estão mais abundantes, e dificilmente um grande cardume vai aparecer “de bandeja” em uma rede de cerco, os pescadores tradicionais se vem obrigado a literalmente perseguir os cardumes  com uma rede fininha chamada de “traineira”, de maneira que todo o peixe seja capturado e não tenha como fugir.

E a coisa vai ficar pior, seu Chico. O Brasil é um dos países onde a pesca ainda não se desenvolveu “de verdade” considerando o número de barcos pesqueiros (VIDEO http://www.youtube.com/watch?v=C3tCuheNOTA&feature=player_embedded), a tendência da pesca industrial, em oposição à pesca tradicional, está literalmente drenando os estoques mundiais de pescado. Este tipo de pesca é muito mais produtiva, fala-se em barcos (nvaios) capazes de carregar até 150 toneladas de peixes… mas também geram um desperdício infinitamente maior do que a pesca artesanal. O pescado, que naturalmente já tem uma grande perda, de cerca de 30% de partes não comestíveis, é ainda um tipo de carne muito sensível, que não resiste ao aumento de temperatura, e que deixa de ser saudável e saborosa em poucos dias. Ou seja, perde-se muito até que o filezinho de salmão para sashimi chegue ao seu prato.

Já que os grandes peixes comerciais começam a rarear, o foco agora é a sardinha. O problema é que a sardinha é um nó importantíssimo na cadeira alimentar dos 7 mares. Os cardumes de sardinha alimentam diversos outros cardumes de peixes. Se está faltando peixe, é porque já se pescou demais. Se aparentemente está sobrando sardinha, é por que não tem o predador, mas se pescarmos também demais a sardinha, para onde vamos?

Como consequência, está cada vez mais difícil de se tornar um pescador legalmente cadastrado na Europa. Os custos e as restrições vão às alturas, de maneiras que só as grandes corporações podem se dedicar à esta atividade. Como exemplo, o investimento para se ter um sonar para localização dos cardumes, equipamento eletrônico que se tornou praticamente indispensável seguindo a prática atual, pode facilmente passar dos R$200 mil reais.


Fonte: http://www.guardian.co.uk/news/datablog/2011/jun/03/fish-stocks-information-beautiful

Os números não mentem, nos últimos 25 anos a quantidade de sardinhas pescadas no Brasil caiu para cerca de 20% do que era na farta década de 70. Cerca de 85% das áreas pescáveis dos oceanos estão classificadas como totalmente exploradas, superexploradas ou até mesmo esgotadas. Isto é um fato. Cruze esta informação com o fato de que o Banco Mundial anuncia que vai “salvar os oceanos” com R$300 milhões de dólares , falando-se de um mercado pesqueiro de dezenas de bilhões de dólares. Minha leitura desta notícia é dúbia. Claro que é positivo que se tenha mais dinheiro disponível para preservação da natureza, afinal, as atividades dependem de recursos, pouco se faz sem dinheiro. Mas acontece que precisamos é de atitudes concretas, diminuição de captura, restrição de espécies, planejamentos dos estoques marinhos, e muita reza, e crença na força regenerativa da mãe natureza. O impacto vai ser necessariamente menos peixe na mesa, e uma mesa menos farta. Em todos os aspectos, é hora de fazermos algum sacrifício para um amanhã melhor.

“Quando a última árvore for cortada, quando o último rio for poluído, quando o último peixe for pescado, aí sim eles verão que dinheiro não se come…”

 

Para saber mais: Quais peixes deve-se pescar (e consumir?)

http://www.informationisbeautiful.net/2011/which-fish-are-okay-to-eat/

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Ainda vai ser proibido proibir o que não se pode proibir

Recentemente houve a polêmica publicação de um adendo à “Controlled Substances Act“, lei dos Estados Unidos que define quais substâncias são ilegais no país, e consequentemente influenciam o status destas substâncias em todo o mundo. Neste adendo, pelo que se tem notícias pela primeira vez, substâncias foram classificadas como ilegais baseadas em seu mecanismo de ação farmacológico. No texto do adendo consta que “agonistas canabimiméticos” ficam sendo proibidos… hein? Alto lá! Além de serem encontrados em plantas, como por exemplo na maconha ou haxixe, os agonistas canabinóides também estão presentes em diversos tipos de animais, e inclusive no nosso próprio organismo.

video com legendas em português e inglês, basta clicar play e depois no “CC”

Hoje algumas plantas são proibidas, o que me parece estranho visto que elas são parte da própria natureza. Mas alguém já pensou em proibir animais? Por exemplo, o baiacu é um peixe altamente venenoso que existe em abundância no litoral brasileiro. Não há dúvida de que traz risco, pois porta uma toxina altamente potente e mortal em seus órgãos interno. Mas ainda assim, algumas pessoas fazem uso de baiacu, e se deliciam com isto. Já imaginou proibir o baiacu porque ele potencialmente faz mal? Como se executa uma lei desse tipo?

Faz sentido que este belo baiacu seja "proibido", já que produz uma toxina mortal? Dica com importância de saúde pública, como limpar um baiacu, clique na foto.

Sim, no meu, no seu e no nosso organismo existem pelo menos 5 agonistas canabinóides. No cérebro, por exemplo, os agonistas canabinóides endógenos (endocanabinóides) são responsáveis por diversas funções importantíssimas para nossa saúde, incluindo regulação de temperatura, controle de processos inflamatórios, indução de fome, manutenção de humor, entre outras. Além do que agonistas canabinóides são responsáveis pelos efeitos terapêuticos, já reconhecidos em algumas preparações, como o Bedrocan, maconha medicinal vendida em farmácias da Holanda, e o extrato padronizado Sativex, comercializado em diversos países da Europa e no Canadá.

Com uma leitura mais atenta, percebe-se que a intenção do documento é estender a proibição a certas substâncias sintéticas com classe química definida. Ah tá… (muito embora, eu continue achando estranho pois o Marinol, um THC sintético, é liberado para uso terapêutico pelo FDA dos Estados Unidos já faz mais de 20 anos).

Esta manobra de proibição de agonistas canabinóides sintéticos é muito provavelmente uma reação ao recente aumento da venda de uma nova droga de rua chamada de “Spice” em terras estrangeiras, e que se descobriu, inclui (mas não se restringe a) canabinóides sintéticos. (Para saber mais)

O que pouco se comenta, no entanto, é que o aumento na variedade de substâncias sintéticas da classe canabinóide é uma consequência direta da proibição dos derivados naturais da Cannabis, que sempre foram os “preferidos” pelos usuários. Ou seja, é a mesma estratégia de proibição sendo utilizada para remediar os efeitos colaterais dela mesma. Não lhe parece um equívoco?

Se seguirmos nesta toada, proibindo ponto a ponto cada substância que se invente dentro de uma classe farmacológica, o desperdício de tempo e recursos, será imenso, pois é inevitável que novas substâncias sejam criadas de tempos em tempos, dada a vasta criatividade humana, em especial quando estimulada pelo alto preço dos miligramas destas substâncias ilícitas. É inevitável que um dia alguém se canse e queira de uma vez “proibir tudo o que é canabinóide“.

Curiosamente, o sistema endocanabinóide está intrinsecamente ligado à capacidade adaptativa dos organismos; e nunca antes na história da humanidade uma mudança radical de comportamento foi tão necessária! Aos que continuam achando que os canabinóides são os vilões da história, e que apóiam a estratégia de “proibições seriais”, já aviso que a estratégia é um saco sem fundo. Melhor então partir para uma abordagem tecnológica e usar a engenharia genética para fabricar uma nova geração de bebês que não possuam os receptores canabinóides (onde as moléculas da maconha se ligam para agir) no corpo. Ih, melhor não dar idéia… isto já é possível em animais menores, como roedores, e se o nosso futuro for tão catastrófico e artificial como o do Admirável Mundo Novo de Huxley (livro em pdf), isto ainda pode acontecer.

Aproveite para comer buchada de bode, ela pode ser proibida num futuro próximo! (intestinos de bode, porco e outros mamíferos de corte naturalmente contém endocanabinóides)

Considero um grande erro tirar o fator humano da jogada, e considerar que as substâncias são simplesmente “boas” ou “más”. Afinal, é uma pessoa, em um determinado contexto econômico e social, em um determinado momento, que faz uso de uma substância. E não é só o que a substância faz na pessoa, mas principalmente o que a pessoa faz com a substância… Grandes obras culturais da humanidade foram criadas com estímulo dos psicoativos; dizem algumas teorias que até as religiões são invenções psicodélicas… Então porque nos últimos 50 anos há tanta perseguição e tanto medo da psicoatividade?

Como dizia o Robertão, parece que “tudo que eu gosto é proibido, imoral ou engorda“. Ou seja, talvez a idéia velada seja proibir tudo o que incomoda, perturba, tira do senso comum; usando as substâncias (que são tangíveis) para classificar e recriminar ideologias e atitudes (intangíveis), como uma espécie de censura farmacológica. Neste caso, porque não ir direto ao ponto e declarar que é “proibido utilizar, cultivar, vender ou difundir qualquer substância, artefato ou prática que gere prazer, alteração de estado emocional ou mental, e que induza o indivíduo a pensar ou se comportar de maneira diferente do grupo de indivíduos de maior poder político em uma determinada sociedade“.

Afinal, não é esse o resultado final da estratégia vigente?

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Mineralorgia

Por Fabrício Pamplona

Não é de se espantar que o mundo inteiro esteja comovido com o resgate dos 33 mineiros em uma mina de cobre no Chile. Em tempos como este, em que tudo vira “reality show” e que as agências de notícia estão ávidas por acontecimentos raros ou estranhos que possam gerar notícias de grande repercussão, a privação extrema a que foram submetidos estes seres humanos foi um prato cheio para literalmente dias de transmissão ininterrupta. Não é exagero afirmar que a mídia realiza uma busca ativa e intensa por catástrofes pelo mundo, sejam naturais ou produzidas pelo homem… vale inclusive pensar até que ponto nossa curiosidade por este tipo de fato acabe por salientar sua importância e, quem sabe, até influenciar a probabilidade de sua ocorrência.

Um exemplo comum do impacto que a curiosidade humana por eventos escatológicos tem em nossas vidas é o do acidente de trânsito, em especial os trágicos, muitas vezes com vítimas, que acaba gerando imensos engarrafamentos, não só pela obstrução da pista onde o acidente ocorreu, mas também na pista ao lado, por conta da fila de curiosos…. Quantos destes curiosos ajudam socorrer as vítimas ou fornecem alguma ajuda de qualquer tipo? Pouquíssimos. A reação destas pessoas é como a de alguém que assiste ao evento distante, como se estivesse passando na televisão. Pois bem, esta é uma via de mão dupla, se podemos assistir impassíveis à “tragédia da vida real” protegidos no interior dos nossos carros, assistindo atentos e comentando o que acontece através de uma lâmina de vidro; na televisão, os eventos vêm até nós, e podemos ficar ainda mais passivos e indiferentes ao sofrimento humano, “fazendo de conta” que aquele sofrimento se transforma em entretenimento. É a pura banalização da violência.

A audiência massiva e a popularidade de programas de TV com relatos cruéis e muitas vezes ao vivo de ações criminosas, de verdadeiras guerras civis entre policiais e bandidos parecem ser a revitalização dos filmes de Western. O problema é que os mocinhos e bandidos são de carne e osso. Entreter-se, obter prazer com o sofrimento alheio tem um nome: sadismo. E este valor, infelizmente, está sendo bombardeado televisivamente ao espectador que chega às 18-19h em casa depois de um dia inteiro de trabalho e liga a TV para “descansar” enquanto janta. Estamos cada vez mais expostos à violência em nosso dia a dia, e curiosamente, a sensação individual, quase consensual de que “o mundo é violento” é alimentada com muito mais freqüência pelos fatos noticiados do que pelos vividos em primeira pessoa. E é curioso como as pessoas não se contentam em assistir aos programas, mas multiplicam esta informação, repassando aos outros, acompanhando os desdobramentos e se engajando em longas discussões…  Ousaria dizer que esta ânsia por acompanhar as tragédias faz com que a pessoa confirme a sua expectativa sobre a desgraça “mundo afora”, mas por outro lado, traz um certo alívio por saber que não foi atingida. Entreter-se com o sofrimento alheio não é exclusividade dos dias atuais, pode-se facilmente relembrar os espetáculos “circenses” das batalhas de gladiadores ou da exposição de aberrações e deformidades humanas, como retratado no clássico “O Homem Elefante”, de David Lynch.

Sinto um triste pesar em perceber que o isolamento dos mineiros chilenos seja mais um episódio desta novela da vida real, que acompanhamos ao vivo de nossas casas, angustiados, mas com um pingo de alívio pela sensação de que a tragédia foi alheia. “Quanto mais longe de mim, melhor”. Este longo episódio de 69 dias e 33 protagonistas, como toda boa narrativa, teve a capacidade de entreter verdadeiras multidões ao longo do globo, foi traduzido para diversas línguas, envolveu e agitou o mundo das celebridades e felizmente teve um final feliz no último dia 13 de outubro, com o resgate indefectível de todos os participantes. Até parece mentira, todos foram resgatados com vida, o governo local realmente se envolveu, recebendo ajuda e tecnologia de diversos cantos do planeta,e o processo todo foi realizado praticamente 2 meses antes do previsto. Em tempos de reality show, aposto que houve até quem suspeitasse que tudo não passava de uma grande armação…

O “elenco” do espetáculo até recebeu certas regalias, como que em compensação pelo sofrimento que passaram: viagem com acompanhante para a Grécia, 10 mil dólares em dinheiro, festas, ingresso para duas partidas de futebol na Europa e até iPods do próprio Steve Jobs. Claro que tudo isso custa muito mais barato para a companhia mineradora do que pagar uma indenização milionária se os 33 mineiros resolvessem processá-la. Acredito que a maior compensação seja mesmo ter saído vivo desta experiência escatológica de ter sido “enterrado vivo”, como num roteiro de filme de terror. Já que o assunto veio à tona, vale a discussão. A platéia bateu palmas e se comoveu com toda a história dos mineiros, que foram salvos no final do filme, com direito ao “beijo da mocinha” e tudo mais.

Mas o que pensa esta mesma platéia sobre os milhares de mineiros que estão NESTE MOMENTO trabalhando em situações degradantes em minas de cobre, chumbo, estanho, ouro, níquel ou qualquer outro metal precioso pelo mundo? Que ânsia é esta por esburacar os morros e subsolos de nosso planeta à procura de materiais que brilham com o reflexo da luz do astro-rei? O que motivou verdadeiras corridas migratórias do ouro? (A nossa Serra Pelada é um excelente exemplo disso). Um indício da importância desta atividade pode ser vislumbrado na recente notícia de que os milionários se refugiaram na aquisição de minérios (neste caso o ouro) para evitar que suas fortunas fossem drenadas pelo fantasma de uma possível crise econômica global. Recentemente esta se tornou uma alternativa acessível mesmo a quem não se deu ao luxo de acumular tanto dinheiro assim no seu cofrinho, ou embaixo do colchão.

Os minérios transmitem a idéia de segurança, por serem considerados historicamente como lastros econômicos, apesar deste conceito ter caído por terra na sociedade atual, em que a quantidade de dinheiro (real ou virtual) é insustentavelmente balizada por índices econômicos flutuantes ao invés de bens físicos. Curioso não é? Os mineiros arriscam a própria segurança biológica, física, real, enfurnados em túneis de centenas de metros abaixo da superfície, para que a segurança monetária, intangível, virtual, dos magnatas esteja garantida. Mais um triste exemplo da inversão de valores da sociedade do capitalismo desenfreado.

A dedicação humana ao extrativismo mineral, a quantidade de recursos e energia envolvidos é descomunal, e freqüentemente se depara com “obstáculos” com os quais parece não se importar, como discutido recentemente no filme Avatar. Seria até legal se as máquinas destruidoras mostradas no Avatar ficassem parte somente da mente criativa de James Cameron, mas os aparelhos usados para perfurar a terra são realmente medonhos. Um exemplo pode ser visto abaixo, mas para quem se interessar, o site de tecnologia Gizmodo traz uma compilação de diversas máquinas mineradoras que parecem verdadeiras armas de destruição retiradas dos filmes futuristas de ficção científica.

A vida imita a ficção na mineralorgia. Acima, foto do filme Avatar, abaixo, a máquina de mineração russa considerada a maior do mundo.

As escavações de uma galeria de minas subterrâneas podem facilmente ocupar o espaço de uma cidade, onde pessoas passam diversos dias de suas vidas atrás dos grandes depósitos minerais. E não há dúvida de que a escassez destes recursos não renováveis fará a humanidade cavar a sua cova cada vez mais funda. É triste pensar que o delicado equilíbrio da mãe-natureza seja perturbado de maneira tão drástica e grosseira, por motivos espúrios e com tanto desperdício de recursos e energia humana. E, como bem exemplificado pelos 69 dias de escuridão dos mineiros chilenos, a custa de tanto sofrimento para o deleite de tão poucos.

“Tenho certeza de que muito do feio, do desarmônico e do deselegante de nossa cultura de consumo, de nosso urbanismo, de nosso estilo de vida é resultado da ignorância, de pouca ciência e de muito desejo de ter e pouca coragem de ser. Os incompetentes que me desculpem, mas beleza é um excelente indicador da eficiência e da inteligência dos processos que vivemos. É por isso que nos fins de semana corremos desesperados atrás da beleza da natureza. Porque lá resgatamos o fluxo harmônico, inteligente e preciso de nossas energias físicas, emocionais e mentais. Esse resgate explica o encantamento e a gratidão do humano com a beleza do mar, do pôr do sol, da flor, do rio, das pedras, dos peixes, da montanha, da neve, do luar. Está tudo aí, generosamente à nossa disposição” (Ricardo Guimarães).

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