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Tropa de choque pra que?

  “It is organized violence at the top which creates individual violence at the bottom” Emma Goldman

Aconteceu de novo. Cidadãos na rua de uma grande cidade brasileira, exercendo algo que deveria ser comum, tranquilo e desejável, que é fundamental pra democracia: sair na rua pra protestar, se expressar, aprender, conviver e participar da evolução da sociedade. Quase qualquer causa vale. Tá na constituição. Menos, é claro (também tá na constituição), defender atos de maldade a terceiros (inclui atos de racismo e ódio, por exemplo) ou pra impedir evento previamente marcado pro mesmo local e hora. Não deveria ser complicado. Mas complicaram, e muito. Até que no ano passado o STF deixou bem claro que o que tá na constituição tá, digamos assim, na constituição, oras. Então tem que ser respeitado. É um dos paradoxos do Brasil. Nossa democracia é ainda tão infantil que teve de chegar na instância jurídica suprema pra esclarecerem o que está no texto base da sociedade brasileira.

            A democracia tem na sua estrutura central a coexistência de idéias diversas e antagônicas. Alguns são ateus, outros religiosos, e precisamos conviver em paz. Não há outra maneira. Enquanto imaginarmos que de alguma forma teremos paz somente ao aniquilar ou eliminar o diferente, teremos apenas violência. A fabulosa história de Gandhi não deixa dúvidas. Vítima da segregação racial na África do Sul do apartheid, o simples advogado Mohandas Gandhi se tornou, anos após em sua terra natal, a Índia, Mahatma Gandhi. O homem que tecia sua própria roupa, fazia greves de fome e derrubou o longo e violento domínio do império britânico por aquelas terras.

            A estratégia: deixar claro para o mundo as atrocidades cometidas na colônia pelos colonizadores. Atrocidades tão grotescas que qualquer cristão, hindu, muçulmano ou ateu não poderia defender, porque eram simplesmente desumanas. Vão contra qualquer escritura, código de ética ou mesmo contra o bom senso e a compaixão. Atitudes covardes, cruéis e desnecessárias. Gandhi foi preso inúmeras vezes e apanhou outras tantas. Seus adeptos idem. Algumas cenas chocantes podem ser vistas no clássico de 1982. Apesar de bem feito, o filme dá apenas uma pálida sensação do que foi de fato a execução persistente do insight ativista de Gandhi. O império estava podre, e restava escancarar isso para o mundo. Deixá-los com vergonha, fazer com que o sofrimento pelos próprios atos de violência infligidos a terceiros os fizessem despertar. Porque se houvesse confronto, os indianos sempre sairiam perdendo. Tanto nas ruas, quanto na mídia.

            O desafio: não reagir. Ahimsa: Não-violência. Não devolver um único golpe. Não sujar as próprias mãos com a sujeira que se quer limpar. Foi penoso. Levou décadas. Mas funcionou. O império se foi. E Gandhi ensinou pra humanidade um bocado sobre o que é paz e como chegar lá.

            No Brasil, temos uma das polícias mais violentas do mundo. Além de matar milhares todos os anos, morre um escabroso número de policiais, muitos sob o pretexto da já falida guerra contra as drogas (qual guerra é bem sucedida, aliás??). A polícia no Brasil é demasiadamente violenta, abusiva e oprime milhões. Atropela direitos humanos e rompe com a paz social, tantas vezes em ações desnecessárias e absurdas. E como na história de Gandhi, sempre há um pretexto, um bode expiatório pra justificar a atrocidade da vez. Mesmo que patéticas, essas desculpas esfarrapadas servem pra manter, dentro dos limites estabelecidos por leis tortas, os perpretadores como inocentes, como apenas reagindo a atos dos “bárbaros” para trazer a “ordem”. Palavra, aliás, que estampa nossa bandeira…

            No Rio de Janeiro, final de tarde de sábado de lua cheia, 05 de maio de 2012, militares fortemente armados e truculentos partiram pra cima de uma população (variavelmente estimada entre 2 e 10 mil pessoas) pacífica e desarmada (pré-requisito para exercer o direito constitucional que estavam exercendo), com brutal violência e covardia. Os pretextos são patéticos. Procurem nas notícias da mídia e verão. A troco de nada algumas ruas da cidade maravilhosa viraram campo de batalha. E como não temos apenas a polícia mais violenta do mundo, mas uma das sociedades mais violentas do planeta, que ostenta o vergonhoso recorde mundial de homicídios, a cena até já parece meio que trivial, o que é escabroso. A cada repetição devemos nos indignar ainda mais. Ou será que também vamos protagonizar uma cena dessas na copa do mundo ou nas olimpíadas, escancarando pro mundo que há algo de podre no reino do Brasil?

            Para Gandhi, foi fundamental manter-se sempre contra qualquer ato de violência contra os violentos e genocidas colonizadores, por mais imoral e absurda que fosse a situação. Pois somente assim poderia ficar escancarado para qualquer um, grego ou troiano, o real e absoluto absurdo que estava acontecendo. Indianos totalmente pacíficos, homens, mulheres, crianças, sendo espancados e assassinados por militares colonizadores. Escancarado de tal forma que nem mesmo as artimanhas da centralizadíssima mídia da primeira metade do século XX pudesse deturpar, omitir ou esconder. Se eles tivessem a fibra necessária, ficaria claro pra todos ao redor do mundo que o imperador estava nú.

            Felizmente, na primeira metade do século XXI, a violência não é tão bárbara, nem a mídia tão centralizada. É urgente que se exponham as entranhas, as víceras podres e fedorentas de certos setores militares que andam na contramão do progresso. Palavra que também estampa a bandeira nacional. Pra isso, creio eu, humildemente, que a alternativa mais frutífera será a estratégia-Gandhi. Há de se deixar claro, pra todas as pessoas desse país, comunistas ou capitalitas, evangélicos, ateus ou judeus, pretos, brancos, ricos ou pobres, que não é por aí que queremos caminhar. E que infelizmente com frequência demasiada estão extrapolando os limites. E muito.

            Amplifiquemos a coragem que alguns já vem demonstrando nas ruas, se mantendo pacíficos frente a frente com policiais. Policiais que vem dirigindo pela contramão, armados para uma guerra brutal que obviamente não está acontecendo, como mostram as cameras presentes na mão do povo. Felizmente com a tecnologia atual a tarefa será muito menos árdua que na Índia colônia. Resta escancarar, além de qualquer dúvida, acima de qualquer suspeita, que há um setor de militares no Brasil que não entendeu, não gosta e não quer democracia.

            E é aí que um movimento específico como a Marcha da Maconha, que tanta polêmica atrai por causa da mal compreendida planta, se torna relevante para qualquer brasileiro. Porque a violência policial inaceitável está acontecendo em outras partes, independente deste tema (ainda que nesse seja mais frequente, dada a imensa carga de preconceitos vigentes). E então a Marcha da Maconha também é uma Marcha pela Paz. Além de ser marcha pelo objeto que lhe dá nome, é uma marcha pelo fim de um processo que mais danos causa do que aqueles que pretende solucionar. É uma marcha pelo fim de uma guerra.

            No filme sobre Gandhi, ainda no início de sua jornada, uma cena impactante: um pequeno grupo de trabalhadores explorados caminhando, desarmados. Na direção oposta, uma cavalaria armada pronta para o pior. A solução: todos os protestantes deitam-se no chão com as mãos na cabeça. Os cavalos, mais solidários e compassivos que os soldados, não pisoteiam ninguém. E os soldados, constrangidos pela possibilidade humilhante de espancar uma multidão deitada no chão, se retiram. A estratégia de não-violência do século passado está sendo utilizada com sucesso em movimentos Occupy deste século, da Puerta del Sol em Madrid ao Zuccotti Park em Nova Iorque.

            Creio que a marcha, a maconha e a democracia brasileira têm muito a ganhar se as pessoas se prepararem para expor o absurdo, ao invés de confrontá-lo com latinhas, garrafas, xingamentos ou slogans provocativos aos policiais. Porque por mais patética que seja a justificativa, por mais inaceitável que seja um policial violentar um cidadão desarmado porque essa pessoa “provocou”, ou porque estava com carro de som, ou porque interrompeu o tráfego, ou porque quer interromper o tráfico, somente escancarando o baixo nível e o desserviço que estas tropas de choque prestam à nação tiraremos das ruas esses grupos autoritários, coercitivos, violentos e brutais que tratam as ruas do Brasil como campo de guerra e seus cidadãos como saco de pancada. Infelizmente, para parte da nossa sociedade, ainda funcionam as armadilhas baseadas em preconceito disseminadas pela velha mídia, e assim alimentam-se as ações de uma polícia mais violenta e preconceituosa do que queremos e devemos ter.

            O mês prossegue, e seguindo ao dia 5 de maio, que contou com marchas da maconha também no Chile, Uruguai, Perú, Argentina, República Tcheca, entre tantos outros países, mais Marchas da Maconha virão Brasil afora. Dia 19 de maio, entre outras, na capital populacional, São Paulo, que ano passado também foi vítima de atuações absurdas de PMs mal preparados e por vezes mal intencionados. Espero que os protestos restantes por uma erva milenar, medicinal e recreativa menos danosa que o álcool sejam pacíficos e democráticos, como prega a constituição. Se a polícia fizer questão de abusar, que sejam expostos ao ridículo, pacificamente.

“Força não vem da capacidade física, mas de uma determinação indomável” Mahatma Gandhi

 

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O homem que plantava árvores

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Maconha, Saúde e a Lei

O ocorrido: em noite até então pacífica, dezenas de estudantes se revoltam contra uma dúzia de viaturas e dezenas de policiais. Briga, violência, abusos, prejuízos diversos (que seguem aumentando numa avalanche desproporcional…)

O local: A maior e (ainda tida como) melhor universidade do país, a USP.

O (suposto) problema: Uma planta de uso milenar, com propriedades médicas e científicas valiosas e adorada para uso recreativo por milhares há muitos e muitos anos.

A lei (11.343/2006) resumida: Não se pode plantar, nem vender nem distribuir. Mas consumo próprio não é crime com punição por detenção, pois não oferece danos a terceiros.

Um detalhe da legislação, como nos alertou o jurista Walter Maierovitch: “Não pode o universitário ser objeto de presunção de criminoso, pela mera condição de universitário de cursos superiores”

“O pensamento há de ser livre, sempre livre, permanentemente livre, essencialmente livre”

Apesar das palavras claras do ministro do STF, Celso de Mello, em junho, após a PM paulista brutalmente avançar sobre população pacífica que exercia seus direitos constitucionais de livre expressão de idéias na Av. Paulista, a maconha continua sendo o alvo principal de uma política equivocada, que há mais de 40 anos traz mais prejuízos do que soluções. Se não bastassem os trágicos resultados da Guerra às Drogas, já considerada por uma conferência recente nos EUA como uma empreitada “fora de controle” (Reform Conference) e pelo ex-presidente FHC e uma comissão pluralista e multidisciplinar (Drogas e Democracia) como um equívoco que deve ser revisto urgentemente, a política intolerante de proibição arbitrária de algumas drogas está emperrando também a ciência e o avanço da medicina. SIM, isso mesmo. A maconha tem inúmeros potenciais medicinais e terapêuticos, sendo um deles inclusive o uso recreativo, que tem em sua base uma busca, mesmo que inconsciente, de minimizar tensões e estresses do dia a dia, ocorrências tão frequentes nas cidades atuais. Mais ainda onde reina uma política equivocada que não consegue estabelecer diálogos entre os diversos setores da sociedade nem mesmo dentro da universidade (!), apelando à uma organização militar para mediar o que deveria ser um dos pilares centrais da educação de qualidade: o diálogo franco e não-violento. Aos que se preocupam com a violência e demandam mais segurança, incluindo PM dentro da USP, ja praticamente dentro de salas de aula, vale lembrar que nesse rumo estaremos abdicando do mais importante de todos os preceitos democráticos: a liberdade.

Aquilo que te protege, também te limita.

A questão é ainda mais grave porque a PM brasileira é uma das mais violentas do planeta, e está sob sérios problemas de corrupção, sendo inclusive suspeita de assassinato de uma juíza e ameaças de morte a um deputado que teve de fugir do país, ambos do RJ. Coisas do pior nível de tempos nada democráticos. De maneira indireta, combina com um reitor que não foi eleito pela comunidade que atualmente representa na Universidade de São Paulo. Enquanto a guerra as drogas sai totalmente fora de controle, a corrupção policial aumenta, e aqueles que, assustados e amedrontados com a escalada da violência demandam segurança através de maior e mais equipado policiamento, não percebem que os supostos protetores de hoje podem se tornar os grandes abusadores de amanhã. Como há muito profetizou Alan Moore: “Quem vigia os vigilantes?

No intuito de contribuir com o diálogo democrático, a educação, a ciência, a medicina e a paz; e não menos importantemente de repudiar a violência, Plantando Consciência convida para a exibição do documentário “Esperando para fumar: Maconha, Saúde e a Lei” no dia 17/11, quinta-feira, as 20h no Cineclube SocioAmbiental – Sala Crisantempo (R. Fidalga 521 Vl Madalena). A entrada é colaborativa (ou seja, é de graça, mas vc pode levar coisas que esteja disposto a doar). Após o filme, teremos uma CONVERSA com Henrique Carneiro, Prof de História na FFLCH da USP, Renato Filev, doutorando da UNIFESP que estuda o sistema endocanabinóide – o sistema fisiológico natural que todos temos dentro de nossos corpos (até mesmo os PMs), onde atua a famigerada cannabis – e Maurício Fiore, doutorando em Ciências Sociais na UNICAMP e pesquisador do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento); todos membros do NEIP – Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos.

O filme aborda principalmente a história da maconha nos EUA, os tempos antes de sua proibição, a questão médica outrora e agora e abusos policiais que também ocorrem em terras gringas. A narrativa servirá de base de dados e pano de fundo para uma discussão mais ampla e extremamente pertinente à sociedade brasileira. Divulgue, compareça, participe e contribua!

Temos também DVDs legendados em português a venda, com exclusividade. Interessados que não puderem comparecer na exibição, por favor entrar em contato pelo plantando@plantandoconsciencia.org

E como o debate e a informação são essenciais, já fica o convite para o lançamento do livro “O fim da Guerra: A maconha e a criação de um novo sistema para lidar com as drogas“, de Denis Russo Burgierman. Na Livraria da Vila (R. Fradique Coutinho 915) no dia 28/11 as 19 horas

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Liberdade

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A cidade tá tá tá tá tá…

Botaram Tanta Fumaça

Tom Zé

Botaram tanto lixo,
botaram tanta fumaça,
Botaram tanto lixo
por baixo da consciência da cidade,
que a cidade
tá, tá tá tá tá
com a consciência podre,
com a consciência podre…

http://www.marchadaliberdade.org/

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Os perigos de uma única história

O oriente médio segue em protestos pela liberdade e democracia, pelo fim de uma sociedade militarizada e controlada por interesses econômicos e políticos de uma quase-ditadura distante, que vem disfaraçada de democracia há décadas. E assustadoramente nem mesmo o que ocorre por lá sabe-se direito, porque a pressão pela manutenção brutal dos regimes ainda em vigor impede até mesmo a comunicação humana. Internet desligada, celulares sem serviço e afins nos fazem lembrar o que há de pior na distopia orwelliana “1984”. Os perigos disto vão muito além da falta de notícias que enviesam a política no curto prazo.

Chimamanda Adichie, mulher, negra e nigeriana tem uma comovente história pra contar, revelando os verdadeiros perigos por trás da história única imposta pela hegemonia globalizante atual, que instala uma série de preconceitos culturais, raciais e de gênero, afastando seres humanos e criando distinções artificiais que podem fomentar, adubar e regar preconceitos mútuos entre povos por séculos.

Imperdível, legendas em diversas línguas abaixo do vídeo

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.


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