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Bem vindos ao décimo quarto B’aktun

Hoje começa o décimo quarto B’aktun. Mas sem sequer saber o que a última palavra da sentença anterior quer dizer, milhares andam por aí falando em fim do mundo. Alguns tentam se aproveitar da ignorância alheia pra ganhar uns tostões vendendo blablablás esotéricos supostamente astrológicos e coisas do gênero, enquanto outros de fato ganharam milhões de tostões fazendo e vendendo filmes onde o planeta catastroficamente colapsa, fisicamente falando.

Tsunamis, explosões, implosões, guerras, terremotos, maremotos e coisas do tipo, que continuamente e incansavelmente fascinam os fãs de hollywood.

Outros gastam tempo ativamente combatendo os supostos charlatões, tentando mostrar como a ciência ocidental é desenvolvida e o resto é gente primitiva e superstição idiota. Afinal, somos um povo avançado, científico, seguro de si. Sabemos que o mundo não vai acabar, não tem nem o que pensar a respeito. Então é lógico que profecia de fim de mundo é besteira e é melhor você cuidar das suas finanças e não gastar tudo em férias extravagantes.

Mas a maioria apenas ouve falar duma tal de profecia do fim do mundo (mais uma), de uns tais maias. E como o melhor remédio contra a ignorância é o bom humor, tiram da história boas piadas.

Então bota Tim pra tocar numa relax, numa tranquila, numa boa. Chama os amigos e as amigas, pega uma cerveja, prepara um churrasquinho e bora festejar, porque se o mundo ta acabando, por sorte é no verão, numa sexta-feira quase véspera de natal. Não podia ser um final mais feliz, não é mesmo?

Uma mentira corre metade do mundo antes da verdade ter chance de vestir as calças ~ Winston Churchill

Os mayas foram uma das mais avançadas civilizações da América Pré-Colombiana, e durante mais de dois mil anos habitaram as terras que hoje formam parte do México, na península de Yucatán, e também da Guatemala, Honduras e El Salvador. Chegaram aos milhões de habitantes em dezenas, talvez centenas de cidades.

O desaparecimento dessa cultura ao longo do tempo, principalmente entre o ano 1000 e 1500 de nossa contagem atual – o calendário gregoriano – ainda é um mistério não resolvido. Muitos defendem que foi o uso inadequado dos recursos naturais que teria levado ao desaparecimento e colapso dos mayas, mas há entre os estudiosos do assunto até os que contestem a idéia de que tenha havido qualquer colapso.

De qualquer forma, ainda haviam mayas vivos em muitas partes quando da chegada dos Europeus, e o choque que se seguiu foi brutal. Os colonizadores que chegaram na América em 1492 vieram transportados diretamente da Idade Média, onde praticavam caça às bruxas, execuções em praças públicas e viviam sob condições parcas de higiene e desenvolvimento material e tecnológico, apesar do feito incrível de atravessarem o oceano, vivos. Consideraram então os mayas e seus estilos de vida como coisas do demônio. Assim, ativamente promoveram um genocídio digno das páginas negras da história da humanidade, escritas a ferro, fogo, pólvora e sangue. Um trauma psíquico e cultural que não foi exclusivo com relação aos mayas, mas que atingiu todos os milhões de habitantes das Américas, que segundo os estudos recentes eram em maior número do que os habitantes da Europa. Grande parte morreu também devido às doenças trazidas pelos Europeus, pras quais os povos ameríndios tinham pouca, ou nenhuma imunidade. Pra alguns, não fosse esse fato, os Europeus não teriam conseguido colonizar o “novo” continente, mesmo com auxílio da pólvora como superioridade tecnológica de combate.

No que tange o massacre dos mayas, um exemplo famoso é o do Bispo Católico Diego de Landa, que ativamente comandou assassinatos e destruições impressionantes. Em 12 de Julho de 1562, Landa comandou uma cerimônia na qual foram queimados pelo menos 40 códices mayas e mais de 20 mil imagens sagradas. O nível de abuso físico e torturas dos inquisidores comandados por Landa era tão escabroso que até mesmo dentro da Igreja teria havido discórdia e oposição contra ele.

O resultado histórico deste massacre generalizado dos povos nativos da América, de norte a sul, que durou muitas décadas, é que muito do que se fala sobre os mayas (e sobre índio) hoje é especulação. Principalmente porque a imensa maioria dessa cultura foi literalmente dizimada e destruída pela inquisição. Mas também porque o preconceito foi espalhado e se enraizou na cultura eurocêntrica que hoje domina quase todo o continente. Provas deste fato é que continuamos ensinando história do Brasil através do olhar ultra enviesado do colonizador, e não do colonizado; e que “índio” nesse país continua sendo o grande alvo de racismo e exclusão, com práticas inquistórias, escravistas e genocidas ainda em vigor em algumas partes. Na verdade, a maioria dos brasileiros sequer consegue enumerar mais de três ou quatro nomes de tribos indígenas que habitam o país, e sequer se dão conta do fato de que o próprio termo “índio” se origina do equívoco do colonizador, que pensava estar na Índia quando aqui pisou. E há muita criança por aí que acha que índio não existe mais, só em filme…

Do ponto de vista arqueológico e antropológico, a perda de conhecimentos sobre os mayas são incalculáveis. Ainda assim, pelo menos dois séculos de estudos científicos sistemáticos e sérios, com colaborações internacionais, levaram a algumas decobertas fascinantes. Pioneiros no estudo da civilização maya, como por exemplo John Lloyd Stephens, Teobert Maler, Sylvanus G. Morley e Tatiana Proskouriakoff, entre muitos outros, conseguiram decodificar grande parte dos hieroglifos mayas. Mesmo com apenas fragmentos do que sobrou após a destruição promovida pelos povos auto-proclamados de “desenvolvidos”. E também pelo próprio desgaste do tempo, pois os mayas sobreviventes aprenderam rápido que com os recém chegados não havia muita chance de relações humanas decentes, e se esconderam nas florestas e esconderam seus bens e conhecimentos mais preciosos.

Se esconder na floresta… Pode parecer bobo numa primeira lida. Isto porque comumente aprendemos que nas américas viviam “apenas uns poucos” índios. E também porque a maioria de nós não tem qualquer experiência do que de fato é uma floresta, e da dificuldade de transitar por uma. A retirada foi tão intensa e bem feita, e a floresta é tão grande e cerrada, que muitas das centenas de ruínas de construções mayas, hoje sítios arqueológicos, foram descobertas apenas séculos depois de considerada terminada a colonização das Américas, quando os países aqui já eram “independentes”. E possibilidade há para que haja ainda mais para ser encontrado.

Um excelente exemplo de tesouro perdido são as ruínas de Calakmul, uma das maiores e mais bem desenvolvidas cidades mayas que se conhece até hoje. Foi descoberta apenas em 1932, vista de um avião que sobrevoava a região e cujos tripulantes estranharam dois picos muito altos no meio da floresta. Foram necessárias expedições terrestres para que pudessem alcançar o local e descobrir que a floresta havia literalmente engolido duas pirâmides que ultrapassam os 40 metros de altura, e mais algumas dúzias de construções menores e centenas de estelas – lápides de pedra com inscrições hieroglíficas. O nome Calakmul, dado pelos exploradores, em maya significa “montes adjacentes”. Alguns estudos foram conduzidos ainda nos anos 30, mas somente nos anos 80 o sítio voltou a ser estudado sistematicamente, tendo sido aberto a visitas turísticas apenas em 1994, como resultado dos esforços do INAH – o Instituto Nacional de Antropologia e História do México.

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Ali perto há outra, Balamku, bem menor e que foi descoberta e patrimoniada pelo INAH apenas nos anos 90. Sua descoberta aconteceu após uma denúncia anônima de que saques estariam acontecendo em uma ruína da região (reverberando o padrão histórico sobre o que se faz com a cultura maya). Um arqueólogo foi então enviado e se deparou com algumas construções, uma delas contendo algumas esculturas das mais bem preservadas da região, que séculos depois ainda conservava os pigmentos vermelhos e azuis originais, que decoram figuras sagradas pros mayas, como o jaguar.

Durante pelo menos 200 anos, houve então uma redescoberta e ressignificação arqueológica e antropológica dos conhecimentos obtidos pelos mayas, através da leitura de sua própria linguagem, agora parcialmente decodificada. E parte destes estudos revelou que era uma civilização com alguns conhecimentos altamente desenvolvidos, em especial a matemática e a astronomia. Algumas construções mayas encontram-se em posições incrivelmente precisas em relação ao norte, como a Estrutura VIII de Calakmul, que está alinhada com “erro” de apenas 8 graus a leste do norte magnético. Várias técnicas foram desenvolvidas para rastrear e mapear a posição dos astros nos céus ao longo de muitos anos, usando a sombra das construções e alinhamentos entre feixes de luz entre pilares paralelos, por exemplo, para identificar com precisão datas únicas como os Solstícios de inverno e verão.

Assim, de maneira não totalmente compreendida, os mayas calcularam o valor do ciclo sinódico de vênus em 584 dias, assombrosamente preciso. De acordo com a mais alta tecnologia do seculo XXI, o resultado é de 583,92 (erro de 0,08 dias, ou cerca de duas horas, ou 0,01%). Calcularam o ciclo de Marte em 780 dias, espantosamente certeiro, pois hoje calculamos em 779,94 dias (erro de 0,06 dias) e calcularam o lunar em 29,5 dias, sendo o cálculo atual de 29,53059! Eles inventaram ainda uma sofisticada grafia para os números, compostos de pontos e traços, e também o conceito matemático zero, quiçá antes dos árabes, que foram quem ensinaram aos europeus como se faz matemática pra valer.

Estes acertos numéricos não são meras curiosidades, mas são frutos de práticas genuinamente científicas (observação, repetição, inferência, refutação, comprovação etc) e estão relacionados com a construção e com o desenvolvimento da agricultura. Esta foi um dos desenvolvimentos centrais para o apogeu dos mayas, e pode também ter sido crucial em seu declínio, já que alguns estudos indicam que possa ter sido o uso exagerado dos recursos naturais que teriam levado muitas cidades a catástrofes ecológicas e sociais.

O acompanhamento da trajetória dos astros no céu, feito continuamente ao longo de séculos, permitiu aos mayas desenvolverem também calendários fascinantes e estrondosamente precisos. Foi apenas nos idos de 1950, com o descobrimento do Códice de Dresde e com o trabalho de Yuri Knórozov que muito desse nosso conhecimento atual sobre os calendários mayas avançaram, incluindo a identificação de, até agora, pelo menos 800 glifos do alfabeto maya.

Os mayas contavam o tempo em ciclos, e possuíam inúmeros calendários utilizados para finalidades distintas. O mais famoso, também conhecido como roda calendárica, conta larga, ou simplesmente “calendário maia”, é um sofisticado mecanismo que relaciona distintas contagens. Na conta larga, a unidade básica é o dia, ou k’in, que são agrupados em períodos de 20 dias, chamado winal. Um tun corresponde a 18 winals. Há também um k’atun, que conta 20 tunoob’, que é um ano de 360 dias (ao qual se adiciona um período especial de 5 dias, o wayhaab’, formando 365 dias). Tem também o b’aktun, que corresponde a 400 tunoob’s, ou aproximadamente 400 anos (mais precisamente 394,26 anos). Estes ciclos teriam começado em 3114 AC, em uma das cíclicas e sucessivas “criações do mundo”.

Uma imagem do Calendário Maya (a maioria dos resultados de uma busca no google é do calendário Azteca, indicando quanta confusão há sobre o assunto)

É um pouco complicado, mas de certa forma guarda semelhança com nossa contagem, que tem o dia como unidade básica, mas que depois é agrupado em ciclos de 7 (semana), de aproximadamente 30 (mês), de aproximadamente 365 (ano), e depois os séculos e milênios, que dão ênfase aos múltiplos de 10 como tendo algum tipo de significação especial. Mas para os mayas, o especial estava nos ciclos, que possuíam diversos significados, com ênfase nas mudanças periódicas. Assim, os calendários mayas já nasceram focados nas mudanças e na diversidade das possibilidades de contagem do tempo, enquanto o calendário gregoriano nasceu com o nome de Calendário Gregorianum Perpetuum, se prpondo a ser a melhor, mais precisa e definitiva maneira de contagem do tempo, pra sempre.

Dentre os vários calendários mayas, era o Haab’ o utilizado para contar o ano de cerca de 365 dias relacionados ao sol. Outro era o calendário mágico, ou ritual, o Tzolk’in, que determinava padrões da vida cerimonial. O Tzolk’in foi construído combinando 13 coeficientes para cada um dos 20 nomes que existiam, neste calendário, para os dias. O resultado é uma conta de 13 x 20 = 260 dias, que aproxima o período de gestação humana, e na qual não há repetição de um único dia. Para cada um dos 20 dias principais haviam glifos que correspondiam a distintas entidades, divindades, forças da natureza ou animais, aos quais era combinada a conta de 13 números. A roda calendárica combina as 260 permutações do Tzolk’in com as 365 do Haab’. Os mayas sabiam que uma dada combinação do Tzolk’in com o Haab’ só voltaria a se repetir após um ciclo de 52 anos.

Além destes, haviam outros ciclos, como o pouco compreendido ciclo de 819 dias, relacionado aos números primos 7 e 13, que aparece em várias inscrições remanescentes ao massacre da cultura maya, e outros ciclos maiores como o piktun, equivalente a 8000 tunoob’s (ou cerca de 8 mil anos), o kalab’tun que é igual a 160.000 tunoob’s ou 20 piktuns, o k’inchiltun, que equivale a 3 milhões e 200 mil tunoob’s ou 20 kalab’tuns, e o ‘alautun, que correspondia a cerca de 64 milhões de anos.

Portanto, é óbvio que não há fim no calendário maya. Na verdade, os mayas tinham calendários que iam milhões de anos a frente de sua época, e milhões de anos a frente desta época em que estamos.

Mas então, o que as interpretações errôneas e catastróficas tem a nos dizer?

Estas histórias não surgiram dos mayas, mas de nossa própria cultura. Em um primeiro momento, nos revelam nosso etnocentrismo e o preconceito que ronda os conhecimentos adquiridos por outros povos, em outras épocas e lugares. Como não é incomum na antropologia, as interpretações revelam mais sobre o observador do que sobre o observado. As idéias de fim de mundo não são novas neste 21 de dezembro de 2012, e já rondaram também, por exemplo, o ano 2000 e o ano 1000, dada a nossa tendência a atribuir significado aos múltiplos de dez, ou mais especialmente aos milênios (chamado de milenarismo). Quase sempre estas datas são interpretadas como catástrofes físicas, ou então relacionadas ao juizo final Católico, onde Deus finalmente decidiria quais almas seriam salvas e quais não. Entre os não religiosos, é a visão de catástrofe física que parece predominar, e as raízes profundas disto podem estar na filosofia que atualmente vigora em nossa cultura científica: o materialismo.

Fim do mundo no ano 2000

Esta visão propõe que a realidade é o físico, que está fora de nossa mente, pode ser observado, medido e (supostamente) estudado objetivamente. Para o materialismo, os fenômenos mentais são epifenômenos da matéria, a consciência é um acaso que brota da atividade de bilhões de células cerebrais e espiritualidade é bobagem, superstição infantil ou ignorância. O materialismo nasceu na mesma época que a Ciência como hoje a conhecemos, fruto do pensamento e trabalho de gênios como Isaac Newton, René Descartes, Galileo Galilei, entre outros. É daí que vem o outro nome do materialismo científico, também conhecido como paradigma newtoniano-cartesiano, dada a influência intelectual e filosófica exercida por estes dois cientistas.

Assim, após séculos debruçados sobre o mundo material, compreendendo e descrevendo a trajetória dos planetas com fórmulas matemáticas, desvendando a composição química da natureza, a estrutura do átomo e suas subpartículas, a mente científica habituou-se a pensar quase que exclusivamente em termos da matéria. Não é de se surpreender, portanto, que quando se depare com algum mito “primitivo” sobre “fim do mundo”, imediatamente pense em catástrofes físicas e detruição do planeta.

Mas para os mayas, os ciclos do tempo indicavam também momentos propícios para rituais mágicos, religiosos ou místicos, relacionados a várias divindades. Provavelmente corresponde ao que hoje chamamos aspectos arquetípicos da psique, como colocado por pensadores como Jung e Campbell. Durante alguns desses rituais,  como o famoso e onipresente “juego de pelota”, a morte acontecia de fato fisicamente, sendo o perdedor decapitado, como parte do processo ritualístico de veneração das divindades e de um culto à fertilidade. Mas mais frequentemente, os rituais ameríndios estão ligados aos fenômenos espirituais sem a necessidade do sacrifício físico. É possível e provável que para os mayas não fosse totalmente diferente. Evidências de rituais mágico-religiosos e espirituais incluem as estátuas-cogumelo de Kaminaljuyu. Estas estátuas sugerem que cogumelos psicodélicos tenham sido usados e até mesmo considerados divindades pelos maya, bem como o eram por outras culturas e povos da região. Como por exemplo os mazatecas, que até hoje utilizam os “niños santos” em rituais na serra do estado de Oaxaca. Cogumelos do gênero Psilocybe, que contém centenas de espécies psicoativas, crescem em abundância em toda a península de Yucatan e na serra Oaxaqueña. São absolutamente não tóxicos, e propiciam uma experiência mística que pode ser profunda e extremamente transformadora, caso seja feito de maneira adequada, em local apropriado e com um guia experiente, capaz de levar o participante a colher frutos positivos da sua jornada interior. Assim, a morte e o fim que eram professados relacionados a estes tipos de rituais não eram necessariamente relativos a aspectos físicos, mas psíquicos e espirituais.

De qualquer forma, a posição dos astros no céu era relacionada com inúmeros mitos, deuses e demônios. Estas divindades representavam forças psíquicas e arquetípicas, e o acompanhamento dos astros no céu serviria então para mapear mudanças na psique, ou na consciência, de acordo com a carga energética dos deuses envolvidos em cada época e ciclo. Para eles, os ciclos de contagem do tempo indicavam as mudanças nas forças arquetípicas predominantes, e então tinham implicação direta na vida e nas sociedades, tendo sido considerados conhecimentos sagrados, venerados por milênios.

De acordo com esta visão arquetípica da psicologia profunda e da mitologia, o novo b’aktun do calendário maya marcaria então uma fase de mudança na psique da humanidade. Mas assim como a primavera não começa subitamente, as mudanças não acontecerão de imediato, nem acontecerão apenas após a data simbólica, muito menos serão apenas de ordem física. Trataria-se então de um período de transição psicológica e cultural, e um olhar abrangente pra situação planetária atual ilumina a questão e sugere que sim, a tal profecia maya pode ter sentido.

Nunca antes existiu neste planeta uma situação assim. Somos hoje mais de 7 bilhões de humanos, e seremos muito mais em intervalos cada vez menores, pois o crescimento é exponencial. E estamos vivendo como se fôssemos algum tipo de praga que consome tudo e desperdiça quantidades assombrosas, até mesmo daquilo que vai garantir a sobrevivência futura. E sem dar tempo e condições para que os recursos se regenerem. Estamos exagerando no uso da energia fóssil, na mineração e na construção. Estamos erguendo cidades de puro concreto num ritmo nunca antes visto, e partindo pra todos os ecosistemas com ganância de quem ainda quer mais. Esta ganância transparece em nossos sistemas políticos, que vão se esgotando em sua capacidade de gerenciar e representar as vontades e anseios da população em várias partes do planeta. Então as condições sociais se deterioram e as revoltas vão se acumulando e fortalecendo, acontecendo com mais e mais frequência, deixando a todos inseguros e amedrontados. Incluindo os políticos, que se escondem atrás do aparato policial e bélico, e propõem soluções frequentemente fundamentadas na cultura da violência.

banksy, cartão de natal 2012

O medo nos afasta e manifestações de intolerância contra o outro, o diferente, se intensificam e se reproduzem, criando mais fronteiras, mais muros, mais cadeias, mais aparatos de segurança, mais genocídio, ecocídio e etnocídio. Isto diz respeito com toda força ao que acontece com as culturas chamada indígenas, em todo o mundo, que continuam a sofrer com o trauma que se originou em 1492.

Como bem ensinou Jiddhu Krishnamurti, o mundo que fazemos é apenas um reflexo do nosso mundo interior, e não o contrário. Ou seja, não estamos confusos e amedrontados porque o mundo está uma bagunça. O mundo é que está uma bagunça porque nós assim o criamos, porque estamos inseguros e amedrontados.

Assim sendo, a tal profecia maya poderia estar nos dizendo que a hora é propícia para evoluir. Como já colocaram inúmeros místicos, cada qual a sua maneira, crise é um momento de perigo e oportunidade, ao mesmo tempo. A crise pode ser o momento para semearmos a mudança e colhermos crescimento, mas também pode trazer perigo de estagnação e retrocesso. Esse duelo brutal de forças opostas está presente de forma marcante no dia a dia de cada um de nós. Basta olhar em volta, com atenção, e tudo pode ser visto como perigo, ou como oportunidade.

Desse ponto de vista, a profecia maya poderia estar a dizer e calcular que nesta época estaríamos passando por mudanças psíquicas profundas. Mas não apenas nesta época, já que os eventos no tempo eram percebidos, pelos maya, como cíclicos. De fato, sequer há numerosas escrituras maya que digam algo de especialmente relevante sobre esta transição em particular, que chamamos de 2012. Há o monumento VI de Tortuguero, que descreve brevemente o que ocorreria ao final do 13 b’aktun, quando descenderá um conjunto de divindades chamados de B’alu’n Yookte’ K’uh, ou “dos nove pilares” (ou nove suportes). Outra referência específica a esta transição está no grupo de Palenque, e se refere a eventos similares ao da Fecha Era, ou ano zero, sugerindo eventos de grande magnitude. Seja como for, é certeza que trata-se de uma transição de b’aktuns, mas se algo de suprema importância e único vai acontecer, ninguém sabe.

Mas podemos, ao menos, não apenas contextualizar a crise atual pela qual passamos de acordo com a mudança de b’aktun, mas olhar pra trás e resignificar o calendário maya de acordo com outras transições de b’aktun anteriores. Os resultados desse exercício mental são impressionantes. Se um b’aktun tem quase 4 séculos, significa que estamos neste b’aktun desde cerca de 1600 (a conta pelo calendário gregoriano seria 2012 – 394 = 1618, em algum ponto antes de 21 de dezembro, já que o correto é 394,26). A Obra prima de Nicolaus Copernicus foi publicada em 1543 e revelou que a Terra gira em torno do Sol. A obra de Galileo Galilei chacoalhou o mundo católico ao redor de 1615, a obra de Descartes nasceu ao redor de 1640 e as “leis de Newton” foram publicadas por volta de 1680. Assim, foi no início do décimo terceiro e atual b’aktun que aconteceu a grande e conflituosa transição que originou a Ciência, mudou o mundo e nossa maneira de vê-lo. E veio junto o racha traumático que separa, até hoje, a ciência da maioria das religiões.

Ou seja, o b’aktun que está acabando hoje é aquele onde ocorreram os traumas da colonização do mundo por parte das culturas de origem Européia, incluindo a dizimação do povo maya, que pode ter sido prevista pelos próprios mayas. No livro Chilam Balam, de Maní, há uma profecia sobre a chegada dos conquistadores espanhóis, que diz algo próximo de “ocorrerá o itzá e rodará o Tancah“, que descreveria os estrangeiros como “hóspedes barbados que vem do oriente e em suas palavras não dizem verdades”. No décimo terceiro b’aktun aconteceu, portanto, não apenas o genocídio contra os próprios criadores de tal conhecimento, mas também o genocídio de inúmeras culturas e uma perseguição brutal contra tudo e todos que não se conformassem a uma visão específica de mundo.

Mas neste b’aktun a humanidade também mudou completamente de estilo de vida, criou a tecnologia que temos hoje e alterou drasticamente suas relações com o planeta e consigo mesma. Como resultado, também agigantaram-se as discrepâncias entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos, testemunhou-se a escravidão de povos inteiros, o racismo, o nazismo, o fascismo, duas guerras mundiais, bombas atômicas, o terrorismo… Em suma, um b’aktun muito conturbado, conflituoso, paradoxal, antagônico, dual. Caracterizado por muito sofrimento físico, psíquico e espiritual.

Portanto, foi neste b’aktun, o décimo terceiro, que simbolicamente se encerra hoje, que inventamos o materialismo, com todas suas contradições. O materialismo nos deu de presente a bomba e o ipad, a metralhadora e o antibiótico, o GPS que guia o motorista mas também o míssil, nos deu a fábrica, mas nos deixou a poluição. O materialismo nos forneceu uma expectativa de vida sem precedentes, mas também nos trouxe a uma situação de superpopulação sem solução à vista.

Assim sendo, o que está em jogo não é a integridade física do planeta, mas nossa consciência. E não se trata de um jogo rápido. Se um b’aktun correponde a quase 400 anos, para entender do que falavam os mayas seria extremamente simplista e ingênuo buscar respostas em um único dia. Então, não espere que a profecia maya se concretize, ou seja refutada, com base em eventos pontuais, seja a eleição de um presidente aqui ou ali, o fim de uma guerra, o começo de outra, ou alguma descoberta científica chocante. Entretanto, o processo que começa a se desenrolar certamente envolve alguns destes eventos. Como no final do décimo segundo b’aktun foi descobeto que girávamos em torno do sol, no final do décimo terceiro descobriram o Bóson de Higgs…

Se acontecimentos realmente revolucionários aconteceram justamente na última transição de b’aktuns (e pode-se, obviamente, estender este estudo histórico para todas as transições anteriores), pode ser que de fato algo de relevante, bem relevante, esteja por trás dos conhecimentos do calendário maya. Quanto mais se escava informações a respeito dos b’aktuns precedentes, mais incoerente parece a explicação de que seja mera coincidência, totalmente desprovida de significado.

Não seria, portanto, muito alucinante pensar que no novo b’aktun, ganharíamos de presente algo completamente novo e tão transformador quanto foi a invenção da ciência nos idos dos 1600 gregorianos. E que também haverá, como houve à época, enorme resistência.

“O dia em que a ciência começar a estudar fenômenos não-físicos, ela fará mais progresso em uma década do que em todos os séculos de sua existência prévia” Nikola Tesla

Que tal então contemplarmos uma nova ciência, com uma nova visão de mundo? Será que faz sentido interpretarmos esta época inspirados nos maya, como significando uma revolução da consciência? Como o surgimento de uma percepção científica de que há mais entre o Céu e a Terra do que prega e delimita a filosofia materialista?

Algumas ocorrências indicam que sim, que pode ser disto que se trate a profecia maya. Os avanços a solapar o materialismo, a deslocar a matéria como a pedra fundamental da realidade, vieram primeiro com a física quântica. Depois, descobrimos que 90% do universo é composto de algo que não é matéria, que ironicamente nomearam de “matéria escura”. E agora a neurociência, a psicologia e a psiquiatria começam a passar por um processo semelhante ao que passou a física. Uma total ressignificação de conceitos e pressupostos, com mais e mais experimentos mostrando fascinantes resultados sobre a função do cérebro em estados de consciência distintos do comum. Isto inclúi experimentos com meditações, com transes mediúnicos, yoga e também com os psicodélicos, ou enteógenos.

Um bom marco sócio-cultural diretamente relacionado a essa transformação é o início do fim da guerra contra as drogas, marcado pela recente legalização da maconha em dois estados dos EUA. A guerra contra as drogas é nada mais que o alongamento psíquico da inquisição do século XV e XVI para o século XXI gregoriano. Uma inadequada prorrogação da luta e perseguição aos estados de consciência por um b’aktun inteiro! No fundo, não é uma guerra contra substâncias nocivas. É uma guerra contra a consciência. Contra a(s) possibilidade(s) de que a consciência seja algo maior, mais abrangente e misterioso do que a filosofia materialista supõe e é capaz de explicar. É uma guerra cultural contra estados não ordinários de consciência e seus métodos de indução mais confiáveis. Métodos estes que foram centrais para os mayas e para inúmeros outros povos, e que podem estar envolvidos diretamente na própria origem da religião como empreitada humana.

Talvez então a característica filosófica mais marcante do b’aktun que se encerra tenha sido o aprisionamento, tanto da ciência quanto da religião, em apenas um estado de consciência. Paradoxalmente, ao se aprisionarem no mesmo estado, se separaram radicalmente uma da outra. E possivelmente então o que nos aguarda seja a gradual e revolucionária liberação do ser humano para outros reinos, infernais e astrais, da psique. Esta jornada, como bem mostram os resultados pioneiros da psicologia surgida das explorações dos anos 60, incluindo o uso ritual, terapêutico, responsável e científico dos psicodélicos, pode significar o reencontro da ciência com a espiritualidade. Então, a oportunidade de sanar as feridas das guerras e genocídios deste b’aktun estará ao nosso alcance, como já começam a demonstrar pesquisas pioneiras com os psicodélicos.

“Não há conflito entre ciência genuína e religião autêntica. Se há, é porque estamos falando de pseudociência e falsas religiões” Ken Wilber

Principais Referências:

INAH, ruínas e sítios arqueológicos no México, Museo Nacional de Antropologia e o livro “Lo Essencial del Calendario Maya – los señores del tiempo” supervisionado pelo arqueólogo Carlos Pallán Gayol.

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Fazendo as pazes com Papai Noel

Você já parou pra pensar por que levamos pinheiros pra dentro de casa, os decoramos com bolas coloridas e colocamos presentes ao seu redor no Natal? Qual é, de fato, a origem da simbologia natalina?

Enquanto a maioria de nós entende o Natal como um feriado cristão que simboliza qualidades elevadas de caráter como solidariedade, compaixão, esperança, altruísmo etc; apesar de celebrado no mundo inteiro, o evento causa sentimentos controversos. Para uma parcela mais radical a data representa uma espécie de celebração do consumismo materialista e da ganância, banhado com uma calda de hipocrisia. Por outro lado, alguns entusiastas do Natal acreditam que manter uma criança crente na existência do Papai Noel é de certa forma uma crueldade, uma vez que mais tarde elas descobrirão que foram enganadas pelos seus próprios pais. E se perguntam, justamente, que, “se não queremos que elas mintam, porque mentimos para elas?”.

Temos também uma frente mais recente, oriunda da paranóia policiadora do politicamente correto, que também está em guerra contra o bom velinho, que vem sendo crucificado por “sua massa corpórea estar muito além do que recomendam os médicos” (!!),  ataque respaldado por uma manipulação de estatísticas que conclui que “Há uma correlação entre os países que mais veneram o Papai Noel e altos índices de obesidade infantil” (!!!).

Como tudo no mundo contemporâneo, é claro, o buraco é sempre mais embaixo.

“Então, por quê as pessoas levam pinheiros pra dentro de suas casas no solstício de inverno e colocam pacotes coloridos (vermelho e branco) ao redor de seu tronco, como presentes para demonstrar seu amor pelo próximo e como representações do amor de Deus e da dádiva da vida para seus filhos? É porque, embaixo do tronco do pinheiro é a localização exata onde se pode encontrar a mais sagrada substância, a Amanita Muscaria, na natureza.” – James Arthur, “Mushrooms and Mankind”

A Amanita Muscaria é o cogumelo vermelho de pintinhas brancas que habita nosso inconsciente coletivo e a literatura das fadas e do mundo da magia, e que cresce quase que exclusivamente em redes de micélios que coexistem simbioticamente com os pinheiros nos países nórdicos. Também conhecido como o “fungo voador”, seu igrediente ativo principal é o ‘muscimol,’ bem como traços de DMT, ou a “molécula do espírito”, um enteógeno que, de acordo como Dr. Rick Strassman, PHD e pesquisador especializado na molécula, possui fortes evidências de ser produzido pela glândula Pineal no cérebro humano.

“O próprio nome ‘Christmas’ é uma palavra composta de ‘Christ’ (Cristo, no sentido daquele que é embebido com a substância mágica’ e ‘Mass’ (Missa, o trabalho religioso ou cerimônia de ingestão da eucaristia sacramental, o Corpo de Cristo’). Na tradição católica, esta substância (corpo/soma) foi substituída pela doutrina da ‘transubstanciação’, em cujas cerimônias os padres clamam a habilidade de transformar uma bolachinha redonda (a hóstia) no Corpo de Cristo literal; ou seja, um susbtituto, ou placebo.” – James Arthur, “Mushrooms and Mankind”

Ao passo que a maioria de nós entende o Natal como um feriado cristão, ele tem suas origens em tempos mais remotos, das tradições xamânicas dos povos tribais do norte da Europa pré-cristianismo. Esses cogumelos eram usados pelos povos ancestrais para clarividência e experiências transcendentais. A maioria dos elementos da tradição natalina, como o Papai Noel, as árvores de Natal, as renas voadoras e a troca de presentes são baseadas nas tradições que envolviam a colheita e consumo desses cogumelos sagrados.

Os povos ancestrais da região, incluindo os Lapps da hoje Finlândia, e as tribos Koyak das estepes centrais da Rússia, acreditavam na idéia da “Árvore do Mundo”. A Árvore do Mundo era vista como uma espécie de eixo cósmico, no qual os planos do universo são afixados. As raízes da Árvore do Mundo se esticam pra dentro dos mundos inferiores, seu caule está na “Terra do meio”, da existência cotidiana, e seus galhos alcançam pra cima, em direção aos reinos dos céus. Para os povos ancestrais, esses cogumelos eram literalmente as “frutas da Árvore”.

A Estrela do Norte também era considerada sagrada, uma vez que, ao olho do observador, todas as outras estrelas rotacionavam em torno deste ponto fixo. Eles associavam esta “Estrela Polar” com a Árvore do Mundo e o eixo central do universo. O topo da Árvore do Mundo tocava a Estrela do Norte, e o espírito do xamã escalava a árvore metafórica, passando para o reino dos deuses. Este seria o significado original da estrela no topo da árvore de Natal moderna, e também o motivo pelo qual o “super-xamã” Papai Noel vive no Pólo Norte.

As analogias prosseguem. Um dos efeitos colaterais da ingestão da Amanita é sentido na pele, através de uma “vermelhidão” que pode ser percebida com mais facilidade nas extremidades do rosto. É por isso que o Papai Noel é sempre ilustrado com nariz e bochechas avermelhados. Até seu riso “Ho, ho, ho!” corresponde de certa forma ao riso eufórico daqueles que mergulham na indulgência com o fungo mágico.

Papai Noel também se veste como um coletor. Quando era tempo de sair para fazer a coleta dos cogumelos mágicos, os xamãs ancestrais da Sibéria vestiam-se de forma correlata, com casacos de pele e longas botas.

Os povos da região viviam em tendas feitas de madeira e pele de rena, chamadas “yurts”. A chaminé central dessas tendas era também usada de entrada, uma vez que o enorme volume de neve que se acumula no solo bloqueia uma entrada frontal. Após a colheita, os xamãs voltavam pra casa com seus sacos cheios nas costas. Ao adentrar as tendas dos habitantes destas tribos, eles presenteavam os mesmos com os frutos mágicos de sua colheita. Também não é coincidência que as renas que habitam estas regiões sejam grandes comedoras de cogumelos  Amanita, o “fungo voador”.

Ao compreendermos melhor as origens destas celebrações, nós podemos compreender melhor o mundo contemporâneo, e nosso lugar nele. Papai Noel não é uma mentira, e o verdadeiro espírito do Natal não reside na troca de brinquedos de plástico, mas na celebração de um presente da terra: o enteógeno, a planta ou substância capaz de gerar o “Deus interior” e as experiências reveladoras e visionárias que dele podemos extrair, que no fundo remetem ao grande denominador comum entre todos nós: o amor e a comunhão.

Nós do Plantando Consciência desejamos um Feliz Natal a todos, e um 2011 repleto de visões, frutífero para o despertar!

Saiba mais:

http://www.plantandoconsciencia.org/pharma.htm

Livros (em ingles):

– Mushrooms and Mankind, de James Arthur
– Soma: Divine Mushroom of Immortality, de Gordon Wasson
– Mushrooms, Poisons and Panaceas, de Denis R. Benjamin
Astrotheology and Shamanism:  Christianity’s Pagan Roots
A Revolutionary Reinterpretation of the Evidence
, de Jan Irvin e Andrew Rutajit
The Sacred Mushroom and the Cross, de John Marco Allegro

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Diversão com cogumelos

A criação da consciência moderna ocidental trouxe consigo uma repressão violenta de nossa herança arcaica. Esta herança incluia a habilidade de explorar reinos mágicos e sagrados através  da ocorrência espontânea de estados de êxtase, de rituais de iniciação ou por meio de compostos visionários encontrados em certas plantas. Por muitos milhares de anos, o conhecimento direto do sagrado era uma parte natural e universal da existência humana, como ainda permanece em culturas tribais. Com a ascensão do Estado moderno e da Igreja, a interação com realidades místicas foi alienada das massas e explicitamente demonizada. A comunhão com o sagrado foi reservada para os padres. Durante a Santa Inquisição, danças sagradas com os espíritos da natureza ou contatos com as almas dos mortos tornaram-se heresias. A punição para estes crimes era severa.

O processo dialético que criou o pensamento possessivo do capitalista e a aparência racional do tecnocrata demandaram a destruição de vestígios de crenças pré-modernas animísticas e comunais, estivessem estas crenças em populações isoladas da Europa ou em populações indígenas do Novo Mundo. Esta destruição era parte do processo que Karl Marx descreveu como a alienação de todos os nossos sentidos físicos e intelectuais em apenas um: o sentido da posse. Claro, o “sentido da posse” não é realmente um sentido – é uma ilusão de realização pessoal que parece se estender para fora do ego.

A modernidade causou uma mudança dramática na maneira como usamos nossos sentidos. Em seu livro Myth and Meaning (Mito e Significado), Lévi-Strauss admitiu seu choque inicial quando descobriu que tribos indígenas eram capazes de ver o planeta Vênus durante o dia, a olho nu – “algo que para mim seria absurdamente impossível e incrível.” Mas ele aprendeu com astrônomos que era de fato possível e encontrou relatos antigos de navegadores ocidentais com a mesma habilidade. “Hoje usamos menos os sentidos e usamos mais de nossa capacidade mental do que no passado”, concluiu. Nós sacrificamos capacidades perceptuais por outras habilidades mentais – nos concentrar numa tela de computador enquanto sentados num cubículo por muitas horas seguidas (algo que aqueles indígenas achariam “absurdamente impossível e incrível”), ou desligar múltiplos níveis de consciência enquanto dirigimos um carro no trânsito pesado. Em outras palavras, somos criados em um sistema que nos ensina a postergar, retardar e eliminar a maioria das informações sensoriais em favor de uma futura recompensa. Nós vivemos em um ciclo de retroalimentação de atraso da recompensa perpétuo. Quase sempre, nem ao menos temos noção do que é que perdemos.

Pessoalmente, eu não tinha consciência do que estava perdendo até que comi cogumelos. Durante estas viagens iniciais eu descobri que estava preso num estado de postergação da expectativa e um compulsório distanciamento de mim mesmo. Eu tinha o hábito neurótico de um intelectual constantemente tentando observar a mim mesmo de algum ponto imaginário e objetivo fora de mim, e esse caminho impossível drenou minha energia e impossibilitou conectar-me com o presente. Cogumelos não me curaram disso – por um longo tempo apenas o álcool podia obliterar a divisão, e levei anos para solucionar o problema – mas os pedaços de cogumelos desidratados me fizeram perceber, pela primeira vez, exatamente o que eu estava fazendo errado.

A consciência moderna está desperta para o materialismo, para o incorpóreo  “sentido de ter”, para a visão mecanicista de mundo e o método científico de observação empírica. Sua antítese é a mente arcaica, viva para o mundo dos sentidos, em contato íntimo com o sagrado como ele é revelado pelo mundo natural, através de sonhos e visões. Para este tipo de consciência, Henry Miller descreveu que “O objetivo da vida não é possuir, mas irradiar”.

Há uma rachadura cultural entre o foco no cérebro, o hardware material no qual a consciência opera, e o estudo da mente, o nexo incorpóreo de tudo que experienciamos. A ciência ocidental estuda obsessivamente os mecanismos “objetivos” do cérebro, as vias de seus neurônios e suas densas florestas de sinapses, sem compreender a natureza da consciência. O xamanismo arcaico é uma tecnologia para explorar a verdade “subjetiva” da mente através de processos visionários, sonhos, mitos e interação com a natureza. De acordo com a psiquiatria atual, doenças mentais têm causas físicas que podem ser tratadas, até certo ponto, com medicamentos adequados. Na perspectiva xamânica, não apenas desordens mentais mas também as físicas têm causas não físicas – espirituais – que devem ser abordadas para uma cura efetiva.

As plantas visionárias são os espíritos guia de culturas ancestrais. Elas são sagradas porque despertam a mente para outros níveis de consciência. São um portal para um universo espiritual, ou multidimensional. No mundo moderno as substâncias derivadas destas plantas continuam a ser demonizadas, ridicularizadas e sobretudo suprimidas. No início dos anos 60, quando um entrevistador reduziu a fascinação de Aldous Huxley com os psicodélicos a uma “diversão com cogumelos”, Huxley respondeu em termos fortes: “O que é melhor, ter diversão com cogumelos ou idiotização com ideologia, ter guerras por causa de palavras, ter as leis de amanhã baseadas nas crenças de ontem?

Este racha cultural permanece uma divisão profunda. Enquanto escrevo isso, drogas psicodélicas foram novamente desmerecidas como “brinquedos da geração hippie” na seção científica do New York Times. Parece que nenhum jornal ou revista, sério ou de grande circulação,  possa publicar um artigo sobre alucinógenos sem ridicularizá-los de alguma forma.* Psicodélicos, catalisadores químicos de mundos interiores supremos, permanecem banidos e mal entendidos porque ocupam um ponto de contradição direta e possível síntese entre o materialismo baseado no cérebro e o xamanismo orientado espiritualmente.

A exploração e estudo não enviesado destas moléculas expansoras da mente – um legado da pesquisa científica e psicológica dos anos 50 interrompido pela forte histeria dos anos 60 – é um caminho para unificar estas abordagens opostas sobre a natureza da realidade.

Talvez seja o único caminho.

Daniel Pinchbeck, “Breaking Open the Head”, capítulo 9 (2002), também autor de “2012 – O Ano da Profecia Maia”, livros inspiradores do documentário “2012 – Tempo de Mudança”, com sessão última nesta sexta-feira, dia 15/10 as 20:00 na Cinemateca Brasileira (Largo Senador Raul Cardoso, 207 – Vila Clementino – São Paulo).

* Entre a publicação do livro e esta tradução muito mudou referente ao que diz este parágrafo, ao menos pra quem segue de perto os avanços da área. Por outro lado, pouco mudou no (in)consciente coletivo da população em geral.

Traduzido e ilustrado por PC.

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Possibilidades positivas para os psicodélicos

“Por que ainda não vimos uma imagem completa da mente?”

por James Fadiman. Publicado originalmente em 10/02/10, no dharma cafe. Tradução de Plantando Consciência

Se o recente sucesso da comédia familiar “Simplesmente Complicado* e a sucessão de iniciativas legalizantes acontecendo na Califórnia servem como algum indício, a maconha finalmente alcançou respeitabilidade em larga escala. Mais marcante ainda, apesar da atmosfera repressiva ter resistido e sufocado a primeira década do nosso admirável século novo, a pesquisa com psicodélicos nos EUA entrou em sua era de ouro.
James Fadiman, talvez a maior e mais respeitada autoridade americana sobre psicodélicos e seus usos, nos dá um valioso panorama.

As substâncias químicas da transformação e da revelação que abrem os circuitos de luz, visão e comunicação, chamadas por nós de manifestadoras da mente, são conhecidas de povos indígenas como medicinas: os meios dados ao homem para conhecer e curar, para ver e dizer a verdade.
Henry Munn

Para os envolvidos com psicodélicos esta é uma época de mudanças inesperadas, um momento para celebrar, mas com cautela. Após décadas de inverno, o gelo está derretendo. O aquecimento rumo à legalização, uso religioso, médico e psicoterapêutico, a exploração cientifica e a aceitação cultural são encorajadores.
Após tantos anos, por que agora? Talvez porque a geração que suprimiu a pesquisa, criminalizou o uso pessoal e encarcerou usuários esteja saindo do poder. Esta próxima geração é melhor preparada para admitir a ineficácia da opressão criminalizante e considerar suavizá-la. É muito mais fácil para aqueles que nunca votaram pelas leis atuais reconhecer que algumas, aprovadas com pressa ou ignorância, são contraproducentes e inviáveis.
Enquanto a agenda de pesquisa da comunidade científica focou na restauração do uso terapêutico, as mudanças mais dramáticas foram no campo do status legal do uso pessoal privado. As nações parecem estar sacudindo a poeira do medo induzido pelos excessos dos anos 60. A resposta fóbica do governo norte-americano e a pressão dos EUA sobre outros estados parecem estar seguindo estes rumos. Como flores selvagens brotando de rachaduras no concreto, mais países estão definindo suas próprias políticas.
A Holanda permite a muito tempo a obtenção fácil e o uso de alguns psicodélicos, mas parou antes da formalização jurídica. Portugal legalizou todas as drogas em 2001 e deixou explícito que o tratamento estaria disponível para qualquer usuário que necessitasse. Os “do contra” insistiram ansiosamente que isto teria consequências terríveis, mas os resultados foram totalmente benéficos: menos vício, menos problemas sociais, menos crime, menos uso, mais unidades de tratamento e economias gigantescas em policiamento e cadeias.
O México legalizou, em 2009, pequenas quantidades de todas as drogas previamente ilegais. Isto foi feito, em parte, para liberar recursos para tentar eliminar os grandes cartéis de traficantes. Como as drogas ilegais, incluindo cocaína, heroína e seus derivados são primariamente fabricados para o mercado norte-americano, o foco agora é minimizar as atividades na fronteira. A República Tcheca relaxou as penalidades para posse de pequenas quantidades de substâncias manufaturadas como MDMA (ecstasy, N.T.). A base para estas reformas é o reconhecimento das seguintes realidades:

1. Psicodélicos não causam vício. Nunca causaram.

2. A maconha, diferentemente do tabaco e do álcool, não causa síndromes médicas sistêmicas. Apenas nos EUA, o tabaco – legalizado, viciante e regulado – diretamente contribui para a morte de 400 mil pessoas por ano. A maconha – ilegal, não viciante e não regulada – (e talvez utilizada por mais pessoas que o tabaco) não mata ninguém

3. Drogas ilegais são ímãs da violência. Foi verdade quando os EUA proibiram o álcool; é igualmente verídico para qualquer outra substância desejada e proibida. Se são removidas as penas para substâncias benignas, ou ao menos não-viciantes, o uso pessoal na verdade diminui – pelo menos na Holanda e em Portugal, os únicos dois países para os quais temos dados reais. A outra estatística que temos é que nos estados norte-americanos que regulamentaram a maconha medicinal não houve aumento no consumo de maconha para outros fins, apesar das previsões anteriores feitas por pessoas contrárias a esta nova legislação.

Um segundo grupo de países não mudou suas leis, mas seus sistemas jurídicos alegam que a constituição afirma o direito de realizar atividades privadas de alteração da consciência. No Brasil e na Argentina concluiu-se que é ilegal negar a pessoas o direito ao uso pessoal de qualquer substância, desde que isso não leve a comportamento criminal ou socialmente inaceitável.
O terceiro grupo de países, ainda inseguros sobre qual direção seguir, inclui os EUA. Nos EUA, políticas que agruparam maconha, psicodélicos e drogas viciantes levaram a um aumento da população carcerária, a proliferação de atividades criminais internacionais altamente lucrativas, distorções econômicas nos países que produzem as drogas ilegais para consumo nos EUA e um crescente desrespeito ao governo que não consegue resolver a situação. O efeito colateral é que estas políticas custam bilhões de dólares anuais.
Apesar da relutância de Washington em mudar, alguns estados usaram sua liberdade para permitir que pessoas usem maconha como medicamento. Até a administração Obama, o governo federal fez o seu melhor para romper com estas legislações e manter todos os usuários criminalizados. Uma indicação do quanto há de demanda por maconha medicinal surgiu em LA poucas semanas após a decisão de permitir tal uso, com a abertura de 800 lojas, deixando para trás o número de bancos ou escolas públicas na cidade. A tendência para legalização está acelerando conforme fica mais e mais óbvio que uso de maconha não leva a comportamentos violentos ou criminais. O fato de que os últimos três presidentes fumaram maconha em algum momento de suas vidas não foi esquecido por reformistas ou pelo público em geral. A maconha não é um psicodélico, mas é uma substância alteradora de consciência usada tradicionalmente para fins espirituais e terapêuticos. Conforme seu status muda, fará com que plantas e substâncias alteradoras de consiência com maior potência sejam menos demonizadas.
Vários estados, com destaque para a Califórnia, mas também Nevada, Washington e Flórida, estão tentando iniciar suas ações para descriminalizar ou legalizar a maconha. Na Califórnia, o principal argumento é que sobre a produção, apesar de ser uma das maiores indústrias do estado, não incidem impostos e que sua interdição é cara e mal-sucedida. A idéia é transformar um ralo de dinheiro desperdiçado em fonte de renda para o estado. A proposta da Califórnia, que já têm o número necessário de assinaturas para ir para votação, torna a posse de aproximadamente 30 gramas legal; permite cultivo pessoal em jardim de não mais de 2,3m2, proíbe a venda para menores e proíbe fumar em público. As especificidades de regulação e de impostos são deixadas para as autoridades locais.

Soma-se a isto, e agora diretamente relacionado aos psicodélicos e liberdade religiosa, que várias cortes estabeleceram que grupos religiosos usando ayahuasca como seu sacramento central podem praticar sua fé sem medo de serem presos. Estes casos são um primeiro passo para a restauração da liberdade religiosa com uso de psicodélicos em outras situações.

Até o absurdo de proibir o cultivo do cânhamo, como se fosse maconha (comparável a colocar malzbier na mesma categoria da skol) está ganhando um novo olhar. Produtos importados feitos de cânhamo, incluindo aqueles para consumo humano, estão novamente disponíveis; e Washington seguiu o exemplo do Canadá e de dúzias de outros países, permitindo o cultivo, colheita e comércio de cânhamo. Parece haver, se não um fim na falta de bom senso do establishment proibicionista, pelo menos algumas rachaduras.
Tornar a maconha legal e cobrar impostos de seu comércio reduz o orçamento das forças repressivas – e seus poderes. A reação virá do sistema proibicionista-criminalizador-carcerário-policial, instituições cujos lucros ou cuja própria existência depende de repressão e sentenças. Muitos departamentos policiais, por exemplo, que dependem do dinheiro apreendido em operações de tráfico como sua maior fonte de renda, irão lutar contra a legalização que lhes causa perda de renda.
Apenas agora, na fase preliminar da liberalização, estamos começando a ter evidências científicas sobre os psicodélicos disponíveis. Seria inapropriadamente otimista esperar legislações baseadas em evidências em qualquer momento próximo, mas pode-se esperar mais países relaxando suas restrições conforme os benefícios de o fazer se tornem mais aparentes.

Uso Enteogênico
As restrições legais acabam com a pesquisa tradicional, mas pouco fazem para prevenir a contínua proliferação de psicodélicos por meios culturais. É difícil dizer quais das muitas áreas culturais foram mais influenciadas por psicodélicos. Por exemplo, Jack Kornfield, um respeitado estudioso budista, diz: “É verdade que a maioria dos professores budistas americanos tiveram experiências psicodélicas, ou logo depois de começarem suas práticas espirituais ou antes disso.” Este uso, na verdade, não contradiz os preceitos budistas. Minha própria experiência é de que professores em muitas outras áreas espirituais também começaram suas jornadas após importantes experiências psicodélicas.
Um grupo na John Hopkins University está engajado em uma série de estudos para determinar se psicodélicos utilizados de maneira segura e ritualizada leva a maioria das pessoas a experiências espirituais. Não surpreendente, a resposta é sim. Mais importante que a pesquisa em si foi que ela quebrou uma grande barreira: o governo permitiu, pela primeira vez, um estudo científico que fazia perguntas espirituais e não apenas médicas. Também impressionante foi a atenção que a grande mídia deu ao fato. Mais de 300 publicações relataram os resultados após sua publicação em revista científica. Surpreendentemente, um relato positivo apareceu no Wall Street Journal. Mais informativo, olhando para tendências, foi um curto artigo num jornal esportivo escocês: “Cogus te levam as alturas.” Os editores assumiram que seus leitores conheciam a gíria para os cogumelos psicodélicos e que não seria necessário um artigo extenso para dizer aos leitores que a ciência havia descoberto aquilo que eles já sabiam.
Igualmente importante, uma rede de sites agora satisfaz a necessidade de se ter rápido e fácil acesso a informação sobre uso seguro de psicodélicos. O principal é o Erowid, que traz relatórios e informações, artigos técnicos, dicionários moleculares interativos, arte visionária, descrições de perigos e contra-indicações bem como milhares de relatos pessoais sobre o uso de dúzias de substâncias. O site têm média de 50.000 visitas diárias, número que cresce a cada ano desde seu lançamento. Navegar pelo erowid deixa claro que 40 anos de repressão inapropriada dificultaram o uso consciente, mas uma cultura underground está sendo bem sucedida.
Outro fenômeno recente é a crescente popularidade da ayahuasca. Enquanto outros psicodélicos são frequentemente usados com fins recreativos, a ayahuasca é quase sempre utilizada com guias ou xamãs. Nos anos 60, um rito de passagem era visitar a Índia, estudar com um guru e praticar austeridades em um ashram. Os psiconautas contemporâneos partem para a floresta para conhecer e trabalhar com os curandeiros tradicionais e suas plantas medicinais, sendo a principal a ayahuasca. As viagens para a Índia são principalmente sobre realização pessoal, mas a intenção dos que buscam a imersão na floresta sulamericana quase sempre inclui cura pessoal e um imenso interesse em reparar o abismo entre a humanidade e os outros reinos biológicos.

Dois debates continuam, ecos da expansão de consciência dos anos 60. Um é sobre a validade de experiências induzidas por plantas ou substâncias químicas quando comparadas a experiências alcançadas pela meditação, reza, movimento, jejum, etc. Os argumentos se aquecem e esfriam de quando em quando, mas nunca serão finalizados. O outro debate – entre aqueles que tomam psicodélicos sintéticos e aqueles que não – também segue sem esperanças de um lado convencer o outro. Gordon Wasson, que descobriu o uso dos cogumelos psicodélicos para o Novo Mundo, foi entrevistado sobre a diferença entre os cogumelos e a psilocibina posteriormente sintetizada pela farmacêutica Sandoz. Ele disse: “Eu não vi nenhuma diferença. Acho que as pessoas que encontram diferenças estão procurando por uma e então imaginam que a encontraram.” O importante é o efeito que a experiência produz na vida do sujeito e não as sutilezas deste ou daquele produto.

Uso Médico/Psicoterapêutico
O uso médico e psicoterapêutico dos psicodélicos está de volta! Se alguém disse que esta é a época de ouro, seria mais apropriado dizer que está exposta a ponta do iceberg. Uma enorme comunidade de cientistas está animada para recomeçar pesquisas que foram atrasadas por décadas. Conferências científicas honrando o trabalho de Albert Hoffman em sintetizar o LSD e outros psicodélicos levaram mais de 2.000 pessoas de 37 países a Basel, na Suíça, em 2006 e 2008. Duzentos jornalistas de todas as partes do planeta cobriram as apresentações – um memorável momento para uma substância que é mantida ilegal por tantos anos (em abril deste ano acontecerá em São Francisco, Califórnia, o congresso “Ciência Psicodélica no Século XXI“, organizado pela MAPS, consolidando a tendência de reestabelecimento de pesquisas psicodélicas em todo o mundo, N.T.).
Enquanto algumas pesquisas recentes são repetições de trabalhos feitos antes de tudo ser desmantelado, novas áreas de pesquisa revelam como psicodélicos ajudam a aliviar condições médicas que não têm tratamento convencional disponível. É notável que até agora não tenham aparecido oposições para acabar com este trabalho. As reações poderiam ser diferentes se fosse demonstrado que uma dose apropriada de psicodélicos a cada seis semanas tivesse efeito antidepressivo. Neste caso, poderia haver oposição severa da indústria farmacêutica e fornecedores de antidepressivos. Por concentrar-se em uma ou poucas condições severas, os pesquisadores driblam esta possível oposição. De fato, têm recebido apoio dos colegas médicos, como por exemplo no caso das cefalélias em salvas (cluster headaches). Inicialmente comunicadas entre usuários ilegais cujas conversas vieram a público, os efeitos medicinais estão sendo avaliados por um estudo em andamento em Harvard. Resta saber se aquilo que ja está razoavelmente bem descrito na prática consegue ser provado pelos estudos farmacológicos duplo-cego, pelo sistema de publicação com avaliação por pares e, mais importante, finalmente se tornar disponível na prática clínica corriqueira.
Outro estudo promissor está dando psilocibina para pacientes altamente ansiosos, em estágio de câncer terminal. Os resultados mostram que uma única sessão em um ambiente seguro e encorajador, permitindo que o sagrado, caso ocorra, seja vivenciado, beneficia tanto o paciente quanto sua família. Outro tratamento, mais controverso – outrora permitido nos EUA mas agora apenas em outros países – usa a iboga, planta psicodélica Africana, para quebrar o ciclo viciante da heroína. Dados os poucos tratamentos disponíveis e o alto custo do vício, tratado ou não, esta área deveria ganhar mais atenção e apoio no futuro. Na verdade, o tratamento é tão valioso que ex-viciados estão ilegalmente tratando outros viciados sem o apoio médico.
Inexplicavelmente, o que ainda está para retornar é a terapia psicodélica para o alcoolismo, de longe a mais pesquisada, testada e comprovada terapia da era pré-proibicionista. Virtualmente nada tem sido escrito nos anos recentes, nem mesmo nos circuitos alternativos. Permanece um setor largamente ignorado em meio ao que é a atual renascência das pesquisas com psicodélicos.
Vários outros países, incluindo a Alemanha, Suíça e Israel, estão permitindo ou apoiando projetos psicodélicos primariamente envolvidos no uso de MDMA para ajudar pessoas a superar os debilitantes efeitos crônicos do estresse pós traumático. Com centenas de milhares de militares retornando do Iraque e do Afeganistão com esta síndrome, a demanda por tratamento com alto índice de cura está se intensificando. O fato de que veteranos do Vietnam seguem em outros tratamentos até hoje faz com que seja mais provável que o tratamento com MDMA seja oferecido a eles. Talvez, assim como com as cluster headaches, os primeiros relatos serão de veteranos se auto-medicando e ajudando uns aos outros, como já acontece com a maconha. O sistema hospitalar de veteranos está sem fundos, sem equipe e com excesso de pacientes e portanto sem ajuda externa é improvável que consiga estabelecer avanços.
Ainda há, é claro, uso contínuo e extenso de psicodélicos para auto-conhecimento, ilegalmente e sem os guias adequados. Um levantamento entre estudantes encontrou que a razão mais citada para uso de psicodélicos era exploração pessoal, e não uso recreativo ou espiritual. Assim como a aceitação da maconha medicinal aumentou o número de lojas onde pacientes podem comprá-la, se as tendências seguirem podemos esperar o surgimento de clínicas e instituições especializadas no tratamento psicoterapêutico com diferentes tipos de psicodélicos.

Criatividade e solução de problemas
O termo psicodélico já é de conhecimento público para descrever certos tipos de música e arte visual. Não carrega nenhum estigma o artista que declara que psicodélicos influenciaram numa música, pintura ou produção teatral. Seu uso é largamente aceito no mundo técnico mesmo que não haja discussões profundas sobre o tema.
Durante a revolução digital, empresas foram formadas por pessoas que cresceram com psicodélicos facilmente disponíveis. O uso de drogas para eles era casual e frequente. Recentemente dois ganhadores do prêmio Nobel atribuíram aos psicodélicos parte importante de suas descobertas, sugerindo que o uso é bem maior e disseminado na comunidade científica do que é geralmente aceito (Francis Crick e Kerry Mullis, N.T.).
Em paralelo aos milhares que acompanharam as conferências científicas em Basel estão as hordas que se dirigem anualmente ao Boom Festival na Europa e ao Burning Man em Nevada, EUA. Nem todos os 50.000 burners tomaram psicodélicos, mas a vasta maioria sim.

No YouTube, vídeos individuais sobre fatos e conceitos psicodélicos estão sendo acessados por um milhão de usuários. Em 2009, a National Geographic conseguiu vender o espaço publicitário para toda o seu horário nobre na TV sobre “drogas”. A sessão começou com uma hora sobre meta-anfetamina. A segunda hora passeou pelo mundo da maconha, seu plantio, cultivo, venda e uso. A hora final foi sobre o uso contemporâneo de psicodélicos por artistas para melhorar e expandir suas habilidades. Estes programas indicam quão longe estamos da propaganda anti-marijuana “Reefer Madness“, distribuída em 1936 como programa “informativo”.

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Conclusões
A tendência geral é de maior abertura e disponibilidade de informações. Guias treinados para sessões espirituais e científicas ainda são raros de se encontrar por aí, mas as forças culturais e mercadológicas favorecem a criação de instituições para esta finalidade.
Este panorama é baseado na esperança otimista de que os usos adequados destas substâncias fenomenais não serão prejudicados por popularização trivial, como ocorreu quando os psicodélicos foram proibidos.

As forças contrárias a aceitação mais generalizada incluem os suspeitos usuais: estupidez, medo, ganância, egoísmo e inércia. Os grupos criminais e as forças repressivas governamentais e carcerárias empregadas para fazer as leis já estão ativas. Na Califórnia, o sindicato de guardas carcerários está entre os grupos que mais doam para campanhas políticas e que sem dúvida não medirão esforços em combater as iniciativas legalizantes. Alguns membros de religiões organizadas sem dúvida estarão entre a oposição. Quase todas as instituições religiosas tem burocracias veladas para dizer que são a única ponte entre a fé e o divino. No passado, a possibilidade de contato espiritual direto fornecido pelos psicodélicos era vista como ameaça a este status quo (ver Xamãs da Amazônia, A Inquisição Farmacrática e Outros Mundos, N.T.). Recentemente, entretanto, a lei norte-americana permitiu que igrejas usem substâncias psicodélicas como o sacramento que realmente são. Resta-nos esperar que uma nova geração de líderes na grande mídia e igrejas se inspire nisso.

Oposição adicional pode vir do sistema financeiro internacional. Se isto soa improvável, é apenas porque a maioria de nós desconhece o valor do comércio ilegal. Um estudo da ONU sobre a recente crise de 2008-2009 concluiu que uma das poucas fontes initerruptas de liquidez foram os lucros de US$232 bilhões (este é de fato o número real!) com a venda de drogas ilegais. A maioria deste lucro vêm de drogas como cocaína e heroína, mas manter as leis confusas serve melhor a estes interesses do que leis voltadas apenas para drogas aditivas.

Por mais favoráveis que estas tendências possam parecer, o que mais importa é como seu entendimento de você mesmo e de seu lugar na ordem natural das coisas foi clareado ou enriquecido pelo uso de psicodélicos. Se os insights resultantes não forem integrados na sua vida, eles podem ser trivializados, ignorados ou patologizados. O teólogo Huston Smith diz que a questão não é se estas substâncias induzem experiências místicas, mas se o seu uso leva a uma vida religiosa. O pesquisador psicodélico e praticante budista Rick Strassman diz: “Experiência espiritual isolada, mesmo repetidamente, não é a base para se tornar uma pessoa melhor. Ao contrário, os insights psicodélicos apropriadamente escalonados e postos em prática com considerações morais e éticas parecem ser o melhor caminho para colher os frutos das drogas psicodélicas.

Em muitas culturas, o explorador psicodélico é chamado para encontrar algo de útil para sua sociedade – descobrir os potenciais terapêuticos de uma planta, trazer de volta uma música de cura ou receitas para as pessoas viverem em harmonia consigo mesmas e com o mundo natural. O fato de que os psicodélicos facilitam tais experiências não diminui a responsabilidade.

A questão colocada pela poeta Mary Oliver, “O que é que você pretende fazer com sua única e preciosa vida?” é o que os psicodélicos nos impelem a levar a sério.

*Nos EUA houve polêmica sobre o filme porque os personagens fumam maconha. Algumas instituições, como a Motion Pictures Association of America (MPAA) criticaram o filme por isso e pelo fato de nada ruim acontecer aos personagens devido a fumarem maconha. A MPAA recebeu muitas críticas por esta posição extremamente conservadora.

Nascido em maio de 1939, James Fadiman se graduou em Relações Sociais pela Harvard University em 1960 e realizou mestrado e doutorado em psicologia na Stanford University, em 62 e 65, respectivamente. Nos últimos 40 anos lecionou uma grande variedade de tópicos, consultas, treinamentos, aconselhamentos, editoriais e exerceu outras funções. Enquanto vivia em Paris durante seus anos de estudante, James Fadiman foi apresentado aos psicodélicos pelo seu supervisor na graduação, Richard Alpert (Ram Dass), que estava a caminho de Copenhague com Tim Leary e Aldous Huxley para a primeira grande apresentação em uma conferência internacional sobre os potenciais positivos dos psicodélicos.

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A Centopéia

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