Posts Tagged xamanismo

Budismo e Psicodélicos

Nesta conversa franca, James Fadiman, psicólogo, e Kokyo Henkel, monge Zen Budista, navegam por aspectos superficiais e profundos da experiência psicodélica, e conversam com a platéia sobre as semelhanças e diferenças com a filosofia zen budista e a prática da meditação. Temas delicados e importantes como o uso consciente de substâncias, a vivência de estados extraordinários de consciência como uma prática espiritual, a importância da integração, do set and setting, a dose, o guia, o ajudante, a intenção e muito mais são abordados com clareza e simplicidade.

Fundamental para aqueles interessados em tirar proveito dessas experiências e integrá-las de maneira evolutiva e educativa.

Por hora, ambos os vídeos disponíveis sem legendas. Se você é um voluntário para fazê-las, por favor entre em contato!

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Ayahuasca no tratamento da dependência

Em Setembro de 2011, Marcelo Mercante, Beatriz Labate, Edward MacRae e  José Guilherme C. Magnani organizaram simpósio sobre a medicina amazônica e o tratamento do abuso e da dependência de drogas, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP). Com palestrantes nacionais e internacionais, o encontro abordou, em três dias, uma série de tópicos extremamente relevantes para o conhecimento sobre as medicinas tradicionais, o conceito de “droga”, a fisiologia da ayahuasca, entre muitos outros. Compilamos aqui os vídeos de todo o evento, para ajudar a disseminar e aprofundar este conhecimento de grande relevância.

Abertura: A ayahuasca e o tratamento da dependência: limites e possibilidades

Participantes: José Guilherme C. Magnani (Doutor em Antropologia, USP), Marcelo Niel (Psiquiatra, Proad/Unifesp), Dr. Rosa Giove (Médica, Takiwasi).

Coordenação: Marcelo Mercante.

Sessão I: Dependência: os Centros de Tratamento, sua visão e abordagem do problema.

Participantes: André Volpe (Igreja Céu da Nova Vida — Santo Daime), Fernando Dini (Igreja Céu Sagrado — Santo Daime), José Muniz (Casa de Recuperação Caminho de Luz), Jacques Mabit (Centro de Reabilitación Takiwasi), Wilson Gonzaga (Associação Beneficente Luz de Salomão), Walter de Lucca (Unidade de Resgate Flor das Águas, Padrinho Sebastião), Néstor Berlanda (Fundación Mesa Verde, Argentina); Cesar Rabbat (Fundación El Emilio, Argentina), Santos Victorino Oreggioni Osores (Instituto Espiritual Chamánico Sol de la Nueva Aurora, Uruguai).

Coordenação: Walter Moure

 

Sessão II: Populações em situação de vulnerabilidade: diferentes abordagens

Participantes: Bruno Ramos Gomes (Psicólogo, Mestre em Saúde Pública, USP, Neip), Taniele Rui (Doutoranda em Antropologia, Unicamp, Neip), Jardel Fischer Loeck (Doutorando em Antropologia, UFRGS, Neip).

Coordenação: Liandro Lindner

Sessão III: O conceito de “droga” e a ayahuasca

Participantes: Henrique Carneiro (Doutor em Historia, USP, Neip), Edward MacRae, Maurício Fiore (Doutorando em Ciências Sociais, Unicamp, Neip, Cebrap), Sandra Goulart (Doutora em Antropologia, Faculdade Cásper Líbero, Neip)

Coordenação: Julio Simões

Sessão IV: As (des)fronteiras entre a terapia e o ritual

Participantes: José Guilherme Magnani, Paula Montero (Doutora em Antropologia, USP), Francisco Lotufo Neto (Psiquiatra, Faculdade de Medicina, USP)

Sessão V: O papel da experiência e do corpo no tratamento com ayahuasca

Participantes: Jacques Mabit, Marcelo Mercante, Walter Moure (Doutor em Psicologia, Runa Wasi), Gabriela Ricciardi (Doutoranda em Antropologia, UFBA).

Coordenação: Bruno Ramos Gomes

Sessão VI: A legalidade do uso da ayahausca no tratamento da dependência e as políticas públicas relacionadas a este tema

Participantes: Maurides Ribeiro (Advogado), Roberto
Tycanori (Coordenação de Saúde Mental, Ministério
da Saúde), Rosa Giove, Marcelo Niel

Coordenação: Marcelo Mercante.

 

Cerimônia de encerramento

Depoimento e bate papo com pessoas que se recuperaram da dependência química através da AYAHUASCA.

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A molécula do espírito, o cipó das almas e a… Ciência?

Ayahuasca. Daime. Caapi. Yagé. Vegetal. Hoasca. Biaxii. Nishi Pae. Natema…

São muitos os nomes. São muitos os efeitos. São quase infindáveis as maneiras de usar, os propósitos, os contextos, os lugares…

A ayahuasca, bebida de origem amazônica utilizada ritualmente e religiosamente em no mínimo 20 países, por milhares de pessoas, propicia uma daquelas experiências absolutamente inacreditáveis para a imensa maioria dos ocidentais. Inefável. Beira o inexprimível…

Permitida para uso religioso no Brasil, tida como patrimônio cultural no Peru, é proibida, banida, mal entendida e perseguida em inúmeros países. É a protagonista central de episódeos típicos da santa inquisição, em pleno século XXI. Segundo os legisladores dos EUA e tantos outros países, o que os Quechuas batizaram “Cipó das Almas” é extremamente perigoso e deve ser banido, principalmente por conter a molécula N,N-Dimetiltriptamina, que o psiquiatra americano Rick Strassman batizou de “Molécula do Espírito”. Parece que há, afinal, alguma concordância entre índios Quechua e a psiquiatria moderna.

Essas são apenas algumas das quase infinitas perguntas que nós, do Plantando Consciência, mais um número cada vez maior de pesquisadores, no Brasil e no mundo, nos propomos a investigar, com auxílio da Ciência. Isso mesmo. Buscamos unir ciência e espírito, transcender a dicotomia cartesiana, a dualidade mente/matéria. Uma de nossas principais ferramentas: a neurociência. Aliada, é claro, à antropologia, história e respeito profundo e amplo a sabedorias ancestrais e seus maravilhosos mistérios.

Nossa jornada nessa direção já conta com algumas trilhas longas, e alguns frutos. Em agosto de 2012 organizamos, durante o congresso da FeSBE e da SBNeC o simpósio “Ayahuasca, cérebro e consciência“. Abaixo, você pode assistir, de graça e em primeira mão, duas destas palestras, na íntegra (Graças ao trabalho voluntário do Rafael Beraldo, que os editou, Obrigado!). Uma envolvendo pesquisa com ayahuasca e neuroimagem, já publicada, e outra sobre uma pesquisa em andamento com as ondas elétricas do cérebro durante o efeito do chá milenar.

 

E neste domingo, 14/10, mais um de nossos pesquisadores, Sidarta Ribeiro, irá apresentar palestra sobre investigações científicas envolvendo a ayahuasca, em NY, durante o simpósio Horizons.

E na terça feira que vem, aos que estiverem em São Paulo, apresentaremos mais uma sessão gratuita do documentário “A Molécula do Espírito” na Casa Jaya. Após a sessão, bate papo exclusivo com o Prof. de história Henrique Carneiro e com o antropólogo Marcelo Mercante, especialistas nestas e em outras mil questões interessantíssimas.

Dia 16/10 a partir das 19h, na Casa Jaya, Rua Capote valente 305, Pinheiros. Telefone: (11) 2935-6987

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Culturas em extinção

Nesta palestra, o antropólogo Wade Davis, autor de “One River“, fala sobre um problema seríssimo que está acontecendo ao redor do mundo: a extinção maciça de culturas. Ele foi aluno de Richard Evans Schultes (o verdadeiro Indiana Jones): o pioneiro da pesquisa com plantas sagradas e a botânica transcedental, incluindo peiote, ayahuasca, entre 200 outras plantas catalogadas e identificadas. Wade Davis é autor de vários livros e coordenador de diversos projetos magníficos pela National Geographic, incluindo programas sobre psicodélicos e uma biografia sobre a vida e obra de seu mestre.

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.Vídeo com legendas em várias línguas, basta escolher no menú ao lado do botão play.

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Fazendo as pazes com Papai Noel

Você já parou pra pensar por que levamos pinheiros pra dentro de casa, os decoramos com bolas coloridas e colocamos presentes ao seu redor no Natal? Qual é, de fato, a origem da simbologia natalina?

Enquanto a maioria de nós entende o Natal como um feriado cristão que simboliza qualidades elevadas de caráter como solidariedade, compaixão, esperança, altruísmo etc; apesar de celebrado no mundo inteiro, o evento causa sentimentos controversos. Para uma parcela mais radical a data representa uma espécie de celebração do consumismo materialista e da ganância, banhado com uma calda de hipocrisia. Por outro lado, alguns entusiastas do Natal acreditam que manter uma criança crente na existência do Papai Noel é de certa forma uma crueldade, uma vez que mais tarde elas descobrirão que foram enganadas pelos seus próprios pais. E se perguntam, justamente, que, “se não queremos que elas mintam, porque mentimos para elas?”.

Temos também uma frente mais recente, oriunda da paranóia policiadora do politicamente correto, que também está em guerra contra o bom velinho, que vem sendo crucificado por “sua massa corpórea estar muito além do que recomendam os médicos” (!!),  ataque respaldado por uma manipulação de estatísticas que conclui que “Há uma correlação entre os países que mais veneram o Papai Noel e altos índices de obesidade infantil” (!!!).

Como tudo no mundo contemporâneo, é claro, o buraco é sempre mais embaixo.

“Então, por quê as pessoas levam pinheiros pra dentro de suas casas no solstício de inverno e colocam pacotes coloridos (vermelho e branco) ao redor de seu tronco, como presentes para demonstrar seu amor pelo próximo e como representações do amor de Deus e da dádiva da vida para seus filhos? É porque, embaixo do tronco do pinheiro é a localização exata onde se pode encontrar a mais sagrada substância, a Amanita Muscaria, na natureza.” – James Arthur, “Mushrooms and Mankind”

A Amanita Muscaria é o cogumelo vermelho de pintinhas brancas que habita nosso inconsciente coletivo e a literatura das fadas e do mundo da magia, e que cresce quase que exclusivamente em redes de micélios que coexistem simbioticamente com os pinheiros nos países nórdicos. Também conhecido como o “fungo voador”, seu igrediente ativo principal é o ‘muscimol,’ bem como traços de DMT, ou a “molécula do espírito”, um enteógeno que, de acordo como Dr. Rick Strassman, PHD e pesquisador especializado na molécula, possui fortes evidências de ser produzido pela glândula Pineal no cérebro humano.

“O próprio nome ‘Christmas’ é uma palavra composta de ‘Christ’ (Cristo, no sentido daquele que é embebido com a substância mágica’ e ‘Mass’ (Missa, o trabalho religioso ou cerimônia de ingestão da eucaristia sacramental, o Corpo de Cristo’). Na tradição católica, esta substância (corpo/soma) foi substituída pela doutrina da ‘transubstanciação’, em cujas cerimônias os padres clamam a habilidade de transformar uma bolachinha redonda (a hóstia) no Corpo de Cristo literal; ou seja, um susbtituto, ou placebo.” – James Arthur, “Mushrooms and Mankind”

Ao passo que a maioria de nós entende o Natal como um feriado cristão, ele tem suas origens em tempos mais remotos, das tradições xamânicas dos povos tribais do norte da Europa pré-cristianismo. Esses cogumelos eram usados pelos povos ancestrais para clarividência e experiências transcendentais. A maioria dos elementos da tradição natalina, como o Papai Noel, as árvores de Natal, as renas voadoras e a troca de presentes são baseadas nas tradições que envolviam a colheita e consumo desses cogumelos sagrados.

Os povos ancestrais da região, incluindo os Lapps da hoje Finlândia, e as tribos Koyak das estepes centrais da Rússia, acreditavam na idéia da “Árvore do Mundo”. A Árvore do Mundo era vista como uma espécie de eixo cósmico, no qual os planos do universo são afixados. As raízes da Árvore do Mundo se esticam pra dentro dos mundos inferiores, seu caule está na “Terra do meio”, da existência cotidiana, e seus galhos alcançam pra cima, em direção aos reinos dos céus. Para os povos ancestrais, esses cogumelos eram literalmente as “frutas da Árvore”.

A Estrela do Norte também era considerada sagrada, uma vez que, ao olho do observador, todas as outras estrelas rotacionavam em torno deste ponto fixo. Eles associavam esta “Estrela Polar” com a Árvore do Mundo e o eixo central do universo. O topo da Árvore do Mundo tocava a Estrela do Norte, e o espírito do xamã escalava a árvore metafórica, passando para o reino dos deuses. Este seria o significado original da estrela no topo da árvore de Natal moderna, e também o motivo pelo qual o “super-xamã” Papai Noel vive no Pólo Norte.

As analogias prosseguem. Um dos efeitos colaterais da ingestão da Amanita é sentido na pele, através de uma “vermelhidão” que pode ser percebida com mais facilidade nas extremidades do rosto. É por isso que o Papai Noel é sempre ilustrado com nariz e bochechas avermelhados. Até seu riso “Ho, ho, ho!” corresponde de certa forma ao riso eufórico daqueles que mergulham na indulgência com o fungo mágico.

Papai Noel também se veste como um coletor. Quando era tempo de sair para fazer a coleta dos cogumelos mágicos, os xamãs ancestrais da Sibéria vestiam-se de forma correlata, com casacos de pele e longas botas.

Os povos da região viviam em tendas feitas de madeira e pele de rena, chamadas “yurts”. A chaminé central dessas tendas era também usada de entrada, uma vez que o enorme volume de neve que se acumula no solo bloqueia uma entrada frontal. Após a colheita, os xamãs voltavam pra casa com seus sacos cheios nas costas. Ao adentrar as tendas dos habitantes destas tribos, eles presenteavam os mesmos com os frutos mágicos de sua colheita. Também não é coincidência que as renas que habitam estas regiões sejam grandes comedoras de cogumelos  Amanita, o “fungo voador”.

Ao compreendermos melhor as origens destas celebrações, nós podemos compreender melhor o mundo contemporâneo, e nosso lugar nele. Papai Noel não é uma mentira, e o verdadeiro espírito do Natal não reside na troca de brinquedos de plástico, mas na celebração de um presente da terra: o enteógeno, a planta ou substância capaz de gerar o “Deus interior” e as experiências reveladoras e visionárias que dele podemos extrair, que no fundo remetem ao grande denominador comum entre todos nós: o amor e a comunhão.

Nós do Plantando Consciência desejamos um Feliz Natal a todos, e um 2011 repleto de visões, frutífero para o despertar!

Saiba mais:

http://www.plantandoconsciencia.org/pharma.htm

Livros (em ingles):

– Mushrooms and Mankind, de James Arthur
– Soma: Divine Mushroom of Immortality, de Gordon Wasson
– Mushrooms, Poisons and Panaceas, de Denis R. Benjamin
Astrotheology and Shamanism:  Christianity’s Pagan Roots
A Revolutionary Reinterpretation of the Evidence
, de Jan Irvin e Andrew Rutajit
The Sacred Mushroom and the Cross, de John Marco Allegro

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Convite para o lançamento do livro “2012, O Ano da Profecia Maia”, de Daniel Pinchbeck

Neste fim de semana (11 e 12 de Dezembro) o pessoal da Editora independente Anadarco lança o best-seller de Daniel Pinchbeck em aguardada tradução para o português. O livro de Pinchbeck inspirou o documentário de João Amorim “2012 Tempo de Mudança” que passamos em primeira mão em Outubro (e agora em Dezembro estreamos o documentário Cortina de Fumaça na Matilha Cultural) e virou referência entre um corpo crescente de avatares da nova consciência no mundo de língua inglesa. É mais do que bem vinda a tradução de seu livro para o português: ela é necessária.

Intitulado aqui como “2012, o Ano da Profecia Maia” (seguindo o nome do livro em terras britânicas), o título original americano poderia ser lido como  “2012 – O Retorno de Quetzalcoatl”, e se refere à divindade mesoamericana, também conhecida como a “Serpente Emplumada” (simbologia que unifica opostos: serpente e pássaro, céu e inferno, luz e escuridão, espírito e matéria), que, diz a profecia, voltará para resgatar a humanidade da destruição. Longe de ser um livro apocalíptico, como podem dar a entender ambos os títulos, o livro de Pinchbeck joga luz sobre essa e outras metáforas que caem tão bem nos tempos contemporâneos, nesta turbulenta passagem de milênio, de era, de paradigmas. De acordo com o estudioso Maia José Argüelles, Quetzalcoatl parecia ser “não apenas um deus, mas múltiplos deuses; não apenas um homem, mas muitos homens, não apenas uma religião, mas . . . uma estrutura mental”.

A milhas de distância da (quase sempre oportunista) literatura apocalíptica, esotérica, de auto-ajuda e afins, que inevitavelmente pende para a prosa excessivamente otimista e tomada por uma fé inabalável, na maioria das vezes irritante (é possível levar a sério alguém que nunca desconfiou, nunca duvidou, nunca questionou? Será humana tamanha perfeição?), o livro de Pinchbeck mergulha a fundo numa busca muito bem fundamentada (o livro contém mais de 170 citações e referências bibliográficas) por erguer as cortinas ideológicas de nossa era e revelar verdades e conhecimentos mais profundos que nos foram obliterados por séculos de doutrina materialista-científica. E ao contrário do tom deslumbrado que permeia a maior parte dos textos esotéricos, a obra de Pinchbeck nos desvenda outros mundos a partir do prisma de um intelectual ateu, cético por princípio, que vê as verdades que lhe foram ensinadas ao longo da vida sendo desmoronadas empiricamente, ao mergulhar no universo dos enteógenos, da busca por si mesmo e de conhecimentos ancestrais esquecidos ou diluídos para consumo.

O staff da Anadarco trata a jornada para trazer este livro para o Brasil como um projeto diferenciado para quem deseja agir diferente do atual estilo de vida. “Mas o que é agir diferente? É sair do estado de conforto, repensar a lógica do consumismo, atuar na preservação do meio ambiente e dar margens a outras interpretações além da racional. Enfim, um convite para enxergar o mundo com outros olhos”, segundo a editora Karin Thrall.

Serviço:

Open House | Open Books | Open Mind ANADARCO
11 de dezembro – das 13h às 21h
12 de dezembro – das 13h às 19h
Rua Oscar Freire, 329 – cj. 71
Drinks e petiscos naturais | lounge music | celebração e networking

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As aventuras mágicas de Richard Dawkins

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E agora, doutor?

“Toda verdade passa por três estágios. Primeiro, ela é ridicularizada. Depois, é violentamente refutada. E num terceiro momento, ela é aceita como sendo auto-evidente“ – Arthur Schopenhauer

Educado numa família cuja única fé é na ciência, cresci entendendo que um dos pilares que sustentam a nossa civilização é a medicina moderna. Se o mundo é atormentado por guerras, violência, epidemias, dor e morte… a medicina é o antídoto e o equilíbrio para todo esse sofrimento. No meu olhar de classe média intelectualizada, todo aquele papo sobre “energias” e curas espirituais não passava de um truque psicológico pra faturar em cima de frágil crença do pobre cidadão sem educação. Energia, segundo aprendi em casa, é o que acende as lâmpadas.

Então o tempo foi passando e o caminho que as coisas tomaram não foi exatamente aquele previsto pela milagrosa sociedade capitalista científico-tecnológica, aquela que venceu a barbárie das doenças infecciosas e rituais supersticiosos. O mundo não melhorou, e curiosamente as únicas pílulas que parecem ter deixado as pessoas mais felizes são consideradas “schedule I” (a lista 1 de substâncias proibidas) de acordo com os preceitos do FDA. E não se pode comprar ecstasy na farmácia, nem mesmo com prescrição médica. Então ‘bora pros ansiolíticos e antidepressivos, as drogas da vez da sociedade moderna.

Eu não conheço ninguém que não conheça alguém que toma antidepressivos, estabilizadores de humor, calmantes ou outros da mesma sorte. Curiosamente, as pessoas que eu conheço que incluíram estes medicamentos na sua dieta são os mais bem sucedidos do ponto de vista do capitalismo: a grande maioria está “bem empregada” e conquistou uma posição financeira capaz de promover segurança e conforto. Todos estão comprando apartamentos, tem Wii com Rock Band em casa, e carros de valor cotado acima das três dezenas de milhar, pra ficar no mínimo denominador comum.

Por outro lado, riquezas acumuladas ao longo de uma vida inteira são gastas em um punhado de anos com medicamentos, médicos, enfermeiras e internações hospitalares naqueles que têm que encarar um câncer, parkinson, alzheimer e tantas outras doenças degenerativas que afetam muitos de nossos idosos (e outros nem tão idosos assim).

As pessoas “chegaram lá”, mas não encontraram a felicidade, ou a plenitude. E a medicina moderna não preencheu este vazio. Pelo contrário, Michael Jackson, Brittany Murphy e Heath Ledger têm em comum o fato de terem inaugurado a era das celebridades que morrem por overdose de remédios prescritos. O mundo moderno está em crise de consciência, e consequentemente de saúde. Crise aliás, é o termo se tornou a definição por excelência dos nossos tempos, não é?

E agora, como sair dessa? Olhe em volta. Que alternativas você consegue encontrar? Veja o modelo espiritualizado da física quântica, o olhar simbiótico da permacultura, o debate inevitável acerca da falência da guerra às drogas, a popularização da yoga, a falência moral do sistema monetário… a impressão pra quem pega o bonde andando é que voltamos aos anos 60.

E é mais ou menos isso mesmo. Como colocado no filme de João Amorim, 2012 Tempo de Mudança, existe uma idéia errônea de que os anos 60 “fracassaram”, quando na verdade as mudanças compulsórias de hábitos que estão marcando a nossa época são herança direta daquele período, pioneiro em diversas áreas como a yoga, comida orgânica, feminismo, vanguarda artística, liberação sexual, psicodelia e assim por diante.

Dentre as áreas que hoje resgatam a tradição dos anos 60 e merecem nossa atenção, uma das mais fundamentais é a  medicina. Vamos ser honestos. Os hospitais públicos estão sobrecarregados. Os hospitais privados e laboratórios de exame emergem imponentes na paisagem urbana como templos luxuosos, que oferecem mais mimos e distrações do que cura propriamente, quem já teve um parente internado sabe bem disso.

Fora dos hospitais a realidade não é muito diferente. A grande maioria das consultas médicas são motivadas primeiramente por distúrbios psicossomáticos. Segundo o professor de medicina e psiquiatria da New York Medical College PJ Rosch, 70 a 90% das visitas a consultórios médicos nos EUA são relacionadas ao estresse, que leva os americanos a consumirem 5 bilhões de tranquilizantes todo ano.

Na verdade, as pessoas acreditam no que querem acreditar e não acreditam naquilo que não querem acreditar, independentemente dos fatos e evidências” – Dr. Andrew Weil

O buraco é ainda mais embaixo. Cansados de ver milhões de vidas sendo ceifadas em nome de doenças misteriosas como o câncer e a AIDS, que mesmo após mais de um século de progresso científico-tecnológico e do desenvolvimento da medicina moderna não conseguem ser completamente explicadas ou tratadas, alguns heróis de espírito investigativo começaram a colocar em cheque estes paradigmas antes inquestionáveis. Os documentários A Casa dos Números, sobre a AIDS, e Uma Linda Verdade, sobre o Câncer, partem de perguntas tão óbvias que é como se tivéssemos esquecido de nos perguntar.

Para aqueles que desconfiam de “teorias da conspiração” e gostam de números e fontes confiáveis, basta navegar pelo site da Organização Mundial de Saúde. Enquanto que, em 1995, o relatório anual da OMS apontava a pobreza como principal barreira para o desenvolvimento da saúde no mundo, numa sociedade aparentemente saudável com excessão dos rincões de miséria, em 2008, o mesmo relatório já mudava de tom, apontando que “condições injustas de acesso à saúde, custos empobrecedores e a erosão da confiança no sistema de saúde constituem uma grande ameaça para a estabilidade social”, pedindo um “retorno a uma abordagem mais holística da saúde”.

A questão é simples: desde que a ciência dos comprimidos e da medicina alopática  monopolizou a promessa de cura, a sociedade não se tornou mais saudável. Pelo contrário, estamos na verdade mais doentes do que no passado.

A equação não é difícil de entender. A natureza corporativa da indústria farmacêutica, voraz pelo lucro em larga escala, faz com que ela só tenha olhos para drogas de “alívio imediato” (que tendem apenas a eliminar temporariamente os sintomas, ao invés de combater o problema pela raíz, forçando o uso recorrente) e desta forma inibem quaisquer tentativas de tratamento que não implique no uso dos remédios ou tratamentos alopáticos que a sustetam.

Eis então uma verdadeira pandemia: nomes imponentes como Transtorno Obssessivo Compulsivo, Transtorno Bipolar, Síndrome do Pânico e Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade tiram do paciente a responsabilidade pela sua própria situação, que é entregue aos “milagrosos” coquetéis químicos da medicina moderna, e com isso nomes como Frontal, Prozac, Ritalina, Lexotan, Rivotril entre tantos outros, são hoje tão populares quanto as dos fabricantes de celulares. Estou exagerando? Então confira esta grife esperta que lançou objetos de decoração inspirados nestes novos ícones da cultura pop.

Esta mesma indústria farmacêutica se baseia na confiança oferecida pela ciência para desmoralizar tratamentos alternativos, que geralmente são tachados de ineficazes por não terem validação científica ou até mesmo por serem inacessíveis ao método científico experimental, como a homeopatia, fitoterapia, acupuntura, aromaterapia, ayurveda, reiki e assim por diante.

“Construímos um sistema médico em que o ato de enganar não é apenas tolerado, mas recompensado”, afirmou em entrevista à Folha de São Paulo o médico Carl Elliot, professor de bioética e filosofia na Universidade de Minnesota e autor do livro “White Coat, Black Hat -Adventures on the Dark Side of Medicine” (Jaleco Branco, Chapéu Preto: Aventuras no Lado Negro da Medicina), uma viagem aterrorizante pelas falcatruas e o poder exercido pela indústria farmacêutica, que escapou a todo controle em nome do lucro. “O problema hoje é que temos um sistema de desenvolvimento de drogas orientado para o mercado e não para as coisas que as pessoas doentes precisam”, nos lembra o médico americano.

Mas uma verdade fabricada não consegue se sustentar somente em números por muito tempo. Como demonstrado nos documentários mencionados anteriormente, as mortes dolorosas de pacientes de AIDS pelo uso de tóxicos pesados como o AZT, ou de pacientes de câncer pela quimioterapia (que no fundo é um ataque irrestrito ao organismo, já que mata células indiscriminadamente, e não apenas as cancerígenas), rivalizam com as mortes provocadas pelas próprias doenças sem tratamento algum. Se é que elas são o que nós pensamos que fossem.

E os dados foram lançados. A medicina alternativa ganha espaço em meio a esta crise de controle pela nossa fidelidade. Por um lado, vemos o crescimento do uso medicinal das plantas de poder por xamãs urbanos, ou o debate acerca das propriedades medicinais da maconha ganhar atenção da mídia, por outro, novas práticas medicinais que se propõem a resgatar elementos da cultura oriental e de conhecimentos espirituais começam a penetrar nas classes mais intelectualizadas. O Plantando Consciência está acompanhando esta briga de perto, e aproveitamos para indicar dois workshops que acontecem em Novembro que devem ajudar a fomentar esta reflexão.

O primeiro, Desenvolvimento Humano Multidimensional, que acontece agora no dia 12 de Novembro, com o Dr. Fernando Bignardi, trabalha a saúde através da abordagem quântica do físico Amit Goswami. Bignardi é formado pela Escola Paulista de Medicina (EPM-UNIFESP); pós-graduado em Homeopatia, Psicoterapia, Medicina Comportamental, Biologia, Ecologia e Geriatria/Gerontologia; e é um dos defensores de que o estilo de vida da cultura ocidental contemporânea é o principal fator de doenças crônicas como a depressão, hipertensão arterial e diabetes, propondo que adotemos o modelo quântico de ser humano na questão da cura. Assista à entrevista do Dr. Fernando Bignardi para o Globo Repórter (exibida em 08/10/2010)

O segundo, Workshop de Introdução à Sintergética, nome que pode ser desmembrado em “Síntese das Energias”, acontece nos dias 20 e 21 e apresenta, através da chilena Daniela Blazquez, psicóloga residente na Austrália, uma medicina integralista que propõe uma visão holística baseada nos conhecimentos ancestrais da ayurveda, medicina chinesa, xamanismo e geometria sagrada.

O importante em ambos os casos é abrirmos nossa receptividade ao novo, ao invés de categorizarmos o que desconhecemos com uma etiqueta, motivados pelo preconceito. Olhe para si e para as pessoas ao seu redor e você também irá perceber que não é mais possível viver um mundo dualista, que promove a distinção entre a medicina “de verdade” e as “baboseiras new age”. A sociedade está doente, o planeta está doente, e aqueles modelos que tínhamos como solução estão falhando. Dê uma chance para romper com alguns paradigmas envelhecidos e talvez você descubra que, ao invés de um gigantesco iceberg no qual colidimos sem saber antecipar, como o Titanic, existe uma maravilhosa oportunidade que se abre para um mundo de saúde e de possibilidades infinitas.

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Diversão com cogumelos

A criação da consciência moderna ocidental trouxe consigo uma repressão violenta de nossa herança arcaica. Esta herança incluia a habilidade de explorar reinos mágicos e sagrados através  da ocorrência espontânea de estados de êxtase, de rituais de iniciação ou por meio de compostos visionários encontrados em certas plantas. Por muitos milhares de anos, o conhecimento direto do sagrado era uma parte natural e universal da existência humana, como ainda permanece em culturas tribais. Com a ascensão do Estado moderno e da Igreja, a interação com realidades místicas foi alienada das massas e explicitamente demonizada. A comunhão com o sagrado foi reservada para os padres. Durante a Santa Inquisição, danças sagradas com os espíritos da natureza ou contatos com as almas dos mortos tornaram-se heresias. A punição para estes crimes era severa.

O processo dialético que criou o pensamento possessivo do capitalista e a aparência racional do tecnocrata demandaram a destruição de vestígios de crenças pré-modernas animísticas e comunais, estivessem estas crenças em populações isoladas da Europa ou em populações indígenas do Novo Mundo. Esta destruição era parte do processo que Karl Marx descreveu como a alienação de todos os nossos sentidos físicos e intelectuais em apenas um: o sentido da posse. Claro, o “sentido da posse” não é realmente um sentido – é uma ilusão de realização pessoal que parece se estender para fora do ego.

A modernidade causou uma mudança dramática na maneira como usamos nossos sentidos. Em seu livro Myth and Meaning (Mito e Significado), Lévi-Strauss admitiu seu choque inicial quando descobriu que tribos indígenas eram capazes de ver o planeta Vênus durante o dia, a olho nu – “algo que para mim seria absurdamente impossível e incrível.” Mas ele aprendeu com astrônomos que era de fato possível e encontrou relatos antigos de navegadores ocidentais com a mesma habilidade. “Hoje usamos menos os sentidos e usamos mais de nossa capacidade mental do que no passado”, concluiu. Nós sacrificamos capacidades perceptuais por outras habilidades mentais – nos concentrar numa tela de computador enquanto sentados num cubículo por muitas horas seguidas (algo que aqueles indígenas achariam “absurdamente impossível e incrível”), ou desligar múltiplos níveis de consciência enquanto dirigimos um carro no trânsito pesado. Em outras palavras, somos criados em um sistema que nos ensina a postergar, retardar e eliminar a maioria das informações sensoriais em favor de uma futura recompensa. Nós vivemos em um ciclo de retroalimentação de atraso da recompensa perpétuo. Quase sempre, nem ao menos temos noção do que é que perdemos.

Pessoalmente, eu não tinha consciência do que estava perdendo até que comi cogumelos. Durante estas viagens iniciais eu descobri que estava preso num estado de postergação da expectativa e um compulsório distanciamento de mim mesmo. Eu tinha o hábito neurótico de um intelectual constantemente tentando observar a mim mesmo de algum ponto imaginário e objetivo fora de mim, e esse caminho impossível drenou minha energia e impossibilitou conectar-me com o presente. Cogumelos não me curaram disso – por um longo tempo apenas o álcool podia obliterar a divisão, e levei anos para solucionar o problema – mas os pedaços de cogumelos desidratados me fizeram perceber, pela primeira vez, exatamente o que eu estava fazendo errado.

A consciência moderna está desperta para o materialismo, para o incorpóreo  “sentido de ter”, para a visão mecanicista de mundo e o método científico de observação empírica. Sua antítese é a mente arcaica, viva para o mundo dos sentidos, em contato íntimo com o sagrado como ele é revelado pelo mundo natural, através de sonhos e visões. Para este tipo de consciência, Henry Miller descreveu que “O objetivo da vida não é possuir, mas irradiar”.

Há uma rachadura cultural entre o foco no cérebro, o hardware material no qual a consciência opera, e o estudo da mente, o nexo incorpóreo de tudo que experienciamos. A ciência ocidental estuda obsessivamente os mecanismos “objetivos” do cérebro, as vias de seus neurônios e suas densas florestas de sinapses, sem compreender a natureza da consciência. O xamanismo arcaico é uma tecnologia para explorar a verdade “subjetiva” da mente através de processos visionários, sonhos, mitos e interação com a natureza. De acordo com a psiquiatria atual, doenças mentais têm causas físicas que podem ser tratadas, até certo ponto, com medicamentos adequados. Na perspectiva xamânica, não apenas desordens mentais mas também as físicas têm causas não físicas – espirituais – que devem ser abordadas para uma cura efetiva.

As plantas visionárias são os espíritos guia de culturas ancestrais. Elas são sagradas porque despertam a mente para outros níveis de consciência. São um portal para um universo espiritual, ou multidimensional. No mundo moderno as substâncias derivadas destas plantas continuam a ser demonizadas, ridicularizadas e sobretudo suprimidas. No início dos anos 60, quando um entrevistador reduziu a fascinação de Aldous Huxley com os psicodélicos a uma “diversão com cogumelos”, Huxley respondeu em termos fortes: “O que é melhor, ter diversão com cogumelos ou idiotização com ideologia, ter guerras por causa de palavras, ter as leis de amanhã baseadas nas crenças de ontem?

Este racha cultural permanece uma divisão profunda. Enquanto escrevo isso, drogas psicodélicas foram novamente desmerecidas como “brinquedos da geração hippie” na seção científica do New York Times. Parece que nenhum jornal ou revista, sério ou de grande circulação,  possa publicar um artigo sobre alucinógenos sem ridicularizá-los de alguma forma.* Psicodélicos, catalisadores químicos de mundos interiores supremos, permanecem banidos e mal entendidos porque ocupam um ponto de contradição direta e possível síntese entre o materialismo baseado no cérebro e o xamanismo orientado espiritualmente.

A exploração e estudo não enviesado destas moléculas expansoras da mente – um legado da pesquisa científica e psicológica dos anos 50 interrompido pela forte histeria dos anos 60 – é um caminho para unificar estas abordagens opostas sobre a natureza da realidade.

Talvez seja o único caminho.

Daniel Pinchbeck, “Breaking Open the Head”, capítulo 9 (2002), também autor de “2012 – O Ano da Profecia Maia”, livros inspiradores do documentário “2012 – Tempo de Mudança”, com sessão última nesta sexta-feira, dia 15/10 as 20:00 na Cinemateca Brasileira (Largo Senador Raul Cardoso, 207 – Vila Clementino – São Paulo).

* Entre a publicação do livro e esta tradução muito mudou referente ao que diz este parágrafo, ao menos pra quem segue de perto os avanços da área. Por outro lado, pouco mudou no (in)consciente coletivo da população em geral.

Traduzido e ilustrado por PC.

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Tudo Azul

Manipulado pela mídia? Vá ao cinema

Obs. (05/04/2010): O texto abaixo foi publicado antes do assassinato do cartunista Glauco. No entanto o conteúdo não perde a atualidade. Basta substituir a parte que fala da matéria da Isto É pelas matérias de capa da Veja ou da Época para o caso, ou os programas da TV Record, que a conclusão é a mesma.

Uma foto de um homem de olhos fechados e cabeça para o alto, erguendo uma taça em tom de reverência cerimonial, semelhante à missa católica, com os dizeres em tom sensacionalista “Santo Daime Liberado” estampou a capa da revista Isto É do início do mês. Apesar do enfoque religioso, o fato de a ayahuasca conquistar a mídia soa, a princípio, como uma notícia potencialmente revolucionária! Mas a esperança de um jardineiro de consciência foi pisoteada pela obtusa ignorância do interesse político. Não era preciso nem ler a reportagem em questão pra saber qual o tom da matéria. Bastou acompanhar a chamada da capa: “O governo autoriza o uso do chá alucinógeno em rituais religiosos, mesmo com casos de morte após o seu consumo. A medida abre um novo e perigoso precedente na discussão sobre a legalização das drogas”.

Incluir uma bebida de origem indígena e uso milenar na categoria “droga” é, no mínimo, uma metonímia vulgar . Mesmo assim, vamos pressupor que o leitor desconheça o assunto, que de fato é delicado. A reportagem pouco esclarece do que se trata a ayahuasca, que é comumente confundida – inclusive pela própria reportagem – por “Santo Daime”. Santo Daime é uma religião cristã, que assim como a UDV (União do Vegetal) e outras, difere das religiões cristãs comuns por fazer o uso da bebida enteógena em suas cerimônias. Caso você esteja se perguntando o que quer dizer “enteógena”, eu explico: a palavra vem do grego (en- = dentro/interno, -theo- = deus/divindade, -genos = gerador),  e se traduz em algo como “manifestação interior do divino”.

Comumente tratada como “alucinógeno” (pela Isto É inclusive), um termo pejorativo e que não traduz os efeitos do enteógeno com clareza, a ayahuasca é uma bebida fermentada resultante da mistura de um cipó e um arbusto nativos da Amazônia, utilizada por incontáveis etnias indígenas por milênios em rituais de cura, divinação e comunicação com o mundo espiritual.

Para nós, além do uso religioso abordado pela reportagem, a bebida é tomada cerimonialmente para limpar os corpos físico e energético, abrir a cabeça para realidades ocultas e destravar um potencial outrora intangível. Seu potencial meditativo e medicinal é imensurável. Ao contrário da medicina profissional, que se vê como ciência, busca uma solução única e trata os pacientes como corpos, a medicina dos curandeiros é a arte de se tratar a alma, e procura entender a doença dentro de uma perspectiva holística: como resultado do desequilíbrio de um todo indivisível (físico, psicológico e psíquico), que não pode ser explicada ou tratada pelos componentes distintos separadamente. É aí que entra a ayahuasca, um produto complexo, designado para um tratamento complexo.

As campanhas de terror contra as drogas fazem parte de uma guerra que já foi perdida. Após mais de meio século de repressão sem resultados, já devia estar claro na cabeça de todo cidadão que a descriminalização é a única solução para o problema do tráfico e do crime. Mas, aparentemente, nem a adesão do ex-presidente FHC e sua Comissão Latino Americana sobre Drogas e Democracia conseguiu acordar o corpo editorial da revista para o mundo real. A Isto É (que na internet usa o subtítulo  “Independente” mas é apenas um dos braços políticos de uma corporação, diga-se de passagem) parece ter permanecido no século vinte, ou pior, nos tempos de ditadura militar, quando o desconhecido era visto como ameaça (e não como oportunidade) e a censura era adepta da filosofia do “atire antes, pergunte depois”.

Anacrônicos, ou manipuladores (ou ambos), jornalistas desta estirpe cometem um crime ao tratarem uma questão de consciência como questão de polícia. Ao invés de iluminarem uma questão social séria, trabalham para ocultar e banalizar a informação. Em contrapartida, o interesse científico, documental¹ e social pela ayahuasca no mundo desenvolvido não para de crescer.

Meanwhile, back in the jungle…

Vítimas de overdose. De drogas prescritas

No que diz respeito aos casos de morte supostamente provocados pela ingestão de ayahuasca, a própria reportagem admite que não foram comprovados. Um rapaz morreu afogado porque não sabia nadar. O outro sofria de uma doença degenerativa do coração. Casos como estes são comumente usados como bodes expiatórios quando se procura incriminar alguma substância. No entanto, todos os anos mais pessoas morrem da ingestão de drogas prescritas do que de drogas ilegais, numa proporção de 5 pra 1 (só nos EUA  são mais de 100 mil mortes e 1,5 milhão de hospitalizações por ano). E casos recentes como o do ator Heath Ledger, Michael Jackson e a atriz Brittany Murphy não entram em reportagens alarmistas, porque este tipo de notícia não interessa ao onipresente conglomerado farmacêutico. Assim como Marilyn Monroe, Jimi Hendrix, Bruce Lee, Keith Moon e Anna Nicole Smith, entre tantos, estas celebridades não morreram de overdose de drogas (no sentido pejorativo), mas morreram de overdose de remédios, disponíveis no balcão da farmácia mais próxima. Então quem é o vilão? Uma dúzia de substâncias listadas pela FDA, ou o desequilíbrio psíquico-físico-psicológico que leva pessoas a buscarem a solução de seus problemas em dosagens extremas de “pílulas da felicidade” ou qualquer outro produto em excesso (álcool, açúcar, gordura, tabaco, processados… faça a sua escolha)?

O que deve ser considerado em relação à ayahuasca é que de fato a bebida tem efeitos fortes sob o corpo (provoca vômitos e diarréias – como formas de se expelir a doença ou problema tratado), e pode provocar efeitos colaterais ao ser misturada com drogas farmacológicas, principalmente antidepressivos, mas também tranquilizantes, antihistamínicos, anfetaminas etc. Além de não ser exatamente o tipo de droga recreativa para um adolescente. A ayahuasca é uma medicina milenar e só deve ser ingerida sob tutela de um xamã, curandeiro ou guia espiritual.

Mas o governo deu um passo adiante. Então estamos avançando no final das contas. Resta a pergunta: quem lê esta revista afinal? Mais do que isso: quem a leva a sério? Talvez alguns milhares de pessoas. Mas é uma porcentagem ridícula se compararmos com a quantidade de pessoas, não apenas no Brasil, mas no mundo todo, que assistiram ou irão assistir ao filme Avatar.

Musa sagrada

Se você ainda não assistiu Avatar, você deve estar em outro planeta. O longa em 3D que levou 14 anos pra ficar pronto é mais do que “entretenimento de primeira”, ou o novo recorde de bilheteria de todos os tempos. É uma revolução na consciência, um manifesto tão anti-tecnológico e anti-civilizatório quanto os livros do anarquista John Zerzan (entrevistados no filme Surplus, disponível no nosso site), tão psicodélico quanto as dissertações de Terence Mckenna, e, sim, glorificando a visão de mundo indígena e xamânica acima de tudo. O que nos traz de volta à ayahuasca, a grande vilã da revista Isto É.

Fico imaginando o jornalista que assinou a reportagem, que obviamente nunca experimentou a bebida, numa sala de cinema Imax, completamente absorvido pela experiência psicodélica que o filme de Cameron proporciona, sem perceber que a “árvore dos espíritos” que conecta o povo Na’vi com Eywa, a sabedoria dos ancestrais – e representa o núcleo de uma floresta que “tem mais conexões que o cérebro humano” (frase da cientista botânica interpretada por Sigourney Weaver, mas que bem poderia ser atribuída a McKenna) -, trata-se de uma analogia com o “cipó dos espíritos” que ele acaba de condenar em público. Outra personagem do reino vegetal no filme, a gigantesca árvore que serve de lar para o povo de pele azul, tem em seu centro oco uma estrutura de raízes que sobe em espiral, como uma escada, em forma de hélice dupla, o formato do DNA e – pasmem – também o formato do cipó mariri, uma das metades que compõe a temida bebida “alucinógena” (ainda sobre o DNA, Francis Crick, Prêmio Nobel e descobridor do “segredo da vida”, era usuário assumido de LSD para “pensar criativamente”. Kary Mullis, Nobel de Química em 1993 por inventar o PCR, o método mais comum de se detectar e trabalhar o DNA, coroou a questão: “Se eu teria inventado o PCR se não tivesse tomado LSD? Duvido.“).

De qualquer forma, como diz o jornalista israelense Ido Hartogsohn num ótimo artigo sobre o filme (em inglês), “os blockbusters e filmes de ficção científica funcionam como uma sombra jungiana de nossa visão racional e materialista da realidade” (Jung alertava que o mundo moderno conta em demasiado com a ciência natural e o positivismo lógico, e que poderia se beneficiar ao integrar espiritualidade e apreciação de domínios inconscientes). Por esta perspectiva, o texto terrorista, repleto de positivismo lógico simplista e pseudo-ciência cartesiana como “atua nos sistemas cerebrais reguladores da produção e absorção, pelos neurônios, de serotonina, dopamina e noradrenalina” (tentando colocar o mundo numa caixinha, ou reduzir as cores a uma lógica em preto e branco) serve apenas como um retrato de que ainda temos um longo caminho a percorrer para evoluir o nível do debate científico na mídia deste país.

trecho de obra do pintor ayahuasqueiro Pablo Amaringo e o mundo bioluminescente de Avatar

Enquanto isso, Cameron conquista o mundo. O diretor disse em entrevista que queria fazer um novo Guerra nas Estrelas. Mas pouca gente captou a mensagem nas entrelinhas. Ele não queria apenas produzir um clássico universal de ficção científica, ou um blockbuster lendário. Era mais do que isso. Era provocar uma revolução de paradigmas pelo inconsciente. A mística que se forma em torno destes filmes não gira apenas em sua eficiência como entretenimento, mas por serem veículos de expressão dos nossos “sombras jungianas”, abusando de referências culturais e arquétipos do mito primordial (“Os mitos estão perto do inconsciente coletivo e por isso são infinitos na sua revelação” – Joseph Campbell), além de interesses contemporâneos, como o movimento ecológico, a guerra pelo petróleo, o poder das grandes corporações etc.

A “força” dos filmes de George Lucas não é muito diferente de Eywa, que não é muito diferente da visão indígena sobre a natureza. E o fato do mestre jedi se chamar Yoda, que lembra Yoga, também não é coincidência. Assim como o fato de os Na’vi terem uma feição humana-felina (os gatos são considerados animais altamente espirituais) e pele azul (já ouviu falar nas crianças índigo?), também não ser à toa. Apesar de supostamente terem sido inspiradas em montanhas da província de Hunan, na China, para quem já foi à cidade sagrada de Machu Picchu e subiu a montanha de madrugada, antes do sol nascer (prática comum entre mochileiros), sabe que a visão grandiosa que se tem lá de cima, com os picos ao redor emergindo por cima das nuvens e da neblina da manhã, lembra muito as montanhas flutuantes de Avatar. Realidade e ficção se misturam.

o cipó Banisteriopsis Caapi e a casa-árvore dos Na'vi, cujo interior se entrelaça em formato de hélice dupla

O pressuposto básico do filme, o de se poder migrar entre realidades distintas, é lugar comum entre adeptos do uso de enteógenos (o túnel luminoso psicodélico que leva o personagem de Jake Sully ao corpo de seu Avatar ilustra esta passagem). Parafraseando uma entrevistada do filme Vine of the Souls, de Richard Meech (ainda em produção), “Uma coisa é intelectualizar algo. Outra completamente diferente é tocá-lo, e experimentar outras energias maiores que são inteligentes”. O coração espiritual da história de Avatar está na relação dos nativos com uma planta/árvore sagrada, que representa Eywa, a entidade mística inteligente, divina, ou “uma rede de energia que flui por todos os seres vivos”. Eywa. Aya. Gaia.

Ayahuasca.

Documentários de interesse sobre o tema:

DMT – The Spirit Molecule, de Mitch Schultz e Rick Strassman, 2010 (em produção),

A Perfect Pill, de Oliver Hockenhull e Mark Archbar (“A Corporação”), 2010 (em produção),

Vine of the Soul, de Richard Meech, 2010 (em produção),

Manifesting the Mind, de Andrew Rutajit, 2009,

A Inquisição farmacrática, de Jan Irvin e Andrew Rutajit, 2007,

Xamãs da Amazônia, de Dean Jefferys, 2002,

Outros Mundos, de Jan Kounen, 2000.

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