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A Guerra em quadrinhos

Abaixo compartilhamos os ótimos quadrinhos de Stuart McMillen, retratando a história desta guerra que nos assola, violando a paz, rompendo o tecido social, tolhendo direitos humanos fundamentais, empacando a ciência, destruindo vidas…. Para ver o material completo, acesse o site do Stuart aqui

para ver a obra completa, clique aqui

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O forte e o apache


Copio descaradamente e assumidamente um texto inspirador de autoria do talentoso Luiz Bolognesi, roteirista de filmes de primeira como “O Bicho de Sete Cabeças”. No original estava “E ganhou a máquina de Guerra” publicado aqui

Espero que no futuro possamos tratar tudo isso como uma “curiosidade” de uma cultura bélica atrasada e ignorante, que felizmente passou. Mas com a questão indígena cada vez mais forte, em nosso país e no mundo, nada mais atual. Ou você tem alguma dúvida de que o filme Avatar retrata um paralelo perfeito de Belo Monte e as reservas naturais do Xingu ou do que já aconteceu na descoberta conquista da América
PS – Eu li o original em 2010, e em 2012 ele continua fazendo sentido. Vamos ver até quando.

Ao contrário do que parece à primeira vista, a polarização entre Avatar e Guerra ao Terror não traduz uma disputa entre cinema industrial e cinema independente, nem batalha entre homem e mulher. O que estava em jogo e continua é o confronto entre um filme contra a máquina de guerra e a economia que a alimenta e outro absolutamente a favor, com estratégias subliminares a serviço da velha apologia à cavalaria.

Avatar foi acusado nos Estados Unidos de ser propaganda de esquerda. E é. Por isso é interessante. No filme, repleto de clichês, os vilões são o general, o exército americano e as companhias exploradoras de minério do subsolo. Os heróis são o “povo da floresta”. A certa altura, eles reúnem todos os ”clãs” para enfrentar o invasor americano. Clãs? Invasor americano? Que passa? É difícil entender como a indústria de Hollywood conseguiu produzir um filme tão na contramão dos interesses do país e transformá-lo no filme mais visto na história do cinema. Esse fato derruba qualquer teoria conspiratória, derruba décadas de pensamento de esquerda segundo a qual a indústria de Hollywood está sempre a serviço da ideologia do fast-food e da economia que avança com mísseis, aviões e tanques. Como explicar esse fenômeno tão contraditório?

Brechas, lacunas na história. Ou como diria Foucault, a história é feita de acasos e não de uma continuidade lógica cartesiana. A necessidade do grande lucro, da grande bilheteria mundial produziu uma antítese sem precedentes chamada James Cameron. O homem de Titanic tinha carta branca. Pelas regras da cultura do “ao vencedor, as batatas”, Cameron podia tudo porque era capaz de fazer explodir as bilheterias mundiais.

Mas calma lá, cara pálida, uma incoerência desse tamanho, você acredita que passaria despercebida? O general americano, vilão? As companhias americanas que extraem minério debaixo das florestas tratadas como o império das sombras? Alto lá. Devagar com o andor, mister Cameron.

Aí, alguém chegou correndo com um DVD na mão. Vocês viram esse filme da ex-mulher do Cameron? Não, ninguém viu? Então vejam. É sensacional. Ao contrário de Avatar, nesse DVD aqui o soldado americano é o herói. Aliás, mais que herói, ele é um santo que arrisca sua própria vida para salvar iraquianos inocentes. Jura? Temos esse filme aí? Sim, o pitbull americano é humanizado e glamourizado, mais que isso, ele é santificado.

Então há tempo.

Guerra ao Terror estreou no Festival de Veneza há dois anos. Por acaso eu estava lá como roteirista de Terra Vermelha, do diretor italiano Marco Bechis, e fui testemunha ocular da história. O filme da diretora Kathryn Bigelow foi absolutamente desprezado pelos jornalistas e pelo público. E seguiu assim. Indo direto ao DVD, em muitos países, sem passar pelas salas de cinema. Até ser resgatado pela indústria americana como um trunfo necessário para contestar Avatar e reverenciar a máquina de guerra e o sacrifício de tantos jovens americanos mortos e decepados em campo de batalha.

Trabalhando num projeto para o mesmo diretor italiano, que pretendia fazer um filme sobre os viciados em guerra no Iraque, eu pesquisei o assunto durante alguns meses. Tudo muito parecido com o filme de Bigelow, exceto por um detalhe. O detalhe é que os soldados americanos que se tornam dependentes da adrenalina da guerra tornam-se assassinos compulsórios e não salvadores de vidas. O sintoma dos viciados em guerra é atirar em qualquer coisa que se mexa, tratar a realidade como videogame e lidar com armas e balas de verdade como um brinquedo erótico. Se Guerra ao Terror representasse nas telas essa dimensão da realidade, seria um filme sensacional, mas não teria levado o Oscar, podem apostar.

Guerra ao Terror venceu o Oscar porque, como nos filmes de forte apache, transforma os assassinos que dizimam outras culturas em heróis santificados. A cena extremamente longa e minimalista em que os jovens soldados americanos em situação desprivilegiada combatem no deserto os iraquianos é o que, se não uma cena clássica de caubóis cercados por apaches? Sem nenhuma surpresa para filmes desse gênero, os garotos americanos vencem, matam os iraquianos sem rosto, como os caubóis faziam com os apaches no velho-oeste. A cena do garoto iraquiano morto, com uma bomba colocada dentro do corpo por impiedosos iraquianos, que literalmente matam criancinhas, tem a sutileza de um elefante numa loja de cristais. Propaganda baratíssima da máquina de guerra.

No filme de Cameron, os na”vi azuis podem ser os apaches que derrotam o general e expulsam a cavalaria americana. Mas isso é apenas uma ficção. Na vida real do Oscar, a cavalaria precisa continuar massacrando os apaches.

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Uma guerra anunciada – sexta na Cúpula dos Povos Rio+20

Notícia fresquinha sobre um novo documentário, independente, e financiado coletivamente sobre a polêmica usina hidrelétrica de Belo Monte. Ele dá voz aos povos da região e aborda alternativas e mostra a dura realidade do impacto causado pela obra narrado pelas pessoas que estão acompanhando bem de perto a série de manobras políticas, jurídicas e desrespeitos que fazem parte desta história, como já foi relatado neste post do Plantando. Não sou dos mais radicais, e acho até que pensar em usinas hidrelétricas é uma evolução, considerando as  opções antigas baseadas na queima de combustível fóssil. Só não aponta para o futuro, e nos dias de hoje acaba sendo uma opção bem dentro da zona de conforto e que não considera seriamente questões ambientais estratégicas que estão relacionadas. Vim recentemente do TEDxRio+20 onde José Cordeiro, da Singularity University (uma joint-venture entre Google e NASA) falou da possibilidade real de uma matriz energética baseada em energia eólica e solar, e na transmissão wireless de energia elétrica englobando o  planeta inteiro até 2040. É para este futuro que deveríamos apontar, principalmente se o Brasil quer assumir de fato sua posição de liderança internacional.

Enquanto esta realidade não se materializa, ainda falta um tanto de gente acreditando junto, lembremos que toda ação vem de uma tomada de decisão, e que está baseada em valores e crenças. Se continuarmos acreditando que está tudo bem, e que somos imortais, e que o planeta dá um jeito, e vivermos negligenciando o impacto negativo dos valores egoístas da nossa sociedade, a coisa não vai pra frente. Temos que mudar de perspectiva e atualizar nossos valores para uma sociedade que inclua mais, que ouça mais, respeite mais e não tenha vergonha do amor. A si próprio e aos outros ao seu redor, estamos todos conectados.

O filme fala um pouco disso, tendo como fundo a história de Belo Monte, que já vem de longa data (as notícias começam em 1989, com uma “declaração de guerra” kaiapó à Eletronorte. E você pode assistí-la na íntegra aqui . Não é formidável?

E o fato de ter sido financiado coletivamente dá uma ideia clara da importância do tema para a população brasileira. Foram R$140 mil saídos dos bolsos da população. Fenomenal não é? É um grito de “Queremos saber a verdade!”. E ela está dita em Letras Garrafais neste longa. Creio que terá um impacto ainda maior do que o discurso de James Cameron. Vamos assistir, divulgar e compartilhar.

Um ponto importante de argumentação: para Belo Monte produzir a quantidade de energia que a justifique, serão necessárias várias outras barragens, alagando uma area muito superior a que está sendo declarada. E obviamente a primeira usina vai abrir o precedente. O autor e diversos estudiosos e autoridades entrevistadas fazem a previsão de que o argumento da necessidade de novas barragens será trazido à tona somente depois de alguns anos da construção da barragem inicial.

De novo, os valores, quem está decidindo por quem?

Um breve relato do filme segundo o diretor André D’elia:

“A primeira ideia era escrever um roteiro de ficção sobre a Amazônia. Depois de uma expedição pela floresta — e a constatação de que a Amazônia não é tão simples quanto parece —, a ideia passou a ser fazer uma pesquisa filmada. Após três anos, 120 horas de filmagens e R$ 140 mil angariados em uma grande vaquinha pela internet, o projeto finalmente saiu do papel. E em uma data propícia. O documentário “Belo Monte – Uma Guerra Anunciada”, sobre a usina hidrelétrica que está sendo construída no Pará, estreou no último domingo, com exibição no auditório Ibirapuera, em São Paulo, em meio às discussões sobre meio ambiente promovidas pela Rio+20.”

Na próxima sexta, dia 22 de junho o filme será exibido na Cúpula dos Povos, no Aterro do Flamengo como evento da Rio+20. Quem tiver afim… por favor, chega mais!

“No Rio ou em São Paulo, as pessoas acham que conhecem a Amazônia, acham que sabem o que está acontecendo lá, mas não sabem. Muita coisa não está sendo dita. Para entender a questão é fundamental ouvir os povos que vivem lá e saber o que está por trás do projeto” ressalta André.

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O homem que plantava árvores

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Maconha, Saúde e a Lei

O ocorrido: em noite até então pacífica, dezenas de estudantes se revoltam contra uma dúzia de viaturas e dezenas de policiais. Briga, violência, abusos, prejuízos diversos (que seguem aumentando numa avalanche desproporcional…)

O local: A maior e (ainda tida como) melhor universidade do país, a USP.

O (suposto) problema: Uma planta de uso milenar, com propriedades médicas e científicas valiosas e adorada para uso recreativo por milhares há muitos e muitos anos.

A lei (11.343/2006) resumida: Não se pode plantar, nem vender nem distribuir. Mas consumo próprio não é crime com punição por detenção, pois não oferece danos a terceiros.

Um detalhe da legislação, como nos alertou o jurista Walter Maierovitch: “Não pode o universitário ser objeto de presunção de criminoso, pela mera condição de universitário de cursos superiores”

“O pensamento há de ser livre, sempre livre, permanentemente livre, essencialmente livre”

Apesar das palavras claras do ministro do STF, Celso de Mello, em junho, após a PM paulista brutalmente avançar sobre população pacífica que exercia seus direitos constitucionais de livre expressão de idéias na Av. Paulista, a maconha continua sendo o alvo principal de uma política equivocada, que há mais de 40 anos traz mais prejuízos do que soluções. Se não bastassem os trágicos resultados da Guerra às Drogas, já considerada por uma conferência recente nos EUA como uma empreitada “fora de controle” (Reform Conference) e pelo ex-presidente FHC e uma comissão pluralista e multidisciplinar (Drogas e Democracia) como um equívoco que deve ser revisto urgentemente, a política intolerante de proibição arbitrária de algumas drogas está emperrando também a ciência e o avanço da medicina. SIM, isso mesmo. A maconha tem inúmeros potenciais medicinais e terapêuticos, sendo um deles inclusive o uso recreativo, que tem em sua base uma busca, mesmo que inconsciente, de minimizar tensões e estresses do dia a dia, ocorrências tão frequentes nas cidades atuais. Mais ainda onde reina uma política equivocada que não consegue estabelecer diálogos entre os diversos setores da sociedade nem mesmo dentro da universidade (!), apelando à uma organização militar para mediar o que deveria ser um dos pilares centrais da educação de qualidade: o diálogo franco e não-violento. Aos que se preocupam com a violência e demandam mais segurança, incluindo PM dentro da USP, ja praticamente dentro de salas de aula, vale lembrar que nesse rumo estaremos abdicando do mais importante de todos os preceitos democráticos: a liberdade.

Aquilo que te protege, também te limita.

A questão é ainda mais grave porque a PM brasileira é uma das mais violentas do planeta, e está sob sérios problemas de corrupção, sendo inclusive suspeita de assassinato de uma juíza e ameaças de morte a um deputado que teve de fugir do país, ambos do RJ. Coisas do pior nível de tempos nada democráticos. De maneira indireta, combina com um reitor que não foi eleito pela comunidade que atualmente representa na Universidade de São Paulo. Enquanto a guerra as drogas sai totalmente fora de controle, a corrupção policial aumenta, e aqueles que, assustados e amedrontados com a escalada da violência demandam segurança através de maior e mais equipado policiamento, não percebem que os supostos protetores de hoje podem se tornar os grandes abusadores de amanhã. Como há muito profetizou Alan Moore: “Quem vigia os vigilantes?

No intuito de contribuir com o diálogo democrático, a educação, a ciência, a medicina e a paz; e não menos importantemente de repudiar a violência, Plantando Consciência convida para a exibição do documentário “Esperando para fumar: Maconha, Saúde e a Lei” no dia 17/11, quinta-feira, as 20h no Cineclube SocioAmbiental – Sala Crisantempo (R. Fidalga 521 Vl Madalena). A entrada é colaborativa (ou seja, é de graça, mas vc pode levar coisas que esteja disposto a doar). Após o filme, teremos uma CONVERSA com Henrique Carneiro, Prof de História na FFLCH da USP, Renato Filev, doutorando da UNIFESP que estuda o sistema endocanabinóide – o sistema fisiológico natural que todos temos dentro de nossos corpos (até mesmo os PMs), onde atua a famigerada cannabis – e Maurício Fiore, doutorando em Ciências Sociais na UNICAMP e pesquisador do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento); todos membros do NEIP – Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos.

O filme aborda principalmente a história da maconha nos EUA, os tempos antes de sua proibição, a questão médica outrora e agora e abusos policiais que também ocorrem em terras gringas. A narrativa servirá de base de dados e pano de fundo para uma discussão mais ampla e extremamente pertinente à sociedade brasileira. Divulgue, compareça, participe e contribua!

Temos também DVDs legendados em português a venda, com exclusividade. Interessados que não puderem comparecer na exibição, por favor entrar em contato pelo plantando@plantandoconsciencia.org

E como o debate e a informação são essenciais, já fica o convite para o lançamento do livro “O fim da Guerra: A maconha e a criação de um novo sistema para lidar com as drogas“, de Denis Russo Burgierman. Na Livraria da Vila (R. Fradique Coutinho 915) no dia 28/11 as 19 horas

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O Dia da bicicleta

Nos idos de 1920, em Zurique, na Suíça, um jovem trabalhava para conclusão de seus estudos em química. Em uma época de tecnologia muito precária, o estudante usou o suco gastrointestinal da lesma de jardim para conseguir fazer a degradação enzimática da quitina, molécula que compõe a estrutura de cascas, conchas, asas e garras de insetos, crustáceos e outros animais. A estrutura nitrogenada mostrou-se semelhante à da celulose, o material estrutural das plantas. Os resultados, obtidos em apenas três meses, renderam um doutorado com “distinção de mérito”. Em seguida, o recém doutor teve três possibilidades de emprego, e escolheu a compania Sandoz, pois ali poderia trabalhar com produtos naturais, que eram os que lhe fascinavam, enquanto as duas outras ofertas eram de trabalhos com química sintética.

Assim, em 1929 o destacado recém-doutor iniciou sua carreira profissional no laboratório do Prof. Arthur Stoll, fundador e diretor do departamento farmacêutico da Sandoz. O objetivo do departamento era isolar os princípios ativos de plantas medicinais, produzindo assim medicamentos com moléculas estáveis derivadas das presentes nas plantas, que muitas vezes são instáveis e difíceis de se manipular. As plantas escolhidas eram a dedaleira (Digitalis purpurea e outras do mesmo gênero), a cebola do mar (Scilla maritma) e o ergot (ou esporão) do centeio, que tinham pouco uso médico dada a instabilidade dos compostos e da consequente dificuldade de se estabelecer a dosagem. O jovem dedicou-se então a estudar a Scilla por alguns anos. Os princípios ativos já haviam sido isolados anteriormente e poderiam ser usados para tratamento de insuficiência cardíaca. A Sandoz já comercializava uma preparação farmacêutica com este propósito, mas a estrutura das moléculas ainda era desconhecida. O trabalho, que terminou em 1935, elucidou a estrutura destas moléculas, mostrando semelhanças com princípios conhecidos, isolados de glândulas na pele de sapos. Ponto final, linha de pesquisa encerrada.

Foi aí então que nosso protagonista buscou um novo campo de estudo, e pediu ao chefe para continuar suas pesquisas com os alcalóides do ergot, iniciadas no final da I Guerra Mundial, em 1917, e que prontamente levaram ao isolamento da ergotamina em 1918, o primeiro alcalóide do ergot obtido em forma pura.

A Sandoz também já comercializava o produto para tratamento de hemorragias no parto e de dores de cabeça, sob o nome Gynergen. Mas a pesquisa com o ergot tinha parado por aí. Justificando que laboratórios norte-americanos estavam investindo nesta linha, e portanto a Sandoz deveria seguir estudando o ergot para não perder a liderança, o novo empregado conseguiu o que queria, mas recebeu um aviso do Prof. Stoll: “Eu devo lhe alertar das dificuldades que você enfrentará com os alcalóides do ergot. Eles são excessivamente sensíveis, se decompõem facilmente, e são menos estáveis do que qualquer composto que você investigou na área dos glicosídeos cardíacos. Mas você é bem vindo para tentar”. Definia-se neste momento a área principal em que trabalharia por toda sua longa e produtiva vida, com “enorme entusiasmo e alegria criativa de embarcar num campo tão pouco investigado.”

Claviceps purpurea, o ergot do centeio

O ergot é produzido por um fungo, o Claviceps purpurea, que cresce no centeio ou, em menor quantidade, em outros cereais e grãos. Caroços infestados com o fungo têm tom marrom-escuro ou um marrom mais próximo do roxo. O ergot usado medicinalmente é o do centeio (Secale cornutum).

A história do ergot é fascinante por si só. Antigamente temido como veneno, foi depois considerado valioso depósito de remédios. Na idade média, o ergot foi a causa de envenenamentos coletivos e por muito tempo misteriosos que apareciam em duas formas, o ergotismus gangraenosus e o ergotismus convulsivus.

St Anthonys fire

Estes pacientes eram tratados pela ordem de Santo Antônio, que se tornou o padrinho do ergotismo, ou fogo de santo Antônio (St. Anthony’s fire).

As epidemias de envenenamento pelo ergot cederam com a descoberta de que o pão contaminado era a causa, mas epidemias foram registradas no sul da Rússia ainda em 1926-27. O primeiro relato de uso medicinal do ergot é de 1582, para facilitar o parto, mas este uso não é muito seguro para o bebê pois a dificuldade na dosagem causa espasmos fortes do útero. Somente com a determinação da estrutura química dos alcalóides do ergot por laboratórios ingleses e norte-americanos em 1930 que o estudo do ergot ganhou força. Os pesquisadores Jacobs e Craig em Nova Iorque chamaram o núcleo químico presente em todos os alcalóides do ergot de ácido lisérgico. Portanto, o entusiasmado Dr. Abert Hofmann começou a trabalhar com modificações do ácido lisérgico, adicionando diversos radicais, como aminas, através de um processo conhecido como Síntese de Curtius. Combinando o ácido lisérgico com a propanolamina ele obteve um composto idêntico à ergobasina, composto presente naturalmente no ergot, completando então a primeira síntese (produção artificial) de um alcalóide do ergot. Após este sucesso, a pesquisa avançou, rendendo o medicamento Methergine, que se tornou um líder na área da obstetrícia. Em 16 de novembro de 1938, Hofmann produziu a vigésima-quinta substância na série de modificações do ácido lisérgico, com o intuito de obter um composto que funcionasse como estimulante respiratório e circulatório (um analéptico), dada a similaridade estrutural com um analéptico em uso à época, a dietilamida do ácido nicotínico (Coramine). Os testes no departamento farmacológico da Sandoz revelaram efeitos fortes no útero, cerca de 70% dos efeitos da ergobasina que já estava em uso. Também foi notado que os animais de laboratório usados no experimento ficaram inquietos. Mas os efeitos não eram o suficiente para os interesses da Sandoz e os testes com esta molécula foram descontinuados. Nos próximos cinco anos, Hofmann avançou com outros estudos com o ergot, criando o medicamento Hydergine para melhora da circulação periférica e da função cerebral na geriatria, que se tornou o principal produto da Sandoz por muitos anos. É dele também o Dihydergot, medicamento para estabilização da circulação e da pressão sanguínea. Tudo isso trabalhando praticamente sozinho, o que contrasta com as grandes equipes que trabalham nos modernos laboratórios de química atualmente. Os resultados sem dúvida já haviam consolidado sua carreira e comprovado sua competência.

Mas de alguma forma a intuição de Hofmann não o deixava esquecer a vigésima-quinta modificação do ácido lisérgico, o LSD-25 (Lyserg-saure-diathylamid). “Um presentimento peculiar – a sensação de que esta molécula poderia ter propriedades não estabelecidas nas primeiras investigações – me induziram, cinco anos após a primeira síntese, a produzir o LSD-25 de novo”, conta em seu brilhante e fascinante livro “LSD, My Problem Child” (ainda sem tradução para o português). Assim, de maneira não usual, na primavera de 1943, em plena II Guerra Mundial, enquanto a Europa sofria com as catástrofes da violência generalizada e com os campos de concentração do nazismo, Hofmann quebrou o protocolo da empresa, que considerava as moléculas uma vez descartadas como definitivamente fora do programa de pesquisas, e resintetizou o LSD-25. Isso sem que houvesse qualquer dado concreto que o levasse nessa direção. Apenas ouvindo sua voz interior, Hofmann protagonizou uma descoberta serendipituosa fantástica, provavelmente a mais espantosa da história da ciência. Nos passos finais da síntese, durante a purificação e cristalização da dietilamida do ácido lisérgico na forma de um tartrato (um sal), Hofmann foi interrompido por sensações incomuns. Em seu relatório para o Prof. Stoll escreveu:

“Na última sexta-feira, 16 de abril de 1943 fui forçado a interromper meu trabalho no laboratório no meio da tarde, e fui para casa, afetado por uma inquietude exagerada, combinada com uma leve tontura. Em casa deitei e mergulhei numa não-desagradável condição de intoxicação, caracterizada por uma imaginação extremamente estimulada. Em um estado onírico, com olhos fechados (a luz do dia era desagradavelmente brilhante), eu percebia um fluxo ininterrupto de figuras fantásticas, formas extraordinárias com um jogo intenso de cores caleidoscópicas. Após umas duas horas esta condição passou.”

A experiência tinha sido marcante, tanto no seu início súbito quanto no desenrolar extraordinário. O já experiente químico sabia que tinha se intoxicado com o material com que trabalhava, mas daí veio a questão: Como havia tomado contato com o material? Ele sabia da toxicidade dos alcalóides do ergot desde o início de seu trabalho nesta linha, cerca de oito anos antes, e sempre manteve hábitos de trabalho rigorosos. Possivelmente em alguma etapa uma parte do material devia ter entrado em contato com sua pele. Se este fosse de fato o caso, o LSD-25 teria de ser uma substância com potência extraordinária. Para saber, só havia uma maneira: Hofmann decidiu tentar um auto-experimento controlado.

Com extremada cautela, ele pensou na menor quantidade possível para fazer algum efeito psíquico. Decidiu então por tomar 0,25 mg (0,00025 gramas) do tartrato da dietilamida do ácido lisérgico, no dia 19 de abril de 1943, a páscoa judaica. Enquanto na Polônia as tropas nazistas da Waffen SS invadiam os guetos com 2000 soldados fortemente armados, que investiam contra cerca de 1200 judeus que resistiam com coquetéis molotov e algumas pistolas, Hofmann protagonizou o passeio de bicicleta mais famoso da história. Dadas as imposições da guerra, havia restrição ao uso do automóvel, e o auto-experimento com o que seria uma diminuta dose de qualquer outra substância catapultou Hofmann em tal estado mental que ele necessitou ajuda de sua auxiliar para pedalar de volta pra casa logo no início dos fortes efeitos. Pedalando com dificuldade, os sintomas que se pareciam com os da sexta-feira anterior começaram se tornar assustadores. Sua visão ondulava e tudo parecia como refletido em um espelho curvo. Sua sensação era de não conseguir sair do lugar, mas depois a assistente avisou que na verdade eles foram bem rápido.

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

Chegando em casa, Hofmann mal conseguia falar, e com dificuldade solicitou o médico e pediu que lhe trouxessem leite do vizinho. Apesar dos delírios e da condição alucinante, o pensamento por vezes era claro, e a escolha do leite é porque este pode ser usado como um antídoto inespecífico para envenamento. A tontura e a sensação de desmaiar eram fortes, e ele teve de deitar-se no sofá. O ambiente então se tranformava nas mais terríveis maneiras. Tudo girava e a mobília da sala assumia formas grotescas e ameaçadoras, perpetuamente em movimento. Ao longo da tarde ele bebeu mais de dois litros de leite, trazidos pela vizinha, que ele foi incapaz de reconhecer, pois mais parecia uma bruxa. Em seus relatos, Hofmann enfatiza que mais assustador que as alterações do mundo externo eram as sensações internas, as transformações de seu eu interior: “A sensação era muito real de que um demônio tinha me invadido, tomado conta de meu corpo, minha mente e minha alma. Eu estava tomado pela sensação aterrorizante de ficar louco. Fui transportado para outro lugar, outro mundo, outra época. Meu corpo estava sem sensações, sem vida. Estaria eu morrendo? Seria esta a transição?” Depois relata que por vezes sentia-se fora do próprio corpo, e então podia tomar consciência da proporção de sua tragédia: “Será que minha família compreenderia que eu não havia experimentado de maneira inconsequente e impensada? Pelo contrário, que havia sido com a mais extremada cautela e que tal resultado era totalmente imprevisível? […] Então havia também uma ironia amarga: se agora eu fosse deixar este mundo prematuramente, seria por causa desta dietilamida do ácido lisérgico que eu mesmo trouxe à existência”.

Albert Hofmann segura modelo plástico da estrutura química do LSD

Quando o médico chegou, a condição já estava menos severa, e o único sintoma detectável eram pupilas extremamente dilatadas. A medida do pulso, pressão sanguínea e respiração estavam todas normais. Deitado na cama sendo observado pelo médico, Hofmann concluiu que a possibilidade de morte ou loucura permanente estavam decididamente fora de questão. Aí então pode apreciar as intensas imagens de caleidoscópios coloridos que se projetavam por trás de suas pálpebras, caso fechasse os olhos. “Eternamente se abrindo e fechando, explodindo em espirais e fontes coloridas, em fluxo perpétuo. Cada som gerava uma imagem vívida correspondente, com sua própria forma e cores. Exausto, depois que minha esposa chegou, pude dormir, para acordar na manhã seguinte renovado, com a mente clara, uma sensação de bem estar e de vida renovada dentro de mim. O café da manhã estava delicioso e me deu prazer extraordinário. Depois andei pelo jardim, apreciando o sol após uma chuva de primavera, tudo brilhava e irradiava uma luz fresca. Todos meus sentidos vibravam numa condição de sensibilidade máxima, que persisistiu o dia todo”.

A experiência revelou a extraordinária potência do LSD e seus efeitos psíquicos abrangentes. Não havia conhecimento de substância com tais capacidades para alterar a percepção do mundo, tanto externo quanto interno, para modificar a consciência humana de tal forma. É marcante o quanto se pode aprender do relato da experiência de Hofmann, e chocante o quão pouco de fato se aprendeu, tanto desta experiência singular quanto das milhares que se seguiram. Mais conhecido pelo uso maciço nos anos 60 nos EUA e pela forte proibição que se seguiu, o LSD possui propriedades psíquicas únicas, capazes de revolucionar áreas como a psiquiatria, a psicologia e a neurociência. É extremamente eficiente em abrir as portas da percepção (parafraseando William Blake) e expandir nossa consciência, tanto individual como coletiva. Mas nem tudo são rosas. A experiência ilustra bem também os perigos psíquicos de uma dose relativamente elevada em um sujeito psicologicamente despreparado para a experiência. E já indicava a segurança física da experiência. Apesar do pavor que pode ser experienciado, a dose letal de LSD é extremamente maior que a dose efetiva, e não se conhece relato algum de morte por overdose da substância.

As possibilidades na psiquiatria foram de fato testadas e comprovadas por décadas de uso controlado e supervisionado, mas isso pouca gente hoje em dia sabe. Ainda predominam as mentiras deliberadamente inventadas e ativamente propagandeadas pelo serviço de “inteligência” dos EUA (como de que o LSD altera o DNA, por exemplo), principalmente durante os anos da guerra do Vietnam, quando o LSD se tornou o símbolo da juventude que era contra a guerra e que rompia com os rígidos padrões e costumes culturais da sociedade da primeira metade do século XX, o mais violento da história humana, no qual fascismo, nazismo e stalinismo juntos causaram 111 milhões de mortes em combates diretos, mais um número imenso de vítimas direta ou indiretamente relacionadas. Apesar de suas ramificações culturais, políticas e sociais a partir dos anos 60, que o lançaram à fama mundial, o LSD era, anteriormente, fornecido pela Sandoz sobre o nome de Delysid para especialistas da área de saúde mental. Foi  usado terapêutica e cientificamente por diversos pioneiros, concentrados no campo da psicologia e psiquiatria. Liderados pelo visionário psiquiatra tcheco Stanislav Grof, pesquisadores obtiveram resultados promissores. Entre eles destacaram-se James Fadiman, Myron Stolaroff, Huston Smith, Aldous Huxley, Humphrey Osmond e Gary Fisher, entre outros. Estes pioneiros da pesquisa com LSD se beneficiaram do uso consciente e respeitoso e publicaram resultados de pesquisas e abordagens terapêuticas controladas, obtendo insights incríveis não só sobre psicologia e psiquiatria, mas também sobre religião, literatura, filosofia e estudos da consciência em geral.

Os insigts de experiências com o LSD-25, ou com substâncias similares, como os princípios ativos dos cogumelos mágicos (gênero Psilocybe), também isolados, purificados e identificados por Hofmann anos mais tarde (psilocina e psilocibina), trazem muitas respostas para as questões que afligem a sociedade atualmente. O uso adequado destas substâncias permite ao indivíduo desenvolver e cultivar um modo de consciência ecológico, cooperativo e pacífico incompatível com o modelo competitivo, consumista e violento que predomina na sociedade atual. Os frutos do uso adequado e do estudo científico dos psicodélicos se encontram em coisas tão amplas quanto a filosofia perene, arte, biologia molecular, psicologia transpessoal, ecologia sistêmica, física quântica, medicina integral e a cartografia expandida da psique humana, brilhante e consistentemente explorada, documentada e analisada por Stan Grof.

Alheios a quase tudo isso, a maioria dos cientistas e da sociedade de maneira geral segue em seu modo monotônico de consciência, praticando com pressa e ganância as preces do capitalismo globalizado de consumo materialista. Os problemas agravam-se rapidamente, e a grande massa afogada em toneladas de antidepressivos industriais e centenas de horas de programas de TV se torna cada vez mais rebanho de um sistema sócio-cultural cujo rumo pode ser o suicídio coletivo de nossa espécie e da extinção de tantas outras que dependem daquilo que destruímos. Como bem colocou nos anos 80 o psiconauta Terrence McKenna: “A sociedade moderna é um revólver apontado pra cabeça deste planeta”.

A idéia de que é necessária uma profunda revisão de valores e consequente mudança comportamental para que possamos sair do buraco ganha cada vez mais espaço na sociedade. O que a maioria não sabe é apontar um caminho eficiente que vá nessa direção. Nós, do Plantando Consciência, firmemente defendemos que o uso moderado, informado e supervisionado de psicodélicos, respeitando os já bem estabelecidos preceitos do set and setting, são uma das possíveis estradas a serem tomadas. Associada à pesquisa científica moderna, esta estrada pode nos levar a soluções sem precedentes para a crise atual. Não que qualquer pessoa deva usá-los. Pelo contrário. A ciência já mostrou de forma bem clara que há grupos de risco, e que o uso inconsequente pode ser devastador. Mas a prática milenar do uso destas substâncias por culturas xamânicas de todo o globo (e também de técnicas sem drogas capazes de produzir efeitos similares), comprovam que a indução esporádica de estados holotrópicos de consciência não é uma excessão, mas talvez seja a regra de muitas sociedades humanas ao longo da história. A excessão é justamente a proibição generalizada e desinformada que vigora nos últimos 40 anos, e que mais danos causou do que o próprio uso de drogas, mesmo quando feito da pior maneira possível, que é o que ocorre em um sistema de proibição, desinformação e violência. Nas palavras de Amanda Fielding: “Proibir estados alterados é não só inviável como pouco inteligente do ponto de vista evolutivo. Nós estamos em um período desafortunado, em que estados alterados da mente, exceto os produzidos pelo álcool, não são vistos como parte do desenvolvimento da civilização. Não acredito que essas experiências sejam algo que todos desejam. Mas existe uma minoria na sociedade que é exploradora das praias mais distantes da consciência, e a sociedade toda ganha quando permite e encoraja essas pessoas a trazerem ideias e insights desses estados”.

Hofmann foi muito claro sobre o que aprendeu com o LSD, pergunta que ouvia com frequência. Foi enfático, poético e professoral. Em muitas passagens do livro e em várias entrevistas e textos, seus insights emocionam e não deixam dúvidas do tremendo potencial que estamos perdendo: “De extrema importância para mim é o insight de todas minhas experiências com LSD de que, num nível fundamental, o que tomamos como ‘a realidade’, incluindo a realidade individual de cada pessoa, não é algo fixo, mas algo ambíguo – de que não há uma, mas muitas realidades, cada uma compreendendo uma diferente consciência do ego. Também se pode chegar a essa conclusão por reflexões científicas. […] mas é fundamentalmente diferente chegar a isso pela racionalidade, com a lógica da filosofia ou dar de cara com a questão emocionalmente, através da experiência. […] Qual a diferença essencial entre a realidade do dia a dia e o quadro experienciado durante a inebriação com LSD? O ego e o mundo externo estão separados na condição normal de consciência, na realidade ordinária; a pessoa fica face a face com o mundo externo, ele se torna um objeto. Durante a experiência com LSD os limites entre o eu que vivencia e o mundo externo tendem a desaparecer, dependendo da profundidade da inebriação. […] Uma porção do eu transborda para o mundo externo, para os objetos, que tomam vida, ganham um significado mais profundo. […] Em um caso auspicioso, o novo ego se sente abençoadamente unido com os objetos do mundo externo e consequentemente com outros seres vivos. Esta experiência de profunda unidade com o mundo exterior pode até se intensificar para a sensação de unidade com o universo. Esta experiência de consciência cósmica […] é análoga à iluminação religiosa espontânea, a unio mystica. […] O conceito de realidade que separa o eu do mundo definitivamente determinou o curso evolucionário da intelectualidade européia. O que Gottfried Benn chamou de “a catástrofe esquizóide, a auto-perpetuadora neurose ocidental (western entelechy neurosis, no original)”. A experiência do mundo como matéria, como objeto do qual o homem é separado, produziu as ciências naturais modernas e a tecnologia – criações da mente ocidental que mudaram o mundo. Com a ajuda destas ferramentas os humanos subjugaram o mundo. Sua riqueza foi explorada e depredada, e a conquista sublime da civilização tecnológica, o conforto da vida industrial ocidental, está de frente com a catastrófica destruição do meio ambiente. Até mesmo ao coração da matéria, ao núcleo do átomo e sua partição, este intelecto objetivo progrediu e liberou energias que ameaçam toda a vida no planeta. Um uso equivocado do conhecimento […] não poderia emergir de uma consciência da realidade na qual os homens não são separados do ambiente mas existem como parte da natureza viva e do universo. Todas as tentativas de reparar os danos ambientais com medidas protetoras permanecem sem esperanças, são apenas remendos superficiais, se não houver cura para a “auto-perpetuadora neurose ocidental. A experiência de uma realidade unitiva é impedida em um ambiente tornado morto pelas mãos humanas, como é o caso presente nas grandes cidades e distritos industriais. Nestes lugares a separação entre o eu e o mundo externo se torna especialmente evidente. Sensações de alienação, solidão e ameaça surgem. […] No campo ou na floresta, e no mundo animal abrigado aí, na verdade em cada jardim, há uma realidade perceptível que é infinitamente mais real, antiga, profunda e mais maravilhosa do que qualquer coisa feita por pessoas, e que irá por fim prevalecer, após o inanimado, mecânico e concreto novamente sumirem, após apodrecerem e se desfalecerem em ruínas. Não estamos caminhando na direção de um sentimentalismo entusiasmado pela natureza, um “retorno à natureza” no sentido de Rousseau. Aquele movimento romântico, que buscava o idílico na natureza, também pode ser explicado pela sensação de separação entre humanidade e natureza. O que precisamos hoje é uma fundamental resignificação da unidade de todas as coisas vivas, uma realidade consciente e abrangente que cada vez mais infrequentemente se desenvolve de maneira espontânea, quanto mais a primordial flora e fauna de nossa mãe terra cede lugar ao ambiente tecnológico morto.“

Assim sendo, desejamos que neste 19 de abril pausemos para repensar e melhor nos informar sobre a história e os fatos que cercam os psicodélicos. Para que o preconceito, a desinformação e a mentira abram espaço para  o desenvolvimento da consciência holotrópica. Para que os psicodélicos possam reencontrar seu rumo, e que finalmente a “criança problema” de Hofmann se torne a “criança abençoada”. É hora de regar e cultivar a consciência global de que tanto necessitamos. Para que a chegada da primavera na mente dos homens aconteça o quanto antes, dissipando a “catástrofe esquizóide” que nos assola.

A todos nossos queridos leitores, de ontem, hoje e amanhã, desejamos um feliz dia da bicicleta, em homenagem ao gênio Albert Hofmann (11 jan 1906 – 29 de abril de 2008).

PS Plantando Consciência desaconselha veementemente o uso não supervisionado de qualquer substância psicotrópica, legal ou ilegal. Também desaconselhamos práticas contrárias ao que estabelece a lei de cada país. Se você têm interesse em estados holotrópicos de consciência, procure profissionais certificados trabalhando de acordo com a lei local. Seja responsável e amoroso consigo mesmo, honesto com todos.

#PAZ

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Os perigos de uma única história

O oriente médio segue em protestos pela liberdade e democracia, pelo fim de uma sociedade militarizada e controlada por interesses econômicos e políticos de uma quase-ditadura distante, que vem disfaraçada de democracia há décadas. E assustadoramente nem mesmo o que ocorre por lá sabe-se direito, porque a pressão pela manutenção brutal dos regimes ainda em vigor impede até mesmo a comunicação humana. Internet desligada, celulares sem serviço e afins nos fazem lembrar o que há de pior na distopia orwelliana “1984”. Os perigos disto vão muito além da falta de notícias que enviesam a política no curto prazo.

Chimamanda Adichie, mulher, negra e nigeriana tem uma comovente história pra contar, revelando os verdadeiros perigos por trás da história única imposta pela hegemonia globalizante atual, que instala uma série de preconceitos culturais, raciais e de gênero, afastando seres humanos e criando distinções artificiais que podem fomentar, adubar e regar preconceitos mútuos entre povos por séculos.

Imperdível, legendas em diversas línguas abaixo do vídeo

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Guerra contra o que?

Os recentes acontecimentos no RJ, contados pela VEJA (melhor seria não ver) sugerem que o Brasil finalmente começou a vencer a guerra. Mas que guerra é essa? Chamada mundialmente de “guerra contra as drogas”, o fenômeno se revela, à uma análise um pouco mais científica e profunda, uma guerra contra outras coisas, mas não contra as drogas.

É isso mesmo. Essa política repressiva e sanguinária existe a cerca de 5 décadas como um dos pilares centrais da sociedade moderna, mas é um fracasso total na questão de repressão às drogas ilícitas. Enquanto a guerra, os presos e os mortos proliferam rapidamente no mundo todo, as drogas são cada vez mais disponíveis, mais fortes e mais baratas (não acredita? clique aqui). Por outro lado, a guerra que se diz contra as drogas é um sucesso total em outro quesitos. Por exemplo, a juíza aposentada no RJ, Maria Lúcia Karam, mostra que essa guerra civil permanente, nos EUA, já encarcera mais negros do que o regime político do apartheid, que era explicitamente racial, ao contrário da perniciosa política atual. Seria então uma política racial disfarçada? Isto é deliberado ou inconsciente, efeito colateral duma política equivocada? E quando houve mesmo na história da humanidade uma sociedade sem drogas? Segundo Henrique Carneiro, historiador da USP, nunca. E isso não só é impossível como indesejável. De fato, ninguém quer ficar sem as drogas da farmácia, artificalmente distinguidas pelo nome de remédio. Mas que também viciam e matam, por vezes muito mais do que as demonizadas e tornadas ilícitas. E poucos querem ficar sem sua cervejinha, seu tabaco, café ou chocolate.

Então o que nos impede de debater a questão seriamente? Qual o grande medo por trás desta guerra que faz com que a maioria sequer aceite ouvir idéias alternativas, enquanto um verdadeiro genocídio prossegue todos os dias? Segundo o Major Neill Franklin, ex policial norte-americano, o maior medo por trás da mudança na política de drogas atual é reconhecer que erramos feio, e que foi por tanto tempo. Segundo Wade Davis, antropólogo Canadense, esta guerra é a maior loucura de toda a história humana. Pensamento semelhante foi expresso pelo recém prêmio Nobel Mário Vargas Llosa.

Estas, e muitas outras questões, são tema do documentário brasileiro Cortina de Fumaça, que o Plantando Consciência traz com exclusividade para São Paulo, em exibições inéditas a partir de amanhã. Em uma parceria com a produtora do filme, Coletivo Projects, e com a Matilha Cultural, o filme será exibido de graça até domingo, dia 19/12 (para detalhes da programação acesse nosso site). Na sexta-feira, dia 17, sessão especial as 20:00 seguida de debate com o diretor, Rodrigo MacNiven e alguns entrevistados já confirmados: Elisaldo Carlini, Walter Maierovitch e Cristiano Maronna. Carlini é médico, psicofarmacologista e professor da Universidade Federal de São Paulo. Já prestou inúmeros serviços ao governo brasileiro e à ONU especificamente sobre drogas. Maierovitch foi secretário nacional Antidrogas da Presidência da República entre 1999 e 2000 e hoje é Desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo. Maronna é diretor do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM) e advogado.

Para todos os que desejam um Brasil diferente nos anos que estão por vir, serão sessões imperdíveis!

Saudações cordiais

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Você sabia? Edição sobre a guerra às drogas

Plantando Consciência, em parceria com O Imperador está Nu traz ao Brasil a magistral animação do Centro Internacional para Ciência na Política de Drogas, que postamos anteriormente em inglês e espanhol.

Semeiem com carinho.

Paz!

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Cannabis Medicinal: Não lemos e não-gostamos?

Dando sequência aos debates sobre a maconha no país, em especial sobre a maconha medicinal, Plantando Consciência publica carta do maior especialista nacional no assunto, o professor da UNIFESP e especialista em psicofarmacologia Elisaldo Carlini que foi recusada pela Folha de São Paulo, mesmo veículo que tem publicado cartas de fortíssimo viés ideológico e repletas de ofensas pessoais a diversos pesquisadores brasileiros, assinadas por Ronaldo Ramos Laranjeira e Ana Cecília Petta Roselli Marques (veja um exemplo aqui).

Em Maio deste ano foi realizado o Simpósio Internacional: “Por uma Agência Brasileira da Cannabis Medicinal?” sob minha presidência, contando com a participação de cientistas do Brasil, Canadá, Estados Unidos, Inglaterra e Holanda, representantes brasileiros de vários órgãos públicos, sociedades científicas e numerosa audiência. Após dois dias de intensas discussões foi aprovado por unanimidade um documento recomendando ao Governo Federal a oficialização da criação da Agência Brasileira da Cannabis Medicinal.

Esperava uma discussão posterior, científica e acalorada, pois sabia de algumas opiniões contrárias à proposta. Entre estas o parecer do Departamento de Dependência Química da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) cujos representantes compareceram apenas para apresentar seu parecer, ausentando-se totalmente, antes e depois, de todo o restante do simpósio.

Esta havendo sim a esperada discussão, veiculada principalmente através da Folha de São Paulo, mas num nível de entristecer. De fato, expressões como – “o dom de iludir”; “Lobby da maconha”; “Maconhabras”; “uma idéia fixa: a legalização das drogas”; “elementos com pretensa respeitabilidade”; “paixão dos lobistas”; “exemplo de indigência intelectual”; “querem maiores facilitações para o consumo”; “travestidos de neurocientistas”; – não se coadunam com a seriedade que deve prevalecer em qualquer discussão científica. Os autores de tais infelizes afirmações certamente não leram a celebre frase de Claude Bernard, o pai da medicina experimental: “em ciência criticar não é sinônimo de denegrir”.

Por outro lado, os contrários ao uso medicinal da maconha utilizaram de argumentos inverídicos (para dizer o mínimo) quando tentam criar uma atmosfera de pânico, desviando o foco da atenção (maconha como medicamento). Assim:

– Legalização da Maconha – O item 6 da carta do Simpósio diz cristalinamente: “o uso clínico dos derivados da Cannabis sativa L ou de seus derivados naturais ou sintéticos não pode ser confundido com o uso recreativo (não-médico) da planta”. Os autores das infelizes frases não leram, portanto, esta resolução.

– “O uso médico esta longe de receber aprovações de órgãos como a Agência FDA dos EUA”, dizem os autores das afirmativas.

Ora, um princípio ativo da maconha, o ∆9-THC, esta aprovado como medicamento por esta Agência desde a década de 1990, sendo o produto Marinol® produzido e utilizado nos Estados Unidos, e exportado para vários países há quase 20 anos.

Portanto, os autores de tal afirmativa também não leram nada a respeito. Mas não é só isso, pois a maconha e seus derivados também já têm aprovação para uso médico em países como Canadá, Reino Unido, Holanda e Espanha. A Ministra da Saúde da Espanha chegou a declarar: ao aprovar o seu uso para a Esclerose Múltipla: “O uso terapêutico da cannabis é estudado há anos, por isso existem testes clínicos e evidências científicas de sua utilidade em determinadas doenças”

– Dizem ainda os autores das frases: “O uso terapêutico da maconha não tem comprovação científica. Se recomendado negaria a busca da ciência… por produtos cada vez mais seguros”.

A Dra. Nora Volkow diretora do Instituto Nacional do Abuso de Drogas (NIDA) dos Estados Unidos declarou em Março deste ano a uma revista brasileira “Não existe droga segura”, o que é uma verdade, também para a maconha. Vem daí a necessidade de um médico estudar a relação risco/benefício de qualquer droga que prescreve. Por exemplo, segundo dados do FDA de 1997 a 2005 houve 196 relatos de suspeita de morte coincidente com o uso de antieméticos (uma indicação também aprovada para a maconha). Não houve nenhuma suspeita de morte pelo uso da maconha. Por outro lado a Dra. Valéria declarou também que os canabinóides têm algumas ações terapêuticas úteis como efeito antiemético, aumento do apetite em casos de câncer e AIDS, benefícios analgésicos e em glaucoma.

– A alegação de que “não precisamos que o Governo Federal crie, por meio de Secretaria Nacional Antidrogas (SENAD), uma agência para …..a maconhabras”

Primeiramente é preciso esclarecer que a SENAD é uma sigla para Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas, conforme já aprovado há mais de três anos; portanto, os autores dos artigos na Folha de São Paulo não leram a respeito. É preciso ainda esclarecer que a SENAD não patrocinou e não auxiliou com qualquer quantia a realização do Simpósio. Por outro lado, por se ausentarem de quase todo o simpósio, não sabem que o solicitado na carta foi a “oficialização” à ONU do nome de Agência Nacional da Cannabis Medicinal; conforme enfatizado pelo INCB, órgão da ONU, em 2009. De fato, as leis necessárias para esta criação já foram aprovadas pela Lei 11.343 de 23/08/2006 e seu Decreto regulamentador nº 5.912 de 27/09/2006.

– “A maconha causa dependência” segundo os autores das frases. Ninguém nega esta propriedade indesejável da maconha, como também ocorre com muitos outros medicamentos. Mais uma vez cabe a análise da relação risco/benefício ao se utilizar os derivados da maconha ou de qualquer outra droga. Teriam os autores da frase opinião semelhante a muitos outros medicamentos que são fortes indutores de dependência como morfina e vários outros opiáceos responsáveis por milhares e milhares de casos desta reação adversa? Pretenderiam eles solicitar proibição de uso clínico destas drogas?

– “Até hoje há pouco estudos controlados, com amostras pequenas” e “o uso de terapêuticos da maconha não tem comprovação científica…”

Muita literatura médica precisaria ser lida para permitir afirmativa tão categórica. Existem já dezenas de livros e centenas de artigos científicos publicados sobre as propriedades medicinais da maconha. Por exemplo, em duas extensas revisões recentes (Journal of Ethnopharmacology 105, 1-25, 2006; Cannabinoids 5 (special issue), 1-21, 2010) mais de uma centena de trabalhos científicos são analisados, a maioria deles demonstrando os efeitos que são negados pelos autores das frases. Estas revisões concluem que: “cannabinóides apresentam um interessante potencial terapêutico, principalmente como analgésicos em dor neuropática, estimulante do apetite em moléstias debilitantes (câncer e AIDS) bem como no tratamento da esclerose múltipla”.

Há ainda a salientar que várias sociedades científicas americanas já se posicionaram favoravelmente ao uso médico da maconha tais como: Associação Psiquiátrica Americana, Sociedade de Leucemia e Linfoma dos EUA, American College of Physicians e Associação Médica Americana.

Isto sem contar que os Ministérios da Saúde do Canadá, Estados Unidos, Espanha, Dinamarca e Reino Unido já aprovaram o uso medicinal.

– Segundo os autores das frases os proponentes da Cannabis Medicinal usam a “estratégia de confundir o debate” e “…a confusão fica por conta de a ativistas comprometidos com a causa da legalização”

Ora, esta argumentação poderia bem ser utilizada no sentido oposto, como pareceria ser o caso. Sendo totalmente contrário a qualquer uso da maconha investem contra o seu uso medicinal, parecendo tentar convencer o público de que aprovação do uso médico e legalização seriam a mesma coisa, o que esta longe de ser verdadeiro. É bem possível que um forte sentimento ideológico possa estar por trás da confusão armada, o que seria lamentável. Para continuar uma discussão científica minimamente aceitável dever-se-ia por iniciar a leitura de dois artigos publicados neste ano de 2010, em duas das mais serias e respeitáveis revistas científicas do mundo: “Maconha médica e a Lei” (New England Journal of Medicine 362, 1453-1457, 2010) e “Como a Ideologia modela a evidencia e a política: o que conhecemos sobre o uso da maconha e o que deveríamos fazer?” (Addiction 105, 1326-1330, 2010).

Realmente, sem ler não é possível continuar este debate! Sugiro que todos façam “o dever de casa”, atualizando o seu conhecimento com as leituras de mais artigos científicos recentes.

E. A. Carlini, Professor-Titular de Psicofarmacologia – UNIFESP Diretor do CEBRID – Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas Membro Titular do CONED (Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas) Membro do Comitê de Peritos sobre Álcool e Drogas OMS (7º mandato) Ex-membro do Conselho Internacional de Controle de Narcóticos (INCB – ONU) (2002-2007)

Saiba mais:
O uso medicinal da Maconha, entravista com Elisaldo Carlini

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