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Carta de Brasília em Defesa da Razão e da Vida

cid2013O Congresso Internacional sobre Drogas: Lei, Saúde e Sociedade foi realizado entre 3-5 de maio de 2013 no Museu da República em Brasília para fomentar o diálogo sobre o tema das drogas. Nós, participantes do Congresso e signatários desta carta, constatamos que a política proibicionista causa danos sociais gravíssimos que não podem persistir. Não há evidência médica, científica, jurídica, econômica ou policial para a proibição. Entretanto identificamos alarmados um risco de retrocesso iminente, em virtude do projeto de lei 7663/10, de autoria do Deputado Osmar Terra (PMDB/RS), atualmente em tramitação na Câmara dos Deputados, relatado pelo deputado Federal Givaldo Carimbão (PSB/AL). Entre vários equívocos, o projeto prioriza internação forçada de dependentes químicos. Vemos com indignação que autoridades do Governo Federal se pronunciam a favor dessa prática. Conforme apontado pelo relator especial sobre tortura e outros tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes junto ao conselho de direitos humanos da Organização das Nações Unidas, a internação forçada de dependentes químicos constitui tortura. Tendo em vista a trajetória política, compromisso com os direitos humanos e experiência pessoal em relação à tortura da Presidenta Dilma Roussef, é inadmissível que o Governo Federal venha a apoiar a internação forçada. Entendemos que a aplicação dessa medida no Brasil atual representa a volta da política de higienização e segregação de classe e etnia.

Mesmo em suas versões mais brandas, o proibicionismo infringe garantias fundamentais previstas na Constituição da República, corrompe todas as esferas da sociedade, impede a pesquisa, interdita o debate e intoxica o pensamento coletivo. A tentativa de voltar a criminalizar usuários e aumentar penas relacionadas ao tráfico de drogas é um desastre na contramão do que ocorre em diversos países da América e Europa, contribuindo para aumentar ainda mais o super-encarceramento e a criminalização da pobreza. A exemplo das Supremas Cortes da Argentina e da Colômbia, é preciso que o Supremo Tribunal Federal declare com urgência a inconstitucionalidade das regras criminalizadoras da posse de drogas ilícitas para uso pessoal. Em última instância, legalizar, regulamentar e taxar todas as drogas, priorizando a redução de riscos e danos, anistiando infratores de crimes não-violentos e investindo em emprego, educação, saúde, moradia, cultura e esporte são as únicas medidas capazes de acabar efetivamente com o tráfico, com a violência e com as mortes de nosso jovens. É um imperativo ético e científico de nosso tempo, em defesa da razão e da vida humana.

Saiba um pouco mais sobre a gravidade da situação assistindo ao vídeo abaixo

 

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Adriana Eiko Matsumoto, Psicóloga, Professora da PUCSP e Conselheira do Conselho Federal de Psicologia.

Adriana Rocha Aguilar Carneiro, Assistente Social, SP.

Adriana Souza Silva, jornalista, Diretora da Agência Fato Relevante.

Alba Zaluar, Antropóloga, Professora Titular do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Aldo Zaiden, Psicanalista, Conselheiro do Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas- CONAD- MJ pelo Ministério da Saúde.

Alessandra Oberling, Antropóloga, membro da Rede Pense Livre.

Alexandre Ciconello, Advogado, assessor político do INESC, Instituto de Estudos Socioeconômicos.

Alexandre Machado, Jornalista, SP.

Alice Aparecida da Silva Ribeiro, Psicóloga, Pós-Graduada em Saúde Mental e Clínica, Articuladora de Rede do Programa de Atenção Integral ao Paciente Judiciário do TJMG.

Aline Mattos Fuzinatto, Assistente Social, Residência Integrada Multiprofissional em Saúde Mental Coletiva da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Aline Souza Martins, Psicanalista, Mestranda USP, São Paulo, Autora da dissertação “Por que a guerra? Política e subjetividade de jovens envolvidos com o tráfico de drogas em Belo Horizonte”.

Aluísio Ferreira de Lima, Doutor em Psicologia Social, Professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Ceará.

Amanda Simões Souza, Estudante de Ciências Biológicas da Universidade de Brasília.

Anamaria Faria Carneiro, Psicóloga, Recife, PE.

Ana Lívia Rodrigues de Castro, Professora e Mestranda em Estudos Literários na Universidade Federal de São Carlos.

Ana Luiza de Souza Castro, Conselheira do Conselho Federal de Psicologia e membro da Comissão Nacional de Direitos Humanos do CFP.

Ana Mercedes Bahia Bock, Professora de Psicologia, PUC/SP.

André Barros, Advogado da Marcha da Maconha, membro da Comissão de Direitos Humanos da OAB/RJ e do Instituto dos Advogados Brasileiros.

André da Costa Garcia, Estudante de Antropologia na Universidade Federal da Integração Latino-Americana e Integrante do Coletivo Marcha da Maconha de Foz do Iguaçu.

André Panzetti de Oliveira, Psicólogo, Técnico de Medida Socioeducativa em Meio Aberto, SMSE-MA Capela do Socorro.

André Rosito Marquardt, Médico Psiquiatra, coordenador do CAPS-AD continente de Florianópolis, SC.

André Sant’Anna, Escritor.

Andrea Nobre Viana, Psicóloga.

Andrew Muller Reed, Cientista Social, ativista da Marcha da Maconha Rio de Janeiro.

Anna Karla Rodrigues Santos, Graduanda em Gestão de Políticas Públicas na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Integrante do Coletivo Potiguar Marcha da Maconha.

Antonio Ferreira Marques Neto, Graduado em Filosofia, UnB e Assistente Administrativo na Ouvidoria do Conselho Federal de Psicologia.

Antonio Roque, Professor de Física da USP Ribeirão Preto e Tesoureiro da Sociedade Brasileira de Neurociência e Comportamento (SBNeC).

Antônio Sebastião Barbosa Neto, Acadêmico de Psicologia da Universidade Federal do Triângulo Mineiro e membro da Universidade Popular Juvenal Arduini.

Arlanza Rebello, Defensora Pública RJ, Titular do Núcleo do Sistema Penitenciário da Defensoria Pública (NUSPEN) do Estado do Rio de Janeiro.

Arlindo da Silva Lourenço, Psicólogo da Penitenciária “José Parada Neto”, de Guarulhos. Doutor em Psicologia Social pela USP-SP, Membro do Conselho Estadual de Saúde de São Paulo, Dirigente do Sindicato dos Psicólogos no Estado de São Paulo e da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Seguridade Social da CUT, Professor Universitário.

Bárbara Chiavegatti, Estudante de Psicologia da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

Beatriz Caiuby Labate, Antropóloga, Professora Visitante do Programa de Política de Drogas do Centro de Pesquisa e Ensino em Economia (CIDE), em Aguascalientes, México e Pesquisadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (NEIP).

Beatriz Vargas Ramos, Professora de Direito Penal da Universidade de Brasília, Membro do GCCrim, Apoiadora da LEAP Brasil.

Betania Devechi Ferraz Bonfa, Defensora Publica, SP.

Breno Serson, Médico Psiquiatra e Doutor em Filosofia.

Bruna Pasqualini Genro, Bióloga, Doutoranda UFRGS/HCPA.

Bruno Ramos Gomes, Psicólogo, Mestre em Saúde Pública, representante do CRP/SP no CONED e Presidente do Centro de Convivência e de Lei.

Bruno Torturra, Jornalista, membro da Rede Pense Livre.

Cadu Oliveira, Jornalista, autor do Hempadão.

Camilo Vanni, Conselheiro do CONAD.

Carlos Weis, Núcleo de Cidadania e Direitos Humanos da Defensoria Pública do Estado de São Paulo.

Carolina dos Reis, Psicóloga, Conselho Regional de Psicologia do Rio Grande do Sul.

Cecília Boal, Psicanalista, RJ.

Cecília Hedin-Pereira, Neurocientista, Professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Presidente da Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento (SBNeC).

Cecília Pescatore Alves. Doutora em Psicologia Social, Professora da Pontíficia Universidade Católica de São Paulo

Celi Cavallari, Psicóloga, Vice-Presidente da ABRAMD e Conselheira da REDUC.

Celso Peito Macedo Filho, Médico-Psiquiatra do CAPS II de Frutal/MG e do CAPS I de Iturama/MG, Especialista em Esquizoanálise, Esquizodrama, Análise Institucional e Grupos, membro do Instituto Gregorio Baremblitt, membro da Universidade Popular Juvenal Arduini.

Charles Alimandro, Empreendedor Social e organizador do Congresso Internacional Sobre Drogas 2013.

Claudia Abramo Ariano, Defensora Pública do Estado de São Paulo.

Claudio Angelo, Jornalista.

Claudio Marcos Queiroz, Professor Adjunto, Instituto do Cérebro, Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Clebion Eli Miranda, Diretor de Comunicação do Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos (SINDNAPI), Taubaté, SP.

Cristiane Ribeiro, Psicóloga, Belo Horizonte.

Cristiano Avila Maronna, Mestre e Doutor em Direito Penal pela USP e Diretor do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM).

Daniel Luis Moreira Aló, Turismólogo e Ambientalista.

Daniel Nicory do Prado, Diretor da Escola Superior da Defensoria Pública da Bahia e representante da ANADEP junto à Subcomissão de Crimes e Penas da Câmara dos Deputados, membro da Rede Pense Livre e consultor da campanha “Lei de Drogas: É preciso mudar”.

Daniela Skromov de Albuquerque, Núcleo de Cidadania e Direitos Humanos da Defensoria Pública do Estado de São Paulo.

Danielle Vallim, Cientista Política, Pesquisadora do Núcleo de Pesquisas das Violências do Instituto de Estudos Sociais e Políticos, Doutoranda em Saúde Coletiva, IMS/UERJ, Pesquisadora NEIP e membro ABESUP.

Dartiu Xavier da Silveira, Médico-Psiquiatra, Professor da Universidade Federal de São Paulo, Coordenador e Fundador do PROAD, Presidente Fundador da ABRAMD, Assessor da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo.

Deborah Sereno, Psicanalista, Professora de Psicologia da PUC-SP.

Deborah Uhr, Psicanalista, Supervisora da Rede de Saúde Mental do município do Rio de Janeiro, Professora do Instituto Brasileiro de Medicina e Reabilitação e doutoranda em psicologia clínica na PUC-Rio.

Dênis Roberto da Silva Petuco, Cientista Social, Mestre em Educação, doutorando em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Juiz de Fora; consultor autônomo sobre Drogas, Educação e Saúde.

Denis Russo Burgierman, Diretor de Redação das revistas Superinteressante e Vida Simples.

Denizar Missawa Camurça, Biólogo, NEIP.

Douglas Senna Engelke, Biólogo, Doutorando Unifesp.

Dráulio Barros de Araujo, Professor Titular de Neuroimagem, Instituto do Cérebro, Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Dulcinea Peixoto Nelson, Advogada, UBMRJ, Pós-Graduação em Dependência Química UNISAL, Campinas, SP.

Ederton Quemel Rossini, Estudante Psicologia, ISECENSA, Campos dos Goytacazes, RJ.

Edson Nunes Mesquita, Estudante de Psicologia, UDF, DF.

Eduardo Ekman Schenberg, Pesquisador Pós-Doutor na Universidade Federal de São Paulo, Diretor do Instituto Plantando Consciência.

Edvaldo Nabuco, Professor Pesquisador, Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental e Atenção Psicossocial (LAPS)/Fiocruz, Diretoria Nacional da Associação Brasileira de Saúde Mental (ABRASME).

Edward MacRae, Antropólogo CETAD/UFBA, Secretário da ABESUP.

Eliana Maria de Moraes, Terapeuta Ocupacional, Coordenadora do Fórum Mineiro de Saúde Mental/RENILA.

Elisa Zaneratto, Psicóloga, Professora da PUC/SP.

Elza Ibrahim, Psicóloga clínica, Professora da Universidade Veiga de Almeida.

Emilia Estivalet Broide, Psicanalista, Mestre em Saúde Pública FSP-USP, Doutoranda do Curso de Psicologia Social da PUC SP, Professora do Curso de Psicossociologia da Juventude e Políticas Publicas da ESPSP.

Emílio Nabas Figueiredo, Advogado Pós-Graduado em Responsabilidade Social e Terceiro Setor, Consultor Jurídico do Growroom.net e parte do Coletivo Projects.

Esdras Machado Silva Junior, Advogado Militante Especialista em Direito Público e Controle da Administração e simpatizante das causa relacionadas a efetivação dos direitos e garantias constitucionais.

Estela Waksberg Guerrini, Defensora Pública, Unidade da Fazenda Pública da Capital, São Paulo.

Fábio Mesquita, Médico, Doutor em Saúde Pública e trabalhador da Organização Mundial de Saúde.

Fernanda Morbeck Almeida, Técnica em Acupuntura, Brasília, DF.

Fernanda Penteado Balera, Defensora Pública, Coordenadora Auxiliar, Unidade DIPO – Regional Criminal, SP.

Flávia Fernando Lima Silva, Psiquiatra com especialização em Psiquiatria Infantil, Psicoterapeuta formada no centro de atenção a usuários de drogas do Pechansky, Preceptora da Residência em Psiquiatria no Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro, Mestranda em Psicologia Social pela UFF.

Flavio Campos, Redutor de Danos, Diretor de Combate às opressões da Juventude do PSB, Conselheiro Municipal de Juventude do Recife, Membro do Coletivo da Marcha da Maconha Recife, Graduando em Terapia Ocupacional.

Flavio Lobo, Jornalista.

Gabriela Moncau, Jornalista, integrante do Coletivo Desentorpecendo a Razão (DAR), da Marcha da Maconha SP e da Frente Drogas e Direitos Humanos.

Geraldo Prado, Desembargador aposentado, Professor de Processo Penal da UFRJ e membro da LEAP.

Gerivaldo Neiva, Juiz de Direito (BA), membro da Associação Juízes para a Democracia (AJD) e Porta-Voz no Brasil do movimento Agentes da Lei contra a Proibição (LEAP-Brasil).

Gilberta Acselrad, Enfermeira aposentada, Mestra em Educação, Coordenadora da Área de Saúde Pública e Direitos Humanos, FLACSO Brasil.

Gisele Toassa, Professora Doutora, Área de Psicologia da Educação, Faculdade de Educação, Universidade Federal de Goiás.

Greice Costa Gagaus, Psicóloga, FMU São Paulo, SP.

Henrique Carneiro, Historiador, Professor Doutor DH-FFLCH-USP, Presidente da ABESUP, membro do NEIP.

Henrique Romanó Rocha, Graduando em Antropologia e Direito, Gestor do Centro Acadêmico de Antropologia da UnB e Organizador da Marcha da Maconha Brasília.

Hermano da Silveira, Engenheiro Eletricista, membro do Instituto Gregório Baremblitt e da Universidade Popular Juvenal Arduini.

Humberto Cota Verona, Psicólogo do SUS e Presidente do Conselho Federal de Psicologia.

Ícaro Monteiro Rizzo, Designer Gráfico, Coletivo Revolução Verde, SP.

Ignez Helena Oliva Perpétuo, Médica, Professora aposentada da UFMG.

Ilana Mountian, Psicóloga, Pós-Doutoranda do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.

Ilona Szabó de Carvalho, membro da Rede Pense Livre por uma política de drogas que funcione.

Isabel Coelho, Juíza TJ-RJ, membro da Associação de Juízes para a Democracia.

Isabel Cristina Gonçalves Bernardes, Psicóloga, Agente de Defensoria – Regional Central, Defensoria Pública do Estado de São Paulo

Isabela Bentes Abreu Teixeira, Cientista Social, Mestranda em Sociologia pela Universidade de Brasília, membro do Setorial Política sobre Drogas do PSOL e integrante do Movimento Nacional pela Legalização da Maconha.

Isabela Lara Oliveira, Professora da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, membro do NEIP e da ABESUP e pesquisadora do CIPRPS.

Ivan Belinky Heusi, Graduando em Ciências Ambientais pela Universidade de Brasília, membro do Setorial Política sobre Drogas do PSOL e integrante do Movimento Nacional pela Legalização da Maconha.

Jean Wyllys, Deputado Federal.

Jimmy Carter Lopes Salgado, Estudante de Antropologia na Universidade Federal da Integração Latino-Americana e Integrante do Coletivo Marcha da Maconha de Foz do Iguaçu.

João Gabriel Henriques, Jornalista do blog Hempadão e ativista da Marcha da Maconha Rio de Janeiro.

João Felipe Morel Alexandre, Biólogo, Mestrando em Neurociência e Cognição pela Universidade Federal do ABC.

João Ricardo Lacerda de Menezes, Neurocientista, Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

John Fontenele Araujo, Médico, Professor de Fisiologia da UFRN e Vice-Presidente da Sociedade Brasileira de Neurociência e Comportamento (SBNeC).

Jorge Alberto Quillfeldt, Neurocientista, Professor Titular de Biofísica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Secretário da SBNeC e Secretário-Geral da Federação Latino-Americana de Neurociências (FALAN).

Jorge Broide, psicanalista e analista institucional, membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre. Professor do Curso de Psicologia da PUC-SP e do curso de pós graduação latu senso Psicossociologia da Juventude e Políticas Públicas da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

Jorge da Silva, Coronel reformado da Polícia Militar, Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Vice-Presidente da LEAP Brasil.

José Arturo Costa Escobar, Doutor em Psicologia Cognitiva, Grupo de Estudos em Álcool e outras Drogas/UFPE, Recife.

José Caui Neto, Psicólogo, Membro da Universidade Popular Juvenal Arduini de Uberaba.

José Eliézer Mikosz, Artista Plástico, Doutor em Ciências Humanas com pesquisa em Arte e Estados não Ordinários de Consciência e Pesquisador do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (NEIP).

José Henrique Rodrigues Torres, Juiz de Direito, Presidente da Associação Juízes para a Democracia e Professor de Direito Penal da PUC-Campinas/SP.

Julio Delmanto, Jornalista, Mestre em História Social, Membro dos coletivos antiproibicionistas Desentorpecendo a Razão (DAR) e Marcha da Maconha SP, pesquisador do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (NEIP) e da ABESUP.

Julita Lemgruber, Coordenadora Centro de Estudos de Segurança e Cidadania/CESEC-UCAM.

Kenarik Boujikian, Co-fundadora e ex-Presidente da Associação Juízes para a Democracia.

Kenneth Rochel de Camargo Jr., MD PhD, Professor Associado, Instituto de Medicina Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Editor Associado, American Journal of Public Health.

Lairton Bueno Martins, Enfermeiro, Residência Integrada Multiprofissional em Saúde Mental Coletiva da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Leilane Assunção, Professora substituta, Departamento de História, UFRN, membro do Núcleo Tirésias da UFRN, representante da Rede Latino Americana de Pessoas que Usam Drogas (LANPUD).

Leandra Brasil da Cruz, Professora Pesquisadora, Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental e Atenção Psicossocial (LAPS)/Fiocruz.

Leonardo Leandro da Silva, Professor do Estado do Rio de Janeiro, Mestrando em Ensino de Física pela UFRJ.

Leonardo Pinheiro Gomes, Professor de Psicologia e Psicólogo Clínico – Niterói – RJ.

Leonardo Ferreira Gomes dos Santos, Graduando em Produção Cultural, Universidade Federal Fluminense, UFF.

Letícia Sabatella, Atriz.

Loiva Maria De Boni Santos, Mestre em Psicologia Social pela UFRGS .

Lorena Otero, Graduanda em Direito pela UMC/SP e pesquisadora na FGV/SP.

Lucas de Oliveira Alvares, Biólogo, Professor do Departamento de Biofísica/UFRGS.

Lucas Lichy, Graduando em Ciências Econômicas UFSC e Presidente do Instituto da Cannabis.

Luciana Boiteux, Professora de Direito Penal da UFRJ, Conselheira da REDUC.

Luciana Zaffalon Leme Cardoso, Ouvidoria-Geral da Defensoria Pública do Estado de São Paulo.

Luís Antônio Gomes Lima, Psicólogo, Professor Universitário de Graduação em Psicologia, pesquisador na área de história da psicologia e atuações profissionais voltadas à infância e à adolescência.

Luiz Eduardo Soares, Professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

Luís Fernando Tófoli, Psiquiatra, Professor do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas.

Luiz Eduardo Lopes Silva, Mestrando em História Social da UFMA.

Luiz Chazan, Psiquiatra e Psicanalista e professor de Saúde Mental e Psicologia Médica da UERJ.

Maíra Andrade Scavazza, Estudante de Psicologia da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

Maira Guarabyra, colaboradora de Revista semSemente, Marcha da Maconha do Rio de Janeiro, Hempadão, Growroom.net.

Marcelo Paixão, Professor da UFRJ, Coordenador do Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais (Laeser), Pesquisador visitante, Universidade de Princeton (EUA).

Marcelo Simão Mercante, Antropólogo.

Marcelo Sodelli, Presidente da ABRAMD e pesquisador da Psicologia da PUC-SP.

Marcello de Souza Costa Pedroso, Antropólogo, educador agroflorestal e ativista da Marcha da Maconha de Brasília.

Márcia Caldas, Psicóloga, Distrito Federal.

Marco José Duarte – Assistente Social, Professor Doutor da Faculdade de Serviço Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Coordenador do NEPS/UERJ, Coordenador da Residência Multiprofissional em Saúde Mental da UERJ, Supervisor do CAPS/UERJ e Membro da Frente Estadual Drogas e Direitos Humanos, RJ.

Marcos de Alcântara Machado, Administrador de Empresas, SP, membro da Rede Pense Livre – por uma política de drogas que funcione.

Marcos R. V. Garcia, Professor Doutor, Coordenador do CRR-UFSCar.

Marcos Rolim, Jornalista, Sociólogo, Escritor, Professor Universitário e consultor em direitos humanos e segurança pública.

Marcus Vinicius de Oliveira, Psicólogo, representante do Conselho Federal de Psicologia no CONAD, militante da Luta Antimanicomial.

Maria Angélica Comis, Psicóloga, Mestre em Psicobiologia, Integrante do Plantando Consciência.

Maria Clara Rebel Araújo, Doutora em Psicologia Social, Professora da Unesa e Psicóloga Clínica.

Maria Cristina G. Vicentin, Professora e Pesquisadora do Programa de Estudos Pós-graduados em Psicologia Social da PUC-SP.

Maria Lucia Karam, Juíza aposentada e Presidente da LEAP Brasil.

Maria Rita Kehl, Psicanalista, Integrante da Comissão Nacional da Verdade.

Maria Solange Siqueira, Psicóloga Clínica e Institucional em São Carlos, SP.

Mariana Bernd, Designer Gráfica e Professora.

Mariangela Magalhães Gomes, Professora de Direito Penal da USP, Presidente do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais.

Marilia Marra de Almeida, Psicóloga, Agente da Defensoria Pública do Estado de São Paulo.

Mario Augusto Carvalho de Figueiredo, Defensor Público, Regional Criminal da Capital, Unidade Varas Singulares, São Paulo.

Marisa Feffermann, Pesquisadora do Instituto de Saúde e Área de Juventude e Políticas Públicas, FLACSO, membro do GEDS, USP, militante do Tribunal Popular: O Estado Brasileiro no Banco dos Réus.

Marta Elizabeth de Souza, Psicóloga, Presidente do CRP MG, ex-Coordenadora Estadual de Saúde Mental de MG, militante do Fórum Mineiro de Saúde Mental/RENILA.

Marta Quaglia Cerruti, Psicanalista, Doutoranda pelo IPUSP, membro do Laboratório Psicanálise e Política IPUSP/PUC-SP.

Marta Rodriguez de Assis Machado, Pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, Professora da Escola de Direito de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas, Coordenadora do Núcleo de Estudos sobre Crime e Pena da FGV-SP.

Mary Garcia Castro, UCSAL, Socióloga.

Mary Suely Souza Barradas, Professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense.

Matias Maximiliano Acevedo, Editor chefe da Revista semSemente e co-fundador da Marcha da Maconha do Rio de Janeiro.

Maurício Fiore, Antropólogo pela USP, pesquisador do NEIP e do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

Maurides de Melo Ribeiro, Professor de Direito Penal e Criminologia na FACAMP, apoiador da LEAP.

Mauro Machado Chaiben, ex-Advogado, Analista Judiciário do TJDFT, especialista em direito público constitucional.

Mauro Leno Silvestrin, Antropólogo, militante da Marcha da Maconha e chefe de redação da revista semSemente.

Melina Risso, membro da Rede Pense Livre – por uma política de drogas que funcione.

Miguel Figueiredo Antunes, Psicanalista, PAI-PJ TJMG e Prefeitura de Belo Horizonte.

Miriam Abramovay, Socióloga, Pesquisadora, Coordenadora da Área de Juventude e Políticas Públicas, Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais.

Miriam Debieux Rosa, Psicóloga, Professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, Programa de Pós-graduação de Psicologia Social da PUC-SP.

Miriam K. A. Guindani, Professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Miriam Nadim Abou-Yd, Psiquiatra, Psicóloga, ex-Coordenadora de Saúde Mental de BH, militante do Fórum Mineiro de Saúde Mental/RENILA.

Mônica Cavalcanti, Jornalista, membro da Rede Pense Livre – por uma política de drogas que funcione.

Natalia Bezerra Mota, Psiquiatra, mestranda em Neurociências, CAPS infantil Natal/RN.

Natália Peixoto Henriques, Estudante de Ciências Biológicas da Universidade de Brasília.

Nelson Vaz, Professor Emérito de Imunologia, ICB, UFG, aposentado, Membro da Academia Brasileira de Ciências, Membro da Academia Mineira de Medicina, Sócio Honorário da Sociedade Portuguesa de Imunologia, Sócio Fundador da Sociedade Brasileira de Imunologia, Ex-Pesquisador 1-A CNPq.

Nilo Batista, Advogado, Professor da UFRJ e Presidente do Instituto Carioca de Criminologia (ICC).

Odair Furtado, Coordenador do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Social – FACHS/PUC-SP, Integrante do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Trabalho e Ação Social (NUTAS).

Odila Maria Fernandes Braga, Psicóloga, Universidade Popular Juvenal Arduini.

Orlando Zaccone D’Elia Filho, Delegado de Polícia Civil RJ e Secretário da LEAP Brasil.

Patrícia Paula Lima, Doutoranda em Etnomusicologia na Universidade de Aveiro, Portugal INET-MD.

Paulo Amarante, Professor Pesquisador Titular, Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental e Atenção Psicossocial (LAPS)/Fiocruz, Presidente Nacional da Associação Brasileira de Saúde Mental (ABRASME).

Paulo Cesar Ribeiro Barbosa, Professor Adjunto do Departamento de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Santa Cruz, BA.

Paulo Eduardo Busse Ferreira Filho, Advogado, membro da Rede Pense Livre – por uma política de drogas que funcione.

Paulo E. Orlandi-Mattos, Pesquisador do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas, CEBRID.

Paulo Fernando Pereira de Souza, Psicanalista, especialista em Família e Psicologia Jurídica, Mestre em Psicologia Social.

Paulo Henrique Dias Quinderé, Universidade Estadual do Ceará (UECE).

Pedro Carlos Carneiro, Psiquiatra e Psicoterapeuta, Interlocutor de Saúde Mental da Supervisão de Saúde Centro-Sá em São Paulo.

Pedro Gabriel Delgado, Psiquiatra, Professor da Faculdade de Medicina e Instituto de Psiquiatria da UFRJ.

Pedro Paulo Gastalho de Bicalho, Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e Coordenador da Comissão Nacional de Direitos Humanos do Conselho Federal de Psicologia.

Pedro Vieira Abramovay, Professor da FGV-Direito Rio e Ex-Secretário Nacional de Justiça.

Priscilla Gadelha Moreira, Psicóloga, Libertas Comunidade, Recife, PE.

Rafael Damasceno Ferreira e Silva, Procurador Municipal, Gravataí/RS.

Rafael Folador Strano, Defensor Público do Estado de São Paulo.

Rafael Galati Sábio, Núcleo Especializado de Cidadania e Direitos Humanos, SP.

Renally Cristine Cardoso Lucas, Graduanda em Psicologia – Universidade Federal de Campina Grande, PB.

Renata Barreto Fernandes de Almeida, Psicóloga e Fonoaudióloga, membro do GEAD/UFPE, Doutoranda em Medicina Preventiva/UNIFESP.

Renata Moura Costa, Estudante de graduação de Serviço Social, UFPE e Redutora de Danos, Recife, PE.

Renata Nunes Fernandes, Estudante de Psicologia do Rio de Janeiro.

Renata Simões Stabile Bucceroni, Defensora Pública, Vara de Execuções Criminais,Regional Guarulhos, SP.

Renato Cinco, Vereador da cidade do Rio de Janeiro, membro do Movimento Pela Legalização da Maconha.

Renato Filev, Neurocientista pela UNIFESP, membro do PROAD, coletivo DAR e Marcha da Maconha SP.

Renato Malcher-Lopes, Professor do Departamento de Ciências Fisiológicas da Universidade de Brasília (UnB).

Rinaldo Dias, Músico.

Roberta Marcondes Costa, Antropóloga, membro do Coletivo DAR, Redutora de Danos pelo Centro de Convivência e de Lei, GEDS (Grupo de Estudos Drogas e Sociedade).

Rodrigo Figueiredo de Oliveira, Defensor Público, SP.

Rodrigo Mac Niven, Jornalista, Cineasta, Coletivo Projects, membro da Rede Pense Livre.

Ronete Mendes Monteiro Rizzo, Socióloga, São Paulo.

Rosa Virgínia Melo, Doutora em Antropologia, Professora substituta do Departamento de Antropologia da UnB.

Rosemeire Aparecida da Silva, Psicóloga, membro da Comissão Nacional de Direitos Humanos do CFP, Conselheira Nacional de Saúde, militante do Fórum Mineiro de Saúde Mental, ex-Coordenadora de Saúde Mental de Belo Horizonte.

Rossana Carla Rameh de Albuquerque, Psicóloga-IFRN, membro-GEAD/UFPE, Pesquisadora Associada-CEBRID, Doutoranda-Medicina Preventiva/UNIFESP.

Rubens Casara, Juiz de Direito do TJ/RJ e membro da Associação de Juízes para a Democracia (AJD), membro do LEAP.

Sábatha Fernandes, Graduanda em Ciência Política e Sociologia, Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), Membro do Coletivo Marcha da Maconha Foz do Iguaçú.

Salo de Carvalho, Doutor em Direito Penal (UFPR).

Sandra Fortes, Psiquiatra, Professora Adjunta FCM/UERJ.

Savio de Freitas Fontes, Psicólogo e Técnico em Acupuntura, Brasilia-DF.

Sergio Alarcon, Assessor de Saúde Mental da SMS do Rio de Janeiro, Professor de Bioética da ENSP/Fiocruz, Pesquisador Sênior da Flacso/Brasil.

Sergio Mauricio Souza Vidal, Antropólogo, ativista e escritor.

Sergio Salomão Shecaira, Professor Titular de Direito Penal da USP.

Silvio Mota, Juiz do Trabalho, aposentado.

Simone Kropf, Pesquisadora e Professora do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz/Fundação Oswaldo Cruz.

Sidarta Ribeiro, Biólogo, Professor Titular de Neurociências, Instituto do Cérebro, Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), membro do NEIP, Ex-Secretário da Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento (SBNeC).

Stevens Rehen, Biólogo, Professor Titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Ex-Presidente da Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento (SBNeC).

Talita Sztokbant, Jornalista do Growroom.net e colaboradora semSemente.

Taniele Rui, Doutora em Antropologia Social pela Unicamp, Pós-Doutoranda do Programa Drugs, Security and Democracy (SSRC-EUA), Pesquisadora colaboradora do NEIP e do CEBRAP, Professora convidada da Escola de Sociologia e Política.

Tarso Araujo Silva, Jornalista, autor do Almanaque das Drogas.

Tatiana Belons, Defensora Pública, SP.

Thiago Calil, Psicólogo, Mestrando em saúde pública, Coordenador de campo do Centro de Convivência é de Lei, membro da ABESUP.

Thiago Tomazine, militante da Marcha da Maconha RJ, Movimento pela Legalização da maconha, Hempadão e Bloco Planta na Mente.

Toni Reis, Professor, Doutor em Educação.

Vagner Ribeiro Fernandes, Estudante de Graduação em Serviço Social Universidade Federal do Pampa.

Vany Cristina Côrtes Coutinho Campello Teixeira, Psicóloga/Niterói-RJ.

Vera Malaguti Batista, Criminóloga, Professora da UFRJ, membro do ICC e Diretora da revista Discursos Sediciosos.

Vera Pasini, Psicóloga, trabalhadora da Saúde, Conselheira do Conselho Regional de Psicologia do Rio Grande do Sul, CRPRS.

Verônica Pereira Schwartz, Psicanalista, Supervisora Clínica de Desinstitucionalização, Superintendência de Saúde Mental, Município RJ.

Vinicius Prates, Jornalista e Pesquisador em Comunicação.

Waldir Cardoso, médico, Conselheiro Federal de Medicina e Diretor de Comunicação da Federação Nacional dos Médicos.

Walter Fanganiello Maierovitch, Jurista, Presidente do Instituto Brasileiro Giovanni Falcone de Ciências Criminais.

Welliton Caixeta Maciel, Antropólogo, Pesquisador do GCCRIM da Faculdade de Direito da UnB.

William Lantelme Filho, Fundador do Growroom, co-Fundador da Marcha da Maconha, Diretor de Arte da Revista semSemente.

Wilson Roberto Lara Reis, Psicólogo CAPS AD Serrinha/BA e CRAS Conceição do Coité/BA.

Yago Paolo Costa Aguiar, Graduando em Comunicação Social na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB).

Yara Valverde, DSc, Pesquisadora, UFRRJ, Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Políticas Públicas Estratégias e Desenvolvimento do CNPq.

Yvone Magalhães Duarte, Coordenadora Geral, Conselho Federal de Psicologia.

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A Guerra em quadrinhos

Abaixo compartilhamos os ótimos quadrinhos de Stuart McMillen, retratando a história desta guerra que nos assola, violando a paz, rompendo o tecido social, tolhendo direitos humanos fundamentais, empacando a ciência, destruindo vidas…. Para ver o material completo, acesse o site do Stuart aqui

para ver a obra completa, clique aqui

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Ayahuasca no tratamento da dependência

Em Setembro de 2011, Marcelo Mercante, Beatriz Labate, Edward MacRae e  José Guilherme C. Magnani organizaram simpósio sobre a medicina amazônica e o tratamento do abuso e da dependência de drogas, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP). Com palestrantes nacionais e internacionais, o encontro abordou, em três dias, uma série de tópicos extremamente relevantes para o conhecimento sobre as medicinas tradicionais, o conceito de “droga”, a fisiologia da ayahuasca, entre muitos outros. Compilamos aqui os vídeos de todo o evento, para ajudar a disseminar e aprofundar este conhecimento de grande relevância.

Abertura: A ayahuasca e o tratamento da dependência: limites e possibilidades

Participantes: José Guilherme C. Magnani (Doutor em Antropologia, USP), Marcelo Niel (Psiquiatra, Proad/Unifesp), Dr. Rosa Giove (Médica, Takiwasi).

Coordenação: Marcelo Mercante.

Sessão I: Dependência: os Centros de Tratamento, sua visão e abordagem do problema.

Participantes: André Volpe (Igreja Céu da Nova Vida — Santo Daime), Fernando Dini (Igreja Céu Sagrado — Santo Daime), José Muniz (Casa de Recuperação Caminho de Luz), Jacques Mabit (Centro de Reabilitación Takiwasi), Wilson Gonzaga (Associação Beneficente Luz de Salomão), Walter de Lucca (Unidade de Resgate Flor das Águas, Padrinho Sebastião), Néstor Berlanda (Fundación Mesa Verde, Argentina); Cesar Rabbat (Fundación El Emilio, Argentina), Santos Victorino Oreggioni Osores (Instituto Espiritual Chamánico Sol de la Nueva Aurora, Uruguai).

Coordenação: Walter Moure

 

Sessão II: Populações em situação de vulnerabilidade: diferentes abordagens

Participantes: Bruno Ramos Gomes (Psicólogo, Mestre em Saúde Pública, USP, Neip), Taniele Rui (Doutoranda em Antropologia, Unicamp, Neip), Jardel Fischer Loeck (Doutorando em Antropologia, UFRGS, Neip).

Coordenação: Liandro Lindner

Sessão III: O conceito de “droga” e a ayahuasca

Participantes: Henrique Carneiro (Doutor em Historia, USP, Neip), Edward MacRae, Maurício Fiore (Doutorando em Ciências Sociais, Unicamp, Neip, Cebrap), Sandra Goulart (Doutora em Antropologia, Faculdade Cásper Líbero, Neip)

Coordenação: Julio Simões

Sessão IV: As (des)fronteiras entre a terapia e o ritual

Participantes: José Guilherme Magnani, Paula Montero (Doutora em Antropologia, USP), Francisco Lotufo Neto (Psiquiatra, Faculdade de Medicina, USP)

Sessão V: O papel da experiência e do corpo no tratamento com ayahuasca

Participantes: Jacques Mabit, Marcelo Mercante, Walter Moure (Doutor em Psicologia, Runa Wasi), Gabriela Ricciardi (Doutoranda em Antropologia, UFBA).

Coordenação: Bruno Ramos Gomes

Sessão VI: A legalidade do uso da ayahausca no tratamento da dependência e as políticas públicas relacionadas a este tema

Participantes: Maurides Ribeiro (Advogado), Roberto
Tycanori (Coordenação de Saúde Mental, Ministério
da Saúde), Rosa Giove, Marcelo Niel

Coordenação: Marcelo Mercante.

 

Cerimônia de encerramento

Depoimento e bate papo com pessoas que se recuperaram da dependência química através da AYAHUASCA.

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Tropa de choque pra que?

  “It is organized violence at the top which creates individual violence at the bottom” Emma Goldman

Aconteceu de novo. Cidadãos na rua de uma grande cidade brasileira, exercendo algo que deveria ser comum, tranquilo e desejável, que é fundamental pra democracia: sair na rua pra protestar, se expressar, aprender, conviver e participar da evolução da sociedade. Quase qualquer causa vale. Tá na constituição. Menos, é claro (também tá na constituição), defender atos de maldade a terceiros (inclui atos de racismo e ódio, por exemplo) ou pra impedir evento previamente marcado pro mesmo local e hora. Não deveria ser complicado. Mas complicaram, e muito. Até que no ano passado o STF deixou bem claro que o que tá na constituição tá, digamos assim, na constituição, oras. Então tem que ser respeitado. É um dos paradoxos do Brasil. Nossa democracia é ainda tão infantil que teve de chegar na instância jurídica suprema pra esclarecerem o que está no texto base da sociedade brasileira.

            A democracia tem na sua estrutura central a coexistência de idéias diversas e antagônicas. Alguns são ateus, outros religiosos, e precisamos conviver em paz. Não há outra maneira. Enquanto imaginarmos que de alguma forma teremos paz somente ao aniquilar ou eliminar o diferente, teremos apenas violência. A fabulosa história de Gandhi não deixa dúvidas. Vítima da segregação racial na África do Sul do apartheid, o simples advogado Mohandas Gandhi se tornou, anos após em sua terra natal, a Índia, Mahatma Gandhi. O homem que tecia sua própria roupa, fazia greves de fome e derrubou o longo e violento domínio do império britânico por aquelas terras.

            A estratégia: deixar claro para o mundo as atrocidades cometidas na colônia pelos colonizadores. Atrocidades tão grotescas que qualquer cristão, hindu, muçulmano ou ateu não poderia defender, porque eram simplesmente desumanas. Vão contra qualquer escritura, código de ética ou mesmo contra o bom senso e a compaixão. Atitudes covardes, cruéis e desnecessárias. Gandhi foi preso inúmeras vezes e apanhou outras tantas. Seus adeptos idem. Algumas cenas chocantes podem ser vistas no clássico de 1982. Apesar de bem feito, o filme dá apenas uma pálida sensação do que foi de fato a execução persistente do insight ativista de Gandhi. O império estava podre, e restava escancarar isso para o mundo. Deixá-los com vergonha, fazer com que o sofrimento pelos próprios atos de violência infligidos a terceiros os fizessem despertar. Porque se houvesse confronto, os indianos sempre sairiam perdendo. Tanto nas ruas, quanto na mídia.

            O desafio: não reagir. Ahimsa: Não-violência. Não devolver um único golpe. Não sujar as próprias mãos com a sujeira que se quer limpar. Foi penoso. Levou décadas. Mas funcionou. O império se foi. E Gandhi ensinou pra humanidade um bocado sobre o que é paz e como chegar lá.

            No Brasil, temos uma das polícias mais violentas do mundo. Além de matar milhares todos os anos, morre um escabroso número de policiais, muitos sob o pretexto da já falida guerra contra as drogas (qual guerra é bem sucedida, aliás??). A polícia no Brasil é demasiadamente violenta, abusiva e oprime milhões. Atropela direitos humanos e rompe com a paz social, tantas vezes em ações desnecessárias e absurdas. E como na história de Gandhi, sempre há um pretexto, um bode expiatório pra justificar a atrocidade da vez. Mesmo que patéticas, essas desculpas esfarrapadas servem pra manter, dentro dos limites estabelecidos por leis tortas, os perpretadores como inocentes, como apenas reagindo a atos dos “bárbaros” para trazer a “ordem”. Palavra, aliás, que estampa nossa bandeira…

            No Rio de Janeiro, final de tarde de sábado de lua cheia, 05 de maio de 2012, militares fortemente armados e truculentos partiram pra cima de uma população (variavelmente estimada entre 2 e 10 mil pessoas) pacífica e desarmada (pré-requisito para exercer o direito constitucional que estavam exercendo), com brutal violência e covardia. Os pretextos são patéticos. Procurem nas notícias da mídia e verão. A troco de nada algumas ruas da cidade maravilhosa viraram campo de batalha. E como não temos apenas a polícia mais violenta do mundo, mas uma das sociedades mais violentas do planeta, que ostenta o vergonhoso recorde mundial de homicídios, a cena até já parece meio que trivial, o que é escabroso. A cada repetição devemos nos indignar ainda mais. Ou será que também vamos protagonizar uma cena dessas na copa do mundo ou nas olimpíadas, escancarando pro mundo que há algo de podre no reino do Brasil?

            Para Gandhi, foi fundamental manter-se sempre contra qualquer ato de violência contra os violentos e genocidas colonizadores, por mais imoral e absurda que fosse a situação. Pois somente assim poderia ficar escancarado para qualquer um, grego ou troiano, o real e absoluto absurdo que estava acontecendo. Indianos totalmente pacíficos, homens, mulheres, crianças, sendo espancados e assassinados por militares colonizadores. Escancarado de tal forma que nem mesmo as artimanhas da centralizadíssima mídia da primeira metade do século XX pudesse deturpar, omitir ou esconder. Se eles tivessem a fibra necessária, ficaria claro pra todos ao redor do mundo que o imperador estava nú.

            Felizmente, na primeira metade do século XXI, a violência não é tão bárbara, nem a mídia tão centralizada. É urgente que se exponham as entranhas, as víceras podres e fedorentas de certos setores militares que andam na contramão do progresso. Palavra que também estampa a bandeira nacional. Pra isso, creio eu, humildemente, que a alternativa mais frutífera será a estratégia-Gandhi. Há de se deixar claro, pra todas as pessoas desse país, comunistas ou capitalitas, evangélicos, ateus ou judeus, pretos, brancos, ricos ou pobres, que não é por aí que queremos caminhar. E que infelizmente com frequência demasiada estão extrapolando os limites. E muito.

            Amplifiquemos a coragem que alguns já vem demonstrando nas ruas, se mantendo pacíficos frente a frente com policiais. Policiais que vem dirigindo pela contramão, armados para uma guerra brutal que obviamente não está acontecendo, como mostram as cameras presentes na mão do povo. Felizmente com a tecnologia atual a tarefa será muito menos árdua que na Índia colônia. Resta escancarar, além de qualquer dúvida, acima de qualquer suspeita, que há um setor de militares no Brasil que não entendeu, não gosta e não quer democracia.

            E é aí que um movimento específico como a Marcha da Maconha, que tanta polêmica atrai por causa da mal compreendida planta, se torna relevante para qualquer brasileiro. Porque a violência policial inaceitável está acontecendo em outras partes, independente deste tema (ainda que nesse seja mais frequente, dada a imensa carga de preconceitos vigentes). E então a Marcha da Maconha também é uma Marcha pela Paz. Além de ser marcha pelo objeto que lhe dá nome, é uma marcha pelo fim de um processo que mais danos causa do que aqueles que pretende solucionar. É uma marcha pelo fim de uma guerra.

            No filme sobre Gandhi, ainda no início de sua jornada, uma cena impactante: um pequeno grupo de trabalhadores explorados caminhando, desarmados. Na direção oposta, uma cavalaria armada pronta para o pior. A solução: todos os protestantes deitam-se no chão com as mãos na cabeça. Os cavalos, mais solidários e compassivos que os soldados, não pisoteiam ninguém. E os soldados, constrangidos pela possibilidade humilhante de espancar uma multidão deitada no chão, se retiram. A estratégia de não-violência do século passado está sendo utilizada com sucesso em movimentos Occupy deste século, da Puerta del Sol em Madrid ao Zuccotti Park em Nova Iorque.

            Creio que a marcha, a maconha e a democracia brasileira têm muito a ganhar se as pessoas se prepararem para expor o absurdo, ao invés de confrontá-lo com latinhas, garrafas, xingamentos ou slogans provocativos aos policiais. Porque por mais patética que seja a justificativa, por mais inaceitável que seja um policial violentar um cidadão desarmado porque essa pessoa “provocou”, ou porque estava com carro de som, ou porque interrompeu o tráfego, ou porque quer interromper o tráfico, somente escancarando o baixo nível e o desserviço que estas tropas de choque prestam à nação tiraremos das ruas esses grupos autoritários, coercitivos, violentos e brutais que tratam as ruas do Brasil como campo de guerra e seus cidadãos como saco de pancada. Infelizmente, para parte da nossa sociedade, ainda funcionam as armadilhas baseadas em preconceito disseminadas pela velha mídia, e assim alimentam-se as ações de uma polícia mais violenta e preconceituosa do que queremos e devemos ter.

            O mês prossegue, e seguindo ao dia 5 de maio, que contou com marchas da maconha também no Chile, Uruguai, Perú, Argentina, República Tcheca, entre tantos outros países, mais Marchas da Maconha virão Brasil afora. Dia 19 de maio, entre outras, na capital populacional, São Paulo, que ano passado também foi vítima de atuações absurdas de PMs mal preparados e por vezes mal intencionados. Espero que os protestos restantes por uma erva milenar, medicinal e recreativa menos danosa que o álcool sejam pacíficos e democráticos, como prega a constituição. Se a polícia fizer questão de abusar, que sejam expostos ao ridículo, pacificamente.

“Força não vem da capacidade física, mas de uma determinação indomável” Mahatma Gandhi

 

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Ainda vai ser proibido proibir o que não se pode proibir

Recentemente houve a polêmica publicação de um adendo à “Controlled Substances Act“, lei dos Estados Unidos que define quais substâncias são ilegais no país, e consequentemente influenciam o status destas substâncias em todo o mundo. Neste adendo, pelo que se tem notícias pela primeira vez, substâncias foram classificadas como ilegais baseadas em seu mecanismo de ação farmacológico. No texto do adendo consta que “agonistas canabimiméticos” ficam sendo proibidos… hein? Alto lá! Além de serem encontrados em plantas, como por exemplo na maconha ou haxixe, os agonistas canabinóides também estão presentes em diversos tipos de animais, e inclusive no nosso próprio organismo.

video com legendas em português e inglês, basta clicar play e depois no “CC”

Hoje algumas plantas são proibidas, o que me parece estranho visto que elas são parte da própria natureza. Mas alguém já pensou em proibir animais? Por exemplo, o baiacu é um peixe altamente venenoso que existe em abundância no litoral brasileiro. Não há dúvida de que traz risco, pois porta uma toxina altamente potente e mortal em seus órgãos interno. Mas ainda assim, algumas pessoas fazem uso de baiacu, e se deliciam com isto. Já imaginou proibir o baiacu porque ele potencialmente faz mal? Como se executa uma lei desse tipo?

Faz sentido que este belo baiacu seja "proibido", já que produz uma toxina mortal? Dica com importância de saúde pública, como limpar um baiacu, clique na foto.

Sim, no meu, no seu e no nosso organismo existem pelo menos 5 agonistas canabinóides. No cérebro, por exemplo, os agonistas canabinóides endógenos (endocanabinóides) são responsáveis por diversas funções importantíssimas para nossa saúde, incluindo regulação de temperatura, controle de processos inflamatórios, indução de fome, manutenção de humor, entre outras. Além do que agonistas canabinóides são responsáveis pelos efeitos terapêuticos, já reconhecidos em algumas preparações, como o Bedrocan, maconha medicinal vendida em farmácias da Holanda, e o extrato padronizado Sativex, comercializado em diversos países da Europa e no Canadá.

Com uma leitura mais atenta, percebe-se que a intenção do documento é estender a proibição a certas substâncias sintéticas com classe química definida. Ah tá… (muito embora, eu continue achando estranho pois o Marinol, um THC sintético, é liberado para uso terapêutico pelo FDA dos Estados Unidos já faz mais de 20 anos).

Esta manobra de proibição de agonistas canabinóides sintéticos é muito provavelmente uma reação ao recente aumento da venda de uma nova droga de rua chamada de “Spice” em terras estrangeiras, e que se descobriu, inclui (mas não se restringe a) canabinóides sintéticos. (Para saber mais)

O que pouco se comenta, no entanto, é que o aumento na variedade de substâncias sintéticas da classe canabinóide é uma consequência direta da proibição dos derivados naturais da Cannabis, que sempre foram os “preferidos” pelos usuários. Ou seja, é a mesma estratégia de proibição sendo utilizada para remediar os efeitos colaterais dela mesma. Não lhe parece um equívoco?

Se seguirmos nesta toada, proibindo ponto a ponto cada substância que se invente dentro de uma classe farmacológica, o desperdício de tempo e recursos, será imenso, pois é inevitável que novas substâncias sejam criadas de tempos em tempos, dada a vasta criatividade humana, em especial quando estimulada pelo alto preço dos miligramas destas substâncias ilícitas. É inevitável que um dia alguém se canse e queira de uma vez “proibir tudo o que é canabinóide“.

Curiosamente, o sistema endocanabinóide está intrinsecamente ligado à capacidade adaptativa dos organismos; e nunca antes na história da humanidade uma mudança radical de comportamento foi tão necessária! Aos que continuam achando que os canabinóides são os vilões da história, e que apóiam a estratégia de “proibições seriais”, já aviso que a estratégia é um saco sem fundo. Melhor então partir para uma abordagem tecnológica e usar a engenharia genética para fabricar uma nova geração de bebês que não possuam os receptores canabinóides (onde as moléculas da maconha se ligam para agir) no corpo. Ih, melhor não dar idéia… isto já é possível em animais menores, como roedores, e se o nosso futuro for tão catastrófico e artificial como o do Admirável Mundo Novo de Huxley (livro em pdf), isto ainda pode acontecer.

Aproveite para comer buchada de bode, ela pode ser proibida num futuro próximo! (intestinos de bode, porco e outros mamíferos de corte naturalmente contém endocanabinóides)

Considero um grande erro tirar o fator humano da jogada, e considerar que as substâncias são simplesmente “boas” ou “más”. Afinal, é uma pessoa, em um determinado contexto econômico e social, em um determinado momento, que faz uso de uma substância. E não é só o que a substância faz na pessoa, mas principalmente o que a pessoa faz com a substância… Grandes obras culturais da humanidade foram criadas com estímulo dos psicoativos; dizem algumas teorias que até as religiões são invenções psicodélicas… Então porque nos últimos 50 anos há tanta perseguição e tanto medo da psicoatividade?

Como dizia o Robertão, parece que “tudo que eu gosto é proibido, imoral ou engorda“. Ou seja, talvez a idéia velada seja proibir tudo o que incomoda, perturba, tira do senso comum; usando as substâncias (que são tangíveis) para classificar e recriminar ideologias e atitudes (intangíveis), como uma espécie de censura farmacológica. Neste caso, porque não ir direto ao ponto e declarar que é “proibido utilizar, cultivar, vender ou difundir qualquer substância, artefato ou prática que gere prazer, alteração de estado emocional ou mental, e que induza o indivíduo a pensar ou se comportar de maneira diferente do grupo de indivíduos de maior poder político em uma determinada sociedade“.

Afinal, não é esse o resultado final da estratégia vigente?

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O Dia da bicicleta

Nos idos de 1920, em Zurique, na Suíça, um jovem trabalhava para conclusão de seus estudos em química. Em uma época de tecnologia muito precária, o estudante usou o suco gastrointestinal da lesma de jardim para conseguir fazer a degradação enzimática da quitina, molécula que compõe a estrutura de cascas, conchas, asas e garras de insetos, crustáceos e outros animais. A estrutura nitrogenada mostrou-se semelhante à da celulose, o material estrutural das plantas. Os resultados, obtidos em apenas três meses, renderam um doutorado com “distinção de mérito”. Em seguida, o recém doutor teve três possibilidades de emprego, e escolheu a compania Sandoz, pois ali poderia trabalhar com produtos naturais, que eram os que lhe fascinavam, enquanto as duas outras ofertas eram de trabalhos com química sintética.

Assim, em 1929 o destacado recém-doutor iniciou sua carreira profissional no laboratório do Prof. Arthur Stoll, fundador e diretor do departamento farmacêutico da Sandoz. O objetivo do departamento era isolar os princípios ativos de plantas medicinais, produzindo assim medicamentos com moléculas estáveis derivadas das presentes nas plantas, que muitas vezes são instáveis e difíceis de se manipular. As plantas escolhidas eram a dedaleira (Digitalis purpurea e outras do mesmo gênero), a cebola do mar (Scilla maritma) e o ergot (ou esporão) do centeio, que tinham pouco uso médico dada a instabilidade dos compostos e da consequente dificuldade de se estabelecer a dosagem. O jovem dedicou-se então a estudar a Scilla por alguns anos. Os princípios ativos já haviam sido isolados anteriormente e poderiam ser usados para tratamento de insuficiência cardíaca. A Sandoz já comercializava uma preparação farmacêutica com este propósito, mas a estrutura das moléculas ainda era desconhecida. O trabalho, que terminou em 1935, elucidou a estrutura destas moléculas, mostrando semelhanças com princípios conhecidos, isolados de glândulas na pele de sapos. Ponto final, linha de pesquisa encerrada.

Foi aí então que nosso protagonista buscou um novo campo de estudo, e pediu ao chefe para continuar suas pesquisas com os alcalóides do ergot, iniciadas no final da I Guerra Mundial, em 1917, e que prontamente levaram ao isolamento da ergotamina em 1918, o primeiro alcalóide do ergot obtido em forma pura.

A Sandoz também já comercializava o produto para tratamento de hemorragias no parto e de dores de cabeça, sob o nome Gynergen. Mas a pesquisa com o ergot tinha parado por aí. Justificando que laboratórios norte-americanos estavam investindo nesta linha, e portanto a Sandoz deveria seguir estudando o ergot para não perder a liderança, o novo empregado conseguiu o que queria, mas recebeu um aviso do Prof. Stoll: “Eu devo lhe alertar das dificuldades que você enfrentará com os alcalóides do ergot. Eles são excessivamente sensíveis, se decompõem facilmente, e são menos estáveis do que qualquer composto que você investigou na área dos glicosídeos cardíacos. Mas você é bem vindo para tentar”. Definia-se neste momento a área principal em que trabalharia por toda sua longa e produtiva vida, com “enorme entusiasmo e alegria criativa de embarcar num campo tão pouco investigado.”

Claviceps purpurea, o ergot do centeio

O ergot é produzido por um fungo, o Claviceps purpurea, que cresce no centeio ou, em menor quantidade, em outros cereais e grãos. Caroços infestados com o fungo têm tom marrom-escuro ou um marrom mais próximo do roxo. O ergot usado medicinalmente é o do centeio (Secale cornutum).

A história do ergot é fascinante por si só. Antigamente temido como veneno, foi depois considerado valioso depósito de remédios. Na idade média, o ergot foi a causa de envenenamentos coletivos e por muito tempo misteriosos que apareciam em duas formas, o ergotismus gangraenosus e o ergotismus convulsivus.

St Anthonys fire

Estes pacientes eram tratados pela ordem de Santo Antônio, que se tornou o padrinho do ergotismo, ou fogo de santo Antônio (St. Anthony’s fire).

As epidemias de envenenamento pelo ergot cederam com a descoberta de que o pão contaminado era a causa, mas epidemias foram registradas no sul da Rússia ainda em 1926-27. O primeiro relato de uso medicinal do ergot é de 1582, para facilitar o parto, mas este uso não é muito seguro para o bebê pois a dificuldade na dosagem causa espasmos fortes do útero. Somente com a determinação da estrutura química dos alcalóides do ergot por laboratórios ingleses e norte-americanos em 1930 que o estudo do ergot ganhou força. Os pesquisadores Jacobs e Craig em Nova Iorque chamaram o núcleo químico presente em todos os alcalóides do ergot de ácido lisérgico. Portanto, o entusiasmado Dr. Abert Hofmann começou a trabalhar com modificações do ácido lisérgico, adicionando diversos radicais, como aminas, através de um processo conhecido como Síntese de Curtius. Combinando o ácido lisérgico com a propanolamina ele obteve um composto idêntico à ergobasina, composto presente naturalmente no ergot, completando então a primeira síntese (produção artificial) de um alcalóide do ergot. Após este sucesso, a pesquisa avançou, rendendo o medicamento Methergine, que se tornou um líder na área da obstetrícia. Em 16 de novembro de 1938, Hofmann produziu a vigésima-quinta substância na série de modificações do ácido lisérgico, com o intuito de obter um composto que funcionasse como estimulante respiratório e circulatório (um analéptico), dada a similaridade estrutural com um analéptico em uso à época, a dietilamida do ácido nicotínico (Coramine). Os testes no departamento farmacológico da Sandoz revelaram efeitos fortes no útero, cerca de 70% dos efeitos da ergobasina que já estava em uso. Também foi notado que os animais de laboratório usados no experimento ficaram inquietos. Mas os efeitos não eram o suficiente para os interesses da Sandoz e os testes com esta molécula foram descontinuados. Nos próximos cinco anos, Hofmann avançou com outros estudos com o ergot, criando o medicamento Hydergine para melhora da circulação periférica e da função cerebral na geriatria, que se tornou o principal produto da Sandoz por muitos anos. É dele também o Dihydergot, medicamento para estabilização da circulação e da pressão sanguínea. Tudo isso trabalhando praticamente sozinho, o que contrasta com as grandes equipes que trabalham nos modernos laboratórios de química atualmente. Os resultados sem dúvida já haviam consolidado sua carreira e comprovado sua competência.

Mas de alguma forma a intuição de Hofmann não o deixava esquecer a vigésima-quinta modificação do ácido lisérgico, o LSD-25 (Lyserg-saure-diathylamid). “Um presentimento peculiar – a sensação de que esta molécula poderia ter propriedades não estabelecidas nas primeiras investigações – me induziram, cinco anos após a primeira síntese, a produzir o LSD-25 de novo”, conta em seu brilhante e fascinante livro “LSD, My Problem Child” (ainda sem tradução para o português). Assim, de maneira não usual, na primavera de 1943, em plena II Guerra Mundial, enquanto a Europa sofria com as catástrofes da violência generalizada e com os campos de concentração do nazismo, Hofmann quebrou o protocolo da empresa, que considerava as moléculas uma vez descartadas como definitivamente fora do programa de pesquisas, e resintetizou o LSD-25. Isso sem que houvesse qualquer dado concreto que o levasse nessa direção. Apenas ouvindo sua voz interior, Hofmann protagonizou uma descoberta serendipituosa fantástica, provavelmente a mais espantosa da história da ciência. Nos passos finais da síntese, durante a purificação e cristalização da dietilamida do ácido lisérgico na forma de um tartrato (um sal), Hofmann foi interrompido por sensações incomuns. Em seu relatório para o Prof. Stoll escreveu:

“Na última sexta-feira, 16 de abril de 1943 fui forçado a interromper meu trabalho no laboratório no meio da tarde, e fui para casa, afetado por uma inquietude exagerada, combinada com uma leve tontura. Em casa deitei e mergulhei numa não-desagradável condição de intoxicação, caracterizada por uma imaginação extremamente estimulada. Em um estado onírico, com olhos fechados (a luz do dia era desagradavelmente brilhante), eu percebia um fluxo ininterrupto de figuras fantásticas, formas extraordinárias com um jogo intenso de cores caleidoscópicas. Após umas duas horas esta condição passou.”

A experiência tinha sido marcante, tanto no seu início súbito quanto no desenrolar extraordinário. O já experiente químico sabia que tinha se intoxicado com o material com que trabalhava, mas daí veio a questão: Como havia tomado contato com o material? Ele sabia da toxicidade dos alcalóides do ergot desde o início de seu trabalho nesta linha, cerca de oito anos antes, e sempre manteve hábitos de trabalho rigorosos. Possivelmente em alguma etapa uma parte do material devia ter entrado em contato com sua pele. Se este fosse de fato o caso, o LSD-25 teria de ser uma substância com potência extraordinária. Para saber, só havia uma maneira: Hofmann decidiu tentar um auto-experimento controlado.

Com extremada cautela, ele pensou na menor quantidade possível para fazer algum efeito psíquico. Decidiu então por tomar 0,25 mg (0,00025 gramas) do tartrato da dietilamida do ácido lisérgico, no dia 19 de abril de 1943, a páscoa judaica. Enquanto na Polônia as tropas nazistas da Waffen SS invadiam os guetos com 2000 soldados fortemente armados, que investiam contra cerca de 1200 judeus que resistiam com coquetéis molotov e algumas pistolas, Hofmann protagonizou o passeio de bicicleta mais famoso da história. Dadas as imposições da guerra, havia restrição ao uso do automóvel, e o auto-experimento com o que seria uma diminuta dose de qualquer outra substância catapultou Hofmann em tal estado mental que ele necessitou ajuda de sua auxiliar para pedalar de volta pra casa logo no início dos fortes efeitos. Pedalando com dificuldade, os sintomas que se pareciam com os da sexta-feira anterior começaram se tornar assustadores. Sua visão ondulava e tudo parecia como refletido em um espelho curvo. Sua sensação era de não conseguir sair do lugar, mas depois a assistente avisou que na verdade eles foram bem rápido.

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

Chegando em casa, Hofmann mal conseguia falar, e com dificuldade solicitou o médico e pediu que lhe trouxessem leite do vizinho. Apesar dos delírios e da condição alucinante, o pensamento por vezes era claro, e a escolha do leite é porque este pode ser usado como um antídoto inespecífico para envenamento. A tontura e a sensação de desmaiar eram fortes, e ele teve de deitar-se no sofá. O ambiente então se tranformava nas mais terríveis maneiras. Tudo girava e a mobília da sala assumia formas grotescas e ameaçadoras, perpetuamente em movimento. Ao longo da tarde ele bebeu mais de dois litros de leite, trazidos pela vizinha, que ele foi incapaz de reconhecer, pois mais parecia uma bruxa. Em seus relatos, Hofmann enfatiza que mais assustador que as alterações do mundo externo eram as sensações internas, as transformações de seu eu interior: “A sensação era muito real de que um demônio tinha me invadido, tomado conta de meu corpo, minha mente e minha alma. Eu estava tomado pela sensação aterrorizante de ficar louco. Fui transportado para outro lugar, outro mundo, outra época. Meu corpo estava sem sensações, sem vida. Estaria eu morrendo? Seria esta a transição?” Depois relata que por vezes sentia-se fora do próprio corpo, e então podia tomar consciência da proporção de sua tragédia: “Será que minha família compreenderia que eu não havia experimentado de maneira inconsequente e impensada? Pelo contrário, que havia sido com a mais extremada cautela e que tal resultado era totalmente imprevisível? […] Então havia também uma ironia amarga: se agora eu fosse deixar este mundo prematuramente, seria por causa desta dietilamida do ácido lisérgico que eu mesmo trouxe à existência”.

Albert Hofmann segura modelo plástico da estrutura química do LSD

Quando o médico chegou, a condição já estava menos severa, e o único sintoma detectável eram pupilas extremamente dilatadas. A medida do pulso, pressão sanguínea e respiração estavam todas normais. Deitado na cama sendo observado pelo médico, Hofmann concluiu que a possibilidade de morte ou loucura permanente estavam decididamente fora de questão. Aí então pode apreciar as intensas imagens de caleidoscópios coloridos que se projetavam por trás de suas pálpebras, caso fechasse os olhos. “Eternamente se abrindo e fechando, explodindo em espirais e fontes coloridas, em fluxo perpétuo. Cada som gerava uma imagem vívida correspondente, com sua própria forma e cores. Exausto, depois que minha esposa chegou, pude dormir, para acordar na manhã seguinte renovado, com a mente clara, uma sensação de bem estar e de vida renovada dentro de mim. O café da manhã estava delicioso e me deu prazer extraordinário. Depois andei pelo jardim, apreciando o sol após uma chuva de primavera, tudo brilhava e irradiava uma luz fresca. Todos meus sentidos vibravam numa condição de sensibilidade máxima, que persisistiu o dia todo”.

A experiência revelou a extraordinária potência do LSD e seus efeitos psíquicos abrangentes. Não havia conhecimento de substância com tais capacidades para alterar a percepção do mundo, tanto externo quanto interno, para modificar a consciência humana de tal forma. É marcante o quanto se pode aprender do relato da experiência de Hofmann, e chocante o quão pouco de fato se aprendeu, tanto desta experiência singular quanto das milhares que se seguiram. Mais conhecido pelo uso maciço nos anos 60 nos EUA e pela forte proibição que se seguiu, o LSD possui propriedades psíquicas únicas, capazes de revolucionar áreas como a psiquiatria, a psicologia e a neurociência. É extremamente eficiente em abrir as portas da percepção (parafraseando William Blake) e expandir nossa consciência, tanto individual como coletiva. Mas nem tudo são rosas. A experiência ilustra bem também os perigos psíquicos de uma dose relativamente elevada em um sujeito psicologicamente despreparado para a experiência. E já indicava a segurança física da experiência. Apesar do pavor que pode ser experienciado, a dose letal de LSD é extremamente maior que a dose efetiva, e não se conhece relato algum de morte por overdose da substância.

As possibilidades na psiquiatria foram de fato testadas e comprovadas por décadas de uso controlado e supervisionado, mas isso pouca gente hoje em dia sabe. Ainda predominam as mentiras deliberadamente inventadas e ativamente propagandeadas pelo serviço de “inteligência” dos EUA (como de que o LSD altera o DNA, por exemplo), principalmente durante os anos da guerra do Vietnam, quando o LSD se tornou o símbolo da juventude que era contra a guerra e que rompia com os rígidos padrões e costumes culturais da sociedade da primeira metade do século XX, o mais violento da história humana, no qual fascismo, nazismo e stalinismo juntos causaram 111 milhões de mortes em combates diretos, mais um número imenso de vítimas direta ou indiretamente relacionadas. Apesar de suas ramificações culturais, políticas e sociais a partir dos anos 60, que o lançaram à fama mundial, o LSD era, anteriormente, fornecido pela Sandoz sobre o nome de Delysid para especialistas da área de saúde mental. Foi  usado terapêutica e cientificamente por diversos pioneiros, concentrados no campo da psicologia e psiquiatria. Liderados pelo visionário psiquiatra tcheco Stanislav Grof, pesquisadores obtiveram resultados promissores. Entre eles destacaram-se James Fadiman, Myron Stolaroff, Huston Smith, Aldous Huxley, Humphrey Osmond e Gary Fisher, entre outros. Estes pioneiros da pesquisa com LSD se beneficiaram do uso consciente e respeitoso e publicaram resultados de pesquisas e abordagens terapêuticas controladas, obtendo insights incríveis não só sobre psicologia e psiquiatria, mas também sobre religião, literatura, filosofia e estudos da consciência em geral.

Os insigts de experiências com o LSD-25, ou com substâncias similares, como os princípios ativos dos cogumelos mágicos (gênero Psilocybe), também isolados, purificados e identificados por Hofmann anos mais tarde (psilocina e psilocibina), trazem muitas respostas para as questões que afligem a sociedade atualmente. O uso adequado destas substâncias permite ao indivíduo desenvolver e cultivar um modo de consciência ecológico, cooperativo e pacífico incompatível com o modelo competitivo, consumista e violento que predomina na sociedade atual. Os frutos do uso adequado e do estudo científico dos psicodélicos se encontram em coisas tão amplas quanto a filosofia perene, arte, biologia molecular, psicologia transpessoal, ecologia sistêmica, física quântica, medicina integral e a cartografia expandida da psique humana, brilhante e consistentemente explorada, documentada e analisada por Stan Grof.

Alheios a quase tudo isso, a maioria dos cientistas e da sociedade de maneira geral segue em seu modo monotônico de consciência, praticando com pressa e ganância as preces do capitalismo globalizado de consumo materialista. Os problemas agravam-se rapidamente, e a grande massa afogada em toneladas de antidepressivos industriais e centenas de horas de programas de TV se torna cada vez mais rebanho de um sistema sócio-cultural cujo rumo pode ser o suicídio coletivo de nossa espécie e da extinção de tantas outras que dependem daquilo que destruímos. Como bem colocou nos anos 80 o psiconauta Terrence McKenna: “A sociedade moderna é um revólver apontado pra cabeça deste planeta”.

A idéia de que é necessária uma profunda revisão de valores e consequente mudança comportamental para que possamos sair do buraco ganha cada vez mais espaço na sociedade. O que a maioria não sabe é apontar um caminho eficiente que vá nessa direção. Nós, do Plantando Consciência, firmemente defendemos que o uso moderado, informado e supervisionado de psicodélicos, respeitando os já bem estabelecidos preceitos do set and setting, são uma das possíveis estradas a serem tomadas. Associada à pesquisa científica moderna, esta estrada pode nos levar a soluções sem precedentes para a crise atual. Não que qualquer pessoa deva usá-los. Pelo contrário. A ciência já mostrou de forma bem clara que há grupos de risco, e que o uso inconsequente pode ser devastador. Mas a prática milenar do uso destas substâncias por culturas xamânicas de todo o globo (e também de técnicas sem drogas capazes de produzir efeitos similares), comprovam que a indução esporádica de estados holotrópicos de consciência não é uma excessão, mas talvez seja a regra de muitas sociedades humanas ao longo da história. A excessão é justamente a proibição generalizada e desinformada que vigora nos últimos 40 anos, e que mais danos causou do que o próprio uso de drogas, mesmo quando feito da pior maneira possível, que é o que ocorre em um sistema de proibição, desinformação e violência. Nas palavras de Amanda Fielding: “Proibir estados alterados é não só inviável como pouco inteligente do ponto de vista evolutivo. Nós estamos em um período desafortunado, em que estados alterados da mente, exceto os produzidos pelo álcool, não são vistos como parte do desenvolvimento da civilização. Não acredito que essas experiências sejam algo que todos desejam. Mas existe uma minoria na sociedade que é exploradora das praias mais distantes da consciência, e a sociedade toda ganha quando permite e encoraja essas pessoas a trazerem ideias e insights desses estados”.

Hofmann foi muito claro sobre o que aprendeu com o LSD, pergunta que ouvia com frequência. Foi enfático, poético e professoral. Em muitas passagens do livro e em várias entrevistas e textos, seus insights emocionam e não deixam dúvidas do tremendo potencial que estamos perdendo: “De extrema importância para mim é o insight de todas minhas experiências com LSD de que, num nível fundamental, o que tomamos como ‘a realidade’, incluindo a realidade individual de cada pessoa, não é algo fixo, mas algo ambíguo – de que não há uma, mas muitas realidades, cada uma compreendendo uma diferente consciência do ego. Também se pode chegar a essa conclusão por reflexões científicas. […] mas é fundamentalmente diferente chegar a isso pela racionalidade, com a lógica da filosofia ou dar de cara com a questão emocionalmente, através da experiência. […] Qual a diferença essencial entre a realidade do dia a dia e o quadro experienciado durante a inebriação com LSD? O ego e o mundo externo estão separados na condição normal de consciência, na realidade ordinária; a pessoa fica face a face com o mundo externo, ele se torna um objeto. Durante a experiência com LSD os limites entre o eu que vivencia e o mundo externo tendem a desaparecer, dependendo da profundidade da inebriação. […] Uma porção do eu transborda para o mundo externo, para os objetos, que tomam vida, ganham um significado mais profundo. […] Em um caso auspicioso, o novo ego se sente abençoadamente unido com os objetos do mundo externo e consequentemente com outros seres vivos. Esta experiência de profunda unidade com o mundo exterior pode até se intensificar para a sensação de unidade com o universo. Esta experiência de consciência cósmica […] é análoga à iluminação religiosa espontânea, a unio mystica. […] O conceito de realidade que separa o eu do mundo definitivamente determinou o curso evolucionário da intelectualidade européia. O que Gottfried Benn chamou de “a catástrofe esquizóide, a auto-perpetuadora neurose ocidental (western entelechy neurosis, no original)”. A experiência do mundo como matéria, como objeto do qual o homem é separado, produziu as ciências naturais modernas e a tecnologia – criações da mente ocidental que mudaram o mundo. Com a ajuda destas ferramentas os humanos subjugaram o mundo. Sua riqueza foi explorada e depredada, e a conquista sublime da civilização tecnológica, o conforto da vida industrial ocidental, está de frente com a catastrófica destruição do meio ambiente. Até mesmo ao coração da matéria, ao núcleo do átomo e sua partição, este intelecto objetivo progrediu e liberou energias que ameaçam toda a vida no planeta. Um uso equivocado do conhecimento […] não poderia emergir de uma consciência da realidade na qual os homens não são separados do ambiente mas existem como parte da natureza viva e do universo. Todas as tentativas de reparar os danos ambientais com medidas protetoras permanecem sem esperanças, são apenas remendos superficiais, se não houver cura para a “auto-perpetuadora neurose ocidental. A experiência de uma realidade unitiva é impedida em um ambiente tornado morto pelas mãos humanas, como é o caso presente nas grandes cidades e distritos industriais. Nestes lugares a separação entre o eu e o mundo externo se torna especialmente evidente. Sensações de alienação, solidão e ameaça surgem. […] No campo ou na floresta, e no mundo animal abrigado aí, na verdade em cada jardim, há uma realidade perceptível que é infinitamente mais real, antiga, profunda e mais maravilhosa do que qualquer coisa feita por pessoas, e que irá por fim prevalecer, após o inanimado, mecânico e concreto novamente sumirem, após apodrecerem e se desfalecerem em ruínas. Não estamos caminhando na direção de um sentimentalismo entusiasmado pela natureza, um “retorno à natureza” no sentido de Rousseau. Aquele movimento romântico, que buscava o idílico na natureza, também pode ser explicado pela sensação de separação entre humanidade e natureza. O que precisamos hoje é uma fundamental resignificação da unidade de todas as coisas vivas, uma realidade consciente e abrangente que cada vez mais infrequentemente se desenvolve de maneira espontânea, quanto mais a primordial flora e fauna de nossa mãe terra cede lugar ao ambiente tecnológico morto.“

Assim sendo, desejamos que neste 19 de abril pausemos para repensar e melhor nos informar sobre a história e os fatos que cercam os psicodélicos. Para que o preconceito, a desinformação e a mentira abram espaço para  o desenvolvimento da consciência holotrópica. Para que os psicodélicos possam reencontrar seu rumo, e que finalmente a “criança problema” de Hofmann se torne a “criança abençoada”. É hora de regar e cultivar a consciência global de que tanto necessitamos. Para que a chegada da primavera na mente dos homens aconteça o quanto antes, dissipando a “catástrofe esquizóide” que nos assola.

A todos nossos queridos leitores, de ontem, hoje e amanhã, desejamos um feliz dia da bicicleta, em homenagem ao gênio Albert Hofmann (11 jan 1906 – 29 de abril de 2008).

PS Plantando Consciência desaconselha veementemente o uso não supervisionado de qualquer substância psicotrópica, legal ou ilegal. Também desaconselhamos práticas contrárias ao que estabelece a lei de cada país. Se você têm interesse em estados holotrópicos de consciência, procure profissionais certificados trabalhando de acordo com a lei local. Seja responsável e amoroso consigo mesmo, honesto com todos.

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A flor

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A Guerra contra as drogas nos EUA – fatos e dados

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Possibilidades positivas para os psicodélicos

“Por que ainda não vimos uma imagem completa da mente?”

por James Fadiman. Publicado originalmente em 10/02/10, no dharma cafe. Tradução de Plantando Consciência

Se o recente sucesso da comédia familiar “Simplesmente Complicado* e a sucessão de iniciativas legalizantes acontecendo na Califórnia servem como algum indício, a maconha finalmente alcançou respeitabilidade em larga escala. Mais marcante ainda, apesar da atmosfera repressiva ter resistido e sufocado a primeira década do nosso admirável século novo, a pesquisa com psicodélicos nos EUA entrou em sua era de ouro.
James Fadiman, talvez a maior e mais respeitada autoridade americana sobre psicodélicos e seus usos, nos dá um valioso panorama.

As substâncias químicas da transformação e da revelação que abrem os circuitos de luz, visão e comunicação, chamadas por nós de manifestadoras da mente, são conhecidas de povos indígenas como medicinas: os meios dados ao homem para conhecer e curar, para ver e dizer a verdade.
Henry Munn

Para os envolvidos com psicodélicos esta é uma época de mudanças inesperadas, um momento para celebrar, mas com cautela. Após décadas de inverno, o gelo está derretendo. O aquecimento rumo à legalização, uso religioso, médico e psicoterapêutico, a exploração cientifica e a aceitação cultural são encorajadores.
Após tantos anos, por que agora? Talvez porque a geração que suprimiu a pesquisa, criminalizou o uso pessoal e encarcerou usuários esteja saindo do poder. Esta próxima geração é melhor preparada para admitir a ineficácia da opressão criminalizante e considerar suavizá-la. É muito mais fácil para aqueles que nunca votaram pelas leis atuais reconhecer que algumas, aprovadas com pressa ou ignorância, são contraproducentes e inviáveis.
Enquanto a agenda de pesquisa da comunidade científica focou na restauração do uso terapêutico, as mudanças mais dramáticas foram no campo do status legal do uso pessoal privado. As nações parecem estar sacudindo a poeira do medo induzido pelos excessos dos anos 60. A resposta fóbica do governo norte-americano e a pressão dos EUA sobre outros estados parecem estar seguindo estes rumos. Como flores selvagens brotando de rachaduras no concreto, mais países estão definindo suas próprias políticas.
A Holanda permite a muito tempo a obtenção fácil e o uso de alguns psicodélicos, mas parou antes da formalização jurídica. Portugal legalizou todas as drogas em 2001 e deixou explícito que o tratamento estaria disponível para qualquer usuário que necessitasse. Os “do contra” insistiram ansiosamente que isto teria consequências terríveis, mas os resultados foram totalmente benéficos: menos vício, menos problemas sociais, menos crime, menos uso, mais unidades de tratamento e economias gigantescas em policiamento e cadeias.
O México legalizou, em 2009, pequenas quantidades de todas as drogas previamente ilegais. Isto foi feito, em parte, para liberar recursos para tentar eliminar os grandes cartéis de traficantes. Como as drogas ilegais, incluindo cocaína, heroína e seus derivados são primariamente fabricados para o mercado norte-americano, o foco agora é minimizar as atividades na fronteira. A República Tcheca relaxou as penalidades para posse de pequenas quantidades de substâncias manufaturadas como MDMA (ecstasy, N.T.). A base para estas reformas é o reconhecimento das seguintes realidades:

1. Psicodélicos não causam vício. Nunca causaram.

2. A maconha, diferentemente do tabaco e do álcool, não causa síndromes médicas sistêmicas. Apenas nos EUA, o tabaco – legalizado, viciante e regulado – diretamente contribui para a morte de 400 mil pessoas por ano. A maconha – ilegal, não viciante e não regulada – (e talvez utilizada por mais pessoas que o tabaco) não mata ninguém

3. Drogas ilegais são ímãs da violência. Foi verdade quando os EUA proibiram o álcool; é igualmente verídico para qualquer outra substância desejada e proibida. Se são removidas as penas para substâncias benignas, ou ao menos não-viciantes, o uso pessoal na verdade diminui – pelo menos na Holanda e em Portugal, os únicos dois países para os quais temos dados reais. A outra estatística que temos é que nos estados norte-americanos que regulamentaram a maconha medicinal não houve aumento no consumo de maconha para outros fins, apesar das previsões anteriores feitas por pessoas contrárias a esta nova legislação.

Um segundo grupo de países não mudou suas leis, mas seus sistemas jurídicos alegam que a constituição afirma o direito de realizar atividades privadas de alteração da consciência. No Brasil e na Argentina concluiu-se que é ilegal negar a pessoas o direito ao uso pessoal de qualquer substância, desde que isso não leve a comportamento criminal ou socialmente inaceitável.
O terceiro grupo de países, ainda inseguros sobre qual direção seguir, inclui os EUA. Nos EUA, políticas que agruparam maconha, psicodélicos e drogas viciantes levaram a um aumento da população carcerária, a proliferação de atividades criminais internacionais altamente lucrativas, distorções econômicas nos países que produzem as drogas ilegais para consumo nos EUA e um crescente desrespeito ao governo que não consegue resolver a situação. O efeito colateral é que estas políticas custam bilhões de dólares anuais.
Apesar da relutância de Washington em mudar, alguns estados usaram sua liberdade para permitir que pessoas usem maconha como medicamento. Até a administração Obama, o governo federal fez o seu melhor para romper com estas legislações e manter todos os usuários criminalizados. Uma indicação do quanto há de demanda por maconha medicinal surgiu em LA poucas semanas após a decisão de permitir tal uso, com a abertura de 800 lojas, deixando para trás o número de bancos ou escolas públicas na cidade. A tendência para legalização está acelerando conforme fica mais e mais óbvio que uso de maconha não leva a comportamentos violentos ou criminais. O fato de que os últimos três presidentes fumaram maconha em algum momento de suas vidas não foi esquecido por reformistas ou pelo público em geral. A maconha não é um psicodélico, mas é uma substância alteradora de consciência usada tradicionalmente para fins espirituais e terapêuticos. Conforme seu status muda, fará com que plantas e substâncias alteradoras de consiência com maior potência sejam menos demonizadas.
Vários estados, com destaque para a Califórnia, mas também Nevada, Washington e Flórida, estão tentando iniciar suas ações para descriminalizar ou legalizar a maconha. Na Califórnia, o principal argumento é que sobre a produção, apesar de ser uma das maiores indústrias do estado, não incidem impostos e que sua interdição é cara e mal-sucedida. A idéia é transformar um ralo de dinheiro desperdiçado em fonte de renda para o estado. A proposta da Califórnia, que já têm o número necessário de assinaturas para ir para votação, torna a posse de aproximadamente 30 gramas legal; permite cultivo pessoal em jardim de não mais de 2,3m2, proíbe a venda para menores e proíbe fumar em público. As especificidades de regulação e de impostos são deixadas para as autoridades locais.

Soma-se a isto, e agora diretamente relacionado aos psicodélicos e liberdade religiosa, que várias cortes estabeleceram que grupos religiosos usando ayahuasca como seu sacramento central podem praticar sua fé sem medo de serem presos. Estes casos são um primeiro passo para a restauração da liberdade religiosa com uso de psicodélicos em outras situações.

Até o absurdo de proibir o cultivo do cânhamo, como se fosse maconha (comparável a colocar malzbier na mesma categoria da skol) está ganhando um novo olhar. Produtos importados feitos de cânhamo, incluindo aqueles para consumo humano, estão novamente disponíveis; e Washington seguiu o exemplo do Canadá e de dúzias de outros países, permitindo o cultivo, colheita e comércio de cânhamo. Parece haver, se não um fim na falta de bom senso do establishment proibicionista, pelo menos algumas rachaduras.
Tornar a maconha legal e cobrar impostos de seu comércio reduz o orçamento das forças repressivas – e seus poderes. A reação virá do sistema proibicionista-criminalizador-carcerário-policial, instituições cujos lucros ou cuja própria existência depende de repressão e sentenças. Muitos departamentos policiais, por exemplo, que dependem do dinheiro apreendido em operações de tráfico como sua maior fonte de renda, irão lutar contra a legalização que lhes causa perda de renda.
Apenas agora, na fase preliminar da liberalização, estamos começando a ter evidências científicas sobre os psicodélicos disponíveis. Seria inapropriadamente otimista esperar legislações baseadas em evidências em qualquer momento próximo, mas pode-se esperar mais países relaxando suas restrições conforme os benefícios de o fazer se tornem mais aparentes.

Uso Enteogênico
As restrições legais acabam com a pesquisa tradicional, mas pouco fazem para prevenir a contínua proliferação de psicodélicos por meios culturais. É difícil dizer quais das muitas áreas culturais foram mais influenciadas por psicodélicos. Por exemplo, Jack Kornfield, um respeitado estudioso budista, diz: “É verdade que a maioria dos professores budistas americanos tiveram experiências psicodélicas, ou logo depois de começarem suas práticas espirituais ou antes disso.” Este uso, na verdade, não contradiz os preceitos budistas. Minha própria experiência é de que professores em muitas outras áreas espirituais também começaram suas jornadas após importantes experiências psicodélicas.
Um grupo na John Hopkins University está engajado em uma série de estudos para determinar se psicodélicos utilizados de maneira segura e ritualizada leva a maioria das pessoas a experiências espirituais. Não surpreendente, a resposta é sim. Mais importante que a pesquisa em si foi que ela quebrou uma grande barreira: o governo permitiu, pela primeira vez, um estudo científico que fazia perguntas espirituais e não apenas médicas. Também impressionante foi a atenção que a grande mídia deu ao fato. Mais de 300 publicações relataram os resultados após sua publicação em revista científica. Surpreendentemente, um relato positivo apareceu no Wall Street Journal. Mais informativo, olhando para tendências, foi um curto artigo num jornal esportivo escocês: “Cogus te levam as alturas.” Os editores assumiram que seus leitores conheciam a gíria para os cogumelos psicodélicos e que não seria necessário um artigo extenso para dizer aos leitores que a ciência havia descoberto aquilo que eles já sabiam.
Igualmente importante, uma rede de sites agora satisfaz a necessidade de se ter rápido e fácil acesso a informação sobre uso seguro de psicodélicos. O principal é o Erowid, que traz relatórios e informações, artigos técnicos, dicionários moleculares interativos, arte visionária, descrições de perigos e contra-indicações bem como milhares de relatos pessoais sobre o uso de dúzias de substâncias. O site têm média de 50.000 visitas diárias, número que cresce a cada ano desde seu lançamento. Navegar pelo erowid deixa claro que 40 anos de repressão inapropriada dificultaram o uso consciente, mas uma cultura underground está sendo bem sucedida.
Outro fenômeno recente é a crescente popularidade da ayahuasca. Enquanto outros psicodélicos são frequentemente usados com fins recreativos, a ayahuasca é quase sempre utilizada com guias ou xamãs. Nos anos 60, um rito de passagem era visitar a Índia, estudar com um guru e praticar austeridades em um ashram. Os psiconautas contemporâneos partem para a floresta para conhecer e trabalhar com os curandeiros tradicionais e suas plantas medicinais, sendo a principal a ayahuasca. As viagens para a Índia são principalmente sobre realização pessoal, mas a intenção dos que buscam a imersão na floresta sulamericana quase sempre inclui cura pessoal e um imenso interesse em reparar o abismo entre a humanidade e os outros reinos biológicos.

Dois debates continuam, ecos da expansão de consciência dos anos 60. Um é sobre a validade de experiências induzidas por plantas ou substâncias químicas quando comparadas a experiências alcançadas pela meditação, reza, movimento, jejum, etc. Os argumentos se aquecem e esfriam de quando em quando, mas nunca serão finalizados. O outro debate – entre aqueles que tomam psicodélicos sintéticos e aqueles que não – também segue sem esperanças de um lado convencer o outro. Gordon Wasson, que descobriu o uso dos cogumelos psicodélicos para o Novo Mundo, foi entrevistado sobre a diferença entre os cogumelos e a psilocibina posteriormente sintetizada pela farmacêutica Sandoz. Ele disse: “Eu não vi nenhuma diferença. Acho que as pessoas que encontram diferenças estão procurando por uma e então imaginam que a encontraram.” O importante é o efeito que a experiência produz na vida do sujeito e não as sutilezas deste ou daquele produto.

Uso Médico/Psicoterapêutico
O uso médico e psicoterapêutico dos psicodélicos está de volta! Se alguém disse que esta é a época de ouro, seria mais apropriado dizer que está exposta a ponta do iceberg. Uma enorme comunidade de cientistas está animada para recomeçar pesquisas que foram atrasadas por décadas. Conferências científicas honrando o trabalho de Albert Hoffman em sintetizar o LSD e outros psicodélicos levaram mais de 2.000 pessoas de 37 países a Basel, na Suíça, em 2006 e 2008. Duzentos jornalistas de todas as partes do planeta cobriram as apresentações – um memorável momento para uma substância que é mantida ilegal por tantos anos (em abril deste ano acontecerá em São Francisco, Califórnia, o congresso “Ciência Psicodélica no Século XXI“, organizado pela MAPS, consolidando a tendência de reestabelecimento de pesquisas psicodélicas em todo o mundo, N.T.).
Enquanto algumas pesquisas recentes são repetições de trabalhos feitos antes de tudo ser desmantelado, novas áreas de pesquisa revelam como psicodélicos ajudam a aliviar condições médicas que não têm tratamento convencional disponível. É notável que até agora não tenham aparecido oposições para acabar com este trabalho. As reações poderiam ser diferentes se fosse demonstrado que uma dose apropriada de psicodélicos a cada seis semanas tivesse efeito antidepressivo. Neste caso, poderia haver oposição severa da indústria farmacêutica e fornecedores de antidepressivos. Por concentrar-se em uma ou poucas condições severas, os pesquisadores driblam esta possível oposição. De fato, têm recebido apoio dos colegas médicos, como por exemplo no caso das cefalélias em salvas (cluster headaches). Inicialmente comunicadas entre usuários ilegais cujas conversas vieram a público, os efeitos medicinais estão sendo avaliados por um estudo em andamento em Harvard. Resta saber se aquilo que ja está razoavelmente bem descrito na prática consegue ser provado pelos estudos farmacológicos duplo-cego, pelo sistema de publicação com avaliação por pares e, mais importante, finalmente se tornar disponível na prática clínica corriqueira.
Outro estudo promissor está dando psilocibina para pacientes altamente ansiosos, em estágio de câncer terminal. Os resultados mostram que uma única sessão em um ambiente seguro e encorajador, permitindo que o sagrado, caso ocorra, seja vivenciado, beneficia tanto o paciente quanto sua família. Outro tratamento, mais controverso – outrora permitido nos EUA mas agora apenas em outros países – usa a iboga, planta psicodélica Africana, para quebrar o ciclo viciante da heroína. Dados os poucos tratamentos disponíveis e o alto custo do vício, tratado ou não, esta área deveria ganhar mais atenção e apoio no futuro. Na verdade, o tratamento é tão valioso que ex-viciados estão ilegalmente tratando outros viciados sem o apoio médico.
Inexplicavelmente, o que ainda está para retornar é a terapia psicodélica para o alcoolismo, de longe a mais pesquisada, testada e comprovada terapia da era pré-proibicionista. Virtualmente nada tem sido escrito nos anos recentes, nem mesmo nos circuitos alternativos. Permanece um setor largamente ignorado em meio ao que é a atual renascência das pesquisas com psicodélicos.
Vários outros países, incluindo a Alemanha, Suíça e Israel, estão permitindo ou apoiando projetos psicodélicos primariamente envolvidos no uso de MDMA para ajudar pessoas a superar os debilitantes efeitos crônicos do estresse pós traumático. Com centenas de milhares de militares retornando do Iraque e do Afeganistão com esta síndrome, a demanda por tratamento com alto índice de cura está se intensificando. O fato de que veteranos do Vietnam seguem em outros tratamentos até hoje faz com que seja mais provável que o tratamento com MDMA seja oferecido a eles. Talvez, assim como com as cluster headaches, os primeiros relatos serão de veteranos se auto-medicando e ajudando uns aos outros, como já acontece com a maconha. O sistema hospitalar de veteranos está sem fundos, sem equipe e com excesso de pacientes e portanto sem ajuda externa é improvável que consiga estabelecer avanços.
Ainda há, é claro, uso contínuo e extenso de psicodélicos para auto-conhecimento, ilegalmente e sem os guias adequados. Um levantamento entre estudantes encontrou que a razão mais citada para uso de psicodélicos era exploração pessoal, e não uso recreativo ou espiritual. Assim como a aceitação da maconha medicinal aumentou o número de lojas onde pacientes podem comprá-la, se as tendências seguirem podemos esperar o surgimento de clínicas e instituições especializadas no tratamento psicoterapêutico com diferentes tipos de psicodélicos.

Criatividade e solução de problemas
O termo psicodélico já é de conhecimento público para descrever certos tipos de música e arte visual. Não carrega nenhum estigma o artista que declara que psicodélicos influenciaram numa música, pintura ou produção teatral. Seu uso é largamente aceito no mundo técnico mesmo que não haja discussões profundas sobre o tema.
Durante a revolução digital, empresas foram formadas por pessoas que cresceram com psicodélicos facilmente disponíveis. O uso de drogas para eles era casual e frequente. Recentemente dois ganhadores do prêmio Nobel atribuíram aos psicodélicos parte importante de suas descobertas, sugerindo que o uso é bem maior e disseminado na comunidade científica do que é geralmente aceito (Francis Crick e Kerry Mullis, N.T.).
Em paralelo aos milhares que acompanharam as conferências científicas em Basel estão as hordas que se dirigem anualmente ao Boom Festival na Europa e ao Burning Man em Nevada, EUA. Nem todos os 50.000 burners tomaram psicodélicos, mas a vasta maioria sim.

No YouTube, vídeos individuais sobre fatos e conceitos psicodélicos estão sendo acessados por um milhão de usuários. Em 2009, a National Geographic conseguiu vender o espaço publicitário para toda o seu horário nobre na TV sobre “drogas”. A sessão começou com uma hora sobre meta-anfetamina. A segunda hora passeou pelo mundo da maconha, seu plantio, cultivo, venda e uso. A hora final foi sobre o uso contemporâneo de psicodélicos por artistas para melhorar e expandir suas habilidades. Estes programas indicam quão longe estamos da propaganda anti-marijuana “Reefer Madness“, distribuída em 1936 como programa “informativo”.

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Conclusões
A tendência geral é de maior abertura e disponibilidade de informações. Guias treinados para sessões espirituais e científicas ainda são raros de se encontrar por aí, mas as forças culturais e mercadológicas favorecem a criação de instituições para esta finalidade.
Este panorama é baseado na esperança otimista de que os usos adequados destas substâncias fenomenais não serão prejudicados por popularização trivial, como ocorreu quando os psicodélicos foram proibidos.

As forças contrárias a aceitação mais generalizada incluem os suspeitos usuais: estupidez, medo, ganância, egoísmo e inércia. Os grupos criminais e as forças repressivas governamentais e carcerárias empregadas para fazer as leis já estão ativas. Na Califórnia, o sindicato de guardas carcerários está entre os grupos que mais doam para campanhas políticas e que sem dúvida não medirão esforços em combater as iniciativas legalizantes. Alguns membros de religiões organizadas sem dúvida estarão entre a oposição. Quase todas as instituições religiosas tem burocracias veladas para dizer que são a única ponte entre a fé e o divino. No passado, a possibilidade de contato espiritual direto fornecido pelos psicodélicos era vista como ameaça a este status quo (ver Xamãs da Amazônia, A Inquisição Farmacrática e Outros Mundos, N.T.). Recentemente, entretanto, a lei norte-americana permitiu que igrejas usem substâncias psicodélicas como o sacramento que realmente são. Resta-nos esperar que uma nova geração de líderes na grande mídia e igrejas se inspire nisso.

Oposição adicional pode vir do sistema financeiro internacional. Se isto soa improvável, é apenas porque a maioria de nós desconhece o valor do comércio ilegal. Um estudo da ONU sobre a recente crise de 2008-2009 concluiu que uma das poucas fontes initerruptas de liquidez foram os lucros de US$232 bilhões (este é de fato o número real!) com a venda de drogas ilegais. A maioria deste lucro vêm de drogas como cocaína e heroína, mas manter as leis confusas serve melhor a estes interesses do que leis voltadas apenas para drogas aditivas.

Por mais favoráveis que estas tendências possam parecer, o que mais importa é como seu entendimento de você mesmo e de seu lugar na ordem natural das coisas foi clareado ou enriquecido pelo uso de psicodélicos. Se os insights resultantes não forem integrados na sua vida, eles podem ser trivializados, ignorados ou patologizados. O teólogo Huston Smith diz que a questão não é se estas substâncias induzem experiências místicas, mas se o seu uso leva a uma vida religiosa. O pesquisador psicodélico e praticante budista Rick Strassman diz: “Experiência espiritual isolada, mesmo repetidamente, não é a base para se tornar uma pessoa melhor. Ao contrário, os insights psicodélicos apropriadamente escalonados e postos em prática com considerações morais e éticas parecem ser o melhor caminho para colher os frutos das drogas psicodélicas.

Em muitas culturas, o explorador psicodélico é chamado para encontrar algo de útil para sua sociedade – descobrir os potenciais terapêuticos de uma planta, trazer de volta uma música de cura ou receitas para as pessoas viverem em harmonia consigo mesmas e com o mundo natural. O fato de que os psicodélicos facilitam tais experiências não diminui a responsabilidade.

A questão colocada pela poeta Mary Oliver, “O que é que você pretende fazer com sua única e preciosa vida?” é o que os psicodélicos nos impelem a levar a sério.

*Nos EUA houve polêmica sobre o filme porque os personagens fumam maconha. Algumas instituições, como a Motion Pictures Association of America (MPAA) criticaram o filme por isso e pelo fato de nada ruim acontecer aos personagens devido a fumarem maconha. A MPAA recebeu muitas críticas por esta posição extremamente conservadora.

Nascido em maio de 1939, James Fadiman se graduou em Relações Sociais pela Harvard University em 1960 e realizou mestrado e doutorado em psicologia na Stanford University, em 62 e 65, respectivamente. Nos últimos 40 anos lecionou uma grande variedade de tópicos, consultas, treinamentos, aconselhamentos, editoriais e exerceu outras funções. Enquanto vivia em Paris durante seus anos de estudante, James Fadiman foi apresentado aos psicodélicos pelo seu supervisor na graduação, Richard Alpert (Ram Dass), que estava a caminho de Copenhague com Tim Leary e Aldous Huxley para a primeira grande apresentação em uma conferência internacional sobre os potenciais positivos dos psicodélicos.

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É totalitária. E todo mundo aprova.

A lei anti-fumo em São Paulo é um sucesso. Ela é uma questão de consciência? Sem dúvida. Mas é um avanço? Só se for avanço de marketing. Porque ela explora e manipula a demanda por consciência, por um propósito puramente político. Belo truque.

Vamos analisar uma curiosa pesquisa publicada pelo Estadão esta semana, que mediu os índices de monóxido de carbono em algumas baladas paulistanas antes e depois da lei anti-fumo.

Smoking-Law--2627A reportagem encontrou, antes da lei, índices de CO nas boates parecidos com o de ruas de tráfego movimentado, como a Avenida Paulista, entre 10 e 14 ppm (parte por milhão). Depois, no mesmo horário de visita, a marca máxima ficou entre 5 e 6 ppm, “índices considerados ideais” segundo pneumologista do Ambulatório do Tabagismo do Instituto do Coração (Incor). “Vamos estudar os efeitos dessa redução de concentração, mas a expectativa é de diminuição de doenças cardíacas”, afirmou a pneumologista, que avalia a qualidade ambiental pré e pós lei antifumo em 840 bares e boates de São Paulo.

O curioso na matéria é a comparação com o fato de que, antes da lei, o ar dentro dos estabelecimentos era parecido com o ar nas ruas de São Paulo. Fico pensando se agora é mais sensato ficarmos todos enclausurados dentro de ambientes fechados para  evitarmos o risco de exposição a agentes causadores de doenças cardíacas.

É claro que a lei anti-fumo carrega a bandeira (unânime) da saúde. Mas abusa e explora o mote, sem o qual fica fácil perceber que ela não passa de um efetivo e apelativo instrumento eleitoral, criada de forma bastante severa pra gerar polêmica e virar notícia. Quando chegarem as eleições presidenciais, passado o fervor da implantação, o Sr. José Serra irá lembrar a todos os eleitores como ele fez por São Paulo, como trabalhou pela saúde da população. Ações governamentais mais efetivas na área de saúde, como educação preventiva, construção e manutenção de hospitais e serviços públicos de qualidade, ou geração de empregos e melhoria da instrução e habilitação na área, não viram notícia e não têm o mesmo impacto social.

Se o governador de São Paulo é tão preocupado com a saúde de todos – e se a expectativa da lei antifumo é a diminuição das doenças cardíacas -, ele poderia pensar em soluções menos intransigentes e mais abrangentes – e aproveitar para dar exemplo ao mundo -, como restringir o uso de automóveis movidos à combustão (afinal, ninguém é “viciado” em combustíveis fósseis, evitando o “efeito colateral” de se isolar uma classe de fumantes que usufruem de um hábito legal, a se sentir discriminada), paralelamente a incentivos fiscais para masked_bikerestimular a fabricação e comercialização de veículos não poluentes (recomendo o documentário “Quem Matou o Carro Elétrico?”, disponível em nosso site, para se aprofundar no tema). Mas esta não seria uma solução eleitoreira, pois demanda longo prazo.

Mas se a questão é ser radical e chamar a atenção, então a próxima solução em prol da saúde pública poderia ser a obrigatoriedade de se usar máscara nas ruas, já que aparentemente agora você só está a salvo dos males da fumaça em ambientes fechados, visto que o ar de São Paulo, que já tinha a mesma concentração venenosa das baladas com fumantes, está ainda pior, já que todos os fumantes da cidade tem que saciar seu vício ao ar livre.

Mas não pára por aí. Quem disse que a fumaça é o único inimigo da saúde pública? Que tal se regulamentássemos a freqüência do consumidor a lanchonetes fast-food como o McDonalds, Giraffa’s e Burger King (conhecendo seu papel na contribuição para uma alimentação equilibrada e saudável, como  ironizado no filme Super Size Me)? Isso sem falar na imoral distribuição-isca de briquedos-brindes pra atrair crianças para estas redes (procedimento de baixo nível amplamente disseminado). Ou talvez controlar a venda de pastel de feira, seguindo as estatísticas sobre os mesmos problemas cardíacos, mas desta vez causados pela obesidade.

britney-bald-adSe parece exagero, é porque entendemos que a diferença em relação à questão do fumo e da alimentação é que o que o seu vizinho come não interfere na sua saúde, enquanto a fumaça que ele assopra te ataca e incomoda. A famosa questão do fumante passivo. Bom, o que o seu vizinho come pode não interferir na sua vida em primeira instância. Mas as propagandas das redes de fast food também atingem seus filhos, o lixo produzido polui o ambiente em que você vive, os problemas decorrentes da obesidade congestionam os hospitais… e assim por diante.

Mais do que isto. O controle sobre alimentos “perigosos” está aos poucos se tornando a próxima bola da vez no que diz respeito à interferência de governos nas vidas das pessoas. Recomedo a leitura imediata desta curta mas interessantíssima resenha da The Economist sobre o livro Velvet Glove, Iron Fist (“Luva de Veludo, Punho de Ferro”), do americano Christopher Snowdon, sobre a história da perseguição ao cigarro, e como termos como “obesidade passiva” e “bebedeira passiva” já estão começando a circular por aí.

Por outro lado, poderíamos pleitear uma lei proibindo a venda indiscriminada de alimentos transgênicos, visto que ainda não tivemos tempo de análise para se obter dados sobre  os efeitos a longo prazo destes ao organismo. Mas esta não ia dar certo, primeiro porque a população desconhece o assunto, e segundo porque os transgênicos são tão onipresentes hoje que em pouco tempo não existirão mais sementes naturais e praticamente tudo o que você compra no supermercado seria proibido (recomendo o documentário “O Mundo Segundo a Monsanto” para aprofundamento nesta questão, também disponível no nosso site).

Pra piorar, há uma polêmica nos meios científicos em relação à quantidade e qualidade das evidências para comprovar a tese do fumante passivo, que se baseia em um estudo feito pelo epidemologista japonês Takeshi Hirayama (não-fumante fanático, como ficou conhecido), publicado pelo British Medical Journal em 1981, que acompanhou dezenas de milhares de mulheres de fumantes ao longo de 14 anos e concluiu que o risco de contração de câncer pelas mulheres de fumantes obssessivos dobrava.

Voltando a Christopher Snowdon e seu livro Velvet Glove, Iron Fist, o autor lista 63 relatórios feitos, desde então, dos quais 52 não conseguiram comprovar a tese do fumante passivo, 8 encontraram evidência positiva e 3 indicaram que as mulheres dos não-fumantes teriam mais câncer do que as dos fumantes (!)

Ou seja, no final das contas, a lei não tem base sólida para se justificar, fora o seu conforto de chegar em casa sem cheiro de cigarro na roupa. Perseguição ao fumante? Preconceito social? Totalitarismo? Vejamos mais a seguir.

A reportagem do Estadão acerta ao inserir comentários de dois pontos de vista sobre a lei. O primeiro é do secretário estadual de saúde, Luiz Roberto Barradas Barata, que obviamente enaltece os méritos da medida, clamando que “a saúde pública saiu fortalecida” e lembrando que “não houve diminuição do número de clientes de bares, restaurantes e outros estabelecimentos”. Esta última informação é enviesada. Esta fonte de informação que vos escreve tem testemunhado o contrário, do lado de quem trabalha no ramo. Em lugares em que o movimento não foi afetado, o caos das filas pra fumar e o tratamento grosseiro muitas vezes dispendido aos fumantes começa a dar cria a uma nova minoria vitimizada por preconceito social.

O outro comentário, desfavorável à lei, é do diretor jurídico da Associação Brasileira de Gastronomia, Hospedagem e Turismo (Abresi), Marcus Vinicius Rosa. Rosa comenta uma questão de primeira importância, independente de você ser a favor ou contra a lei: ela é inconstitucional, pois atropela uma liberdade protegida por leis federais. Rosa também fala sobre o “efeito simbólico” da mesma (“não há um esforço do governo em incentivar programas antitabagistas, nem combater a poluição atmosférica”). O diretor da Abresi lembra então que a supressão de liberdades implantada descamba para o totalitarismo. Opa!

apartheidFaço uma ponte para outro assunto recente e polêmico, desta vez abordado pela revista Veja, em matéria sobre o livro Uma Gota de Sangue, do sociólogo Demétrio Magnoli, que tem gerado balbúrdia e inconformismo (inclusive com o autor sendo chamado de “neoracista” em blogs), por sua postura contra as cotas para negros em universidades (que segundo ele acabam por “impingir aos cidadãos uma marca racial da qual não poderão fugir”). Vale lembrar, antes de tudo, que no Brasil, país da mistura racial por excelência, “existe um racismo difuso, mas não um ódio racial de massas”, como nos Estados Unidos, segundo Magnoli. E que “em todos os lugares em que foi aplicado esse tipo de medida (lei de cotas), formaram-se elites políticas sustentadas sobre bases raciais”. Isto é um fato. Independente da oportunidade aberta para negros de espaço na educação superior, ou independente da sua caracterização ou posição social (negro vs. não negro, fumante vs. não-fumante, gay vs. hetero e assim por diante), “tipos” identificados com um rótulo tendem a concentrar e desenvolver poder político em prol de suas bandeiras, em detrimento a outras causas igualmente polarizadas.

smoking-is-healthier-than-fascismAcho oportuno lembrar que, antes se ser o “pária da civilização”, o tabaco, que já foi “necessidade patriótica” nos Estados Unidos da I Guerra Mundial, é usado há tempos imemoriais para fins relacionados à saúde. O mapacho, espécie de tabaco usado em cerimônias xamânicas no Peru, é considerado uma planta sagrada e sua fumaça tem papel fundamental nos rituais de terapia ancestral. Além disso, a medicina amazônica faz uso do suco de tabaco (sim, suco de tabaco) para ajudar a limpar o organismo em dietas de cura. Assim como o palo santo, que é queimado para purificar ambientes em rituais, ou outros incensos, usados em muitas culturas para afungentar maus espíritos e induzir estados de relaxamento e bem-estar. Todos estes fumígenos foram usados por séculos no auxílio à busca de saúde física e mental sem registro de epidemias de câncer de pulmão nessas sociedades.

Como pode-se perceber, o debate é profundo e o nosso papel aqui é plantar a semente do questionamento. Porque, no final das contas, a celebração incontestável da lei anti-fumo e a polêmica das cotas externam o maior dos preconceitos da sociedade brasileira: o preconceito contra o próprio debate. “Verdades” como as que norteiam a lei anti-fumo são mais fáceis de assimilar, mas também são mais fáceis de nos fazer manipuláveis, como rebanho na mão de interesses e bandeiras políticas. O grande perigo está em saber distinguir o limite difuso entre medidas que são de fato “em prol da saúde” e “em prol da igualdade” de leis de fácil apelo popular que no fundo carregam uma amarga e preocupante tendência ao totalitarismo.

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