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A amazônia dentro de cada um de nós

Em meio ao bem vindo boom que ganhou a discussão sobre Belo Monte com a entrada do movimento gota dágua, estrelado por famosos atores da TV brasileira, o filme ao final deste post, produzido por Bernardo Loyola e Felipe Milanez, nos desperta de forma profunda para o que está acontecendo de verdade na Amazônia. Estamos vivenciando a última etapa de um processo que tem suas origens na chegada dos Europeus nestas terras. Um processo de “desenvolvimento” e “progresso” tocado, ontem e hoje, com muito trabalho escravo (1), assassinatos (2), genocídios de etnias e culturas (3) vistas pela arrogância ocidental, branca e patriarcal como primitivas e ultrapassadas e um constante biocídio de milhões de espécies vivas que co-habitam Gaia conosco (4) – vistas apenas como objetos, ou no melhor dos casos, alimentos – e outras tantas já extintas que poderiam ainda estar aqui. Não está em jogo apenas quantos KiloWatts de energia Belo Monte pode produzir ou quanto custariam investimentos similares em energia solar e eólica (5), quantos bilhões serão gastos (6), quanto o PIB vai crescer (7), quantos sairão da linha de pobreza nos próximos poucos anos (8), quantos índios de fato não sobreviverão aos impactos da obra (9) e quantos trabalhadores serão submetidos a péssimas condições de trabalho (10).

O que está em jogo é uma tensão fundamental em nossa psique. Como brasileiros, como seres humanos, como terráqueos, está em jogo se seremos capazes de deixar de lado esse modo de vida predatório – virulento, como bem definido no clássico Matrix – para nos tornarmos algo mais harmônico e integrado com a natureza, de onde viemos e que nos mantém vivos. Se seremos capazes de nos tornar uma espécie sábia e diferenciada das demais justamente por nossa consciência em potencial – e que portanto reconhece os limites do planeta e tem a humildade de não querer tudo para si. Mas tem a esperteza de aproveitar o melhor da tecnologia e desenvolver uma sociedade eficiente, que pouco desperdiça, que faz mais com menos. O que está em jogo é se continuaremos colonizando esta Terra com a mentalidade ocidental, materialista, patriarcal, industrial, bélica, poluidora, gananciosa e predominantemente monoteísta. Psique essa que agora sofre duramente as consequências iniciais, justamente no território de sua origem, dos limites impostos pelas atividades empreendidas por suas atitudes arrogantes de “donos do planeta”. Atitudes de uma pretenção irreal e (aparentemente) irrefreável de ter crescimento material infinito num planeta redondo. Ou se teremos a coragem de admitir erros do passado e pensar o futuro não com a consciência obnubilada, enxergando apenas alguns poucos anos de consequências imediatistas, mas pensando em décadas e gerações que estão por vir, com uma consciência que pode (e quer) florescer, se expandir, se diversificar. Está em jogo se seremos capazes de criar uma sociedade minimamente hábil para lidar com os complexos desafios de um mundo com estimados 9 bilhões de habitantes até 2050. Em termos profundos, está em jogo se seremos capazes de nos alinhar à vida, de sermos biofílicos, ou se continuaremos propagando este modo biocida de existência que, em última análise, levará nós mesmos à total ruína. O que está em jogo é se vamos nos despedir dos aspectos ruins da cultura do passado, que já não nos servem mais – como outrora serviram – e abraçar uma nova cultura que faz muita força para nascer. O que está acontecendo na Amazônia é, em termos simbólicos Campbellianos (11) e na prática real e cruel, o que foi brilhantemente narrado no recente épico-mitológico Avatar.

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

veja em tela cheia aqui

(1) O observador do Brasil no Atlântico Sul

(2) Assassinato de ativista no Pará

(3) Chacina contra os Guarani-Kaiowá

(4) Patrocinador e vítima da sexta grande extinção de formas de vida na Terra

(5) Indústria Brasileira reclama dos custos da energia

(6) O custo de Belo Monte

(7) Belo Monte sustentará alta do PIB

(8) Amazônia ainda vive na pobreza

(9) Indígenas não precisam ser consultados

(10) Cento e cinquenta funcionários demitidos após protestos em Belo Monte

(11) O Poder do Mito

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Mineralorgia

Por Fabrício Pamplona

Não é de se espantar que o mundo inteiro esteja comovido com o resgate dos 33 mineiros em uma mina de cobre no Chile. Em tempos como este, em que tudo vira “reality show” e que as agências de notícia estão ávidas por acontecimentos raros ou estranhos que possam gerar notícias de grande repercussão, a privação extrema a que foram submetidos estes seres humanos foi um prato cheio para literalmente dias de transmissão ininterrupta. Não é exagero afirmar que a mídia realiza uma busca ativa e intensa por catástrofes pelo mundo, sejam naturais ou produzidas pelo homem… vale inclusive pensar até que ponto nossa curiosidade por este tipo de fato acabe por salientar sua importância e, quem sabe, até influenciar a probabilidade de sua ocorrência.

Um exemplo comum do impacto que a curiosidade humana por eventos escatológicos tem em nossas vidas é o do acidente de trânsito, em especial os trágicos, muitas vezes com vítimas, que acaba gerando imensos engarrafamentos, não só pela obstrução da pista onde o acidente ocorreu, mas também na pista ao lado, por conta da fila de curiosos…. Quantos destes curiosos ajudam socorrer as vítimas ou fornecem alguma ajuda de qualquer tipo? Pouquíssimos. A reação destas pessoas é como a de alguém que assiste ao evento distante, como se estivesse passando na televisão. Pois bem, esta é uma via de mão dupla, se podemos assistir impassíveis à “tragédia da vida real” protegidos no interior dos nossos carros, assistindo atentos e comentando o que acontece através de uma lâmina de vidro; na televisão, os eventos vêm até nós, e podemos ficar ainda mais passivos e indiferentes ao sofrimento humano, “fazendo de conta” que aquele sofrimento se transforma em entretenimento. É a pura banalização da violência.

A audiência massiva e a popularidade de programas de TV com relatos cruéis e muitas vezes ao vivo de ações criminosas, de verdadeiras guerras civis entre policiais e bandidos parecem ser a revitalização dos filmes de Western. O problema é que os mocinhos e bandidos são de carne e osso. Entreter-se, obter prazer com o sofrimento alheio tem um nome: sadismo. E este valor, infelizmente, está sendo bombardeado televisivamente ao espectador que chega às 18-19h em casa depois de um dia inteiro de trabalho e liga a TV para “descansar” enquanto janta. Estamos cada vez mais expostos à violência em nosso dia a dia, e curiosamente, a sensação individual, quase consensual de que “o mundo é violento” é alimentada com muito mais freqüência pelos fatos noticiados do que pelos vividos em primeira pessoa. E é curioso como as pessoas não se contentam em assistir aos programas, mas multiplicam esta informação, repassando aos outros, acompanhando os desdobramentos e se engajando em longas discussões…  Ousaria dizer que esta ânsia por acompanhar as tragédias faz com que a pessoa confirme a sua expectativa sobre a desgraça “mundo afora”, mas por outro lado, traz um certo alívio por saber que não foi atingida. Entreter-se com o sofrimento alheio não é exclusividade dos dias atuais, pode-se facilmente relembrar os espetáculos “circenses” das batalhas de gladiadores ou da exposição de aberrações e deformidades humanas, como retratado no clássico “O Homem Elefante”, de David Lynch.

Sinto um triste pesar em perceber que o isolamento dos mineiros chilenos seja mais um episódio desta novela da vida real, que acompanhamos ao vivo de nossas casas, angustiados, mas com um pingo de alívio pela sensação de que a tragédia foi alheia. “Quanto mais longe de mim, melhor”. Este longo episódio de 69 dias e 33 protagonistas, como toda boa narrativa, teve a capacidade de entreter verdadeiras multidões ao longo do globo, foi traduzido para diversas línguas, envolveu e agitou o mundo das celebridades e felizmente teve um final feliz no último dia 13 de outubro, com o resgate indefectível de todos os participantes. Até parece mentira, todos foram resgatados com vida, o governo local realmente se envolveu, recebendo ajuda e tecnologia de diversos cantos do planeta,e o processo todo foi realizado praticamente 2 meses antes do previsto. Em tempos de reality show, aposto que houve até quem suspeitasse que tudo não passava de uma grande armação…

O “elenco” do espetáculo até recebeu certas regalias, como que em compensação pelo sofrimento que passaram: viagem com acompanhante para a Grécia, 10 mil dólares em dinheiro, festas, ingresso para duas partidas de futebol na Europa e até iPods do próprio Steve Jobs. Claro que tudo isso custa muito mais barato para a companhia mineradora do que pagar uma indenização milionária se os 33 mineiros resolvessem processá-la. Acredito que a maior compensação seja mesmo ter saído vivo desta experiência escatológica de ter sido “enterrado vivo”, como num roteiro de filme de terror. Já que o assunto veio à tona, vale a discussão. A platéia bateu palmas e se comoveu com toda a história dos mineiros, que foram salvos no final do filme, com direito ao “beijo da mocinha” e tudo mais.

Mas o que pensa esta mesma platéia sobre os milhares de mineiros que estão NESTE MOMENTO trabalhando em situações degradantes em minas de cobre, chumbo, estanho, ouro, níquel ou qualquer outro metal precioso pelo mundo? Que ânsia é esta por esburacar os morros e subsolos de nosso planeta à procura de materiais que brilham com o reflexo da luz do astro-rei? O que motivou verdadeiras corridas migratórias do ouro? (A nossa Serra Pelada é um excelente exemplo disso). Um indício da importância desta atividade pode ser vislumbrado na recente notícia de que os milionários se refugiaram na aquisição de minérios (neste caso o ouro) para evitar que suas fortunas fossem drenadas pelo fantasma de uma possível crise econômica global. Recentemente esta se tornou uma alternativa acessível mesmo a quem não se deu ao luxo de acumular tanto dinheiro assim no seu cofrinho, ou embaixo do colchão.

Os minérios transmitem a idéia de segurança, por serem considerados historicamente como lastros econômicos, apesar deste conceito ter caído por terra na sociedade atual, em que a quantidade de dinheiro (real ou virtual) é insustentavelmente balizada por índices econômicos flutuantes ao invés de bens físicos. Curioso não é? Os mineiros arriscam a própria segurança biológica, física, real, enfurnados em túneis de centenas de metros abaixo da superfície, para que a segurança monetária, intangível, virtual, dos magnatas esteja garantida. Mais um triste exemplo da inversão de valores da sociedade do capitalismo desenfreado.

A dedicação humana ao extrativismo mineral, a quantidade de recursos e energia envolvidos é descomunal, e freqüentemente se depara com “obstáculos” com os quais parece não se importar, como discutido recentemente no filme Avatar. Seria até legal se as máquinas destruidoras mostradas no Avatar ficassem parte somente da mente criativa de James Cameron, mas os aparelhos usados para perfurar a terra são realmente medonhos. Um exemplo pode ser visto abaixo, mas para quem se interessar, o site de tecnologia Gizmodo traz uma compilação de diversas máquinas mineradoras que parecem verdadeiras armas de destruição retiradas dos filmes futuristas de ficção científica.

A vida imita a ficção na mineralorgia. Acima, foto do filme Avatar, abaixo, a máquina de mineração russa considerada a maior do mundo.

As escavações de uma galeria de minas subterrâneas podem facilmente ocupar o espaço de uma cidade, onde pessoas passam diversos dias de suas vidas atrás dos grandes depósitos minerais. E não há dúvida de que a escassez destes recursos não renováveis fará a humanidade cavar a sua cova cada vez mais funda. É triste pensar que o delicado equilíbrio da mãe-natureza seja perturbado de maneira tão drástica e grosseira, por motivos espúrios e com tanto desperdício de recursos e energia humana. E, como bem exemplificado pelos 69 dias de escuridão dos mineiros chilenos, a custa de tanto sofrimento para o deleite de tão poucos.

“Tenho certeza de que muito do feio, do desarmônico e do deselegante de nossa cultura de consumo, de nosso urbanismo, de nosso estilo de vida é resultado da ignorância, de pouca ciência e de muito desejo de ter e pouca coragem de ser. Os incompetentes que me desculpem, mas beleza é um excelente indicador da eficiência e da inteligência dos processos que vivemos. É por isso que nos fins de semana corremos desesperados atrás da beleza da natureza. Porque lá resgatamos o fluxo harmônico, inteligente e preciso de nossas energias físicas, emocionais e mentais. Esse resgate explica o encantamento e a gratidão do humano com a beleza do mar, do pôr do sol, da flor, do rio, das pedras, dos peixes, da montanha, da neve, do luar. Está tudo aí, generosamente à nossa disposição” (Ricardo Guimarães).

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Tudo Azul

Manipulado pela mídia? Vá ao cinema

Obs. (05/04/2010): O texto abaixo foi publicado antes do assassinato do cartunista Glauco. No entanto o conteúdo não perde a atualidade. Basta substituir a parte que fala da matéria da Isto É pelas matérias de capa da Veja ou da Época para o caso, ou os programas da TV Record, que a conclusão é a mesma.

Uma foto de um homem de olhos fechados e cabeça para o alto, erguendo uma taça em tom de reverência cerimonial, semelhante à missa católica, com os dizeres em tom sensacionalista “Santo Daime Liberado” estampou a capa da revista Isto É do início do mês. Apesar do enfoque religioso, o fato de a ayahuasca conquistar a mídia soa, a princípio, como uma notícia potencialmente revolucionária! Mas a esperança de um jardineiro de consciência foi pisoteada pela obtusa ignorância do interesse político. Não era preciso nem ler a reportagem em questão pra saber qual o tom da matéria. Bastou acompanhar a chamada da capa: “O governo autoriza o uso do chá alucinógeno em rituais religiosos, mesmo com casos de morte após o seu consumo. A medida abre um novo e perigoso precedente na discussão sobre a legalização das drogas”.

Incluir uma bebida de origem indígena e uso milenar na categoria “droga” é, no mínimo, uma metonímia vulgar . Mesmo assim, vamos pressupor que o leitor desconheça o assunto, que de fato é delicado. A reportagem pouco esclarece do que se trata a ayahuasca, que é comumente confundida – inclusive pela própria reportagem – por “Santo Daime”. Santo Daime é uma religião cristã, que assim como a UDV (União do Vegetal) e outras, difere das religiões cristãs comuns por fazer o uso da bebida enteógena em suas cerimônias. Caso você esteja se perguntando o que quer dizer “enteógena”, eu explico: a palavra vem do grego (en- = dentro/interno, -theo- = deus/divindade, -genos = gerador),  e se traduz em algo como “manifestação interior do divino”.

Comumente tratada como “alucinógeno” (pela Isto É inclusive), um termo pejorativo e que não traduz os efeitos do enteógeno com clareza, a ayahuasca é uma bebida fermentada resultante da mistura de um cipó e um arbusto nativos da Amazônia, utilizada por incontáveis etnias indígenas por milênios em rituais de cura, divinação e comunicação com o mundo espiritual.

Para nós, além do uso religioso abordado pela reportagem, a bebida é tomada cerimonialmente para limpar os corpos físico e energético, abrir a cabeça para realidades ocultas e destravar um potencial outrora intangível. Seu potencial meditativo e medicinal é imensurável. Ao contrário da medicina profissional, que se vê como ciência, busca uma solução única e trata os pacientes como corpos, a medicina dos curandeiros é a arte de se tratar a alma, e procura entender a doença dentro de uma perspectiva holística: como resultado do desequilíbrio de um todo indivisível (físico, psicológico e psíquico), que não pode ser explicada ou tratada pelos componentes distintos separadamente. É aí que entra a ayahuasca, um produto complexo, designado para um tratamento complexo.

As campanhas de terror contra as drogas fazem parte de uma guerra que já foi perdida. Após mais de meio século de repressão sem resultados, já devia estar claro na cabeça de todo cidadão que a descriminalização é a única solução para o problema do tráfico e do crime. Mas, aparentemente, nem a adesão do ex-presidente FHC e sua Comissão Latino Americana sobre Drogas e Democracia conseguiu acordar o corpo editorial da revista para o mundo real. A Isto É (que na internet usa o subtítulo  “Independente” mas é apenas um dos braços políticos de uma corporação, diga-se de passagem) parece ter permanecido no século vinte, ou pior, nos tempos de ditadura militar, quando o desconhecido era visto como ameaça (e não como oportunidade) e a censura era adepta da filosofia do “atire antes, pergunte depois”.

Anacrônicos, ou manipuladores (ou ambos), jornalistas desta estirpe cometem um crime ao tratarem uma questão de consciência como questão de polícia. Ao invés de iluminarem uma questão social séria, trabalham para ocultar e banalizar a informação. Em contrapartida, o interesse científico, documental¹ e social pela ayahuasca no mundo desenvolvido não para de crescer.

Meanwhile, back in the jungle…

Vítimas de overdose. De drogas prescritas

No que diz respeito aos casos de morte supostamente provocados pela ingestão de ayahuasca, a própria reportagem admite que não foram comprovados. Um rapaz morreu afogado porque não sabia nadar. O outro sofria de uma doença degenerativa do coração. Casos como estes são comumente usados como bodes expiatórios quando se procura incriminar alguma substância. No entanto, todos os anos mais pessoas morrem da ingestão de drogas prescritas do que de drogas ilegais, numa proporção de 5 pra 1 (só nos EUA  são mais de 100 mil mortes e 1,5 milhão de hospitalizações por ano). E casos recentes como o do ator Heath Ledger, Michael Jackson e a atriz Brittany Murphy não entram em reportagens alarmistas, porque este tipo de notícia não interessa ao onipresente conglomerado farmacêutico. Assim como Marilyn Monroe, Jimi Hendrix, Bruce Lee, Keith Moon e Anna Nicole Smith, entre tantos, estas celebridades não morreram de overdose de drogas (no sentido pejorativo), mas morreram de overdose de remédios, disponíveis no balcão da farmácia mais próxima. Então quem é o vilão? Uma dúzia de substâncias listadas pela FDA, ou o desequilíbrio psíquico-físico-psicológico que leva pessoas a buscarem a solução de seus problemas em dosagens extremas de “pílulas da felicidade” ou qualquer outro produto em excesso (álcool, açúcar, gordura, tabaco, processados… faça a sua escolha)?

O que deve ser considerado em relação à ayahuasca é que de fato a bebida tem efeitos fortes sob o corpo (provoca vômitos e diarréias – como formas de se expelir a doença ou problema tratado), e pode provocar efeitos colaterais ao ser misturada com drogas farmacológicas, principalmente antidepressivos, mas também tranquilizantes, antihistamínicos, anfetaminas etc. Além de não ser exatamente o tipo de droga recreativa para um adolescente. A ayahuasca é uma medicina milenar e só deve ser ingerida sob tutela de um xamã, curandeiro ou guia espiritual.

Mas o governo deu um passo adiante. Então estamos avançando no final das contas. Resta a pergunta: quem lê esta revista afinal? Mais do que isso: quem a leva a sério? Talvez alguns milhares de pessoas. Mas é uma porcentagem ridícula se compararmos com a quantidade de pessoas, não apenas no Brasil, mas no mundo todo, que assistiram ou irão assistir ao filme Avatar.

Musa sagrada

Se você ainda não assistiu Avatar, você deve estar em outro planeta. O longa em 3D que levou 14 anos pra ficar pronto é mais do que “entretenimento de primeira”, ou o novo recorde de bilheteria de todos os tempos. É uma revolução na consciência, um manifesto tão anti-tecnológico e anti-civilizatório quanto os livros do anarquista John Zerzan (entrevistados no filme Surplus, disponível no nosso site), tão psicodélico quanto as dissertações de Terence Mckenna, e, sim, glorificando a visão de mundo indígena e xamânica acima de tudo. O que nos traz de volta à ayahuasca, a grande vilã da revista Isto É.

Fico imaginando o jornalista que assinou a reportagem, que obviamente nunca experimentou a bebida, numa sala de cinema Imax, completamente absorvido pela experiência psicodélica que o filme de Cameron proporciona, sem perceber que a “árvore dos espíritos” que conecta o povo Na’vi com Eywa, a sabedoria dos ancestrais – e representa o núcleo de uma floresta que “tem mais conexões que o cérebro humano” (frase da cientista botânica interpretada por Sigourney Weaver, mas que bem poderia ser atribuída a McKenna) -, trata-se de uma analogia com o “cipó dos espíritos” que ele acaba de condenar em público. Outra personagem do reino vegetal no filme, a gigantesca árvore que serve de lar para o povo de pele azul, tem em seu centro oco uma estrutura de raízes que sobe em espiral, como uma escada, em forma de hélice dupla, o formato do DNA e – pasmem – também o formato do cipó mariri, uma das metades que compõe a temida bebida “alucinógena” (ainda sobre o DNA, Francis Crick, Prêmio Nobel e descobridor do “segredo da vida”, era usuário assumido de LSD para “pensar criativamente”. Kary Mullis, Nobel de Química em 1993 por inventar o PCR, o método mais comum de se detectar e trabalhar o DNA, coroou a questão: “Se eu teria inventado o PCR se não tivesse tomado LSD? Duvido.“).

De qualquer forma, como diz o jornalista israelense Ido Hartogsohn num ótimo artigo sobre o filme (em inglês), “os blockbusters e filmes de ficção científica funcionam como uma sombra jungiana de nossa visão racional e materialista da realidade” (Jung alertava que o mundo moderno conta em demasiado com a ciência natural e o positivismo lógico, e que poderia se beneficiar ao integrar espiritualidade e apreciação de domínios inconscientes). Por esta perspectiva, o texto terrorista, repleto de positivismo lógico simplista e pseudo-ciência cartesiana como “atua nos sistemas cerebrais reguladores da produção e absorção, pelos neurônios, de serotonina, dopamina e noradrenalina” (tentando colocar o mundo numa caixinha, ou reduzir as cores a uma lógica em preto e branco) serve apenas como um retrato de que ainda temos um longo caminho a percorrer para evoluir o nível do debate científico na mídia deste país.

trecho de obra do pintor ayahuasqueiro Pablo Amaringo e o mundo bioluminescente de Avatar

Enquanto isso, Cameron conquista o mundo. O diretor disse em entrevista que queria fazer um novo Guerra nas Estrelas. Mas pouca gente captou a mensagem nas entrelinhas. Ele não queria apenas produzir um clássico universal de ficção científica, ou um blockbuster lendário. Era mais do que isso. Era provocar uma revolução de paradigmas pelo inconsciente. A mística que se forma em torno destes filmes não gira apenas em sua eficiência como entretenimento, mas por serem veículos de expressão dos nossos “sombras jungianas”, abusando de referências culturais e arquétipos do mito primordial (“Os mitos estão perto do inconsciente coletivo e por isso são infinitos na sua revelação” – Joseph Campbell), além de interesses contemporâneos, como o movimento ecológico, a guerra pelo petróleo, o poder das grandes corporações etc.

A “força” dos filmes de George Lucas não é muito diferente de Eywa, que não é muito diferente da visão indígena sobre a natureza. E o fato do mestre jedi se chamar Yoda, que lembra Yoga, também não é coincidência. Assim como o fato de os Na’vi terem uma feição humana-felina (os gatos são considerados animais altamente espirituais) e pele azul (já ouviu falar nas crianças índigo?), também não ser à toa. Apesar de supostamente terem sido inspiradas em montanhas da província de Hunan, na China, para quem já foi à cidade sagrada de Machu Picchu e subiu a montanha de madrugada, antes do sol nascer (prática comum entre mochileiros), sabe que a visão grandiosa que se tem lá de cima, com os picos ao redor emergindo por cima das nuvens e da neblina da manhã, lembra muito as montanhas flutuantes de Avatar. Realidade e ficção se misturam.

o cipó Banisteriopsis Caapi e a casa-árvore dos Na'vi, cujo interior se entrelaça em formato de hélice dupla

O pressuposto básico do filme, o de se poder migrar entre realidades distintas, é lugar comum entre adeptos do uso de enteógenos (o túnel luminoso psicodélico que leva o personagem de Jake Sully ao corpo de seu Avatar ilustra esta passagem). Parafraseando uma entrevistada do filme Vine of the Souls, de Richard Meech (ainda em produção), “Uma coisa é intelectualizar algo. Outra completamente diferente é tocá-lo, e experimentar outras energias maiores que são inteligentes”. O coração espiritual da história de Avatar está na relação dos nativos com uma planta/árvore sagrada, que representa Eywa, a entidade mística inteligente, divina, ou “uma rede de energia que flui por todos os seres vivos”. Eywa. Aya. Gaia.

Ayahuasca.

Documentários de interesse sobre o tema:

DMT – The Spirit Molecule, de Mitch Schultz e Rick Strassman, 2010 (em produção),

A Perfect Pill, de Oliver Hockenhull e Mark Archbar (“A Corporação”), 2010 (em produção),

Vine of the Soul, de Richard Meech, 2010 (em produção),

Manifesting the Mind, de Andrew Rutajit, 2009,

A Inquisição farmacrática, de Jan Irvin e Andrew Rutajit, 2007,

Xamãs da Amazônia, de Dean Jefferys, 2002,

Outros Mundos, de Jan Kounen, 2000.

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