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Ciência, um Delírio

É tempo para a ciência superar o materialismo

A ortodoxia rígida do século XIX tem que ser desafiada para permitir interpretações mais amplas, argumenta o biólogo Rupert Sheldrake

A Guerra das Visões de Mundo

Werner Heisenberg, prêmio Nobel e um dos fundadores da física quântica, observou certa vez que a história pode ser dividida em períodos de acordo com os  quais uma visão dominante sobre a matéria predominou. No seu livro Física e Filosofia (Editora da Universidade de Brasília), publicado no início dos anos 60, ele argumenta que no início do século XX nós entramos em um novo período. Foi nesta época que a física quântica descartou o materialismo que dominava as ciências naturais no século XIX.

Sobre o materialismo, ele escreveu:

“(Este) enquadramento era tão estreito e rígido que era difícil encontrar um lugar nele para muitos dos conceitos de nossa linguagem que sempre pertenceram ao seu próprio substrato, por exemplo, o conceito de mente, de alma humana ou de vida. A mente podia ser introduzida no quadro geral apenas como uma espécie de espelho do mundo material.”

Hoje nós vivemos no século XXI, mas parece que ainda estamos empacados nesta visão estreita e rígida sobre as coisas. Como Rupert Sheldrake relata em seu novo livro, publicado lá fora recentemente, The Science Delusion (Ciência, Um Delírio, em referência a The God Delusion – ou Deus, Um Delírio – de Richard Dawkins): “O sistema de crenças que governa o pensamento científico tradicional é um ato de fé, apoiado numa ideologia do século XIX.”

Esta é uma retórica provocadora. Ciência como um ato de fé? Ciência como um sistema de crenças? Mas senão, como explicar o apego à cosmologia mecanicista e fisicalista, que não vê propósito nas coisas? Como Heisenberg explicou, no mundo da física faz tempo que não se pensa mais em átomos como coisas. Eles existem como potencialidades ou possibilidades, e não objetos ou fatos. Ainda assim, o materialismo persiste.

Heisenberg recomendou mantermos contato com a realidade da maneira como a experimentamos, o que quer dizer deixarmos um espaço aberto para os conceitos de mente e alma. A visão mecanicista irá passar, ele tinha certeza. De certa forma, a carreira científica de Sheldrake tem sido devotada a esta derrocada. Ele começou num posto estabelecido como diretor de estudos em biologia celular na Universidade de Cambridge, apesar de ter desafiado a ortodoxia quando propôs sua teoria dos campos morfogenéticos.

Ela foi elaborada para lidar com, vamos dizer, a enorme complexidade da estrutura das proteínas. Uma abordagem convencional, que poderia ser descrita como “causação ascendente” (de baixo pra cima: a vida seria criada a partir dos menores “blocos de construção” existentes para cima, ou seja, em direção a moléculas mais complexas, até chegar aos animais e plantas), vê as moléculas de proteínas “explorando” todas os padrões possíveis até que possam se assentar num modelo com um gasto mínimo de energia. Esta explicação funciona bem para moléculas simples, como o dióxido de carbono. Entretanto, proteínas são grandes e complicadas. Como Sheldrake nota: “O tempo que levaria para que uma proteína fizesse isso é de aproximadamente 1026 anos, muito mais que a idade do universo.”

Como consequência, alguns cientistas estão propondo explicações holísticas, baseadas na “causação descendente” (de cima pra baixo). A proposição particular de Sheldrake é que tais sistemas auto-organizávies existem em campos de memória e hábito. Eles conteriam a informação necessária para se criar a estrutura.

Sem medo, ele extende a especulação para abarcar uma amplitude de fenômenos que muitas pessoas experimentam. A “telepatia telefônica” seria uma delas: quando você está pensando sobre alguém e esta pessoa te liga na sequência. Ou a sensação de estar sendo observado. A idéia, em termos gerais, é que nossas intenções podem ser comunicadas através de campos mentais que são como campos morfogenéticos (campos que geram as formas complexas que serão manifestadas no mundo físico). Eles nos conectam – apesar de que, no mundo moderno, com suas distrações ideológicas e tecnológicas, nós não somos muito bons em notá-los.

Sheldrake tem que lutar por sua teoria continuamente. Em seu novo livro, ele registra um encontro com Richard Dawkins, quando o eminente ateu estava produzindo sua série de TV de 2007, “Inimigos da Razão”. Sheldrake sugeriu a Dawkins que eles discutissem a evidência factual da telepatia. Dawkins resistiu. “Não tenho tempo. É muito complicado. E o meu programa não é sobre isto”, Sheldrake afirma que Dawkins disse, ao que ele replicou sugerindo que ele (Dawkins) não estava interessado em tomar parte de outro “exercício de desmascaramento a nível de ensino fundamental”. Dawkins afirmou: “Não é um exercício a nível de fundamental; é um exercício de desmascaramento de nível superior.”

Eu admiro Sheldrake por seu extraordinário bom humor, mesmo depois de décadas de abuso que ele teve que suportar. Este estado de espírito permeia todo o The Science Delusion porque, no fundo, é um apelo passional para que a visão de mundo materialista seja, finalmente, desafiada.

Se suas teorias irão sobreviver ao teste do tempo ou não é outra questão. Num artigo publicado no Journal of Consciousness Studies em Novembro último, Fraser Watts examina estas teorias a sério e, de forma abrangente, acha que elas são sugestivas mas incompletas. Por exemplo, Sheldrake concebe os campos mentais através de uma analogia com uma ameba: E da mesma forma que uma ameba extende seus pseudópodes e toca o ambiente ao seu redor, a telepatia e afins seriam o resultado de uma “pseudopódia mental” extendida para o mundo ao nosso redor.

A analogia tem a vantagem de “naturalizar” a percepção extrasensorial. Watts nota. Mas ela também levanta questões. Por exemplo, como seria possível “tocar” mentalmente objetos que não existem, como aconteceria se contemplarmos um centauro? Watts conclui: “Uma descrição adequada da mente deve abordar tanto a descrição em primeira pessoa como em terceira pessoa, ao passo que a idéia de um ‘campo’, junto de outras descrições espaciais que Sheldrake usa, parecem ser exclusivamente descrições típicas da terceira pessoa.” Curiosamente, esta é uma atitude descaradamente século XIX.

Mesmo assim, Sheldrake deve ser receptivo com tanto comprometimento sério com seu trabalho. Ele pode não estar correto nos detalhes. Mas ele está com certeza correto, junto a Heisenberg, ao insistir que a visão materialista de mundo deve ir embora.

Artigo de Mark Vernon, publicado originalmente no The Guardian em 28/01/2012. Traduzido e ilustrado por Marcelo Schenberg para o Plantando Consciência.
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Diversão com cogumelos

A criação da consciência moderna ocidental trouxe consigo uma repressão violenta de nossa herança arcaica. Esta herança incluia a habilidade de explorar reinos mágicos e sagrados através  da ocorrência espontânea de estados de êxtase, de rituais de iniciação ou por meio de compostos visionários encontrados em certas plantas. Por muitos milhares de anos, o conhecimento direto do sagrado era uma parte natural e universal da existência humana, como ainda permanece em culturas tribais. Com a ascensão do Estado moderno e da Igreja, a interação com realidades místicas foi alienada das massas e explicitamente demonizada. A comunhão com o sagrado foi reservada para os padres. Durante a Santa Inquisição, danças sagradas com os espíritos da natureza ou contatos com as almas dos mortos tornaram-se heresias. A punição para estes crimes era severa.

O processo dialético que criou o pensamento possessivo do capitalista e a aparência racional do tecnocrata demandaram a destruição de vestígios de crenças pré-modernas animísticas e comunais, estivessem estas crenças em populações isoladas da Europa ou em populações indígenas do Novo Mundo. Esta destruição era parte do processo que Karl Marx descreveu como a alienação de todos os nossos sentidos físicos e intelectuais em apenas um: o sentido da posse. Claro, o “sentido da posse” não é realmente um sentido – é uma ilusão de realização pessoal que parece se estender para fora do ego.

A modernidade causou uma mudança dramática na maneira como usamos nossos sentidos. Em seu livro Myth and Meaning (Mito e Significado), Lévi-Strauss admitiu seu choque inicial quando descobriu que tribos indígenas eram capazes de ver o planeta Vênus durante o dia, a olho nu – “algo que para mim seria absurdamente impossível e incrível.” Mas ele aprendeu com astrônomos que era de fato possível e encontrou relatos antigos de navegadores ocidentais com a mesma habilidade. “Hoje usamos menos os sentidos e usamos mais de nossa capacidade mental do que no passado”, concluiu. Nós sacrificamos capacidades perceptuais por outras habilidades mentais – nos concentrar numa tela de computador enquanto sentados num cubículo por muitas horas seguidas (algo que aqueles indígenas achariam “absurdamente impossível e incrível”), ou desligar múltiplos níveis de consciência enquanto dirigimos um carro no trânsito pesado. Em outras palavras, somos criados em um sistema que nos ensina a postergar, retardar e eliminar a maioria das informações sensoriais em favor de uma futura recompensa. Nós vivemos em um ciclo de retroalimentação de atraso da recompensa perpétuo. Quase sempre, nem ao menos temos noção do que é que perdemos.

Pessoalmente, eu não tinha consciência do que estava perdendo até que comi cogumelos. Durante estas viagens iniciais eu descobri que estava preso num estado de postergação da expectativa e um compulsório distanciamento de mim mesmo. Eu tinha o hábito neurótico de um intelectual constantemente tentando observar a mim mesmo de algum ponto imaginário e objetivo fora de mim, e esse caminho impossível drenou minha energia e impossibilitou conectar-me com o presente. Cogumelos não me curaram disso – por um longo tempo apenas o álcool podia obliterar a divisão, e levei anos para solucionar o problema – mas os pedaços de cogumelos desidratados me fizeram perceber, pela primeira vez, exatamente o que eu estava fazendo errado.

A consciência moderna está desperta para o materialismo, para o incorpóreo  “sentido de ter”, para a visão mecanicista de mundo e o método científico de observação empírica. Sua antítese é a mente arcaica, viva para o mundo dos sentidos, em contato íntimo com o sagrado como ele é revelado pelo mundo natural, através de sonhos e visões. Para este tipo de consciência, Henry Miller descreveu que “O objetivo da vida não é possuir, mas irradiar”.

Há uma rachadura cultural entre o foco no cérebro, o hardware material no qual a consciência opera, e o estudo da mente, o nexo incorpóreo de tudo que experienciamos. A ciência ocidental estuda obsessivamente os mecanismos “objetivos” do cérebro, as vias de seus neurônios e suas densas florestas de sinapses, sem compreender a natureza da consciência. O xamanismo arcaico é uma tecnologia para explorar a verdade “subjetiva” da mente através de processos visionários, sonhos, mitos e interação com a natureza. De acordo com a psiquiatria atual, doenças mentais têm causas físicas que podem ser tratadas, até certo ponto, com medicamentos adequados. Na perspectiva xamânica, não apenas desordens mentais mas também as físicas têm causas não físicas – espirituais – que devem ser abordadas para uma cura efetiva.

As plantas visionárias são os espíritos guia de culturas ancestrais. Elas são sagradas porque despertam a mente para outros níveis de consciência. São um portal para um universo espiritual, ou multidimensional. No mundo moderno as substâncias derivadas destas plantas continuam a ser demonizadas, ridicularizadas e sobretudo suprimidas. No início dos anos 60, quando um entrevistador reduziu a fascinação de Aldous Huxley com os psicodélicos a uma “diversão com cogumelos”, Huxley respondeu em termos fortes: “O que é melhor, ter diversão com cogumelos ou idiotização com ideologia, ter guerras por causa de palavras, ter as leis de amanhã baseadas nas crenças de ontem?

Este racha cultural permanece uma divisão profunda. Enquanto escrevo isso, drogas psicodélicas foram novamente desmerecidas como “brinquedos da geração hippie” na seção científica do New York Times. Parece que nenhum jornal ou revista, sério ou de grande circulação,  possa publicar um artigo sobre alucinógenos sem ridicularizá-los de alguma forma.* Psicodélicos, catalisadores químicos de mundos interiores supremos, permanecem banidos e mal entendidos porque ocupam um ponto de contradição direta e possível síntese entre o materialismo baseado no cérebro e o xamanismo orientado espiritualmente.

A exploração e estudo não enviesado destas moléculas expansoras da mente – um legado da pesquisa científica e psicológica dos anos 50 interrompido pela forte histeria dos anos 60 – é um caminho para unificar estas abordagens opostas sobre a natureza da realidade.

Talvez seja o único caminho.

Daniel Pinchbeck, “Breaking Open the Head”, capítulo 9 (2002), também autor de “2012 – O Ano da Profecia Maia”, livros inspiradores do documentário “2012 – Tempo de Mudança”, com sessão última nesta sexta-feira, dia 15/10 as 20:00 na Cinemateca Brasileira (Largo Senador Raul Cardoso, 207 – Vila Clementino – São Paulo).

* Entre a publicação do livro e esta tradução muito mudou referente ao que diz este parágrafo, ao menos pra quem segue de perto os avanços da área. Por outro lado, pouco mudou no (in)consciente coletivo da população em geral.

Traduzido e ilustrado por PC.

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O culto à ganância é agora uma ameaça ambiental

Suzanne Goldenberg, correspondente ambiental do The Guardian (veja o original em inglês).

O americano médio consome, em produtos, mais do que o seu próprio peso por dia, alimentando uma cultura global de excessos que está emergindo como a maior ameaça para o planeta, segundo documento  publicado hoje. No seu relatório anual, a Worldwatch Institute diz que o culto ao consumo e à ganância pode acabar com todas as vitórias das ações governamentais sobre as alterações climáticas ou impedir uma mudança efetiva para uma economia de energia limpa.

Erik Assadourian, diretor do projeto, que liderou uma equipe de 35 pessoas para produzir o relatório, afirmou: “Enquanto não reconhecermos que nossos problemas ambientais – das alterações climáticas ao desmatamento e à extinção de espécies – são movidos por hábitos insustentáveis, não seremos capazes de resolver as crises ecológicas, que ameaçam varrer a civilização.”

A população do mundo está queimando os recursos do planeta a uma velocidade imprudente, lembra o representante da organização americana. Na última década, o consumo de bens e serviços aumentaram  em 28%, para $ 30,5 trilhões de dólares.
A cultura do consumo não é mais um hábito essencialmente norte-americano, mas está se espalhando por todo o planeta. Ao longo dos últimos 50 anos, o excesso foi adotado como um símbolo de sucesso em países em desenvolvimento, do Brasil à Índia e China, afirma o relatório. A China ultrapassou os EUA esta semana como o maior mercado automobilístico do mundo. E já é o maior produtor de emissões de gases com efeito estufa.

Tais tendências não foram uma conseqüência natural do crescimento econômico, o relatório prossegue, mas o resultado de esforços deliberados das empresas para conquistar os consumidores. Produtos como o hambúrguer – rejeitado como um alimento não saudável para os pobres no início do século 20 – e garrafas de água, são comuns no dia a dia.

A família média ocidental gasta mais com seu animal de estimação do que é gasto por ser humano em Bangladesh.

Por outro lado, o relatório notou sinais encorajadores de uma mudança na contramão da cultura de altos gastos. Ele afirma que os programas de merenda escolar denotam maiores esforços para incentivar hábitos alimentares mais saudáveis entre as crianças. A geração mais jovem também está mais consciente do seu impacto sobre o meio ambiente.

“Deve haver uma transformação global de valores e atitudes”, propõe o relatório. Nas taxas atuais de consumo, o mundo precisa erguer 24 turbinas eólicas por hora para produzir energia suficiente para substituir os combustíveis fósseis.

“Nós vimos alguns esforços encorajadores para combater a crise climática nos últimos anos”, disse Assadourian.

“Mas ao se promover mudanças políticas e tecnológicas enquanto mantemos uma cultura centrada no consumismo e crescimento, não há como avançar”.

“Se não mudarmos a nossa cultura, teremos de enfrentar novas crises. No final das contas, o consumismo não será mais viável ao passo que a população mundial crescer em 2 bilhões e economias crescerem em maior quantidade de países.”

No prefácio do relatório, o presidente do Worldwatch Institute, Christopher Flavin, escreve: “Enquanto o mundo luta para recuperar-se da mais grave crise econômica desde a Grande Depressão, temos uma oportunidade sem precedentes para dar as costas ao consumismo. No final, o instinto humano de sobrevivência deve triunfar sobre o desejo de consumir a qualquer custo. ”

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Para uns, é o juízo final. Para outros, uma grande oportunidade para mudanças.

Onde você vai estar quando os 5.125 anos do longo calendário Maia terminarem no dia 21 de dezembro de 2012? Você estará se escondendo do cataclisma global e da reversão polar magnética em uma caverna subterrânea? Estará entrando em um reino multidimensional do hiperespaço desencadeado pela ativação em massa da glândula pineal? Recolhendo os pedaços de um mundo em ruínas, ou dançando a noite inteira na festa do final dos tempos?

Considerando que ninguém sabe o que vai acontecer em 2012, o fim do calendário Maia funciona como um meme (o “gene da cultura” – termo cunhado pelo biólogo Richard Dawkins em “O Gene Egoísta”, de 1976) tremendamente intrigante sobre o qual podemos projetar nossas esperanças e medos, sonhos e desejos.

Se o calendário Maia não tem como ser exatamente preciso, tanto melhor: as mudanças planetárias já estão em curso. Representadas no nosso consciente coletivo desde o início do milênio através dos célebres ataques às Torres Gêmeas de 2001 (motivados em última instância pela escassez do petróleo, ou seja, uma questão ambiental), o Tsunami de 2004, Katrina em 2005 e o aquecimento global, esta seqüência de eventos provocou uma mudança da nossa postura de “chefes da natureza” para “parte integrante” dela. Some a isto a crise financeira e a cada vez mais latente noção do fracasso de uma ciência cartesiana como solução dos nossos problemas (a ciência falhou em eliminar o espiritual de nossas vidas, e a retomada de substâncias psicodélicas como expansores de consciência – o LSD foi redescoberto pelas universidades e a ayahuasca tem se tornado o centro de movimentos sociais pós-modernos no primeiro mundo – aliados a descobertas recentes no campo da ciência quântica – primeiro a física e agora a biologia, trouxeram de volta uma visão ancestral em que ciência e espiritualidade são duas faces da mesma moeda), e você verá que 2012 (ou o fim do mundo tal qual o conhecemos) já está acontecendo.

Hollywood está oferecendo uma massiva projeção sombria sob a forma de um épico apocalíptico de $250 milhões que leva a estética da aniquilação a um novo grau de perfeição. Mas descontados os efeitos especiais e o entretenimento de shopping, o que este lançamento tem a dizer? Que temos que rir das crenças antigas com um saco de pipoca na mão, e desacreditar nessa simbologia, já que todos sabemos que o planeta não vai acabar de um dia pro outro? Isto é um enfoque um tanto quanto juvenil, cá entre nós. E covarde, pois nos exclui da responsabilidade pelo que está acontecendo no mundo. Ao fazer pouco caso do assunto e tratá-lo como um delírio das massas religiosas e ignorantes, nós estamos dizendo também que o carro que dirigimos, o banho longo que tomamos e o lixo que deixamos de reciclar não estão abusando do planeta. Afinal, é tudo misticismo.

Paradoxalmente ao seu efeito prometido, este blockbuster do fim dos tempos dá abertura para se oferecer uma visão alternativa para o que 2012 pode significar para o nosso planeta. Potencialmente, 2012 pode representar o despertar da consciência na espécie humana, em que assumimos a responsabilidade por nosso papel como agentes da evolução consciente.

Um crescente movimento popular percebe agora que não podemos mais esperar que governos, corporações ou qualquer entidade exterior sejam responsáveis por criar o belo mundo em que desejamos viver. Temos que fazer isso nós mesmos. Esta rede crescente inclui movimentos, festivais e comunidades como Evolver, Burning Man, Bioneers, Transition Towns e outros, que estão desenvolvendo novas redes cooperativas que podem ajudar a curar o nosso planeta, fornecendo soluções sustentáveis para os nossos sistemas político e econômico desastrosamente insustentáveis, que enfraquecem as pessoas, mantendo-nos todos adormecidos (e facilmente seduzidos por blockbusters como o de Roland Emmerich).

Cidades em todo o mundo (mas não no Brasil, onde a mentalidade de curto alcance, ou a arrogância ignorante propagada pela mídia domina) irão acolher conversas sobre 2012 e a evolução da consciência, incluindo “contra-projeções” para o blockbuster da Sony Pictures. Dois filmes que tratam do assunto sem o sensacionalismo narcotizante do filme de Emmerich merecem destaque e ajudam a esclarecer outra abordagem sobe o tema. O primeiro é um documentário da Mangusta Productions intitulado “2012: Time for Change“, dirigido por João Amorim (sim! Um documentarista brasileiro, radicado nos EUA e nominado ao Emmy, mas, pra variar, completamente desconhecido em seu país de origem) e estrelado, entre outros, por Ralph Metzner, David Lynch, Daniel Pinchbeck e –  pasmem! – Gilberto Gil (alô Veja, nada sobre isso?). O outro intitula-se “2012: Science or Superstition?“, e é produzido por Gary Baddeley (presidente da Disinformation Company ), que entrevista pesquisadores, escritores e cientistas do ramo com o mesmo propósito.

Ao longo do mês de Novembro, Estados Unidos, Canadá, Europa e África estarão participando dos debates, discutindo profecias indígenas e transformação global como gente grande.

Texto de Daniel Pinchbeck, remixado por Plantando Consciência

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Sexo, Abundância e Sustentabilidade

por Marnia Robinson, em parceria com Gary Wilson. Publicado originalmente em inglês no site Reality Sandwich. Traduzido por Plantando Consciência.
Se você corrigir sua mente, o resto da sua vida vai entrar nos trilhos. Isto é porque a mente é o aspecto governante da vida humana. Elimine o lodo mental e a obscuridade; mantenha sua mente clara como cristal. Aquiete suas emoções e resida em serenidade.
— Hua Hu Ching (coleção de sabedoria Daoísta)

Está de saco cheio dos índices da Bolsa? Tente o Dao. Tradições esotéricas ensinam que nossos pensamentos moldam nossa experiência da realidade. No mundo de hoje, onde estruturas que antes pareciam sólidas como granito estão se desfazendo como gelo no calor, que habilidade poderia ser mais bem-vinda do que usar pensamentos conscientes para trazer abundância, sanidade e sustentabilidade, só pra variar um pouco?

Na minha experiência, o conceito de criação consciente é válido – com algumas ressalvas. Em primeiro lugar, a escolha mais significativa que eu posso fazer quanto a moldar minha realidade é se eu sigo meus impulsos ou desvio para buscar auto-equilíbrio e clareza de percepção. Em segundo, a maneira como eu administro minha energia sexual tem um papel insuspeito na minha abilidade em manter essa clareza de percepção. Terceiro, apesar de eu poder definitivamente usar meus pensamentos para melhorar minha própria experiência, ainda assim é necessário uma grande massa de pessoas para mudar o curso da nossa realidade coletiva.

Por quê eu não posso ter o que quero?

Se nossos pensamentos se manifestam no plano material, porque não conseguimos obter exatamente o que desejamos? Acredito que a resposta é sutil mas simples. Não são apenas os comandos conscientes que moldam nossa experiência. Poderosos sentimentos viscerais e as expectativas que eles disparam tem um papel ainda maior na constituição da nossa realidade.

Por exemplo, nós não estávamos visualizando em nossas mentes bolhas financeiras globais e colapso econômico. Então como conseguimos chegar a um resultado tão catastrófico? É um reflexo do nosso tumulto interno. A não ser que estejamos nos sentindo balanceados, seguros e inteiros, o que nós atraímos raramente cumpre com nossas expectativas. De fato, quanto mais erráticos, egoístas, ansiosos e impulsivos nos sentimos, mais caóticos são os resultados. Como iremos ver, esses sentimentos intensos também encontram paralelos com mudanças neuroquímicas que ocorrem em partes do cérebro comum a todos os mamíferos.

Pense no Aladim esfregando a lâmpada mágica, exceto que neste caso a lâmpada leva em consideração seu estado de espírito enquanto ele a esfrega. Suponha que ele esteja irritado e mal consigo mesmo. O que ele chama vai automaticamente incorporar esses elementos. Talvez ele clame febrilmente por “Ferrari, Ferrari, Ferrari”, mas a lâmpada materializa um lustroso, rápido e bravo camelo.

Uma vez que nós humanos estamos sempre usando nossas lâmpadas mágicas (conscientemente ou não), nós nos beneficiamos de táticas que nos permitem fazê-lo pelo bem de todos. Sábios já propuseram várias abordagens. Por exemplo, o místico hindu do século XIX Shantideva entendia a causa e efeito dos desejos, e portanto aconselhava altruísmo.

Toda a graça que o mundo contém vem de desejar felicidade aos outros. Toda a miséria que o mundo contém vem de desejar prazer a si mesmo.

Os budistas ensinam sua própria estratégia. Desejos e aversões criam sofrimento, então nós superamos o sofrimento ao mantermos um estado de espírito calmo, estático e atento. Ao examinarmos nossos pensamentos, nós gradualmente os impedimos de galopar em direções impulsivas e serem manifestos como prazeres de curta duração e frustração duradoura.

Outros místicos enfatizam a sabedoria de se alinhar nossas vontades com forças além da nossa visão de curto alcance. Cristãos buscam este fim com a oração “seja feita vossa vontade”. Daoístas memorizam técnicas múltiplas para se alinhar com o Dao (o rio de energia invisível que dá vida a toda criação). Exemplos incluem o feng-shui, o I-Ching (oráculo ancestral), ch’i kung, acupuntura e o cultivo de energia sexual balanceada.

A dádiva secreta do sexo

daoO primeiro livro daoísta que eu li sobre o cultivo de energia sexual tocou um sino na minha cabeça. Claro, havia a ênfase pouco prática de se evitar o orgasmo e se praticar amor de forma relaxada (o quê?), mas ao mesmo tempo, as descrições de copulação sem esforço soavam tão certas. Eu quis aprender mais.

O que eu aprendi não foi o que eu esperava aprender. Depois de muitas feridas e descobertas, eu entendi que os daoístas estavam certos. Sexo é um instrumento poderoso para nos centrar, balancear e alinhar com o fluxo harmônico da vida (no qual nossas vontades são realizadas sem esforço, em harmonia com todo o resto do  mundo).

Meu marido e eu estivemos experimentando com esta forma pacífica de se fazer amor por oito anos do nosso relacionamento. Ambos estão maravilhados com a harmonia entre nós, que é um mundo de distância dos dramas mal-resolvidos de nossos relacionamentos anteriores, e com a inesperada queda em frustração sexual. Nós também experimentamos uma melhoria profunda na saúde e um contínuo e surpreendente fluxo de abundância.

Nós ficamos nos perguntando se somos apenas extraordinariamente sortudos. A vida não é perfeita, claro, mas quando nos mantemos fiéis a esta prática, ela parece tão entusiasmante como descer uma corredeira praticando rafting. Nós lidamos com os obstáculos como praticantes experientes do esporte, rimos um bocado, e nos sentimos bem quanto às nossas conquistas. Nossas necessidades são menores, até imprevistos parecem dar certo no final, e nós também aproveitamos os momentos em que nos deixamos levar pela corrente enquanto relaxamos.

Após um orgasmo inadvertido, no entanto, nós geralmente temos a sensação de que nosso rafting empacou em rochas escondidas, ou que não importa o quanto nós rememos, somos desviados do canal principal para águas paradas, ou até que viramos o bote na correnteza. Eventos rotineiros se parecem mais com calmarias do que com oportunidades para se reenergizar. Brigas surgem, e a haromina entre nós fica um pouco comprometida.

Veja bem, estas impressões diversas nunca parecem ter uma conexão com a nossa vida sexual, mas após anos de experiências, a relação é evidente. Entrar em alinhamento com o Dao parece ser uma função de equilíbrio interno, o oposto do estímulo intenso seguido de um vagaroso retorno ao balanceamento (mais sobre isto em um instante).

Para entendermos nossos resultados, ajuda começar de onde os daoístas começaram. Sexo pode ser usado de duas formas diferentes: para prazer imediato e fertilização ou para criar profundos e permanentes sentimentos de totalidade e serenidade. Um termo para esta segunda abordagem é “cultivo angelical a dois”.

“No que o ato sexual é feito sem esforço, o cultivo angelical (também chamado de “o tai chi do intercurso sexual”) é calmo, relaxado, quieto, natural. Enquanto o ato une órgão sexual com órgão sexual, o cultivo angelical une espírito com espírito, mente com mente, e todas as células do corpo com todas as células do outro corpo. Culminando não na dissolução, mas na integração, é uma oportunidade para um homem e uma mulher se transformarem mutuamente e erguer um ao outro a um reino de êxtase e totalidade.” [i]

Imagine as maravlhas que nós humanos poderíamos criar se a maioria estivesse neste estado de espírito tranquilo e completo? Por outro lado, note como esta descrição difere da maioria das receitas para o tantra sexual (ou até de ensinamentos daoístas modernos). Com algumas excessões [ii], o tantra tende a empregar o sexo como uma droga potente, uma forma de se alcançar um estado alterado intenso antes do orgasmo.

O ciclo escondido da paixão

Apesar de seu prazer glorioso, o orgasmo atiça uma turbulência interna, sem nosso conhecimento. Como explica um texto daoísta de esinamentos ancestrais, sexo ordinário coloca toda ênfase nos órgãos sexuais, e qualquer energia física é acumulada e subitamente descarregada. As energias sutis também são dissipadas e desordenadas. “é um grande salto pra trás” [iii]

Uau! Orgasmo causa problemas? Esta questão me atingiu de forma bizarra quando a ouvi pela primeira vez, especialmente porque eu a li em um livro escrito por homens [iv]. Desde então eu aprendi que novos amantes sempre reagem como eu reagi, porque para eles uma dose temporária de química de lua-de-mel mascara a evidência das mudanças mais sutis e tremulantes que se seguem ao orgasmo. De qualquer forma, pesquisas recentes começam a confirmar que de fato o orgasmo dissipa e desordena nossa energia sutil – porque ele é o pico de um ciclo mais longo [v].

No fundo de uma parte primitiva do cérebro conhecida como circuito de recompensas, o orgasmo se iguala com o poderoso efeito de um neuroquímico chamado dopamina. É o neuroquímico do “eu tenho que ter isto”. Ela leva os mamíferos a fazer coisas que prolongavam a sobrevivência de seus ancestrais, mesmo que essas coisas não sejam dos melhores interesses para eles mesmos hoje. No caso da humanidade, essas coisas incluem a tendência em se saciar com alimentos altamente calóricos, tomar riscos com pouca atenção para as conseqüências a longo prazo e, acima de tudo, gratificar nosso desejo sexual. Em outras palavras, não é função desses impulsos primitivos nos direcionar a uma harmonia duradoura, felicidade, ou elevada consicência espiritual. Não através da abundância  e sustentabilidade. Droga!

Quando a dopamina explode ao longo do ato sexual, nós nos sentimos tão invencíveis quanto os especuladores de fundos de risco ilimitados por regulamentações, visão ou preocupação com os outros. De fato, um cientista holandês reportou que imagens escaneadas dos cérebros de pessoas tendo orgasmos lembram aquelas de pessoas injetando heroína [vi]. De qualquer forma, assim como um barato de droga, esta infusão temporária de neuroquímicos do prazer no clímax não perdura. A dopamina cai após o orgasmo, e outras mudanças neuroquímicas podem fazer os níveis da mesma ricochetearem por dias.

Sem a dopamina em seus níveis ideais durante o período de recuperação, nossos sentimentos e até nossa percepção de mundo podem vacilar. Num experimento recente, cobaias cujo nível de dopamina era artificialmente diminuído tiveram dificuldade em resistir a recompensas imediatas, apesar de conseqüências negativas destas a longo prazo [vii].

Essa montanha-russa neuroquímica (ou “ciclo da paixão”) tipicamente cria turbulência desnecessária por até duas semanas – apesar de a maioria de nós não ligar os pontos com o sexo que a engatilhou. Se tanto, nós sentimos que nós, ou mais provavelmente nossos parceiros, parece irritadiço, muito sensível, defensivo, imperdoável, apático, sem amor, hiperativo, pegajoso ou algo que o valha.

Geralmente nós temos a sensação que algo não está certo. Algo está faltando (dopamina). Talvez estejamos entediados. Nós definitivamente sentimos que nossos desejos não estão sendo realizados. Infelizmente, esses sentimentos podem paradoxalmente aumentar a frustração sexual ao mesmo tempo em que nos deixam menos entusiasmados com a proximidade emocional. Quando a dopamina cai, um amante pode subitamente parecer como pizza fria, nos fazendo especular se escolhemos a pessoa errada. Esta “programação mamífera” nos impele a novos interesses sexuais (que sempre oferecem uma carga alta de dopamina através da antecipação). No entanto, seres de aglomeracão em pares como nós tendem a se sentir como grandes perdedores quando nos afastamos da nossa melhor fonte de sentimentos de totalidade e equilíbrio: o contato afetivo com um parceiro próximo e confiável.

Em qualquer situação, quanto mais baixo descemos (ou seja, quanto mais alto é o barato inicial), mais isto tende a prejudicar nossa concentração e nos deixar agitados. Nós ficamos prontos pra qualquer possibilidade de alívio, que é qualquer coisa que eleve nossa carga de dopamina e nos faça sentir bem de novo.

Pra quê esperar no desconforto até que possamos voltar ao equilíbrio naturalmente? Se apenas nos arriscarmos um pouco, ou procurarmos um barato (ou um parceiro típico de um romance literário), nossa dopamina irá instantaneamente saltar acima dos níveis normais e nos sentiremos como o Superman novamente. É claro que um pico de dopamina também tende a nos fazer auto-focados e determinados em encontrar nossa cura de escolha. Isto pode nos fazer agir de formas que nós nem sequer consideraríamos se estivéssemos em equilíbrio.

Então é para isto que nós inconscientemente nos treinamos quando pulamos da cobertura pro porão e de volta pra cobertura, enquanto perdemos contato com a vida no meio dos dois pontos. Pior ainda, estímulo em excesso acaba nos dessensibilizando. Nós obtemos cada vez menos recompensa pelo nosso investimento. Precisamos buscar mais romance, ou no caso mais extremo, alívio. Seria esta última crise financeira um sinal de que a humanidade atingiu um ponto limite onde as sensações prazerosas dos baratos não mais mascaram os baixos que elas inevitavelmente produzem? Pense em bolhas e em bolhas estourando.

Como veremos em um instante, sexo poderia ajudar a sustentar equilíbrio interno. Ainda assim, o típico ciclo da paixão é um exemplo de como a conexão corpo-mente pode nos colocar num curso errante de altos e baixos  quando os instintos nos guiam sozinhos. O clímax inocentemente muda nossa neuroquímica, nossos sentimentos flutuam, nossas percepções temporariamente ficam embaçadas, e até mesmo nossos valores e prioridades podem titubear – tudo isso sem nossa consciência. O ciclo de paixão embutido no sexo instintivamente procriador pode então fazer emergir não apenas a boa sensação do orgasmo, mas também os extremos emocionais, raiva e comportamentos impulsivos e auto-focados, sobre os quais os sábios nos alertam.

Sexo: problema e solução

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Sábios daoístas ancestrais ensinaram que o sexo é como fogo ou água. Fogo e água, eles notaram, podem ajudar um homem… ou matá-lo. Os daoístas dominaram uma forma de usar o sexo sem oscilações de humor. Eles observaram que o intercurso sexual em si é benéfico para ambos os parceiros, uma ferramenta eficiente para criar sentimentos profundos de totalidade permanente. De fato, pesquisa recente embasa a idéia de que contato afetivo  entre parceiros reduz stress, acelera a recuperação, melhora a imunidade e fortalece vínculos emocionais [viii].

Ao se fazer amor sem gozos neuroquímicos intensos (orgasmo ou o quase-orgasmo), daoístas ancestrais não apenas escaparam dos baixos subsequentes, mas guardaram sentimentos paradisíacos de paz interna profunda. Seus manuais sexuais, como Secrets of the Jade Chamber  (“Segredos da Câmara de Jade”) e The Dangers and Benefits of Intercourse with Women (“Os Perigos e Benefícios do Intercurso com Mulheres”), na verdade se referiam ao fenômeno de homens e mulheres atingindo imortalidade juntos através da conservação de energia sexual.
Perigos e Benefícios diz que este estado é atingido através de uma combinação entre penetração profunda, excitação controlada e visualizações de energia se movendo pelo corpo [ix]. Exposition of Cultivating the True Essence (“Exposição do Cultivo à Essência Verdadeira”) explica que amantes podem apenas tocar este potencial escondido no sexo quando a instável energia sexual masculina: 1) é trazida à tona sem “explodir”, 2) recebe de bom grado a mais estável energia yin, e 3) funde-se a ela [x]

Qualquer que seja seu potencial final, o sexo é um dos mais acessíveis eixos para alternar nosso inconsciencte coletivo de imprudência e escassez para abundância e sustentabilidade. No presente quando fazemos amor nós inconscientemente entramos na montanha-russa de altos e baixos (sutis ou pronunciados). Com alguma prática, nós poderíamos estar usando o sexo para atravessar além da insatisfação auto-gerada que nos leva a nos agarrar a qualquer nova tentação. Com sentimentos estáveis de totalidade e paz interna, fica mais fácil fazer escolhas inspiradas que sirvam aos melhores interesses coletivos.

Aqueles nas futuras gerações que estudarem e praticarem a verdade destes ensinamentos serão abençoados. Eles irão adquirir a sutil luz da sabedoria, a poderosa espada da clareza que corta através de qualquer obstrução, e a pérola mística do entendimento que envolve todo o universo. Eles irão atingir o insight necessário para perceber a verdade integral do Dao. Seguindo esta verdade com sinceridade descarada, eles se tornarão o Dao: inteiros, corajosos, indestrutíveis, inomeáveis.[xi] – Laozi (Lao Tzu), mestre daoísta

[i] Hua Hu Ching, trans. Brian Walker, (HarperSanFrancisco: 1992): Section 69, p. 88.

[ii] Diana Richardson, The Heart of Tantric Sex, (Australia: O Books, 2003).

[iii] Hua Hu Ching: Section 69, p. 88.

[iv] Mantak Chia (and Michael Winn), Taoist Secrets of Love: Cultivating Male Sexual Energy (NY: Aurora Press, 1984).

[v] Marnia Robinson, Cupid’s Poisoned Arrow: From Habit to Harmony in Sexual Relationships (Berkeley: North Atlantic Books, 2009): chapter 5.

[vi] Gert Holstege, et al., “Brain Activation during Human Male Ejaculation,The Journal of Neuroscience, (October, 2003) 23(27): 9185-9193; and “Orgasm Akin to a Shot of Heroin.” Holstege’s comments in the Dutch press in 2003: http://www.reuniting.info/science/orgasm_akin_to_heroin_shot.

[vii] Lieuwe de Haan, et al, “Subjective Experiences During Dopamine Depletion,” Am J Psychiatry (September, 2005) 162:1755.

[viii] Robinson, Cupid’s Poisoned Arrow: chapters 7 and 8.

[ix] Douglas Wile, The Art of the Bedchamber (New York: State University of New York Press, 1992): 45, 48.

[x] Ibid: 8, 50.

[xi] Hua Hu Ching: Section 79, p. 103.

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Good-bye, GM!

O Adeus é pra GM, mas bem poderia ser para a overdose da cultura do carro e do petróleo no mundo todo:

“Escrevo na manhã que marca o fim da toda-poderosa General Motors. Quando chegar a noite, o Presidente dos Estados Unidos terá oficializado o ato: a General Motors, como conhecemos, terá chegado ao fim.
Estou sentado aqui na cidade natal da GM, em Flint, Michigan, rodeado por amigos e familiares cheios de ansiedade a respeito do futuro da GM e da cidade. 40% das casas e estabelecimentos comerciais estão abandonados por aqui. Imagine o que seria se você vivesse em uma cidade onde uma a cada duas casas estão vazias. Como você se sentiria?

É com triste ironia que a empresa que inventou a “obsolescência programada” – a decisão de construir carros que se destroem em poucos anos, assim o consumidor tem que comprar outro – tenha se tornado ela mesma obsoleta. Ela se recusou a construir os carros que o público queria, com baixo consumo de combustível, confortáveis e seguros. Ah, e que não caíssem aos pedaços depois de dois anos. A GM lutou aguerridamente contra todas as formas de regulação ambiental e de segurança. Seus executivos arrogantemente ignoraram os “inferiores” carros japoneses e alemães, carros que poderiam se tornar um padrão para os compradores de automóveis. A GM ainda lutou contra o trabalho sindicalizado, demitindo milhares de empregados apenas para “melhorar” sua produtividade a curto prazo.

No começo da década de 80, quando a GM estava obtendo lucros recordes, milhares de postos de trabalho foram movidos para o México e outros países, destruindo as vidas de dezenas de milhares de trabalhadores americanos. A estupidez dessa política foi que, ao eliminar a renda de tantas famílias americanas, eles eliminaram também uma parte dos compradores de carros. A História irá registrar esse momento da mesma maneira que registrou a Linha Maginot francesa, ou o envenenamento do sistema de abastecimento de água dos antigos romanos, que colocaram chumbo em seus aquedutos.

Pois estamos aqui no leito de morte da General Motors. O corpo ainda não está frio e eu (ouso dizer) estou adorando. Não se trata do prazer da vingança contra uma corporação que destruiu a minha cidade natal, trazendo miséria, desestruturação familiar, debilitação física e mental, alcoolismo e dependência por drogas para as pessoas que cresceram junto comigo. Também não sinto prazer sabendo que mais de 21 mil trabalhadores da GM serão informados que eles também perderam o emprego.

Mas você, eu e o resto dos EUA somos donos de uma montadora de carros! Eu sei, eu sei – quem no planeta Terra quer ser dono de uma empresa de carros? Quem entre nós quer ver 50 bilhões de dólares de impostos jogados no ralo para tentar salvar a GM? Vamos ser claros a respeito disso: a única forma de salvar a GM é matar a GM. Salvar a preciosa infra-estrutura industrial, no entanto, é outra conversa e deve ser prioridade máxima.

Se permitirmos o fechamento das fábricas, perceberemos que elas poderiam ter sido responsáveis pela construção dos sistemas de energia alternativos que hoje tanto precisamos. E quando nos dermos conta que a melhor forma de nos transportarmos é sobre bondes, trens-bala e ônibus limpos, como faremos para reconstruir essa infra-estrutura se deixamos morrer toda a nossa capacidade industrial e a mão-de-obra especializada?

Já que a GM será “reorganizada” pelo governo federal e pelo corte de falências, aqui vai uma sugestão ao Presidente Obama, para o bem dos trabalhadores, da GM, das comunidades e da nação. Vinte anos atrás eu fiz o filme “Roger & Eu”, onde tentava alertar as pessoas sobre o futuro da GM. Se as estruturas de poder e os comentaristas políticos tivessem ouvido, talvez boa parte do que está acontecendo agora pudesse ter sido evitada. Baseado nesse histórico, solicito que a seguinte idéia seja considerada:

1. Assim como o Presidente Roosevelt fez depois do ataque a Pearl Harbor, o Presidente (Obama) deve dizer à nação que estamos em guerra e que devemos imediatamente converter nossas fábricas de carros em indústrias de transporte coletivo e veículos que usem energia alternativa. Em 1942, depois de alguns meses, a GM interrompeu sua produção de automóveis e adaptou suas linhas de montagem para construir aviões, tanques e metralhadoras. Esta conversão não levou muito tempo. Todos apoiaram. E os nazistas foram derrotados. Estamos agora em um tipo diferente de guerra – uma guerra que nós travamos contra o ecossistema, conduzida pelos nossos líderes corporativos. Essa guerra tem duas frentes. Uma está em Detroit. Os produtos das fábricas da GM, Ford e Chrysler constituem hoje verdadeiras armas de destruição em massa, responsáveis pelas mudanças climáticas e pelo derretimento da calota polar. As coisas que chamamos de “carros” podem ser divertidas de dirigir, mas se assemelham a adagas espetadas no coração da Mãe Natureza. Continuar a construir essas “coisas” irá levar à ruína a nossa espécie e boa parte do planeta. A outra frente desta guerra está sendo bancada pela indústria do petróleo contra você e eu. Eles estão comprometidos a extrair todo o petróleo localizado debaixo da terra. Eles sabem que estão “chupando até o caroço”. E como os madeireiros que ficaram milionários no começo do século 20, eles não estão nem aí para as futuras gerações. Os barões do petróleo não estão contando ao público o que sabem ser verdade: que temos apenas mais algumas décadas de petróleo no planeta. À medida que esse dia se aproxima, é bom estar preparado para o surgimento de pessoas dispostas a matar e serem mortas por um litro de gasolina. Agora que o Presidente Obama tem o controle da GM, deve imediatamente converter suas fábricas para novos e necessários usos.
2. Não coloque mais US$30 bilhões nos cofres da GM para que ela continue a fabricar carros. Em vez disso, use este dinheiro para manter a força de trabalho empregada, assim eles poderão começar a construir os meios de transporte do século XXI.
3. Anuncie que teremos trens-bala cruzando o país em cinco anos. O Japão está celebrando o 45o aniversário do seu primeiro trem bala este ano. Agora eles já têm dezenas. A velocidade média: 265km/h. Média de atrasos nos trens: 30 segundos. Eles já têm esses trens há quase 5 décadas e nós não temos sequer um! O fato de já existir tecnologia capaz de nos transportar de Nova Iorque até Los Angeles em 17 horas de trem e que esta tecnologia não tenha sido usada é algo criminoso. Vamos contratar os desempregados para construir linhas de trem por todo o país. De Chicago até Detroit em menos de 2 horas. De Miami a Washington em menos de 7 horas. Denver a Dallas em 5h30. Isso pode ser feito agora.
4. Comece um programa para instalar linhas de bondes (veículos leves sobre trilhos) em todas as nossas cidades de tamanho médio. Construa esses trens nas fábricas da GM. E contrate mão-de-obra local para instalar e manter esse sistema funcionando.
5. Para as pessoas nas áreas rurais não servidas pelas linhas de bonde, faça com que as fábricas da GM construam ônibus energeticamente eficientes e limpos.
6. Por enquanto, algumas destas fábricas podem produzir carros híbridos ou elétricos (e suas baterias). Levará algum tempo para que as pessoas se acostumem às novas formas de se transportar, então se ainda teremos automóveis, que eles sejam melhores do que os atuais. Podemos começar a construir tudo isso nos próximos meses (não acredite em quem lhe disser que a adaptação das fábricas levará alguns anos – isso não é verdade)
7. Transforme algumas das fábricas abandonadas da GM em espaços para moinhos de vento, painéis solares e outras formas de energia alternativa. Precisamos de milhares de painéis solares imediatamente. E temos mão-de-obra capacitada a construí-los.
8. Dê incentivos fiscais àqueles que usem carros híbridos, ônibus ou trens. Também incentive os que convertem suas casas para usar energia alternativa.
9. Para ajudar a financiar este projeto, coloque US$ 2,00 de imposto em cada galão de gasolina. Isso irá fazer com que mais e mais pessoas convertam seus carros para modelos mais econômicos ou passem a usar as novas linhas de bondes que os antigos fabricantes de automóveis irão construir.
Bom, esse é um começo. Mas por favor, não salve a General Motors, já que uma versão reduzida da companhia não fará nada a não ser construir mais Chevys ou Cadillacs. Isso não é uma solução de longo prazo.
Cem anos atrás, os fundadores da General Motors convenceram o mundo a desistir dos cavalos e carroças por uma nova forma de locomoção. Agora é hora de dizermos adeus ao motor a combustão. Parece que ele nos serviu bem durante algum tempo. Nós aproveitamos restaurantes drive-thru. Nós fizemos sexo no banco da frente – e no de trás também. Nós assistimos filmes em cinemas drive-in, fomos à corridas de Nascar ao redor do país e vimos o Oceano Pacífico pela primeira vez através da janela de um carro na Highway 1. E agora isso chegou ao fim. É um novo dia e um novo século. O Presidente – e os sindicatos dos trabalhadores da indústria automobilística – devem aproveitar esse momento para fazer uma bela limonada com este limão amargo e triste.

Ontem, a última sobrevivente do Titanic morreu. Ela escapou da morte certa naquela noite e viveu por mais 97 anos. Nós podemos sobreviver ao nosso Titanic em todas as “Flint – Michigans” deste país. 60% da General Motors é nossa. E eu acho que nós podemos fazer um trabalho melhor.
Yours,
Michael Moore”

Para saber mais:

www.michaelmoore.com

Quem Matou o carro elétrico?

Livro “O apocalipse motorizado”

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