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Dia mundial do meio ambiente

Como ela não fala a nossa língua, mas a língua dela própria, na própria cadência, compartilhamos hoje este vídeo em homenagem a Gaia

O vídeo é trailer do capítulo 9 da Série VIDA, da BBC

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O forte e o apache


Copio descaradamente e assumidamente um texto inspirador de autoria do talentoso Luiz Bolognesi, roteirista de filmes de primeira como “O Bicho de Sete Cabeças”. No original estava “E ganhou a máquina de Guerra” publicado aqui

Espero que no futuro possamos tratar tudo isso como uma “curiosidade” de uma cultura bélica atrasada e ignorante, que felizmente passou. Mas com a questão indígena cada vez mais forte, em nosso país e no mundo, nada mais atual. Ou você tem alguma dúvida de que o filme Avatar retrata um paralelo perfeito de Belo Monte e as reservas naturais do Xingu ou do que já aconteceu na descoberta conquista da América
PS – Eu li o original em 2010, e em 2012 ele continua fazendo sentido. Vamos ver até quando.

Ao contrário do que parece à primeira vista, a polarização entre Avatar e Guerra ao Terror não traduz uma disputa entre cinema industrial e cinema independente, nem batalha entre homem e mulher. O que estava em jogo e continua é o confronto entre um filme contra a máquina de guerra e a economia que a alimenta e outro absolutamente a favor, com estratégias subliminares a serviço da velha apologia à cavalaria.

Avatar foi acusado nos Estados Unidos de ser propaganda de esquerda. E é. Por isso é interessante. No filme, repleto de clichês, os vilões são o general, o exército americano e as companhias exploradoras de minério do subsolo. Os heróis são o “povo da floresta”. A certa altura, eles reúnem todos os ”clãs” para enfrentar o invasor americano. Clãs? Invasor americano? Que passa? É difícil entender como a indústria de Hollywood conseguiu produzir um filme tão na contramão dos interesses do país e transformá-lo no filme mais visto na história do cinema. Esse fato derruba qualquer teoria conspiratória, derruba décadas de pensamento de esquerda segundo a qual a indústria de Hollywood está sempre a serviço da ideologia do fast-food e da economia que avança com mísseis, aviões e tanques. Como explicar esse fenômeno tão contraditório?

Brechas, lacunas na história. Ou como diria Foucault, a história é feita de acasos e não de uma continuidade lógica cartesiana. A necessidade do grande lucro, da grande bilheteria mundial produziu uma antítese sem precedentes chamada James Cameron. O homem de Titanic tinha carta branca. Pelas regras da cultura do “ao vencedor, as batatas”, Cameron podia tudo porque era capaz de fazer explodir as bilheterias mundiais.

Mas calma lá, cara pálida, uma incoerência desse tamanho, você acredita que passaria despercebida? O general americano, vilão? As companhias americanas que extraem minério debaixo das florestas tratadas como o império das sombras? Alto lá. Devagar com o andor, mister Cameron.

Aí, alguém chegou correndo com um DVD na mão. Vocês viram esse filme da ex-mulher do Cameron? Não, ninguém viu? Então vejam. É sensacional. Ao contrário de Avatar, nesse DVD aqui o soldado americano é o herói. Aliás, mais que herói, ele é um santo que arrisca sua própria vida para salvar iraquianos inocentes. Jura? Temos esse filme aí? Sim, o pitbull americano é humanizado e glamourizado, mais que isso, ele é santificado.

Então há tempo.

Guerra ao Terror estreou no Festival de Veneza há dois anos. Por acaso eu estava lá como roteirista de Terra Vermelha, do diretor italiano Marco Bechis, e fui testemunha ocular da história. O filme da diretora Kathryn Bigelow foi absolutamente desprezado pelos jornalistas e pelo público. E seguiu assim. Indo direto ao DVD, em muitos países, sem passar pelas salas de cinema. Até ser resgatado pela indústria americana como um trunfo necessário para contestar Avatar e reverenciar a máquina de guerra e o sacrifício de tantos jovens americanos mortos e decepados em campo de batalha.

Trabalhando num projeto para o mesmo diretor italiano, que pretendia fazer um filme sobre os viciados em guerra no Iraque, eu pesquisei o assunto durante alguns meses. Tudo muito parecido com o filme de Bigelow, exceto por um detalhe. O detalhe é que os soldados americanos que se tornam dependentes da adrenalina da guerra tornam-se assassinos compulsórios e não salvadores de vidas. O sintoma dos viciados em guerra é atirar em qualquer coisa que se mexa, tratar a realidade como videogame e lidar com armas e balas de verdade como um brinquedo erótico. Se Guerra ao Terror representasse nas telas essa dimensão da realidade, seria um filme sensacional, mas não teria levado o Oscar, podem apostar.

Guerra ao Terror venceu o Oscar porque, como nos filmes de forte apache, transforma os assassinos que dizimam outras culturas em heróis santificados. A cena extremamente longa e minimalista em que os jovens soldados americanos em situação desprivilegiada combatem no deserto os iraquianos é o que, se não uma cena clássica de caubóis cercados por apaches? Sem nenhuma surpresa para filmes desse gênero, os garotos americanos vencem, matam os iraquianos sem rosto, como os caubóis faziam com os apaches no velho-oeste. A cena do garoto iraquiano morto, com uma bomba colocada dentro do corpo por impiedosos iraquianos, que literalmente matam criancinhas, tem a sutileza de um elefante numa loja de cristais. Propaganda baratíssima da máquina de guerra.

No filme de Cameron, os na”vi azuis podem ser os apaches que derrotam o general e expulsam a cavalaria americana. Mas isso é apenas uma ficção. Na vida real do Oscar, a cavalaria precisa continuar massacrando os apaches.

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O homem que plantava árvores

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Seu Chico quer traineira. E agora?

Meus últimos dez dias passei sem energia elétrica, sem TV, sem internet ou telefone celular. Meu desejo urbano mais profundo se materializou numa latinha de coca-cola. Ou duas, ao longo dos dez dias. Passei a “rapa no tacho” da minha conta bancária e fui fugir um pouco do ser que construí para se encontrar comigo mesmo. Aquela conexão essencial que só se consegue quando estamos entre os iguais, e dormindo sob um céu estrelado. No dia a dia, com tantas distrações, é bem fácil esquecermos do essencial.

Pesquei pra caramba, estava num paraíso da natureza, encontro das águas salgadas e doces, areias e pedras, mata virgem para todos os lados e um céu estrelado sem igual. Tínhamos levado comida suficiente, e um desejo de passarmos um carnaval “light”, mas não careta. Com a intenção de deixar uma pequena pegada ecológica, uso racional dos recursos, focando na felicidade e integração com a natureza. E assim se fez. Exceto, talvez, pela “sede” de pesca que eu tava. Explico, faz pouco tempo iniciei em um esporte altamente desafiador e recompensante, mas que só pode ser  praticado em lugares muito especiais. A pesca submarina só se faz em condições raras: tem que ter água clara, e claro, tem que ter peixe. Unindo o útil ao agradável, eu era responsável por prover a “proteína” da alimentação. Naquele paraíso isolado, fiquei igualzinho a criança com brinquedo novo, não conseguia pensar em mais nada…

Até que um belo dia, tendo expandido a viagem em 3 dias não planejados, me dei conta que o alimento estava literalmente acabando. Enquanto haviam outros turistas na vila, beleza, o cardápio do Bar do Seu Chico era farto: café da manhã, misto quente, pastel, PF, porção de lula batata frita e o escambau. Da noite pro dia, foi tudo apagado e apenas se lia: pastel de queijo.

A não, até ontem eu tinha TUDO, e agora só posso comer pastel de queijo? Se não fosse isso, seria batata com arroz. “Que bosta que é viver a privação”, pensei comigo. (Que privação mais urbanóide, pensei depois). Unindo o útil ao agradável, sem nem pestanejar muito, arregacei a manga e fui pescar. Acontece que também no mar, a fartura dos primeiros dias havia minguado. Entrou uma corrente fria danada, que espantou a maioria dos peixes “bons”. E agora? Muito esforço e pouco retorno, mas atuando bravamente, não deixei ninguém passando fome, ou vivendo só à base de pastel de queijo.

Conversando com seu Chico, o dono do bar, o chefe da vila, o mais antigo pescador da região, achamos um ponto em comum para a prosa de pescador: “não tem mais tanto peixe como antigamente”. O que senti na pele, em uma semana, seu Chico sente ao longo dos anos. Sua pesca tradicional “de cerco” está com os dias contados. Em grande parte por conta dos barcos que pegam o peixe muito antes dele adentrar a baía, não dando tempo para que os grandes cardumes encontrem as redes que estão preparadas esperando.

 

E aí, cansado de esperar pelo peixe que não vem, seu Chico agora quer traineira…  Isso é somente o simbolismo de algo muito ruim que está acontecendo mundo afora. Como os grandes peixes não estão mais abundantes, e dificilmente um grande cardume vai aparecer “de bandeja” em uma rede de cerco, os pescadores tradicionais se vem obrigado a literalmente perseguir os cardumes  com uma rede fininha chamada de “traineira”, de maneira que todo o peixe seja capturado e não tenha como fugir.

E a coisa vai ficar pior, seu Chico. O Brasil é um dos países onde a pesca ainda não se desenvolveu “de verdade” considerando o número de barcos pesqueiros (VIDEO http://www.youtube.com/watch?v=C3tCuheNOTA&feature=player_embedded), a tendência da pesca industrial, em oposição à pesca tradicional, está literalmente drenando os estoques mundiais de pescado. Este tipo de pesca é muito mais produtiva, fala-se em barcos (nvaios) capazes de carregar até 150 toneladas de peixes… mas também geram um desperdício infinitamente maior do que a pesca artesanal. O pescado, que naturalmente já tem uma grande perda, de cerca de 30% de partes não comestíveis, é ainda um tipo de carne muito sensível, que não resiste ao aumento de temperatura, e que deixa de ser saudável e saborosa em poucos dias. Ou seja, perde-se muito até que o filezinho de salmão para sashimi chegue ao seu prato.

Já que os grandes peixes comerciais começam a rarear, o foco agora é a sardinha. O problema é que a sardinha é um nó importantíssimo na cadeira alimentar dos 7 mares. Os cardumes de sardinha alimentam diversos outros cardumes de peixes. Se está faltando peixe, é porque já se pescou demais. Se aparentemente está sobrando sardinha, é por que não tem o predador, mas se pescarmos também demais a sardinha, para onde vamos?

Como consequência, está cada vez mais difícil de se tornar um pescador legalmente cadastrado na Europa. Os custos e as restrições vão às alturas, de maneiras que só as grandes corporações podem se dedicar à esta atividade. Como exemplo, o investimento para se ter um sonar para localização dos cardumes, equipamento eletrônico que se tornou praticamente indispensável seguindo a prática atual, pode facilmente passar dos R$200 mil reais.


Fonte: http://www.guardian.co.uk/news/datablog/2011/jun/03/fish-stocks-information-beautiful

Os números não mentem, nos últimos 25 anos a quantidade de sardinhas pescadas no Brasil caiu para cerca de 20% do que era na farta década de 70. Cerca de 85% das áreas pescáveis dos oceanos estão classificadas como totalmente exploradas, superexploradas ou até mesmo esgotadas. Isto é um fato. Cruze esta informação com o fato de que o Banco Mundial anuncia que vai “salvar os oceanos” com R$300 milhões de dólares , falando-se de um mercado pesqueiro de dezenas de bilhões de dólares. Minha leitura desta notícia é dúbia. Claro que é positivo que se tenha mais dinheiro disponível para preservação da natureza, afinal, as atividades dependem de recursos, pouco se faz sem dinheiro. Mas acontece que precisamos é de atitudes concretas, diminuição de captura, restrição de espécies, planejamentos dos estoques marinhos, e muita reza, e crença na força regenerativa da mãe natureza. O impacto vai ser necessariamente menos peixe na mesa, e uma mesa menos farta. Em todos os aspectos, é hora de fazermos algum sacrifício para um amanhã melhor.

“Quando a última árvore for cortada, quando o último rio for poluído, quando o último peixe for pescado, aí sim eles verão que dinheiro não se come…”

 

Para saber mais: Quais peixes deve-se pescar (e consumir?)

http://www.informationisbeautiful.net/2011/which-fish-are-okay-to-eat/

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A história da crise

Dos mesmos produtores do famosíssimo “A história das coisas“, e das sequências sobre a água engarrafada, credito de carbono, eletronicos etc, foi lançado hoje “The Story of Broke”. Por enquanto apenas em inglês

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Pare Belo Monte

Hoje, 17 de outubro de 2011, após o voto da relatora Selene Almeida a favor da interrupção das obras da construção da hidrelétrica de Belo Monte, um desembargador de sobrenome Deus (ironia?) “pediu vista”, e a justiça, mais uma vez, parou. Tem coisas que são de difícil compreensão nesse país. Pra entender melhor a polêmica sobre a obra, enquanto o processo fica parado cerca de 15 dias (segundo os otimistas) acompanhe a aulinha resumo abaixo, feita pela Procuradoria da República no Pará.

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Reflexão sobre o belo monte

Em tempos em que querem a todo custo acelerar o já acelerador PAC e construir coisas como a usina hidrelétrica de Belo Monte, atropelando demais interesses e necessidades de todos os seres vivos, relembrar as palavras do Cacique Seattle ao presidente norte-americano em 1852 é uma prática meditativa profunda que pedimos ao maior número de pessoas que façam. Se possível, que isto chegue à mesa de nossa primeira presidenta e de seus demais colaboradores neste processo:

“O presidente em Washington manda dizer que deseja comprar a nossa terra. Mas como você pode comprar o céu, a terra? Essa idéia é estranha para nós. Todas as partes dessa terra são sagradas para meu povo. Cada agulha brilhante de pinheiro, cada grão de areia da praia, cada névoa na floresta escura, cada arbusto é sagrado na memória e na experiência do meu povo. Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs. O urso, o veado, a grande águia, são todos nossos irmãos. Cada reflexo na água cristalina dos lagos fala de acontecimentos e lembranças da vida de meu povo. O murmúrio das águas é a voz do pai do meu pai.  Os rios são nossos irmãos. Eles carregam nossas canoas e alimentam nossos filhos. Se vendermos nossa terra a vocês, lembrem-se de que o ar é precioso para nós e compartilha seu espírito com todas as formas de vida que ele sustenta. O vento, que deu a nosso avô seu primeiro alento recebe também seu último suspiro. Isto nós sabemos. A terra não pertence ao homem. O homem pertence à terra. Todas as coisas são interligadas, como o sangue que une a todos nós. O homem não tece a teia da vida. Ele é apenas um fio dela. O que quer que faça à teia, fará com si mesmo. O destino de vocês é um mistério para nós. O que acontecerá quando todos os búfalos forem abatidos? O que acontecerá quando os recantos sagrados da floresta estiverem tristes com a tristeza de tantos homens? Quando a vista das colinas verdejantes se macular com os fios que falam? Será o fim da vida e o começo da sobrevivência. Quando o último pele-vermelha sumir com a natureza selvagem e suas memórias forem apenas sombras de uma nuvem sobre a planície, essas praias e florestas ainda estarão aqui? Terá sobrado algum espírito do meu povo? Amamos essa terra como o recém nascido ama as batidas do coração de sua mãe. Então se vendermos a vocês nossa terra, amem-a como nós a amamos. Cuidem dela como nós cuidamos. Preservem na mente a memória da terra como ela estiver quando a receberem. Preservem a terra para as crianças e amem-na como Deus ama a todos nós. Uma coisa que sabemos é que só existe um Deus. Nenhum homem, branco ou vermelho, pode viver isolado. No final das contas somos todos irmãos.”

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