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Guerra contra o que?

Os recentes acontecimentos no RJ, contados pela VEJA (melhor seria não ver) sugerem que o Brasil finalmente começou a vencer a guerra. Mas que guerra é essa? Chamada mundialmente de “guerra contra as drogas”, o fenômeno se revela, à uma análise um pouco mais científica e profunda, uma guerra contra outras coisas, mas não contra as drogas.

É isso mesmo. Essa política repressiva e sanguinária existe a cerca de 5 décadas como um dos pilares centrais da sociedade moderna, mas é um fracasso total na questão de repressão às drogas ilícitas. Enquanto a guerra, os presos e os mortos proliferam rapidamente no mundo todo, as drogas são cada vez mais disponíveis, mais fortes e mais baratas (não acredita? clique aqui). Por outro lado, a guerra que se diz contra as drogas é um sucesso total em outro quesitos. Por exemplo, a juíza aposentada no RJ, Maria Lúcia Karam, mostra que essa guerra civil permanente, nos EUA, já encarcera mais negros do que o regime político do apartheid, que era explicitamente racial, ao contrário da perniciosa política atual. Seria então uma política racial disfarçada? Isto é deliberado ou inconsciente, efeito colateral duma política equivocada? E quando houve mesmo na história da humanidade uma sociedade sem drogas? Segundo Henrique Carneiro, historiador da USP, nunca. E isso não só é impossível como indesejável. De fato, ninguém quer ficar sem as drogas da farmácia, artificalmente distinguidas pelo nome de remédio. Mas que também viciam e matam, por vezes muito mais do que as demonizadas e tornadas ilícitas. E poucos querem ficar sem sua cervejinha, seu tabaco, café ou chocolate.

Então o que nos impede de debater a questão seriamente? Qual o grande medo por trás desta guerra que faz com que a maioria sequer aceite ouvir idéias alternativas, enquanto um verdadeiro genocídio prossegue todos os dias? Segundo o Major Neill Franklin, ex policial norte-americano, o maior medo por trás da mudança na política de drogas atual é reconhecer que erramos feio, e que foi por tanto tempo. Segundo Wade Davis, antropólogo Canadense, esta guerra é a maior loucura de toda a história humana. Pensamento semelhante foi expresso pelo recém prêmio Nobel Mário Vargas Llosa.

Estas, e muitas outras questões, são tema do documentário brasileiro Cortina de Fumaça, que o Plantando Consciência traz com exclusividade para São Paulo, em exibições inéditas a partir de amanhã. Em uma parceria com a produtora do filme, Coletivo Projects, e com a Matilha Cultural, o filme será exibido de graça até domingo, dia 19/12 (para detalhes da programação acesse nosso site). Na sexta-feira, dia 17, sessão especial as 20:00 seguida de debate com o diretor, Rodrigo MacNiven e alguns entrevistados já confirmados: Elisaldo Carlini, Walter Maierovitch e Cristiano Maronna. Carlini é médico, psicofarmacologista e professor da Universidade Federal de São Paulo. Já prestou inúmeros serviços ao governo brasileiro e à ONU especificamente sobre drogas. Maierovitch foi secretário nacional Antidrogas da Presidência da República entre 1999 e 2000 e hoje é Desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo. Maronna é diretor do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM) e advogado.

Para todos os que desejam um Brasil diferente nos anos que estão por vir, serão sessões imperdíveis!

Saudações cordiais

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Você sabia? Edição sobre a guerra às drogas

Plantando Consciência, em parceria com O Imperador está Nu traz ao Brasil a magistral animação do Centro Internacional para Ciência na Política de Drogas, que postamos anteriormente em inglês e espanhol.

Semeiem com carinho.

Paz!

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

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Os vícios da internet

tumblr

é uma garrafa de vinho

Uma noite calma com alguns amigos. Derramando estórias nostálgicas, folheando álbuns de fotografia, cantarolando canções favoritas, buscando por pungência, e ocasionalmente esbarrando nela. Emoçoes correm soltas e sem pensamento.
twitter

é cocaína

Porra, QUALQUER UM é seu amigo. Yuppies mandam nos seus iphones. Barato. Rápido. Infrutífero.
youtube

são shots de tequila

“Só um” pra animar o seu amigo rapidamente se tranforma em 4 ou 5. Qualquer coisa se torna absurdamente interessante. Uma maneira divertida de se perder um tempo do qual você não se lembrará dos detalhes depois. Melhor assim.
vimeo

é uma cartela de ácido bom

Todo mundo mundo aqui é muito legal e muito de boa. Você irá testemunhar algumas coisas realmente lindas. Às vezes emotivas, as visitas podem ser longas ou curtas, mas você sairá impressionado, e com melhor entendimento do mundo.
facebook

é vodca com groselha

Catalisador social usado para incrementar as suas habilidades sociais em desenvolvimento. Você está ciente das suas ações desinibidas, mas é confortado pela segura rede de justificativas.

myspace

é cheirar cola

Destrói qualquer chance de credibilidade. Você vai ser identificado como alguém com a mente de um estudante do ensino médio, e provavelmente é isso mesmo que você é.

digg

é fumar maconha no bong

Papo politizado e religioso sensacionalista. Planos de derrubar a mídia de massa caem por terra, vítimas de preguiça coletiva. Obssessão por alguma fotografia chapante em HDR.

gmail

são pílulas de cafeína

Ótimo para uma rápida levantada na moral para estimular a produtividade, mas no final das contas te deixa exausto e dependente.
Traduzido do original de Patrick Moberg

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Droga ou remédio?

drogas

A cocaína, heroína e o ópio já foram usados como remédio no passado. Hoje, criminalizados, são do mal. Drogas prescritas como a Ritalina, Ketamina, Modafinil e tantos outros vem sendo usados às escondidas para turbinar o cérebro de uma forma ou outra. É simples coincidência, ou é uma complexa questão dos paradigmas de cada época? Veja os dois posts abaixo (“Remédios do Passado” e “Cérebro Turbinado“) e reflita.

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Remédios do Passado

Heroína da Bayer :

heroin

Um frasco de heroína da Bayer. Entre 1890 a 1910 a heroína era divulgada
como um substituto não viciante da morfina e remédio contra tosse para
crianças.

Vinho de coca :
coca wine
O vinho de coca da Metcalf era um de uma grande quantidade de vinhos que
continham coca disponíveis no mercado. Todos afirmavam que tinham efeitos
medicinais, mas indubitavelmente eram consumidos pelo seu valor
“recreador” também.

Vinho Mariani :
mariani wine
O Vinho Mariani (1865) era o principal vinho de coca do seu tempo. O Papa
Leão XIII carregava um frasco de Vinho Mariani consigo e premiou seu
criador, Angelo Mariani, com uma medalha de ouro.

Maltine :
coca maltine
Esse vinho de coca foi feito pela Maltine Manufacturing Company de Nova
York. A dosagem indicada diz: “Uma taça cheia junto com, ou imediatamente
após, as refeições. Crianças em proporção.”

Peso de papel :
coca pills
Um peso de papel promocional da C.F. Boehringer & Soehne (Mannheim,
Alemanha), “os maiores fabricantes do mundo de quinino e cocaína”. Este
fabricante tinha orgulho em sua posição de líder no mercado de
cocaína.

Glico-Heroína :
heroin1
Propaganda de heroína da Martin H. Smith Company, de Nova York. A
heroína era amplamente usada não apenas como analgésico, mas também
como remédio contra asma, tosse e pneumonia. Misturar heroína com
glicerina (e comumente açúcar e temperos) tornada o opiáceo amargo mais
palatável para a ingestão oral.

Ópio para asma :
opium1
Esse National Vaporizer Vapor-OL era indicado “Para asma e outras
afecções espasmódicas”. O líquido volátil era colocado em uma panela
e aquecido por um lampião de querosene.

Tablete de cocaína (1900):
coca drops1
Estes tabletes de cocaína eram “indispensáveis para cantores,
professores e oradores”. Eles também aquietavam dor de garganta e davam
um efeito “animador” para que estes profissionais atingissem o máximo de
sua performance.

“Drops de Cocaína para Dor de Dente – Cura instantânea” :
coca drops
Dropes de cocaína para dor de dente (1885) eram populares para crianças.
Não apenas acabava
com a dor, mas também melhorava o “humor” dos usuários.

Ópio para bebês recém-nascidos :
opium
Você acha que a nossa vida moderna é confortável? Antigamente para
aquietar bebês recém-nascidos não era necessário um grande esforço
dos pais, mas sim, ópio. Esse frasco de paregórico (sedativo) da
Stickney and Poor era uma mistura de ópio de álcool que era distribuída
do mesmo modo que os temperos pelos quais a empresa era
conhecida. “Dose – [Para crianças com] cinco dias, 3 gotas. Duas
semanas, 8 gotas. Cinco anos, 25 gotas. Adultos, uma colher cheia.”
O produto era muito potente, e continha 46% de álcool.

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Cérebro turbinado

Bioeticista pede liberação de drogas para “doping mental”, como a Ritalina, dizendo que elas são uma extensão natural da educação

JEREMY LAURENCE
DO “INDEPENDENT”

Em pleno período de provas, a oferta de uma droga que possa melhorar as notas poderia deixar os alunos animados, mas aterrorizaria os pais. Agora, um bioeticista britânico diz que é hora de abraçar o “doping mental”, o uso de drogas que aumentam o desempenho cognitivo. A sugestão vem de John Harris, diretor do Instituto para Ciência, Ética e Inovação da Universidade de Manchester e editor-chefe do “Journal of Medical Ethics”.

É a segunda manifestação de peso a favor da liberação do uso “off label” (sem receita médica) dessas substâncias. No fim do ano passado, Harris e mais seis pesquisadores já haviam pedido, na revista “Nature”, a regulação de drogas cognitivas.

A principal da categoria é a Ritalina, usada para tratar crianças hiperativas. Ela já tem um mercado negro entre os estudantes, especialmente nos EUA. Eles estão trocando estimulantes tradicionais, como café e cigarros, pela Ritalina. Os usuários dizem que a droga ajuda a melhorar a concentração, algo que já foi confirmado em pesquisas com adultos.

David Green, aluno da Universidade Harvard, disse ao jornal “The Washington Post”: “Honestamente, desde o ensino médio eu não escrevo um artigo sem Ritalina”.
Matt, estudante de administração de empresas da Universidade da Flórida, disse que uma droga parecida, o Adderall, ajudou-o a melhorar as notas. “É um santo remédio”, disse ao “Boston Globe”. “É incrível como minha concentração melhora quando eu uso.”
Alguns especialistas condenaram a tendência e acusaram os estudantes de tirar “vantagem injusta” por meio do doping, sem explicarem por que isso seria mais injusto do que contratar um professor particular, por exemplo.

Harris diz que os argumentos contra as drogas “não têm sido persuasivos” e que a sociedade deve buscar turbinar a cognição. “Não é racional ser contra o aprimoramento”, escreveu. “Os humanos são criaturas que resultam de um processo de aprimoramento chamado evolução e, além disso, aprimoram a si próprios de todo jeito possível.”

Embora nenhuma droga seja 100% segura e livre de efeitos colaterais, a Ritalina foi considerada segura o suficiente para ser administrada a crianças com distúrbio de déficit de atenção (DDA) há vários anos, afirma Harris.

A Ritalina é um estimulante introduzido em 1956, que parece influenciar a maneira como o cérebro filtra e responde a estímulos. Ela aumenta a energia e a confiança, e já foi comparada à cocaína. Efeitos colaterais possíveis incluem insônia, inapetência, tontura e depressão após o fim do uso.

Outras drogas investigadas quanto ao seu papel de aprimoradoras mentais incluem o donepezil, usado para tratar demência, e o modafinil, para narcolepsia. Ambas possivelmente ampliam o desempenho em tarefas que requerem habilidade, nas quais a concentração e o estado de alerta são pré-requisitos. Um estudo mostrou que pilotos comerciais que tomaram donepezil por um mês lidaram melhor com emergências num simulador de voo do que os que tomaram placebo.

Um estudo do modafinil concluiu que ele aumentava o desempenho, num simulador de voo, de pilotos de helicóptero que tiveram privação de sono.
Num artigo na edição on-line do “British Medical Journal”, Harris disse que o uso de drogas para aumentar o desempenho cognitivo deveria ser visto como uma extensão natural do processo de educação. As agências reguladoras de fármacos deveriam avaliar os benefícios e os riscos da mesma forma como avaliariam qualquer outra intervenção médica.

Questão de ética

“Suponha que uma universidade queira aumentar a capacidade mental de seus alunos. Suponha que eles digam também que não só poderiam fazer isso como também que seus alunos seriam os mais inteligentes da história. Nós poderíamos não acreditar, mas, se as alegações pudessem ser provadas, deveríamos ficar satisfeitos?”

Sua resposta é um sonoro “sim”. Ele conclui que é antiético impedir as pessoas de tomarem Ritalina para aumentarem seu desempenho mental.
Em total desacordo, Anjan Chatterjee, da Universidade da Pensilvânia (EUA), argumenta na mesma edição do “British Medical Journal” que há riscos demais. Nos EUA [e no Brasil], a Ritalina é um remédio de tarja preta, pois tem alto potencial de abuso, dano ao coração e risco de morte súbita.

Ele acrescenta que há compensações cognitivas na Ritalina, como a perda da criatividade. Ele levanta o fantasma de pré-vestibulandos tomando a droga em “proporções epidêmicas” e de motoristas, policiais e médicos pressionados a usá-la em plantões.

O progresso sempre traz risco, diz Harris. O desenvolvimento de tochas, lampiões e lâmpadas elétricas poderia ter forçado as pessoas a trabalhar noite adentro. A resposta não foi banir essas tecnologias, mas regular as horas de trabalho.

(publicado originalmente no caderno Mais! da Folha de São Paulo, edição do dia 21 de Junho de 2009)

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