Archive for Marcelo Schenberg

Voltando aos Invisíveis

hillman

Neste fim de semana acontece um (imperdível) Tributo a James Hillman na UNICAMP. Eu arrisco a dizer que Hillman deveria, ao lado de Stanislav Grof, ser uma referência universal em psicologia tanto quanto Freud e Jung. Apesar de distintos, ambos nos presentearam com novas e ousadas formas de se tentar compreender o fenômeno da consciência, de tal forma, que garantiram seu ingresso no panteão dos imortais.

Se as idéias de Grof e sua psicologia transpessoal partem de uma base freudiana (quando se fala em matrizes perinatais, por exemplo, estamos extendendo a influência dos processos internos para além da infância e da sexualidade), Hillman e sua psicologia arquetípica partem de Jung (que lida com a influência de fenômenos externos ao indivíduo, como o inconsciente coletivo e os arquétipos universais). Hillman, aliás, dirigiu o Instituto C.G. Jung em Zurique, mas pode-se dizer que ele deixou sua marca indelével para a investigação da consciência ao fundar o que hoje é chamado de psicologia arquetípica. Em seu livro O Código do Ser  (na verdade O Código da Alma – The Soul’s Code –, título adulterado pela tradução brasileira que aparentemente julgou o termo “alma” como impróprio), ele elabora uma teoria completamente oposta às idéias correntes na psicologia, na genética e na mídia, as quais pressupõem um determinismo linear na formação de nossas personalidades.

daimon Ao invés de entender cada indivíduo como o resultado da combinação genética de seus pais e dos fatores sócio-ambientais em que ele está inserido (que ressoa a velha noção aristotélica da tábula rasa: que a consciência é desprovida de qualquer conhecimento inato – tal como uma folha em branco, a ser preenchida), ele apresenta o conceito platônico do daimon. O daimon, ou a teoria do fruto do carvalho (acorn theory) – como ele a reelabora – é também chamado de nosso gênio, talento, vocação, personalidade, imagem, destino, anjo da guarda, caráter etc. Em outras palavras, nosso futuro e nosso potencial já estão inscritos de alguma forma em nós ao nascermos, assim como uma semente contém toda a árvore em potencial.

É um conceito fluido que cabe em inúmeras definições, mas é um conceito revolucionário no entendimento da psique, pois evita reduzir o senso de individualidade ao âmago do “eu” – como faz a psicologia tradicional, ao fragmentar o enigma do indivíduo em fatores e traços de personalidade, em tipos, complexos e temperamentos, tentando localizar o segredo da individualidade nos substratos da matéria cerebral e dos cromossosmos – e não aceita que a vida humana é um acaso estatístico. Mas a teoria de Hillman dá sua grande cartada quando também não entrega nossos destinos “às mãos de Deus”. Como diz Hillman, “a teoria do fruto do carvalho transita com desenvoltura entre esses dois dogmas antagônicos que há séculos ladram um para o outro e que o pensamento ocidental continua mantendo afetuosamente como animais de estimação”.

Todos nós nascemos com uma imagem que nos define. O daimon seria o nosso par invisível, a centelha de consciência, ou a intenção angélica por detrás de nossos atos. A idéia vem de Platão (A República). Resumidamente, ela diz que a alma de cada um de nós recebe um daimon único, antes de nascer, que escolhe uma imagem ou um padrão a ser vivido na Terra. Esse companheiro da alma, o daimon, nos guia aqui. Na chegada, porém, esquecemos tudo o que aconteceu e achamos que chegamos vazios a este mundo. O daimon lembra do que está em sua imagem e pertence a seu padrão, e portanto o seu daimon é portador do seu destino.

Bebendo na fonte da mitologia grega, Hillman enfrenta o materialismo dominante com coragem, compostura e senso de humor, ao abraçar conceitos vistos pelo paradigma materialista como exclusivos do universo infantilizado da religião institucionalizada, como “alma” e “espírito” (uma grande ironia às inversas na mudança do título de seu livro mais famoso para a edição brasileira). Hillman leva este conceitos a um novo patamar, ao inseri-los dentro do universo arquetípico e mitológico, um universo invisível que oferece a quem decide explorá-lo uma “visão além do alcance” do nosso mundo racional.

 Para começar, precisamos deixar claro que atualmente o principal paradigma para se entender uma vida humana, a inter-relação da genética com o ambiente, omite algo essencial – a particularidade que você sente que é você. Ao aceitar a idéia de que sou o efeito de um choque sutil entre a hereditariedade e as forças da sociedade, reduzo-me a um resultado. Quanto mais minha vida for explicada pelo que já ocorreu em meus cromossomos, pelo que meus pais fizeram ou deixaram de fazer e pelos anos remotos da minha infância, tanto mais minha biografia será a história de uma vítima.

Se por um lado, diriam os gregos, a nossa alma chega ao mundo ignorante de sua existência prévia, o daimon, que vem a seu lado, não. Ele sabe qual a nossa missão nessa vida, e fará de tudo para que escutemos seu chamado e realizemos aquilo que é sua necessidade. No entanto, diz Hillman, nós precisamos “baixar” no mundo, e este é um processo difícil, e uma luta entre nossa personalidade e nosso chamado daimônico. O daimon está mais próximo da idéia do espírito, uma entidade transcendental, que pertence mais aos céus do que à Terra. Ele não quer encarnar, mas conclama ao ideal. Já a alma é terrena, precisa se materializar no aqui e agora, viver contradições, incoerências, pisar no chão firme para existir e cumprir sua missão. É de um violento embate entre os dois que resultam as tortuosas biografias de muitas celebridades (muitas das quais morrem cedo), e é da uma comunhão profunda com o daimon que testemunhamos outras grandiosas histórias de vida.

522577_612683128745636_627514899_n Uma vez que cada um nasce com seu daimon – o seu chamado – cada um tem sua história particular, e ela não deve muito a nossos pais (nem geneticamente nem psicologicamente), que na grande parte do tempo são confundidos com nossos mestres. Os pais, diz Hillman, têm a função de nos acolher. Nossos verdadeiros mestres só encontraremos ao longo de nossa jornada. Eles serão aqueles capazes de enxergar nosso daimon, e nos ajudar a realizar sua busca. Um professor de música que reconhece seu talento, um treinador, um amigo que te ajuda num momento difícil, um livro que muda a sua vida… Ao contrário do que possa parecer ao olhar superficial, a teoria de Hillman é libertadora pois coloca a responsabilidade do destino de cada um de volta às mãos de cada um. Não é determinista, pois o daimon não anula o livre arbítrio, ele apenas nos dá a direção, mas nós é que decidimos cada passo dado. Se o daimon representa nossa necessidade, a decisão está na esfera do ego.

Ao afirmar que a Necessidade interfere em todos os momentos decisivos da minha vida, posso justificar qualquer ação. É como se eu pudesse me livrar da responsabilidade – está tudo nas cartas, ou nas estrelas. No entanto, dominadora inflexível que é, essa deusa me faz tremer diante de cada decisão, pois sua irracionalidade aleatória é totalmente imprevisível. Só retrospectivamente posso ter certeza, dizendo que tudo era necessário. Como é curioso, a vida pode ser pré-ordenada, embora sendo não-previsível.

Hillman era uma pessoa tão singular que foi considerado por muitos como um dissidente na psicologia, um rebelde (não à toa ele dizia que “só em nossas teorias psicológicas ocidentais é que o rabo abana o cachorro”). Mas seus conceitos começam a ser iluminados por outro olhar nesses tempos de transição brutal, onde os velhos paradigmas se tornam escancarados e as velhas respostas não mais respondem a nossos anseios, abrindo espaço para o levante recente de religiões modernas que são incapazes de pensar metaforicamente, levam-se a sério demais e colocam a sociedade em risco ao projetarem suas interpretações literais no mundo das relações humanas.

banksy

Por isso, neste fim de semana podemos nos considerar privilegiados, pois graças a uma iniciativa brasileira, a UNICAMP recebe um evento em tributo a Hillman, que contará com inúmeros acadêmicos que tiveram com relação próxima a ele, e inclusive com seu filho Laurence. Entre sexta e domingo, palestras e confraternização relembrarão a fagulha de despertar que este grande homem passou adiante quando faleceu no final de 2011, e que agora está em nossas mãos neste início de 14º baktun.

Nós do Plantando Consciência estaremos no evento por inúmeros motivos. Dentre os quais é o reconhecimento de que a contribuição de James Hillman para a psicologia se estende para além desta disciplina, abarcando toda a questão da saúde e da vida humanas. Como estamos produzindo um documentário sobre a questão da influência da consciência na relação entre saúde e doença (saiba mais aqui), temos uma grande oportunidade de enriquecermos nossa busca. Se você apóia nossa iniciativa, aproveite para doar para o nosso projeto. Até este momento o filme está sendo inteiramente bancado com o mínimo necessário para conduzir as entrevistas, mas com um enorme senso de dever e com a ajuda de muitas pessoas que contribuem para reduzir os custos. Ainda assim, muito mais será necessário para que este documentário possa alcançar o estado de uma árvore sólida e repleta da sabedoria contemporânea e ancestral.

Serviço:

Tributo a James Hillman

15, 16 e 17 de Março de 2013

Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da UNICAMP

Palestrantes, programação e inscrição: http://www.tributoahillman.com.br/

Para saber mais sobre o filme:
http://www.plantandoconsciencia.org/pt/medicina/

Doe qualquer quantia clicando no botão abaixo:
Ajude-nos a cumprir com este objetivo!

Comments (1)

Propaganda: a Arma do Negócio

O salvador branco apóia políticas brutais de manhã, financia caridades de tarde e recebe prêmios à noite – Teju Cole, escritor nigeriano

Lembrando da minha predisposição pra plantar consciência, um grande amigo da minha esposa indicou um link no facebook semana passada e comentou “mostra isso pro Marcelo, ele vai pirar!”. Fiquei feliz com a consideração e agradeci com um sorriso de emoticon. Pouco tempo depois, outra amiga do universo da jardinagem de consciência, desta vez uma permacultora, postou um link pro mesmo vídeo. E depois veio outro, e mais outro… e hoje o vídeo é um fenômeno viral sem precedentes no gênero.

Qual não foi o meu choque quando fui conferir do que se tratava este Kony 2012 e ser lembrado, abalado, de que o ser humano tem um lado absolutamente perverso. O filme se propõe a contar a história de um líder de um grupo paramilitar africano, Joseph Kony, e a retratá-lo como um monstro comedor de criancinhas que precisa ser parado imediatamente. A história é contada a partir da vida pessoal do narrador, um americano típico que se envolveu com um garoto negro da Uganda. Este garoto, Jacob, é apresentado como um retrato fiel de uma realidade que inclui dezenas de milhares de jovens ugandenses que estão sendo abduzidos de suas famílias, torturados, mutilados, abusados e treinados para se tornarem máquinas de matar sem um objetivo definido, que não a manutenção de Kony no poder.

Primeiro, me impressiona como o filme conquistou rapidamente o coração de tanta gente no mundo, e não apenas de americanos capazes de se identificar com o estilo “Backstreet Boys crescido” de Jason Russel, o narrador. Mas faz sentido. Do ponto de vista da estratégia de comunicaçao, o filme de meia hora é um “experimento” impecável. Ele lança mão de recursos que fazem pessoas como eu e você nos identificarmos rapidamente com a causa: através de vídeos do youtube, perfil do facebook e fotos do instagram – todos com tratamento absolutamente profissional – o filminho parte da relação amorosa de Russel com seu filho pequeno, Gavin, para nos introduzir esta comovente história, e então propor uma campanha global para fazer Kony famoso através de recuros midiáticos (daí o título em referência às campanhas políticas), para que o mundo acorde para o problema e ajude a prendê-lo a qualquer custo.

No momento em que o garoto Jacob coloca as mãos no rosto e chora, logo após ser confrontado com as lembranças de seu irmão morto cruelmente pelos algozes de Kony e confessar que preferia morrer a viver nessas condições, eu me enchi de raiva e indignação. Mas não por causa de sua história de abuso e sofrimento, ou da maldade de Joseph Kony, que segundo o filme é “o pior criminoso do mundo de acordo com a Corte Criminal Internacional (ICC)” (Kadafi aparece em 24º lugar, e todos são de países africanos). Mas por estarem tentando me manipular de maneira tão ofensiva, e tão profundamente perversa.

O que se passa nas entrelinhas desta “campanha do bem” é de tal maneira ultrajante que me tirou do meu foco por dias. Há um trecho paradigmático do filme em que Russel conta que seu filho Gavin ainda não sabe exatamente o que ele faz da vida, ou do que se trata esta causa, e ele irá explicar ao garoto na frente das câmeras. Então ele coloca o menino sentado atrás de uma grande mesa e, de pé do outro lado, no melhor estilo interrogatório policial, pergunta:

“O que o papai faz pra viver?”
“Você pára os caras maus de fazerem maldade”
“E quem são os caras maus?”
O menino fica confuso.
“As pessoas do Guerra nas Estrelas”
“Do Guerra nas Estrelas?”
“É”
“Esses são os caras maus?”
“São”
Então ele pergunta se pode contar o nome do cara mau e, sob o aceno do menino,  coloca uma foto de Kony na mesa para o garoto examinar.
“Este é o cara mau?”, Gavin pergunta surpreso.
“É! E quem é este?”, ele empurra uma foto de Jacob, lado a lado com a de Kony.
“Jacob!”
“Joseph Kony tem um exército”, prossegue o pai de Gavin, enquanto toca levemente primeiro na foto de Kony e depois na foto de Jacob.
“E o que ele faz é tirar as crianças de seus pais, e então ele lhes dá uma arma, para atirar, e faz com que eles atirem e matem outras pessoas”
Enquanto fala, Russel fica tocando nas duas fotos alternadamente, e o garoto olha de uma pra outra confuso.
“Mas eles não vão fazer isso porque eles são bonzinhos, não é?”
“Eles não querem fazer, mas eles são forçados. O que você acha disso?”
“Triste”, o menino responde, enquanto se debruça sobre as duas fotos completamente perdido.

Entendeu, Gavin?

Minha filha estuda em uma escola Waldorf. Quando ela ingressou no fundamental, percebi aterrorizado a profundidade do grau de comprometimento que a educação tradicional tem com um programa sistematizado de condicionamento mental. Um programa que perdeu o foco no ser humano e só tem olhos pros exames que estas crianças terão de enfrentar quando já tiverem deixado de ser crianças há muito tempo. Nossas crianças são, por livre e espontânea vontade dos pais, educadas em fábricas de automação em série. Descobrir a educação Waldorf nesse momento foi como encontrar um tesouro escondido há muito tempo. Um tesouro de valor inestimável.

A pedagogia Waldorf tem uma visão iluminada sobre os processos de crescimento do ser humano e seu ritmo de desenvolvimento cognitivo. Segundo esta perspectiva, na etapa entre  1 a 7 anos a criança tem uma grande abertura em relação ao mundo. Ela acolhe sem resistência tudo o que lhe advém do ambiente em redor, entregando-se ao mundo com confiança ilimitada. Vive num estado de ingenuidade paradisíaca, num mundo em que o bem e o mal se confundem indistintamente.

Cuidemos de nossas crianças!

Eles estão certos. Se você tem filhos e acompanha de perto seu crescimento, fica muito fácil entender. Assim, podemos compreender que o menino Gavin, que tem por volta de 4 a 6 anos, ainda não tem um intelecto desenvolvido, capaz de processar a distinção racional que seu pai impõe, entre o menino bom e o menino mau. Então, quando é confrontado com as duas fotos, tudo o que ele vê são pessoas. Só que no meio tempo ele está sendo bombardeado por  uma história sobre homens maus, e sobre seu pai estar numa cruzada contra eles.

Acontece que estas pessoas tem uma coisa em comum, fácil de notar pelas fotos, mas que ele, Gavin, não vê em sua família. Eles são negros. Pois é. A mensagem subliminar de Russel para seu filho, e para o espectador, é profundamente racista. Mesmo que ele não tenha saído do ármário por se considerar amigo de Jacob. Mas o racismo está onipresente no filme, e isto não se deve apenas ao fato de o vilão da história ser negro, ou devido ao fato de que as fotos de Jacob e Kony uma ao lado da outra são – sob o olhar infantil – sutis variações de um mesmo arquétipo.

Mas porque o tempo todo, Jacob, o negro “do bem”, é tratado como um coitado. Não apenas por sua história de abuso e violência. Mas ele é retratado como uma espécie de “primata”, um garoto carente de ser civilizado. Há um vídeo pretensamente caseiro de uma visita dos dois um zoológico, ou parque aquático, no qual Jacob se assusta com um golfinho e é acolhido por Russel, que diz rindo, em tom paternalista, “Está tudo bem, eles são bonzinhos, são diferente dos tubarões”. Jacob é o bobo, o menino ignorante que não sabe distinguir um golfinho sorridente de um tubarão com cara de mau.

Esta visão colonizadora se manifesta ao longo de todo o filme, e mesmo assim ele é um sucesso global. Exemplos não faltam. Em outro momento, o narrador pergunta a Jacob o que ele gostaria de ser quando crescer, ao que ele responde meio sem graça, “Eu gostaria de ser um advogado, mas… eu não tenho dinheiro pra pagar as mensalidades da escola… pra que eu possa aprender e me tornar um advogado.” O vídeo enaltece a resposta do garoto com a intenção de tocar nosso coração pela falta de oportunidades que vemos em sua vida, mas o que está por trás é um pensamento arrogante e colonizador que vê as culturas alheias à ocidental como povos primitivos que anseiam em serem salvos e se tornar como nós.

Se você já teve algum contato com outras culturas não ocidentais, sabe que não é possível compará-las com a nossa a partir de premissas que só fazem sentido na mente ocidental. Assim, ir pra escola ou se tornar advogado não é necessariamente uma opção desejável. Isto é o que nós fomos condicionados a pensar como um objetivo digno, na nossa cultura. “Médico, advogado ou engenheiro”…. não são estas as profissões que aprendemos serem dignas de respeito (e às vezes únicas opções) com as gerações anteriores? Logo, sugerir que os garotos negros da Uganda sofrem porque sonham em vão com a faculdade de direito é projetar indiscriminadamente e de maneira desrespeitosa o seu próprio condicionamento mental nos outros.

Aula de geografia americana

Russel se vangloria de sua organização ter financiado a construção de escolas na região. A mesma ladainha que governantes usam para gerar números para campanhas. Construir escolas por si só não é mérito. Que espécie de valores serão ensinados ali? Do que a comunidade necessita de fato? De uma amostra grátis do american way of life, que por sinal nem mais na “América” está aguentando o teste do tempo? E os valores ugandenses, e sua história, suas tradições, sua visão de mundo? Ninguém considera esta questão.

Mas isso não é tudo. Este jogo psicológico cruel que Russel faz com seu filho diante das câmeras é repulsivo. Você já ouviu esse discurso do “cara mau” antes. Da boca de gente como George Bush, Giulliani, Dick Cheney e todos aqueles que alimentam o medo do “Terror” e usam bodes expiatórios como Kony, ou Bin Laden, ou Saddam Husseim, para justificar suas atitudes intervencionistas e seus genocídios em nome de uma campanha “contra o mal” (e a favor do petróleo, claro).

Este jogo de espelhos está baseado numa premissa da sociedade moderna de que o mal está lá fora. Que existe “eles contra nós”. Os americanos são profissionais em fazer uso deste temor psicológico para fins diversos. A mídia aponta dedos pros monstros externos o tempo todo para que não olhemos pra dentro de nós mesmos. Somos tratados, como sociedade, da mesma forma que Russel trata o seu filho: como crianças psicologicamente manipuláveis, como massinha de modelar, através de recursos que exploram o medo na sua forma mais arquetípica.

Agora talvez esteja ficando claro, se você viu o vídeo e se sensibilizou logo de cara. Você já viu dezenas de dramas assim. São métodos eficientes da propaganda que seduzem o espectador pelos instintos mais primitivos. Primeiro, empatia e identificação. Depois, choque, terror, raiva, pena, indignação. E finalmente uma oferta irrecusável para você ajudar a salvar o mundo, acompanhado de kits de produtos customizados para você desembolsar o seu rico dinheirinho e literalmente “vestir a camisa” de uma causa que “vale a pena”.

Felizmente eu não estou sozinho nesta indignação. A organização de Russel tem um passado sombrio e questionamentos diversos sobre a idoneidade de sua campanha estão surgindo. O editor de ambiente do The Guardian, John Vidal, lembra com correção que “por trás do vídeo e do site caprichados, e do discurso tocante sobre ‘mudar o curso da história’, existe uma operação nariz-empinado de olho na grana, comandada por cineastas, contadores, experts em comunicação, lobistas e vendedores profissionais americanos.”

Mas se os críticos estão de olho nos números, poucos são aqueles que estão questinando a campanha por sua devassidão moral. Pra piorar o que já estava ruim, Russel não esconde seu desejo intervencionista de ver tropas americanas na Uganda. Ele comemora de punhos pro ar a conquista suada de uma declaração do presidente Obama consentindo com o envio de um “pequeno contingente de homens do exército para ajudar as forças regionais que estão trabalhando para remover Joseph Kony do campo de batalha”. Chega inclusive a sugerir que “para que Kony seja preso ainda este ano, o exército de Uganda tem que encontrá-lo. Mas para que encontrem-no precisam da tecnologia e do treinamento para localizá-lo dentro de uma vasta floresta. É aí que entram os assessores americanos ”. Mais uma vez, já vimos este filme antes, só que o cenário em questão eram as cavernas no deserto, lembra?

O que o filme não conta é que Kony não está mais na Uganda, e seu exército paramilitar decadente consiste hoje em umas poucas centenas de pessoas. Na melhor das hipóteses, Russel chegou tarde. Na pior, tem coisa por trás desta história.

No documentário italiano O Novo Século Americano, o diretor Maximo Mazzucco lembra que  “a Constituição Americana não permite aos EUA começar uma guerra de agressão, e reserva ao Parlamento declarar guerra a outra nação, no caso que torne-se necessário defender-se. Por este motivo, cada vez que um presidente quis tomar parte numa guerra ou começar uma nova, teve que esperar um incidente militar, criado ou provocado, para justificar de alguma maneira a intervenção armada frente ao Parlamento e à população.”

E assim a história se fez. Em 1898, os EUA travaram uma guerra contra a Espanha pelo domínio de Cuba, que era estratégico para o controle do Golfo do México. O pretexto de guerra veio do afundamento do navio militar USS Maine, que estava ancorado no porto de Havana. Os americanos imediatamente culparam os espanhóis, ainda que eles se declarassem completamente inocentes. As imagens do barco semi-afundado e dos funerais dos marinheiros foram projetadas nos primeiros cinemas de toda a nação, gerando um estado de indignação suficiente para poder lançar uma guerra, que o futuro presidente Roosevelt, então Ministro da Marinha, havia preparado até o mínimo detalhe. Foi somente em 1980, quase um século depois, que os americanos reconheceram que os espanhóis eram de fato inocentes do ataque, mas declararam, para se isentar da culpa, que o Maine havia sido afundado porque alguns explosivos foram colocados muito próximos à caldeira.

Desde então, todas as guerras foram provocadas por “false flags”, como estas “iscas” são chamadas lá fora: em 1915, foi o afundamento do barco Lusitânia por um submarino alemão, que precipitou a I Guerra Mundial. Em 1941 foi o conhecido ataque a Pearl Harbor (II Guerra); em 1964 o Incidente do Golfo de Tonkin (Vietnã); em 1990 a invasão do Kuait (Guerra do Iraque) e em 2001 o 11 de Setembro (Guerra ao Terror). Todos estes “incidentes” ocorreram em circunstâncias nebulosas e há incontáveis relatos, evidências e documentos apontando para o fato de que todos foram premeditados ou provocados de alguma forma.

Dizem que a história acontece primeiro como tragédia e se repete como farsa. Se este Kony 2012 é uma nova modalidade de “false flag”, só o tempo dirá, e não vai demorar. Mas abra o olho. Antes de sair compartilhando Kony 2012 pelos quatro ventos, lembre-se do aviso que o próprio filme traz em sua abertura: “os próximos 27 minutos são um experimento. Mas para que ele funcione, você deve prestar atenção”.

Comments (1)

365 dias para o fim do mundo

“Um outro mundo não é apenas possível, mas ela está a caminho! Num dia calmo, se você ouvir atentamente, conseguirá escutá-la respirando.”
Arundhati Roy

Primeiro veio a Tunísia. Logo depois veio o Egito. Então foi um efeito dominó: Iêmen, Líbia, Síria, Bahrein. Mas a Primavera não foi só árabe. O povo foi às ruas também na Grécia, Espanha, Portugal, Londres, São Paulo, e finalmente ocuparam Nova York, se espalhando daí para o resto do mundo. Apesar das manobras da mídia pra fragmentar os acontecimentos e assim impedir que nossa atenção construa um modelo significativo dos fatos, o ano de 2011 vai ser lembrado como “o ano do basta”, e os motivos são claros pra quem tem os olhos abertos: o fim do mundo está chegando.

O desenvolvimento chega à Amazônia

Como se não bastasse, 2011 vai ser lembrado também como o ano em que a ficção se tornou fato, e o Brasil decidiu protagonizar sua própria versão do filme Avatar. Acho que não é necessário dizer de que lado infeliz o governo e a mídia decidiram jogar. Belo Monte, as alterações no Código Florestal e a prospecção de petróleo em Abrolhos, colocam o Brasil no papel principal como arquiinimigo da natureza neste começo de década. É uma declaração de guerra. Nem o vazamento da Chevron adianta para aqueles que nos governam hoje: o pensamento desenvolvimentista não escuta a linguagem dos ecossistemas pois não se reconhece como parte integrante da teia da vida.

Pra piorar, a Coréia do Norte esquenta a frigideira geopolítica mundial de imprevisto neste fim de ano, e os EUA se preparam para decidir se irão de fato se tornar um estado policial digno do romance 1984 com a 2012 National Defense Authorization Act. E agora? Que fim do mundo é esse? Vamos ser engolidos por catástrofes naturais? Vamos entrar na 3ª Guerra Mundial? Vamos todos perecer em agonia, num enorme suicídio coletivo assistido?

Temos que ser cuidadosos com os significados. Em paralelo à campanha de desinformação da mídia, as idéias apocalípticas estimuladas por blockbusters de Hollywood e igrejas messiânicas também fazem parte de um tendência inconsciente de se banalizar significados profundos. Porque não é possível lucrar com a profundidade, mas a banalização é uma galinha dos ovos de ouro.

 Crise e Transformação

O fim do mundo não é uma profecia exclusiva dos místicos (que, nesta sociedade regida pelo materialismo científico, significa a mesma coisa que loucos). Em 1982, o físico austríaco Fritjof Capra publicou O Ponto de Mutação, livro no qual explicava, a partir de uma interpretação da história do pensamento ocidental através dos conceitos do I-Ching, como estávamos rumando para o fim de uma era, e como o fim do mundo é na verdade uma enorme crise de paradigmas.

No futuro, Capra será lembrado como uma das mais brilhantes e fundamentais mentes do século XX. Mas hoje, em tempos de crise, seus livros são mais facilmente encontrados em sebos, curiosamente perdidos em meio à seção de esotéricos. Por mais esdrúxula que possa soar, esta situação é decorrente do ostracismo acadêmico de um autor que ousou traçar paralelos entre a física do século XX e o misticismo oriental (no famoso O Tao da Fisica). Para a ciência dominante, de vocação newtoniana-cartesiana, falar em misticismo implica automaticamente a perda de credibilidade. No entanto, a física subatômica do século XX não é compatível com o pensamento mecanicista do materialismo científico, uma situação extremamente embaraçosa que o modelo vigente evita debater a qualquer custo.

De qualquer forma, Capra não foi o único ocidental a se encantar com o I-Ching. O escritor alemão Hermann Hesse também foi outro que mergulhou nesta sabedoria. Em seu último romance, O Jogo das Contas de Vidro (1943), os personagem fazem predições com o oráculo ancestral. Em prefácio para a tradução inglesa do “Livro das Mutações”, em 1949, Carl Jung relata como ele mesmo consultou o I-Ching para decidir se escreveria ou não o prefácio, e resumiu a qualidade atemporal do texto chinês ao dizer que “o I-Ching não oferece provas nem resultados; não faz alarde de si nem é de fácil abordagem. Como se fora uma parte da natureza, espera até que o descubramos. Não oferece nem fatos nem poder, mas, para os amantes do autoconhecimento e da sabedoria – se é que existem -, parece ser o livro indicado (…) Aqueles a quem ele não agradar não têm por que usá-lo, e quem se opuser a ele não é obrigado a achá-lo verdadeiro. Deixem-no ir pelo mundo para benefício dos que forem capazes de discernir sua significação”.

Finalmente, em 1975, dois irmãos etnobotânicos pareceram ser estas pessoas capazes de discernir sua significação, tal qual sugerido por Jung. Levando a compreensão do I-Ching a outros patamares, Terence e Dennis Mckenna publicaram The Invisible Landscape:Mind, Hallucinogens, and the I Ching (A Paisagem Invisível: Mente, Alucinógenos e o I-Ching, inédito no Brasil). Uma obra ousada, fascinante e densa (em alguns momentos praticamente impenetrável por quem não é versado em química), o livro dos irmãos Mckenna pode ser lido como uma versão contemporânea e altamente modernizada da psicoterapia jungiana com ênfase na química cerebral a nível molecular, e se manteve na obscuridade por anos até ressurgir recentemente em meio ao revival da ciência psicodélica e à elevação de Terence (falecido em 2000) ao status de profeta dos tempos modernos, ou o “Copérnico da Consciência”.

A Paisagem Invisível foi escrito a partir de uma expedição científica à Amazônia colombiana em busca de dados experimentais que comprovassem uma teoria complexa sobre a consciência que envolvia uma interpretação matemática dos hexagramas do I-Ching, conceitos da física quântica, química molecular e uma especulativa teoria holográfica da mente, acompanhados de uma boa dose de psicodélicos. Ao dissecarem o I-Ching como um antigo código binário digital e introduzi-lo num computador, os McKenna chegaram a um gráfico que, segundo eles, propunha uma descrição matemática rigorosa da estrutura temporal do universo. Continue lendo »

Comments (1)

A psicologia dos contos de fadas

Foi uma semana daquelas.

Sentindo-se encurralado nos negócios e alheio ao que acontece no seu próprio lar, suas últimas noites foram mal dormidas, repletas de insegurança e preocupação. Então, em meio a um sonho estranho, um misto de delírio com pesadelo, que juntava – sobre a cobertura de um prédio – uma festa com um julgamento, uma celebração bizarra de polaridades, onde ex-funcionários seus curtiam ao mesmo tempo em que o botavam no pau, o pai é desperto por duas mãozinhas que o chacoalham fragilmente no escuro das 2 horas da manhã.

Papai…

– …

Papaai…

Hmmm… Oi… filho… hmm que aconteceu?, ele resmunga acendendo o abajur e cerrando os olhos, agredidos pela súbita luminosidade no quarto.

Sabendo que irá esquecer deste sonho estranho em poucos instantes, o pai tenta repassá-lo rapidamente na cabeça, pra tentar tirar algum significado dele. Mas as imagens se misturam com a súbita consciência de que seu filho está ali precisando dele, seu filho que anda tão desamparado, para quem ele não tem conseguido preencher seu papel de protetor, tão ocupado que anda com seus próprios interesses.

Papai, tá doendo… o menino fala com um biquinho de cortar o coração, interrompendo seus pensamentos.

Hã? Doendo… o que aconteceu?

Tá doendo aqui – o garoto levanta a camisa do pijama e aponta, com voz trêmula, a um instante de cair aos prantos, para uma inofensiva marca de nascença no lado esquerdo da barriga, que sempre esteve lá.

Eu não consigo dormir… porque tá doendo aqui – a frase soa quase como um lamento musical em sua delicadeza infantil.

O pai se ergue e, já ciente do que está acontecendo, senta-se na beirada da cama e segura seu filho com as duas mãos ao redor dos ombros.

Hmmm… tá dodói meu amor?

Tá… – o menino começa a choramingar

O que aconteceu? – Pergunta o pai, como se esperasse inconscientemente que o garoto respondesse aquilo que ele, em sua maturidade, já sabe.

Um bicho me picou.

Hã? Bicho? Picou?! – por um momento ele fica alerta com a notícia, mas, olhando para a barriga do menino, logo percebe que é um recurso infantil, a única maneira que o garoto tem de expressar o medo que seu pesadelo despertou.

Tá doendo!

Ainda atormentado por um obscuro sentimento de culpa que foi desenterrado pelo seu próprio sonho, e ciente dos acontecimentos recentes, ele, como bom homem de negócios, enxerga uma possibilidade de ouro para reconsquistar a confiança do garoto. A idéia passa como um raio, quase insconscientemente, mas a motivação fica. O pai então se inclina para dar um beijo na barriga do filho, que se afasta, empurrando-o com os braços e virando a cabeça pro lado.

Pára !

Calma filho, é só o papai, não é o monstro que está aqui agora.

E, enquanto faz um carinho, diz:

Já vai sarar, papai está cuidando do seu machucado.

Então ele se levanta e completa,

– Eu vou pegar este bicho que te picou filho, e vou matar ele pra ele nunca mais machucar você!

O pai calça os chinelos e vai até o quarto do garoto, que permanece onde estava, choramingando ao lado da mãe, que sem se levantar o abraça na cama. O menino ouve então uns barulhos lá no outro quarto, e então escuta a voz abafada do seu pai dizer enfaticamente “Arrá! Te peguei! Seu monstro, você nunca mais vai machucar o meu filho! Toma aqui!”. O menino escuta então o ruído de se abrir e fechar a janela do quarto.

– Pronto!

O pai volta ao quarto do casal e diz pro garoto, cheio de firmeza “Prontinho filhão! Achei o bicho que te picou! Ele era feio e mau, mas era um covarde. Onde já se viu atacar  meninos pequenos! Mas eu sou maior que ele.

O garoto fica olhando o pai ali de pé, entoando seu pronunciamento com a firmeza de uma rocha, e sente um calorzinho acolhedor subir pela sua espinha, um sentimento de justiça e de segurança, de estar protegido por um herói.

– Ele tava se escondendo debaixo da sua cama, veja só! Mas eu peguei o bastardo! Esse monstro já era! Você nunca mais vai ver ele andando por esta casa.

O menino sorri, embora ainda fragilizado pelo efeito do pesadelo, e é acalentado pelos pais por uns instantes, em silêncio.

Então ele se afasta um pouco do pai, dá um suspiro, olha pra cima, bem no seu rosto, e com a face ainda pintada pelas lágrimas diz:

Papai, você não matou monstro nenhum!

O quê meu filho?!!

É mentira!

Quê isso filhão! Papai pegou ele, acabou com ele, você ouviu tudo!

E cadê ele?

Eu o joguei lá fora, pra bem longe filho!

Eu não vi nada! Por quê você não me mostrou que pegou ele então?

Filho, ele era muito feio, tava morto! Se eu mostrasse pra você, você ia ficar assustado. Ia ter até pesadelo depois! Papai nao faz essas coisas!

É mentira!

Meu querido, por quê o papai mentiria pra você?

Você mentiu pra mim que o coelinho da Páscoa e o Papai Noel existiam! Você mentiu pra mim que ia na minha apresentação! E você disse que nunca mais ia deixar o João Pedro me bater na escola. Você prometeu que nunca mais ia brigar comigo!

O pai olha para o filho com seriedade e sente um cansaço. Por um momento ele fica com vontade de pedir desculpas, mas logo engole esta vontade, lembra-se que está com sono e repete pra si mesmo que este moleque precisa de um psicólogo. Ou de um remédio. Ou ambos. Então ele simplesmente diz:

O papai matou o bicho que te machucou filho. Se você não acredita no papai é porque o monstro e os amigos dele ficaram sussurrando idéias erradas no seu ouvido que confundiram a sua cabeça. Agora vamos dormir senão eu vou te botar de castigo.

Por Marcelo Schenberg

Deixe um comentário

O retorno de Gojira

No início, nada existia.
Apenas escuridão e silêncio.
Só existiam os criadores.
O Coração do Céu e o Coração da Terra.
De repente surgiu a aurora e a claridade se fez.
Apareceu a Terra com suas montanhas e árvores.
Depois, os animais foram criados, todos os tipos de animais.
E eles deveriam venerar os deuses, mas eles eram incapazes de falar.
Foi então que os primeiros seres humanos foram criados.
E eles foram feitos de barro.
Mas essas pessoas não ficaram boas.
Elas não tinham sentimentos, nem capacidade de entender.
E não louvavam os deuses.
Não tinham forças e não podiam se mover.
Então os deuses destruíram essas pessoas com uma enorme tempestade.
Na segunda tentativa, os deuses criaram homens de madeira.
Da madeira entalharam suas faces. Da madeira fizeram seus corpos.
E pareciam com seres humanos.
Eles se reproduziram e povoaram a Terra com seus filhos e filhas.
Mas os seres de madeira seguiam sem rumo.
Eles cortavam as árvores, matavam animais e destruíam o meio ambiente.
Eles não possuíam alma ou compreensão.
Eram destrutivos e não louvavam os deuses.
Então, a morte foi lançada sobre eles.
Choveu o dia todo e a noite toda.
E eles foram exterminados por uma enorme enchente.
Na terceira tentativa, o Coração do Céu criou seres humanos de milho.
Esses seres foram colocados na Terra e eram capazes de compreender e ver tudo que os cercava.
Eram capazes de enxergar longe e ver coisas que estavam escondidas.
Estavam conectados a todo o cosmos e viviam em equilíbrio com o mundo natural.
Mas os deuses perceberam que haviam dado poderes demais aos humanos.
Então, sopraram uma névoa sobre seus olhos.
Com a visão limitada, os seres humanos de milho caminharam sobre a terra e se reproduziram.
Lentamente, eles se distanciaram do mundo natural.
Esqueceram-se de como louvar os deuses e respeitar a Natureza.
O ciclo do tempo, a era dos seres de milho está chegando ao fim.
Haverá uma nova era para os seres humanos na Terra?

“Todas as condições meteorológicas estão levando a radioatividade para o mar, sem implicações para o Japão ou outros países próximos” – Maryam Golnaraghi, coordenadora do programa de redução de riscos em desastres nucleares.

A antiga profecia maia, que abre este texto e também o documentário 2012 Tempo de Mudança (que o Plantando Consciência trouxe  para São Paulo no final do ano passado e que deve entrar em circuito nacional este ano), se encaixa na tragédia japonesa como o sapatinho de cristal no pé de Cinderela. E cabe também como resposta à miopia implícita na frase de Maryam Golnaraghi1,que revela o quão alienado é o senso comum. Olhamos para tudo o que acontece sempre do ponto de vista antropocêntrico, como fossemos de fato o centro do mundo, alienados da grande “teia de aranha” que conecta tudo o que existe, inclusive cada um de nós.

Por isso, quando a natureza se torna este poder primitivo indomável, que já deveríamos ter subjulgado com o nosso inegável progresso científico-tecnológico, nós mergulhamos num poço de incompreensão e angústia. “Como?”, o homem civilizado se pergunta. E de seu ponto de vista dualista e estritamente materialista, que separa a natureza – esta força devastadora – de nós – a civilização -, o homem civilizado fica aliviado de saber que a radiação esteja sendo levada ao mar. Melhor lá com eles do que aqui entre nós.

Os jornais usam títulos como “Natureza em Fúria”, e em seus editoriais concluem derrotados que “por mais bem preparado que esteja um país e por mais bem treinada que esteja sua população, é limitada a capacidade humana para conter os efeitos das catástrofes naturais”2. Ou, “a situação do Japão, que pertence ao grupo das nações mais ricas e mais tecnologicamente avançadas do mundo, fornece um clássico exemplo de como os humanos ainda estão desamparados em face da fúria da natureza”3.

O que esta visão antropocêntrica materialista não quer ver é que o ser humano SEMPRE será desamparado em face da “fúria da natureza”, porque o ser humano PERTENCE à natureza. O ser humano não dominou a natureza e jamais o fará, porque no dia em que isto acontecer estaremos condenados a perecer com ela.

Pra entender o que está acontecendo, ou pra evitar consequências drásticas toda vez que a natureza manifestar sua força, não adianta construirmos computadores mais impressionantes, ou nos protegermos ainda mais. Este viés moderno que joga a civilização contra a natureza é uma ilusão que carregamos desde o início da Idade Moderna, como nos conta o filósofo e reformista Rudolf Steiner, que teria completado 150 anos em Fevereiro último.

A Idade Moderna, que teve início em meados do século XV com o Renascimento, é definida, segundo Steiner, a partir de quando “o economista começou a emergir na civilização moderna como o tipo representativo de governante”4, substituindo o clero, que havia substituído, por sua vez, os “iniciados” do Egito, Babilônia e Ásia antigos. Estes últimos, os povos ancestrais, “sabiam que seu corpo era constituído não apenas de ingredientes que existem aqui na Terra e que são incorporados nos reinos animal, vegetal e mineral. Ele sabia que as forças que ele via nas estrelas acima trabalhavam em sua existência como humano, ele se sentia um membro de todo o cosmos.”5

Steiner, sempre à frente de seu tempo, tinha uma observação perspicaz a nosso respeito. “O pensamento humano de hoje – o presente intelecto – vive num estrato da existência de onde não se é possível alcançar as realidades profundas. Alguém pode então provar alguma coisa estritamente, e também provar seu oposto. É possível hoje se provar o espiritualismo de um lado e o materialismo de outro. Pela racionalização intelectual ou científica de hoje, alguém pode provar qualquer coisa tão bem quanto pode provar seu oposto. E as pessoas podem brigar uns com os outros por pontos de vista igualmente bons, porque seu intelecto está numa camada superior da realidade e não consegue descer para as profundezas da existência.”6

Se estivéssemos todos capacitados a descer às profundezas da existência, entenderíamos a catástrofe japonesa não como uma fatalidade, mas como consequência.

Gojira

A vida imita a arte: Em 1954, nove anos depois de Hiroshima e Nagasaki, Ishirō Honda expressa o trauma generalizado das bombas atômicas ao criar Gojira (depois renomeado no mercado americano para Godzilla), um filhote bastardo dos testes nucleares no Pacífico, que tem a dorsal brilhante, cospe fogo atômico e deixa pegadas radioativas.

O jornalista Clóvis Rossi conta em interessante artigo sobre as conexões “fáusticas” do incidente japonês (fazendo analogia entre o pacto com o demônio que fez o personagem do mito imortalizado por Goethe, e a nossa perigosa barganha para obter o poder do átomo em nossas mãos) que, mesmo após o pânico nuclear, “Michael Levy, pesquisador-sênior do Council para energia e meio-ambiente, dizia ser cedo demais para uma avaliação sobre a eventualidade do retrocesso do que antes se chamava de ‘renascença do nuclear’”7. Claro, há muito dinheiro em jogo na indústria da energia nuclear, assim como há na indústria dos transgênicos, dos pesticidas, da extração de petróleo, da especulação financeira, das armas, do tráfico de drogas etc etc. Pela lógica intrínseca do capitalismo, estes problemas jamais serão resolvidos, pois eles são o próprio alimento para a continuidade alucinada do sistema.

Em contraste com a ciência natural, que é baseada na análise experimental causal, Goethe – uma das maiores influências no pensamento de Steiner – procurava a unidade universal da natureza. No fenômeno original  da natureza ou nos arquétipos dos mundos vegetal e animal, ele descobriu uma seqüência de manifestações de conteúdo espiritual para os quais o homem é capaz de dar expressão deliberada em seu próprio microcosmo.8

Steiner parte de Goethe para construir sua própria cosmogênese. Ele acreditava que o pensamento manifesto em idéias é na verdade a essência do universo. O físico quântico Amit Goswami, um século depois, reverbera as teorias de Stenier ao chamar isto de “causação descendente”, ou seja, em vez de pensar na matéria  como base da existência, a física quântica parte da premissa que a base de tudo é a consciência. Voltando a Steiner, um esforço deliberado de cognição resultaria em constante progresso em direção à “fundação do mundo”.

Assim como nos primeiros escritores românticos, a crítica do criador da antroposofia para a modernidade busca a reconciliação entre ciência, religião e arte – uma nova mitologia cultural, se originando do aprimoramento do processo do pensamento até que ele se torne a experiência intuitiva do Conhecimento Original.9

À época do tsunami asiático de Dezembro de 2004, que atingiu áreas de reserva ecológica, a falta de corpos de animais após o início das buscas espantou as equipes de resgate. Desde então a idéia de que os animais teriam um “sexto sentido” que os teria mandado fugir em tempo começou a circular pela internet. A história está começando a circular de novo, e não vale dizer que é fruto de crendice em bobagens paranormais. Os animais, diferentes de nós, estão conectados de forma integral com a natureza, em completa simbiose com a inteligência oculta de Gaia. Eles sentem com aqueles sentidos primitivos que nós desligamos desde que nos tornamos civilizados.

Assim, desconectados, nós choramos a devastação provocada na humanidade pelas forças da natureza e, incapazes de perceber o pacto faustiano que fizemos com o “demônio atômico”, choramos também pelas atrocidades e fatalidades do passado, como Hiroshima e Nagasaki, Chernobyl. Nós choramos toda vez que vidas humanas são ceifadas. Mas quem chorou pelas 2053 explosões nucleares a título de “teste” detonadas por 7 nações sobre e sob o solo do nosso planeta entre 1945 e 1998 (1032 delas apenas pelos EUA)?

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.
Veja este belíssimo mas assustador mapa temporal das explosões feito pelo artista japonês Isao Hashimoto

Desde 1963 explosões submarinas e atmosféricas foram banidas, então a grande maioria destas explosões foram subterrâneas. Estaria Gaia, nosso planeta mãe, revidando mais de meio século de agressões nucleares em seu tecido subcutâneo? Chamando nossa atenção para o nosso próprio histrionismo? O que o seu corpo faria se você constantemente o cutucasse com uma brasa de cigarro, machucasse sua pele com micro cargas atômicas localizadas por anos? Alguma doença cutânea, matando milhares de células localizadas? Câncer de pele?

As analogias não são meras metáforas. É tarde pra continuarmos nos iludindo. O micro, o macro, tudo funciona como um padrão. A forma espiralada do DNA se repete nas galáxias, tudo segue uma lógica inteligente. Os resultados de nossas ações são inevitáveis nesta realidade entrelaçada, e enquanto nossas ações forem destrutivas, as consequências também o serão. Apenas colhemos o que plantamos. Nós podíamos plantar consciência, mas  plantamos energia atômica no solo por mais de meio século, e agora, sem querer desmerecer os esforços humanitários em prática, não devíamos estar surpresos quando percebemos que chegou a hora da colheita.

1 Folha.com, Ventos levam radioatividade de usina no Japão para o Pacífico, 15/03/2011
2 O Estado de São Paulo, editorial da edição de 16/03/2011
3, 7 Clóvis Rossi (Janela para o Mundo), O Japão, Fausto e o átomo, 14/03/2011
4, 5, 6 The Ahrimanic Deception, Lecture by Rudolf Steiner (Zurich, October 27, 1919).
8, 9 Heiner Ullrich, Rudolf Steiner (1861-1925), originally published in Prospects: the quarterly review of comparative education (Paris, UNESCO: International Bureau of Education), vol.XXIV, no. 3/4, 1994, p. 555-572.

Comments (1)

Fazendo as pazes com Papai Noel

Você já parou pra pensar por que levamos pinheiros pra dentro de casa, os decoramos com bolas coloridas e colocamos presentes ao seu redor no Natal? Qual é, de fato, a origem da simbologia natalina?

Enquanto a maioria de nós entende o Natal como um feriado cristão que simboliza qualidades elevadas de caráter como solidariedade, compaixão, esperança, altruísmo etc; apesar de celebrado no mundo inteiro, o evento causa sentimentos controversos. Para uma parcela mais radical a data representa uma espécie de celebração do consumismo materialista e da ganância, banhado com uma calda de hipocrisia. Por outro lado, alguns entusiastas do Natal acreditam que manter uma criança crente na existência do Papai Noel é de certa forma uma crueldade, uma vez que mais tarde elas descobrirão que foram enganadas pelos seus próprios pais. E se perguntam, justamente, que, “se não queremos que elas mintam, porque mentimos para elas?”.

Temos também uma frente mais recente, oriunda da paranóia policiadora do politicamente correto, que também está em guerra contra o bom velinho, que vem sendo crucificado por “sua massa corpórea estar muito além do que recomendam os médicos” (!!),  ataque respaldado por uma manipulação de estatísticas que conclui que “Há uma correlação entre os países que mais veneram o Papai Noel e altos índices de obesidade infantil” (!!!).

Como tudo no mundo contemporâneo, é claro, o buraco é sempre mais embaixo.

“Então, por quê as pessoas levam pinheiros pra dentro de suas casas no solstício de inverno e colocam pacotes coloridos (vermelho e branco) ao redor de seu tronco, como presentes para demonstrar seu amor pelo próximo e como representações do amor de Deus e da dádiva da vida para seus filhos? É porque, embaixo do tronco do pinheiro é a localização exata onde se pode encontrar a mais sagrada substância, a Amanita Muscaria, na natureza.” – James Arthur, “Mushrooms and Mankind”

A Amanita Muscaria é o cogumelo vermelho de pintinhas brancas que habita nosso inconsciente coletivo e a literatura das fadas e do mundo da magia, e que cresce quase que exclusivamente em redes de micélios que coexistem simbioticamente com os pinheiros nos países nórdicos. Também conhecido como o “fungo voador”, seu igrediente ativo principal é o ‘muscimol,’ bem como traços de DMT, ou a “molécula do espírito”, um enteógeno que, de acordo como Dr. Rick Strassman, PHD e pesquisador especializado na molécula, possui fortes evidências de ser produzido pela glândula Pineal no cérebro humano.

“O próprio nome ‘Christmas’ é uma palavra composta de ‘Christ’ (Cristo, no sentido daquele que é embebido com a substância mágica’ e ‘Mass’ (Missa, o trabalho religioso ou cerimônia de ingestão da eucaristia sacramental, o Corpo de Cristo’). Na tradição católica, esta substância (corpo/soma) foi substituída pela doutrina da ‘transubstanciação’, em cujas cerimônias os padres clamam a habilidade de transformar uma bolachinha redonda (a hóstia) no Corpo de Cristo literal; ou seja, um susbtituto, ou placebo.” – James Arthur, “Mushrooms and Mankind”

Ao passo que a maioria de nós entende o Natal como um feriado cristão, ele tem suas origens em tempos mais remotos, das tradições xamânicas dos povos tribais do norte da Europa pré-cristianismo. Esses cogumelos eram usados pelos povos ancestrais para clarividência e experiências transcendentais. A maioria dos elementos da tradição natalina, como o Papai Noel, as árvores de Natal, as renas voadoras e a troca de presentes são baseadas nas tradições que envolviam a colheita e consumo desses cogumelos sagrados.

Os povos ancestrais da região, incluindo os Lapps da hoje Finlândia, e as tribos Koyak das estepes centrais da Rússia, acreditavam na idéia da “Árvore do Mundo”. A Árvore do Mundo era vista como uma espécie de eixo cósmico, no qual os planos do universo são afixados. As raízes da Árvore do Mundo se esticam pra dentro dos mundos inferiores, seu caule está na “Terra do meio”, da existência cotidiana, e seus galhos alcançam pra cima, em direção aos reinos dos céus. Para os povos ancestrais, esses cogumelos eram literalmente as “frutas da Árvore”.

A Estrela do Norte também era considerada sagrada, uma vez que, ao olho do observador, todas as outras estrelas rotacionavam em torno deste ponto fixo. Eles associavam esta “Estrela Polar” com a Árvore do Mundo e o eixo central do universo. O topo da Árvore do Mundo tocava a Estrela do Norte, e o espírito do xamã escalava a árvore metafórica, passando para o reino dos deuses. Este seria o significado original da estrela no topo da árvore de Natal moderna, e também o motivo pelo qual o “super-xamã” Papai Noel vive no Pólo Norte.

As analogias prosseguem. Um dos efeitos colaterais da ingestão da Amanita é sentido na pele, através de uma “vermelhidão” que pode ser percebida com mais facilidade nas extremidades do rosto. É por isso que o Papai Noel é sempre ilustrado com nariz e bochechas avermelhados. Até seu riso “Ho, ho, ho!” corresponde de certa forma ao riso eufórico daqueles que mergulham na indulgência com o fungo mágico.

Papai Noel também se veste como um coletor. Quando era tempo de sair para fazer a coleta dos cogumelos mágicos, os xamãs ancestrais da Sibéria vestiam-se de forma correlata, com casacos de pele e longas botas.

Os povos da região viviam em tendas feitas de madeira e pele de rena, chamadas “yurts”. A chaminé central dessas tendas era também usada de entrada, uma vez que o enorme volume de neve que se acumula no solo bloqueia uma entrada frontal. Após a colheita, os xamãs voltavam pra casa com seus sacos cheios nas costas. Ao adentrar as tendas dos habitantes destas tribos, eles presenteavam os mesmos com os frutos mágicos de sua colheita. Também não é coincidência que as renas que habitam estas regiões sejam grandes comedoras de cogumelos  Amanita, o “fungo voador”.

Ao compreendermos melhor as origens destas celebrações, nós podemos compreender melhor o mundo contemporâneo, e nosso lugar nele. Papai Noel não é uma mentira, e o verdadeiro espírito do Natal não reside na troca de brinquedos de plástico, mas na celebração de um presente da terra: o enteógeno, a planta ou substância capaz de gerar o “Deus interior” e as experiências reveladoras e visionárias que dele podemos extrair, que no fundo remetem ao grande denominador comum entre todos nós: o amor e a comunhão.

Nós do Plantando Consciência desejamos um Feliz Natal a todos, e um 2011 repleto de visões, frutífero para o despertar!

Saiba mais:

http://www.plantandoconsciencia.org/pharma.htm

Livros (em ingles):

– Mushrooms and Mankind, de James Arthur
– Soma: Divine Mushroom of Immortality, de Gordon Wasson
– Mushrooms, Poisons and Panaceas, de Denis R. Benjamin
Astrotheology and Shamanism:  Christianity’s Pagan Roots
A Revolutionary Reinterpretation of the Evidence
, de Jan Irvin e Andrew Rutajit
The Sacred Mushroom and the Cross, de John Marco Allegro

Comments (1)

E agora, doutor?

“Toda verdade passa por três estágios. Primeiro, ela é ridicularizada. Depois, é violentamente refutada. E num terceiro momento, ela é aceita como sendo auto-evidente“ – Arthur Schopenhauer

Educado numa família cuja única fé é na ciência, cresci entendendo que um dos pilares que sustentam a nossa civilização é a medicina moderna. Se o mundo é atormentado por guerras, violência, epidemias, dor e morte… a medicina é o antídoto e o equilíbrio para todo esse sofrimento. No meu olhar de classe média intelectualizada, todo aquele papo sobre “energias” e curas espirituais não passava de um truque psicológico pra faturar em cima de frágil crença do pobre cidadão sem educação. Energia, segundo aprendi em casa, é o que acende as lâmpadas.

Então o tempo foi passando e o caminho que as coisas tomaram não foi exatamente aquele previsto pela milagrosa sociedade capitalista científico-tecnológica, aquela que venceu a barbárie das doenças infecciosas e rituais supersticiosos. O mundo não melhorou, e curiosamente as únicas pílulas que parecem ter deixado as pessoas mais felizes são consideradas “schedule I” (a lista 1 de substâncias proibidas) de acordo com os preceitos do FDA. E não se pode comprar ecstasy na farmácia, nem mesmo com prescrição médica. Então ‘bora pros ansiolíticos e antidepressivos, as drogas da vez da sociedade moderna.

Eu não conheço ninguém que não conheça alguém que toma antidepressivos, estabilizadores de humor, calmantes ou outros da mesma sorte. Curiosamente, as pessoas que eu conheço que incluíram estes medicamentos na sua dieta são os mais bem sucedidos do ponto de vista do capitalismo: a grande maioria está “bem empregada” e conquistou uma posição financeira capaz de promover segurança e conforto. Todos estão comprando apartamentos, tem Wii com Rock Band em casa, e carros de valor cotado acima das três dezenas de milhar, pra ficar no mínimo denominador comum.

Por outro lado, riquezas acumuladas ao longo de uma vida inteira são gastas em um punhado de anos com medicamentos, médicos, enfermeiras e internações hospitalares naqueles que têm que encarar um câncer, parkinson, alzheimer e tantas outras doenças degenerativas que afetam muitos de nossos idosos (e outros nem tão idosos assim).

As pessoas “chegaram lá”, mas não encontraram a felicidade, ou a plenitude. E a medicina moderna não preencheu este vazio. Pelo contrário, Michael Jackson, Brittany Murphy e Heath Ledger têm em comum o fato de terem inaugurado a era das celebridades que morrem por overdose de remédios prescritos. O mundo moderno está em crise de consciência, e consequentemente de saúde. Crise aliás, é o termo se tornou a definição por excelência dos nossos tempos, não é?

E agora, como sair dessa? Olhe em volta. Que alternativas você consegue encontrar? Veja o modelo espiritualizado da física quântica, o olhar simbiótico da permacultura, o debate inevitável acerca da falência da guerra às drogas, a popularização da yoga, a falência moral do sistema monetário… a impressão pra quem pega o bonde andando é que voltamos aos anos 60.

E é mais ou menos isso mesmo. Como colocado no filme de João Amorim, 2012 Tempo de Mudança, existe uma idéia errônea de que os anos 60 “fracassaram”, quando na verdade as mudanças compulsórias de hábitos que estão marcando a nossa época são herança direta daquele período, pioneiro em diversas áreas como a yoga, comida orgânica, feminismo, vanguarda artística, liberação sexual, psicodelia e assim por diante.

Dentre as áreas que hoje resgatam a tradição dos anos 60 e merecem nossa atenção, uma das mais fundamentais é a  medicina. Vamos ser honestos. Os hospitais públicos estão sobrecarregados. Os hospitais privados e laboratórios de exame emergem imponentes na paisagem urbana como templos luxuosos, que oferecem mais mimos e distrações do que cura propriamente, quem já teve um parente internado sabe bem disso.

Fora dos hospitais a realidade não é muito diferente. A grande maioria das consultas médicas são motivadas primeiramente por distúrbios psicossomáticos. Segundo o professor de medicina e psiquiatria da New York Medical College PJ Rosch, 70 a 90% das visitas a consultórios médicos nos EUA são relacionadas ao estresse, que leva os americanos a consumirem 5 bilhões de tranquilizantes todo ano.

Na verdade, as pessoas acreditam no que querem acreditar e não acreditam naquilo que não querem acreditar, independentemente dos fatos e evidências” – Dr. Andrew Weil

O buraco é ainda mais embaixo. Cansados de ver milhões de vidas sendo ceifadas em nome de doenças misteriosas como o câncer e a AIDS, que mesmo após mais de um século de progresso científico-tecnológico e do desenvolvimento da medicina moderna não conseguem ser completamente explicadas ou tratadas, alguns heróis de espírito investigativo começaram a colocar em cheque estes paradigmas antes inquestionáveis. Os documentários A Casa dos Números, sobre a AIDS, e Uma Linda Verdade, sobre o Câncer, partem de perguntas tão óbvias que é como se tivéssemos esquecido de nos perguntar.

Para aqueles que desconfiam de “teorias da conspiração” e gostam de números e fontes confiáveis, basta navegar pelo site da Organização Mundial de Saúde. Enquanto que, em 1995, o relatório anual da OMS apontava a pobreza como principal barreira para o desenvolvimento da saúde no mundo, numa sociedade aparentemente saudável com excessão dos rincões de miséria, em 2008, o mesmo relatório já mudava de tom, apontando que “condições injustas de acesso à saúde, custos empobrecedores e a erosão da confiança no sistema de saúde constituem uma grande ameaça para a estabilidade social”, pedindo um “retorno a uma abordagem mais holística da saúde”.

A questão é simples: desde que a ciência dos comprimidos e da medicina alopática  monopolizou a promessa de cura, a sociedade não se tornou mais saudável. Pelo contrário, estamos na verdade mais doentes do que no passado.

A equação não é difícil de entender. A natureza corporativa da indústria farmacêutica, voraz pelo lucro em larga escala, faz com que ela só tenha olhos para drogas de “alívio imediato” (que tendem apenas a eliminar temporariamente os sintomas, ao invés de combater o problema pela raíz, forçando o uso recorrente) e desta forma inibem quaisquer tentativas de tratamento que não implique no uso dos remédios ou tratamentos alopáticos que a sustetam.

Eis então uma verdadeira pandemia: nomes imponentes como Transtorno Obssessivo Compulsivo, Transtorno Bipolar, Síndrome do Pânico e Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade tiram do paciente a responsabilidade pela sua própria situação, que é entregue aos “milagrosos” coquetéis químicos da medicina moderna, e com isso nomes como Frontal, Prozac, Ritalina, Lexotan, Rivotril entre tantos outros, são hoje tão populares quanto as dos fabricantes de celulares. Estou exagerando? Então confira esta grife esperta que lançou objetos de decoração inspirados nestes novos ícones da cultura pop.

Esta mesma indústria farmacêutica se baseia na confiança oferecida pela ciência para desmoralizar tratamentos alternativos, que geralmente são tachados de ineficazes por não terem validação científica ou até mesmo por serem inacessíveis ao método científico experimental, como a homeopatia, fitoterapia, acupuntura, aromaterapia, ayurveda, reiki e assim por diante.

“Construímos um sistema médico em que o ato de enganar não é apenas tolerado, mas recompensado”, afirmou em entrevista à Folha de São Paulo o médico Carl Elliot, professor de bioética e filosofia na Universidade de Minnesota e autor do livro “White Coat, Black Hat -Adventures on the Dark Side of Medicine” (Jaleco Branco, Chapéu Preto: Aventuras no Lado Negro da Medicina), uma viagem aterrorizante pelas falcatruas e o poder exercido pela indústria farmacêutica, que escapou a todo controle em nome do lucro. “O problema hoje é que temos um sistema de desenvolvimento de drogas orientado para o mercado e não para as coisas que as pessoas doentes precisam”, nos lembra o médico americano.

Mas uma verdade fabricada não consegue se sustentar somente em números por muito tempo. Como demonstrado nos documentários mencionados anteriormente, as mortes dolorosas de pacientes de AIDS pelo uso de tóxicos pesados como o AZT, ou de pacientes de câncer pela quimioterapia (que no fundo é um ataque irrestrito ao organismo, já que mata células indiscriminadamente, e não apenas as cancerígenas), rivalizam com as mortes provocadas pelas próprias doenças sem tratamento algum. Se é que elas são o que nós pensamos que fossem.

E os dados foram lançados. A medicina alternativa ganha espaço em meio a esta crise de controle pela nossa fidelidade. Por um lado, vemos o crescimento do uso medicinal das plantas de poder por xamãs urbanos, ou o debate acerca das propriedades medicinais da maconha ganhar atenção da mídia, por outro, novas práticas medicinais que se propõem a resgatar elementos da cultura oriental e de conhecimentos espirituais começam a penetrar nas classes mais intelectualizadas. O Plantando Consciência está acompanhando esta briga de perto, e aproveitamos para indicar dois workshops que acontecem em Novembro que devem ajudar a fomentar esta reflexão.

O primeiro, Desenvolvimento Humano Multidimensional, que acontece agora no dia 12 de Novembro, com o Dr. Fernando Bignardi, trabalha a saúde através da abordagem quântica do físico Amit Goswami. Bignardi é formado pela Escola Paulista de Medicina (EPM-UNIFESP); pós-graduado em Homeopatia, Psicoterapia, Medicina Comportamental, Biologia, Ecologia e Geriatria/Gerontologia; e é um dos defensores de que o estilo de vida da cultura ocidental contemporânea é o principal fator de doenças crônicas como a depressão, hipertensão arterial e diabetes, propondo que adotemos o modelo quântico de ser humano na questão da cura. Assista à entrevista do Dr. Fernando Bignardi para o Globo Repórter (exibida em 08/10/2010)

O segundo, Workshop de Introdução à Sintergética, nome que pode ser desmembrado em “Síntese das Energias”, acontece nos dias 20 e 21 e apresenta, através da chilena Daniela Blazquez, psicóloga residente na Austrália, uma medicina integralista que propõe uma visão holística baseada nos conhecimentos ancestrais da ayurveda, medicina chinesa, xamanismo e geometria sagrada.

O importante em ambos os casos é abrirmos nossa receptividade ao novo, ao invés de categorizarmos o que desconhecemos com uma etiqueta, motivados pelo preconceito. Olhe para si e para as pessoas ao seu redor e você também irá perceber que não é mais possível viver um mundo dualista, que promove a distinção entre a medicina “de verdade” e as “baboseiras new age”. A sociedade está doente, o planeta está doente, e aqueles modelos que tínhamos como solução estão falhando. Dê uma chance para romper com alguns paradigmas envelhecidos e talvez você descubra que, ao invés de um gigantesco iceberg no qual colidimos sem saber antecipar, como o Titanic, existe uma maravilhosa oportunidade que se abre para um mundo de saúde e de possibilidades infinitas.

Comments (5)

Older Posts »
%d blogueiros gostam disto: