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Setenta Anos

Hoje é um dia muito especial para a ciência. Faz 70 anos que Albert Hofmann, químico suíço, ingeriu voluntariamente uma minúscula dose de LSD (em 19 de abril de 1943), uma molécula que havia inventado 4 anos antes (16 de novembro de 1938) e acidentalmente ingerido 3 dias antes (16 de abril de 1943). Os efeitos o surpreenderam tanto que decidiu testar de novo em si mesmo para confirmar se uma substância química, em doses minúsculas, poderia afetar a mente humana de tal forma a alterar por completo a percepção do que é real. Albert ingeriu apenas 250 microgramas, que no caso do LSD é uma dose forte. Mas pra se ter idéia, a aspirina faz efeito em doses ao redor de 300 mil microgramas.

Carinhosamente conhecido entre os aficcionados como dia da bicicleta, o 19 de abril serve como bom marco histórico do início da Ciência Psicodélica, um ramo da psicofarmacologia extremamente promissor, mas negligenciado e até mesmo demonizado. Verdade seja dita, a mescalina, princípio ativo dos cactos Peyote (Peyotl no original Nahuatl, a língua Azteca) e San Pedro, era conhecida há muito mais tempo, tendo os primeiros relatos ocidentais sobre o fascinante cacto Peyote aparecido ainda no século XIX, com a mescalina tendo sido isolada por Arthur Heffter ainda em 1894, sendo que ele próprio experimentou o alcalóide puro em 1897.

Mas com a turbulência cultural que viria a ocorrer nos anos 60 nos EUA, que atrelou a mescalina e principalmente o LSD à revolução cultural, aos protestos anti-guerra do Vietnam, aos direitos civis, igualdade racial, liberdade sexual e afins, o LSD foi demonizado por uma série absurda de acusações e falsidades que fizeram sua imagem, até os dias de hoje, estar associada a PERIGO.

Mas este viés está ficando pra trás, está virando história. Pois a ciência psicodélica avança. A prova mais contundente disto é que hoje começa, em Oakland, Califórnia, a conferência Psychedelic Science 2013, organizada pela MAPS: Multidisciplinary Association for Psychedelic Studies com parceria da Beckley Foundation, do Heffter Research Institute e do Counsel for Spiritual Practices.

Mais de 1600 pessoas, de 33 países, já estão nos EUA para participar do congresso, que tratará do LSD, da mescalina, da ayahuasca, psilocibina e muito, muito mais. Além dos 3 dias principais, sexta, sábado e domingo, há workshops e cursos extra, tanto antes quanto depois do congresso.

Plantando Consciência, que hoje celebra dois anos de sua reunião de fundação, participa desta linha pioneira da neurociência, psicologia, psiquiatria e afins com palestras e filmagens. Dentre as mais de 100 palestras, com os grandes momentos do evento incluindo por exemplo a aula do expert David Nichols, “LSD neuroscience“, destacamos as de nossos membros e sócios-fundadores, Sidarta Ribeiro e Dartiu Xavier da Silveira.

Sidarta, neurocientista e professor da UFRN, falará da relação entre sonhos e os estados psicodélicos, baseando-se principalmente em estudos com neuroimagem que revelam as redes neurais envolvidas em cada processo. Quais as semelhanças, e quais as diferenças?

Já Dartiu Xavier, psiquiatra e professor da UNIFESP, falará sobre estudos da ayahuasca e sua relação com saúde mental, que ele estuda há mais de dez anos, tendo desenvolvido parcerias com Charles Grob e Rick Strassman, pioneiros da Ciência Psicodélica.

Vale também destacar a participação essencial de outros brasileiros com papel fundamental no desenrolar deste congresso. A antropóloga Beatriz Labate coordena a seção específica sobre Ayahuasca, a medicina sagrada da Amazônia, área de estudos a que se dedica com afinco por mais de uma década. Nesta seção, haverá palestra do físico Draulio Araújo, professor da UFRN, sobre estudos de neuroimagem e ayahuasca, do doutor em ciências médicas Paulo Brabosa, professor da Universidade Estadual de Santa Cruz, e também do psiquiatra brasileiro Luís Fernando Tófoli, professor da UNICAMP, que também estuda a questão da saúde relacionada ao uso da ayahuasca. Tema, aliás, de livro coordenado por Bia Labate e José Carlos Bouso, que será lançado no evento.

Para comemorar o septuagenário LSD e homenagear Hofmann, que além de inventar esta molécula, descobriu a psilocibina, a psilocina e o LSA em cogumelos e plantas sagradas dos Aztecas, Mazatecas e outras tribos ancestrais, serão lançados ainda mais dois livros. O primeiro é um relançamento do clássico “LSD my problem child”, autobiografia do gênio da ciência psicodélica, em nova tradução direto do alemão, feita pelo pioneiro da psiconáutica, Jonathan Ott. O segundo é uma nova biografia lindamente ilustrada, feita por Suíços que conviveram de perto com Hofmann: Dieter Hagenbach e Lucius Werthmuller, com prefácio de Stanislav Grof. O nome sintetiza bem o personagem: “Mystic Chemist”.

Este ano, também estaremos presentes atrás das câmeras, com Marcelo Schenberg filmando e entrevistando cientistas e conferencistas para o documentário Medicina, que você pode ajudar através de doações.

Nos próximos meses, vamos aos poucos postando as palestras do congresso, que como sempre, serão filmadas e disponibilizadas pela MAPS na internet, de graça (vale a pena ver o conteúdo dos congressos organizados pela MAPS em 2010 e 2011, que também contou com presença do Plantando Consciência, com palestras de Eduardo Schenberg e Sidarta Ribeiro sobre ayahuasca e neurociência). Possivelmente, faremos legendas das palestras, contando para isso com a ajuda de voluntários. Se você deseja nos ajudar, entre em contato conosco!

Neste momento, dividimos com todos a alegria e entusiasmo de ver estes avanços acontecerem, deixando para trás o pânico moral e o sensacionalismo de eras passadas. É nosso profundo desejo que o estudo da consciência avance desimpedido, porém com respeito e seriedade, gerando frutos para a saúde mental, espiritual, física e social da humanidade.

Se você quer contribuir com essa jornada, feita em grande parte com trabalho voluntário, por favor considere realizar uma doação, ou entre em contato para nos ajudar prestando serviço voluntário. Há várias maneiras de contribuir!

doar

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Os Hereges

Todo mundo sabe que muito tempo atrás rolavam censuras terríveis. Queima de livros, enforcamento de bruxas e tribunais contra quem ousasse sugerir, por exemplo, que a Terra era redonda, ou que girava em torno do sol. Reações fortíssimas também aconteceram contra pessoas que sugeriram que nós temos um ancestral comum com os outros primatas e que existe um troço chamado seleção natural.

Na maioria dos casos, estas pessoas estavam fazendo ciência, e ao fazer ciência estavam desafiando a visão de mundo dominante, à época aquela ditada pelo livro considerado sagrado por uma Igreja em especial, a Católica. Todo mundo sabe também que agora a visão que predomina é a científica, e que em nome da ciência jamais se faria algo como censura, certo?

voltaire marcha liberdade

De acordo com um episódio que rolou nesta semana, a resposta é: errado. A gigantesca corporação TED – Tecnologia, Entretenimento e Design – tirou do ar duas palestras de um evento TEDx – uma forma híbrida de evento TED, mas organizado independentemente. Mas comecemos pelo começo: o que é o TED?

Fundado há quase 30 anos, em 1984, o TED foi realmente catapultado a uma das mais inovadoras organizações do mundo entre 2007, quando lançou seu atual site, e 2009, quando lançou um programa de tradução voluntária. Eles criaram um sistema amigável e simples para que qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo, pudesse traduzir para outra língua as legendas das palestras, disponibilizadas em inglês. Ao todo são mais de 1.400 palestras disponíveis gratuitamente, com 32 mil traduções para mais de 40 línguas diferentes, feitas por milhares de tradutores em todo o globo.

Ali tem de tudo. Só as 20 “TED talks” mais vistas até agosto de 2012 dão um bom panorama do que se trata e da audiência alcançada. Sir Ken Robinson tem quase 15 milhões de visitas com sua palestra de que escolas matam a criatividade. Em segundo lugar vem a neuroanatomista Jill Bolte Taylor, que conta sua iluminação durante um derrame cerebral, assistido por mais de 11 milhões de pessoas. O terceiro colocado é Pranav Mistry, com quase 10 milhões de visitantes em sua palestra sobre o sexto sentido. E assim vai. Tem gente falando do mundo subaquático, do poder da vulnerablidade, de como viver, sobre as melhores estatísticas que você jamais verá, sobre porque somos felizes, sobre magia cerebral… Tudo isso só entre as campeãs de audiência. Mas no TED tem até gente defendendo que comer insetos é a solução do problema da fome mundial. Sem dúvidas um site fascinante.

Até mesmo Julian Assange, pai e líder do WikiLeaks, já pasou pelo TED, falando sobre liberdade de expressão e comunicação na era digital. Parece então que o TED é uma organização de ponta, aberta a novas idéias. Idéias alias é o mote do TED: ideas worth spreading (ou idéias que vale a pena compartilhar). Seria muito estranho, impensável na verdade, que o TED resolvesse então fazer censura. Mas fez.

O que poderia incomodar estas pessoas a ponto delas removerem da rede duas palestras, com alguns milhares de visitas cada? Que tipo de assunto poderia ser tão inapropriado para uma TED talk, considerando que todos os palestrantes são convidados?

Vejamos o ocorrido:

Rupert Sheldrake, biólogo, já foi membro da Royal Academy britânica, estudou nas prestigiosíssimas Harvard e Cambridge, recebeu prêmios diversos, publicou mais de 80 artigos científicos, obteve um PhD em bioquímica, publicou vários livros e desenvolveu a teoria dos campos morfogenéticos.

Sheldrake foi convidado e compareceu ao “TEDx White Chapel – Visions for Transition: challenging existing paradigms and redefining values for a more beautiful world” (Visões para a transição: desafiando paradigmas existentes e redefinindo valores para um mundo mais bonito). O título é pomposo, mas diz ao que veio o evento, que aconteceu em Janeiro deste ano em Londres: trazer alternativas à visão de mundo predominante que nos leva e arrasta por uma crise sem precedentes.

O tópico da palestra foi “O Delírio Científico: Libertando a Ciência“, título também de um de seus livros mais recentes (que já foi assunto aqui no Plantando Consciência). O delírio, pra ele, é a crença de que a ciência, a princípio, já compreende a natureza da realidade, deixando apenas detalhes para serem descobertos e explicados.

Sheldrake enumerou o que considera os atuais 10 dogmas do delírio científico:

1 – O Universo é mecânico, ou funciona como uma máquina;

2 – A matéria é inconsciente;

3 – As leis da natureza são estáticas;

4 – A quantidade total de matéria e energia é sempre a mesma;

5 – A natureza é despropositada;

6 – Toda a hereditariedade biológica é material, está nos genes;

7 – Memórias são armazenadas dentro do cérebro, como partículas materiais;

8 – Sua mente está dentro da sua cabeça;

9 – Fenômenos psíquicos, como telepatia, são impossíveis;

10 – A única medicina que realmente funciona é a mecanicista.

Sheldrake argumenta que estes dogmas estão engessando a ciência genuína, baseada na razão, observação e hipóteses, ao criar uma visão de mundo fixa, que se tornou uma crença popular que orienta a quase totalidade dos adultos razoavelmente educados, os governos, as empresas e a sociedade como um todo. E o 8 e o 9, segundo ele, são dos mais intrigantes e polêmicos. Em pleno século XXI, a ciência não consegue lidar com o fato de que somos conscientes, e de como investigar isso.

Este tópico foi exatamente o assunto de outra palestra no mesmo evento, “War on Consciousness” (Guerra à Consciência), de Graham Hancock. Ele é autor de bestsellers como “Supernatural: Meetings with the ancient teachers of mankind” (Sobrenatural: Mistérios que cercam a origem da religião e da arte) e “Fingerprints of the Gods” (As digitais dos Deuses). Seus livros já venderam mais de 5 milhões de cópias, com traduções em 27 línguas. Hancock se formou em Sociologia com “Honra de Primeira Classe”, na Universidade Durham, no norte da Inglaterra. Trabalhou como jornalista em muitos veículos de mídia, escrevendo sobre uma grande variedade de tópicos e criando, segundo alguns críticos, um novo e inovador estilo de escrita e investigação.

No livro “Sobrenatural”, de acordo com seu próprio site, Hancock “investiga o xamanismo e as origens da religião. Este livro controverso sugere que a experiência dos estados alterados de consciência desempenharam papel fundamental na evolução da cultura humana, e de que outras realidades – mundos paralelos na verdade – nos rodeiam todo o tempo mas normalmente não são acessíveis aos nossos sentidos.”

Em sua palestra censurada pelo TED, ele aborda alguns destes tópicos, começando pela idéia – talvez a mais herética possível em uma sociedade que vive há um século demonizando todos os psicoativos que não sejam álcool ou aqueles vendidos pela indústria – de que a origem da consciência humana, esta que nos distingue de todas as demais espécies, aconteceu em nossa descoberta das plantas dos deuses através do xamanismo.

Vejamos agora a justificativa do TED pelo ocorrido:

“Após trabalho cuidadoso, incluindo um levantamento sobre a pesquisa científica disponível e recomendações de nossa Assessoria Científica e nossa comunidade, decidimos que as TED talks de Rupert Sheldrake e Graham Hancock deveriam ser removidas do nosso canal TEDx no Youtube. Ambas foram marcadas como contendo sérios erros factuais que prejudicam o comprometimento do TED com a boa ciência. As críticas a estas palestras precisam de mais destaque. Não estamos censurando as palestras. Mas colocamos ambas aqui no blog, onde podem ser enquadradas para enfatizar suas idéias provocativas e os problemas com seus argumentos.”

Como vemos acima, algumas horas depois da censura, talvez pela pressão que sofreram pela internet (e pela obviedade de que volariam a ser disponibilizadas por quem já as tivesse gravado em seus computadores), o TED recolocou as palestras na rede. Mas não no mesmo lugar. As duas passaram ao status de material privativo no canal oficial do TEDx no youtube e foram rebaixadas à sessão do blog chamada de “aberto para discussão” (fica uma pergunta: apenas esta seção está aberta para discussão? Todo o resto do material divulgado pelo TED é verdade absoluta?). Importante destacar que essa decisão foi tomada exclusivamente pelo TED, à revelia dos organizadores do TEDx WhiteChapel, que se manifestaram no facebook contra o ocorrido.

Tecnicamente, a decisão afeta vários sites que haviam feito links e embeds pros vídeos originais, e portanto limita bastante o acesso as palestras, bem como interfere no resultado de buscas pelo google e afins.

Filosoficamente, a decisão é, entretanto, muito mais reveladora dos processos em andamento neste início de 14° B’aktun. A decisão do TED de censurar palestras ou colocá-las sob discussão especial porque estas não seriam científicas tem dois problemas fundamentais:

1 – Nem tudo que está no TED é baseado em ciência;

2 – Ciência não é uma descrição definitiva do que é Verdade ou Realidade;

Examinar a primeira razão nos levaria a um debate extenso sobre o próprio TED, e este não é o intuito. Mas a segunda razão é a que mais interessa, pois não diz respeito somente ao TED e suas decisões. É importante pois a razão alegada para censurar Rupert Sheldrake é exatamente o delírio científico como ele enuncia: de que a ciência, a princípio, já compreende a natureza da realidade, deixando apenas detalhes para serem descobertos e explicados. Ou seja, ao seguirem o delírio científico, os organizadores do TED censuraram quem manifestou opinião divergente da que eles próprios defendem. E ao censurarem Hancock, confirmaram não só que há de fato uma Guerra contra a Consciência, que eles apoiam, mas que os dogmas 7, 8 e 9 de Sheldrake são bem reais.

Assim, em nome da ciência, o TED teve uma atitude muito típica de religiosos dogmáticos: aquilo com que não concordo não deve existir ou deve ser marginalizado. Este pensamento e atitude são totalmente contrários ao verdadeiro espírito científico, que é de perpétudo ceticismo aliado à curiosidade e abertura para novas questões e situações. A atitude do TED também é incompatível com um estado de harmonia na sociedade, onde todos devem ao menos ser ouvidos, e no melhor caso, compreendidos. Por fim, a decisão do TED afronta o público, pois indiretamente diz que os visitantes do site não pensam criticamente por conta própria, e necessitam dos avisos do TED com relação ao conteúdo de alguns vídeos.

respect and harmony

Para justificar a decisão, o TED recorre ao argumento favorito daqueles que congelam suas idéias: o argumento de autoridade. Eles mencionam que algumas das pesquisas ou resultados científicos mencionados pelos hereges não estão disponíveis em revistas científicas que publicam artigos com “avaliação por pares” (peer-review).

Mas se aquilo que é científico ou não for definido como o que está ou não publicado num número limitado de meios de comunicação que seguem determinado método que veta certos tipos de resultado e linhas de pesquisa, a ciência estaria se condenando a uma visão que não poderia mais progredir com relação a estes tópicos.

Ou seja, certas pesquisas são definidas a priori como não científicas (em geral pois desafiam o dogma 1 de Sheldrake). Por causa disto, estas pesquisas são negadas no sistema de publicação considerado científico. O mais grave acontece então quando se justifica que não são informações científicas porque não foram publicadas no sistema que as definiu a priori como não científicas! Alguma semelhança com o raciocínio que veta o que não está na Bíblia??

Segundo Hancock argumentou pelo facebook:

If this is how science operates, by silencing those who express opposing views rather than by debating with them, then science is dead and we are in a new era of the Inquisition. 

(Se é assim que a ciência opera, silenciando aqueles que expressam visões opostas ao invés de debater com eles, então a ciência está morta e nós estamos em uma nova era da Inquisição).

Ou seja, de maneira heresiasemelhante ao que parece ter ocorrido na transição de B’aktuns anteriores, quando cientistas chacoalharam a visão de mundo rígida e imutável dos religiosos, neste início de 14° B’aktun o incômodo são cientistas desafiando a visão de realidade que se cristalizou na mente coletiva da humanidade a partir das descobertas da própria ciência.

Se outrora a censura e perseguição era mais brutal e violenta, agora a situação pode ser muito desafiadora em termos sociais, pois ambas as visões de mundo clamam se basear no mesmo processo: a Ciência. E a dos hereges pode, talvez, estar a inverter o processo iniciado há mais de 400 anos. Principalmente os argumentos de Hancock vão na direção que unifica ciência e espiritualidade, revertendo a direção que tomamos no começo do B’aktun passado. Mas Sheldrake também questiona seriamente as bases do materialismo, que é a filosofia que fundamenta esta separação.

No final das contas, a reação do TED faz sentido, como já foi argumentado com clareza por grandes filósofos como Thomas Kuhn e Karl Popper. O primeiro argumentou que os grandes saltos científicos não são absorvidos pelos cientistas nem pela população, que geralmente não mudam de opinão. As grandes revoluções ocorrem, na verdade, com a transição de geração, que dá espaço aos mais novos para pensarem diferente, livres dos impedimentos colocados pelos mais velhos. Para Kuhn, a essência da revolução científica está na transição de gerações e na mudança do modo de pensar, oriundo das novas descobertas científicas. Este fenômeno ocorre repetida e sucessivamente, geração após geração, e foi enunciado eloquentemente por Popper, que defendeu que a ciência é, por princípio, interminável. Quem decidir um dia que chegamos a uma verdade definitiva, retira-se do jogo.

Portanto, se a ciência do 13º B’aktun se autodefiniu como necessariamente contrapondo a religião e negando tudo que não for material, pode ser que estejamos a testemunhar a tentativa de nascimento da ciência do 14° B’aktun: que se abre para as possibilidades de aproximação com a espiritualidade e outras formas de conhecimento e existência que não a exclusivamente materialista.

Neste momento, fica o agradecimento ao TED pela ingenuidade de achar que poderia controlar a informação na era digital, e ao fazê-lo, criar muito mais interesse pelo tópico em questão. Mas principalmente, parabéns aos Hereges por empurrarem o pensamento humano adiante, estejam certos ou errados sob pontos específicos.

Parafaseando Henry David Thoureau:

“Todo o conhecimento deste mundo já foi uma heresia desagradável cometida por algum sábio”.

Para aprofundar-se na obra destes dois Hereges, sugerimos, claro, seus livros. Mas vale também conferir a participação de ambos no programa LondonRealTV, com cerca de uma hora cada (apenas em inglês):

Rupert Sheldrake

Graham Hancock

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Ayahuasca, imagens mentais e atenção ao mundo interior

Em novembro de 2012, cientistas da América Latina se reuniram em Cancún, no México, para a criação oficial da FALAN: Federação LatinoAmericana de Neurociências.

FALAN

Como não poderia deixar de ser, a Ayahuasca, medicina tradicional desta região do planeta, foi contemplada em duas palestras. Isto porque organizamos o simpósio “Manifesting the Mind“. As palestras sobre Ayahuasca ficaram a cargo do Dr. Jordi Riba, da Espanha, e de Draulio Araújo, do Instituto do Cérebro da UFRN.

A palestra do Prof. Draulio está agora disponível na íntegra. Além destas, houve uma palestra sobre ibogaína no tratamento da dependência, de Eduardo Schenberg, que será disponibilizada oportunamente.

Agradecimento especial a Rafael Beraldo, que editou o vídeo. Procuramos voluntário interessado em nos ajudar com a legenda, para que possa ser traduzida e disponibilizada a um público ainda maior!

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Ayahuasca no tratamento da dependência

Em Setembro de 2011, Marcelo Mercante, Beatriz Labate, Edward MacRae e  José Guilherme C. Magnani organizaram simpósio sobre a medicina amazônica e o tratamento do abuso e da dependência de drogas, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP). Com palestrantes nacionais e internacionais, o encontro abordou, em três dias, uma série de tópicos extremamente relevantes para o conhecimento sobre as medicinas tradicionais, o conceito de “droga”, a fisiologia da ayahuasca, entre muitos outros. Compilamos aqui os vídeos de todo o evento, para ajudar a disseminar e aprofundar este conhecimento de grande relevância.

Abertura: A ayahuasca e o tratamento da dependência: limites e possibilidades

Participantes: José Guilherme C. Magnani (Doutor em Antropologia, USP), Marcelo Niel (Psiquiatra, Proad/Unifesp), Dr. Rosa Giove (Médica, Takiwasi).

Coordenação: Marcelo Mercante.

Sessão I: Dependência: os Centros de Tratamento, sua visão e abordagem do problema.

Participantes: André Volpe (Igreja Céu da Nova Vida — Santo Daime), Fernando Dini (Igreja Céu Sagrado — Santo Daime), José Muniz (Casa de Recuperação Caminho de Luz), Jacques Mabit (Centro de Reabilitación Takiwasi), Wilson Gonzaga (Associação Beneficente Luz de Salomão), Walter de Lucca (Unidade de Resgate Flor das Águas, Padrinho Sebastião), Néstor Berlanda (Fundación Mesa Verde, Argentina); Cesar Rabbat (Fundación El Emilio, Argentina), Santos Victorino Oreggioni Osores (Instituto Espiritual Chamánico Sol de la Nueva Aurora, Uruguai).

Coordenação: Walter Moure

 

Sessão II: Populações em situação de vulnerabilidade: diferentes abordagens

Participantes: Bruno Ramos Gomes (Psicólogo, Mestre em Saúde Pública, USP, Neip), Taniele Rui (Doutoranda em Antropologia, Unicamp, Neip), Jardel Fischer Loeck (Doutorando em Antropologia, UFRGS, Neip).

Coordenação: Liandro Lindner

Sessão III: O conceito de “droga” e a ayahuasca

Participantes: Henrique Carneiro (Doutor em Historia, USP, Neip), Edward MacRae, Maurício Fiore (Doutorando em Ciências Sociais, Unicamp, Neip, Cebrap), Sandra Goulart (Doutora em Antropologia, Faculdade Cásper Líbero, Neip)

Coordenação: Julio Simões

Sessão IV: As (des)fronteiras entre a terapia e o ritual

Participantes: José Guilherme Magnani, Paula Montero (Doutora em Antropologia, USP), Francisco Lotufo Neto (Psiquiatra, Faculdade de Medicina, USP)

Sessão V: O papel da experiência e do corpo no tratamento com ayahuasca

Participantes: Jacques Mabit, Marcelo Mercante, Walter Moure (Doutor em Psicologia, Runa Wasi), Gabriela Ricciardi (Doutoranda em Antropologia, UFBA).

Coordenação: Bruno Ramos Gomes

Sessão VI: A legalidade do uso da ayahausca no tratamento da dependência e as políticas públicas relacionadas a este tema

Participantes: Maurides Ribeiro (Advogado), Roberto
Tycanori (Coordenação de Saúde Mental, Ministério
da Saúde), Rosa Giove, Marcelo Niel

Coordenação: Marcelo Mercante.

 

Cerimônia de encerramento

Depoimento e bate papo com pessoas que se recuperaram da dependência química através da AYAHUASCA.

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A molécula do espírito, o cipó das almas e a… Ciência?

Ayahuasca. Daime. Caapi. Yagé. Vegetal. Hoasca. Biaxii. Nishi Pae. Natema…

São muitos os nomes. São muitos os efeitos. São quase infindáveis as maneiras de usar, os propósitos, os contextos, os lugares…

A ayahuasca, bebida de origem amazônica utilizada ritualmente e religiosamente em no mínimo 20 países, por milhares de pessoas, propicia uma daquelas experiências absolutamente inacreditáveis para a imensa maioria dos ocidentais. Inefável. Beira o inexprimível…

Permitida para uso religioso no Brasil, tida como patrimônio cultural no Peru, é proibida, banida, mal entendida e perseguida em inúmeros países. É a protagonista central de episódeos típicos da santa inquisição, em pleno século XXI. Segundo os legisladores dos EUA e tantos outros países, o que os Quechuas batizaram “Cipó das Almas” é extremamente perigoso e deve ser banido, principalmente por conter a molécula N,N-Dimetiltriptamina, que o psiquiatra americano Rick Strassman batizou de “Molécula do Espírito”. Parece que há, afinal, alguma concordância entre índios Quechua e a psiquiatria moderna.

Essas são apenas algumas das quase infinitas perguntas que nós, do Plantando Consciência, mais um número cada vez maior de pesquisadores, no Brasil e no mundo, nos propomos a investigar, com auxílio da Ciência. Isso mesmo. Buscamos unir ciência e espírito, transcender a dicotomia cartesiana, a dualidade mente/matéria. Uma de nossas principais ferramentas: a neurociência. Aliada, é claro, à antropologia, história e respeito profundo e amplo a sabedorias ancestrais e seus maravilhosos mistérios.

Nossa jornada nessa direção já conta com algumas trilhas longas, e alguns frutos. Em agosto de 2012 organizamos, durante o congresso da FeSBE e da SBNeC o simpósio “Ayahuasca, cérebro e consciência“. Abaixo, você pode assistir, de graça e em primeira mão, duas destas palestras, na íntegra (Graças ao trabalho voluntário do Rafael Beraldo, que os editou, Obrigado!). Uma envolvendo pesquisa com ayahuasca e neuroimagem, já publicada, e outra sobre uma pesquisa em andamento com as ondas elétricas do cérebro durante o efeito do chá milenar.

 

E neste domingo, 14/10, mais um de nossos pesquisadores, Sidarta Ribeiro, irá apresentar palestra sobre investigações científicas envolvendo a ayahuasca, em NY, durante o simpósio Horizons.

E na terça feira que vem, aos que estiverem em São Paulo, apresentaremos mais uma sessão gratuita do documentário “A Molécula do Espírito” na Casa Jaya. Após a sessão, bate papo exclusivo com o Prof. de história Henrique Carneiro e com o antropólogo Marcelo Mercante, especialistas nestas e em outras mil questões interessantíssimas.

Dia 16/10 a partir das 19h, na Casa Jaya, Rua Capote valente 305, Pinheiros. Telefone: (11) 2935-6987

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Los chamanes jaguares de Yuruparí

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N,N-Dimetiltriptamina?

A seguir, videos feitos pelo jornalista Paulo Castilho, com nosso debate sobre a DMT, a molécula do espírito (Obrigado Paulo!) que rolou no cineclube socioambiental dia 26/04. Desculpem a todos que nao puderam entrar pela falta de lugares, esperamos ve-los na próxima e espero que curtam os videos.

 

 

 

 

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