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Gaia

Poucas vezes nos damos conta de quão esquisito é o calendário que usamos e que a maioria do mundo (ainda) usa. Os 365 dias não encaixam direito no movimento dos planetas, e o 29 de fevereiro que existiu esse ano nos lembra esse fato. A cada quatro anos o calendário gregoriano passa por um “ajuste”, e atualmente isso é feito enfiando-se um dia a mais em fevereiro, que geralmente tem só 28 dias. Enquanto os outros alternam entre 30 e 31. Quer dizer… alternam mais ou menos. Julho e Agosto formam uma sequência de dois meses com 31 dias. Isso porque o ego de Cesar Augustus era tão grande quanto o de Júlio César, imperadores romanos. E já que a Júlio César tinha sido dado um mês com 31 dias, a César Augustus também foi concedida a mesma benesse, restando a fevereiro fazer a boa ação de ceder os dias necessários pra que a conta continuasse fechando em 365.

A historinha romana nos lembra que na base de nosso calendário estão disputas sangrentas pelo poder (Julio César foi assassinado) e pouco ou nenhum entusiasmo com os ciclos fundamentais da natureza e do planeta que nos serve não apenas de casa, mas de suporte de vida. Uma mentalidade que ainda perdura, em especial para o 1%, com duras penas para os 100%… É a Terra que nos dá tudo que comemos, a oportunidade de aproveitar energia (e de desperdiçar também) entre inúmeras outras coisas. Mas esse conhecimento, que deveria ser fundamental e ensinado com carinho desde a pré-escola, é marginalizado pela arrogância do homo sapiens que se considera o ponto mais alto da evolução, o ser mais inteligente. Por consequência então segue achando que o tempo deve ser medido em relação a si mesmo e que o planeta deve ser pilhado. Rios devem ser transformados em hidrelétricas, montanhas devem ser explodidas para extração de minério, florestas desmatadas para obtenção de madeira, peixes pescados predatoriamente, tudo em ritmo sempre crescente. Sempre elevando o PIB com o olhar míope que não alcança mais do que um, na melhor das hipóteses dois ciclos políticos, como escancarou a nomeação de um bispo que nunca pescou e não entende nem “acredita” na evolução (como se fosse tópico passivel de crença ou descrença…), como ministro da pesca…

Assim, seguimos todos comemorando datas com feriados de uma origem religiosa fortemente antropocêntrica e patriarcal, no caso a cristã, mesmo que sejamos ateus ou agnósticos, budistas, crentes em Jah ou o que quer que seja. Nos esquecemos de que a passagem do tempo é marcada pelo ciclos naturais, e hoje é uma data propícia pra lembrar disso porque é equinóceo, é fim de verão e começo de outono para uns, fim de inverno e começo de primavera para outros. O planeta mais uma vez re-inicia um ciclo, encerrando outro…

E nesse ano, além de ser bissexto e nos presentear com o dia extra, duas fotos foram publicadas, em 25 de Janeiro e 02 de Fevereiro, que novamente nos remetem à grandiosidade e importância que tem esse planeta, que volta a ser foco das atenções conforme rumamos a um futuro imprevisível com grandes probabilidades de algumas catástrofes acontecerem, dada a nossa desconexão com o mundo natural, com os ciclos da natureza, o movimento dos planetas, o ciclo das estações, os equilíbrios ecológicos e a delicada harmonia da vida. A NASA publicou duas imagens de um mesmo objeto, que se hoje estamos razoavelmente acostumados a ver, outrora nunca havia sido visto, pelo menos não dessa maneira, com a beleza e suavidade de seus 360 graus, em meio a uma infinitude de espaço sem vida que se extende até onde os mais avançados instrumentos científicos chegaram até hoje. Essa grande esfera foi agora fotografada com definição sem precedentes, e nos permite uma vez mais contemplar a beleza do pequeno ponto azul.

A primeira vez que a NASA liberou uma foto do planeta, aliás, foi devido a um insight psicodélico. Numa sociedade obcecada pelo progresso industrial e tecnológico dividida com fervores religiosos antropocêntricos, a idéia de divulgar uma foto do planeta não havia, por incrível que pareça, passado na cabeça de nenhum dos membros dos gigantescos projetos espaciais, distraídos provavelmente pela feroz competição típica da guerra fria… Coube a Stewart Brand, membro da trupe psicodélica conhecida como os Merry Pranksters, ter o insight durante uma sessão de LSD em 1966. Stewart, também criador de um livro épico dos anos 60, o Whole Earth Catalog, percebeu que uma imagem do planeta, visto de fora, inteiro, seria um potente catalizador de uma nova percepção para a humanidade, tão distraída com o progresso industrial e as datas comemorativas de religiões que ha muito esqueceram ou que sequer reconheceram na prática que o mundo é redondo, que gira em torno do sol, que os recursos são finitos e que estamos nessa todos juntos, independente de fronteiras e bandeiras, de crença e de raça. A imagem do planeta foi divulgada somente em 1968 quando astronautas da missão Apollo mandaram a primeira foto colorida de Gaia. No meio tempo, Stewart fez campanha com broches com a pergunta “Por que ainda não vimos uma foto do planeta inteiro?”, que mandva para políticos, membros da ONU, da NASA, da união soviética… Segundo Stewart, a foto “reenquadrou tudo. Pela primeira vez a humanidade se viu de fora. As características do planeta eram um azul e verde vivos – continentes marrons e calotas polares extremamente brilhantes – e uma atmosfera complicada, ativa. Tudo arranjado como uma jóia em meio a imensidões de espaço e vácuo”.

De fato, a imagem do planeta chacoalhou a consciência da humanidade, e pode ser tido com um dos pontos que marcam o nascimento do movimento ecológico, que ganha força e se torna cada vez mais importante, dados os desafios globais que enfrentamos atualmente.

Uma característica comum dos efeitos dos psicodélicos, especialmente quando usados com sabedoria e respeito, junto a um ambiente natural, são insights sobre a maravilha da natureza, a beleza e o mistério em cada pétala, em cada inseto, a complexidade de comportamentos, a interdependência de todos com todos, a percepção simples e súbita, porém profunda e de efeitos duradores, da preciosidade da teia da vida. Não é a toa que os chamam também, entre inúmeros outros nomes, de ecodélicos. Albert Hofmann, pai do LSD, nos diz:

“A humanidade agora enfrenta desafios de enormes proporções; a sobrevivência da nossa espécie e de milhares de formas de vida estão em jogo. Um entendimento sagrado de toda a vida é necessário como base para um comportamento compassivo e para ações criativas que irão servir e sustentar a vida. Espero que no início deste novo milênio, as pessoas usem toda a variedade de práticas espirituais para ajudar a transformar a visão de mundo de nossa fixada cultura materialista. Tal mudança de valores nos levará a uma maior sensação de interconectividade com todas as criaturas de Deus e uma apreciação mais profunda da infinita riqueza e maravilha do cosmos e a igualmente infinita riqueza dos reinos interiores de nosso ser.”

São vários os pioneiros do movimento ecológico que atestaram a importância de seus insights de experiências psicodélicas, e na aproximação da Rio+20 em meio a um governo considerado por muitos o pior para a área ambiental desde a ditadura militar, apreciar de novo a beleza e o poder das imagens de Gaia em alta definição em pleno equinóceo pode, quem sabe, despertar algumas almas para um novo mundo que se levanta.

Ou será que o provérbio Cree será realizado?

“Somente após a última árvore ser cortada.

Somente após o último rio ser envenenado.

Somente após o último peixe ser pescado.

Somente então o homem descobrirá que dinheiro não pode ser comido!!”

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Seu Chico quer traineira. E agora?

Meus últimos dez dias passei sem energia elétrica, sem TV, sem internet ou telefone celular. Meu desejo urbano mais profundo se materializou numa latinha de coca-cola. Ou duas, ao longo dos dez dias. Passei a “rapa no tacho” da minha conta bancária e fui fugir um pouco do ser que construí para se encontrar comigo mesmo. Aquela conexão essencial que só se consegue quando estamos entre os iguais, e dormindo sob um céu estrelado. No dia a dia, com tantas distrações, é bem fácil esquecermos do essencial.

Pesquei pra caramba, estava num paraíso da natureza, encontro das águas salgadas e doces, areias e pedras, mata virgem para todos os lados e um céu estrelado sem igual. Tínhamos levado comida suficiente, e um desejo de passarmos um carnaval “light”, mas não careta. Com a intenção de deixar uma pequena pegada ecológica, uso racional dos recursos, focando na felicidade e integração com a natureza. E assim se fez. Exceto, talvez, pela “sede” de pesca que eu tava. Explico, faz pouco tempo iniciei em um esporte altamente desafiador e recompensante, mas que só pode ser  praticado em lugares muito especiais. A pesca submarina só se faz em condições raras: tem que ter água clara, e claro, tem que ter peixe. Unindo o útil ao agradável, eu era responsável por prover a “proteína” da alimentação. Naquele paraíso isolado, fiquei igualzinho a criança com brinquedo novo, não conseguia pensar em mais nada…

Até que um belo dia, tendo expandido a viagem em 3 dias não planejados, me dei conta que o alimento estava literalmente acabando. Enquanto haviam outros turistas na vila, beleza, o cardápio do Bar do Seu Chico era farto: café da manhã, misto quente, pastel, PF, porção de lula batata frita e o escambau. Da noite pro dia, foi tudo apagado e apenas se lia: pastel de queijo.

A não, até ontem eu tinha TUDO, e agora só posso comer pastel de queijo? Se não fosse isso, seria batata com arroz. “Que bosta que é viver a privação”, pensei comigo. (Que privação mais urbanóide, pensei depois). Unindo o útil ao agradável, sem nem pestanejar muito, arregacei a manga e fui pescar. Acontece que também no mar, a fartura dos primeiros dias havia minguado. Entrou uma corrente fria danada, que espantou a maioria dos peixes “bons”. E agora? Muito esforço e pouco retorno, mas atuando bravamente, não deixei ninguém passando fome, ou vivendo só à base de pastel de queijo.

Conversando com seu Chico, o dono do bar, o chefe da vila, o mais antigo pescador da região, achamos um ponto em comum para a prosa de pescador: “não tem mais tanto peixe como antigamente”. O que senti na pele, em uma semana, seu Chico sente ao longo dos anos. Sua pesca tradicional “de cerco” está com os dias contados. Em grande parte por conta dos barcos que pegam o peixe muito antes dele adentrar a baía, não dando tempo para que os grandes cardumes encontrem as redes que estão preparadas esperando.

 

E aí, cansado de esperar pelo peixe que não vem, seu Chico agora quer traineira…  Isso é somente o simbolismo de algo muito ruim que está acontecendo mundo afora. Como os grandes peixes não estão mais abundantes, e dificilmente um grande cardume vai aparecer “de bandeja” em uma rede de cerco, os pescadores tradicionais se vem obrigado a literalmente perseguir os cardumes  com uma rede fininha chamada de “traineira”, de maneira que todo o peixe seja capturado e não tenha como fugir.

E a coisa vai ficar pior, seu Chico. O Brasil é um dos países onde a pesca ainda não se desenvolveu “de verdade” considerando o número de barcos pesqueiros (VIDEO http://www.youtube.com/watch?v=C3tCuheNOTA&feature=player_embedded), a tendência da pesca industrial, em oposição à pesca tradicional, está literalmente drenando os estoques mundiais de pescado. Este tipo de pesca é muito mais produtiva, fala-se em barcos (nvaios) capazes de carregar até 150 toneladas de peixes… mas também geram um desperdício infinitamente maior do que a pesca artesanal. O pescado, que naturalmente já tem uma grande perda, de cerca de 30% de partes não comestíveis, é ainda um tipo de carne muito sensível, que não resiste ao aumento de temperatura, e que deixa de ser saudável e saborosa em poucos dias. Ou seja, perde-se muito até que o filezinho de salmão para sashimi chegue ao seu prato.

Já que os grandes peixes comerciais começam a rarear, o foco agora é a sardinha. O problema é que a sardinha é um nó importantíssimo na cadeira alimentar dos 7 mares. Os cardumes de sardinha alimentam diversos outros cardumes de peixes. Se está faltando peixe, é porque já se pescou demais. Se aparentemente está sobrando sardinha, é por que não tem o predador, mas se pescarmos também demais a sardinha, para onde vamos?

Como consequência, está cada vez mais difícil de se tornar um pescador legalmente cadastrado na Europa. Os custos e as restrições vão às alturas, de maneiras que só as grandes corporações podem se dedicar à esta atividade. Como exemplo, o investimento para se ter um sonar para localização dos cardumes, equipamento eletrônico que se tornou praticamente indispensável seguindo a prática atual, pode facilmente passar dos R$200 mil reais.


Fonte: http://www.guardian.co.uk/news/datablog/2011/jun/03/fish-stocks-information-beautiful

Os números não mentem, nos últimos 25 anos a quantidade de sardinhas pescadas no Brasil caiu para cerca de 20% do que era na farta década de 70. Cerca de 85% das áreas pescáveis dos oceanos estão classificadas como totalmente exploradas, superexploradas ou até mesmo esgotadas. Isto é um fato. Cruze esta informação com o fato de que o Banco Mundial anuncia que vai “salvar os oceanos” com R$300 milhões de dólares , falando-se de um mercado pesqueiro de dezenas de bilhões de dólares. Minha leitura desta notícia é dúbia. Claro que é positivo que se tenha mais dinheiro disponível para preservação da natureza, afinal, as atividades dependem de recursos, pouco se faz sem dinheiro. Mas acontece que precisamos é de atitudes concretas, diminuição de captura, restrição de espécies, planejamentos dos estoques marinhos, e muita reza, e crença na força regenerativa da mãe natureza. O impacto vai ser necessariamente menos peixe na mesa, e uma mesa menos farta. Em todos os aspectos, é hora de fazermos algum sacrifício para um amanhã melhor.

“Quando a última árvore for cortada, quando o último rio for poluído, quando o último peixe for pescado, aí sim eles verão que dinheiro não se come…”

 

Para saber mais: Quais peixes deve-se pescar (e consumir?)

http://www.informationisbeautiful.net/2011/which-fish-are-okay-to-eat/

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A Máquina Planetária do Trabalho

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Redescobrindo o princípio do divino feminino na Água

Por Kathi von Koerber, especial para o Plantando Consciência

Estamos na época de nos dar conta de que, por séculos, o valor real da água como a verdadeira forma do feminino foi negligenciado. Por milênios a humanidade reverenciou o elemento do fogo, o filho do Sol. Fogo é uma manifestação do masculino no planeta Terra, e a água é o aspecto feminino. Em nossa história, fogo significou riqueza, potencial, capacidade de forjar ouro, massacrar e queimar impérios, conquistar territórios, cruzadas e caça às bruxas; e continua sendo usado como elemento de impacto e poder. Civilizações imperiais governaram com desdém pelo balanço dos elementos da água e fogo. Este último, relativo ao Sol na Terra, tornou-se a celebrada força do elemento masculino de força e poder, e as águas, elemento feminino, lenta mas consistentemente foram depreciadas e poluídas.

Hoje nossas águas estão em estado de crise e nós humanos refletimos este estado em nós mesmos. Sem dúvidas o ciclo da vida está sendo desafiado enquanto o aquecimento global acelera, represas estão interferindo com o fluxo da natureza e até mesmo o rio Amazonas está experimentando secas. Igualmente, a saúde e o bem estar interior da humanidade está sofrendo de pobreza espiritual e existencial. Desordens mundiais de ansiedade, depressão, esquizofrenia, insônia, vícios e personalidades maníacas são resultado da crise interior. Desordens femininas como a TPM extrema, fibrose, câncer de útero, infertilidade e câncer de mama são apenas alguns exemplos que refletem a luta do sexo feminino para encontrar equilíbrio e saúde num mundo moderno afastado da natureza. Esta crise é resultado da falta de harmonia entre os humanos; homens, mulheres e sua relação mútua e consigo mesmos, a natureza e os elementos. E mais especificamente o desequilíbrio da água e do fogo em nossas vidas.

Como passamos a compreender nas últimas décadas, o cuidado com a água é fundamental para nossa sobrevivência futura. Mais do que jamais imaginamos. Como habitantes da Terra, nós entramos numa época onde precisamos priorizar e reverenciar mais a Terra e seus habitantes femininos para nos reequilibrar e harmonizar.

O princípio do feminino no planeta Terra pode ser encontrado no fluxo das águas. Os lagos, rios, tudo que flui, acumula, nutre e eventualmente origina o oceano. Nos textos Védicos é dito que existem sete tipos de águas: nascentes, corredeiras, rios, lagoas, lagos, aquíferos e o mar. Os lagos e lagoas representam o ventre, os rios e as cachoeiras a fertilidade e virilidade das águas e os oceanos representam o líquido amniótico. Os mares e oceanos são conhecidos em muitas tradições com a mãe das águas, também conhecido no Brasil como Iemanjá. O elemento da água é o sangue de nosso planeta, os rios são as veias da Terra e por natureza, as mulheres cuidam e abençoam a água. O princípio feminino é nutrir, manter seguro, como a mãe segurando e alimentando seu bebê. Ao nutrir seu ventre, suas crianças, as mulheres efetivamente nutrem as águas e a si mesmas. Portanto, as mulheres tem a responsabilidade de agir como guardiãs das águas. Toda água que flui traz a marca da nutrição, da mãe e da cuidadora.

A natureza do feminino é muito similar a um cristal. Cristais são condutores de energia, assim como as mulheres. Mulheres são geralmente mais sensíveis que homens, elas absorvem e transformam a energia, como uma mãe que cuida de seu filho com leite do seio. Da mesma maneira, pensamentos e emoções são absorvidos e armazenados em nossos corpos através de nossas águas, como nosso sangue que leva nutrientes para as células e órgãos. Água é um condutor e portanto precisamos tomar cuidado com quais pensamentos colocamos na água pois ela pode absorvê-los. Quando absorvem e não liberam, nossas águas podem ficar fisicamente desequilibradas, resultando em desarmonia ou doença. Então, para reestabelecer a harmonia, é preciso aprender a equilibrar as emoções e estar consciente de que estamos poluindo nossas águas interiores com pensamentos negativos.

É do entendimento de todos que precisamos participar ativamente dos ciclos da vida e não nos considerarmos separados da natureza. Para cada recebimento há uma retribuição. Assim como há um negativo, há um positivo, como uma bateria. Para cada recebimento de água há uma oferta. Para cada emoção há um ato de harmonização e limpeza. Como na natureza, para cada noite há um dia, enquanto o sol e a lua ciclam harmoniosamente, as energias do fogo e da água podem novamente se realinhar.

Então para cada gole de água que sacia nossa sede e limpa nossos corpos, deve haver um ato recíproco. Um ato de devolver é um agradecimento em uma tentativa de harmonização de nossas águas internas e externas. Pensando positivamente quando cozinhamos, ou quando movemos nossas águas internas através da dança, ou ao cantarmos e vibrarmos durante o banho. Compreender que toda a água que usamos foi usada por nossos ancestrais e será usada por nossos filhos e portanto devemos honrar a linhagem e a continuidade da vida.

Com o tempo podemos reintegrar o ciclo da água em nossas vidas, seja através de um estilo de vida sustentável, coletando as águas cinzas, ou sabendo de onde vem sua água potável. Assim, nosso conhecimento se torna mais consciente do design sagrado da vida e das leis da natureza. Para homens e mulheres poderem também compreender que a cozinha, para uma mulher, é o ponto central da família e o altar vivo do equlíbrio alquímico da água e do fogo.

Não Podemos viver sem água. Água é vida, água dá vida e água tira vida.

Estamos vivendo no limiar da maior crise que a humanidade já presenciou, que é a falta de água fresca e limpa. Portanto é extremamente importante como iremos tratar a água interna e externa daqui pra frente. Uma crise planetária da água revela-se de três formas: água contaminada, falta de água e excesso de água. Em nossos corpos, a água poluída se manifesta como raiva, falta de água se relaciona com tristeza e o excesso de água é o ciúme, luxúria e ganância, todos levando a tormentos e desequilíbrio. Para quaisquer formas de turbulência sobre a água que falemos, o antídoto são rezas e boas ações.

Mulheres foram abençoadas com o presente da auto-limpeza na forma de nosso ciclo menstrual. Assim como a terra tem seus ciclos, os sistemas reprodutivos da mulher e o ciclo menstrual são um mecanismo de limpeza sintonizado com a lua. A lua é o guardião feminino que alinha as águas femininas e a menstruação aos ciclos do cosmos. Assim como a água limpa a si mesma por osmose, evaporação, precipitação e filtragem durante a sedimentação, as mulheres liberam e transformam toxinas acumuladas, energias estagnadas e emoções através da menstruação. A menstruação é uma maneira do corpo e da mente se limparem para toda a família, pois a mulher é a peça central da família, pois é a que dá a luz e nutre. A menstruação foi suprimida pela sociedade ao ponto de pessoas tentarem escondê-la, fingir que não está acontecendo e ignorando-a. Todos os sintomas da TPM, ou saúde debilitada em torno da menstruação ou dos sistemas reprodutivos são claras indicações de alguma sorte de desarmonia espiritual ou física. Os ciclos naturais nunca deveriam ser considerados como certezas; o mesmo vale para o sistema menstrual da mulher.

O ciclo natural da mulher é um método altamente avançado para as mulheres se reconectarem à terra e limparem seu ser interior. Mulheres precisam aprender a honrar este momento sagrado e serem apoiadas pelo seu entorno neste feito. Devolver o sangue menstrual como matéria fértil para o solo é uma prática ancestral, contrastante com o conveniente descarte na descarga do banheiro. A verdadeira reza da mulher para devolver seu sangue menstrual para a terra, através do uso do moderno e conveniente coletor de silicone fortalece a comunicação direta com a terra e o eu interior da mulher. Isso permite que as mulheres novamente se tornem suas próprias curandeiras e revigora a relação deteriorada com o planeta Terra. As emoções ficam ancoradas ao solo e não na água. Quando o sangue menstrual é depositado na água, a água se torna mais volátil com emoções e toxicidade. Mesmo a água sendo reciclada muitas vezes, nós beberemos esta volatilidade e será difícil equilibrar mente, espírito e a harmonia masculino/feminino no planeta. O elemento terra tem a habilidade de acalmar as águas.

O primeiro passo para harmonizar o papel do divino feminino é recuperar nossas águas. Como humanidade e indivíduos, temos de reclamar nossas águas. Em uma jornada interior para curar e garantir águas tranquilas é importante integrar a si mesmo nos ciclos naturais das leis do universo. Em um nível ambiental é importante estar seguro de onde vêm nossa água potável, como foi tratada e para onde fluirá depois. É a responsabilidade pessoal com a saúde interior e sua manutenção, para que então possamos ser úteis na preservação e continuidade da comunidade. Na reza e no dia a dia, significa balancear as águas internas e externas permitindo a nós mesmas honrar e ouvir a fluidez das águas femininas.

Kathi von Koerber é uma dançarina/curandeira e diretora de cinema da Alemanha/Africa do Sul. Conviveu com idosos das tribos Bushmen no sul da África do Sul, os Tuareg no Saara, a princesa da Iboga no Gabão, Bernardette Riebenot, Lakota, Navajo e Cherokee nos EUA, Xawante e Fulnio no Brasil e os Camsra e Kogi na Colômbia. Kathi ensina dança e faz apresentações internacionais ha 15 anos, e dedica sua vida para preservar a sabedoria indígena e advocar rituais como elementos chave na evolução humana e iniciação na vida adulta.

Kathi fundou a Kiahkeya em 2004 com o objetivo de informar e disseminar a arte, criatividade e espiritualidade com o propósito da tolerância e igualdade cultural e ambiental.

Vários projetos incluem filmes sobre a tribo Bushmen na África do Sul, o filme “Footsteps in Africa” sobre a música, dança e capacidade de sobrevivência dos nômades Tamakesh no Saara e um filme ambiental de dança Butoh feito nas geleiras do Alaska, que ela atualmente está editando.

O projeto mais recente de Kathi é um filme sobre os poderes místicos da água chamado “Moving Waters”. Kiahkeya também produz workshops interculturais, incluindo dança, medicina sagrada com plantas medicinais, rezas de diferentes tradições, treinamento em liderança selvagem e vivência sustentável. Todos os projetos da Kiahkeya são esforços para apoiar o ambiente e seus habitantes nesta era moderna. Kathi honra a voz da avó. Ela apóia a reza feminina e suas vozes anciãs através dos elementos, a terra e o alimento, o fogo e a transformação, a água e seu poder purificante e o ar através do qual caminhamos a dança da vida

http://www.kiahkeya.com
http://www.imovewater.net

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A caminho da verdadeira sustentabilidade

“Sustainability: Development that meets the needs of the present without compromising the ability of future generations to meet their own needs”

“Sustentabilidade: Desenvolvimento que supre as necessidades do presente sem comprometer a habilidade de gerações futuras de suprir suas próprias necessidades”

ONU, 1987

 

A eleição presidencial no Brasil mostrou que o ambientalismo está forte como nunca. Em uma política nacionalmente polarizada entre dois partidos (PT e PSDB) há anos, em 2010 os quase 20 milhões de votos no Partido Verde, outrora um partido-nanico, marcaram a história ao mostrar que o brasileiro hoje leva muito a sério a questão ambiental e ecológica.

Mas sustentabilidade vai muito além de políticas públicas sobre petróleo, combustíveis limpos e energias renováveis ou até mesmo desmatamento florestal etc etc. Ela ultrapassa os limites do chamado ambientalismo e passa pela casa de cada um de nós, onde cada indíviduo, comunidade, bairro e município pode fazer a diferença. Uma mudança de estilo de vida está em rumo, e atinge desde o que (e quanto) comemos e compramos até qual lâmpada você coloca na sua casa e como vc descarta tudo isso quando lhe parece que não tem mais utilidade.

Nesse sentido diversas alternativas interessantes aparecem por aí, mais ou menos criativas e que demandam empenho variado do indivíduo. A ONG Made In Forest está montando uma base de dados de pontos de coleta seletiva de diversos materiais em todo o país, enquanto a empresa TetraPak fornece o site rota da reciclagem e o governo executa a coleta seletiva solidária. A reciclagem poderia então ser muito simples no dia a dia de cada um se houvesse interação local entre as pessoas de cada edifício, condomínio, cooperativas, ruas, bairros e prefeituras, mas a coisa pode ir se complicando quando esta cadeia é rompida em qualquer um dos pontos. Em São Paulo, por exemplo, apesar de diversas iniciativas locais de reciclagem em condomínios e bairros, a prefeitura parece estar ainda no século passado, não demonstrando qualquer interesse em utilizar recursos financeiros de quase 6 bilhões que foram disponibilizados pelo governo federal para alavancar 10 cooperativas da megalópole (segundo matéria de Lúcia Rodrigues na Caros Amigos). A medida certamente ajudaria a resolver uma questão seríssima para um monstro de cerca de 15 milhões de habitantes que atualmente joga suas 12 mil toneladas diárias de lixo em municípios vizinhos mais pobres (Caieiras e Guarulhos) a um custo mensal de R$ 6,6 milhões (veja aqui !!!).

Nos municípios que recebem este lixo em troca de dinheiro falta a reflexão séria de que tipo de negócio estão praticando, trocando uma recompensa financeira imediatista em troca de um futuro com solo e água contaminados. Em escala planetária, este fenômeno se repete no tráfico internacional de lixo. Se parece absurdo países levarem seu lixo ao exterior de maneira clandestina, é mais ou menos o que faz cada cidadão diariamente, mas de acordo com a legislação: o que eu não quero aqui, jogo em outro lugar, sempre mais pobre que a origem.

Isso revela que a mesma questão se manifesta em várias escalas, e portanto devemos pensar em soluções abrangentes. Mudanças legislativas e políticas podem parecer ser a solução adequada, mas daí vem a pergunta: Por que uma prefeitura não faria ações de coleta seletiva?

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Responsabilidade é sustentabilidade

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Mineralorgia

Por Fabrício Pamplona

Não é de se espantar que o mundo inteiro esteja comovido com o resgate dos 33 mineiros em uma mina de cobre no Chile. Em tempos como este, em que tudo vira “reality show” e que as agências de notícia estão ávidas por acontecimentos raros ou estranhos que possam gerar notícias de grande repercussão, a privação extrema a que foram submetidos estes seres humanos foi um prato cheio para literalmente dias de transmissão ininterrupta. Não é exagero afirmar que a mídia realiza uma busca ativa e intensa por catástrofes pelo mundo, sejam naturais ou produzidas pelo homem… vale inclusive pensar até que ponto nossa curiosidade por este tipo de fato acabe por salientar sua importância e, quem sabe, até influenciar a probabilidade de sua ocorrência.

Um exemplo comum do impacto que a curiosidade humana por eventos escatológicos tem em nossas vidas é o do acidente de trânsito, em especial os trágicos, muitas vezes com vítimas, que acaba gerando imensos engarrafamentos, não só pela obstrução da pista onde o acidente ocorreu, mas também na pista ao lado, por conta da fila de curiosos…. Quantos destes curiosos ajudam socorrer as vítimas ou fornecem alguma ajuda de qualquer tipo? Pouquíssimos. A reação destas pessoas é como a de alguém que assiste ao evento distante, como se estivesse passando na televisão. Pois bem, esta é uma via de mão dupla, se podemos assistir impassíveis à “tragédia da vida real” protegidos no interior dos nossos carros, assistindo atentos e comentando o que acontece através de uma lâmina de vidro; na televisão, os eventos vêm até nós, e podemos ficar ainda mais passivos e indiferentes ao sofrimento humano, “fazendo de conta” que aquele sofrimento se transforma em entretenimento. É a pura banalização da violência.

A audiência massiva e a popularidade de programas de TV com relatos cruéis e muitas vezes ao vivo de ações criminosas, de verdadeiras guerras civis entre policiais e bandidos parecem ser a revitalização dos filmes de Western. O problema é que os mocinhos e bandidos são de carne e osso. Entreter-se, obter prazer com o sofrimento alheio tem um nome: sadismo. E este valor, infelizmente, está sendo bombardeado televisivamente ao espectador que chega às 18-19h em casa depois de um dia inteiro de trabalho e liga a TV para “descansar” enquanto janta. Estamos cada vez mais expostos à violência em nosso dia a dia, e curiosamente, a sensação individual, quase consensual de que “o mundo é violento” é alimentada com muito mais freqüência pelos fatos noticiados do que pelos vividos em primeira pessoa. E é curioso como as pessoas não se contentam em assistir aos programas, mas multiplicam esta informação, repassando aos outros, acompanhando os desdobramentos e se engajando em longas discussões…  Ousaria dizer que esta ânsia por acompanhar as tragédias faz com que a pessoa confirme a sua expectativa sobre a desgraça “mundo afora”, mas por outro lado, traz um certo alívio por saber que não foi atingida. Entreter-se com o sofrimento alheio não é exclusividade dos dias atuais, pode-se facilmente relembrar os espetáculos “circenses” das batalhas de gladiadores ou da exposição de aberrações e deformidades humanas, como retratado no clássico “O Homem Elefante”, de David Lynch.

Sinto um triste pesar em perceber que o isolamento dos mineiros chilenos seja mais um episódio desta novela da vida real, que acompanhamos ao vivo de nossas casas, angustiados, mas com um pingo de alívio pela sensação de que a tragédia foi alheia. “Quanto mais longe de mim, melhor”. Este longo episódio de 69 dias e 33 protagonistas, como toda boa narrativa, teve a capacidade de entreter verdadeiras multidões ao longo do globo, foi traduzido para diversas línguas, envolveu e agitou o mundo das celebridades e felizmente teve um final feliz no último dia 13 de outubro, com o resgate indefectível de todos os participantes. Até parece mentira, todos foram resgatados com vida, o governo local realmente se envolveu, recebendo ajuda e tecnologia de diversos cantos do planeta,e o processo todo foi realizado praticamente 2 meses antes do previsto. Em tempos de reality show, aposto que houve até quem suspeitasse que tudo não passava de uma grande armação…

O “elenco” do espetáculo até recebeu certas regalias, como que em compensação pelo sofrimento que passaram: viagem com acompanhante para a Grécia, 10 mil dólares em dinheiro, festas, ingresso para duas partidas de futebol na Europa e até iPods do próprio Steve Jobs. Claro que tudo isso custa muito mais barato para a companhia mineradora do que pagar uma indenização milionária se os 33 mineiros resolvessem processá-la. Acredito que a maior compensação seja mesmo ter saído vivo desta experiência escatológica de ter sido “enterrado vivo”, como num roteiro de filme de terror. Já que o assunto veio à tona, vale a discussão. A platéia bateu palmas e se comoveu com toda a história dos mineiros, que foram salvos no final do filme, com direito ao “beijo da mocinha” e tudo mais.

Mas o que pensa esta mesma platéia sobre os milhares de mineiros que estão NESTE MOMENTO trabalhando em situações degradantes em minas de cobre, chumbo, estanho, ouro, níquel ou qualquer outro metal precioso pelo mundo? Que ânsia é esta por esburacar os morros e subsolos de nosso planeta à procura de materiais que brilham com o reflexo da luz do astro-rei? O que motivou verdadeiras corridas migratórias do ouro? (A nossa Serra Pelada é um excelente exemplo disso). Um indício da importância desta atividade pode ser vislumbrado na recente notícia de que os milionários se refugiaram na aquisição de minérios (neste caso o ouro) para evitar que suas fortunas fossem drenadas pelo fantasma de uma possível crise econômica global. Recentemente esta se tornou uma alternativa acessível mesmo a quem não se deu ao luxo de acumular tanto dinheiro assim no seu cofrinho, ou embaixo do colchão.

Os minérios transmitem a idéia de segurança, por serem considerados historicamente como lastros econômicos, apesar deste conceito ter caído por terra na sociedade atual, em que a quantidade de dinheiro (real ou virtual) é insustentavelmente balizada por índices econômicos flutuantes ao invés de bens físicos. Curioso não é? Os mineiros arriscam a própria segurança biológica, física, real, enfurnados em túneis de centenas de metros abaixo da superfície, para que a segurança monetária, intangível, virtual, dos magnatas esteja garantida. Mais um triste exemplo da inversão de valores da sociedade do capitalismo desenfreado.

A dedicação humana ao extrativismo mineral, a quantidade de recursos e energia envolvidos é descomunal, e freqüentemente se depara com “obstáculos” com os quais parece não se importar, como discutido recentemente no filme Avatar. Seria até legal se as máquinas destruidoras mostradas no Avatar ficassem parte somente da mente criativa de James Cameron, mas os aparelhos usados para perfurar a terra são realmente medonhos. Um exemplo pode ser visto abaixo, mas para quem se interessar, o site de tecnologia Gizmodo traz uma compilação de diversas máquinas mineradoras que parecem verdadeiras armas de destruição retiradas dos filmes futuristas de ficção científica.

A vida imita a ficção na mineralorgia. Acima, foto do filme Avatar, abaixo, a máquina de mineração russa considerada a maior do mundo.

As escavações de uma galeria de minas subterrâneas podem facilmente ocupar o espaço de uma cidade, onde pessoas passam diversos dias de suas vidas atrás dos grandes depósitos minerais. E não há dúvida de que a escassez destes recursos não renováveis fará a humanidade cavar a sua cova cada vez mais funda. É triste pensar que o delicado equilíbrio da mãe-natureza seja perturbado de maneira tão drástica e grosseira, por motivos espúrios e com tanto desperdício de recursos e energia humana. E, como bem exemplificado pelos 69 dias de escuridão dos mineiros chilenos, a custa de tanto sofrimento para o deleite de tão poucos.

“Tenho certeza de que muito do feio, do desarmônico e do deselegante de nossa cultura de consumo, de nosso urbanismo, de nosso estilo de vida é resultado da ignorância, de pouca ciência e de muito desejo de ter e pouca coragem de ser. Os incompetentes que me desculpem, mas beleza é um excelente indicador da eficiência e da inteligência dos processos que vivemos. É por isso que nos fins de semana corremos desesperados atrás da beleza da natureza. Porque lá resgatamos o fluxo harmônico, inteligente e preciso de nossas energias físicas, emocionais e mentais. Esse resgate explica o encantamento e a gratidão do humano com a beleza do mar, do pôr do sol, da flor, do rio, das pedras, dos peixes, da montanha, da neve, do luar. Está tudo aí, generosamente à nossa disposição” (Ricardo Guimarães).

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