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Uma guerra anunciada – sexta na Cúpula dos Povos Rio+20

Notícia fresquinha sobre um novo documentário, independente, e financiado coletivamente sobre a polêmica usina hidrelétrica de Belo Monte. Ele dá voz aos povos da região e aborda alternativas e mostra a dura realidade do impacto causado pela obra narrado pelas pessoas que estão acompanhando bem de perto a série de manobras políticas, jurídicas e desrespeitos que fazem parte desta história, como já foi relatado neste post do Plantando. Não sou dos mais radicais, e acho até que pensar em usinas hidrelétricas é uma evolução, considerando as  opções antigas baseadas na queima de combustível fóssil. Só não aponta para o futuro, e nos dias de hoje acaba sendo uma opção bem dentro da zona de conforto e que não considera seriamente questões ambientais estratégicas que estão relacionadas. Vim recentemente do TEDxRio+20 onde José Cordeiro, da Singularity University (uma joint-venture entre Google e NASA) falou da possibilidade real de uma matriz energética baseada em energia eólica e solar, e na transmissão wireless de energia elétrica englobando o  planeta inteiro até 2040. É para este futuro que deveríamos apontar, principalmente se o Brasil quer assumir de fato sua posição de liderança internacional.

Enquanto esta realidade não se materializa, ainda falta um tanto de gente acreditando junto, lembremos que toda ação vem de uma tomada de decisão, e que está baseada em valores e crenças. Se continuarmos acreditando que está tudo bem, e que somos imortais, e que o planeta dá um jeito, e vivermos negligenciando o impacto negativo dos valores egoístas da nossa sociedade, a coisa não vai pra frente. Temos que mudar de perspectiva e atualizar nossos valores para uma sociedade que inclua mais, que ouça mais, respeite mais e não tenha vergonha do amor. A si próprio e aos outros ao seu redor, estamos todos conectados.

O filme fala um pouco disso, tendo como fundo a história de Belo Monte, que já vem de longa data (as notícias começam em 1989, com uma “declaração de guerra” kaiapó à Eletronorte. E você pode assistí-la na íntegra aqui . Não é formidável?

E o fato de ter sido financiado coletivamente dá uma ideia clara da importância do tema para a população brasileira. Foram R$140 mil saídos dos bolsos da população. Fenomenal não é? É um grito de “Queremos saber a verdade!”. E ela está dita em Letras Garrafais neste longa. Creio que terá um impacto ainda maior do que o discurso de James Cameron. Vamos assistir, divulgar e compartilhar.

Um ponto importante de argumentação: para Belo Monte produzir a quantidade de energia que a justifique, serão necessárias várias outras barragens, alagando uma area muito superior a que está sendo declarada. E obviamente a primeira usina vai abrir o precedente. O autor e diversos estudiosos e autoridades entrevistadas fazem a previsão de que o argumento da necessidade de novas barragens será trazido à tona somente depois de alguns anos da construção da barragem inicial.

De novo, os valores, quem está decidindo por quem?

Um breve relato do filme segundo o diretor André D’elia:

“A primeira ideia era escrever um roteiro de ficção sobre a Amazônia. Depois de uma expedição pela floresta — e a constatação de que a Amazônia não é tão simples quanto parece —, a ideia passou a ser fazer uma pesquisa filmada. Após três anos, 120 horas de filmagens e R$ 140 mil angariados em uma grande vaquinha pela internet, o projeto finalmente saiu do papel. E em uma data propícia. O documentário “Belo Monte – Uma Guerra Anunciada”, sobre a usina hidrelétrica que está sendo construída no Pará, estreou no último domingo, com exibição no auditório Ibirapuera, em São Paulo, em meio às discussões sobre meio ambiente promovidas pela Rio+20.”

Na próxima sexta, dia 22 de junho o filme será exibido na Cúpula dos Povos, no Aterro do Flamengo como evento da Rio+20. Quem tiver afim… por favor, chega mais!

“No Rio ou em São Paulo, as pessoas acham que conhecem a Amazônia, acham que sabem o que está acontecendo lá, mas não sabem. Muita coisa não está sendo dita. Para entender a questão é fundamental ouvir os povos que vivem lá e saber o que está por trás do projeto” ressalta André.

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O RIO

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A amazônia dentro de cada um de nós

Em meio ao bem vindo boom que ganhou a discussão sobre Belo Monte com a entrada do movimento gota dágua, estrelado por famosos atores da TV brasileira, o filme ao final deste post, produzido por Bernardo Loyola e Felipe Milanez, nos desperta de forma profunda para o que está acontecendo de verdade na Amazônia. Estamos vivenciando a última etapa de um processo que tem suas origens na chegada dos Europeus nestas terras. Um processo de “desenvolvimento” e “progresso” tocado, ontem e hoje, com muito trabalho escravo (1), assassinatos (2), genocídios de etnias e culturas (3) vistas pela arrogância ocidental, branca e patriarcal como primitivas e ultrapassadas e um constante biocídio de milhões de espécies vivas que co-habitam Gaia conosco (4) – vistas apenas como objetos, ou no melhor dos casos, alimentos – e outras tantas já extintas que poderiam ainda estar aqui. Não está em jogo apenas quantos KiloWatts de energia Belo Monte pode produzir ou quanto custariam investimentos similares em energia solar e eólica (5), quantos bilhões serão gastos (6), quanto o PIB vai crescer (7), quantos sairão da linha de pobreza nos próximos poucos anos (8), quantos índios de fato não sobreviverão aos impactos da obra (9) e quantos trabalhadores serão submetidos a péssimas condições de trabalho (10).

O que está em jogo é uma tensão fundamental em nossa psique. Como brasileiros, como seres humanos, como terráqueos, está em jogo se seremos capazes de deixar de lado esse modo de vida predatório – virulento, como bem definido no clássico Matrix – para nos tornarmos algo mais harmônico e integrado com a natureza, de onde viemos e que nos mantém vivos. Se seremos capazes de nos tornar uma espécie sábia e diferenciada das demais justamente por nossa consciência em potencial – e que portanto reconhece os limites do planeta e tem a humildade de não querer tudo para si. Mas tem a esperteza de aproveitar o melhor da tecnologia e desenvolver uma sociedade eficiente, que pouco desperdiça, que faz mais com menos. O que está em jogo é se continuaremos colonizando esta Terra com a mentalidade ocidental, materialista, patriarcal, industrial, bélica, poluidora, gananciosa e predominantemente monoteísta. Psique essa que agora sofre duramente as consequências iniciais, justamente no território de sua origem, dos limites impostos pelas atividades empreendidas por suas atitudes arrogantes de “donos do planeta”. Atitudes de uma pretenção irreal e (aparentemente) irrefreável de ter crescimento material infinito num planeta redondo. Ou se teremos a coragem de admitir erros do passado e pensar o futuro não com a consciência obnubilada, enxergando apenas alguns poucos anos de consequências imediatistas, mas pensando em décadas e gerações que estão por vir, com uma consciência que pode (e quer) florescer, se expandir, se diversificar. Está em jogo se seremos capazes de criar uma sociedade minimamente hábil para lidar com os complexos desafios de um mundo com estimados 9 bilhões de habitantes até 2050. Em termos profundos, está em jogo se seremos capazes de nos alinhar à vida, de sermos biofílicos, ou se continuaremos propagando este modo biocida de existência que, em última análise, levará nós mesmos à total ruína. O que está em jogo é se vamos nos despedir dos aspectos ruins da cultura do passado, que já não nos servem mais – como outrora serviram – e abraçar uma nova cultura que faz muita força para nascer. O que está acontecendo na Amazônia é, em termos simbólicos Campbellianos (11) e na prática real e cruel, o que foi brilhantemente narrado no recente épico-mitológico Avatar.

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

veja em tela cheia aqui

(1) O observador do Brasil no Atlântico Sul

(2) Assassinato de ativista no Pará

(3) Chacina contra os Guarani-Kaiowá

(4) Patrocinador e vítima da sexta grande extinção de formas de vida na Terra

(5) Indústria Brasileira reclama dos custos da energia

(6) O custo de Belo Monte

(7) Belo Monte sustentará alta do PIB

(8) Amazônia ainda vive na pobreza

(9) Indígenas não precisam ser consultados

(10) Cento e cinquenta funcionários demitidos após protestos em Belo Monte

(11) O Poder do Mito

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Pare Belo Monte

Hoje, 17 de outubro de 2011, após o voto da relatora Selene Almeida a favor da interrupção das obras da construção da hidrelétrica de Belo Monte, um desembargador de sobrenome Deus (ironia?) “pediu vista”, e a justiça, mais uma vez, parou. Tem coisas que são de difícil compreensão nesse país. Pra entender melhor a polêmica sobre a obra, enquanto o processo fica parado cerca de 15 dias (segundo os otimistas) acompanhe a aulinha resumo abaixo, feita pela Procuradoria da República no Pará.

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Belo?

Talvez a questão mais importante dos anos Dilma no Brasil, a se refletir por séculos, seja a construção (ou não) da usina hidrelétrica de Belo Monte, no Xingú (em Altamira, PA). A obra, planejada antes mesmo dos anos FHC, perpetua um modelo energético centralizado e devastador ao ambiente. A obra mal começou (o IBAMA inventou e concedeu “licensa parcial” e portanto já está sendo devastada floresta para criar o canteiro de obras) e já acumula inúmeras irregularidades políticas, jurídicas e sociais que apontam para um atropelo da constituição, da lei, das pessoas e da natureza. O último estudo de impactos ambientais levantou 40 (!!!) itens alarmantes. Quarenta cientistas reportaram 280 páginas sobre o projeto, que foram ignoradas. 560 mil assinaturas contra a obra foram entregues, mas sem efeito qualquer junto ao governo. Vinte e quatro culturas indígenas que congregam milhares serão devastadas pela usina, ao contrário do que declara a própria presidenta, que faz um jogo delicado e sutil de palavras: na constituição, alagar territórios não faz parte do conceito de atingir indígenas. Tudo isso em prol de um modelo energético duvidoso, que já produz energia elétrica em excesso e desperdiça absurdos e de um desenvolvimento econômico muito questionável. Se não bastasse, a obra não é isolada, mas parte de um plano de mais 60 usinas naquilo que hoje ainda é floresta.

Um recente documentário brasileiro com parceria espanhola traz a tona a voz dos ignorados que de fato vivem na região e serão devastados pela obra:

No dia 20 de agosto, sábado próximo, haverá ato global contra a obra, que simboliza uma luta de 30 anos. Participe, informe-se, contribua!

infos deste breve e emergencial post foram obtidas pelo @plantando no debate de segunda-feira, dia 15/08/2011, organizado pelo @salveafloresta na @casajaya, com participação de Aline Arruda (Advogada ambiental), Verena Glass (Jornalista – Xingu Vivo), Sanny Kalapalo (Etnia Kalapalo – Pró-Xingu), Célio Bermann (Professor da Pós graduação do Instituto de Eletrotécnica e Energia – USP), Rodrigo Guim (Ecólogo e Antropólogo), André Amaral (Biólogo, Mestre em Ciências Ambientais) e Flávia Cremonesi (Bióloga e Designer em Sustentabilidade e Permacultura), obrigado!

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Reflexão sobre o belo monte

Em tempos em que querem a todo custo acelerar o já acelerador PAC e construir coisas como a usina hidrelétrica de Belo Monte, atropelando demais interesses e necessidades de todos os seres vivos, relembrar as palavras do Cacique Seattle ao presidente norte-americano em 1852 é uma prática meditativa profunda que pedimos ao maior número de pessoas que façam. Se possível, que isto chegue à mesa de nossa primeira presidenta e de seus demais colaboradores neste processo:

“O presidente em Washington manda dizer que deseja comprar a nossa terra. Mas como você pode comprar o céu, a terra? Essa idéia é estranha para nós. Todas as partes dessa terra são sagradas para meu povo. Cada agulha brilhante de pinheiro, cada grão de areia da praia, cada névoa na floresta escura, cada arbusto é sagrado na memória e na experiência do meu povo. Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs. O urso, o veado, a grande águia, são todos nossos irmãos. Cada reflexo na água cristalina dos lagos fala de acontecimentos e lembranças da vida de meu povo. O murmúrio das águas é a voz do pai do meu pai.  Os rios são nossos irmãos. Eles carregam nossas canoas e alimentam nossos filhos. Se vendermos nossa terra a vocês, lembrem-se de que o ar é precioso para nós e compartilha seu espírito com todas as formas de vida que ele sustenta. O vento, que deu a nosso avô seu primeiro alento recebe também seu último suspiro. Isto nós sabemos. A terra não pertence ao homem. O homem pertence à terra. Todas as coisas são interligadas, como o sangue que une a todos nós. O homem não tece a teia da vida. Ele é apenas um fio dela. O que quer que faça à teia, fará com si mesmo. O destino de vocês é um mistério para nós. O que acontecerá quando todos os búfalos forem abatidos? O que acontecerá quando os recantos sagrados da floresta estiverem tristes com a tristeza de tantos homens? Quando a vista das colinas verdejantes se macular com os fios que falam? Será o fim da vida e o começo da sobrevivência. Quando o último pele-vermelha sumir com a natureza selvagem e suas memórias forem apenas sombras de uma nuvem sobre a planície, essas praias e florestas ainda estarão aqui? Terá sobrado algum espírito do meu povo? Amamos essa terra como o recém nascido ama as batidas do coração de sua mãe. Então se vendermos a vocês nossa terra, amem-a como nós a amamos. Cuidem dela como nós cuidamos. Preservem na mente a memória da terra como ela estiver quando a receberem. Preservem a terra para as crianças e amem-na como Deus ama a todos nós. Uma coisa que sabemos é que só existe um Deus. Nenhum homem, branco ou vermelho, pode viver isolado. No final das contas somos todos irmãos.”

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