Posts Tagged deus

DMT – A Molécula do Espírito

Com satisfação convidamos a todos para mais uma sessão de cinema no Cineclube Sócio Ambiental. Dessa vez apresentaremos o documentário sobre a N,N-dimetiltriptamina, molécula que todos temos naturalmente em nosso cérebro e pulmões, e que quando ingerida em maiores quantidades e por vias específicas, catapulta seres humanos para outras dimensões.

Um paradoxo entre ciência e espiritualidade, o filme será seguido de um debate. Tudo no melhor espírito de comunidade, com entrada colaborativa: leve doações!

(vídeo com legendas em português ou inglês. Basta dar play e depois clicar no “CC” que vai aparecer, para escolher o idioma)

 

Comments (6)

Um inventário do invisível

Deixe um comentário

Ciência, um Delírio

É tempo para a ciência superar o materialismo

A ortodoxia rígida do século XIX tem que ser desafiada para permitir interpretações mais amplas, argumenta o biólogo Rupert Sheldrake

A Guerra das Visões de Mundo

Werner Heisenberg, prêmio Nobel e um dos fundadores da física quântica, observou certa vez que a história pode ser dividida em períodos de acordo com os  quais uma visão dominante sobre a matéria predominou. No seu livro Física e Filosofia (Editora da Universidade de Brasília), publicado no início dos anos 60, ele argumenta que no início do século XX nós entramos em um novo período. Foi nesta época que a física quântica descartou o materialismo que dominava as ciências naturais no século XIX.

Sobre o materialismo, ele escreveu:

“(Este) enquadramento era tão estreito e rígido que era difícil encontrar um lugar nele para muitos dos conceitos de nossa linguagem que sempre pertenceram ao seu próprio substrato, por exemplo, o conceito de mente, de alma humana ou de vida. A mente podia ser introduzida no quadro geral apenas como uma espécie de espelho do mundo material.”

Hoje nós vivemos no século XXI, mas parece que ainda estamos empacados nesta visão estreita e rígida sobre as coisas. Como Rupert Sheldrake relata em seu novo livro, publicado lá fora recentemente, The Science Delusion (Ciência, Um Delírio, em referência a The God Delusion – ou Deus, Um Delírio – de Richard Dawkins): “O sistema de crenças que governa o pensamento científico tradicional é um ato de fé, apoiado numa ideologia do século XIX.”

Esta é uma retórica provocadora. Ciência como um ato de fé? Ciência como um sistema de crenças? Mas senão, como explicar o apego à cosmologia mecanicista e fisicalista, que não vê propósito nas coisas? Como Heisenberg explicou, no mundo da física faz tempo que não se pensa mais em átomos como coisas. Eles existem como potencialidades ou possibilidades, e não objetos ou fatos. Ainda assim, o materialismo persiste.

Heisenberg recomendou mantermos contato com a realidade da maneira como a experimentamos, o que quer dizer deixarmos um espaço aberto para os conceitos de mente e alma. A visão mecanicista irá passar, ele tinha certeza. De certa forma, a carreira científica de Sheldrake tem sido devotada a esta derrocada. Ele começou num posto estabelecido como diretor de estudos em biologia celular na Universidade de Cambridge, apesar de ter desafiado a ortodoxia quando propôs sua teoria dos campos morfogenéticos.

Ela foi elaborada para lidar com, vamos dizer, a enorme complexidade da estrutura das proteínas. Uma abordagem convencional, que poderia ser descrita como “causação ascendente” (de baixo pra cima: a vida seria criada a partir dos menores “blocos de construção” existentes para cima, ou seja, em direção a moléculas mais complexas, até chegar aos animais e plantas), vê as moléculas de proteínas “explorando” todas os padrões possíveis até que possam se assentar num modelo com um gasto mínimo de energia. Esta explicação funciona bem para moléculas simples, como o dióxido de carbono. Entretanto, proteínas são grandes e complicadas. Como Sheldrake nota: “O tempo que levaria para que uma proteína fizesse isso é de aproximadamente 1026 anos, muito mais que a idade do universo.”

Como consequência, alguns cientistas estão propondo explicações holísticas, baseadas na “causação descendente” (de cima pra baixo). A proposição particular de Sheldrake é que tais sistemas auto-organizávies existem em campos de memória e hábito. Eles conteriam a informação necessária para se criar a estrutura.

Sem medo, ele extende a especulação para abarcar uma amplitude de fenômenos que muitas pessoas experimentam. A “telepatia telefônica” seria uma delas: quando você está pensando sobre alguém e esta pessoa te liga na sequência. Ou a sensação de estar sendo observado. A idéia, em termos gerais, é que nossas intenções podem ser comunicadas através de campos mentais que são como campos morfogenéticos (campos que geram as formas complexas que serão manifestadas no mundo físico). Eles nos conectam – apesar de que, no mundo moderno, com suas distrações ideológicas e tecnológicas, nós não somos muito bons em notá-los.

Sheldrake tem que lutar por sua teoria continuamente. Em seu novo livro, ele registra um encontro com Richard Dawkins, quando o eminente ateu estava produzindo sua série de TV de 2007, “Inimigos da Razão”. Sheldrake sugeriu a Dawkins que eles discutissem a evidência factual da telepatia. Dawkins resistiu. “Não tenho tempo. É muito complicado. E o meu programa não é sobre isto”, Sheldrake afirma que Dawkins disse, ao que ele replicou sugerindo que ele (Dawkins) não estava interessado em tomar parte de outro “exercício de desmascaramento a nível de ensino fundamental”. Dawkins afirmou: “Não é um exercício a nível de fundamental; é um exercício de desmascaramento de nível superior.”

Eu admiro Sheldrake por seu extraordinário bom humor, mesmo depois de décadas de abuso que ele teve que suportar. Este estado de espírito permeia todo o The Science Delusion porque, no fundo, é um apelo passional para que a visão de mundo materialista seja, finalmente, desafiada.

Se suas teorias irão sobreviver ao teste do tempo ou não é outra questão. Num artigo publicado no Journal of Consciousness Studies em Novembro último, Fraser Watts examina estas teorias a sério e, de forma abrangente, acha que elas são sugestivas mas incompletas. Por exemplo, Sheldrake concebe os campos mentais através de uma analogia com uma ameba: E da mesma forma que uma ameba extende seus pseudópodes e toca o ambiente ao seu redor, a telepatia e afins seriam o resultado de uma “pseudopódia mental” extendida para o mundo ao nosso redor.

A analogia tem a vantagem de “naturalizar” a percepção extrasensorial. Watts nota. Mas ela também levanta questões. Por exemplo, como seria possível “tocar” mentalmente objetos que não existem, como aconteceria se contemplarmos um centauro? Watts conclui: “Uma descrição adequada da mente deve abordar tanto a descrição em primeira pessoa como em terceira pessoa, ao passo que a idéia de um ‘campo’, junto de outras descrições espaciais que Sheldrake usa, parecem ser exclusivamente descrições típicas da terceira pessoa.” Curiosamente, esta é uma atitude descaradamente século XIX.

Mesmo assim, Sheldrake deve ser receptivo com tanto comprometimento sério com seu trabalho. Ele pode não estar correto nos detalhes. Mas ele está com certeza correto, junto a Heisenberg, ao insistir que a visão materialista de mundo deve ir embora.

Artigo de Mark Vernon, publicado originalmente no The Guardian em 28/01/2012. Traduzido e ilustrado por Marcelo Schenberg para o Plantando Consciência.

Comments (2)

O progresso da sociedade moderna

Comments (1)

As aventuras mágicas de Richard Dawkins

Comments (2)

O Ativista Quântico, ou como salvar o planeta

“Qualquer tentativa de se descartar um fenômeno incompreensível ao tratá-lo como alucinação se torna irrelevante quando uma teoria científica coerente pode ser aplicada” – Amit Goswami.

Nossas visões errôneas da realidade levaram à atual crise ambiental, social, econômica e espiritual. O que está em jogo é nada menos do que a nossa sobrevivência neste planeta. Onde foi que nós erramos? Será que a culpa foi de um ou outro fruto podre, de uma ou outra situação que escapuliu do nosso controle, ou será que erramos por princípio, e nossos velhos paradigmas é que são o problema?

Avançando o trabalho de Fritjof Capra em o Tao da Física, o físico indiano Amit Goswami, que está no Brasil para divulgar seu novo livro e DVD O Ativista Quântico, pode ter encontrado a melhor resposta. Goswami propõe que os paradoxos da física quântica, como não-localidade, movimento descontínuo, ação à distância e outras “bizarrices1” presenciadas em experimentos laboratoriais só podem ser resolvidos pela hipótese de que a consciência, e não a matéria, é a realidade fundamental do universo.

Mais conhecido no Brasil por sua participação no bem sucedido filme Quem Somos Nós? (What The Bleep Do We Know?, no original em inglês), Amit Goswami nasceu na Índia e na infância foi introduzido à espiritualidade hindu, a qual ele renegou ao ingressar no universo da ciência materialista (é doutor em física nuclear), onde residiu por mais de 30 anos, como pesquisador e professor titular de fisica teórica da Universidade de Oregon. Até perceber que pressupostos newtonianos, cartesianos e darwinistas não conseguem explicar o mundo tal como prometido desde que a ciência assumiu o papel que outrora coube à religião: encontrar respostas.

Consciousness Does Matter

Em O Universo Autoconsciente:  Como a Consciência Cria o Mundo Material (1993), Goswami resgata o conhecimento ancestral ao qual tinha sido apresentado na sua infância e o concilia de forma espetacular com a ciência, abrindo portas para uma novo pensar científico menos limítrofe e de maior potencial, tão necessário nesses tempos de mudança. “Eu estive buscando em vão uma descrição da consciência através da ciência, e o que eu e outros devemos procurar, pelo contrário, é uma descrição da ciência através da consciência. Nós devemos desenvolver uma ciência compatível com a consciência, esta nossa experiência primária.”

Ao invés de uma separação dualista entre mente e matéria, ou sujeito e objeto, o autor promove uma filosofia a qual ele chama de “idealismo monístico” (“idealismo” de idéias, e “monístico” em oposição a dualístico, que seriam os elementos básicos da realidade). De acordo com esta posição, “a consciência do sujeito numa relação sujeito-objeto é a mesma consciência que é pilar para toda a existência.  Assim sendo, consciência é unificadora. Existe apenas uma consciência subjetiva, e nós somos essa consciência,” ele escreve em O Universo Autoconsciente.

Modestamente, Goswami acaba promovendo um feito sem par na história: concilia Deus com ciência. “A ciência tradicional criou e destruiu um Deus barbudo, que fica sentado num trono separado de nós, e acha que está indo a algum lugar com isso”, ele ironiza no filme O Ativista Quântico. Não é à toa que o físico é visto com preconceito por parte da comunidade científica. Suas teorias são avançadas demais para agradar as (frágeis) certezas absolutas que imperam num suposto mundo sem mistérios, tal qual defendido por agitadores como Richard Dawkins.

O Ativista Quântico pode ser visto como um compêndio de seu trabalho desde a publicação de O Universo Autoconsciente; uma aula sobre as idéias propostas pela física quântica – direcionado às pessoas comuns, e não ao especialista – e sua reconciliação com a espiritualidade.


Trailer de O Ativista Quântico com legendas em português

Mas, afinal, que consciência “divina” é essa? Ao contrário de tudo o que costumamos pensar – que existe um mundo físico independente da nossa consciência sobre ele, e que o nosso cérebro é o grande criador de sentido da existência -, Goswami propõe que o cérebro físico funciona na verdade como um instrumento de medição e gravação, seguindo as regras da física clássica, ao passo que “um componente quântico do cérebro-mente é o veículo para a escolha consciente e a criatividade”.  Em outras palavras, é a atividade da consciência que traz o mundo à existência, ao determinar o “colapso quântico” de onda em partícula. “Consciência é o agente que colapsa a onda de um objeto quântico, que existe em potencial, transformando-a em partícula imanente no mundo da manifestação”, ele escreve. A maioria das grandes inovações criativas, seja nas artes ou nas ciências, são resultado de saltos intuitivos, ou saltos quânticos, em novos contextos.

Assim como objetos quânticos, pensamentos parecem obedecer o princípio de incerteza. Goswami nota que “você nunca pode simultaneamente manter foco no conteúdo de um pensamento e na sua direção –  para onde o pensamento está indo.” Ele propõe que a “substância mental” – o pensamento – foi feita dos mesmos elementos intangíveis que construíram os “macro objetos” do mundo físico, mas “a substância mental é sempre sutil, ela não forma conglomerados brutos.”

O filósofo e ocultista Rudolf Steiner2 também concebeu pensamentos como possuidores de uma substância. Não possuindo a terminologia da física quântica, ele expressou a idéia através de um quadro místico, percebendo “pensamentos como seres vivos e independentes. O que nós entendemos como pensamento no mundo manifesto é como uma sombra de um pensamento vivo que está ativo no mundo dos espíritos.” Este “mundo dos espíritos” poderia ser considerado o domínio transcendente do potencial.

Adentrando o terreno antes restrito ao misticismo, Goswami elabora, em A Física da Alma (2001), uma hipótese científica baseada em seu entendimento da natureza quântica da consciência, para mecanismos de reincarnação, a existência de “corpos sutis” e o sistema de chakras descrito por tantas tradições esotéricas. Nem a doutrina cristã nem o pensamento secular contemporâneos dão suporte à idéia de reincarnação, a qual é um elemento básico em muitas tradições espirituais, incluindo hinduísmo e budismo.

Goswami traça a hipótese de que padrões condicionados de pensamento, sentimento e ação criam o que ele chama de “mônada quântica”, um agregado que retorna vida após vida. Ele define a “mônada quântica” como um estágio intermendiário de individualidade, algo entre o ego e o “eu-quântico”, que seria o equivalente da consiência transcendente. Os padrões distintos de pensamento, sentimento e ação condicionados também podem ser considerados como os “corpos sutis” definidos pelo misticismo. O “corpo mental” representa o padrão individual do pensar, e o “corpo vital” é o padrão individual da energia e do sentimento. A “mônada quântica” individual desenvolve memórias vitais e mentais de contextos passados através de vidas sucessivas.

Casos demonstrados de efeitos quânticos como “ação à distância” e “correspondência não-local” provam que objetos quânticos possuem de fato uma “memória” – apesar de esta memória não ser gravada fisicamente, como numa fotografia ou dvd, mas apenas ativada quando a consciência causa um colapso de onda. “Objetos obedecem leis quânticas – eles se espalham pelas possibilidades seguindo a equação descoberta por Erwin Schrödinger – mas a equação não é codificada nos objetos em si.” Da mesma forma, equações apropriadas governam a dinâmica dos corpos que passaram por um condicionamento de memória quântica, apesar de esta memória não estar gravada neles. Enquanto que a memória clássica é gravada em objetos, a memória quântica é na verdade o análogo do que os ancestrais chamavam de memória Akashica, memória escrita em akasha, vazio – em lugar nenhum.”

Uma vez que colapso quântico só pode ocorrer através do cérebro físico, o ego é uma identidade assumida que a consciência veste com o interesse de ter um ponto de referência. Disciplinas esotéricas e técnicas de meditação nos ensinam a observar nossa subjetividade – o ego e seu contínuo balbuciar de pensamentos e preocupações – do ponto de vista de alguém de fora, como uma “consciência testemunha”. Ao fazer isso, nós pulamos pra fora da nossa perspectiva individualista condicionada, o circuito auto-referencial, e atingimos uma perspectiva transcendental.

O ego desenvolve padrões habituais de pensamento e comportamento em resposta ao condicionamento. Com o passar do tempo, este condicionamento cria uma propensão probabilística em favor de padrões anteriores de resposta. “Uma vez que uma tarefa é aprendida, então para todas as situações que a envolvam, a probabilidade que a memória irá engatilhar uma resposta condicionada se aproxima dos 100%.”

Mas, além de nossos padrões habituais de reação, nós sempre preservamos o potencial para insight espontâneo e ação não condicionada. “Quando nos comportamos no nosso modo condicionado, o ego, e então nossos pensamentos, parecem algorítmicos, contínuos e previsíveis, o que os dá a aparência de objetos no estilo newtoniano. Mas também existe pensamento criativo, uma transição descontínua no pensar, uma mudança de significado do condicionado para algo de valor novo”, escreve Goswami, propondo que “pensamento criativo” é o “produto de um salto quântico no ato de pensar.”

De maneira similar, o físico F. David Peat sugere que “sincronicidades, epifanias e experiências místicas” revelam a mente “operando, por um instante, em sua verdadeira ordem… alcançando além da fonte mente e matéria, pra dentro da própria criatividade.” O aspecto quântico da consciência também rompe a casca do hábito na forma de intuição, o que não é um processo irracional, as “a-racional”, geralmente contendo uma “análise superior ou insight ou conhecimento que a consicência não foi capaz de produzir”, escreveu Carl Jung.

A consciência transcendente, esta “consciência que é pilar para toda a existência”,  “emprega matéria, assim como nós empregamos um computador, para fazer representações (software), que nós chamamos de vida nas células e conglomerados, ou funções vitais.”

De acordo com o linguista Noam Chomsky, o desenvolvimento da linguagem humana não poderia ter acontecido como um simples passo acima da comunicação animal.  “Parece não haver sustentação na idéia de que a linguagem humana é simplesmente uma instância mais complexa de algo a ser encontrado em algum outro lugar no mundo animal”, ele escreve. “Isso cria um problema para o biólogo, uma vez que, se for verdade, é um exemplo de verdadeira ‘emergência’ – a aparição de um fenômeno qualitativamente diferente em um estágio específico de complexidade de organização.”

Humanos possuem uma capacidade inata ou inerente para o desenvolvimento da linguagem, gramática e sintaxe, inexplicável por qualquer  modelo conhecido. “De fato, os processos pelos quais a mente humana alcançou seu estágio presente de complexidade e sua forma particular de organização inata são um total mistério… É perfeitamente seguro atribuir este desenvolvimento à ‘seleção natural’, contanto que percebamos que não há substância nesta afirmação, que ela não é nada mais do que uma crença em que deva existir uma explicação naturalista para esse fenômeno.”

O repentino surgimento da linguagem como estrutura cognitiva parece embasar a tese de Goswami de “um salto quântico de uma consciência criativa”, operando de um domínio transcendental. Tal perspectiva deixa aberta a possibilidade de futuros “saltos quânticos” de complexidade cognitiva.

Goswami acredita que seu modelo de evolução aponta para uma fase futura do desenvolvimento humano quando seremos capazes de mapear o “intelecto supramental” ou “corpo temático” (“o corpo de temas arquetípicos que determina o movimento dos corpos físico, mental e vital” – o que Jung chamava de “Self” e Platão de “reino das idéias”), assim como os corpos vital e mental, no corpo físico. Isso seria uma mudança de fase sem precedentes no potencial humano.


• Amit Goswami no Brasil
• 2012, O Ano da profecia Maia, de Daniel Pinchbeck (com publicação no Brasil prevista para o fim de 2010)
• Rudolf Steiner. Mais conhecido no Brasil pelas escolas Waldorf, Steiner – doutor em Filosofia e com diplomas de Química, Biologia e Física – foi uma espécie de precursor de Goswami, ao integrar ciência com espiritualidade há quase um século, através da criação da antroposofia.


1Propriedades quânticas:

• Um objeto quântico (como, por exemplo, um elétron) pode estar, no mesmo instante, em mais de um lugar (a propriedade da onda).

• Não podemos dizer que um objeto quântico se manifeste na realidade comum espaço-tempo até que o observemos como uma partícula (o colapso da onda).

• Um objeto quântico deixa de existir aqui e simultaneamente passa a existir ali, e não podemos dizer que ele passou através do espaço interveniente (o salto quântico).

• A manifestação de um objeto quântico, ocasionada por nossa observação, influencia simultaneamente seu objeto gêmeo correlato — pouco importando a distância que os separa (ação quântica à distância).

Comments (4)

ônibus 123

A imagem de muitos brasileiros sobre o ônibus é daquele monstrão barulhento, poluente, lento e lotado. Filas pra entrar, aperto lá dentro, empurra-empurra pra sair. Alguns ainda mantém a visão elitista de “transporte de pobre”, e não passa por muitas cabeças a possibilidade de entrar num desses. Em outros países, o coletivo – como é espertamente chamado na Argentina – é visto como uma solução decente ao ir e vir de cidadãos, principalmente em grandes cidades com problemas de superpopulação, trânsito e poluição. Nestas, o busão tem preço mais justo do que encontramos no Brasil, tabela de horários cumpridos pontualmente, ar condicionado etc.

Esta distinção entre transporte público vs privado, mais do que uma questão de gosto e decisão política, é também uma questão social importante. Em três casos recentes, o ônibus esteve no centro de questões de grande relevância pra sociedade atual, seja aqui no Brasil ou lá fora, e que pouco tem a ver com o transporte per se

Ônibus 1 – Ateu
Começou em Londres e causou espanto e sucesso ao mesmo tempo. Foi pra Barcelona, proibiram na Itália e agora tenta chegar ao Brasil. Trata-se da campanha pró-ateísmo em ônibus. Em Londres circulavam com a frase “Deus provavelmente não existe. Agora pare de se preocupar e viva sua vida”. Tem gente que se recusou a usar o busão só por causa da frase pintada do lado de fora, o que revela quanto preconceito existe com o ateísmo. Muitos têm vergonha de admitir que são ateus, como se não acreditar em Deus, ou talvez mais importante, não ter religião, fosse extremamente vergonhoso. É justamente esse o intuito da campanha. Não é para “desconverter” ninguém de religião alguma, como se argumenta em blogs por aí, mas para trazer à tona o fato, muitas vezes escondido, de que há milhões de ateus no mundo e que ateísmo não é sinônimo de infelicidade ou imoralidade. No Brasil estão sendo arrecadados fundos para colocar a idéia nas ruas de São Paulo, e o doador pode escolher a frase que prefere dentre algumas opções fornecidas.

Ônibus 2 – Pessoas legais usam drogas
Também em Londres, com seus famosos busos vermelhos, rolou esta outra campanha de impacto social imenso. Onibus circulando com a frase “Pessoas legais usam drogas”. Aqui o intuito não é de apologia às drogas (como certamente seria alegado no Brasil, vide as repetidas proibições à marcha da maconha), mas de desfazer o mito do usuário de drogas como escória da sociedade, a ovelha negra corrupta e violenta que deve ser presa e isolada, sujeita as maiores penas. Pessoas bacanas usam drogas, e se você não usa, com certeza conhece e gosta de pessoas que usam, sejam lícitas ou ilícitas.


Ônibus 3 – Movido a Hidrogênio
Voltando a terrenos menos pantanosos, já circulam em fase de testes os primeiros ônibus brasileiros movidos a hidrogênio. A novidade usa como combustível o hidrogênio, o elemento químico mais abundante do planeta, e libera apenas vapor de água. A pergunta que resta é: Quanto tempo vai levar pra vê-los na rua? Se for o mesmo tempo que está levando para termos carros elétricos será deprimente.

Deixe um comentário

Deus é pop, mas não estava lá

Muitos já devem ter visto que a capa da revista Época desta semana é um Jesus estilizado, com a chamada “Deus é pop. Uma pesquisa inédita revela que 95% dos jovens brasileiros se dizem religiosos – e eles estão em busca de novas formas de expressar sua fé”. A matéria aborda os jovens modernos que buscam inclusão religiosa. Garotos e garotas de até 20 e tantos anos com tatuagens, piercings, alargadores de orelha e pranchas de surf, que entoam “O evangelismo tá bombando!”. O texto também afirma que, de acordo com o teólogo Rubem Alves, “os jovens de hoje adotam religiões minoritárias por achar que estão vivendo uma grande missão: querem mostrar ao mundo que, apesar da pouca idade, já encontraram sua ‘verdade’. Seria quase um ato de afirmação juvenil”.

Enquanto esta pesquisa revela que 95% dos jovens brasileiros são religiosos, uma pesquisa realizada em 16 países pela MTV Networks em 2007 indica que os jovens entre 14 e 24 anos no Brasil são os que têm o maior número de “amigos virtuais” (pessoas com as quais se relacionam apenas pela Internet): 46, para uma média global de 20. Por outro lado, a Fundação Padre Anchieta apresenta pesquisa que apurou que os jovens brasileiros se preocupam com segurança e trabalho, mas não com a cultura: 36% dos jovens nunca foi a um show de música brasileira; 39% nunca foi ao cinema, e 52% não conhece uma biblioteca.

Mais do que apontar que existe uma relação entre a alienação, afirmação de identidade e religiosidade, queremos colocar em pauta outra questão mais profunda: existe uma pequena pressuposição na interpretação dos dados pela Época que leva toda esta conversa a um campo altamente tendencioso: a confusão entre o significado de espiritualidade e religião.

Podemos e devemos investir em nossas conversas espirituais. Se bem dirigidas, elas funcionam como porta para o auto-conhecimento. Práticas “alternativas” como a yoga, meditação, uso de enteógenos e plantas ritualísticas como a ayahuasca servem como formas de se encontrar equilíbrio e sentido espiritual (ou a tal “verdade” mencionada por Rubem Alves). O escritor americano Sam Harris diz com sabedoria em seu livro “Carta a uma Nação Cristã” (Companhia das Letras) que “é importante perceber que a distinção entre ciência e religião não implica excluir nossas intuições éticas e nossas experiências espirituais da nossa conversa sobre o mundo; implica sermos honestos sobre o que podemos sensatamente concluir a partir delas”.

Porque se há um dado importante que parece ser sempre omitido na discussão sobe religião, é o fato de que as igrejas organizadas são responsáveis por barbáries sem fim desde os primórdios, em nome de pressuposições fantásticas que não tem pé nem cabeça fora do campo da metáfora. Católica, evangélica, muçulmana, judaica, hindu… não importa qual, mas um conjunto de julgamentos humanos tomados como palavras divinas sempre causaram mais violência e sofrimento do que redenção e amor.

Insistimos: nós não acreditamos que devemos “matar Deus” por um mundo frio, inerte e envolto em desencanto, como comumente é interpretado o ateísmo superficial. Mas não podemos entregar um poder tão grande de crescimento e exploração do subconsciente nas mãos de instituições manipuladoras de mitos, que fizeram história com base em ascenção terrena (enriquecimento) e busca e manutenção de poder às custas de muito sangue.

A única forma de nos libertarmos deste emaranhado religioso, que só mantém a confusão e o desentendimento vivos – como revela a matéria da Época para olhares atentos – é procurar outra forma de entender a necessidade da conexão entre a existência individual e uma natureza mais profunda. E esta forma parte de uma volta às raízes, ao entendimento que nossas experiências espirituais são pessoais e de natureza simbólica.

Para tanto, recomendamos os documentários A Inquisição Farmacrática, O Deus que Não Estava Lá e Zeitgeist (parte I) acerca da questão religiosa; e Outros Mundos, Xamãs da Amazônia, Ram Dass – Graça Feroz e CoSM the Movie – Alex grey and The Chapel of Sacred Mirrors, sobre a questão espiritual. Lembrando que os filmes estão disponíveis gratuitamente para serem assistidos online em nosso site, com legendas em português (todos na íntegra exceto o Ram Dass e o Alex Grey, que disponibilizamos trechos selecionados). Aproveite!

Deixe um comentário

Já dizia Timothy Leary…

Comments (2)

Deus está Nu

VEJA – 25/MAIO/2005

Entrevista: Michel Onfray
“Deus está nu”

O filósofo francês mais lido da atualidade
diz que as três grandes religiões monoteístas
vendem ilusões e devem ser desmascaradas
como o rei da fábula de Andersen

André Fontenelle

Em um tempo em que a religiosidade está em alta, surpreende o livro que se encontra no topo da lista dos mais vendidos na França desde o mês passado, à frente até das biografias de João Paulo II: Tratado de Ateologia. Escrita pelo filósofo mais popular da França na atualidade, Michel Onfray, de 46 anos, a obra é um ataque pesado ao que o autor classifica como “os três grandes monoteísmos”. Segundo Onfray, por trás do discurso pacifista e amoroso, o cristianismo, o islamismo e o judaísmo pregam na verdade a destruição de tudo o que represente liberdade e prazer: “Odeiam o corpo, os desejos, a sexualidade, as mulheres, a inteligência e todos os livros, exceto um”. Essas religiões, afirma o filósofo, exaltam a submissão, a castidade, a fé cega e conformista em nome de um paraíso fictício depois da morte.

Para defender essa argumentação, Onfray valeu-se de uma análise detalhada dos textos sagrados, cujas contradições aponta ao longo de todo o livro, e do legado de outros filósofos, como o alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), que proclamou, em uma célebre expressão, a “morte de Deus”. O filósofo escreve em linguagem acessível, a mesma que emprega ao lecionar na cidade de Caen, no norte da França. Ali criou uma “universidade popular” que atrai milhares de pessoas a palestras diárias e gratuitas sobre filosofia, artes e política. Gravadas pela rádio pública France Culture, as aulas de Onfray são sucesso de audiência. Os fãs o consideram um sucessor de Michel Foucault (1926-1984), o mais influente filósofo francês do século passado. Em seus livros, Onfray propõe o que chama de “projeto hedonista ético”, em que defende o direito do ser humano ao prazer. Uma de suas obras, A Escultura de Si, ganhou em 1993 o Prêmio Médicis, o mais importante da França para jovens autores. Onfray também tem detratores, que o acusam de repetir idéias ultrapassadas. Em dois meses seu Tratadovendeu 150.000 exemplares. De seu escritório em Argentan, Onfray concedeu a seguinte entrevista a VEJA.

Veja – Em sua opinião, só o ateu é verdadeiramente livre?
Onfray – Só o homem ateu pode ser livre, porque Deus é incompatível com a liberdade humana. Deus pressupõe a existência de uma providência divina, o que nega a possibilidade de escolher o próprio destino e inventar a própria existência. Se Deus existe, eu não sou livre; por outro lado, se Deus não existe, posso me libertar. A liberdade nunca é dada. Ela se constrói no dia-a-dia. Ora, o princípio fundamental do Deus do cristianismo, do judaísmo e do Islã é um entrave e um inibidor da autonomia do homem.

Veja – A que o senhor atribui o sucesso de seu livro num momento em que há tanta discussão sobre religiosidade?
Onfray – Acho que muitos franceses esperavam uma declaração claramente atéia. As primeiras páginas de jornais e as capas de revistas sobre o retorno da religiosidade, a polêmica sobre o direito de usar ou não o véu muçulmano na escola leiga, a oposição maniqueísta entre um eixo do bem judeo-cristão e um eixo do mal muçulmano, a obrigação de escolher um lado entre George W. Bush e Osama bin Laden, a religiosidade dos políticos exposta na imprensa, o crescimento do Islã nos subúrbios franceses, tudo isso contribuiu para uma presença monoteísta forte no primeiro plano da mídia. Meu livro provavelmente funciona como um antídoto a esse estado de coisas, pelo menos na França. Ele ainda está sendo traduzido para outros idiomas. 

Veja – Seu livro defende um ateísmo “fundamentado, construído, sólido e militante”. Isso quer dizer que é preciso convencer as pessoas da inexistência de Deus?
Onfray – Isso quer dizer que, quando uma pessoa não se contenta apenas em acreditar estupidamente, mas começa a fazer perguntas sobre os textos sagrados, a doutrina, os ensinamentos da religião, não há como não chegar às conclusões que eu proponho. Trata-se de não deixar a razão, com R maiúsculo, em segundo plano, atrás da fé – e sim dar à razão o    poder e a nobreza que ela merece. Essa é a missão, a tarefa e o trabalho do filósofo, pelo menos de todo filósofo que se dê ao respeito.

Veja – A desconstrução dos três grandes monoteísmos equivale a mostrar que o rei está nu, como na fábula de Hans-Christian Andersen?
Onfray – Sim. É preciso mostrar que o rei está nu, deixar claro que o mecanismo das religiões é o de uma ilusão. É como um brinquedo cujo mistério tentamos decifrar quebrando-o. O encanto e a magia da religião desaparecem quando se vêem as engrenagens, a mecânica e as razões materiais por trás das crenças. 

Veja – O senhor cita constantemente trechos do Corão, da Bíblia e da Torá para apontar contradições. Por que razão, se em muitos casos esses trechos nem são mencionados pelos religiosos na defesa de suas convicções?
Onfray – Os sacerdotes limitam-se a usar apenas um punhado de palavras, textos e referências, sempre postos em evidência porque são aqueles trechos que permitem assegurar melhor o domínio sobre os corpos, os corações e as almas dos fiéis. A mitologia das religiões precisa de simplicidade para se tornar mais eficaz. Elas fazem uma promoção permanente da fé em detrimento da razão, da crença diante da inteligência, da submissão ao clero contra a liberdade do pensamento autônomo, da treva contra a luz.

Veja – Seu livro cita contradições entre a pregação da paz e a da violência. O senhor pode dar os exemplos mais marcantes dessa situação?
Onfray – O famoso sexto mandamento da Torá ensina: “Não matarás”. Linhas abaixo, uma lei autoriza a matar quem fere ou amaldiçoa os pais (Exodo 21:15 e adiante). Nos Evangelhos, lê-se em Mateus (10:34) a seguinte frase de Jesus: “Não vim trazer a paz, e sim a espada”. O mesmo evangelista afirma a todo instante que Jesus traz a doçura, o perdão e a paz. O Corão afirma que “quem matar uma pessoa sem que ela tenha cometido homicídio será considerado como se tivesse assassinado toda a humanidade” (quinta sura, versículo 32). Mas ao mesmo tempo o texto transborda de incitações ao crime contra os infiéis (“Matai-os onde quer que os encontreis”, segunda sura, versículo 191), os judeus (“Que Deus os combata”, nona sura, versículo 30), os ateus (“Deus amaldiçoou os descrentes”, 33ª sura, versículo 64) e os politeístas (“Matai os idólatras, onde quer que os acheis”, nona sura, versículo 5).

Veja – O livro ataca com virulência particular o apóstolo Paulo, descrevendo-o como um histérico. Por quê?
Onfray – Basta ler os Atos dos Apóstolos, nos trechos que descrevem a conversão de Paulo, e conhecer um pouco de psiquiatria, ou ter um manual de psicologia ao alcance da mão, para ver quanto os sintomas da visão que originou sua conversão coincidem com os descritos pelos especialistas em histeria: perda de tônus muscular, queda, cegueira momentânea etc. Ao me referir a Paulo, eu não emprego o termo neurose como um insulto de caráter moral, mas como um diagnóstico que pode ser estabelecido por um psiquiatra.

Veja – Há uma diferença entre ser contra as religiões e não acreditar na existência de Deus?
Onfray – É possível acreditar em Deus e viver sem religião. Mas não conheço religião que viva sem Deus. Trata-se do mesmo combate, verso e reverso da mesma medalha. 

Veja – Mas não são poucos os que sustentam que a necessidade de Deus é inerente ao ser humano. Há quem acredite que essa necessidade é genética.
Onfray – Essa necessidade é cultivada culturalmente. É claro que não existe. Muito menos geneticamente. Essa é uma idéia ridícula. Não há nada no cérebro além daquilo que é posto nele. Já se viu alguma criança – imagem do que pode haver de mais natural – nascer acreditando em algum deus ou em alguma transcendência? Deus e a religião são invenções puramente humanas, assim como a filosofia, a arte ou a metafísica. Essas criações, é bem verdade, respondem a necessidades, como a de esconjurar a angústia da morte, mas podemos reagir de outra forma: por exemplo, com a filosofia.

Veja – Como o senhor explica o fato de muitos cientistas, diante da impossibilidade de explicar a imensa complexidade do universo, se voltarem para a hipótese da criação divina?
Onfray – O recurso a Deus e à transcendência é um sinal de impotência. A razão não pode tudo. Deve ser consciente de suas possibilidades. Quando ela não consegue provar alguma coisa, é preciso reconhecer essas limitações e não fazer concessões à fábula, ao pensamento mitológico ou mágico. A idéia da criação divina é uma espécie de doença infantil do pensamento reflexivo.

Veja – Como filósofo ateu, como o senhor viu a forte comoção popular pela morte do papa?
Onfray – Tamanho fervor deve ser relacionado com o fato de que João Paulo II foi de fato o primeiro “papa catódico”, o primeiro sumo pontífice da era da comunicação de massa. Foi o homem mais filmado do planeta. Logo, era o maior portador da aura que a mídia confere. A maioria das pessoas tem fascínio pelos ícones eleitos pela mídia e acredita mais neles do que na verdade física. Daí a estranha sensação quando a TV prova que por trás daquela imagem divinizada havia alguém bem real, de carne e osso. Isso ficou demonstrado, na morte do papa, pelo uso espetaculoso da exposição do cadáver e pela criação de uma reação histérica entretida e amplificada pela transmissão televisiva.

Veja – O senhor retoma casos recentes e antigos em que o papel da Igreja Católica não foi dos melhores: ataques a Galileu, silêncio diante do holocausto ou do genocídio em Ruanda. Mas é possível encontrar outros tantos exemplos de bons momentos do catolicismo. Isso não mostra que o problema não são as religiões e sim os homens que as interpretam?
Onfray – Não me proponho a escrever uma resposta ao livro O Gênio do Cristianismo (obra de 1802 do escritor francês François-René de Chateaubriand, que refutava os filósofos anti-religiosos de seu tempo). O que quero é mostrar que as religiões, que dizem querer promover a paz, o amor ao próximo, a fraternidade, a amizade entre os povos e as nações, produzem na maior parte do tempo o contrário. Não me parece muito digno de interesse que os monoteísmos possam ter gerado o bem aqui ou acolá. Afinal, é a isso mesmo que eles dizem se propor. Não há motivo para espanto. Em compensação, que se devam a eles tantas barbaridades terrenas, extremamente humanas, me parece muito mais importante como prova da inanidade das doutrinas.

Veja – Críticos católicos alegam que seu livro nada fez senão repetir antigos argumentos contra a religião. Quais são seus argumentos novos?
Onfray – Não se pode fazer muito a respeito, a não ser dizer e redizer o que é verdade há muito tempo. E repetir que os cristãos têm pouca moral para me reprovar por dizer antigas verdades, quando eles mesmos propagandeiam erros ainda mais antigos.

Veja – Não se pode negar que a religião proporciona valores morais e éticos a muitas pessoas que de outra forma não os teriam. Isso, por si, não bastaria para justificar a existência das religiões?
Onfray – Se não houvesse alternativa, certamente. Mas há. A filosofia permite a cada um a apreensão do que é o mundo, do que pode ser a moral, a justiça, a regra do jogo para uma existência feliz entre os homens, sem que seja preciso recorrer a Deus, ao divino, ao sagrado, ao céu, às religiões. É preciso passar da era teológica à era da filosofia de massa. 

Veja – O senhor acha que um dia o mundo será predominantemente ateu?
Onfray – Não. A fraqueza, o medo, a angústia diante da morte, que são as fontes de todas as crenças religiosas, nunca abandonarão os homens. Por outro lado, é preciso que alguns espíritos fortes, para usar uma expressão do século XVII, defendam as idéias justas. A questão é converter novos espíritos fortes. Só isso já seria muita coisa.

Veja – Quando e como o senhor se tornou ateu?
Onfray – Até onde consigo me lembrar, sempre fui ateu, a não ser na infância, quando acreditava na mitologia católica como se acredita em Papai Noel ou nas lendas do folclore. A história contada pelo catolicismo tem tanto valor quanto essas. Está no mesmo nível dos contos da carochinha, em que os animais conversam e os ogros comem criancinhas. Assim que um embrião de razão habitou meu espírito, não me importei mais com esse pensamento mágico – que só serve, justamente, para as crianças.

Veja – Do que se trata, exatamente, a “universidade popular” que o senhor criou?
Onfray – Eu criei essa universidade, com um grupo de amigos, três anos atrás, com o objetivo de proporcionar um saber filosófico exigente ao maior número possível de pessoas, de todas as origens, sem distinção de classe, religião, sexo, idade, formação, poder aquisitivo ou nível intelectual. E, ao mesmo tempo, permitir a construção de si mesmo como pessoa livre, independente e autônoma. Organizamos seminários sobre idéias feministas, política, cinema, arte contemporânea ou psicanálise, entre outros. Também temos uma oficina de filosofia para crianças. No que me diz respeito, ensino uma contra-história da filosofia – atéia, materialista, sensualista, hedonista, anarquista.

Veja – Que tipo de público freqüenta seus cursos?
Onfray – O público é indefinível, verdadeiramente popular: jovens, velhos, homens, mulheres, universitários, gente sem diploma, trabalhadores especializados, como pilotos de Airbus e neurocirurgiões, não qualificados ou desempregados, como os demitidos de uma montadora de automóveis da região.

Veja – A idéia está dando certo?
Onfray – O princípio dela já permitiu que se espalhe por cinco ou seis outras cidades. Há outros projetos de expansão.

Deixe um comentário

%d blogueiros gostam disto: