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Bicicletas de Gotham City

Há quase vinte anos mudamos da Vila Madalena para um sobrado que dá de frente para uma pracinha. As bicicletas dos três irmãos foram junto, e naquele bairro tranquilo e plano, nos divertimos tardes sem fim andando de bicicleta por todo lado. O tempo passou, e nem lembro o que foi feito das bicicletas. Sei que passaram-se quase 15 anos até que eu subisse numa bicicleta novamente.

Dois anos atrás fui participar do meu primeiro congresso internacional de neurociências. O dito cujo ia ter lugar no velho mundo, em Amsterdam. Aí veio aquele frio na barriga: vou ter que andar de bicicleta! Será que eu ainda sei? Um amigo querido foi comigo fazer a prova: alugamos duas bikes no Parque Villa Lobos e fomos dar uma volta, em pleno domingo de sol em nossa cidade tão escassa de lazer a céu aberto. Parque cheio, com “gangues” de adolescentes ultrapassando todo mundo, velhinhas em triciclos, famílias, casais, em suma, todo tipo de gente. A frase que mais se ouvia na ocasião era: “Minino, olha pra frente!”. Sobrevivi. Com uma convicção: uma vez que se aprende a andar de bicicleta, nunca mais se esquece! Tá bom, é chavão, mas também é verdade, pô!

Confiando na minha aprendizagem motora, agora conferida, embarquei pra cidade modelo de inclusão das bikes no trânsito. Não foi sempre assim, como mostra o documentário.

Amsterdam também passou pelo deslumbramento do automóvel. Prédios foram derrubados para alargar avenidas, o crédito era fácil para adquirir a liberdade de ir e vir e… as pessoas começaram a morrer atropeladas! Pois é um imperativo: se há automóvel, há atropelamentos. Somado à crise do pós-guerra, a população foi às ruas e clamou por garantias à vida nas ruas. Deu no que deu: Amsterdam tem hoje a maior malha viária para tráfego exclusivo de bicicletas e motos. São mais de 400km de ciclovias utilizadas por 600.000 bicicletas. Mas vale perguntar, quantos habitantes têm Amsterdam? Pois bem, são em torno de 750.000. Virtualmente TODOS na cidade usam bicicletas. Inclusive eu, quando estive por lá. E é uma sensação incrível!

Aluguei uma bicicleta por uma semana, em uma lojinha no centro. Comentei com o cara que me atendeu que fazia um tempo que eu não andava de bicicleta e que estava com medo. Ele me orientou a sair da muvuca por umas vielas escondidinhas e meia hora depois eu estava amarrando a minha bicicleta na frente do congresso. Conheci a cidade toda assim. Seus incontáveis parques e canais, museus bacanas… Uma delícia. E uma diversão à parte, ver os usos e usuários das bicicletas por lá. Um velhinho que, quando desceu da sua bike sacou a bengala pra andar, o pai com um nenê na frente e outro maiorzinho atrás, carregando não só as crianças, mas também as compras no guidão, a executiva de tailleur e salto agulha, o fulano com o cachorro na cestinha…

Voltei para São Paulo, caridosamente apelidada aqui em casa de Gotham City, triste que só. Além dos roxos e da possível costela quebrada de um belo tombo que eu levei por lá, me parecia simplesmente impossível andar de bicicleta por aqui. Se não impossível, muito provavelmente mortal. As estatísticas não mentem: são 9 ciclistas internados diariamente na metrópole vítimas de acidentes de trânsito. É grave. E assim, conformada com a minha situação de ciclista cabaça, praticamente desisti da magrela. Andei mais meia dúzia de vezes, nesse esquema pega o carro e leva a bike até o parque. Ô coisa mais paulistana! Pega o carro pra tudo! E fila também! Sim, porque nossos míseros parques ficam abarrotados aos finais de semana. Somos 20 milhões em uma cidade que só tem lugar pra… carros!

Pois, domingo passado, tudo foi diferente. Eu e meu namorado nos juntamos a uma Massa Crítica, ou, como dizem por aqui: uma bicicletada. Nesses eventos, dezenas de ciclistas se unem para dar uma volta pela cidade, com o objetivo de conscientizar a população sobre a viabilidade da bicicleta como meio de transporte urbano, além de tentar cada vez mais conquistar o espaço que lhe é de direito nas vias públicas. A experiência é incrível! Acho que a sensação que mais define o sentimento geral do passeio é a de “estar” na rua. Quase um Occupy Street. O carro é uma extensão do espaço privativo do indivíduo, quando estamos parados, no trânsito, dentro do nosso carro, é quase como estar no sofá de casa, só que sem o pijama. Não nos envolvemos com nada do que está lá “fora”. Subimos o vidro, ligamos o ar condicionado e colocamos um filme preto nas janelas, criando uma carcaça isolante que, no fim, nos isola da coisa mais preciosa que temos, nossa humanidade.

Os budistas dizem que o homem é um bicho especial porque anda com o ventre exposto. Isso certamente nos deixa mais frágeis a ataques, mas também nos deixa mais abertos e disponíveis para a interação. Domingo, pedalando nas ruas de Gotham City, despida da malha de aço, me senti em comunhão com a cidade. O medo cedeu lugar à liberdade. A fragilidade da bicicleta foi suplantada pelo apoio do grupo. E eu finalmente entendi do que Raul estava falando quando cantou:

Sonho que se sonha só,

É só um sonho que se sonha só…

Mas sonho que se sonha junto,

É realidade.

Obrigado aos organizadores da Massa Crítica da Praça do Omaguás, por promoverem a conscientização do uso da bicicleta na cidade de São Paulo. Vocês, juntos, fazem o sonho de uma São Paulo um pouco mais humana se tornar realidade.

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Festival de idéias

Está rolando o festival de idéias. A idéia (das idéias) é simples:

1– Inscreva uma idéia

2– Trabalhe em rede

3– As 3 finalistas levarão R$ 10 mil cada

Plantamos 3 sementinhas por lá. Porque:

1gostamos de pedalar;

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2não gostamos de pisar na merda, mas gostamos de árvores;

 

 

 

 

 

 

 

 

3gostamos de caminhar;

 

 

 

 

 

 

É tudo colaborativo, do jeito que acreditamos que deve ser. Quer ajudar? Vai lá, regue, adube, composte, faça sua poda e ajude a divulgar!

Até dia 09/09 hein?!

saudações

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A caminho da verdadeira sustentabilidade

“Sustainability: Development that meets the needs of the present without compromising the ability of future generations to meet their own needs”

“Sustentabilidade: Desenvolvimento que supre as necessidades do presente sem comprometer a habilidade de gerações futuras de suprir suas próprias necessidades”

ONU, 1987

 

A eleição presidencial no Brasil mostrou que o ambientalismo está forte como nunca. Em uma política nacionalmente polarizada entre dois partidos (PT e PSDB) há anos, em 2010 os quase 20 milhões de votos no Partido Verde, outrora um partido-nanico, marcaram a história ao mostrar que o brasileiro hoje leva muito a sério a questão ambiental e ecológica.

Mas sustentabilidade vai muito além de políticas públicas sobre petróleo, combustíveis limpos e energias renováveis ou até mesmo desmatamento florestal etc etc. Ela ultrapassa os limites do chamado ambientalismo e passa pela casa de cada um de nós, onde cada indíviduo, comunidade, bairro e município pode fazer a diferença. Uma mudança de estilo de vida está em rumo, e atinge desde o que (e quanto) comemos e compramos até qual lâmpada você coloca na sua casa e como vc descarta tudo isso quando lhe parece que não tem mais utilidade.

Nesse sentido diversas alternativas interessantes aparecem por aí, mais ou menos criativas e que demandam empenho variado do indivíduo. A ONG Made In Forest está montando uma base de dados de pontos de coleta seletiva de diversos materiais em todo o país, enquanto a empresa TetraPak fornece o site rota da reciclagem e o governo executa a coleta seletiva solidária. A reciclagem poderia então ser muito simples no dia a dia de cada um se houvesse interação local entre as pessoas de cada edifício, condomínio, cooperativas, ruas, bairros e prefeituras, mas a coisa pode ir se complicando quando esta cadeia é rompida em qualquer um dos pontos. Em São Paulo, por exemplo, apesar de diversas iniciativas locais de reciclagem em condomínios e bairros, a prefeitura parece estar ainda no século passado, não demonstrando qualquer interesse em utilizar recursos financeiros de quase 6 bilhões que foram disponibilizados pelo governo federal para alavancar 10 cooperativas da megalópole (segundo matéria de Lúcia Rodrigues na Caros Amigos). A medida certamente ajudaria a resolver uma questão seríssima para um monstro de cerca de 15 milhões de habitantes que atualmente joga suas 12 mil toneladas diárias de lixo em municípios vizinhos mais pobres (Caieiras e Guarulhos) a um custo mensal de R$ 6,6 milhões (veja aqui !!!).

Nos municípios que recebem este lixo em troca de dinheiro falta a reflexão séria de que tipo de negócio estão praticando, trocando uma recompensa financeira imediatista em troca de um futuro com solo e água contaminados. Em escala planetária, este fenômeno se repete no tráfico internacional de lixo. Se parece absurdo países levarem seu lixo ao exterior de maneira clandestina, é mais ou menos o que faz cada cidadão diariamente, mas de acordo com a legislação: o que eu não quero aqui, jogo em outro lugar, sempre mais pobre que a origem.

Isso revela que a mesma questão se manifesta em várias escalas, e portanto devemos pensar em soluções abrangentes. Mudanças legislativas e políticas podem parecer ser a solução adequada, mas daí vem a pergunta: Por que uma prefeitura não faria ações de coleta seletiva?

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A cultura do carro

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ônibus 123

A imagem de muitos brasileiros sobre o ônibus é daquele monstrão barulhento, poluente, lento e lotado. Filas pra entrar, aperto lá dentro, empurra-empurra pra sair. Alguns ainda mantém a visão elitista de “transporte de pobre”, e não passa por muitas cabeças a possibilidade de entrar num desses. Em outros países, o coletivo – como é espertamente chamado na Argentina – é visto como uma solução decente ao ir e vir de cidadãos, principalmente em grandes cidades com problemas de superpopulação, trânsito e poluição. Nestas, o busão tem preço mais justo do que encontramos no Brasil, tabela de horários cumpridos pontualmente, ar condicionado etc.

Esta distinção entre transporte público vs privado, mais do que uma questão de gosto e decisão política, é também uma questão social importante. Em três casos recentes, o ônibus esteve no centro de questões de grande relevância pra sociedade atual, seja aqui no Brasil ou lá fora, e que pouco tem a ver com o transporte per se

Ônibus 1 – Ateu
Começou em Londres e causou espanto e sucesso ao mesmo tempo. Foi pra Barcelona, proibiram na Itália e agora tenta chegar ao Brasil. Trata-se da campanha pró-ateísmo em ônibus. Em Londres circulavam com a frase “Deus provavelmente não existe. Agora pare de se preocupar e viva sua vida”. Tem gente que se recusou a usar o busão só por causa da frase pintada do lado de fora, o que revela quanto preconceito existe com o ateísmo. Muitos têm vergonha de admitir que são ateus, como se não acreditar em Deus, ou talvez mais importante, não ter religião, fosse extremamente vergonhoso. É justamente esse o intuito da campanha. Não é para “desconverter” ninguém de religião alguma, como se argumenta em blogs por aí, mas para trazer à tona o fato, muitas vezes escondido, de que há milhões de ateus no mundo e que ateísmo não é sinônimo de infelicidade ou imoralidade. No Brasil estão sendo arrecadados fundos para colocar a idéia nas ruas de São Paulo, e o doador pode escolher a frase que prefere dentre algumas opções fornecidas.

Ônibus 2 – Pessoas legais usam drogas
Também em Londres, com seus famosos busos vermelhos, rolou esta outra campanha de impacto social imenso. Onibus circulando com a frase “Pessoas legais usam drogas”. Aqui o intuito não é de apologia às drogas (como certamente seria alegado no Brasil, vide as repetidas proibições à marcha da maconha), mas de desfazer o mito do usuário de drogas como escória da sociedade, a ovelha negra corrupta e violenta que deve ser presa e isolada, sujeita as maiores penas. Pessoas bacanas usam drogas, e se você não usa, com certeza conhece e gosta de pessoas que usam, sejam lícitas ou ilícitas.


Ônibus 3 – Movido a Hidrogênio
Voltando a terrenos menos pantanosos, já circulam em fase de testes os primeiros ônibus brasileiros movidos a hidrogênio. A novidade usa como combustível o hidrogênio, o elemento químico mais abundante do planeta, e libera apenas vapor de água. A pergunta que resta é: Quanto tempo vai levar pra vê-los na rua? Se for o mesmo tempo que está levando para termos carros elétricos será deprimente.

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